A escola austríaca e a moeda de Schrödinger

Arthur Rizzi*

A contribuição mais central e relevante da Escola Austríaca de economia para a ciência econômica é sem dúvidas a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (doravante TACE), ela se funda na sua versão mais difundida, a proposta por F.A. von Hayek na ideia de que qualquer queda artificial da taxa de juros produz malinvestiments, dado que o dinheiro novo na medida em que entra no sistema produtivo converte-se em investimento em maquinários, aumentos de salário, e não tendo isso qualquer lastro em poupança real e em poder de consumo, terminará por criar uma recessão. Fica claro portanto, que essa tese que ampara não só a interpretação austríaca do ciclo econômico como a própria teoria da inflação, se ampara no conceito de não-neutralidade da moeda.

Se você é leigo e não entende economês, não importa, a gente explica: neutralidade da moeda é o conceito segundo a qual a moeda serve apenas e exclusivamente como meio de troca, não tendo valor em si, mas apenas enquanto meio de troca por outras mercadorias. O que significa entre outras coisas, que um aumento ou uma contração da oferta monetária não produz alterações reais na economia, apenas nominais, como a variação do nível de preço dos produtos através da apreciação ou depreciação da moeda frente eles. Assim, o “valor” da moeda seria apenas o seu valor enquanto meio de troca. Em outras palavras, como podemos ver na teoria quantitativa da moeda (que assume a neutralidade da moeda), aumento na oferta monetária só produz inflação, mas não mudanças estruturais na economia em variáveis como emprego e produção.

“a teoria dos ciclos reais (proposta novo-clássica de Robert Lucas Jr.) supõe que a moeda é neutra. Ou seja, a política monetária não afeta as variáveis reais, como o produto e o emprego.” (MANKIW, 1998, p.301)

Assim, portanto, é dedutível que a não-neutralidade da moeda afirma exatamente o inverso. De que a moeda não é neutra e que ela produz alterações estruturais profundas na economia, o que aliás é proposição da TACE, tendo inclusive um valor próprio.

Entretanto, a TACE se ampara na teoria da taxa natural de juros. Essa teoria desenvolvida pelo economista sueco Knut Wicksell propunha uma teoria não monetária dos juros, isto é, cada bem da economia teria uma taxa de juros própria, e o preço do crédito (juros monetário) estaria em equilíbrio quando esta coincidisse com a taxa real dos bens. Assim, a moeda seria um veículo neutro capaz de reproduzir todos os juros da economia. Para que a taxa de juros seja o juros verdadeiro, é necessário que a moeda seja neutra, dessa forma, sempre que o juros monetários estivessem abaixo do juro real (dos bens in natura), haveria inflação e sempre que estivesse acima, haveria deflação, mas sem em nada afetar estruturalmente a economia no longo prazo.

A Lei de Say implica uma economia onde a moeda é “neutra”. Nas palavras do próprio economista francês:

Nos lugares que produzem muito, cria-se a única substância com a qual se pode comprar: refiro-me ao valor. O dinheiro representa apenas um ofício passageiro nessa troca dupla; e, terminadas as trocas, verifica-se sempre: produtos foram pagos com produtos. (…) Os produtos criados fazem nascer demandas diversas. (Say, 1803, p. 139 e 142)

Essa afirmação é a base da Lei de Say, que é um dos alicerces da TACE. Como nos diz o próprio Thomas Sowell (1994, p.39-41) enquanto explica a lei de Say – tradução livre:

“Não existe perda de poder de compra em nenhum lugar da economia. Pessoas poupam apenas na extensão do seu desejo de investir e não seguram dinheiro muito além das suas necessidades de transacionar durante esse período”.

Ora, para que a TACE seja verdadeira, a lei de Say deve ser verdadeira, e para que a lei de Say seja verdadeira, a taxa natural de juros tem de ser verdadeira. Uma vez que entendamos essa linha de dependências lógicas percebemos a grande contradição.

Para que a TACE seja verdadeira, a moeda não pode ser neutra; e para que a lei de Say seja verdadeira a moeda tem que ser neutra! Em outras palavras, ou Erwin Schrödinger virou economista e trouxe seu gato (chamemos o bichano de catcoin) para o trabalho, ou o princípio de não-contradição ainda vale e a mesma moeda não pode ser e não ser neutra ao mesmo tempo! Essa é uma das razões pelas quais devemos ou rejeitar a lei de Say ou rejeitar a TACE.

Consequências lógicas:

Temos então dois cenários:

  1. Rejeitamos a lei de Say: Se rejeitarmos a lei de Say, então damos razão a Keynes, e dizemos que pode haver perda de poder de compra na economia através de entesouramento e de investimento em ativos líquidos não reproduzíveis, o que impossibilita a TACE de existir.
  2. Rejeitamos a TACE: Logo, nessa hipótese, a teoria austríaca da inflação também não é verídica, e como consequência as teorias de ciclo alternativas, como a de Wilhelm Röpke em seu “Crisis and cycles” passam a ser teorias melhores. E na questão da inflação teremos de dar razão a James Tobin no seu clássico “Moeda, capital e outras reservas de valor“.

Independente do que você prefira, a TACE não é válida;

Referências:

MANKIW, Nicholas Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 1998.

SOWELL, Thomas. Classical Economics Reconsidered, Nova Jersey: Princeton University Press, 1994.

SAY, J. B.  Tratado de economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1986 (1. ed. em
francês, 1803) 1803.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e estudioso de história do pensamento econômico. 

O outro Brasil que vem aí – poema de Gilberto Freyre

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

Raphael Mirko – Observações acerca das mercadorias fictícias – uma visão de Karl Polanyi

por Raphael Mirko

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Primeiramente Polanyi busca traduzir os sistemas econômicos e as sociedades em épocas distintas, como por exemplo: o feudalismo, o mercantilismo e o capitalismo contemporâneo.

Polanyi escreve sobre isso em 1944, no seu livro “A Grande Transformação As origens da nossa época”. Ou seja Polanyi viu e provavelmente estudou sobre a grande crise de 1929, apesar dele não demonstrar explicitamente no livro, ele esboça com clareza os problemas de um mercado “autorregulado” que desaguou na crise de 1929. Então Karl Polanyi descreve que nas sociedades mais antigas, o mercado era um mero acessório de vida e não a atividade principal, basicamente porque nestes sistemas anteriores ao capitalismo, a terra não era uma mercadoria fictícia, ela era um capital, produto de “investimento” e não de especulação, no caso do feudalismo, e no mercantilismo a terra também não detinha um caráter especulativo, apesar da estrutura comercial que estava por emergir. Assim como a moeda se torna uma mercadoria fictícia no capitalismo moderno, quando anteriormente ela cumpria apenas a função de instrumento de troca e poder de compra de um produto, produto esse que não era produzido em escala, produto esse que era produzido artesanalmente, no caso do feudalismo, portanto o comprador esperava pela mercadoria e não o contrário, então a flutuação de preços era quase inexistente nesses casos, uma crise de superprodução era impossível. Esses “problemas” passaram a surgir somente com o advento da Revolução Industrial.

Com a Revolução Industrial passamos a ter a produção em escala, passamos a ter a lógica de que o trabalho também é uma mercadoria, ou seja, também passamos a ter a ideia da lei de oferta e demanda, vamos aos exemplos:

Quando um homem sentia a necessidade de comprar um novo par de sapatos durante a idade média, ele teria de ir até o sapateiro, encomendar o seu produto para que ele fosse feito manualmente.
Na sociedade de mercado, após a revolução industrial, os pares de sapatos passaram a ser produzidos em escala, não mais o cliente esperava pela mercadoria, a mercadoria esperava pelo cliente. Com isso, quando havia uma superprodução, havia logicamente uma queda generalizada nos preços de sapatos e quando havia uma grande procura pelos pares de sapatos, ou seja, mais pessoas querendo comprar pares de sapatos que estariam sendo vendidos no mercado, o preço dos pares de sapatos tenderiam a subir. Com isso, o risco para os donos dos meios de produção dentro de uma sociedade de mercado, eram drasticamente maiores e mais instáveis.

Para Karl Polanyi o liberalismo é completamente desconectado da natureza do homem, já que tudo é transformado em mercadoria, quando me refiro a “mercadoria”, quero dizer algo que existe para ser vendido, desde a mão-de-obra do trabalhador, o que poderia originar um caos, devido a sua insatisfação, passando pela mercadoria fictícia da terra e da moeda.
“Despojados da cobertura protetora das instituições culturais, os seres humanos sucumbiriam sob os efeitos do abandono social; morreriam vítimas de um agudo transtorno social, através do vício, da perversão, do crime e da fome.”¹

Mas qual o problema de tudo ser transformado em mercadoria fictícia? O problema é que quando algo se transforma em mercadoria, ela deixa de ser um direito, porque todos passam a interpretá-la como um meio direto ou indireto para o lucro.

Polanyi também era um crítico da extrema exploração ecológica, alertando para a possível revolta que a natureza poderia ter contra o homem que a explora visando o lucro desenfreado.
“A natureza seria reduzida a seus elementos mínimos, conspurcadas as paisagens e arredores, poluídos os rios, a segurança militar ameaçada e destruído o poder de produzir alimentos e matérias-primas.”²

Mas sem sombra de duvidas, deposito na conta da moeda o agente de mercadoria nefasta, uma vez que ela alimenta e se alimenta da especulação que acaba conduzindo à bolhas, bolhas que quando estouram, acabam desaguando no consumo, no crédito e no desemprego. Isso também ocorre com as bolhas imobiliárias que são cada vez mais comuns no ciclo doentio do capitalismo moderno que trabalha na lógica de “boom and bust”.

Polanyi ao longo de sua obra também alerta para as regulações de mercado que cresceram conforme foi expandindo a própria economia, quebrando o mito de “anarquia de mercado” que imbeciloides de gabinete defendem com unhas e dentes, jogando na lata do lixo toda a história econômica do capitalismo.

Parafraseando Perón, sem exatidão, não existe livre mercado, ou ele é controlado pelo Estado ou pela plutocracia.

REFERÊNCIAS
¹.pg 79 “A Grande Transformação As origens da nossa época”
².pg 79 “A Grande Transformação As origens da nossa época”

Mises contradiz Rothbard em matéria de inflação.

Este artigo foi originalmente postado no Social Democracy in 21st Century e republicado por Reação Nacional.

No Mises.org há um artigo interessante acerca das definições de inflação entre os austríacos.

Per Bylund, “Inflation and Deflation: Austrian Definitions,” November 18, 2011.

Em essência, o autor cita esta definição de inflação por Mises em seu tratado The Theory of Money and Credit (1953):

“Inflação: um aumento na quantidade de dinheiro (em sentido amplo do termo, assim incluindo meios fiduciários de pagamento), que não é contrabalanceado por um aumento correspondente na procura por dinheiro (novamente em sentido amplo do termo), então uma queda no valor objetivo de troca do dinheiro acontecerá. Novamente, deflação significa: uma diminuição da quantidade de dinheiro (em sentido amplo) que não é contrabalanceado por uma diminuição correspondente na procura por dinheiro (em sentido amplo), o que produz um ganho no valor objetivo de troca do mesmo.” (Mises 2009 [1953]: 240).

O significado dessa passagem é discutida por Horwitz (2000, p.78), que argumenta que isso parece permitir a idéia de que um Sistema bancário de reserva fracionária poderia criar crédito e moeda (meios fiduciários) em resposta a uma demanda por isso, sem, na visão de Mises, causar inflação.

Em contraste a esta visão, nós temos a definição de Murray Rothbard em Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles (1962):

“O processo de emissão de pseudo-recibos de depósito ou, mais exatamente, o processo de emissão de dinheiro além de qualquer aumento no estoque de espécie, pode ser chamado de inflação. Uma contração da oferta de dinheiro enorme em comparação a qualquer período (exceto numa queda de espécie) pode ser claramente chamado deflação.” (Rothbard 2004 [1962]: 990).

Essa definição obviamente contradiz a de Mises, e o que nós temos aqui é  uma clara divisão dentro da escola Austríaca aqueles que:

(1) sustentam o  “equilíbrio monetário” como visão acerca da inflação como aumento de dinheiro maior que a demanda por ele (Tal como Steve Horwitz, e a visão dos Free Bankers), e

(2) os Rothbardianos e outros anti-reserva fracionárias que afirmam que qualquer aumento na oferta de dinheiro não lastreada por mercadorias como inflação.

 

BIBLIOGRAPHY

Horwitz, S. 2000. Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective, Routledge, London and New York.

Horwitz, S. “Mises Defining Inflation the Monetary Equilibrium Way (in 1951),” Coordination Problem, September 3, 2009.

Mises, L. von, 2009 [1953]. The Theory of Money and Credit (trans. J. E. Batson), Mises Institute, Auburn, Ala.

Rothbard, M. N. 2004 [1962]. Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala

Peter “Doomsday” Schiff – O economista do apocalipse.

Texto originalmente publicado em 2015 no Social Democracy in 21st century e republicado aqui com tradução, comentário e adaptação de Reação Nacional.

Prova abaixo, do icansável Peter Schiff, quem, ao lado de outros austríacos, é um dos que rejeitam evidências empíricas.

https://www.youtube.com/watch?v=eicJ384DO0w

Aparentemente, a moeda americana (o dólar) estava fadado ao colapso e hiperinflação em 2015, mesmo que embora ele tenha feito similares previsões que falharam em se materializar em 2010, 2011, 2012, 2013 ou 2014. Enquanto no mundo real, o MIT Billion Prices Project, nos oferece uma medida independente da inflação nos Estados Unidos, nós podemos ver que não há nenhum pico de inflação, e de fato uma inflação muito baixa com tendências desinflacionárias.

Existe, além disso, medo real de deflação que podia reaparecer nas maiores economias ocidentais em 2015, como poderia ser visto aqui e aqui.

Na minha humilde opinião, a real crise de 2015 poderia ter vindo da zona do Euro, não dos EUA, como a renegociação da dívida grega e a tentativa de acabar com a austeridade que poderia abalar as bases da moeda única e da economia neoliberal.

Esta é uma das razões pela qual Christopher Ferrara chamava os economistas austríacos de “doomsday economists” e zoou os mesmos dizendo que eles acertaram 11 das últimas 4 crises.

Aumento de base monetária nem sempre gera inflação.

O texto abaixo é um excerto de um texto maior de Humberto Matos publicado no blog Acervo crítico, comentado e transcrito por Reação Nacional.

O economista da síntese keynesiana-neoclássica James Tobin num texto chamado “Money, Capital and Other Stories of Value”, demonstrou que quando ocorre um aumento de base monetária (doravante BM) por parte do BC, isso não gera o efeito riqueza que seria a causa de inflação.

Vejamos o argumento quatitativista para justificar a inflação a partir da expansão da BM é que com mais meios de pagamento haverá um aumento do consumo e isso incorrerá numa inflação de demanda. Esse argumento despreza a capacidade ociosa da indústria em momentos de economia desacelerada, entretanto vamos assumir que não há capacidade ociosa para não invalidar o argumento.

Segundo Tobin, o que ocorre quando o BC expande base é uma troca de ativos financeiros o que não é capaz de produzir efeito riqueza porque ninguém consome mais na economia em função de uma mudança na composição dos ativos na economia. Ele diz isso afirmando que existem duas formas do BC expandir a BM. Uma é numa operação de open market onde ele compra títulos públicos que estão na mão do setor privado. Essas operações são possíveis porque já existem títulos públicos vendidos pelo BC numa operação anterior inversa, uma operação de venda de títulos para o setor privado.

Nesse caso, o BC trocou parte de sua reserva em moeda estrangeira por títulos que estavam em poder do público (os BCs compram e vendem moeda estrangeira para compor as reservas monetárias do país), com esses títulos, ele expande a base, ou seja, ele usou parte de um capital imobilizado como reserva financeira – suas reservas em moeda estrangeira – que havia extraído da economia a partir de seus lucros, para comprar títulos que já haviam sido criados pelo Governo, esses títulos são então usados para compor os ativos do BC permitindo a emissão de moeda, assim, há menos títulos na economia e menos moeda estrangeira imobilizada e mais moeda nacional, o que não gera efeito riqueza e, não altera o nível de ativos na economia, portanto, não gera inflação.

O outro modo do BC expandir a base – e o mais comum – é saldando as dívidas da balança de pagamentos do Governo. O Governo gasta mais do que arrecada e a parcela faltante é paga com emissão de dívida. Nesse caso, argumenta Tobin, também ocorre uma troca de ativos financeiros. Existe essa troca, segundo ele, porque o déficit é fruto de investimento público então se troca investimento por dívida. Se é investimento, se espera retorno. Assim, também não gera efeito riqueza e, portanto, não causa inflação de demanda.

RN: Essa é a razão pela qual os Quantitative Easings após a crise de 2008 não geraram inflação nem hiperinflação como alardeado por Peter Schiff. A mesma razão explica por exemplo a enorme base monetária japonesa, maior que o próprio PIB do país e inflação mínima.

Num mundo de moeda fiduciária, mas com o dólar como instrumento para a finalização dos contratos no mercado internacional atrelado ao ouro, a mecânica da economia funciona como na moeda mercadoria e os preços são relativos, assim, o que poderia também causar inflação seria o câmbio, ou melhor – já que estamos falando de padrão ouro – o saldo da balança comercial.

Nesse caso, Tobin argumenta que não é o volume de meios de pagamentos que geram esse desequilíbrio e conseguinte inflação, ele argumenta que esse desequilíbrio é fruto do nível de atividade econômica, ou seja, a produção. Se a expansão da base é o custo do investimento e se o investimento é o que aquece a economia e se por último, a economia aquecida impede a desvalorização causada pela balança comercial, não há como um aumento de BM do BC causar inflação nessa segunda e mais recorrente situação também.

A regulamentação econômica manteve o capitalismo sobre certa estabilidade até os anos oitenta do século XX. Neste período a inflação passou a se tornar um problema e a dívida pública também. As regulamentações impostas depois da crise de 29 admitiam a inflação como instrumento para evitar o desemprego, com o tempo foi se tornando cada vez mais difícil manter o nível de crescimento do consumo a fim de sustentar o modelo de moeda dívida num ritmo saudável sem comprometer a capacidade de pagamento da dívida pública, a concentração natural do capital em meio ao modelo capitalista fazia com que cada vez mais os países da periferia do capitalismo não conseguissem manter a estabilidade de suas moedas devido a falta constante de capacidade de honrar com o pagamento dos seus títulos. Quando os países da periferia do capitalismo não conseguem horar seus pagamentos, seus credores ficavam com o prejuízo então, isso não era bom para a economia capitalista. O credor, em última análise era o FED (BC dos EUA) – a moeda padrão para as transações internacionais já era o dólar – que mantinha um padrão ouro e fazendo isso, controlava o câmbio.

Essa situação se modificou a partir de 1971, quando o FED deixou de seguir o padrão ouro e corrigiu sua política de juros a fim de resolver seu problema de balanço de pagamentos:

“Reformar o Estado não basta” diz Bresser-Pereira.

Nosso colaborador Ricardo Carvalho se reuniu através de seu grupo de estudos com o economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira no último dia 15 de fevereiro para uma conversa. Inicialmente tratando da reforma do Estado de 1995, Bresser mencionou a importância e o êxito da reforma: “os objetivos eram tornar os órgãos de Estado mais autônomos e seu objetivo fundamental era tornar mais eficiente os grandes serviços públicos, bem como legitimar o Estado de bem-estar social“.

Citando, porém, o seu livro mais recente “Em busca do desenvolvimento perdido” publicado pela editora da FGV (2018), porém Bresser diz que simplesmente reformar o Estado não basta, “é necessário que o Estado e o empresariado voltem a investir“. O mais grave dos problemas brasileiros, não seria portanto, a eficiência do Estado, mas sim o baixo crescimento.

Promovendo a sua teoria “novo-desenvolvimentista”, Bresser-Pereira oferece algumas explicações e soluções para a crise presente: “O governo Lula teve taxas de crescimento maiores que o de FHC, mas foi devido a um boom de commoditties e não porque teve políticas melhores que as de seu antecessor. Foram tão ruins quanto, no meu entender. E a Dilma foi um completo desarranjo que levou-nos a crise atual“. Dentre estas explicações, Bresser avançou com a crítica à doença holandesa, citando o livro que escreveu na década passada “Macroeconomia da estagnação“, onde argumenta que a  apreciação “cíclica e crônica” da taxa de câmbio promoveria a  dependência de capitais externos e a desindustrialização do país, o que dificultaria o seu crescimento econômico e produziria crises financeiras cíclicas

No período em que você está com a taxa de câmbio sobrevalorizada, você está na zona do déficit em conta corrente, e quando você está com déficit em conta corrente você aumenta sua dívida externa“.

Embora mencione cinco preços macroeconômicos fundamentais (taxa de lucros, taxa de salários, taxa de câmbio, taxa de juros e a taxa de inflação), para Bresser a taxa da câmbio é a mais estratégica e também a menos estudada. Há um jargão que se atribui a Edmar Bacha de que “a taxa de câmbio foi inventada para humilhar os economistas“, com o qual Bresser aparentemente concorda. Segundo estudos recentes, a taxa de câmbio seria muito difícil de se prever, “é um caminho ao acaso“, comenta Bresser. A teoria novo desenvolvimentista, segundo ele, aumentaria sua previsibilidade.

Bresser realça que além do equilíbrio na conta fiscal, a conta corrente deve ficar equilibrado ou levemente superavitária, posição que o afasta da opinião majoritária dos economistas. “A conta fiscal e a conta corrente do Balanço de Pagamentos são as duas contas fundamentais da economia. O economista liberal acredita que todo problema é um problema fiscal que se remedia com corte de despesa […] eu dou mais ênfase a conta corrente porque ninguém fala dela“. Pontua, entretanto, que a responsabilidade fiscal é igualmente importante:

Sou absolutamente favorável ao equilíbrio fiscal e sou profundamente crítico dos economistas de esquerda, pois assim como os da direita que querem resolver tudo pelo corte de gastos, os de esquerda querem resolver tudo pelo aumento das despesas. É o que eu chamo de keynesianismo vulgar“.

Para Bresser, se o problema brasileiro fosse apenas fiscal os problemas atuais não existiram da forma como existem. “Em 1998 o Brasil teve uma crise financeira, e iniciou-se um processo de ajuste que perpassou o segundo mandato do Fernando Henrique e todo o governo Lula, e durante 12 anos o país esteve com controle de gastos em dia, com redução da dívida líquida. Se fosse só isso o país deveria estar nadando de braçada, deveria ter retomado o desenvolvimento econômico”.

Bresser propõe que o Brasil tenha um superávit pequeno em conta corrente, da ordem de 1% do PIB, observando que vai na contra-mão do que pensam quase todos os economistas de esquerda e direita, que aceitam déficit em conta corrente de até três porcento, contanto que a maior parte desse déficit corresponda a investimentos diretos estrangeiros. “O Brasil estaria, assim no ver deles, no melhor dos mundos; pois se há déficit em conta, ele deve ser financiado com poupança externa ou endividamento“. Esse posicionamento se basearia na noção de que é “natural” que países abundantes em capitais os exportem para países nos quais há escassez de capital, e critica o dogmatismo dessa visão como um sintoma de dependência ideológica em relação a interesses externos:

Exportar capitais é o programa fundamental de qualquer império. Exportar capitais e receber em troca  os juros e lucros decorrentes.

E com a didática de costume, Bresser explica:

Quando você aceita ter 3% do PIB é deficit em conta corrente, isso significa que todos os anos entram a mais do que saem, aproximadamente 3% do PIB em capital estrangeiro. A entrada de investimento estrangeiro aumenta a oferta de moeda estrangeira no país, o que faz com que a taxa de câmbio se aprecie. Esse fenômeno que leva o câmbio a ficar permanentemente apreciado fará com que as empresas (nacionais) produtoras de bens comercializáveis não invistam, pois não têm condições de competir.”

Complementa Bresser:

“Os trabalhadores e rentistas, tendo seus salários e rendas reais apreciados, continuam a consumir, mas esse dinheiro passa a se dirigir ao exterior, mantendo e até piorando a apreciação do câmbio, de forma que a poupança interna cai e a dependência de poupança externa aumenta […] ou seja, é inútil querer crescer com capital externo. Como dizia meu tio [Barbosa Lima Sobrinho]capital se faz em casa“.

Criticando o planejamento centralizado da economia, Bresser-Pereira afirma que o novo desenvolvimentismo é uma teoria de mercado que considera além de patrões e empregados, também os policy makers como sendo agentes econômicos. É possível, inclusive, fazer previsões a partir do comportamento habitual deles“. Não se trata de fechar o país ao investimento externo direto, segundo Bresser, mas oferecer estímulos ao mercado para que “a taxa de câmbio fique no lugar certo“.

China:

Para Bresser-Pereira, quem alega que a China só cresceu devido a investimentos diretos externos, vê o cenário pela metade apenas: “A China manteve seus cinco preços fundamentais no lugar certo e está a 38 anos com taxas de crescimento recorde, tendo apenas 3 anos de déficit em conta corrente“. Em outras palavras, a China não cresceu com capita externo e, concordando sem saber com Niall Ferguson, Bresser-Pereira concorda com a Chimérica: “A China financiou o consumismo americano, através de compra de títulos americanos“.

FHC:

Bresser, que foi ministro de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) da administração federal e reforma do Estado, no primeiro mandato, e da ciência e tecnologia, no segundo, também avançou críticas a Teoria da Dependência do ex-presidente. “Na visão de FHC, o Brasil não tem e jamais terá elites nacionalistas, portanto não pode se desenvolver com autonomia, devendo antes se associar ao Império, isto é, à burguesia dos países centrais. Eu não acredito nisso”. Isso, completa Bresser, reflete um “domínio ideológico muito difícil de se quebrar“.

Um dos frutos dessa teoria errada, segundo Bresser, é que o Brasil tem exportado mão de obra e cérebros para os países ricos, o que o faz permanecer na condição de subdesenvolvido.

PT:

Criticando também o PT, Bresser reafirmou sua abordagem novo desenvolvimentista. Com os custos do trabalho crescendo acima da produtividade e a apreciação cambial, “o que os governos petistas fizeram foi inventar um novo capitalismo: o capitalismo sem lucro“, ironiza. Forneceu ganhos momentâneos de poder de compra ao trabalhador, que “passou a importar bens manufaturados crescentemente, arrasando com as taxas de lucros do empresariado nacional.” Culminou sua crítica com uma pergunta retórica: “Como fazer política industrial nessas condições?

O PT na visão de Bresser tentou embarcar num desenvolvimentismo clássico sem ter condições para tal, e na visão dele o desenvolvimentismo clássico falha por considerar apenas o papel da política industrial, como juros subsidiados, medidas de estímulo, etc. Citando o caso da Ásia, Bresser diz que eles quase nunca se perguntam “como estavam os cinco preços macroeconômicos fundamentais desses países? Como estavam as contas públicas? Como estavam as contas cambiais?” A ex-presidente Dilma Rousseff teria, na visão dele, tentado fazer política industrial através de “uma enorme farra fiscal de subsídios sem critério a empresários“.

Bolsonaro:

Sem tratar diretamente do atual presidente Jair Bolsonaro (PSL), Bresser-Pereira circundou o ambiente que levou à sua eleição na conversa. Quando perguntado se temas morais foram estratégia para evitar o debate econômico, Bresser negou. “Temas de comportamento ganharam enorme importância justamente porque a grande maioria do povão não entende a gravidade da questão econômica“, e aprofundou, “o Brasil precisa muito pouco hoje de economistas. O Brasil precisa de engenheiros, de pessoas capacitadas, mas sobretudo que o povo entenda e participe do debate econômico“.

Para Bresser a grande novidade da eleição de 2018 foi “o discurso do ódio associado a uma hegemonia ideológica liberal“. Segundo ele, era algo previsível o que ocorreu. “Em 2013, na época das manifestações eu avisei e escrevi artigos sobre o assunto“. Esse ódio foi ganhando corpo até as eleições de 2014. “Em 2014 a Dilma infelizmente venceu, teria sido melhor que Aécio tivesse vencido, não obstante os problemas com corrupção“, isso na visão dele teria anestesiado a crescente insatisfação popular.

Para Bresser, a direita liberal com a qual seria possível dialogar seria a terceira via na linha de Bill Clinton e FHC, e compara Bolsonaro ao Partido Republicano, a quem vê como o partido do ódio. Bolsonaro seria a versão brasileira do GOP e, portanto, um fruto da política de ódio que começa a nascer em 2013 e que se desenvolve com a eleição de 2014 e impeachment de Dilma, processo que vê como um golpe.

O projeto neoliberal:

Para o ex-ministro, o projeto neoliberal consiste em destruir as leis trabalhistas e o estado de bem-estar social. “Mesmo que se demonstre e ele concorde que para um determinado fim, pode-se fazer reformas preservando os direitos sociais, ele ainda assim tentará destruí-los.” É uma questão de visão de mundo. Ideologia.

Bresser não nega o caráter técnico que envolve a discussão neoliberalismo vs. desenvolvimentismo, mas afirma que há também um fator político.

“Os americanos inventaram a globalização, mas quem foi a grande vencedora dela foi a China com custos salariais baixíssimos e uma baixíssima preocupação com bem-estar social. Assim, os liberais se focam em controlar a ascensão dos salários como forma de controlar o custo do trabalho”.

E por fim, Bresser critica essa visão, demonstrando que, ao contrário do que se pensa, as políticas públicas associadas ao welfare state obtêm resultados mais eficientes do que ocorreriam se deixados a cargo do mercado. “O custo médio da saúde pública na Europa é de 11% do PIB com uma cobertura universal. Nos Estados Unidos, o custo do serviço privado é de 17% do PIB e com grandes frações da população com má cobertura de saúde ou até sem qualquer cobertura”.


Luiz Carlos Bresser-Pereira é economista, proponente do novo desenvolvimentismo, ex-ministro da fazenda, da administração federal e reforma do Estado, e da ciência e tecnologia.