Cuidado com a retórica anti-indústria

Artigo importantíssimo.

Novo Desenvolvimento

O jornal Valor Econômico noticia hoje, dia 26 de março, que
o ABC Paulista vai virar o símbolo da desindustrialização do país, com perda no
seu PIB Industrial entre 2013 e 2016 de quase 39% (descontada a inflação do
período). Além disso, o nível de emprego industrial naquelas cidades ficou
12,5% menor entre 2013 e 2017. O desemprego consolidado no ABC em 2017 era de
17,7%.

Com o fechamento e transferência de fábricas dali para
outros lugares do Brasil ou do mundo, o derretimento do polo industrial do ABC
é evidente.

As causas deste processo são muitas e muito diferentes entre si. Mas chamo a atenção para uma interpretação falaciosa que certamente vai tentar se apropriar desta informação para reforçar sua posição política anti-desenvolvimento. Me refiro à retórica anti-indústria do ultraliberalismo.

Não dê ouvidos à falácia de que a indústria está destinada a sumir por causa da tecnologia.

Esta interpretação…

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Política industrial só gera inflação ao consumidor? Não.

O texto abaixo é um excerto do Relatório sobre as manufaturas de Alexander Hamilton, secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

Alexander Hamilton*

Falta ainda mencionar uma das objeções feitas ao fomento das manufaturas, de natureza diferente das que questionam suas possibilidades de êxito: ela se deriva da suposta tendência das manufaturas a conceder um monopólio de benefícios a certas classes em detrimento do restante da comunidade, a qual, alega-se, poderia adquirir em melhores preços os artigos de que necessita de estrangeiros, antes que dos nossos próprios cidadãos. Estas, diz-se, ficam reduzidas à necessidade de pagar um preço maior por tudo o que desejem, devido a qualquer medida que obstrua a livre competição das mercadorias forâneas.

Não deixa de ser razoável supor que as medidas que obstaculizam a livre competição de artigos estrangeiros tendem a fazer aumento dos preços – e não se pode negar que, em muitos casos, este seja o resultado -, mas a realidade nem sempre corresponde à teoria. Em muitos casos uma redução de preços se seguiu imediatamente ao estabelecimento de manufaturas nacionais. Seja porque as manufaturas estrangeiras se esforçam por deslocar as nossas, baixando os preços ou qualquer outra causa, este tem sido o efeito, o oposto que se esperaria.

Entretanto, ainda que fosse correto que o aumento dos preços constituísse um efeito imediato, e seguro da fixação de limites à competição entre os produtos nacionais e os estrangeiros, é universalmente certo que o efeito ulterior do êxito de qualquer manufatura é o oposto. Quando uma manufatura nacional chega à sua perfeição e emprega um grande número de pessoas, invariavelmente os preços caem. Livre dos pesados encargos acarretados pela importação de bens estrangeiros, gradativamente, pode-se vender mais barato que o artigo estrangeiro que substitui – e raras vezes ou nunca deixa de fazê-lo – A competição interna que passa a ocorrer, prontamente, reduz o preço do artigo ao mínimo razoável acima do capital investido. Isto concorda tanto com a razão quanto com a experiência.

[…] Do ponto de vista nacional, o aumento temporário do preços será sempre compensado pela sua redução permanente.


*Alexander Hamilton foi secretário do Tesouro dos Estados Unidos da América.

Feminismo, relacionamentos e contos de fadas

Texto originalmente postado no Instituto Shibumi por Lawlyet Ribeiro

Leonardo Lawlyet Ribeiro*

O feminismo vê os contos de fadas sob uma ótica materialista. Vêem coisas tão belas como príncipes, princesas, dragões, árvores mágicas, espelhos encantados, rios de chocolate, gigantes, castelos nas nuvens, árvores de computadores etc., como “papéis sociais opressores”.

Para o feminismo, uma princesa encantada nada mais é do que uma alienação. Um papel de passividade. A passividade de esperar um homem com determinadas características para o casamento. Para o feminismo, a princesa está sendo oprimida sem ter escolha. Talvez o feminismo pense que o príncipe é o machista opressor que deveria ser preso acusado de misoginia ao jogar a pobre princesa para longe das máquinas de tear, justamente quando ela estava quase transformando palha em ouro e conseguiria uma promoção na empresa de Rumpelstichen. Ou por tirá-la do sono tão gostoso e libertador que sua amiga ‘não-alienada’, Malévola, havia induzido (talvez para salvá-la de ser se casar com um porco machista opressor).

O ponto chave aqui é justamente os olhos com que o feminismo vê os contos de fada. No país das fadas, pêssegos capazes de dar a vida eterna continuam florescendo em árvores encantadas. Você arranca um e outro magicamente nascerá. Isso continuará sendo uma realidade no país das fadas, independentemente da visão do leitor. Não importa se essa árvore é contemplada por uma criança sonhadora que vê mágica em tudo ou por um banqueiro materialista que só vê custos em tudo. A árvore continuará sendo uma árvore encantada sempre. Essa é a realidade da árvore. Mas, por mais frutos mágicos que essa árvore seja capaz de dar, o feminismo irá ignorar essa realidade e enxergar somente o preço desses frutos. Se o fruto é capaz de dar juventude e beleza eterna, essa característica para o feminismo será somente algo a mais para poder vender os frutos. A preocupação do feminismo com a árvore não é sua mágica, mas seu custo.

Foi assim que o feminismo criou a falácia da ‘cultura de princesas‘. Ao olhar para os príncipes e princesas dos contos de fada, o feminismo fecha os olhos para a beleza, para a mágica, para virtude, para a sensibilidade, para o heroísmo e para o amor. O feminismo vê nela uma alienada oprimida por ter que esperar um príncipe salvá-la. Me pergunto se o feminismo veria numa vítima de incêndio uma alienada oprimida socialmente por estar sendo salva por um bombeiro. Talvez recusar a ajuda machista e opressora da polícia ao ser atacada por um agressor seja uma verdadeira demonstração de feminismo. Talvez, por minha insistência em manter viva a criança dentro de mim e por ter crescido com desenhos da Disney, eu não consiga entender bem essa visão feminista. Uma coisa que percebo com isso é que é justamente essa obsessão feminista com opressão que torna o feminismo tão fetichista por opressão. Ao olhar uma princesa tão nobre, com todas as virtudes e mais belos encantamentos, o feminismo vê somente uma alienada. Será que isso também não significa que o feminismo vê dessa forma todas as mulheres? Talvez o feminismo veja uma princesa dessa forma por ser incapaz de ver dignidade na mulher. Talvez essa obsessão do feminismo com objetificação seja justamente porque o próprio feminismo veja as mulheres como objetos. E o que dizer do príncipe encantado, esse opressor machista? Será que o feminismo não percebe que o príncipe simboliza justamente um homem que ama tão intensamente uma mulher a ponto de matar mil dragões e arriscar sua vida por ela com todo prazer e alegria? Particularmente acho muito triste uma ideologia que insiste em ver opressão e objetificação até mesmo nos mais nobres e puros sentimentos.

Ao criar a falácia da “cultura das princesas”, o feminismo na verdade mostrou que foi dominado justamente por tudo aquilo que critica, tornando-se incapaz de perceber que os contos de fada na verdade mostram que tanto o príncipe, como a princesa, só se tornam realmente príncipe e princesa quando se encontram.


*Leonardo Lawlyet Ribeiro é fundador do Instituto Shibumi.

Os altos custos dos preços baixos

Exclusivo: Entrevista com o distributista John Médaille.

A entrevista foi feita por Arthur Rizzi para a Reação Nacional.

John Médaille é professor da Universidade de Dallas e escreveu alguns livros, dentre eles se destaca o livro “Toward a truly free market: a distributist perspective on government, healthcare, money, déficits and more” (ainda sem tradução para o português); é um escritor recorrente de artigos para a Distributist Review e já prefaciou obras para outros pensadores importantes do catolicismo americano, como Christopher Ferrara.

1- Muitos católicos estão desconfortáveis com o tamanho do Estado. E eles acabam virando austríacos ou aceitam categorias de pensamento austríacas como remédio contra esse gigantismo. Uma vez que todo erro guarda consigo alguma verdade, o que há de errado e o que há de certo nessa percepção?

Eu creio que a nostalgia pelo Estado “pequeno” é algo um pouco deslocado e mal entendido; É meio que um tipo de volta a “era dourada” que na realidade nunca existiu. O “Estado” sempre foi poderoso (ou até mais) naquela época do que hoje. O que é diferente hoje é a centralização do poder, que o torna distante e impessoal. Por exemplo: Nenhum Estado é ou poderia ser tão poderoso quanto os anciãos do vilarejo, que ditariam toda a sua vida de acordo com normas bem estritas. Entretanto, este poder estava completamente em conformidade com as crenças e normas aceitas pelas pessoas.

Do mesmo modo, o artesão medieval provavelmente teria de observar tantas regras quanto um empresário moderno. Mas estas regras eram majoritariamente impostas pela guilda da qual ele era um membro e na qual ele tinha voz. As guildas regulavam condições de trabalho, qualidade, preço, horas, e muitos outros aspectos de seu trabalho. Elas eram de fato cartéis, e reguladas ás vezes pela cidade ou pela coroa, mas ainda assim a maioria governava-se segundo as suas regras.

De modo análogo, impostos eram maiores, se você considerar a corvéia como um imposto e o dízimo obrigatório como tal, o que em adição a todas as outras taxas, tais como as infames poll taxes que eram requeridas. Mas então um Barão poderia reclamar um imposto uma vez que ele tinha grandes deveres diante de seus trabalhadores e estados, e a Igreja poderia reclamar um imposto porque ela tinha responsabilidades por grandes faixas do que hoje são consideradas responsabilidades puramente governamentais: bem-estar, educação e até mesmo regulamentação bancária e de mercado.

A questão real, para mim, não é tanto o poder do Estado, mas a sua localização ou melhor dizendo, a sua distância, e a questão de quem consegue estabelecer as regras. Isto é, qual dos diferente de atores em uma economia localizada, regionalizada, nacionalizada e globalizada. É claro que vivemos nesta última economia, e as regras são estabelecidas ou, pelo menos, estão de acordo com os atores globalizados. Mas acontece que os atores mais poderosos não são os governos em si, mas corporações globalizadas, qualquer uma das quais é mais poderosa que a maioria dos governos, e trabalhando em conjunto capturaram todos os governos. Eles se queixam publicamente sobre as regras, mas na verdade são os atores mais poderosos para defini-las.

É claro que a grande piada sobre o governo “pequeno” libertário é que ele sempre leva a governos maiores e maiores dívidas. Por exemplo, o Partido Liberal – nós diríamos que o “partido libertário” chegou ao poder na Inglaterra em 1832 – o governo inglês nunca cresceu tão rápido ou se tornou tão extenso. De fato, foi preciso o poder do estado para criar a classe trabalhadora da qual o capitalismo depende. Nós tomamos essa “classe trabalhadora” como mais ou menos um “dado” da história, mas na verdade sua criação foi um ato deliberado de governo nos séculos XVIII e XIX. Eu delineio este processo no meu artigo “Trabalho Livre: A Teologia da Libertação do Capitalismo”. https://www.frontporchrepublic.com/2018/07/free-labor-the-liberation-theology-of-capitalism/

Os governos crescem mais rapidamente sob regimes libertários do que qualquer outro por duas razões. Primeiro, se “interesse próprio” é tudo o que deve guiar nossas ações, então é certamente do interesse próprio dos maiores atores apropriar-se do poder do governo para si mesmos e obter vantagens que de outra forma seriam impossíveis sem deter esse poder. E dois, governos libertários nunca conseguiram equilibrar oferta e demanda. Quando as corporações mantêm o poder dos trabalhadores, colocam-se na situação paradoxal de baixar os salários à subsistência. Mas isso só pode significar que há demanda insuficiente para limpar os mercados. Como G.K. Chesterton notou,

Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais difícil que a maioria deles se tornem clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negocio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que os outros tem pra gastar com carvão. […] É um círculo vicioso no qual a sociedade assalariada há de finalmente afundar ao começar a abaixar lucros e abaixar salários.

A solução para isso tem sido sempre os gastos do governo,mesmo em déficit. Esta é a solução keynesiana, que é praticada por cada governo “conservador”; o Estados e torna o consumidor de último recurso. Consequentemente não é surpresa de que os débitos sempre aumentem mais com governos conservadores do que com progressistas, nos Estados Unidos mais com Reagan, ambos os Bushs, e Trump, do que com Carter, Clinton, ou Obama. É uma mera questão de sobrevivência: sem o governo como o ultimo consumidor, o Sistema colapsa.

2) A ascensão da Moderna Teoria Monetária na grande mídia se tornou uma grande polêmica, e isso acabou por trazer os pós-keynesianos para o debate. Alguns distributistas apoiam a MMT. Uma vez que esta é uma normalmente apoiada por pós-keynesianos, o que poderíamos dizer que há de certo e errado na visão deles?

Eu não acho que seja possível um entendimento do que é o pós-keynesianismo sem cobrir o debate sobre o modelo IS-LM, o que não seria adequado fazer neste espaço. Mas em relação a Moderna Teoria Monetária, eu sou um distributista que a apoia por ser ela uma das mais apuradas descrições do dinheiro, e mais compatível com visões pré-modernas onde o crédito estava implícito na própria noção do dinheiro. Vocês podem encontrar mais opiniões minhas sobre o assunto aqui: https://www.frontporchrepublic.com/2012/01/friends-and-strangers-a-meditation-on-money/

Mas deixe-me dar uma breve parábola sobre dinheiro. Um turista dirige em uma pequena cidade a sua Ferrari e pára em um hotel. Ele coloca uma nota de cem reais no balcão e diz para o dono da pousada: “Eu quero um quarto para essa noite, mas tenho que inspecionar primeiro para ver se ele atende aos meus padrões”.

“Claro”, diz o dono da pousada, e dá-lhe uma chave, “está no quarto andar; vá dar uma olhada.”

O turista sobe as escadas. Enquanto isso, o dono da estalagem pega a nota de 100 reais e sai correndo para entregá-la a Matheus, um dono de mercearia a quem ele deve, para liberar sua conta antes travada. Matheus imediatamente leva a nota para Jacó, o fazendeiro que fornece suas provisões para a cozinha da pensão. Jacó leva o dinheiro para o mecânico Max, para pagar o conserto do trator. Max leva o dinheiro para Mariana, uma prostituta com quem ele tem faz alguns negócios. Mariana leva o dinheiro ao dono da pousada e a coloca no balcão para pagar pra ele, ah, no escritório! Naquele momento, o turista desce as escadas e diz: “Desculpe, este quarto não está do meu gosto”, pega a nota de 100 reais e vai embora. Se você entende o que aconteceu, você entende o dinheiro.

3) Na economia mainstream há novos keynesianos como Stiglitz, Mankiw, Krugman, Rodrik e outros, eles tem alguns bons pontos? Quais seriam esses bons pontos na sua opinião?

Não conheço profundamente o trabalho de todos para fazer um comentário útil. Mas o Stiglitz tem muitas coisas úteis a dizer acerca do assim chamado globalismo e seus problemas. Assim também, Krugman tem bons pontos especialmente em comércio internacional e problemas monetários internacionais, mas em outras questões eu o acho seus comentários vulgares, mas talvez seja um problema mais meu do que dele. Eu não conheço a fundo o trabalho de  Mankiw e Rodrik para fazer distinções.

Mas apenas um comentário geral sobre o keynesianismo. A realização de Keynes foi reintroduzir a justiça distributiva na discussão da economia. No entanto, seu grande fracasso foi confinar essa justiça ao domínio político. Keynes realmente não ofereceu nenhum desafio à economia clássica; ele meramente notou que o “equilíbrio geral” prometido pela teoria poderia facilmente ser um equilíbrio menor que o pleno emprego, trazendo miséria às massas. Para trazer prosperidade para todos, precisamos de justiça distributiva. Em Keynes, isso se tornou justiça re-distributiva: o sistema econômico geraria grandes pilhas de riqueza, e o sistema político se apropriaria de algumas delas e as redistribuiria para garantir que houvesse demanda suficiente para limpar os mercados. Longe de ser o inimigo do capitalismo, Keynes era seu salvador, e nenhum sistema capitalista conseguiu se manter, sem ser também um sistema keynesiano.

O que isso significa para um distributista é que, se você quer se livrar de Keynes, é preciso primeiro se livrar do capitalismo. Mas enquanto você tiver capitalismo, precisará do keynesianismo.

4) Ao longo dos anos 80, os antigos keynesianos como Tobin e Samuelson foram desacreditados pelos economistas / monetaristas do lado da oferta, como Friedman, e depois por novos clássicos como Robert Lucas Jr e Barro. Uma vez que é a visão dominante para muitos conservadores americanos, podemos dizer que há idéias úteis para um distributista nessas escolas?

Eu não entendo o porquê de dizer que economistas de “supply side” desacreditaram alguém. Uma vez que no fim das contas trata-se de tentativas de revitalizar a “A lei de Say” que afirma que a “oferta cria sua própria demanda” Mas isto é uma besteira e ninguém investe em nada assim. As pessoas só investem onde acreditam que já existe demanda suficiente para limpar o mercado do seu produto. Nem você nem eu construiríamos uma fábrica da Mercedes para abastecer um país empobrecido, com base na teoria de que “a oferta criará a demanda”. Esperamos que o país se torne rico o suficiente para comprar o carro em quantidades suficientes e depois construa a fábrica. E não é por acaso que os governos que afirmavam ser o mais “lado da oferta” eram, na prática, os mais keynesianos.

O nome popular para essa teoria é “trickle-down”, mas na verdade a sociedade é sempre levantada de baixo para cima. A riqueza sobe; não escorre. Eu sou a favor de dar bilhões – até trilhões – para os ricos. Mas primeiro dê para os pobres e as classes trabalhadoras, e deixem que os ricos compitam por isso. O dinheiro vai borbulhar em breve. Mas, enquanto isso vai enriquecer todo mundo que toca, e não apenas uma classe de elite.

“Trickle-down” é o que as pessoas fazem naquela pequena sala em casa e, em nome da decência humana e da ordem econômica, deve permanecer naquela sala.

5) Segundo Thomas Storck, os papas, João Paulo II, Bento XVI e Francisco, elogiaram o chamado “ordoliberalismo” alemão / economia social de mercado. Embora este seja um apoio pesado, muitos católicos preferem pontos de vista austríacos ou monetaristas em economia do que as visões de Eucken, Alfred Muller-Armack e Röpke. Por quê? E o que poderia ser útil para um distributista nessa escola?

Para completar o círculo com sua primeira pergunta, os católicos têm sido vítimas de uma enorme quantidade de propaganda de “Estado mínimo” proveniente de forças que de fato derivam sua riqueza e poder do governo, conforme descrito acima. No momento, estou lutando essa batalha na minha própria Universidade, onde eles querem estabelecer um programa de “Doutrina Social da Igreja” baseado no neoconservadorismo puro e apoiado por todos os suspeitos usuais (e ricos). Desnecessário dizer que eles não me pediram para servir na comissão.


O link para a entrevista em inglês está aqui: Reply-to-Arthu-Rizzo (1).

A Vida Secreta de Fidel descrita por seu ex guarda-costas

Texto originalmente postado no Instituto Shibumi por Augusto Pola Jr.

Augusto Pola Jr.*

 

Seguindo a carreira militar cubana, Juan Reinaldo Sánchez chegou ao posto de guarda-costas pessoal de Fidel Castro, responsabilidade que cumpriu por 27 anos até ser preso autoritariamente pelo regime que tanto serviu e fugir depois aos Estados Unidos. No livro “A Vida Secreta de Fidel” (Editora Paralela, 2014) temos seu testemunho de segredos da vida de Fidel Castro.

O paradoxo em torno do ditador cubano é que por um lado sua figura pública é exibicionista, por outro a sua vida particular é bastante sigilosa. Sánchez não chegou ao posto à toa. Militar com formação destacada, faixa preta em diferentes artes marciais e exímio atirador, era, sobretudo, amante da revolução.

Para quem não está com a consciência anestesiada de esquerdismo. Para quem foi um pouco além do que o professor esquerdista do colégio ensinou sobre história, geografia, sociologia ou história, não estranhará o fato de Fidel Castro – uma espécie de deus para os revolucionários do terceiro mundo – ser um inescrupuloso. Interessante notar que se mau-caratismo vem desde cedo. Segue duas histórias que Fidel costumava contar ao seus serviçais militares mais próximos, onde o mesmo se vangloriava de sua desonestidade:

Um belo dia, Fidel disse na escola que tinha perdido o carnê de notas e recebeu um novo. A partir daquele momento, passou a manter dois registros das próprias notas. De um lado, apresentava ao tutor um boletim falsificado, onde aparecia com o primeiro da turma, com nota dez em todas as matérias; do outro, imitava a assinatura do padrinho para entregar ao professor o boletim verdadeiro, devidamente rubricado.

(…)

Outras anedotas preferidas de Fidel está relacionada aos anos de juventude em Havana. Estudante universitário, ele tentava alugar um quarto mobiliado na capital com o dinheiro que o pai, rico proprietário de terras, lhe mandava. A fim de provar sua boa-fé e sua capacidade de pagar, ele se oferecia, tal grande senhor, a pagar no ato dois meses de aluguel adiantado. Tendo tranquilizado os proprietários, morava na casa deles por quatro meses sem pagar nenhum centavo a mais. Depois ia embora sem avisar para tentar seu golpe em outro lugar! Fidel concluía a história com uma explosão de riso zombeiro: ‘Até hoje deve haver gente atrás de mim em Havana…’

É bastante revelador os detalhes sobre os luxos sob o qual vivia Fidel. O primeiro capítulo do livro, aliás, foca-se em descrever uma exuberante ilha particular chamada Cayo Piedra, cuja viagem com a família (apesar de ser comum ir com a família, Fidel não tinha afetividade com os filhos), em seu luxuoso iate, distanciava 45 minutos de Cuba. Ao mesmo tempo que vivia no luxo capitalista, seus discursos ao povo cubano tocava sempre na necessidade do revolucionário viver na austeridade.

Após conquistar o poder na Revolução Cubana, Fidel Castro passou a viver também em função de fomentar a revolução em outros locais, sobretudo na América Latina. Encontro com revolucionários e estratégias discutidas também estão presentes no livro.

O treinamento de guerrilheiros também foi relatado por Sanchéz. O local, a 25 km a leste de Havana, chamado de Punto Cero de Guanabo era um território militar, protegido por um portão comum, onde o regime cubano formava, treinava e aconselhava movimentos de guerrilha do mundo inteiro, e até mesmo algumas organizações terroristas (a relação com o ETA da Espanha, por exemplo, era bem estreita).

Sabemos que Zé Dirceu, por exemplo, passou pelo treinamento que, segundo Sanchéz, era de qualidade:

O curso que os guerrilheiros seguiam era completo e de qualidade. Além de marxismo e, para alguns alunos, leitura e ortografia, os instrutores ensinavam a manejar armas de fogo e explosivos, além de cartografia, fotografia, falsificação de documentos, disfarce e mudança de aparência, roubo de identidade, criptografia de comunicações, técnicas básicas de espionagem e contraespionagem, ações terroristas, planejamento de raptos e sequestros de pessoas, sequestro de barcos e aviões, técnicas de interrogatório e tortura, logística e estratégia política.

Da sistemática revolucionária Cubana, espionagem, inteligência e informação eram constantes. Elementos de chantagem para os estrangeiros e de censura ao povo cubano. O sistema de espionagem não perdoa sequer a Nomenklatura cubana:

Melhor que os estrangeiros tenham isso bem claro: em Cuba, ninguém escapa da vigilância da Segurança de Estado, o G2. Vários hotéis de Havana são dotados de quartos especialmente preparados pela Técnica, que ouve as conversas e filma a intimidade de “alvos” dignos de interesse, como empresários, políticos, professores universitários, profissionais da cultura, jornalistas, personalidades das artes e das letras (…). Quando o Estado cubano convida personalidades estrangeiras, é fácil alojá-los num desses quartos especiais, depois filmar seus encontros com alguma prostituta chamada pelo G2. O regime dispõe então de uma poderosa ferramenta de chantagem, principalmente quando o parceiro sexual é menor de idade ou do mesmo sexo (mesmo quando o alvo é um homem casado).

Ignoro quantos espiões Cuba tem por metro quadrado, mas deve ser um número impressionante. Uma coisa é certa: a Segurança de Estado, ou G2 – a megaestrutura que repousa sobre três pilares: a espionagem, a contraespionagem e a Segurança Pessoal – à qual eu pertencia – , estendendo seus tentáculos como um polvo. Cada fábrica, cada instituição, todos os ministérios e escolas das menores aldeias têm infiltrados ou são controlados por agentes. Tanto na província quanto nos bairros das grandes cidades, sua missão fundamental consiste em coletar informações sobre o estado da opinião pública me zonas geográficas delimitadas, para depois sintetizá-las em relatórios transmitidos diariamente aos superiores. E tudo vai subindo de maneira piramidal até ‘el líder máximo’. Graças a esse esquadrinhamento, Fidel e Raúl são informados em menos de 24 sobre a menor crítica feita ao regime pela população.

Não somente a chantagem, o aliciamento e recrutamento de estrangeiros estratégicos operavam através do serviço das embaixadas cubanas. Todos os diplomatas cubanos dominavam perfeitamente todas as técnicas de espionagem. Nas embaixadas, até mesmo os menores funcionários tinham uma iniciação em contra-espionagem:

Uma das missões essenciais das embaixadas consistia em recrutar agentes estrangeiros que se tratassem de simples “agentes de influência” ou de verdadeiros espiões. Os primeiros em geral eram professores universitários, políticos, diplomatas, jornalistas, personalidades das artes e das letras, e mesmo donos de empresas, em suma, qualquer pessoa que gozasse de uma posição que lhe conferisse alguma influência sobre a sociedade e que a princípio visse com bons olhos a Revolução Cubana. Tratava-se, para Cuba, de encorajar tendências naturais nessas pessoas, a fim de fazer delas intermediárias de opiniões imperceptivelmente pró-castristas. Como Lênin teria dito, “idiotas úteis”. Os segundos, muito mais raros, eram os que trabalhavam conscientemente para os serviços cubanos depois de terem sido recrutados pela Direção de Inteligência.

Percebe-se que não é à toa que os mitos que circundam Cuba, erguidos sob falsas propagandas pela difusão de mentiras no meio cultural, são propagados pelo mundo, até menos nos Estados Unidos. Para Fidel Castro, os que aderiam à simpatia cubana por questão ideológica eram os melhores:

“Todos os que têm familiaridade com o universo da informação sabem que existem quatro expedientes para recrutar agentes: o dinheiro, a ideologia, a chantagem, o ego. Fidel sempre privilegiou o segundo, partindo do princípio de que recrutar pessoas realmente motivadas e que compartilhem de sua ideologia anti-imperialista (isto é, antiamericana) é tanto o meio mais seguro a longo prazo quanto o menos oneroso. Os mais célebres agentes cubanos descobertos pela CIA eram todos desse tipo (…). A sensação de lutar pela vitória da Revolução Cubana lhes bastava”

O livro realmente nos entrega muitas informações sobre o ditador cubano, bem como operações de bastidores. O que ainda vale a pena ser comentado neste texto, no entanto, é a própria conversão de Sanchéz, hoje bem estabelecido nos Estados Unidos.

O ex-guarda pessoal de Fidel, em sua juventude, era animado com os ideais da revolução e tinha Fidel Castro como verdadeiro ídolo. É o que podemos chamar de fanatismo. Algumas partes do livro permite como opera a mente de um fanático que não quer ver aquilo que enxerga. E isto mesmo se tratando de alguém atento, bem treinado e inteligente. Conta-nos em seu livro a respeito do seu estudo universitário [1981 – 1985] em direito penal e do curso de “investigação operacional de contra-inteligência”:

É impressionante constatar, hoje, a que ponto o ensino cubano estava impregnado pelo clima da Guerra Fria e pelo pensamento marxista. Basta reler os nomes de algumas matérias estudadas: “materialismo dialético”, “materialismo histórico”, “história do movimento operário cubano”, “ação subversiva inimiga”, “contraespionagem” ou ainda “crítica da corrente burguesa contemporânea”. Mas os cursos que mais me ajudaram a entender a personalidade de Fidel Castro foram os de “psicologia aplicada à contraespionagem”.

Depois da Escola Superior do MININT, coloquei em prática o que tinha aprendido para estabelecer o perfil psicológico e destacar alguns traços de sua personalidade. Minha conclusão: Fidel é uma pessoa egocêntrica que gosta de ser o centro das conversas e que monopoliza a atenção das pessoas ao seu redor. Por outro lado, como muitos superdotados, não presta muita atenção ao que veste, daí sua preferência por uniformes militares. Várias vezes o ouvi dizer: ‘Faz muito tempo que solucionei o problema do terno e da gravata’. Idem para a barba. Ele dizia: ‘Farei a barba quando o imperialismo morrer’. Na verdade, era sobretudo por comodidade que que evitava se barbear todos os dias. Outro traço da sua personalidade: era absolutamente impossível contradizê-lo no que quer que fosse. Tentar convencê-lo de que estava errado, que seguia pelo caminho errado ou que deveria modificar e melhorar um de seus projetos, mesmo que levemente, constituía um erro fatal a quem o cometesse. Quando isso acontecia, Fidel deixava de ver seu interlocutor como uma pessoa inteligente. Para viver a seu lado, o melhor era aceitar tudo o que ele dizia e fazia, mesmo durante uma partida de basquete ou uma pescaria.

Logo em seguida Sánchez antecipa um questionamento:

Algumas pessoas poderão se espantar com o fato de eu não ter me afastado mais cedo, tendo em vista o perfil psicológico de Fidel e o luxo que, cedo demais, testemunhei. Mas minhas juventude deve ser levada em conta, em como o verdadeiro culto que dedicávamos ao vencedor da Revolução Cubana. Seu autoritarismo? Uma qualidade e combatente. A vida confortável que levava? Não a havia merecido? Além disso, como já mencionei, eu era um militar. Os militares estão aí para agir e obedecer… não para criticar.

Por falar em luxo, militares como Sánchez não tinham tantos privilégios econômicos (salvos alta patentes militares, que controlavam de 60 – 80% da economia cubana). Pelo contrário, recebiam uma miséria (na fraca moeda cubana, enquanto Fidel calculava seus ganhos em dólar) e suas famílias tinham que se virar com o racionamento de comida (quantidade que só durava para 15 dias). Em um dos capítulos do livro, foi narrado, inclusive, um episódio onde os guardas-costas aproveitavam para roubar ovos das galinhas cultivadas no terreno da casa onde Fidel morava com sua secreta esposa e cinco filhos.

Em outra parte do livro, o comprometimento de Sánchez tinha pela Revolução se destaca:

“Muitas vezes me perguntaram [a vizinhança quando morava em cuba] se Fidel representava para mim um pai substituto. Sempre respondi que não, ele representava muito mais! Para mim, ele era um deus. Eu bebia todas as suas palavras, acreditava em tudo o que dizia, seguia-o por toda parte e teria morrido por ele. Em dado momento, meu maior desejo foi realmente perecer salvando sua vida. Eu acreditava cegamente nos nobres ideais da Revolução Cubana e podia recitar sem muitos questionamentos todo o catecismo anti-imperialista da época. Abri os olhos mais tarde. Naquela época, estava absorvido demais por meu trabalho e fascinado demais por Fidel para desenvolver qualquer senso crítico”.

Curioso esta passagem, pois dizem os revolucionários justamente que a religião é que aliena, mas o que se percebe em tal relato é que a própria revolução se faz uma religião terrestre de idolatria a personalidades, cuja consequência é perda do senso crítico e teimosia em não querer ver a realidade. A frase de Marx – “a religião é o ópio do povo” – era apenas um modo de camuflar o ópio ideológico de seus filhotes. Na realidade, os drogados e alienados são eles. Isso pode ser observado em outra passagem:

Na URSS, a pobreza saltava aos olhos, principalmente quando se saía de Moscou para visitar a zona rural, onde os camponeses se vestiam como na época da Segunda Guerra Mundial. Na capital, as carências eram piores que em Havana e, mesmo assim, o modelo soviético era supostamente o mais avançado caminho da construção do socialismo. Foi a primeira vez que uma sombra de dúvida penetrou em meu espírito. Em meu íntimo, eu me questionava. A eficácia do sistema comunista seria realmente superior à do capitalismo? Se os soviéticos estavam assim depois de 65 anos de Revolução, seria razoável seguir o seu exemplo? Foi uma dúvida furtiva, ínfima. Repeli-a na hora, para me dedicar inteiro à ação, a serviço de Fidel e da Revolução.

Se nem o choque de ver a realidade soviética o fez acordar, o que fez? A grande decepção com Fidel é narrado quando ele escuta uma conversa com um de seus secretários sobre o esquema de drogas. O segurança de Fidel ficou decepcionado com o fato de seu chefe ser um grande comandante do tráfico de drogas:

Em poucos segundos, todo o meu mundo, todos os meus ideais ruíram. Entendi que o homem a quem eu sacrificava minha vida desde sempre, ‘el líder’, que eu venerava como um deus e que, a meus olhos, era mais importante que minha própria família, estava envolvido no tráfico de cocaína a ponto de comandar operações ilegais como um verdadeiro mafioso. (…)

Sua lógica [lógica de Fidel] precisa ser entendida. Para ele, o narcotráfico era uma arma de luta revolucionária antes de ser um meio de enriquecimento ilícito. Seu raciocínio era o seguinte: se os ianques são estúpidos o suficiente para consumir a droga vinda da Colômbia, além de aquilo não ser problema seu – enquanto não fosse descoberto -, poderia servir a seus objetivos revolucionários na medida em que corrompia e desestabilizava a sociedade americana. Cereja do bolo: era um meio de armazenar dinheiro em espécie para financiar a subversão. Assim, à medida que o tráfico de cocaína se desenvolvia na América Latina, as fronteiras entre guerrilha e o narcotráfico desapareciam. O que era verdade no caso da Colômbia valia também para Cuba. De minha parte, nunca consegue aceitar essa total distorção das coisas, em contradição absoluta com minha ética revolucionária.

Curioso notar que em nossos dias está cheio de supostos anti-esquerdistas com discurso favorável a liberação das drogas…

A decepção aumentou quando, possivelmente alertado pelo seu serviço de informação nos Estados Unidos, Fidel soube que um escândalo envolvendo Cuba e seu suporte estratégico e logístico para o transito do pó colombiano iria ser divulgado e, adiantando-se, decidiu queimar dois de seus homens mais próximos. Usando a mídia cubana, Fidel avisou que uma investigação havia sido iniciada e, sabendo quem eram os envolvidos o esquema de narcotráfico, mandou prender, entre outras pessoas, o general Arnaldo Ochoa, personagem importante da revolução cubana e fiel executor dos projetos de subversão cubana.

Na época, porém, na imprensa oficial e na rádio, o governo se parabenizou por ter empreendido aquela ação com “justiça”! “O mundo inteiro observa, estupefato, essa extraordinária prova de coragem e moralidade. Ele não está acostumado a isso. Somente uma Revolução autêntica, forte, inabalável e profundo é capaz disso.” Mestre em cinismo, Fidel, dizendo “consternado” pelo que fingia acabar de descobrir, afirmou inclusive que se tratava “do processo político e judiciário mais limpo que se possa imaginar.

Bastante limpo, digno de companheiros. Ochoa assumiu a culpa pelo bem da causa, certo de que, em uma acareação posterior, teria seu pedido de perdão aceito. Foi traído. O que fica claro no livro é a índole psicopática de Fidel: quando a pessoa não serve mais, é descartado como se não valesse nada. Resultado: Ochoa e outros colaboradores do regime foram fuzilados.

A coisa foi tão chocante em Cuba que até Raúl Castro entrou em uma espécie de depressão, escondendo-se na bebida. O temor do irmão era racional: se Ochoa foi fuzilado, por que ele mesmo não seria, já que era o responsável direto por ele na hierarquia? Ele só se acalmou quando Fidel disse: ‘ele não era meu irmão’.

Não apenas isso, a execução de Ochoa e outras pessoas da alta patente foi filmada. Além disso, Fidel fez questão de, após ver a fita, dar ordens para que todos da sua escolta também vissem.

Isso, contudo, não foi o suficiente para Sanchez largar de Fidel Castro. O esforço em não querer ver o que enxergava continuava: “De minha parte, fiz como milhares de militares: esforcei-me para vencer as dúvidas que o caso Ochoa plantou dentro de mim.”

Se nem tudo isso o fez acordar, o que o fez? Bom, foi quando a Revolução decidiu finalmente recompensá-lo por seus méritos! Primeiro sua filha casou com um venezuelano e foi morar em Caracas. Depois, um irmão seu conseguiu desertar nos Estados Unidos. Tendo dois membros de sua família no estrangeiro, Sanchéz passou a ser pessoa suspeita e foi afastado do cargo. Deram a ele 15 dias de férias para que pensasse em uma nova ocupação, mas ele decidiu usar do seu direito de se aposentar. Isso foi o suficiente para ele ser enviado a prisão onde foi duramente torturado. Descobriu que Fidel e Raúl mentiam: havia sim práticas de torturas nos presídios cubanos. Torturas brancas, que não deixam marcas, foi pelas quais ele passou. Consistia em fazer ele passar um frio tremendo, durante horas em uma sala de interrogatório, e depois ser enclausurado em um ambiente quente e mal cheiroso. A alimentação era horrível, pouca e desregulada. Perdeu, em pouco tempo, 30 quilos na prisão.

Um dos interrogadores me disse: “Você com certeza deve saber que está aqui por ordem o Fidel”. No fim de uma semana, fui informado de que a administração penitenciária estava à espera do ‘comandante em jefe’ para saber se eu seria liberado ou não. Então entendi que estava ali somente pela vontade do homem que eu tinha servido por um quarto de século

Além disso, descobriu na pele o que era a bela “justiça” cubana. Cheio de vícios no julgamento, foi condenado a 2 anos de prisão. Foi na prisão que Sánchez decidiu dar início ao livro. Após cumprir pena, o ex-segurança de Fidel era observado de perto pelo serviço secreto cubano. No fim, relata como finalmente, após vários anos como civil, conseguiu chegar aos Estados Unidos. O livro se encerra com um questionamento trágico:

“De minha parte, apenas me enganei. Cometi o erro de dedicar primeira parte de minha vida à proteção de um homem que eu admirava, em sua luta pela liberdade do país e em seu ideal revolucionário, antes de vê-lo tomado pela febre do poder absoluto e pelo desprezo ao povo. Mais que sua ingratidão sem fim por aqueles que o serviram, condeno sua traição. Pois ele traiu a esperança de milhões de cubanos. E, até o fim dos meus dias, uma pergunta rondará minha mente: por que as revoluções sempre acabam mal? E por que seus heróis se transformam, sistematicamente, em tiranos piores que os ditadores que eles combateram?”

Ora, prezado Sanchéz, por que a lógica revolucionária em si mesma demanda que se tenha cada vez mais poder sobre o pressuposto de resolver os problemas. Contudo, a resolução de problemas de cima para baixo, de modo centralizado, acaba por gerar ainda mais problemas. O espírito revolucionário inverte o princípio da subsidiaridade, onde os problemas deveriam ser resolvidos, em primeiro, de modo mais local. No princípio da subsidiaridade, o poder máximo (presidência) deve tratar dos problemas gerais da nação, sem se meter nos problemas estaduais, regionais e municipais. A Revolução, pelo contrário, quer controlar tudo de cima para baixo: fazer seus caprichos e ideais serem aplicados na marra. Isso é, em si mesmo, a tirania. Não é que “como pode se transformar em tirania?”, mas a lógica revolucionária é em si tirânica, os nobres ideias são apenas propagandas.

É por isso que os revolucionários odeiam os conservadores. Céticos quanto a capacidade política, os conservadores não se deixam seduzir por utopias e ideologias, preferem discutir a política de modo prudente, pela “arte do possível”, praticando princípios métodos que já mostraram sua eficácia pela experiência da humanidade. Os revolucionário não querem nada disso. Querem se beneficiar do poder às custas dos outros.

Depois que deixam de ser úteis, os idiotas que serviram para contribuir com a revolução passam a ser apenas idiotas, sem função e, por isso mesmo, são descartados. O próprio exemplo de Sanchéz e de outros narrado no livro provam isso.


*Católico, shibumista, membro fundador do Instituto Santo Atanásio em Curitiba.

Está na hora de acordar: o bolsonarismo não é nem nacionalista e nem extremista.

Arthur Rizzi*

Volta e meia vemos a imprensa nacional e internacional atribuir os rótulos de “extrema-direita” e “nacionalista” ao novo governo brasileiro. E sempre que vejo isso, na mesma proporção, surge aquele risinho irônico e involuntário na minha face, como quem diz: “Vocês têm ideia do que estão dizendo”? E qualquer primata, por mais simiesco que seja, percebe que não há qualquer coisa de nacionalista e nem de extremista no governo Bolsonaro. Para nossa insatisfação e infelicidade, Bolsonaro não tomou nenhuma medida que fosse extremista e ou nacionalista.

O nacionalismo de direita teve três fases notáveis no Brasil apenas, nem sempre se manifestando da mesma forma e nem sempre com um conteúdo ideológico claro. Mas há de se convir que no período republicano, em apenas três períodos o nacionalismo conservador deu sinais de vida no país.

  • O integralismo –  acusado muitas vezes injustamente de nazista e fascista, o integralismo na prática era mais um tradicionalismo, no qual o nacionalismo era uma afirmação da identidade nacional e do papel da tradição nela. Dentre outras coisas, os integralistas defenderam a estatalidade da Petrobrás, uma política externa autônoma, e dentre outros pequenos detalhes, tinham uma proposta de política econômica e social sob muitos aspectos bem mais saudáveis do que as do presente governo.

Dentre as afirmativas integralistas, encontrava-se a defesa do papel central do índio e do negro na formação da identidade étnica nacional. Não por outra razão, a saudação integralista era Anauê!, palavra de origem indígena. Elementos dos movimentos tenentistas e da revolta da chibata, não tardaram a se alinhar ao movimento. E um sinal da força inclusiva do integralismo era o fato de que o berço do movimento negro se deu dentro dele. Arlindo Veiga dos Santos, integralista, patrianovista e pai da Frente Negra Brasileira é um dos símbolos desse período do movimento.

Ao contrário do Bolsonarismo que funda a si próprio na ignorância, o integralismo produziu artistas e intelectuais notáveis, como o já citado Arlindo Veiga dos Santos, o escritor Gustavo Barroso (em que pese seu antissemitismo), o próprio Plínio Salgado, além de Miguel Reale e Menotti del Picchia; mesmo depois tendo se convertido em um elemento da esquerda também vale citar Dom Hélder Câmara. Há quem aponte ainda que Gilberto Freyre seria simpático a ala plinista do movimento. Quer goste-se deles ou não, considere-os reacionários ou não, é forçoso admitir que o integralismo gerou uma gama personalidades influentes na cultura e na sociedade, algo que o bolsonarismo jamais poderá fazer.

Os próprio neo-integralistas, nos dias de hoje, demonstram estafa e insatisfação com o bolsonarismo. Não por outro motivo manifestaram-se contra a entrega da Embraer junto com outros movimentos nacionalistas na Avenida Paulista.

  • Médici, Geisel e Figueiredo – O segundo momento de destaque do nacionalismo conservador, foi o meio-fim do regime militar instaurado em 64. Embora o regime militar tenha surgido por razões tão americanistas quanto às do governo Bolsonaro, em dado momento, com Médici e Geisel, o regime tomou feições nacionalistas. Ao contrário dos demais regimes militares no continente, que seguiram à risca o projeto de privatização e desmanche do Estado; o regime militar brasileiro investiu na proteção das estatais já existentes, criou novas estatais, reformou o Estado e aplicou medidas desenvolvimentistas.

Com Médici ainda havia um alinhamento notável com os Estados Unidos, o que era justificável num período de Guerra Fria e diante de uma real ameaça comunista (ao contrário do comunismo fantasmagórico contra o qual o bolsonarismo luta); porém, a ausência da subserviência necessária ao poder americano, por parte do governo brasileiro, levou ao azedamento das relações e ao surgimento da Política Externa Independente no governo Geisel. Com Figueiredo, ainda fora notável o fato de que o Brasil na guerra das Malvinas tenha se colocado, ainda que não oficialmente, do lado da Argentina e contra o histórico aliado americano: O Reino Unido.

Ao contrário, o Bolsonarismo ao abraçar o liberalismo, quer destruir o legado do regime militar, dilapidando estatais, vendendo infraestruturas a preço de banana para os americanos, renegando o legado anti-liberal dos três maiores presidentes do período, bem como ao invés de se posicionar contra a ingerência militar do primeiro mundo no continente sul-americano, como fizera Figueiredo, opta por embarcar numa guerra que ninguém pediu na Venezuela.

  • Enéas e o Prona – O último suspiro do nacionalismo conservador no Brasil foi com o ex-presidenciável e ex-deputado Enéas Carneiro. Com uma visão um pouco mais focada na prosperidade e desenvolvimento econômico, como os militares, mas sem abrir mão de seu notável conservadorismo moral, religioso e de costumes, foi chamado por admiradores de “o último dos integralistas” e por críticos de “fascista”.

Foi terceiro colocado no pleito presidencial de 1994 e foi durante muitos anos o deputado mais votado do país. A imagem de Enéas acabou usurpada por Bolsonaro, o que gerou indignação de antigos aliados e novos admiradores; sua visão de mundo era em parte influenciada pelo integralismo e em parte pelo pensamento do nacionalista americano Lyndon LaRouche.

Admirador do protecionismo clássico de Friedrich List e Alexander Hamilton (influências de LaRouche), Enéas era assessorado por excelentes quadros técnicos, como o economista Adriano Benayon (doutor em economia em Hamburgo) e por um dos nomes mais importantes do Pro-Alcool, Dr. Bautista Vidal.

Além do próprio Bolsonaro não ter nem 1% da erudição de Enéas, que tinha conhecimentos básicos sobre muitas áreas, além da sua especialidade, a medicina, os quadros do PSL ou são a ficção olaviana (que é uma espécie de câncer metastático), ou a horda de aproveitadores do mercado financeiro cujo compromisso com o governo é menor do que o compromisso com seus próprios interesses corporativos e de seus aliados globalistas internacionais. O que há de bom no governo não é mérito de Bolsonaro, que são as sempre muito competentes Forças Armadas.

Por fim, após rememorar os rápidos vislumbres de nacionalismo conservador no país, chegamos ao momento de nos perguntar novamente. Há algo de nacionalista ou de “extrema-direita” no bolsonarismo? Se há algo que se destaca no bolsonarismo é a completa subserviência ao interesse americano. E se há algo que demonstra todo dia na política interna é a sua fraqueza e incapacidade de passar as coisas mais moderadas e de senso comum pelo congresso nacional.

O que o bolsonarismo é?

A resposta é simples. É o que sempre alegou ser desde que se formou como candidatura política. Um liberal-conservadorismo americanista; um udenismo requentado que contém em si as mesmas propriedades do udenismo histórico. A mesma subserviência aos interesses do departamento de Estado americano, a mesma sanha privatista e o mesmo desprezo pelo ethos brasileiro, para o qual propõe como remédio a americanização do país.

Mas há algo de novo. Uma espécie de importação (méritos de Ernesto Araújo) do discurso belicista e intervencionista do neoconservadorismo americano. Em resumo, o bolsonarismo é a direita convencional que existe nos EUA, no Reino Unido, um conservadorismo liberal como o de Thatcher e Reagan e que vagamente se assemelha na política externa ao neoconservadorismo de George W. Bush. Mas difere substancialmente do trumpismo, embora haja complementaridade entre ambos (um lado quer explorar e o outro ser explorado). O trumpismo é uma espécie de nacionalismo pragmático, ao passo que o bolsonarismo, caso se manifestasse nos EUA, seria uma espécie de zona mista entre os neoconservadores tão criticados pelos trumpistas, e alguns indivíduos mais moderados do Tea Party.


*Arthur Rizzi é historiador e estudioso do pensamento econômico.