Direita brasileira: do globalismo inconsciente ao globalismo ideológico

Arthur Rizzi

A direita brasileira está dando passadas largas em termos de discurso político para num futuro não muito longínquo, tornar-se um porta-voz consciente do globalismo. O raciocínio é simples: Na internet, ponto principal do debate econômico, a radicalização de ideias de lado-a-lado criou a figura do “isentão”.

É óbvio que existem pessoas que num contexto político desfavorável às suas ideias, as transmutam em uma opinião centrista para com isso fazer avançar pelo menos uma parte de sua agenda real. Contudo, isso nada tem a ver com pessoas cuja posição política e proposta de modificação da política sejam mais centristas, moderadas e prudentes.

Isto é, uma coisa é a pessoa que diz defender a solução de dois Estados para a questão israelo-palestina como forma de ocultar seu anti-sionismo, podendo assim apoiar a causa palestina sem ser acusado de antissemita. Outra bem diferente é a pessoa que acredita que a solução de dois Estados é efetivamente s melhor solução.

O problema é que por conveniência dos dos lados, ambos são empurrados sem distinção para o mesmo rótulo de “isentão”. Quanto mais à esquerda (ou à direita) você estiver, mais direitistas (ou esquerdistas) você verá. Veja no caso de Bolsonaro. As críticas que se fazem a política externa podem ser feitas pelas mesmas duas razões acima. Pode ser o caso do “isentão”, o anti-bolsonarista que por estar fora do poder e temer represálias advoga uma versão mista da sua visão real de política externa com uma versão moderada da política bolsonarista. Ou pode ser que seja uma pessoa que realmente tenha uma visão mais moderada desses assuntos sem qualquer compromisso com o anti-bolsonarismo.

De fato, muitas personalidades conservadoras e até tradicionalistas tem feito críticas a orientação da política externa de Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho. Nem por isso são esquerdistas enrustidos. Ao contrário, justamente criticam porque acham que o governo ou o país seriam mais beneficiados por um outro tipo de política externa.

E de fato, se analisarmos, o “nacionalismo” que a imprensa internacional atribui a Bolsonaro não passa da metade da primeira página. O suposto nacionalismo começa e termina no discurso. A política externa visa primariamente os interesses dos Estados Unidos e de Israel, com o Brasil prestando um acordo de suserania e vassalagem com os Estados Unidos e com os setores mais americanistas do governo querendo com a entrada na OTAN, que este pacto de suserano-vassálico converta o Brasil num protetorado dos Estados Unidos.

Ora, mas o nacionalismo não se constitui justamente numa postura de não subserviência a ninguém e de autonomismo? O nacionalismo não acaba por optar por uma política externa independente, optando quando muito e inevitável, por um alinhamento comedido e negociado, e sempre com muitos poréns e declarações de provisoriedade? Afinal, “a pátria vem em primeiro lugar. Se assim é, e se como dizia Santo Tomás de Aquino “falar a verdade é quando o discurso versa sobre o Ser na medida em que este é conhecido”, podemos evidenciar que o discurso nacionalista não versa sobre a realidade do que é a atual política externa.

O problema é que hoje a questão da política externa tornou-se ideológica. Ser de direita é ser pró-EUA e Israel. Ser de esquerda é ser pró-Palestina e Rússia e/ou China. Mas a realpolitik não é assim. China e Estados Unidos têm uma relação econômica simbiótica, onde um lado poupa e o outro consome. Nada poderia ser mais longe do fla-flu acima descrito. Então, passa a compensar para o direitista tachar o nacionalista de “isentão” ou “esquerdista enrustido”, pois ele não adota o credo pró-EUA e pró-Israel per omnia saecula saeculorum. O nacionalista verdadeiro, propondo uma política externa independente, desejaria uma relação saudável com Rússia, China e Estados Unidos, fugindo o máximo possível dos problemas entre eles e tentando levar o melhor possível de vantagem entre todos. Mas para o bolsonarista, isso faz do nacionalista um esquerdista.

Então pensemos: Se nacionalismo factual, real e concreto é de esquerda. Se buscar única e exclusivamente o interesse brasileiro é de esquerda dentro desse discurso fanatizado, é óbvio que a contraposição tenderá a radicalizar cada vez mais no globalismo, no internacionalismo e nos projetos contra autonomia nacional.

Antes que alguém mal intencionado diga que eu estou acusando o bolsonarista de ser globalista, ou de dizer que o nacionalismo é uma ideologia de esquerda (e existem muitos nacionalistas conservadores), eu advirto e peço: leia de novo. O que eu estou dizendo é que na medida em que no plano discursivo a direita atual continue a empurrar o nacionalismo real e factual para o canto da esquerda política, ele começará a se ver na necessidade de delimitar uma distinção igualmente discursiva, e nesse caso ele só poderá se mover para o globalismo que é o outro polo dessa equação, pois o pretenso “nacionalismo” do governo Bolsonaro é meramente discursivo. E com isso, para piorar, acabar dando a própria esquerda que diz combater o monopólio da “defesa dos interesses nacionais” e de que “se preocupa de verdade com o país”. Claro, tudo isso no plano meramente discursivo.

Para ser ainda mais claro, o governo já é globalista na prática. Os bolsonaristas é que ainda não descobriram isso.


 

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2 respostas em “Direita brasileira: do globalismo inconsciente ao globalismo ideológico

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