A democracia cristã

O texto abaixo foi extraído do blog português "golpe de Estado" e repostado em GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes e aqui.

Alguns liberais, não todos, gostam de pintar a Democracia Cristã (DC) como um socialismo light… Não percebo porquê, mas talvez seja por alguns acharem que o liberalismo é a única inspiração possível para a direita democrática. Esta crença é facilmente desmistificada tomando, como exemplo, o caso alemão, sueco ou holandês (para não alongar muito a lista).

Achar que a DC se limita às encíclicas “Populorum Progressio” e “Rerum Novarum” é bastante redutor. Assim como é redutor achar-se que se tem de ser crente para se ser democrata-cristão. Não existe incoerência nenhuma. A DC aplica o princípio da tolerância ao Estado laico e algumas correntes inclusive o defendem. Logo, não se vislumbra qualquer obrigatoriedade de se ser crente para se ser democrata-cristão. Alguém que acredite nos 10 mandamentos terá que, obrigatoriamente, ser crente no deus dos judeus e cristãos?

Quando se fala de socialismo e democracia-cristã, comparando as duas, é impossível não apontar que desde o início o socialismo foi anti-capitalista (agora não o será, nomeadamente o intitulado de “socialismo democrático” ou “social-democracia”), equanto que a democracia-cristã nunca o foi.

A DC tem, isso sim, uma visão reformuladora do capitalismo, mas isso não é ser contra, tão somente é ser construtivo. É ser a favor de um aperfeiçoamento, de uma evolução que, na visão democrata-cristã, passa por uma consciencialização de imperativos éticos cristãos aplicados à vida e aos negócios. O liberalismo moderno assenta, em grande parte, no Objectivismo de Ayn Rand que, de certa forma, colidem com alguns pressupostos éticos cristãos.

O problema ético do Objectivismo de Rand assenta no facto de esta ignorar completamente a nobreza ética que constitui a acção de um homem que vise o bem comum dos seus pares e não apenas o seu bem individual. Limita-se a chamar-lhe “altruísmo”, classifica-a como “fraqueza”. A DC não partilha dessa visão. Acredita num Homem que tenha consciências sociais. O Homem não cria apenas para o seu benefício. Cria também em benefício dos outros, exemplos não faltam durante a História. O Objectivismo de Rand, sendo uma inspiração interessante no que toca a produtividade das sociedades, ignora esse facto.

Rand ridiculariza toda a acção “altruísta” por achar que este tipo de acção é contra-natura, é contra o próprio interesse individual. Critica a sociedade que valoriza actos altruístas, intitula-os de uma barbárie de sacrifício individual. Rand acha que o Homem tem de funcionar sozinho, com a sua mente como única arma e funcionando num sistema de troca justa. Pois acontece que, infelizmente, existem pessoas que nada têm para oferecer para poderem receber algo em troca.

Defender um Estado como pessoa de bem que ajude a aliviar a pobreza não é ser-se socialista. A DC não o é e defende-o pelo menos. O importante é perceber que existe uma diferença entre um altruísmo para “ajudar a levantar” e um altruísmo que cria dependência e sustenta a pobreza.  A DC vê a compaixão como um bem, mas em Rand não existe o enaltecimento da compaixão, existe o enaltecer do “egoísmo” e por isso, pelos parâmetros democratas-cristãos, existe essa falha moral/ética.

“Altruism permits no concept of a self-respecting, self-supporting man—a man who supports his own life by his own effort and neither sacrifices himself nor others … it permits no concept of benevolent co-existence among men … it permits no concept of justice”– Aynd Rand, “Virtue of Selfishness”

Talvez a grande problemática é que Rand e os Objectivistas decidem dar às palavras “egoísmo” e “altruísmo” um significado mais produndo de filosofia de vida. Todos nós somos egoístas em algumas coisas e altruístas noutras. Por isso, não se vê grande interesse (para além de meramente académico) em estar a dar novas definições a essas palavras.

A grande questão, que é mais “palpável” a nível político, é a do papel do Estado. Se o Socialismo acredita na pureza do Estado omnipresente, o Liberalismo acredita na pureza do indivíduo e, em teses mais radicais, no fim do Estado. A história já provou que a Sociedade sofre quer com o Estado sufucante e dominador, quer com o Estado não regulador que acredita cegamente na ética de cada indivíduo. Por isso a Democracia-Cristã acredita no meio termo.

Acreditar que só o Estado sabe gerir é utopia. Acreditar que os indivíduos, sozinhos e sem regras, gerem bem, é outra utopia. Aqueles liberais que se recusam a admitir as falências e as falhas dos modelos económicos extremamente liberais de alguns países e continuam a advogar, dogmaticamente, a pureza do mercado livre e desregulado, assemelham-se aos Comunistas que também recusaram (e ainda recusam) perceber a falência do modelo que preconizavam.

Algumas coisas não são preto ou branco, têm intermédios e o centro-direita é um espaço grande que aguenta bem com convivências, saudáveis até, entre democratas-cristãos e liberais (que resultam bem noutros países) que, visto bem as coisas, inspiram-se e “controlam-se” positivamente. O Homem não é bom por natureza. A Democracia não é perfeita.

A esperança reside em que haja um Estado de Bem, composto, logicamente, por Homens de Bem, que equilibre a balança entre altruísmo e egoísmo sem interpretações utópicas e dogmáticas de socialismos e liberalismos.

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Chesterton, Say e crises

Este artigo foi originalmente postado em GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes e está sendo reblogado aqui na Reação Nacional.

A correção e ajuda na saída de crises econômicas é uma das ações do governo que podem melhor ser executadas através de um aparato estatal. Para os liberais e libertários toda e qualquer crise é obra única e exclusivamente do Estado, muitos chegam mesmo ao cúmulo de dizer que sem a existência de Estado as crises jamais existiriam. Então cabe a este texto demonstrar como naturalmente as crises econômicas podem acontecer sem qualquer interferência governamental (lembrando sempre que embora Estado e governo sejam coisas distintas, na realidade ambas se manifestam em conjunto).

Segundo os clássicos, neoclássicos e austríacos não pode existir a crise de superprodução, pois existe uma igualdade no que é produzido e consumido. Isto é, a oferta ao remunerar um trabalhador ajuda a criar ou a manter seu próprio mercado, então, o consumo e a demanda deste mesmo empresário dependem do volume de pessoas por ele empregadas. De forma que tudo o que é produzido é de certa forma consumido, esta é em resumo, a lei de Say. A lei de Say é dividida em duas categorias que podem ser chamadas:

  1. Identidade de Say – que afirma que toda mercadoria produzida se constitui ipso facto em uma commodity que pode ser trocada por outra, uma vez que ninguém retém nada por tempo indeterminado, e isso inclui dinheiro.
  2. Igualdade de Say – que admite que períodos de desigualdade da demanda e da oferta podem teoricamente acontecer, mas que são raríssimos e que logo desapareceriam.

A lei de Say é hoje considerada falsa, embora ela mesma denote uma ligação que muitos austríacos decidem negar, a paridade demanda-emprego, algo que já era conhecido até mesmo pelo grandíssimo G.K. Chesterton que em “The outline of sanity” diz:

Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais difícil que a maioria deles se tornem clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negocio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que os outros tem pra gastar com carvão. […] É um círculo vicioso no qual a sociedade assalariada há de finalmente afundar ao começar a abaixar lucros e abaixar salários;[…] (CHESTERTON, 2016, p.30)

Para entendermos porque este mecanismo possibilita as crises, é necessário entender a eficiência marginal do capital (doravante EMgC) que, servirá de mecanismo que nos possibilitará entender a teoria dos juros. Para compreender a EMgC, é primeiro necessário compreender o conceito de utilidade marginal, que nos diz simplesmente que a adição progressiva de unidades de um determinado bem de consumo ou investimento em um mercado o torna menos útil em face de uma dada demanda. Por exemplo, se você tem vontade tomar garapa, porque, por alguma razão, trabalhou muito o dia todo debaixo do sol quente e está morrendo de sede, quando você ver o primeiro copo, você ficará louco por ele, e tenderá a dar um valor maior de dinheiro por ele, mas após o primeiro copo, sua necessidade do segundo se tornará menor, e assim o terceiro, o quarto, e como consequência disso, você estará menos disposto a pagar o mesmo valor por mais um copo.

O conceito da EMgC funciona de modo análogo, pois se a função do capital é a produção, temos que nos perguntar qual é o objetivo mesmo da produção? O lucro. Então, em resumo a EMgC é a utilidade de um bem de investimento (capital) em função da sua possibilidade de gerar lucros. Como expliquei neste texto sobre John Maynard Keynes:

 A EMgC é a diferença entre o custo do capital (quer para comprar uma unidade extra, quer pra substituir ou reformar uma antiga), a taxa de juros e a expectativa de lucro futuro deste mesmo capital. A longo prazo, a tendência da EMgC é cair, não só pelo avanço tecnológico, mas também pelo aumento da oferta e, consequentemente, da posse deste capital, por exemplo:

Se um empresário qualquer compra uma máquina inovadora que é capaz de produzir mais que seus concorrentes pelo mesmo custo de uma máquina anterior menos eficiente, a EMgC desse capital aumenta, já que o custo deste capital (pressupondo uma taxa de juros favorável ao investimento) é pequeno em face da expectativa de lucro futuro. Como este empresário produzirá mais pelo mesmo custo, o aumento da oferta fará os preços de seus produtos baixarem ganhando assim mercado em face de seus concorrentes. Contudo, à medida que seus concorrentes também forem equipando suas empresas com esse maquinário mais moderno e eficiente, os empresários concorrentes passarão também a baixar os seus custos recuperando parte do mercado que perderam outrora, fazendo cair assim à expectativa de lucro do primeiro empresário e reduzindo a sua EMgC.

Assim, podemos definir que a EMgC pode ser corretamente exposta como sendo:

L= Lucro – C = capital – i = juros

Quem também percebe essa relação entre a quantidade de capital e a taxa de lucros é o neoclássico Robert Solow, que formulou sua famosa função da seguinte forma:

Função de Solow

Assim, percebemos que a EMgC tende a cair com o tempo, resultando obviamente que as taxas de lucro cairão, então, para que o investimento continue sendo rentável é necessário que a taxa de juros caia também. Então você pensa; O raios! Se a expectativa de lucro futuro cai, então o investimento tenderá a ser menor, o que fará com que nem todo o capital seja investido, resultando, obviamente, em uma poupança. Mas, se a poupança aumenta, a taxa de juros cai, certo? Bem, nem sempre cai na proporção necessária, e aí entra a teoria dos juros.

Para compreendermos o porquê dos juros não caírem, precisamos compreender ainda dois termos, que são liquidez e incerteza, e após isso, entender que a natureza mesma do dinheiro dificulta a queda da taxa de juros. A incerteza é a impossibilidade de definir com certeza os eventos futuros e que pode ser maior ou menor a depender do cenário econômico. Já a liquidez é a disponibilidade do dinheiro no menor tempo possível. Obviamente quando o dinheiro está aplicado num título de capitalização, sua liquidez é menor que quando na poupança, que por sua vez é menor que quando ele está em mãos. Assim, a taxa de juros é o preço da moeda na medida em que é o preço pago para que alguém abra mão da liquidez.

O outro ponto é a natureza mesma da moeda. O dinheiro é um produto cuja demanda sofre de uma inelasticidade que lhe é inerente. Para melhor compreensão, este artigo é fundamental, pois se a demanda por dinheiro aumentar (provocando alta nos juros), os bancos simplesmente não produzem mais moeda, ou pelo menos não através da contratação de trabalhadores. A fabricação de moeda pelos bancos privados depende das reservas fraccionárias, não de mão-de-obra, portanto, não se enquadra no que é necessário para maior elasticidade. Como consequência temos o resultado de que as pessoas são obrigadas a usar a moeda independente de seu preço (juros). É claro que a demanda por moeda varia de acordo com seu preço, mas varia muito menos do que os preços dos bens convencionais por estes terem maior elasticidade. O juro subirá ate um certo ponto em que o aumento do preço não modificará a demanda, e cairá do mesmo jeito. Em outras palavras, imaginemos um produto qualquer sem substitutos; se por alguma razão a demanda por ele cresce, seu preço subirá, a empresa contratará mais funcionários, fabricará mais desse produto e o aumento da produção fará o preço voltar ao normal, os salários pagos farão que o consumo cresça novamente. O mesmo não ocorre com o dinheiro, os bancos não produzem mais dinheiro e o resultado é que o preço dele (juro) resiste a cair na proporção necessária para usar toda a poupança, pois os banqueiros não têm interesse em baixar demais os juros por não poder repor o pool de poupança. Com isso, a taxa de juros cai pouco, pois em dado momento a demanda por dinheiro não se altera em função da taxa de juros, ponto em que surge a liquidity trap.

Assim, nem sempre taxa de juros acompanha na mesma proporção a queda da EMgC, e como resultado, acontece o entesouramento progressivo de dinheiro, o que leva a criação de uma crise deflacionária marcada pela queda acentuada da demanda agregada. Então, a intervenção governamental pode ser útil para forçar a queda da taxa de juros. Mas esta não é a única forma em que as crises podem ser endógenas. Na parte 3, veremos algumas outras consequências do não-intervencionismo liberal e do abolicionismo estatal libertário.

Estado e mercado na tragédia da Vale

Arthur Rizzi*

O Estado brasileiro não tem aquilo que os americanos chamam de enforcement, ou seja, dizendo em outros termos, as leis não pegam porque o Estado atualmente não tem meios de fiscalização, punição e ainda podemos ter a corrupção do próprio funcionalismo público, ocorrendo cooptação, suborno e outros tipos de processos de corrupção.

Entretanto, parece-me que o mercado tem sua parcela de culpa também. As empresas de capital aberto, sejam totalmente privadas ou de capital misto, tem prioridades distintas das estatais “puro-sangue”. As empresas estatais não estão sempre preocupadas em ser lucrativas, embora não possam se dar ao luxo de serem ineficientes. As empresas estatais são ferramentas de justiça social e também de exercer controle confiável sobre recursos que são considerados importantes para um determinado Estado.
Elas têm acesso a recursos públicos sem juros ou com juros muito abaixo do mercado. Diferentemente, as empresas privadas embora possam ter juros subsidiados, em geral tem tomadas de empréstimo próximas as taxas de mercado e, por isso necessita desesperadamente do mercado financeiro.

Ha-Joon Chang em “23 coisas que não te contaram sobre o capitalismo” chama atenção para um fato incômodo: Desde a década de 80, há no mercado financeiro a ideia de que o coração de uma empresa são os seus acionistas, nesse caso, ele tem prioridade para tudo. Assim, as empresas se veem forçadas a garantir acima de tudo os repasses de lucros em dividendos aos seus acionistas, mesmo quando os resultados não forem tão bons. Investimento em produção e segurança correm o risco de em determinados momentos virem em segundo plano.
Se a empresa estiver numa rota de crescimento isso é sustentável, contudo, se a empresa passa por um período ruim mais longo isso pode se tornar um esquema Ponzi.

Nesta hipótese, se os lucros não vem e a empresa passa por um período de “vacas magras”, estivéssemos em condições normais, os dividendos cairiam, os acionistas venderiam seus papéis e o preço das ações cairia.
Entretanto, como há essa ideologia no mercado financeiro, a de que o acionista é tudo, as empresas podem se sentir tentadas a longos processos de desinvestimento, de contração de gastos e até mesmo de liquidação de patrimônio para manter as ações valorizadas, impedindo assim que os acionistas procurem paragens mais seguras.
Como a Vale está desde 2013 pelo menos, num processo longo de desinvestimento devido a queda do preço das comoditties, cabe investigar o quanto esse processo afetou o custeio da depreciação do capital e as medidas de segurança.

Dos tomadores de risco de uma empresa, o menos seguro é o acionista. Dos stakeholders, os mais seguros são justamente aqueles que não possuem ativos facilmente liquidáveis. Por exemplo, empresas subsidiárias ou terceirizadas que oferecem serviços à matriz que envolvam compra de capital e equipamento, não conseguem se desfazer – não sem grande prejuízo – desses patrimônios em períodos de crise. Diferente do acionista que tudo que precisa é de um pânico e de um clique no mouse.
Cabe então dar ao Estado condições de fiscalizar e executar as leis que já existem, punir os culpados e reformar as instituições no mercado financeiro para que elas não reflitam a ideologia do “o acionista é tudo”.

Fontes:

https://www.valor.com.br/empresas/5485407/vale-programa-de-desinvestimentos-esta-finalizado-diz-schvartsman
https://www.hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/jos%C3%A9-ant%C3%B4nio-bicalho-1.334759/o-desinvestimento-estrat%C3%A9gico-da-vale-1.334578
https://www.infomoney.com.br/vale/noticia/7534867/vale-anuncia-dividendos-bilhoes-programa-recompra-acoes-bilhao


*Arthur Rizzi é historiador e estuda a história do pensamento econômico.

Dom Óscar Romero – Fé cristã e compromisso social

Pedro Ribeiro*

No dia 14 de outubro deste ano, o Papa Francisco canonizou Dom Óscar Romero, arcebispo de El Salvador. Defensor intransigente dos pequenos e pobres, bem como crítico duro das violações aos direitos humanos perpetradas pela ditadura militar vigente em seu país, Dom Romero foi assassinado por uma guerrilha de extrema-direita enquanto celebrava uma missa. Na renovação do sacrifício do Calvário que operava como sacerdote, ele mesmo fez sua Páscoa como testemunha do Cristo.

À época da canonização, muitos foram os que buscaram esclarecer não ser Dom Romero partidário de doutrinas falsas e errôneas, que politizam e mundanizam a fé, como aquelas associadas à teologia da libertação marxista e condenadas pela Igreja. Tudo isso está muito certo e é verdade. Poucos, porém, foram aqueles que se dispuseram a efetivamente mergulhar na vida e nas palavras deste grande santo, cuja canonização, profética para os nossos tempos, é a prova mais do que clara de como é possível e necessário um cristianismo engajado socialmente e na defesa dos pequeninos, mas sem cair em erros doutrinários de nenhuma espécie e sem nunca perder de vista a prioridade do sobrenatural.

Nas linhas abaixo, traduzi e selecionei algumas das mais belas e pungentes falas de Dom Romero, verdadeira síntese de sua teologia social sólida e generosa, fiel ao Magistério da Igreja e aberto às necessidades de um mundo doente. Nessas frases, alguns dos temas mais caros ao arcebispo de El Salvador se farão presentes: a centralidade do amor aos pobres, as ilusões da proposta de redução da justiça social à esmola, a condenação simultânea do marxismo e do capitalismo liberal como duas formas de materialismo e ateísmo, a independência da Igreja e dos cristãos frente a todas as ideologias mundanas, a originalidade da libertação cristã, que, mesmo quando desce ao social, permanece sempre e sempre orientada a Cristo e a à salvação eterna que Ele nos concede.

Retiradas do belíssimo livro “La violencia del amor”, coletânea de várias homilias e textos de Dom Romero, as linhas que se seguem são uma expressão viva de seu pensamento, segundo o qual “Uma Igreja que não se une aos pobres para denunciar, a partir dos pobres, as injustiças que com eles se cometem, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo”.

Que suas palavras nos comovam, nos transformem, nos convertam.

 

*

Há um critério para saber se Deus está próximo de nós ou distante, o que nos está dando a Palavra de Deus hoje: todo aquele que se preocupa com o faminto, com o nu, com o pobre, com o desaparecido, com o torturado, com o prisioneiro, com toda essa carne que sofre, está próximo de Deus

*

Muitos gostariam que o pobre sempre dissesse que é “vontade de Deus” que assim viva. Não é vontade de Deus que uns tenham tudo e outros não tenham nada. Não pode ser de Deus. De Deus é a vontade de que todos os seus filhos sejam felizes.

*

Lamentavelmente, queridos irmãos, somos o produto de uma educação espiritualista, individualista, onde se ensinava: procure salvar sua alma e não se importe com nada mais. Como dizíamos ao que sofria: Paciência, que já virá o Céu; aguenta. Não, não pode ser isso, isso não é salvar, não é a salvação que Cristo trouxe. A salvação que Cristo traz é a salvação de todas as escravidões que oprimem o homem.

*

A promoção que Cristo quer fazer do homem é todo o homem: em sua dimensão transcendente, em sua dimensão história, em sua dimensão espiritual, em sua dimensão corporal. É todo o homem que há de se salvar, o homem em suas relações sociais, o homem que não considere uns mais homens do que outros, mas considere todos irmãos e de preferência os mais frágeis e mais necessitados. Este é o homem integral que a Igreja quer salvar. Difícil missão! Muitas vezes a catalogarão entre subversivos, comunistas e revolucionários, mas a Igreja sabe qual é sua revolução: a do amor de Jesus Cristo.

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Uma civilização do amor que não exigisse a justiça aos homens não seria verdadeira civilização, não marcaria as verdadeiras relações dos homens. Por isto, é uma caricatura de amor quando se quer resolver com esmolas o que já se deve por justiça, resolver com aparências de beneficência quanto se está falhando na justiça social. O verdadeiro amor começa por exigir nas relações dos que se amam o justo.

*

A Igreja não pode ser surda nem muda ante o clamor de milhões de homens que gritam por libertação, oprimidos por mil escravidões. Mas lhes diz qual é a verdadeira liberdade que se deve buscar: a que Cristo já inaugurou nesta terra ao ressuscitar e romper as cadeias do pecado, da morte e do inferno. Ser como Cristo, livres do pecado, é ser verdadeiramente livres com a verdadeira libertação.  E aquele que, com esta fé posta no Ressuscitado, trabalhe por um mundo mais justo, reclame contra as injustiças do sistema atual, contra os atropelos de uma autoridade abusiva, contra as desordens dos homens explorando os homens – todo aquele que lute a partir da ressurreição do grande Libertador, somente este é autêntico cristão.

*

“A palavra ateísmo designa realidades muito diversas”. Esta é uma frase do Concílio Vaticano II, o qual passa a desvelar uma longa série de atitudes espirituais frente ao fenômeno religioso: “Uns negam a Deus expressamente, outros afirmam que nada pode dizer-se acerca de Deus”, e continuando por “ateísmos” pseudocientíficos ou de caráter sociológico, chega a descrever a atitude na prática atéia “daqueles que exaltam tanto o homem, que deixam sem conteúdo a fé em Deus, já que lhes interessa mais, ao que parece, a afirmação do homem que a negação de Deus”. A esta classe de ateísmo logicamente corresponde um rechaço sistemáticos dos valores transcendentais que alimenta a esperança dos cristãos. Este rechaço assim o descreve o Concílio: “Pretende este ateísmo que a religião, por sua própria natureza, seja um obstáculo para a libertação econômica e social do homem, porque, ao orientar o espírito humano até uma vida futura ilusória, apartaria o homem do esforço por levantar uma cidade temporal. Por isso, quando os defensores desta doutrina logram alcançar o domínio político do Estado, atacam violentamente a religião, difundido o ateísmo, sobretudo em matéria educativa, com o uso dos meios de pressão que tem ao seu alcance o poder público”. Isto o sabe de sobra a Igreja por ciência e experiência. Por isso é ridículo que se diga que a Igreja se fez marxista. Se o materialismo marxista mata o sentido transcendente da Igreja, uma Igreja marxista seria não apenas suicida, mas também estúpida.

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Mas há um “ateísmo” mais próximo e mais perigoso para nossa Igreja: o ateísmo do capitalismo, quando os bens materiais se erigem em ídolo e substituem a Deus. O mesmo Concílio é que o assinala: “O ateísmo nasce às vezes… como adjudicação indevida do caráter absoluto a certos bens humanos que são considerados na prática como sucedâneos de Deus. A própria civilização atual, não em si mesma, mas sim por sua sobrecarga de apego à terra, pode dificultar em grau notável o acesso do homem a Deus”. Aqui, em um capitalismo idólatra do dinheiro e dos “bens humanos”, está para nós um perigo tão grave quanto o outro, e talvez mais do que o outro, ao qual se dá a culpa de todos os males.

Que é mais grave: negar a Deus por uma falsa ideia da libertação do homem ou negá-lo por um egoísmo levado até a idolatria? O que resulta mais hipócrita: aquele que crê neste mundo até a negação aberta do transcendente, ou o que usa o transcendente e o religioso como instrumento e justificação de sua idolatria da terra? Os dois são ateísmos. Nenhum é a verdade que tão belamente ensina a Igreja do evangelho: “A razão mais alta da dignidade humana consiste na vocação do homem à união com Deus”

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                Eu não sou político, eu não sou sociólogo, eu não sou economista, não sou responsável por dar a solução à economia e à política do país. Há outros, leigos, que têm essa tremenda responsabilidade. Desde meu posto de pastor eu apenas faço um chamamento para que saibam usar estes talentos que Deus lhes deu. Mas como pastor, sim, me toca – e é isto que trato de fazer – construir a verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

*

                A Igreja diz a todo homem e a toda organização que busca um fim nobre ou justo: “Está bem, mas não basta; incorpora-o à redenção cristã. Se não te libertas do pecado – que é o que Cristo veio romper, as cadeias do pecado –, se não te desenvolves até fazer-te filho de Deus pela graça e pela santidade, se tua libertação prescinde de Cristo e somente confia em ideologias da terra, tua libertação não é completa. Eu quero te servir, levando-te pela mão até a verdadeira redenção, até o verdadeiro destino, até a vocação integral do homem”. Este é o grande serviço da Igreja.

*

                De nada serviria uma libertação econômica em que todos os pobres tivessem sua casa, seu dinheiro, mas todos eles fossem pecadores, o coração apartado de Deus. De que serve? Há nações que, atualmente, economicamente, socialmente, estão bem desenvolvidas, aquelas por exemplo do norte da Europa, e, não obstante, quanto vício, quanta desordem! A Igreja tem sempre uma palavra a dizer: a conversão.

                O desenvolvimento não estaria terminado ainda que organizássemos idealmente a economia, a política, a sociologia de nosso povo. Não estaria terminada; seria a base para que culminasse nisto que a Igreja busca e prega: Deus adorado por todos os homens, Cristo reconhecido como único salvador, alegria profunda do Espírito, de estar em paz com Deus e com nossos irmãos.

*

Vocês, como cristãos formados no evangelho, têm o direito de organizar-se, de tomar decisões concretas, inspirados em seu evangelho. Mas muito cuidado em trair essas convicções evangélicas, cristãs, sobrenaturais, em companhia de outras libertações que possam ser meramente econômicas, temporais, políticas. O cristianismo, ainda que colaborando na libertação com outras ideologias, deve conservar sua libertação original

*

Me alegro, irmãos, de que nossa Igreja seja perseguida precisamente por sua opção preferencial pelos pobres e por tratar de encarnar-se no interesse dos pobres e dizer a todo o povo, governantes, ricos e poderosos: Se não se fazem pobres, se não se interessam pela pobreza de nosso povo como se fosse sua própria família, não poderão salvar a sociedade.

*

                Eu creio que nossa Igreja em São Salvador está dando razão de sua esperança, porque não põe sua esperança nem no poder nem no dinheiro, mas a põe na fonte de sua esperança, que é Cristo crucificado. É a esperança sua fidelidade ao evangelho. Sua esperança está em ser fiel a Deus. Por isso lhes digo, aos meus queridos sacerdotes, às comunidades religiosas, aos colégios católicos, às paróquias, às comunidades de base: não se deixem seduzir nem por bajulações do poder e do dinheiro nem pelo seguimento de falsas ideologias, pois tampouco ali está a esperança verdadeira. A esperança verdadeira não está em uma revolução de violência e de sangue, nem a esperança está no dinheiro e no poder, nem na esquerda nem na direita. A esperança da qual temos que dar razão e pela qual falamos com coragem é porque está em Cristo, que ainda depois da morte, ainda que seja morte de assassinato, é Ele o que reina e todos os que com Ele tenham pregado sua justiça, seu amor, sua esperança, sua paz.


*Pedro Ribeiro é contribuinte da Reação Nacional, mestrando em filosofia, católico apostólico romano, maritainiano, bergogliano e compromissado acima de tudo coma  doutrina social da Igreja.

Criptomoedas e suas características – Crypterium – Raphael Mirko

por Raphael Mirko

Resultado de imagem para crypterium

O Token Crypterium foi lançado via ICO (Oferta Inicial de Criptomoeda), podemos afirmar que foi um ICO de sucesso, já que superaram a expectativa de arrecadação, ao todo foram arrecadados mais de US$51 milhões.

O projeto Crypterium vem com a ideia de ser um criptobanco com um aplicativo onde as pessoas poderão realizar pagamentos, transferências, armazenamento de criptomoedas, até o momento o aplicativo suporta Bitcoin, Ethereum, Litecoin e o próprio token Crypterium, também há a possibilidade de transação de moedas fiduciárias e conversão de moedas fiduciárias para criptomoedas e vice-versa.

O token Crypterium, cuja abreviação é CRPT é um token que se utiliza e foi feito na plataforma Ethereum, portanto pode ser armazenada na maior parte das carteiras que suportam Ethereum.

O aplicativo já encontra-se disponível para Android e iOS, para adquirir o token Crypterium, pode ser via corretoras que negociam o token, as corretoras são as seguintes: Liquid, Kucoin, CoinFalcon, Tidex, IDEX, HitBTC e DDEX.

 

 

 

Site Oficial do Token: https://crypterium.com

Não recomendamos nenhum tipo de investimento em nenhum ativo, tratamos apenas das características deles. 

Caos e Balbúrdia – Uma síntese de meio mês de governo.

Edmundo Noir*

Caos e Balbúrdia, eis as palavras que pego emprestado de meu colega Arthur Rizzi para definir a rotina do novo governo que dá mostras de fragilidade e amadorismo desde seus primeiros dias. A frágil aliança entre setores da maçônicos, olavistas, militares, ruralistas e neopentecostais bem como ao ego de oportunistas e parasitas já coleciona frestas e divisões ante a constante pressão midiática. Não sejamos nós ingênuos, a mídia é inimiga, não apenas do atual governo, como da Fé Católica e de todo e qualquer homem de bem; como filial do inferno na Terra, o “quarto poder” não suporta o mínimo recuo de sua agenda imoral, a saber feminismo, laicismo e sodomia. O novo governo não parece suficientemente convencido da perfídia deste inimigo e, adota estratégias tímidas como o remanejo de verbas (da Globo para a Record e o SBT), algumas poucas vexações e dificuldades durante a posse, além de um uso um tanto mais intensivo da internet. Sei bem que Bolsonaro não há de fazer uso de alguns mecanismos de censura (tão necessária nestes nossos tempos obscuros afim de barrar o tsunami de imoralidade e mentira que inunda este país), mas ao menos um uso mais racional do aparato de comunicação estatal seria factível não? Porque não transformar a inútil TV Brasil na voz do Estado, ponte e veiculo oficial que conecta o “príncipe” a seu povo? Porque deixar ao inimigo o encargo de oráculo e mediador?

Das ondas radiofônicas e televisivas, passemos ao vergonhoso episódio no INEP, onde o novo responsável fora demitido pouco mais de um dia pós-nomeação. Não que seja simpatizante da pedagogia olavette neoconservadora do ex-MBL, mas não poderia ser evitada tamanha demonstração de fraqueza? Tão vergonhoso recuo fazia-se mesmo necessário? Fosse de fato comprovado o plágio e/ou a inconpetência do dito cujo para o exercício do cargo, que ficasse lá algum tempo de forma figurativa, delegando o poder decisório a algum secretário e, uma vez que as atenções estejam dirigidas alhures, que se concretizasse a substituição. Maquiavelismo? Não, política! Não se deve expor os erros e fragilidades da tropa ante o espetáculo da plebe. (Isso para não mencionar o ainda mais imbecil caso da APEX)

Aliás, há ainda de se mencionar as ridículas discussões do ZAP da bancada do PSL reveladas ao público, bem como as divisões entre olavistas e oportunistas no que diz respeito ao lobby chinês. Que raios de governo militar é este que não consegue assegurar a fidelidade e sigilo de seus aliados e subordinados, bem como não é capaz de discutir uma instrução normativa para com a base alidada e manter sob controle a egolatria dos idiotas?

Tamanho amadorismo só faz a alegria das esquerdas, que só não retorna ao poder ou causa maiores danos a este bando de ineptos, por ser ela também um agremiado de idiotas que se esquece dos problemas nacionais para divagar sobre seus fetiches e fantasias sexuais desordenadas.

Torço para que o novo governo tome rumo, e alguma alma sã coloque ordem sob o caos; pois apesar dos pesares e pontos de discordantes no que tange a geopolítica e a economia, o mínimo senso moral neoconservador, em questões essenciais como a oposição ao aborto e a ideologia de gênero, fazem-me nutrir ainda alguma simpatia para com este bando de patetas. Aguardemos os próximos capítulos, pois este é apenas o primeiro mês de 4 (ou 8) longos anos…

*Edmundo Noir é Blogueiro, proprietário e fundador do BunKer Suburbano (www.bunkersub.com) e colaborador esporádico da Reação Nacional.

E o tal de meta-capitalismo? Crítica a um conceito olaviano.

Arthur Rizzi*

Os seguidores de Olavo de Carvalho, além do próprio, usam sempre o termo meta-capitalismo como forma de descrever um determinado fenômeno contemporâneo de grandes capitalistas que pela sua posição enquanto membros da alta burguesia deveriam em tese apoiar posições à direita no espectro político e, entretanto, apoiam movimentos de esquerda e de extrema-esquerda que, em teoria, deveriam ser contrários aos seus interesses. Qual será a profundidade e o realismo desse conceito? Veremos abaixo.

Definindo:

Segundo Olavo de Carvalho neste vídeo o meta-capitalismo se configura como sendo o capitalista que tornou-se tão extraordinariamente rico com a economia de mercado ao ponto de que em determinado momento, o mercado e sua instabilidade tornam-se uma ameaça a ele e a sua família. Isto é, o meta-capitalista para consolidar seu legado, coopta o Estado para impor regulações e fazer intervenções que dificultem a vida de potenciais ameaças a si e aos seus.

Ora, para Olavo é sabido que o dinheiro não é poder, mas sim um meio de se conseguir poder. Contudo, em dado momento, o volume de dinheiro que se adquire é tamanho que ele passa a ser poder, visto que a economia ao depender muito dos too big to fail, coloca nas mãos dessas pessoas multibilionárias, quer elas queiram ou não, uma responsabilidade enorme sobre a vida delas, de seus parentes e de milhares de outras pessoas as quais elas nem mesmo conhecem.

Em outras palavras, para Olavo, o meta-capitalista é alguém que vive num sistema aparte entre o mercado e o poder do Estado, estando imune aos choques de mercado.

Acertos e erros do conceito:

O conceito parte de um insight muito acertado, o de que a partir de certo momento, o dinheiro deixa de ser um mero meio de obter poder, mas torna-se de facto poder. O índice de GINI pode ilustrar isso muito bem. Segundo a medição da desigualdade de renda do índice, os valores oscilam entre 0 e 1, sendo zero o socialismo utópico onde todos têm exatamente a mesma renda, e 1 a tirania distópica onde um único indivíduo ou família tem a renda de todo um país estando todos os demais na miséria. O índice assume esses extremos como referenciais para fins matemáticos, que embora logicamente possíveis, são muito difíceis de existirem na prática. Como se trata de referenciais aritméticos, sua exequibilidade na realidade é irrelevante, pois trata-se de um dado axiomático que a verdade matemática neles contida expressa. A realidade, já é prevista no índice, sempre se manifestará numa mistura desses dois estados, e nunca os estados puros.

Assim, num país extremamente igualitário, digamos a Alemanha – onde o GINI aponta na faixa de 0,39 – o impacto de um único homem muito rico torna-se menos relevante, pois como a própria sociedade tem meios de renda muito equitativos, o impacto do poder dele é reduzido.  Ou seja, na Alemanha 61% da renda está na própria sociedade. Dado que a renda é produto dos fatores de produção (capital e trabalho), e dado ainda que o capital é o fator onde os ganhos de produção são crescentes em escala, é pouco provável que em economias de mercado com baixa desigualdade, poucas pessoas detenham capital e haja apenas assalariados fora disso. Nessa sociedade muitos têm meios de empreender, se não como forma principal de renda, ao menos como uma complementação de renda part-time.

Um caso contrário seria a de um país muito desigual, digamos o Brasil, que na época do regime militar registrou 0,63 no índice de GINI. Como a renda estava majoritariamente concentrada, significa que o trabalho assalariado é a regra sendo o empreendimento próprio um complemento de renda quase sempre de baixíssima complexidade e baixíssima produtividade, na forma de subempregos quase todos informais. Neste cenário há enorme concentração do fator capital, e que os retornos de lucros fazem com que o poder de um único bilionário seja muito maior sobre essa sociedade do que sobre a alemã.

Assim, Olavo faz uma detecção correta que também foi feita por John Maynard Keynes, pelos ordoliberais de Freiburg como Walter Eucken, Wilhelm Röpke e Alfred Müller-Armack e também pelos distributistas como G.K. Chesterton, Hillaire Belloc, E.F. Schumacher, Christopher Ferrara e John Médaille e ainda por solidaristas como o Pe. Heinrich Pesch, SJ.

Entretanto, o conceito apresenta falhas, pois ele parte de constatações no mínimo duvidosas. Por exemplo, a ideia de que a economia de mercado desregulada é sempre pareto-eficiente. Isto é, em termos mais teológicos ou filosóficos, dizer que o mercado desregulado é pareto-eficiente significa dizer que em todo caso, no mercado desregulado a justiça distributiva e a justiça comutativa são sempre idênticas. O que quer dizer que não há porque questionar se uma troca voluntária sem um terceiro envolvido (digamos, o Estado) é justa. O mercado sempre proverá resultados perfeitamente equitativos.

Como a maioria dos economistas liberais sensatos (Misesianos, não estamos falando de vocês) já perceberam, isso não é exatamente verdade. E as provas empíricas disso são tão abundantes no meio acadêmico que somente uma turba religiosa de fanáticos (libertários) poderia insistir numa afirmação contrária. Não é que eu esteja me eximindo de oferecer estas provas aqui, mas sim o fato de que aceitar debater algumas verdades tão bem consolidadas significa dar ao erro uma dignidade imerecida, nesse caso a de hipótese respeitável quando elas são simplesmente erros crassos. E essa é uma das grandes sacadas dos Papas do Concílio Vaticano I, ao dizer que o erro não tem direitos eles não estão condenando a discussão sobre aspectos ainda não muito claros da modernidade, mas sim dizendo que algumas ideias serem apreciadas quando claramente erradas é dar a elas não apenas um direito a existência, mas um poder muito grande de subverter a ordem política. Imagine você que um físico do nível de um Michio Kaku decide debater seriamente com um terraplanista? Um leigo ou uma pessoa que está sendo introduzida na discussão científica pode ser levada a pensar que o terraplanismo é uma hipótese séria em discussão, mesmo quando existem uma infinidade de demonstrações em contrário (provas).

A consequência desse erro é dizer que toda intervenção do Estado corrompe o processo econômico e provoca desigualdades sociais, o que não é verdadeiro (e também abundam evidências disso) e parece que o próprio Olavo aceita, dado que no artigo “fórmula da minha composição ideológica” o mesmo argumenta no sentido de alguma intervenção do Estado.

“O Estado existe apenas para impedir que os concorrentes se comam vivos, para assegurar as condições logísticas da prática do liberalismo e para, last not least amparar in extremis quem não tenha a mínima condição de concorrer no mercado”.

Olavo com esse tipo de frase ganharia certamente o apoio de um Ludwig Erhard ou de um Walter Eucken. Então, fica pouco claro que tipo de regulação (porque regulações são necessárias para isso) e intervenção para Olavo são as que os meta-capitalistas almejam. Pois dado que não existe economia de mercado totalmente desregulada (como Ha-Joon Chang demonstrou), então precisaria que Olavo definisse que tipo intervenção governamental é a que os meta-capitalistas propugnam. A maioria delas visam a distribuição de renda, isto é, por meio de tributação e transferência de renda, permitir que as pessoas mais pobres tenham um esteio para melhorar sua vida. Isso dependendo do modo como é feito ajuda até mesmo a desconcentrar poder econômico de alguns desses meta-capitalistas. Então, é curioso porque alguns deles apoiam isso, como o próprio George Soros, não? Enfim, as razões aqui caberia a Olavo expor e eu sinceramente estaria muito interessado em descobrir.

Eu – uma síntese de ordoliberalismo, distributismo e desenvolvimentismo – acredito que a distribuição de renda enquanto permanece um elemento válido, ela é apenas em potência empreendedorismo das pessoas comuns, como eu e você caro leitor. Por isso estou cada vez mais convencido de que tanto os solidaristas como o Pe. Ávila ou os distributistas como Médaille têm razão, não basta justiça re-distributiva, é necessário justiça distributiva e isso significa de alguma forma favorecer a participação do fator trabalho nos lucros das grandes empresas (seja por sociedade ou por meios acionários), o estímulo ao cooperativismo onde possível e benéfico, o estímulo aos pequenos e médios empreendimentos e uma reforma agrária de caráter não confiscatório salvo em condições “extremas e extremamente extremas”. A redistribuição de renda, o salário mínimo e a CLT continuam válidos e merecem ser defendidos? Sem sombra de dúvidas. Mas são paliativos enquanto o homem comum tão defendido por Chesterton não é capaz de se suster majoritariamente pelo seu próprio esforço produtivo.

Há ainda um outro problema neste conceito e é típico de quem foi muito influenciado pela literatura da Escola Austríaca como Olavo ou os autores associados a esta escola. Quem chama a atenção para isso é Christopher Ferrara em “The Church and the libertarian“, onde o mesmo ataca figuras imponentes do liberalismo católico, tais como Thomas Woods, Alejandro Chafuen, Lew Rockwell e Jeffrey Tucker em nome da doutrina de sempre da Igreja.

Todos os austríacos em geral defendem o livre-mercado e como consequência condenam toda e qualquer intervenção do Estado. Contudo, no mundo real, nós não temos (e conforme veremos nunca tivemos) o livre-mercado tão desejado por eles. Então, na prática, quando se opõem a uma regulação não estão defendendo o livre mercado e sim um mercado já regulado – e acredite algumas regulações são muito importantes como Olavo mesmo reconhece – então ficam sempre na insanidade de criticar o intervencionismo em nome de um livre-mercado idealizado, mas na prática defendem os “meta-capitalistas” de algumas regulações que poderia limitar o poder dos mesmos dentro de um capitalismo que não é nem nunca foi livre de fato (Ha-Joon Chang aqui).

Poderíamos ainda apontar outro problema com o conceito. Como segundo Olavo, meta-capitalismo se entende por empresários que se valem do livre-mercado para enriquecer, mas que quando se chega a um determinado ponto, cooptam o Estado para criar intervenções e burocracias que os protejam, impedindo assim a riqueza de outrem.

Deveria-se explicar onde na história econômica isso começa. Desde os momentos nascentes do capitalismo, como no no mercantilismo (que foi mais um feudalismo ulta-monetizado) ou mesmo com a revolução industrial e o laissez faire, sempre houve relação Estado-privados de modo a promover de uma forma ou de outra os interesses de um certo grupo nacional ou sociedade política. As obras de Niall Ferguson sobre a história do capitalismo são verdadeiros primores nisso. Por exemplo, o livro “A lógica do dinheiro” de Niall Ferguson é um primor. Em dado momento ela simplesmente demonstra que o Estado liberal é a troca da burguesia de parte de sua riqueza na forma de impostos por poder político – remember no taxation without representation?

O que entendemos como uma superclasse estranha aos interesses nacionais me parece – e aqui sou eu tentando definir o fenômeno que Olavo acusa de meta-capitalismo – nada mais que um desenvolvimento natural da técnica e do próprio capitalismo liberal.

O globalismo promovido por “meta-capitalistas” seria na minha visão um entendimento mútuo entre os grandes capitalistas do capitalismo central e de alguns chefes de Estado para criação de órgãos, burocracias e instâncias jurídicas supranacionais para mediar conflitos e assim, impedindo guerras, permitir o comércio internacional.

Mas isto só foi possível de ser feito a partir de um momento em que nada disso existia, ou seja, quando sociedades tradicionais extremamente fechadas com modo de vida pré-moderno e modo de produção feudal se depararam com as potências ocidentais a partir de 1400 naquilo que em “Civilização” e “A grande degeneração” o já citado Niall Ferguson chama de “grande divergência”. Obviamente isso só poderia – e foi – ser feito pelas armas a custo de expansionismo imperialista. O livre-mercado e as instituições modernas ocidentais foram impostas a força para colher lucros econômicos no médio-longo prazo, vide o caso da Guerra do Ópio e do Comodoro Perry no porto do Japão. Como Christopher Ferrara demonstra em “Liberty the God that failed” ao citar os casos inglês e americano, o capitalismo moderno é uma criação do Estado moderno.

Há ainda problemas lógicos: Se o liberalismo (isto é a economia de mercado) leva ao meta-capitalismo, então deveríamos fugir do mesmo, certo? Mas fugir do mesmo, exige que usemos o Estado como medida protetiva, o que como vimos o Olavo apoia, mas não é isso que os meta-capitalistas querem que façamos? Então, mantemos o livre-mercado e criamos o meta-capitalismo ou intervimos e fazemos o que os meta-capitalistas querem? Novamente fica vago o que o Olavo entende por cooptação do Estado para intervenções econômicas que limitam a competição. Seja de uma forma ou de outra, o suposto meta-capitalismo parece sempre ganhar. Meta-capitalismo de Schrödinger?

O globalismo real e a amaça do amanhã:

Retomando o que dissertei acerca do expansionismo imperialista do capitalismo liberal, Niall Ferguson no capítulo final de “A ascensão do dinheiro” (tanto o livro quanto o filme a partir de 33:50), comentando sobre a “Chimérica”, conceito por ele desenvolvido que é um trocadilho engenhoso com a palavra chimera (quimera em inglês), juntando os nomes China e América, demonstra como a complementariedade entre as economias americana e chinesa criou um cenário no qual o coração do mercado financeiro mundial (Estados Unidos) e o poder industrial mais dinâmico do mundo (China) se relacionam de maneira em que os ganhos extraordinários de renda do chinês médio formam tanto a nível de consumidor quanto a nível de empresa uma poupança vultuosa, que é revertida para os Estados Unidos na forma de empréstimos, ou para ser mais exacto, tanto os chineses quanto as grandes empresas e bancos da China compram títulos públicos dos Estados Unidos bem como derivativos de empresas americanas inundando o mercado americano com dinheiro (e crédito barato) bem como quinquilharias fabricadas por empresas americanas que receberam além da mão-de-obra barata uma série de incentivos para produzir lá. Em termos mais simples para o demos entender:

Os lucros das empresas chinesas são tão extraordinários, que sobra após todo o custeio da produção, pagamento de salários e dividendos, capital para reinvestir, expandir a produção e ainda aplicar em renda, fazendo da China o grande banco dos americanos. Ao exportar poupança, a China financia o consumismo americano.

Trump é justamente a resposta que os nacionalistas americanos conseguiram, pois como toda a industria americana estava transferindo produção para a China, havia temores de que ao fim do processo as quinquilharias chinesas não fossem mais quinquilharias e sim produtos altamente sofisticados e que as empresas americanas cada vez menos fossem americanas. Daí Trump com seu discurso protecionista de trazer os empregos de volta com uma série de intervenções estatais que me fazem perguntar se a ideia de meta-capitalismo do Olavo chega ao menos perto de fazer algum sentido no quadro geral dos acontecimentos de nosso tempo.

Enquanto Obama procurou na “primavera árabe” a formação de Estados governados por títeres do seu poder imperial, através do qual a economia americana poderia praticar uma economia extrativista de rapina de modo a suprir os cada vez mais esplendorosos déficits e a crescente dívida, Trump procura na América Latina após a derrota americana para a Rússia no Oriente Médio consolidar esse plano. Com qual razão? Acabar com a “grande reconvergência”. Se a “grande divergência” foi o processo pelo qual o ocidente a partir de 1400  se torna exponencialmente mais rico do que o resto do mundo (um chinês em 1975 tinha uma renda per capita de 100 dólares, um brasileiro de 1000 em valores de 2010), a grande reconvergência é processo no qual a China toma a dianteira do processo histórico e da liderança mundial. Se com a segunda maior economia do mundo a China tem o segundo maior arsenal do mundo, o que será dos EUA se ela se tornar a primeira economia do mundo? É isso que Ferguson chama de “A grande degeneração“, a decadência do ocidente.

E o que é o globalismo se não o resultado do próprio capitalismo globalizado? O que é a ascensão do dragão chinês se não um resultado colateral desse mesmo globalismo? A China percebeu que ela tem a chance de ouro de liderar o globalismo tomando o posto do titã envenenado (Os EUA para quem não sacou a referência).

Problema terminológico:

Como vimos acima, o liberalismo econômico 100% não intervencionista nada mais é que um delírio sem qualquer registro histórico, e mesmo quando havia livre-mercado sem liberalismo (Alfred Müller-Armack aqui) como no medievo, havia uma série de restrições econômicas feitas pelas próprias instituições intermediárias como as guildas e até do próprio rei. Então, se o capitalismo surge já com monopólios, se desenvolve na era de ouro do laissez faire favorecimentos duvidosos, expansionismo imperialista e outros inúmeros usos e feitos do puro poder estatal, não seria o meta-capitalismo nada mais que o próprio capitalismo?

Se meta-capitalismo significa como o próprio nome indica algo acima ou além do capitalismo, algo que o transcenda, ele já não se identifica mais com o mesmo sistema econômico, ele já é outra coisa. Talvez faria sentido atribuir isso ao socialismo – e no mesmo artigo Olavo parece associá-lo a isso, “o socialismo dos ricos”. Porém, acredito que fazer essa asserção seria algo muito incômodo, pois uma alegação como essa é muito próxima da lógica marxiana/marxista de que as contradições lógicas e internas ao capitalismo levaria inevitavelmente ao socialismo. Não acredito que qualquer liberal ou liberal-conservador possa sustentar uma ideia dessas sem um pouco de susto. Entretanto, se por meta-capitalismo refere-se a uma estrutura que existe no capitalismo e é sustentado pelo mesmo, além de outros problemas lógicos como os acima descritos, o próprio termo meta-capitalismo perderia seu significado, pois já não seria algo que transcende o capitalismo, mas um aspecto do mesmo objeto.

Conclusão:

Após as considerações acima feitas, resta-me conjecturar o porquê do uso da expressão meta-capitalismo por Olavo. O nosso pensador americanista se declara um adepto do liberalismo econômico como ele mesmo o diz no artigo aqui citado:

Em economia, sou francamente liberal. Acho que a economia de mercado não só é eficaz, mas é intrinsecamente boa do ponto de vista moral, e que a concorrência é saudável para todos.

Recentemente no facebook voltou a se dizer um adepto do liberalismo econômico no mercado interno, mas um anti-liberal no mercado externo (um protecionista não-burocratizante por assim dizer), o que novamente nos faz perguntar que tipo de intervenção ele apoia que seria contraditória aos interesses da super-classe “meta-capitalista”?

Enfim, Por essa razão acredito que o termo meta-capitalista não passa de uma falácia de distinção emergencial também conhecida popularmente como “falácia do escocês”. Enfim, para se safar na defesa do liberalismo do qual é partidário, Olavo diz:

– Bem, esse não era o verdadeiro capitalismo/livre-mercado/liberalismo“.

Eu acho que já ouvi esse argumento do outro lado do espectro político. Algo como:

– Bem, esse não era o verdadeiro comunismo”.

E isso é tudo o que tenho a dizer sobre “meta-capitalismo” e os “meta-capitalistas”. O meta-capitalismo é só o bem e velho capitalismo de sempre, com poderes ampliados pela técnica contemporânea, mas ainda assim, o velho conhecido de todos: o capitalismo.


*Arthur Rizzi é historiador graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pretendente ao mestrado, interessado em história do pensamento econômico.