A esquerda pós-moderna pariu Bolsonaro, quer ela goste ou não.

Pedro Ribeiro*

Último dia 30 eu fui ao Parque Lage, com família e amigos, comemorar o aniversário da patroa.

Logo que chegamos, procuramos um banheiro, pois Teresa precisava trocar fralda. Foi então que notei um pequeno aglomerado de pessoas, numa espécie de polêmica, de debate. O motivo: recentemente, o Parque Lage assumiu, com anúncio de placa e tudo, a “autoidentificação de gênero” como critério para entrada em sanitários. Em outras palavras, se o sujeito é biologicamente homem, mas se sente e se identifica como mulher, ele pode entrar no banheiro feminino. Se uma pessoa é biologicamente mulher, mas se sente e se identifica como homem, então ela pode entrar no banheiro masculino.

Naturalmente, vocês podem imaginar a confusão que a coisa deu. De fato, para além dos problemas enormes e incorrigíveis da própria teoria de gênero [essa doutrina absurda, anti-natural e insana, cuja loucura o senso comum percebe tão bem], o que mais incomodava as pessoas eram questões bem práticas, bem imediatas: o que impedirá um sujeito de se autoidentificar como mulher para entrar no banheiro e ficar espiando as moças trocando de roupa? Que privacidade as mulheres, obviamente mais frágeis perante abusadores e tarados de todo tipo, ainda terão para fazer uso dos sanitários? Que violência profunda há em simplesmente usar o banheiro do seu sexo biológico [uma coisa que dura o quê: dois, dez minutos?], mesmo que você não se identifique pessoalmente com ele? E se essa coisa é tão essencialmente importante – perguntou um – por que então não criar simplesmente um terceiro banheiro, de “gênero neutro”, ao invés de expor mulheres, meninas e crianças, a uma situação tão constrangedora?

No meio da discussão, em que todos concordavam com o mínimo bom senso, um funcionário comentou dos problemas e desentendimentos que a mudança já trouxe [mulher se sentindo olhada por homem, etc.], e explicou como, desde então, orienta todas as mulheres, sem exceção, a nunca mais trocarem de roupa no banheiro [vejam que beleza: num parque…]. Foi então que alguém disse: “É, mas isso só dura até esse ano, no fim do ano essa loucura de ideologia de gênero acaba”. O “fim do ano”, obviamente, era uma referência à provável eleição de Bolsonaro e sua posse em primeiro de janeiro de 2019.

Pois bem: é aqui, neste ponto, que mais uma vez eu gostaria de fazer a mesmíssima reflexão que já fiz por aqui e em outros lugares [na Dicta, na Gazeta do Povo] tantas e tantas vezes.

Reparem bem na frase daquele cara e reparem bem nos incômodos dessas pessoas. “No fim do ano isso acaba”. Reparem, meditem bem sobre isso. Vocês entendem o que está acontecendo aqui? Atenção: não eram ricaços que falavam ali, não era nenhuma “extrema-direita fascista” aos moldes da caricatura que tanto se faz. Ao contrário, eram populares, era gente comum, com preocupações comuns, que simplesmente não quer se ver constrangida no banheiro. E é essa gente, é essa gente que, por um somatório de muitos e muitos motivos simples como esse, vai votar em Bolsonaro.

São trabalhadores. Gente que, via de regra, abomina o governo Temer, sente ódio da reforma trabalhista e de uma injusta reforma da previdência que se avizinha. Gente que quer um Estado voltado pro social, com amplos serviços públicos. Mas gente também que não aguenta mais, que não suporta mais ver pautas identitárias absolutamente descoladas da realidade se tornarem o centro e o sentido do discurso de esquerda hoje.

É por dar mais importância a banheiros moldados pela identidade de gênero do que à reforma do sistema bancário que a esquerda não consegue mais falar com essas pessoas. É por estar mais preocupada com o Queermuseum do que em elaborar um projeto nacional de reindustrialização que a esquerda virou o escárnio dessas pessoas. É por sentir orgasmos em humilhar e agredir tudo o que soe tradicional ou conservador que a esquerda brasileira está prestes a eleger Bolsonaro, o filho bastardo que ela mesma criou.

Não adianta dizer #elenão, meu chapa, se o seu discurso é narcisista e em bolha, hiperpreocupado com as sub-ínfimas-questões dos grupos mais específicos e singulares, mas indiferente aos dramas concretos de milhões de pessoas que enfrentam os brutais problemas da criminalidade e do desemprego, e que, sim, são conservadoras, como, aliás, sempre serão.

Eu não aguento mais escrever e pensar sobre isso, mas como se sabe, todo homem apaixonado tende a ser monotemático, e a política é uma paixão pra mim – é minha matéria de estudo, de reflexão, de trabalho até. Para mim, que me identifico tanto, mas tanto com as causas e as conquistas do trabalhismo e da centro-esquerda histórica, este cenário é uma desolação, é um desespero. E por isso grito, e por isso clamo, quase que certamente em vão, como um João Batista no deserto, esperando talvez por uma esquerda que renasça, que se refaça, que se se reoriente.

Bem ao contrário, porém, o que se anuncia para a esquerda, não só no Brasil, mas em todo o mundo [como tentei mostrar em meu artigo sobre o renascimento do nacionalismo europeu] é o fim. E isto não por um capricho, mas por uma inexorável lei histórica: o propósito e o destino verdadeiramente bom estabelecido pela Providência para o pensamento e a política de esquerda foi a defesa dos pobres e dos seus interesses, diante da ascensão de um sistema econômico simultaneamente formidável e desumano, o capitalismo liberal.

O sentido e a razão de ser da esquerda autêntica, eu repito, está na sua fidelidade aos pequenos e maltratados [com os quais eu não apenas me solidarizo em abstrato, mas me identifico verdadeiramente, conservador com eles que sou]. “É preciso não apenas amar o povo, mas viver com o povo”, ensinava Maritain. Renegar pois, os pobres, afastar-se deles e desprezar seus valores com esnobismo, não é para a esquerda uma opção, senão no sentido em que o é o suicídio.

O que vemos hoje é uma esquerda visceralmente desenraizada da classe trabalhadora, desenraizada de sua única e legítima fonte de ser. Que se dane, pois. Uma esquerda assim não merece nada senão a morte.

Tome o Bolsonaro, esquerda pós-moderna, pois o filho é seu.

*Pedro Ribeiro é articulista da página, maritainista, bacharel e mestrando em filosofia pela UERJ.

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