E a indústria? Por que está tão mal?

Arthur Rizzi*

A indústria brasileira teve um momento ruim recentemente com as ameaças de deixar o Brasil da Ford e da GM. Que a solução para o poder destes oligopólios estrangeiro seja uma boa dose de abertura de mercado, não resta dúvidas. Mas existem outros poréns que são necessários destacar.

A indústria brasileira só não está em situação pior pelo fato de que a fraquíssima recuperação econômica e a deterioração lenta, mas perceptível dos termos de troca com o exterior tem mantido o câmbio num patamar favorável a indústria. Por outro lado, o baixo crescimento tem retardado o processo de overshooting do mercado interno que era esperado, e agregue-se a esse fator outros dois. A greve dos caminhoneiros em 2018 e a crise da Argentina, nossa principal importadora de manufaturados nacionais, que foram golpes profundos na indústria brasileira. Mesmo assim, o câmbio desvalorizado tem sido capaz de sustentar a indústria em outros mercados, até mesmo a ponto de uma ligeira recuperação em janeiro de 2019.

Entretanto, se não houverem medidas de estabilização da taxa de câmbio e um ajuste fiscal rápido, essa recuperação (e o otimismo crescente) não serão o bastante para parar o processo de desindustrialização do Brasil.

Como Oreiro (2016, p.104) explica, a desindustrialização tem origem na:

“(…) tendência à sobrevalorização da taxa de câmbio que tem sua origem na doença holandesa. Para entender o porquê dessa afirmação consideremos uma economia que se encontra na sua trajetória de crescimento balanceado, onde se descobre a existência de uma grande quantidade de recursos naturais escassos (por exemplo, petróleo). Nesse contexto, as rendas ricardianas originadas da escassez de recursos naturais permitem que o balanço de pagamentos fique em equilíbrio com os níveis mais baixos (apreciados) da taxa real de câmbio. Em outras palavras, haverá um descolamento entre a taxa de câmbio de equilíbrio industrial e a da taxa de equilíbrio em conta corrente, tornando-se essa última mais apreciada que a primeira”.

Assim, como os produtos primários exportáveis passam a ser o veículo através do qual a entrada de moeda estrangeira torna-se o lastro da moeda doméstica, a economia como um todo passa a girar ao redor desses produtos, fazendo com que a taxa de equilíbrio industrial deixe de ser idêntica ou muito próxima da taxa de equilíbrio da conta corrente.

Há uma outra questão, como aprendemos na função de Solow, existe a tendência de uma economia e o seu ciclo econômico. A tendência de crescimento da economia brasileira é muito baixa a longo-prazo (só reformas duras podem mudar isso), e o ciclo econômico passa pelo seu vale. Em outras palavras: baixo crescimento em médio e longo-prazo e o ciclo econômico ainda engatinha para sair do bust.


Referências:

OREIRO, José. Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Rio de Janeiro: LTC, 2016.


*Arthur Rizzi Ribeiro é colaborador da Reação Nacional.

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