Chesterton, Say e crises

Este artigo foi originalmente postado em GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes e está sendo reblogado aqui na Reação Nacional.

A correção e ajuda na saída de crises econômicas é uma das ações do governo que podem melhor ser executadas através de um aparato estatal. Para os liberais e libertários toda e qualquer crise é obra única e exclusivamente do Estado, muitos chegam mesmo ao cúmulo de dizer que sem a existência de Estado as crises jamais existiriam. Então cabe a este texto demonstrar como naturalmente as crises econômicas podem acontecer sem qualquer interferência governamental (lembrando sempre que embora Estado e governo sejam coisas distintas, na realidade ambas se manifestam em conjunto).

Segundo os clássicos, neoclássicos e austríacos não pode existir a crise de superprodução, pois existe uma igualdade no que é produzido e consumido. Isto é, a oferta ao remunerar um trabalhador ajuda a criar ou a manter seu próprio mercado, então, o consumo e a demanda deste mesmo empresário dependem do volume de pessoas por ele empregadas. De forma que tudo o que é produzido é de certa forma consumido, esta é em resumo, a lei de Say. A lei de Say é dividida em duas categorias que podem ser chamadas:

  1. Identidade de Say – que afirma que toda mercadoria produzida se constitui ipso facto em uma commodity que pode ser trocada por outra, uma vez que ninguém retém nada por tempo indeterminado, e isso inclui dinheiro.
  2. Igualdade de Say – que admite que períodos de desigualdade da demanda e da oferta podem teoricamente acontecer, mas que são raríssimos e que logo desapareceriam.

A lei de Say é hoje considerada falsa, embora ela mesma denote uma ligação que muitos austríacos decidem negar, a paridade demanda-emprego, algo que já era conhecido até mesmo pelo grandíssimo G.K. Chesterton que em “The outline of sanity” diz:

Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais difícil que a maioria deles se tornem clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negocio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que os outros tem pra gastar com carvão. […] É um círculo vicioso no qual a sociedade assalariada há de finalmente afundar ao começar a abaixar lucros e abaixar salários;[…] (CHESTERTON, 2016, p.30)

Para entendermos porque este mecanismo possibilita as crises, é necessário entender a eficiência marginal do capital (doravante EMgC) que, servirá de mecanismo que nos possibilitará entender a teoria dos juros. Para compreender a EMgC, é primeiro necessário compreender o conceito de utilidade marginal, que nos diz simplesmente que a adição progressiva de unidades de um determinado bem de consumo ou investimento em um mercado o torna menos útil em face de uma dada demanda. Por exemplo, se você tem vontade tomar garapa, porque, por alguma razão, trabalhou muito o dia todo debaixo do sol quente e está morrendo de sede, quando você ver o primeiro copo, você ficará louco por ele, e tenderá a dar um valor maior de dinheiro por ele, mas após o primeiro copo, sua necessidade do segundo se tornará menor, e assim o terceiro, o quarto, e como consequência disso, você estará menos disposto a pagar o mesmo valor por mais um copo.

O conceito da EMgC funciona de modo análogo, pois se a função do capital é a produção, temos que nos perguntar qual é o objetivo mesmo da produção? O lucro. Então, em resumo a EMgC é a utilidade de um bem de investimento (capital) em função da sua possibilidade de gerar lucros. Como expliquei neste texto sobre John Maynard Keynes:

 A EMgC é a diferença entre o custo do capital (quer para comprar uma unidade extra, quer pra substituir ou reformar uma antiga), a taxa de juros e a expectativa de lucro futuro deste mesmo capital. A longo prazo, a tendência da EMgC é cair, não só pelo avanço tecnológico, mas também pelo aumento da oferta e, consequentemente, da posse deste capital, por exemplo:

Se um empresário qualquer compra uma máquina inovadora que é capaz de produzir mais que seus concorrentes pelo mesmo custo de uma máquina anterior menos eficiente, a EMgC desse capital aumenta, já que o custo deste capital (pressupondo uma taxa de juros favorável ao investimento) é pequeno em face da expectativa de lucro futuro. Como este empresário produzirá mais pelo mesmo custo, o aumento da oferta fará os preços de seus produtos baixarem ganhando assim mercado em face de seus concorrentes. Contudo, à medida que seus concorrentes também forem equipando suas empresas com esse maquinário mais moderno e eficiente, os empresários concorrentes passarão também a baixar os seus custos recuperando parte do mercado que perderam outrora, fazendo cair assim à expectativa de lucro do primeiro empresário e reduzindo a sua EMgC.

Assim, podemos definir que a EMgC pode ser corretamente exposta como sendo:

L= Lucro – C = capital – i = juros

Quem também percebe essa relação entre a quantidade de capital e a taxa de lucros é o neoclássico Robert Solow, que formulou sua famosa função da seguinte forma:

Função de Solow

Assim, percebemos que a EMgC tende a cair com o tempo, resultando obviamente que as taxas de lucro cairão, então, para que o investimento continue sendo rentável é necessário que a taxa de juros caia também. Então você pensa; O raios! Se a expectativa de lucro futuro cai, então o investimento tenderá a ser menor, o que fará com que nem todo o capital seja investido, resultando, obviamente, em uma poupança. Mas, se a poupança aumenta, a taxa de juros cai, certo? Bem, nem sempre cai na proporção necessária, e aí entra a teoria dos juros.

Para compreendermos o porquê dos juros não caírem, precisamos compreender ainda dois termos, que são liquidez e incerteza, e após isso, entender que a natureza mesma do dinheiro dificulta a queda da taxa de juros. A incerteza é a impossibilidade de definir com certeza os eventos futuros e que pode ser maior ou menor a depender do cenário econômico. Já a liquidez é a disponibilidade do dinheiro no menor tempo possível. Obviamente quando o dinheiro está aplicado num título de capitalização, sua liquidez é menor que quando na poupança, que por sua vez é menor que quando ele está em mãos. Assim, a taxa de juros é o preço da moeda na medida em que é o preço pago para que alguém abra mão da liquidez.

O outro ponto é a natureza mesma da moeda. O dinheiro é um produto cuja demanda sofre de uma inelasticidade que lhe é inerente. Para melhor compreensão, este artigo é fundamental, pois se a demanda por dinheiro aumentar (provocando alta nos juros), os bancos simplesmente não produzem mais moeda, ou pelo menos não através da contratação de trabalhadores. A fabricação de moeda pelos bancos privados depende das reservas fraccionárias, não de mão-de-obra, portanto, não se enquadra no que é necessário para maior elasticidade. Como consequência temos o resultado de que as pessoas são obrigadas a usar a moeda independente de seu preço (juros). É claro que a demanda por moeda varia de acordo com seu preço, mas varia muito menos do que os preços dos bens convencionais por estes terem maior elasticidade. O juro subirá ate um certo ponto em que o aumento do preço não modificará a demanda, e cairá do mesmo jeito. Em outras palavras, imaginemos um produto qualquer sem substitutos; se por alguma razão a demanda por ele cresce, seu preço subirá, a empresa contratará mais funcionários, fabricará mais desse produto e o aumento da produção fará o preço voltar ao normal, os salários pagos farão que o consumo cresça novamente. O mesmo não ocorre com o dinheiro, os bancos não produzem mais dinheiro e o resultado é que o preço dele (juro) resiste a cair na proporção necessária para usar toda a poupança, pois os banqueiros não têm interesse em baixar demais os juros por não poder repor o pool de poupança. Com isso, a taxa de juros cai pouco, pois em dado momento a demanda por dinheiro não se altera em função da taxa de juros, ponto em que surge a liquidity trap.

Assim, nem sempre taxa de juros acompanha na mesma proporção a queda da EMgC, e como resultado, acontece o entesouramento progressivo de dinheiro, o que leva a criação de uma crise deflacionária marcada pela queda acentuada da demanda agregada. Então, a intervenção governamental pode ser útil para forçar a queda da taxa de juros. Mas esta não é a única forma em que as crises podem ser endógenas. Na parte 3, veremos algumas outras consequências do não-intervencionismo liberal e do abolicionismo estatal libertário.

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