Marx falhou ao prever a queda do capitalismo

Texto originalmente postado em Social Democracy in 21st Century e traduzido por Reação Nacional.

Marx no volume 1 do Capital previu o fim do capitalismo numa revolução proletária, por algumas razões:

Primeiro, a classe dos proletários apenas cresce sob o capitalismo, alcançando grandes números. Há também uma grande concentração de capital e tendência ao monopólio. A miséria, opressão e exploração desses proletários cresce continuamente, e adicionalmente  a isso há uma grande e crescente classe, que é o exército reserva de trabalho industrial (trabalhadores desempregados), que é feita de desempregados pelo crescimento do uso de maquinaria e automatização (Cf. Capítulos 15 e 25 do volume 1 do Capital).

Então a teoria de Marx prevê uma crescente classe de proletários e uma crescente classe de desempregados.

Eventualmente, o número desses trabalhadores oprimidos cresce a tais números que eles se organizam (ganham consciência de classe) e derrubam o capitalismo, que se tornara totalmente monopolista.

Isso está muito claro nas previsões de Marx ao fim do volume 1 do Capital:

“Em consonância com o numero cada vez mais diminuto de magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, cresce a massa dos miseráveis, a opressão, a escravidão, a degradação, a exploração; mas com isso cresce também a revolta da classe trabalhadora, uma classe sempre crescente em números, e disciplinada, unida, organizada pelos mesmos mecanismos do processo capitalista de produção. O monopólio do capital se torna um fardo sob o modo de produção, o qual nasceu e floresceu com ele, e debaixo dele. A centralização dos meios de produção e socialização do trabalho ao fim alcança um ponto onde eles se tornam incompatíveis com seu tegumento capitalista. Este tegumento é quebrado em pedaços. A trombeta da propriedade privada capitalista ressoa. Os expropriadores são expropriados.” (Marx 1906: 836–837).

Nós precisamos também notar que a miséria, a opressão, a escravidão, a degradação e a exploração dos trabalhadores sempre crescem por que:

(1) A tendência do capitalismo é manter o salário real ao nível de subsistência, que é o valor de manutenção e reprodução da força de trabalho (mais sobre isso, clique aqui);

(2) O maquinário deveria em tese aumentar a intensidade e o caráter árduo do trabalho para o proletariado (veja Capítulo 15 do volume 1), e também aumentar o emprego das mulheres e crianças (embora leis governamentais possam conter isso em alguma extensão);

(3) O exército reserva de trabalhadores (desempregados) cresce continuamente, o que ajuda a manter os salários reais no nível de subsistência.

(4) O volume 3 do Capital adiciona a isso a tendência de queda das taxas de lucros.

Embora, alguns marxistas modernos agora disputem quão importante é a tendência da queda da taxa de lucros para a teoria do colapso final do capitalismo, como a Çenfase a isso pode ser mais o resultado da edição tendenciosa que Engels fez do volume 3 do Capital.

De qualquer modo, estes fatores acima descrevem porque o capitalismo vai colapsar na teoria de Marx.

Todavia essa teoria foi completamente contraditada pela evidência histórica. A classe trabalhadora eventualmente se estabilizou e a sociedade experimentou o crescimento de uma grande e próspera classe média com mobilidade social. As taxas de desemprego no capitalismo são apenas o resultado cíclicos dos ciclos de negócios: mesmo no século XIX, as taxas de desemprego não cresceram ou cresceram no longo prazo, como a teoria de Marx previu, mas simplesmente circundaram ao redor de um ponto abaixo do pleno emprego como John Maynard Keynes demonstrou na sua Teoria Geral do juro, do emprego e da moeda.

A tendência de longo prazo no capitalismo, mesmo no século 19, foi o incremento massivo do salário real, que ultrapassou o nível de subsistência, mesmo para os trabalhadores (veja aqui e aqui e aqui [Eucken]). O crescimento do salário real e o aumento da renda disponível aos trabalhadores no capitalismo também permitiram uma massiva capacidade de produção de novas mercadorias e novas oportunidades de emprego (e.g.,especialmente no setor de serviços).

Os países ocidentais mais desenvolvidos como Estados Unidos e Reino Unido mostraram-se mais resistentes ao clamor revolucionário do que as retardatárias China e Rússia contrariamente ao previsto por Marx. E mesmo as comoções comunistas  em Itália e a Alemanha deram-se por meio das crises da Segunda Guerra e por invasão militar, o que não aparece nas previsões de Marx (como eu pontuei aqui).

A grande depressão não é explicada pelas teorias de Marx: ao contrário, a depressão foi apenas um mau arranjo contingente e circunstancial de políticas econômicas provocando a pior crise da história do capitalismo. É perfeitamente explicada tanto pela teoria keynesiana do ciclo como pela teoria financeira de Minsky (Nota do Tradutor: Eu particularmente gosto da minha atualização da teoria do ciclo ropkeana aliada a tese de Minsky para explicar a crise de 29, a qual você pode ler aqui e aqui), para o qual nós podemos adicionar uma dinâmica de deflação por dívida (embora Keynes estivesse bem consciente da deflação por dívida também).

Um crítico meu, Jehu diz:

“Primeiro, para ser claro, Marx nunca previu o fim do capitalismo; ele previu a quebra do sistema de produção com base no valor de troca […] Porque a relação entre valores e preços foi cortada pelos países industrializados em 1930 precisamente para salvar o capitalismo,para prevenir seu total colapso. Como o autor está plenamente ciente, ou deveria saber, as economias das nações industrializadas colapsaram em 1930 — Nós chamamos esse colapso de Grande Depressão. A evidência histórica oferece muitos recursos para mostrar que a economia desses países apenas começaram a se recuperar quando eles abandonaram o padrão-ouro e cortaram o valor das mercadorias do seus preços nominais (moeda fiduciária)”.
Jehu, “Four Questions for LK on Money,” The Real Movement, February 20, 2016.

Isto é um grande mal-entendido e uma perversão da teoria de Marx.

Marx não previu o corte entre a “relação valor-preços” depois de seu tempo, como nós vimos no volume 3 do Capital. Os preços no capitalismo do século XIX   divergiam do seu verdadeiro valor-trabalho porque os preços de produção se tornaram as âncoras para o sistema de preços.

No volume 1 do Capital onde Marx assume que as mercadorias tendem a se trocar no seu verdadeiro valor-trabalho, Marx não faz nenhuma previsão do corte da “relação entre valores e preços,” e sua teoria de porque capitalismo vai colapsar não contem uma teoria do corte da “relação preço-valor.”


 

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