Os tipos de liberalismo – Dom Félix Sardá y Salvany

Excerto da obra "O liberalismo é pecado" de Dom Félix Sardá y Salvany, que fora fortemente embasada no Syllabus de Pio IX e recebeu louvores da Santa Sé. Transcrito de texto originalmente publicado em "GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes".

Nesta variedade, ou melhor, confusão entre matizes e meias-tintas que oferece a variedade família do liberalismo, haverá sinais ou notas características com que distinguir facilmente o que é liberal do que não é? Eis outra questão muito prática também para o católico de hoje e que de um modo ou de outro o teólogo moralista tem de resolver frequentemente.

Dividiremos para estes fins os liberais (sejam pessoas ou escritos) em três classes:

  1. Liberais avançados;

  2. Liberais moderados [1];

  3. Apenas eivados de liberalismo[2].

1- Liberais Avançados:

Ensaiemos uma descrição semi-fisiológica de cada um destes tipos. É estudo que não carece de interesse. O liberal avançado conhece-se desde logo, porque não trata de negar nem encobrir sua maldade. É inimigo formal do Papa e dos padres e de toda a gente da Igreja; basta-lhe que qualquer coisa seja sagrada para excitar seu desenfreado rancor. Procura dentre os periódicos os mais desbragados; vota  entre os candidatos, os mais abertamente ímpios; aceita seu funesto sistema até as últimas consequências. Faz gala de viver sem prática alguma de religião, e a muito custo a tolera em sua mulher e filhos. Costuma pertencer a seitas secretas e morre geralmente sem socorros alguns da Igreja.

2- Liberais Moderados:

O liberal moderado ou manso costuma ser tão mau como o primeiro, porém cuida bastante em não parecê-lo. As boas formas e as conveniências sociais são tudo para ele; salvo este ponto, não lhe importa muito o resto. Incendiar um convento não lhe parece bem; apoderar-se do solar do convento incendiado é para ele coisa já mais regular e tolerável. Que um jornaleco qualquer desses de bordel venda suas blasfêmias em prosa, verso ou gravura a dez réis é um excesso que ele proibiria e até lamenta que não o proíba algum governo conservador; porém, que se diga o mesmo inteiramente em frases cultas, um livro de boa impressão ou em um drama de sonoros versos, sobretudo se o autor é um acadêmico ou semelhante, já não oferece inconveniente[3]. Ouvir falar em clubes dá-lo calafrios, porque ali, diz ele, se seduzem as massas e se subvertem os fundamentos da ordem social[4]; porém, ateneus livres podem muito bem consentir-se. porque a discussão científica de todos os problemas sociais, quem há de estranhar? Escola sem catecismo é um insulto ao país católico que a paga; porém, Universidade católica, isto é, com sujeição inteira ao catolicismo, quer dizer, ao critério da fé, isso deve deixar-se para os tempos da Inquisição. O liberal manso não aborrece ao Papa, e só não acha bem certas, pretensões da cúria romana e certos extremos de ultramontanismo que não condizem bem com as ideias de hoje. Gosta dos padres, sobretudo dos ilustrados, isto é, dos que pensam à moderna como ele; porém os fanáticos ou reacionários, evita-os ou lastima-os. Vai à Igreja e recebe até os sacramentos; porém sua máxima é que na Igreja se deve viver como cristão, mas fora dela convém viver com o século em que nasceu e não se obstinar em remar contra a corrente. Vive assim entre duas águas, costuma morrer com o sacerdote ao lado, porém com a biblioteca abarrotada de livros proibidos.

3- Eivados de liberalismo:

O católico simplesmente eivado de liberalismo conhece-se em que, sendo homem de bem e de práticas sinceramente religiosas, respira, todavia liberalismo falando ou escrevendo ou trazendo-o entre as mãos. Poderia dizer ao seu modo como Mme. Savigné: “Não sou a rosa, mas estive junto dela e tomei algo de seu perfume“. O verdadeiramente eivado discorre, fala e obra como liberal deveras, sem que ele mesmo, o pobrezinho, o deixe de ver. O seu forte é a condado; este homem é a caridade em pessoa. Como aborrece as exagerações da imprensa ultramontana! Chamar de mau a um homem que difunde más ideias parece a esse singular teólogo um pecado contra o Espírito Santo. Para ele não há mais que extraviados. Não se deve resistir nem combater: o que se deve é atrair. “Aforgar o mal com a abundância de bem” é a sua fórmula favorita[5], que leu um dia em Balmes e foi a única coisa do grande filósofo catalão que lhe ficou na memória. As invectivas espantosas contra o farisaísmo dir-se-ia que as tem por excessos de gênio e de zelo do divino Salvador; apesar de que sabe usá-las ele mesmo rijamente contra os irritáveis ultramontanos, que com suas exagerações comprometem a cada dia a causa de uma religião que é todo paz e amor. […]

Não conhece outra tática senão a de atacar de lado, que em religião costuma ser a mais cômoda, porém não a mais decisiva. Bem quisera ele vencer, porém a troco de não ferir o inimigo, nem causar-lhe mortificação ou enfado. O nome de guerra irrita-lhe os nervos, mas acomoda-se ele a pacífica discussão. Está pelos círculos liberais, onde se discursa e se delibera mais do que pelas associações ultramontanas, onde se dogmatiza e censura. Numa palavra, se por seus frutos se conhece o liberal fero ou manso, por suas afeições se distinguirá, principalmente o eivado de liberalismo.[…]

4- Conclusão:

Resumindo em poucas palavras os traços mais característicos de sua respectiva fisionomia, diremos que o liberal avançado ruge com o seu liberalismo; o liberal moderado esconde, o pobre eivado de liberalismo suspira e faz lamúrias.

Todos são maus, como dizia de seus pais aquele velhaco da fábula; porém ao primeiro paralisa-o muitas vezes o seu próprio furor; ao terceiro a sua condição híbrida, de si infecunda e estéril. O segundo, o pior, é o tipo satânico, por excelência, o que em nossos tempos produz o verdadeiro estrago.

 


Notas de rodapé:

1 – Os assim chamados conservadores ou conservadores liberais.

2- Por eivado de liberalismo, refere-se a um tipo de  liberalismo prático, em que a afeição pessoal e o apreço pela respeitabilidade pública  suplanta o amor pela Verdade.

3- Há um certo apreço por tradições humanas e por uma ideia de alta cultura.

4- Aqui é uma possível referência a Edmund Burke, que em suas “Reflexões sobre a revolução na França“, critica como agitadores os membros do clube de Old Jewry.

5- O Concílio Vaticano II seria um concílio eivado de liberalismo.

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Outros problemas na teoria austríaca da taxa de juros

O texto abaixo é uma tradução feita pela Reação Nacional de um texto publicado em Social Democracy in 21st century.

A definição de Mises é a seguinte:

“O juro original é a razão entre o valor atribuído à satisfação das necessidades no futuro imediato e o valor atribuído à satisfação das necessidades em períodos remotos do futuro. Ela se manifesta na economia de mercado no desconto de bens futuros em relação aos bens presentes. É uma relação entre os preços das commodities, não um preço em si. Prevalece uma tendência à equalização desse índice para todas as commodities. Na construção imaginária da economia uniformemente rotativa, a taxa de juros originários é a mesma para todas as mercadorias ”(Mises 2008: 523).

Em primeiro lugar, isso é claramente uma teoria real da taxa de juros, na qual os bens reais atuais trocam por bens reais futuros, ou em outras palavras, onde os empréstimos são imaginados como ocorrendo in natura. O “interesse originário” é uma razão. Mises descreve-o como o “desconto de bens futuros em relação aos bens presentes” (Mises 2008: 521).

Em termos de bens de capital, a “taxa de juros originária” surgida no mundo de equilíbrio de Mises, chamada de “economia uniformemente rotativa” (ERE), seria a mesma que a taxa de juros natural Wickselliana. Mises afirma que há “uma tendência para a equalização dessa razão para todas as commodities“, mas isso não é convincente. Tampouco pode haver uma única “taxa de juros originária” fora dos estados puramente imaginários de equilíbrio.

Mises tem sua própria taxa de juro monetária ou de mercado sobre empréstimos chamada “taxa de juros bruta em dinheiro” (Mises 2008: 534). Mises concebe a “taxa de juros bruta em dinheiro” como sendo determinada por outros fatores além do interesse originário, como segue:

(1) o componente empreendedor: o interesse determinado pelo elemento especulativo no empréstimo de dinheiro e os perigos envolvidos (Mises 2008: 536-538).

(2) o prêmio de preço: um elemento adicional com interesse para levar em conta as mudanças esperadas na inflação ou o nível geral de preços (Mises 2008: 538-542).

Na teoria austríaca, as taxas de juros de mercado irrestritas – ou taxas de juros brutas laissez faire ideais – devem gravitar em torno de uma taxa de juros originária ou taxa natural Wickselliana de juros, e assim alocar recursos efetivamente em um sentido intertemporal. Por este processo, supõe-se que uma taxa de juros monetária avance para uma taxa de juros natural, de modo que ela coordene os recursos e forneça coordenação intertemporal de projetos de investimento com recursos reais.

Mas a taxa natural de juros só pode ser uma taxa única dentro do equilíbrio geral. Fora do equilíbrio geral, pode haver tantas taxas naturais quanto mercadorias de bens de capital emprestadas. Nenhum sistema monetário em que os investimentos em bens de capital são feitos por meio do dinheiro pode atingir as taxas de juros naturais múltiplas em cada empréstimo in natura de vários bens de capital, porque mesmo as taxas de juros monetárias dos bancos – mesmo em um sistema bancário livre – convergem em um spread, pode haver grandes diferenças entre as taxas de spread dos bancos e muitas taxas naturais de commodities individuais.

Outros problemas:

A teoria austríaca das taxas de juros – seja a taxa monetária ou a taxa real – é grosseiramente irrealista e falha.

Primeiro, em qualquer economia capitalista avançada, as pessoas geralmente emprestam e tomam dinheiro emprestado, não os bens reais. Como pode uma convergência para uma taxa originária “real” sobre os bens emergir quando o empréstimo não é uma forma de escambo, mas sim empréstimo de dinheiro?

Em segundo lugar, a natureza das taxas de juros monetárias em uma economia de mercado, e mesmo em hipotéticos mercados totalmente livres, não é descrita pela teoria da preferência temporal.

Em qualquer economia capitalista, geralmente haverá um estoque de dinheiro usado para comprar e vender ativos em mercados secundários (sejam mercados reais ou financeiros). Esse dinheiro pode ser desviado para uso em empréstimos ou compensação de empréstimos para investimentos em bens de capital. Mesmo que se usasse o modelo de fundos emprestáveis, uma diminuição na preferência pela liquidez pode aumentar os fundos disponíveis para empréstimos sem uma correspondente redução no consumo, uma vez que pode ser apenas dinheiro usado anteriormente em mercados de ativos secundários ou descartado. Tais mudanças são apenas mudanças na liquidez dos ativos mantidos na carteira de uma pessoa, e não mudanças na preferência temporal. Portanto, mudanças nas taxas de juros monetárias, mesmo em algum sistema hipotético de livre mercado, não precisam necessariamente comunicar qualquer informação significativa sobre a preferência temporal ou mesmo qualquer informação significativa.

Mesmo quando as pessoas se abstêm de consumir e poupam dinheiro, isso não significa que a sua poupança agora implique uma despesa de consumo no futuro. Os recursos podem não ter sido consumidos agora, mas isso não significa que a eventual saída desses recursos em um projeto de bens de capital seja exigida no futuro.

Em suma, pode-se dizer que:
(1) uma decisão de poupar dinheiro agora não implica uma futura compra de consumo;

(2) poupar dinheiro agora não precisa ser investido em projetos de bens de capital, e pode ser usado para comprar ativos secundários (reais ou financeiros). Um grande estoque de dinheiro está, a qualquer momento, vinculado a compras e vendas de ativos secundários;

(3) o dinheiro disponibilizado para investimentos em bens de capital pode simplesmente ter sido transferido da compra de ativos secundários (reais ou financeiros) e não da abstenção do consumo, e não há necessidade de mudança na preferência temporal, apenas na preferência pela liquidez.

(4) mudanças nas taxas de juros monetárias, mesmo em hipotéticas economias de livre mercado, não precisam sinalizar nenhuma informação confiável e, de fato, nenhuma informação sobre preferência temporal ou disponibilidade real de recursos.

BIBLIOGRAFIA

Maclachlan, Fiona C. 1993. Teoria Geral de Interesse de Keynes: uma reconsideração. Routledge, Londres.

Mises, L. 2008. Ação Humana: Um Tratado sobre Economia. A edição do acadêmico. Instituto Ludwig von Mises, Auburn, Ala.

Bolsonaro cavou a própria cova

Arthur Rizzi*

As lutas intestinas do governo entre a ala olavo-bolsonarista e a ala militar se intensificaram muito nas últimas semanas, com Bolsonaro recebendo um ultimato de seus ministros e vice-presidente para que o mesmo criticasse o astrólogo desbocado e maledicente Olavo de Carvalho. Como esperado, tal medida suscitou fúria e ódio na olavosfera, que agora se divide entre a ideia de um presidente fraco e manipulado pelos seus ministros e a figura de um traidor inominável.

A verdade é que o presidente Jair Bolsonaro tentou levar essa situação em banho-maria, empurrando com a barriga. E a ideia fazia algum sentido, onde um lado limitava as burradas e exageros do outro. Onde o olavismo fosse extremamente subserviente aos interesses de sua verdadeira pátria e razão de viver, os Estados Unidos, os militares entrariam com uma boa dose de razão e nacionalismo. Do outro, onde houvesse certo laxismo moral, entrava o olavismo com moralismo protestante para amenizar. A ideia não era ruim, exceto por um ponto.

A história nos mostra que presidentes só se sustentam sobre bases divididas se ele, pessoalmente, tiver mais força que as duas facções de suporte de seu mandato. Um exemplo recente é Vladimir Putin, que reúne em sua base liberais, nacionalistas e até alguns comunistas desgarrados do PCFR. Putin encarna, assim, a figura do charreteiro com um martelo. De um lado da charrete o cavalo vermelho, do outro o cavalo liberal. Sempre que um começa a andar mais rápido que outro ele dá uma martelada na cabeça do cavalo, que logo retorna ao seu passo normal.

Bolsonaro desde antes de seu mandato, desde o início do período eleitoral, disse e desdisse coisas várias vezes por conta da pressão. Quando encarnava certo nacionalismo vulgar, percebeu que perdia apoio da ala olavista. Com isso, amoldou o discurso ao liberalismo mais entreguista. Quando percebia que o excesso de liberalismo desagradava a certas alas do militarismo com quem contava com apoio certo, diminuía a ênfase no liberalismo salvaguardando algumas estatais estratégicas.

Uma coisa é o uso do discurso para encontrar meios termos toleráveis, outra é sucumbir à pressão de lobbies. A fraqueza reiterada do presidente, juntamente com falas e aparições desastradas; nomeações ministeriais completamente ineptas e ideológicas, beneficiando assim a ala olavista. A presença deletéria dos filhos mostrando ter mais voz e vez que o próprio pai no governo, levaram a inevitável ascensão do General Mourão.

Mourão fez muito pouco pelo destaque que ganhou. Tudo o que ele precisou fazer foi sorrir para as câmeras, falar obviedades que todo mundo sabe, mas que andam esquecidas pelo poder discursivo do olavo-bolsonarismo, e tratar jornalistas com algum respeito. Do outro lado, um presidente sem qualquer poder sobre a ação ideológica dos próprios filhos, em conjunto com uma postura de enfrentamento à mídia, além da sua incapacidade de entender os elementos mais essenciais da economia (em frangalhos) e dos problemas políticos com os quais têm que lidar, aliado a sua crença genuína (true believer) nas teorias estapafúrdias do velho morfético da Virgínia, acabou por fazer com que Mourão brilhasse mais por demérito do presidente do que por qualquer qualidade de Mourão. Era inevitável.

Nenhum dos dois lados ganhou o apoio da ala liberal-mercadista comandada por Paulo Guedes, o que poderia ser o fiel da balança. As razões são simples. Apesar da ala militar representar a sobriedade política e a capacidade de articulação de que essa ala precisa, ela têm um viés nacionalista e estatizante, com Mourão se opondo a privatização dos correios e querendo até rever a entrega da Embraer. Por outro lado, a ala olavo-bolsonarisra, amante do livre-mercado e da Escola Austríaca de economia, goza de prestígio no campo econômico. O americanismo desabrido dessa ala do governo favorece ao espírito privatista desse grupo. Por outro lado, a inabilidade política da mesma criando cizânia no seio do congresso e sua política externa idealista e conflituosa com importantes parceiros comerciais, fazem com que essa ala não apoie de imediato o olavo-bolsonarismo.

Sem um presidente forte, e sem um fiel da balança, podem haver dois cenários possíveis:

1- Mourão toma a dianteira, ganha apoio de um setor da esquerda e derruba o presidente.

2- O clima de balbúrdia e conflito crescerá até que ou um lado entregue os pontos por completo, ou até o governo ficar completamente paralisado em todas as esferas.

Se eu fosse o presidente, torceria para a ala olavista desistir, pois pelo menos com ela abandonando o barco, ainda é possível contornar a situação com a habilidade política e técnica da ala militar. Se os militares abandonarem o navio, faltará quadros técnicos para preencher os ministérios e aí o reino do caos ideológico terá início. Isso levará o governo a um fim precipitado tão ou mais melancólico que o de Dilma.

Contudo, no fim das contas, se Bolsonaro cair, reclamarão do Mourão, ou do Paulo Guedes, ou do partido da imprensa golpista, ou da esquerda comunista, etc. Mas a culpa será do próprio presidente, um despreparado e omisso.


*Arthur Rizzi é formado em história.

 

Distributismo, Pareto e Competição perfeita.

O texto a seguir é uma tradução de um artigo de Richard Gallenstein da Distributist Review.

Richard Gallenstein*

O argumento liberal

As ciências econômicas contemporâneas são construídas sobre um grande corpo de suposições ou simplificações que permitem o estudo da atividade econômica usando matemática avançada. Sob essas premissas, os economistas fazem inúmeras afirmações poderosas sobre a economia e as justificam com rigorosas provas matemáticas. Um conjunto dessas suposições (e há outras que valem a pena investigar) é o conjunto relacionado ao que é chamado de “concorrência perfeita”. Sob as suposições de concorrência perfeita, uma declaração poderosa é feita sobre a economia como um todo. Diz-se que as economias de mercado alcançam um equilíbrio que maximiza a eficiência do mercado e cria um estado em que ninguém na economia pode estar em melhor situação sem prejudicar alguém. Isso é chamado ótimo de Pareto. Vale a pena investigar os pressupostos da concorrência perfeita e as afirmações da otimização de Pareto e ver que conclusões podem ser tiradas sobre o capitalismo e o distributismo.

A concorrência perfeita é um ambiente econômico que contém um grande número de empresas competitivas em cada mercado. Esse número de empresas deve ser grande o suficiente para que cada empresa não tenha participação de mercado suficiente para sozinha se impor. Outra maneira de dizer é que cada empresa é uma “price taker“. Ele deve vender seus produtos no mercado a qualquer preço que o mercado estabelecer e irá determinar quanto produzir com base em seus próprios custos internos de produção. O mesmo cenário está presente para os consumidores. Há um grande número de consumidores no mercado, de tal forma que os consumidores não podem afetar os preços com suas compras, mais uma vez tornando-os “price takers“. Para reforçar essa suposição, outras suposições são feitas. Primeiro, os consumidores devem ter informações perfeitas sobre eles, especialmente os preços em todo o mercado para o bem. Em segundo lugar, não há barreiras à entrada no mercado dessa indústria. A primeira premissa garante que os preços permanecerão os mesmos em todo o mercado para um determinado bem, pois permite que os consumidores sempre comprem o bem com o menor preço. O segundo garante que novas empresas possam entrar no mercado quando houver lucros a serem feitos nesse mercado. Sob competição perfeita há sempre equilíbrio de mercado, isto é, a oferta é igual à demanda e o mercado limpa (todos os produtos são vendidos). Sob concorrência perfeita, nenhuma empresa tem poder sobre o mercado, nenhuma empresa terá lucros a longo prazo e os salários refletirão com precisão a produtividade dos trabalhadores.

Sob essas condições, os economistas argumentam que o ótimo de Pareto será alcançado. Esta é a melhor maneira de melhorar o mercado e criar uma situação melhor. A otimização ou eficiência de Pareto é o resultado desejado dos entusiastas do livre mercado, porque é esse estado ótimo que somente a mão invisível pode criar e onde, sugere-se, toda a sociedade está em melhor situação. Análises econômicas adicionais mostram que a interferência nos mercados apenas reduz a eficiência e cria uma perda líquida. É claro, a partir da análise econômica, que impostos, regulamentos, controles de preços, tarifas, etc. impedem que a economia atinja o equilíbrio ideal de mercado. Como o equilíbrio competitivo não é atingido, essas interferências do mercado induzidas pelo governo custaram à sociedade o resultado ideal do mercado, e essa perda é chamada de perda de peso morto. Esta perda de eficiência não pode ser recuperada ou redistribuída. A partir desses resultados, pode-se argumentar que mesmo políticas para ajudar os pobres acabariam prejudicando os pobres, porque a riqueza geral da sociedade é reduzida pela perda de peso. Segue-se então o argumento de que seria mais favorável para os pobres se o mercado atingisse sua eficiência ideal e produzisse a maior riqueza para que esse aumento de riqueza pudesse se tornar disponível para eles. […] Reforçando isso, em alocações pareticamente eficientes no equilíbrio de mercado, os pobres não podem estar em melhor situação, sem prejudicar outra pessoa e a economia como um todo. Estes resultados ajudam a defender o mercado livre e desregulado.

Outras hipóteses:

Há outro lado na moeda da otimização do Pareto. A otimização de Pareto por si só não leva em conta a distribuição de riqueza ou qualquer tipo de igualdade dentro da economia. É possível que um resultado aceitável possa ser considerado inaceitável por alguns padrões de igualdade e justiça. Lembre-se, a eficiência de Pareto significa apenas que, para aumentar o bem-estar de alguém, deve-se prejudicar a de outro, mas não se fala diretamente sobre igualdade. No entanto, o economista não está ausente das bases para uma resposta à aparente desigualdade. Outros resultados da análise econômica mostram que existem muitos resultados ideais de Pareto dentro de uma economia. Quando os agentes econômicos têm dotações iniciais diferentes e presumivelmente mais equitativas, a economia alcançará (através da negociação) um equilíbrio diferente, que pode ser um ponto mais desejável do ponto de vista ideal. Ou seja, algum esquema de transferências de riqueza dentro da economia poderia resultar em um resultado pareto-eficiente diferente e mais aceitável socialmente. Portanto, os resultados da análise econômica em eficiência de mercado poderiam ser usados ​​para justificar esquemas de redistribuição apesar dos danos que poderiam ser causados ​​pela tributação. Se o impacto de um determinado imposto sobre a eficiência econômica for pequeno e o dinheiro for bem distribuído, poder-se-ia argumentar que o mercado poderia ser direcionado para um resultado mais eficiente do ponto de vista social. Em conclusão, a análise econômica poderia ser usada para apoiar o capitalismo estatal de estado assistencialista³.

Nesta visão geral muito básica do equilíbrio de mercado, vemos que ele pode ser usado para apoiar tanto o capitalismo laissez-faire ideológico quanto o capitalismo de Estado, ou alguns podem dizer uma forma branda de socialismo. No entanto, ambas as abordagens perdem o foco quando se trata de responder às conclusões dessa análise econômica. Ambas as abordagens avançam com as descobertas sob os pressupostos da concorrência perfeita (em algum grau ou outro). Nem a abordagem do laissez-faire nem a abordagem do grande governo abordam a suposição de concorrência perfeita na qual as conclusões econômicas são baseadas. Examinar mais de perto a concorrência perfeita mostrará que é necessária uma abordagem diferente para atingir os melhores resultados econômicos.

Competição perfeita vs. mundo real.

A competição perfeita não existe no mundo real. Apenas em casos raros, sempre houve mercados que poderiam ser considerados próximos o suficiente para serem tratados como tal. A política não pode avançar sem levar a sério essa verdade. Agora, de forma alguma é uma surpresa para qualquer estudante de economia básica que a concorrência perfeita não seja uma realidade, então isso não é novidade. No entanto, o impacto desse fato não é menos importante. O erro de subestimar essa verdade parece estar no coração do sistema capitalista. Enquanto os capitalistas proclamam a notável eficiência de seu sistema, eles não conseguem ver como seu sistema realmente mina sua própria base e nenhuma quantidade de redistribuição resolverá o problema subjacente.

O capitalismo não é um sistema que proteja ou promova o tipo de competição que capturaria os resultados propostos por Pareto. A mentalidade de “vale tudo” inerente ao capitalismo resulta na destruição da concorrência em geral. Há um incentivo para eliminar seus competidores no sistema capitalista, porque assim você pode lucrar mais com a redução da concorrência. E no mundo real, porque pode haver barreiras significativas à entrada, eliminar a concorrência é possível e lucrativo. Quando olhamos para a economia global hoje, vemos uma economia caracterizada pelo oligopólio e uma tendência contínua de consolidação. (não nos esqueçamos de que essa tendência existiu muito bem, mesmo quando os governos eram muito menores do que são hoje, pense nos trustes do final do século XIX). Uma economia que é caracterizada por um pequeno número de produtores em cada indústria não é uma competição perfeita e, na verdade, pode ter muito pouca concorrência.

Essa falta de competição verdadeira e completa dá a cada produtor algo que eles não poderiam ter sob concorrência perfeita, poder de mercado. Eles têm poder para fixar preços (ou pelo menos afetar os preços), têm poder para aumentar a receita além do que seria necessário para cobrir custos, têm poder sobre o mercado de trabalho (permitindo que eles mantenham salários menores), têm poder sobre o governo, o que por fim, é o poder. E quanto menos empresas houver e quanto maiores as empresas forem, mais poder cada firma individual terá. Quanto mais poder elas têm, mais lucros elas ganham que podem ser usados ​​para adquirir mais poder. Gastam isso em esforços de consolidação (compram outras empresas), usam-no para promulgar preços predatórios, gastam isso em propaganda inteligente destinada a induzir o consumidor a consumir seus produtos ou a criar demanda para seus produtos fora do ar. Quando as firmas são muito grandes, elas começam a afetar os preços não apenas por meio da produção, mas também pelo consumo de insumos. Quando um consumidor de insumos é muito maior do que outros, seu poder de consumo pode afetar o preço desse insumo, reduzindo seus preços e, mais uma vez, dando à empresa uma vantagem maior. Quando o governo é grande, poderoso e aberto a subornos, a situação fica ainda pior. O dinheiro do lucro é gasto em grandes somas para comprar favores econômicos do governo. São aprovadas leis que favorecem indústrias ou produtos específicos em detrimento de outros e de toda a nação. A política do governo chegará a subsidiar direta ou indiretamente os negócios com poder.

O governo não busca mais o bem comum, mas o bem dos agentes econômicos mais poderosos. A economia dos Estados Unidos exemplifica esse processo e mostra suas falhas. As suposições que formam a base da economia matemática moderna não devem ser vistas como apoiando o sistema econômico do laissez-faire e o esquema político que ele requer. Tampouco devem ser vistos como um mero apoio a esquemas de redistribuição em larga escala que movimentam dinheiro apenas dentro de um sistema já quebrado. Em vez disso, deve haver um sistema que promova as condições sob as quais podem ocorrer os resultados favoráveis ​​da concorrência perfeita. Ou seja, um sistema que busca aumentar a concorrência dentro das indústrias, facilita a entrada no mercado para permitir o acesso aos mercados para novas empresas e promove informações uniformes sobre o mercado para os consumidores. Um desses sistemas é o distributismo.

O que é o distributismo?

O distributismo é uma teoria econômica baseada no ensino social católico que busca um ambiente econômico que sustente a dignidade humana, a independência da família e o bem comum da sociedade. A centralidade da família e a dignidade do homem dentro do sistema, longe de enfraquecer sua mensagem, permitiram que os distribuidores formulassem numerosas perspectivas econômicas benéficas. A principal perspectiva focada aqui é a promoção da propriedade amplamente distribuída. Esta posição unicamente aproxima a economia da concorrência perfeita e desses resultados positivos. Com a propriedade amplamente distribuída, a economia naturalmente será preenchida com um número maior de empresas em vários mercados diferentes. Quando muitas firmas são ativas nos mercados, as condições perfeitas de concorrência são atendidas mais de perto e, portanto, a economia em geral se aproxima mais dos resultados econômicos benéficos da otimização do Pareto. Para ser mais específico, o aumento do número de empresas leva ao aumento da concorrência, o que reduz a possibilidade de as empresas ganharem poder de mercado excessivo e, portanto, distorcem o mercado através dos numerosos meios mencionados acima. Simultaneamente, à medida que a propriedade se torna mais difundida, a economia terá uma distribuição mais equitativa das dotações iniciais, portanto, pode-se presumir que um resultado mais aceitável do ponto de vista social será alcançado. Portanto, o distributismo captura as vantagens reivindicadas pelas duas abordagens abordadas acima. Para realizar esse objetivo e ver seus efeitos positivos, os distribuidores pedem duas mudanças principais. A primeira é uma mudança de mentalidade e a segunda é uma mudança na política.

Mudando o Paradigma:

A primeira mudança, a de mudança de mentalidade, viria de algumas maneiras importantes. Primeiro, e mais fundamentalmente, exigimos “um estado de espírito favorável presente na sociedade, um desejo de possuir propriedade, suficiente para apoiar e manter o movimento e nutrir instituições que o tornarão permanente” .4 Esse desejo de propriedade é fundamental porque promoveria uma cultura de empreendedorismo e proporcionaria um controle dentro da sociedade contra o acúmulo de propriedade nas mãos de poucos. Segundo, baseando-se no primeiro, é uma mudança de mentalidade dentro da sociedade para valorizar não apenas a propriedade de si mesmo, mas também dos outros. Isso se manifestaria em maior valor dado às pequenas e familiares empresas sobre grandes corporações cuja existência consolida a propriedade em mãos de poucos. Essa perspectiva mudará fundamentalmente a forma como tomamos decisões de consumo e, naturalmente, impulsionará a economia na direção de ter um número maior de empresas. Em terceiro lugar, é uma mudança de mentalidade em relação a uma maior comunidade e proximidade com os nossos vizinhos. Nós fundamentalmente precisamos pensar mais localmente e comunitariamente. A combinação dessas mudanças em perspectiva acabará afetando a forma como o governo funciona e as políticas que ele faz.

Com base em uma mudança de mentalidade, uma mudança no papel do estado também seria necessária. O papel diferente do estado é que seu papel principal na economia deveria ser “favorecer a propriedade, e sua política deveria ser a de induzir o maior número possível de pessoas a se tornarem donos” .5 Ou seja, o papel do governo é aumentar a propriedade dentro da sociedade, o que resultaria em muitas empresas ativas em tantos mercados quanto possível. Tais políticas que promovem a propriedade devem incluir políticas que facilitem a entrada no mercado para pequenas empresas, bem como remover as ações do governo que realmente subsidiam as grandes corporações e a acumulação de riqueza. Para ser mais específico, algumas idéias para essas políticas são as seguintes: Leis antitruste fortes e rigorosamente aplicadas, assistência específica para pequenas empresas por meio de políticas fiscais favoráveis ​​e empréstimos, eliminação de subsídios e tarifas que favoreçam a consolidação (especialmente na indústria agrícola). , ambiente regulatório favorável para pequenas empresas (especialmente pequenos bancos e cooperativas de crédito), eliminar brechas fiscais e simplificar o código tributário para remover a vantagem criada para grandes corporações, fortes investimentos em educação e treinamento profissional e implementação de serviços sociais através de órgãos intermediários (o princípio da subsidiariedade) que iria aumentar a assistência centrada na comunidade. Um papel adicional do estado seria ajudar a garantir o acesso a informações precisas (simétricas) no mercado. Um olhar para isso (e pode haver muitos) seria usar o exemplo da propaganda. As políticas devem garantir que os anúncios sejam honestos em sua apresentação de produtos e não manipulem o consumidor (apelando para nossos instintos básicos, por exemplo) para garantir que os consumidores tenham informações precisas sobre as quais basear as decisões do consumidor.

Ao centrar seu foco na propriedade generalizada, o Distributismo oferece uma estrutura que pode ajudar a sociedade a obter melhores resultados econômicos. Uma sociedade de propriedade generalizada está muito mais próxima da concorrência perfeita do que uma sociedade de propriedade consolidada. Portanto, o Distributismo realmente oferece uma perspectiva promissora para a discussão econômica contemporânea, mesmo quando considerada à luz da teoria econômica neoclássica contemporânea.


Notas de rodapé:

1- O capitalismo aqui será definido aqui como o sistema econômico do laissez-faire, livre da intervenção do governo (geralmente qualquer intervenção), que é apoiado em grande parte pelos conservadores contemporâneos.
2- Eu não escrevo este artigo afirmando que todas as suposições da economia contemporânea são válidas, nem estou afirmando que a economia como ciência matemática é justificada. Eu não promovo uma posição sobre este artigo. Em vez disso, escrevo isto para investigar o Distributismo sobre o que normalmente poderia ser considerado como motivos capitalistas para ver se ele poderia ser apoiado pela teoria econômica baseada na matemática contemporânea.
3- Desnecessário será dizer que há muito mais que poderia ser dito da análise econômica para apoiar as práticas econômicas contemporâneas relacionadas com a teoria econômica keynesiana.

4- Hilaire Belloc, Servile State.

5- Rerum Novarum, no. 46.


*Richard Gallenstein é doutorando em Economia Agrícola, Ambiental e de Desenvolvimento na Ohio State University.

Reflexões sobre Canudos.

Pedro Ribeiro*

Passem ou venham os anos, Mestre Ariano Suassuna permanece correto: se há um sonho de Deus para o Brasil, se há uma utopia encravada em nossa história e pela qual possamos nos guiar, este sonho, está utopia é Canudos.

E aqui pouco importam as minúcias históricas. O que vale é o mito fundador.

Canudos, em primeiro lugar, foi obra dos debaixo, dos pobres e desvalidos de Deus, não das elites apátridas, à direita e à esquerda. Isto é, foi um projeto soberano, do povo mesmo, e não de quem pretende falar em seu nome.

Canudos, em segundo lugar, foi obra conservadora no mais autêntico e genuíno sentido da palavra, feito de um povo enraizado em sua tradição e sobretudo em sua fé, defendendo seus valores históricos e sua identidade, contra todo progressismo antinacional e anticristão (na época, o positivismo; hoje, o pós-modernismo), mas também contra todo conservadorismo entojado, gravata-borboleta e anglófilo, que vê no Rei não o herdeiro de Dom Sebastião, mas a cópia da Rainha Elizabeth.

Canudos, por fim, foi um arranjo “socialista”. Não o socialismo teórico dos livros empoeirados, menos ainda os ditatorais, sanguinolentos e materialistas, insensíveis à dimensão transcendente do homem, mas sim o “socialismo” como generalização libertária, de concreta experiência de partilha, de divisão comunitária dos bens, embebida dos Atos dos Apóstolos e da Doutrina Social da Igreja, não estudada, mas vivida e crida no fundo d’alma por aqueles sertanejos iletrados.

Fé, Tradição, Partilha e Organização Popular: hoje, como ontem, ecoam no íntimo de cada brasileiro autêntico os apelos de Canudos.


*Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia.

Eduardo Moreira e a previdência: meio certo e meio errado.

Raphael Mirko*

Vi alguns vídeos do Eduardo Moreira falando sobre a reforma da previdência, e à primeira vista soa como música para os ouvidos, contudo, ao pesquisar mais a fundo, percebi que ele não tem nenhuma proposta para o problema posto (pelo menos não vi), apenas críticas ao modelo proposto pelo Paulo Guedes, em que, com certeza, há erros e privilégios para certas castas.

A conduta de Moreira é grotesca nesse assunto, um dos erros mais escandalosos divulgados por ele, partem duma ideia sem lógica de querer se infiltrar no mainstream da esquerda, por exemplo falando sobre as dívidas das empresas para com a previdência. É importante lembrar que a previdência social é um gasto corrente e mesmo que essas empresas paguem o deve, não seria o suficiente para cobrir o gasto CORRENTE.

Por exemplo, hoje no Brasil, muito mais pessoas se aposentam mais rápido do que morrem, todos os dias pessoas se aposentam num número maior do que morrem diariamente. Isso progressivamente cria um déficit e amplia o mesmo!

Ele, com razão, fala sobre a DRU – a desvinculação das receitas da união -,  nesse ponto eu concordo com ele. E é prova de que nem em tudo ele está errado, mas ele se aproveita de alguns pontos certos para levar uma ideia completamente errada da situação para as pessoas. Ele usou num dos vídeos um termo diferente para “capitalização”, quem é leigo tende a acreditar que ele está contra essa reforma justamente por ela beneficiar os bancos, mas o que ele defende é justamente isso.

Para termos um Estado de caráter desenvolvimentista é necessário que tenhamos poupança, é impossível ter poupança da maneira que está posta a atual previdência, se o déficit for aumentando, automaticamente os recursos para as áreas de desenvolvimento humano diminuirão.

Ahh, Mirko, mas aí é só dar calote na dívida”, temos que ter em mente que esse governo não vai dar calote e ele foi eleito com essa proposta de campanha, em 16 anos de PT/PMDB não tivemos calote, muito pelo contrário! E talvez não seja nem desejável – muito menos ainda na atual situação do país.

Outro dado interessante é que o brasileiro em certas regiões vive tanto quanto um alemão, mas se aposenta em média dez anos mais cedo que o alemão, no entanto o Brasil é mais pobre que a Alemanha, onde está a lógica? Concordo que devemos ter uma reforma no que se refere a idade com a realidade de cada região, não dá pra um engravatado de São Paulo se aposentar com a mesma idade que um trabalhador rural do nordeste, mas também não dá para ambos de aposentarem do modo que estão se aposentando.

Não irei me alongar mais, mas no geral é, o Eduardo Moreira faz marquetagem sobre a reforma da previdência, negar que ela é deficitária, é negar a realidade e é ser antinacionalista, porque um Estado só se desenvolve se tiver poupança, e sem uma reforma decente, nunca teremos.


*Raphael Mirko é estudante de história e economia;

O monetarismo refuta a escola austríaca sobre 1929

O artigo é a republicação de um texto da página "Economia mainstream"

Você certamente já foi apresentado na escola à interpretação marxista da Grande Depressão, que a caracterizou como uma “crise de superprodução”. Também é provável que já tenha ouvido a explicação austríaca, bastante difundida na internet por canais libertários, que culpa uma suposta expansão exagerada do estoque monetário nos anos 20. Apesar de bastante divertidas, estas abordagens são absolutamente minoritárias dentro do grandes centros acadêmicos mundo afora, dominados pela ortodoxia neoclássica. Neste post estaremos apresentando uma visão que, na nossa interpretação, sintetiza um pouco do consenso na economia sobre o assunto. Ela está dividida em quatro tópicos, que serão explicados a seguir:

1) Corrida bancária (modelo Diamond–Dybvig)

Depois que a bolha especulativa estourou em 1929, a economia americana entrou em recessão, mas ainda não era uma depressão. Era uma recessão como várias outras na história americana. O problema começou a ficar sério depois que se iniciou um ciclo de falência bancária, quando o Bank of United States decretou falência, em 1930. Era um dos maiores bancos comerciais do país, e isso teve um efeito enorme na confiança em relação ao sistema. O modelo de jogos Diamond–Dybvig [1] nos mostra que um dos equilíbrios Nash de um sistema de reserva fracionada é a corrida bancária. Resumidamente: Os bancos mantém em caixa uma fração dos depósitos e emprestam o resto, mas como nem todo mundo saca ao mesmo tempo, o sistema se mantém funcionando normalmente em situações habituais. Só que se as pessoas passam a desconfiar da capacidade dos bancos de honrar com os depósitos, temos um problema. Do ponto de vista dos jogos não cooperativos, é mais ou menos assim: Se um depositante acha que outros depositantes irão sacar seu dinheiro, é racional da parte dele correr para sacar também antes que o dinheiro acabe, mesmo que ele não esteja precisando do dinheiro agora. Quando todo mundo age racionalmente assim, há uma corrida bancária, que representa um equilíbrio Nash Pareto inferior; isto é, a ação racional e auto-interessada de todos os jogares leva a um resultado ruim para todos eles.

A forma de resolver o problema é garantir os depósitos privados nos bancos. Bastava o FED ter socorrido o Bank of United States com uma linha de crédito e anunciado publicamente que faria o mesmo com qualquer outro banco que precisasse de liquidez. Na verdade o banco central americano foi criado justamente para esta finalidade, mas ficou de braços cruzados por motivos políticos [2].

2) Efeito Fisher (deflação por dívida)

Com a corrida bancária, as pessoas passaram a trocar dólar por ouro para se proteger. Isso causou um encolhimento forte da base monetária, que repercutiu nos preços. A deflação acumulada entre 1929 e 1933 foi de 33%, acompanhada de um encolhimento de 35% da base monetária [3]. Como o juro real corresponde ao juro menos a inflação (efeito Fisher) [4], uma inflação negativa (deflação) eleva a taxa de juro real, e foi isto que ocorreu. A enorme deflação de preços, não antecipada e não prevista em contrato por cláusula de indexação, tornou as dívidas interbancárias e com os clientes mais pesadas em termos reais, o que agravou a quebradeira do sistema. Temos aqui um ciclo vicioso: A corrida bancária provoca encolhimento da base, que provoca deflação. Isso agrava a crise no sistema financeiro, levando mais bancos à falência. As falências minam a confiança e aumentam a própria corrida bancária. Repete o ciclo.

3) Rigidez dos salários nominais (expectativas, contratos, problema de coordenação).

Esta queda rápida nos preços exigiria uma queda do mesmo tamanho nos salários nominais para preservar o nível de emprego, o que é totalmente inviável no curto prazo.

A relação de Philips dos salários com expectativas adaptativas nos diz que:

W’/W=π*+λh (5)

Onde W’/W é a taxa de variação temporal dos salários nominais, π* as expectativas de inflação, h o hiato de produto e λ uma constante de sensibilidade do salário nominal ao desemprego.

Também sabemos, a partir das expectativas à Cagan, que:

π*’=β(π-π*) (6)

Onde π*’ é a variação temporal da expectativas de inflação, π a inflação de fato e β uma constante de sensibilidade das expectativas.

O que estas duas fórmulas nos dizem é que o salário nominal é reajustado pelas expectativas de inflação mais um componente relacionado ao hiato de produto, e que as expectativas de inflação variam segundo o desvio da inflação atual quanto à expectativa. Isto significa que uma variação na inflação muda a derivada da expectativa de inflação, fazendo com que a expectativa de inflação se altere com atraso; e neste meio tempo em que as expectativas estão se adaptando, os salários nominais crescem a uma taxa diferente dos preços. Além disto, salários em geral são fixados em contrato, com prazo acertado em um intervalo de tempo, e mesmo assumindo que os agentes se comportam segundo as expectativas racionais, também existem problemas de coordenação a nível microeconômico que criam esta rigidez nos salários nominais [7].

Como, pelos motivos expostos, os salários são incapazes de reagir com tanta velocidade à deflação, esta queda abrupta dos preços acabou aumentando o nível de salário real (salário/custo de vida). Isto só seria possível aumentando o produto marginal do trabalho, o que corresponde no curto prazo, segundo a lei dos rendimentos marginais decrescentes, a aumentar o desemprego e reduzir o PIB. Foi o que aconteceu.

4) Reação Equivocada

A reação do governo à crise foi catastrófica. A guerra tarifária no comércio internacional e as várias regulações sobre a atividade econômica prejudicaram a eficiência, funcionando como um choque de oferta negativo; o que derrubou ainda mais o nível de salário nominal compatível com o pleno emprego. Além disso, houve coisa do tipo proibir reduzir salário e preço (sim, eles fizeram isso). O New Deal teve pontos importantes, como suspender os pagamentos em ouro, que encerrou o encolhimento da base monetária em 1933; criar a DFIC (Federal Deposit Insurance Corporation), instituição que garantia os depósitos privados nos bancos, encerrando a corrida bancária em 1934; e criar programas assistenciais para ajudar as famílias necessitadas, mitigando a miséria e restaurando a confiança. Mas o pacote de regulações microeconômicas sobre o funcionamento dos mercados de produtos parece não ter sido positivo.

Enfim, a grande depressão dos anos trinta segundo a visão ortodoxa (nossa interpretação) foi uma combinação de erros de política econômica. Alguns por omissão, como deixar o sistema financeiro quebrar e a base encolher; outros por ação, como a guerra tarifária e as regulações exageradas do New Deal, que apesar de seus méritos em alguns pontos, parece ter tornado a recuperação mais lenta do que poderia ser.


#LaL

[1] – https://en.wikipedia.org/wiki/Diamond%E2%80%93Dybvig_model

[2] – Capítulo “Anatomia da Crise” do livro “Livre para escolher” do Milton Friedman.

[3] – “A Monetary History of the United States, 1867-1960”, Milton Friedman e Anna Schwartz

[4] – https://en.wikipedia.org/wiki/Fisher_equation

[5] & [6] – “Macroeconomia”, Mario Henrique Simonsen e Rubens Penha Cysne.

[7] – Capítulo “Rational expectations, game theory and inflationary inertia” do livro “Economy as an evolving complex system”.