Teoria dos ciclos röpkeana/ordoliberal – uma atualização.

Arthur Rizzi* – Texto originalmente postado no Grupo de Estudos Perillo Gomes – GEPG**

A teoria ordoliberal também é conhecida como teoria röpkeana, assim a nomeou, pelo menos, o professor Marcelo Resico da Universidade Católica Argentina em seu livro: “La estructura de una economia humana: reflexiones en cuanto a la actualidade de Wilhelm Röpke“, publicado em 2009 pela editora da UCA. Ela se constitui em um meio termo entre a teoria austríaca e a teoria keynesiana e é muito interessante, como notou o professor de economia espanhol Adrián Ravier. Farei uma abordagem dela, tentando dialogar com elementos da macroeconomia e microeconomia mais contemporânea, para efeito pedagógico.

A teoria de Röpke, assim como a austríaca, começa com a expansão do crédito (só que não necessariamente por meios artificiais [1]). Quando a taxa de juros cai, as empresas contraem empéstimos, que decidem investir em bens de capital. A inovação tecnológica faz com que tecnicas mais eficientes de produção resultem em grandes lucros, que serão investidos (microeconomia – supply side) na produção e, em menor escala, em salários/contratação de pessoal. Assim, os salários sobem em proporção inferior à produção de bens de consumo, o que resulta numa superprodução. Daqui chegamos ao conceito de propensão marginal a consumir (PMgC) que será detalhado ao final.

Aqui a crise se arma por dois lados, o da queda dos preços para ajustar-se a demanda global, e o crescimento dos juros. A medida em que as empresas tomam recursos emprestados, o pool de poupança cai e o crédito seca. A questão agora é de timing, o tempo em que o juro demora a chegar topo, é proporcional ao tempo em que ele demorará a cair e retornara patamares favoráveis. Isto é, o crescimento do consumo motivado pela queda dos preços, embora não seja equivalente a toda a renda, forma uma pequena poupança que ajuda a empurrar o juro para cima no momento em que ele deveria estar caindo, esse empurrãozinho é limitado, mas forte o bastante para atrasar a queda da taxa de juros [2].

Em outras palavras, quando o juro está subindo, ele sobe lentamente, o que faz com que a expectativa de lucro futuro caia devagar, o que a depender do grau de confiabilidade e otimismo na economia (conferir as similaridades com a HIF de Minsky pode ser útil), pode motivar que os empresários continuem a produzir; e quando ele atinge o topo tornando o investimento prejudicial, ele demora a cair, fazendo com que o estoque de capital criado a mais seja muito maior que sua demanda, despencando os preços muito abaixo dos custos. Eis a crise secundária.

Esse processo é o processo de encarecimento do custo do capital e da redução da expectativa de lucros futuros (ver teoria keynesiana da EMgC), a queda dos preços para ajustar-se a demanda ajuda a empurrar a expectativa de lucro futuro (EMgC) para uma situação desfavorável ao investimento. – Até aqui é o que Röpke chama de crise primária, em que basta um ajuste microeconômico para resolver o problema; diminuindo investimentos e aumentando salários ou contratando pessoal, aumentando assim o consumo e reduzindo a produção, sustentando os preços no alto. Porém, se a crise for ignorada ou a diferença do timing de acenso e queda do juro não for percebida e remediada, a situação pode piorar.

A crise primária dura até a estagnação do investimento e da contratação de trabalhadores; e ações macroeconômicas neste momento são prejudiciais. Após isso, começa a crise secundária, que levará problemas generalizados e ao crescimento do desemprego. O resultado é o aumento do desemprego. Com o aumento do desemprego, se cai o consumo e a crise se aprofunda. Pois os custos de se produzir são muito altos e os preços muito baixos para forçar a saída do estoque preso. Neste caso, a intervenção do Estado é bem vinda [3].

Röpke (apud Resico, 2009, p.148) diz:

“La única forma adecuada de caracterizar la deflación secundaria es apuntar a la contracción de la demanda total, especialmente como se expresa por la contracción del crédito monetario… Esta contracción de la demanda total –que se produce detrás de la cortina de un volumen constante de moneda– es el hecho esencial, el motor primero de a depresión secundaria. Está estrechamente conectado con la contracción de los ingresos y, también, aunque no tan estrechamente, con la contracción de costos, y termian en la contracción general de la producción que, a su vez, reacciona contrayendo la demanda y los ingresos. Este mecanismo de la depresión secundaria opera a través de un doble rezago que es autosostenido en la medida en que el círculo vicioso de la depresión permanece intacto: primeramente la contracción de la producción tiende a rezagarse dertás de la caída de precios la cual significa una caída de los ingresos y de la demanda, y en segundo lugar, la contracción de costos tiende asimismo a rezagarse detrás de la caída de los precios.”

Prossegue então Röpke com o ponto de distinção entre crise primária e secundária:

“En el primer caso, e la desproporción entre la oferta y la demanda, y en el segundo se trata de la desproporción entre costos y precios, es decir, la falta de rentabilidad, que tiende a mantenerse de manera continua.”

Para Röpke, a lei de Say existe, mas não é uma lei que funciona em todos os casos, para que a lei de Say opere, Röpke diz que deve haver um enquadramento jurídico que estimule as empresas a fazerem os ajustes microeconômicos apropriado, assim, a Lei de Say opera formidavelmente. Se esses mecanismos jurídicos não existem, o funcionamento da mesma vai depender da incerteza e da irracionalidade parcial dos agentes econômicos, podendo funcionar num momento e não funcionar em outros posterios, pressupondo-se assim, é claro, a continuidade do ciclo.

Resico (2009, pg.149) diz:

“La siguiente cuestión que encara el autor es la de la diferencia conceptual y temporal entre la ‘depresión primaria’ y la ‘depresión secundaria’. En este sentido descarta la cuestión de los precios, si bien toda ‘depresión secundaria’ está asociada a un proceso continuo de caída de los precios, o sea un proceso deflacionario, esta no es la cuestión crucial. Para Röpke la ‘depresión secundaria’ comienza cuando la primaria ha terminado, y este hecho lo señala en forma definitoria el fenómeno de que los niveles de desempleo se hacen significativamente altos.

Com o aumento do desemprego, como dissemos acima, ocorre o enxugamento (queda) do consumo, reduzindo a demanda total da economia.

Para estas situações expostas na crise secundária, Röpke aponta soluções tipicamente keynesianas, como pontua Ravier (s.d; p.3)

Röpke distinguía claramente la depresión primaria de la depresión secundaria. La primera es aquella depresión normal, que surge en todo ciclo económico y que es necesaria para liquidar la sobre inversión generada en la etapa del auge. Ante esta situación Röpke se podría denominar como un “liquidacionista”, en el sentido que no propone aplicar políticas para paliar tal situación. La segunda es aquella depresión que va un poco más allá de la necesaria liquidación de los comentados errores de inversión. Se trata de una depresión que se retroalimenta por sí misma, y que lleva consigo una destrucción de capital innecesaria, y que es imperioso detener. Ante esta situación es que Röpke sugiere aplicar políticas expansionistas, tanto monetarias como fiscales, como hoy sugieren los keynesianos. Explica Röpke que la expansión monetaria puede no tener la fuerza suficiente para detener la depresión secundaria, y por ello, debe ir acompañada de políticas fiscales que aseguren que habrá una mayor demanda de los créditos que la política de dinero fácil introduzca en el mercado.

A propensão marginal a consumir nos mostra que parte do que é ganho na forma de salário pelo trabalhador não é consumido e converte-se em poupança, essa poupança a princípio parece compensar a queda do pool de poupança no período de crescimento, mas isto é apenas aparente. Tudo que o empresário toma emprestado ele vai aplicar ou no capital ou em salários, seja em aumentos, seja em contratação de mão-de-obra, portanto, apenas uma parte do valor que se toma emprestado cira salários e, ainda, apenas uma parte dos salários vira consumo, o que resulta em que apenas uma parte do que foi originalmente tomado emprestado junto aos bancos retorna a eless. Portanto, a saída de recursos dos bancos na bonança é superior a entrada de recursos, porém, se essa entrada de valores não ajuda a manter os juros baixos, ao menos atrasa a subida dos juros, e consequentemente, atrasa a queda dos mesmos. A resiliência que a taxa de juros apresenta a cair pode ser curta o suficiente para não causar problemas, mas pode ser longa o bastante diante do que Keynes nomeou incerteza para permitir a transição da crise primária para a secundária, da forma que Prebisch colocou em seu livro.

[1] O professor Röpke em Crises and cycles dá a entender que as reservas fracionárias podem perfeitamente criar o ciclo e que elas independem de bancos centrais. Marcelo Resico enfatiza também na p.143 de seu livro, que o crédito não precisa ser forçado pelo BC para que o fenômeno ocorra.

[2] A velocidade em que a taxa de juro sobe e desce dependerá da propensão marginal a poupar (PmgP). Quanto maior for, mais lentamente subirá e mais lentamente cairá, e quão menor for, mais rapidamente subirá e mais rapidamente cairá. Se subir rápido o bastante para que não haja um processo de contínua sobre-capitalização, o processo liquidacionista do excesso até então produzido opera magistralmente e a crise primária se encerra com um novo período de prosperidade (boom), se porém, for muito devagar, o processo de sobre-capitalização continuará até que o custo de oportunidade já amplamente desfavorável se torne ainda mais desfavorável com expectativas de lucro negativas e muito abaixo dos custos de produção, inaugurando a crise secundária.

[3] Se levarmos em consideração o exposto na nota número 2 (acima), entendemos porque Resico aponta que Röpke apoia política monetária como política anticíclica de emergência no caso da crise primária (se a percepção do juro lento for feita num momento tardio), e política fiscal na crise secundária. Fiscal, porque a queda do juro e o impulsionamento ao consumo, ajudaria o processo liquidacionista, e evitaria a passagem para  a crise secundária. Só que tal medida só seria tomada se a crise desse sinais fortes de que iria imbricar para uma crise secundária, por isso emergencial.

Referências.

RESICO, Marcelo. La estructura de una economia humana: reflexiones en cuanto a la actualidade de Wilhelm Röpke“. Buenos Aires: UCA, 2009.

RAVIER, Adrián. Comentario al trabajo de Marcelo F. Resico:“La Teoría del Ciclo Económico de W. Röpke”. Madrid: Universidad Rey Juan Carlos de Madrid, s.d.

PREBISCH, Raúl. Keynes, uma introdução. Brasília: Editora Brasiliense, 1991.

*Arthur Rizzi é colaborador oficial, graduado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), sua monografia tratou da história econômica da Alemanha Ocidental (1949-1966); e é formado em Pedagogia pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo

**Atualizado dia 15/09/2018 às 22:55

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3 respostas em “Teoria dos ciclos röpkeana/ordoliberal – uma atualização.

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