Previdência: Uma alternativa ao toma lá, dá cá.

Arthur Rizzi*

Em pleno descenso econômico de 2008, Paul Krugman lançou um livro sobre a crise. Traduzido no Brasil como “A crise de 2008 e a economia da depressão” pela Elsevier, o livro em seu último capítulo uma estimativa de Krugman, de que seria necessário um aprofundamento de 4% do déficit americano em política fiscal, para tirar os Estados Unidos do buraco. A receita não foi seguida tão fielmente assim, dado que a opção primordial fora a política monetária com os inúmeros quantitative easings, mas o fato é que houve alguma expansão de gastos do governo, o que por fim teve resultado.

No Brasil, que já saiu da crise, provavelmente para impulsionar a economia talvez fosse o caso de fazermos o mesmo. Sim, você não leu errado! Trata-se de “Bring John Maynard Keynes back!” E do jeito certo. Bolsonaro tem tido dificuldades para passar a reforma da previdência no congresso pois queria evitar a troca de cargos por apoio. Talvez ele não precise disso. Vamos ser sinceros, só ingênuo acredita que em qualquer parlamento do mundo deputados debatem e são movidos apenas por ideias. E não há nada essencialmente errado em trocar um apoio numa pauta por um apoio recíproco em outra.

O que um deputado mais quer enquanto político? Obviamente ser bem visto. Os deputados vivem tentando emendas e verbas para seus respectivos públicos e regiões no congresso e com o executivo. O presidente Jair Bolsonaro poderia condicionar a liberação dessas verbas ao apoio a reforma da previdência. E como o governo optou por um diálogo direto com bancadas e governadores, pode fazer uma articulação com os governadores para que eles façam projetos de infraestrutura locais, que passem nos seus parlamentos ao passo em que o governo federal repassa essas verbas.

Isso teria várias vantagens, mas as principais são:

  1. Bolsonaro evitaria a troca de cargos por apoio.
  2. Bolsonaro reativaria com isso a economia e descentralizaria obras de infraestrutura.
  3. Isso aumentaria a arrecadação no médio prazo.

Alguém poderia alegar que isso espantaria o mercado, que não toleraria a essa altura do campeonato um aumento do déficit primário que fechou em 1,5% do PIB pelo segundo ano consecutivo. Mas a verdade é que Bolsonaro pode não ter escolha! O mercado não vai esperar para sempre e se até junho a reforma não tiver sido apreciada pela câmara, o mercado vai abandonar o barco do mesmíssimo jeito. Se era necessário 4% para parar uma economia em depressão na visão do Krugman, muito menos seria necessário para ajudar uma economia como a brasileira com subutilização de capital e que já escapou da recessão, mas cujos resultados são ainda medíocres.

Um dilema:

A verdade é que estamos num dilema entre assegurar o equilíbrio fiscal de curto prazo – o que tem sido uma briga inglória e cujos alvos não foram sequer arranhados – e assegurar um equilíbrio fiscal duradouro, muito mais relevante de longo prazo que é a reforma da previdência. Cabe ao presidente fazer política e convencer o mercado de que tolerar um déficit de 3,2% (aumento de 1,7% em proporção do PIB nos gastos públicos), é essencial para a aprovação da reforma. Como isso pode gerar um boost nos resultados econômicos permitindo um crescimento de 1,9 a 2,3% do PIB, haverá como contraparte um aumento de arrecadação. Após a aprovação da reforma, já haverá uma redução natural dos gastos, e portanto, o governo poderá, com mais sucesso, tentar novamente voltar às medidas de austeridade daí dois ou três anos (para assegurar o crescimento) para atingir a meta de zerar o déficit tendo um impacto menor sobre o crescimento.

Acho sinceramente que tolerar um déficit primário de 3,2% por dois anos ou três após a aprovação da previdência não é pedir muito se tivermos em mente que uma economia muito maior será feita no longo prazo.


*Arthur Rizzi é historiador com foco em história do pensamento econômico.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s