Entenda o que é o americanismo: a ideologia do governo Bolsonaro.

Arthur Rizzi*

[…] só não me sinto envergonhado de haver nascido no Brasil porque não tive a menor parcela de responsabilidade nesse infausto acontecimento. Meus antepassados portugueses e alemães, uns burros, achavam que estavam indo para a América.

Olavo de Carvalho em Valei-me, Alborghetti!

As pessoas tem observado e chamado de conservadorismo a ideologia manifestada pelo governo Bolsonaro, especialmente pela ala associada ao escritor e jornalista Olavo de Carvalho. Assim,  a ala composta por Weintraub (MEC), Ernesto Araújo (Itamaraty) e Damares (DH), seriam por assim dizer alas conservadoras. Em que pese de fato haver uma relação com o conservadorismo, não é apropriado dizer que esta ala seja conservadora e que a ideologia do governo seja conservadora.

Conservadorismo é uma expressão que pode ser tomada em vários sentidos, tanto como um nome genérico para posições à direita ou como uma expressão voltada única e exclusivamente para as doutrinas burkeanas e derivadas que se manifestam mais comumente em países de língua inglesa.

Se tomado como nome específico de uma doutrina e de suas variantes, o governo Bolsonaro especialmente na ala olavista, até pode ser dito ideologicamente conservador embora seja muito pouco conservador na prática. Isso acontece porque a definição de conservadorismo como uma doutrina filosófica oriunda em Burke, torna restrito demais o conservadorismo como uma manifestação histórica e cultural geograficamente restrita. Medidas como a do governo Bolsonaro em relação às armas, à economia, ao federalismo e à política externa são sem dúvidas conservadoras se fossem aplicadas por um governo inglês ou americano. Porém, com uma historicidade totalmente distinta e uma realidade completamente a parte do mundo anglo-saxão, essas medidas geram enorme estranheza no Brasil. O que nos leva ao conservadorismo como um nome genérico para posições à direita.

Um conservadorismo brasileiro deveria prezar pela realidade histórica do Brasil. O pensamento conservador no Brasil, como demonstrou o nosso colaborador Ricardo Carvalho neste artigo, tem uma origem nacionalista e anti-liberal em matéria econômica (veja o caso não só dos primeiros conservadores, mas também os Integralistas, o regime militar e o Prona). Ele também é de tendência centralista administrativamente falando, preferindo um Estado unitário a um Estado federal. É preocupado com a religiosidade e isolacionista em política externa, tendo sua preocupação exclusivamente limitada à América do Sul.

Ora, o olavo-bolsonarismo (que é como tem sido chamado), ignorando essas preocupações históricas e importando o credo conservador de matriz anglo-americana em doutrina e em práxis, tem ido na contramão desse histórico. De forma que, embora os autores que embasem essa visão de fato sejam conservadores, a implementação das ideias aqui tem sido na verdade uma inovação.

E é por ser uma inovação, que eu digo que a ideologia desse governo é o americanismo. Tomo o termo aqui emprestado, tal como ele é definido como uma heresia pela Igreja Católica. Segundo o Papa Leão XIII na carta Testem Benevolentiae, o americanismo seria uma variante exclusivamente americana da heresia liberal e modernista. Ela, como o liberalismo, não apenas toleraria as liberdades modernas, mas também as endossaria. Diferiria-se do liberalismo, porém, por uma certa imanentização da providência no sentido de apontar os Estados Unidos e a civilização americana como uma antecipação do reino de Deus ou como uma realização mais perfeita da cristandade. Conhece esse tipo de visão? É a de Jacques Maritain, que endossou durante muito tempo o americanismo embora terminasse por rejeitá-lo n’O camponês da Garona enquanto se lamentava pelo Concílio Vaticano II.

O americanismo fazia uma apropriação de uma visão protestante, assim como os calvinistas perseguidos em fuga para as 13 colônias, os católicos irlandeses (essa heresia afetou muito essa comunidade) passaram a se ver como o povo hebreu em fuga pelo deserto em busca da Canaã prometida por Deus. Ao chegar nos EUA e alcançarem rápida prosperidade, esses católicos oficializaram sua visão da América como a nova Israel.

A direita brasileira bolsonarista, por razões históricas outras tem essa mesma visão imanente dos Estados Unidos, explícitas à seguir:

1- Uma adoração por um modelo idealizado das instituições americanas.
2- Uma concepção a priorista da essência do que é o ethos americano como sendo a narrativa ideológica republicana.
3- A teologia histórica do Estado e da nação americanas, como sendo o receptáculo da vontade de Deus, e atores principais (papel dividido com Israel) da execução da vontade de Deus no mundo. Instrumentos da Providência na História. A city upon a hill.
4- Uma concepção metafísica e transcendente das causas do progresso económico e material: a prosperidade não é a consequência natural de política externa eficiente, com políticas públicas distributistas e políticas macroeconômicas desenvolvimentistas. Ao contrário, o progresso seria fruto de como o Brasil se insere dentro do projeto divino no destino histórico de Israel e EUA.
5- Se Deus escolheu os veículos históricos da salvação imanente, o diabo escolheu os veículos geopolíticos da perdição. Qualquer país que se oponha ao projeto americano. Podem ser islâmicos, comunistas, fascistas, etc. A Russia ocuparia a posição do pecador indeciso, com a alma dividida entre servir a Deus (EUA) ou ao diabo (o mítico comunismo), por isso o chanceler Ernesto Araújo idealizava uma parceria EUA, Brasil e Rússia, representando a união das três nações braço do cristianismo.

  • O Brasil sendo o maior país católico do mundo.
  • A Rússia maior país ortodoxo do mundo.
  • Estados Unidos o maior país protestante do mundo e escolhido por Deus na visão olavo-bolsonariana.

A China seria a mão do diabo na Terra. O veículo da perdição por excelência. Coréia do Norte e Venezuela os possessos em vias de serem exorcizados. De certo, há uma ligação entre conservadorismo enquanto doutrina filosófica e esse americanismo, mas dado que não conserva nada do Brasil e cuja missão é americanizar o país, não se pode dizer de maneira nenhuma que seja um conservadorismo.

Isso se dá pois o americanismo enquanto doutrina do governo é uma força de modernização. A literatura clássica da sociologia brasileira cristalizada em Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Raimundo Faoro, consagrou a visão do Brasil como um povo pré-moderno cercado por instituições modernas, o que resultaria no patrimonialismo, no populismo e na corrupção endêmica. Ainda hoje, embora o processo modernizador esteja mais avançado, o brasileiro é um povo que encontra muitas dificuldades em se modernizar e continua sendo em grande medida um povo de hábitos e mentalidade do Antigo Regime português.

Desta forma, não buscando conservar nada, o americanismo visa modernizar o país através da imposição de uma fôrma como um molde cultural, sociológico, antropológico norte-americano idealizado. Unindo de um lado o protestantismo americano (Malafaias, Damares, Felicianos, Edir Macedos) e um catolicismo americanista ou filo/cripto-americanista (Pe. Paulo Ricardo, TFP, CDB, etc.) saudosista de uma outra força americanista, a UDN.

Se é para dar um nome, que nomeemos a ideologia corretamente. O governo Bolsonaro não é conservador, é americanista.


*Arthur Rizzi é formado em história pela UFES.


Fontes úteis para pesquisa:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/566284-que-tipo-de-heresia-e-o-trumpismo

http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/velhaheresia/

http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/testem/

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