Precisamos discutir o ódio de classe no Brasil.

O texto é uma contribuição de Boris para a Reação Nacional.

Sabem o famoso vídeo da Chauí: Eu odeio a classe média? Na época eu também achei tosco e sem fundamento. E concordei (e ainda concordo em algum grau) com a refutação feita pelo Demétrio Magnoli. E como tal, acho que talvez o termo “classe média” não seja o mais correto. Eu preferiria o termo “novo rico”, mas com ele correria o risco de ser mal compreendido. Contudo, o governo Bolsonaro revelou que ela havia visto algo que eu não havia visto, embora ache que ela tenha entendido errado por causa do fundo marxista de sua visão. Chauí diz que a classe média é ignorante, arrogante, alienada, fascista e mais um monte de adjetivos nada honrosos. E que ela oprime e odeia os mais humildes, e é por isso mesmo que ela rejeitava o epíteto da “nova classe média” do governo Lula.

Mas no Brasil há sim um ódio de classe que emana na classe média e vitima os mais pobres. Não é um ódio direto. Para alguns até pode ser um ódio direto, e quando se trata desse caso específico, frequentemente esse ódio transparece como sendo um certo desprezo e uma afetação de superioridade quase sempre motivada por distinções de dinheiro e cor. Sei que estou mexendo num vespeiro que a atual direita insiste em negar que haja qualquer problema nele. Mas nesse caso prefiro a velha direita. Desde os tempos do Major Quaresma e dos Bruzundangas esse “espírito de porco” da classe média é detectável nas ironias da obra de Lima Barreto.

E a velha direita havia detectado isso. Plínio Salgado chamava de “espírito burguês”; a classe média era aquele grupo social que tinha a mentalidade da burguesia, mas sem o capital. Arlindo Veiga dos Santos, um homem negro, líder do movimento negro e ainda assim um monarquista reacionário já havia percebido que havia um problema de raça e de podridão na classe média.

Mas para a maioria é um ódio a certos tipos de hábitos e a defesa de interesses próprios de sua classe ainda que custe caro aos mais humildes.

Hoje recebi este insight, quando vi a notícia de que Luiz Fux foi aplaudido quando pegou o avião para um vôo. Um ministro do STF, um homem que não faz parte do show business, e que se visto fosse andando pela rua despojado de sua toga, a enorme maioria da população brasileira não conheceria. Mas por que ele foi ovacionado? Tudo porque nas revelações do The Intercept o ex-juiz Sergio Moro diz: In Fux we Trust. Ora, diferentemente da propaganda petista não conheço um pobre que “anda de avião”. Ao contrário, os aeroportos são redutos dos ricos e da classe média.

Não interessa se o Moro e a Lava Jato arruinaram a economia brasileira. Estes que aplaudiram em nada foram afetados, muito pouco perderam em termos de qualidade de vida, dado que ou são donos do capital ou ainda mantêm seus empregos bem remunerados. Quem paga caro mesmo é o pobre, o pobre que com os programas do governo ascendeu um pouco da miséria em que estava chafurdado ou o pobre que com o crescimento da era Lula chegou a uma faixa de renda que lhe permitiu viver um pouco melhor. Mas dane-se… Ele, Sérgio Moro, prendeu o Lula.

Lula é culpado? Bandido? Eu creio que sim, mas o que me espantou foi perceber que a ideia da “caça aos corruptos” acima de qualquer coisa é sociologicamente um tipo de verniz que cobre o discurso do “bandido bom é bandido morto”. O primeiro é uma versão pomposa e limpinha do segundo. Não que punir criminosos seja em si mesmo errado. É honroso! Meritório! Mas na cultura brasileira este discurso está inserido num caldo cultural que cada vez mais reflete ideais burgueses do selfmade man, da americanização do país e da protestantização semi-calvinista das mentalidades. Onde o trabalho, a riqueza e sucesso pessoal são as únicas métricas da vida. Se você é pobre, é porque você não trabalha, você é um “vagabundo” abandonado por Deus.

Ora, o vagabundo no primeiro caso, o da “caça aos corruptos” acima de qualquer coisa, é o sindicalista, é o governo que cria programas assistenciais e para isso tributa mais (Ah, e como eles odeiam pagar imposto), e com isso a classe média vê apenas o “governo que tributa quem trabalha e produz para sustentar vagabundo”.

No segundo caso, o do “bandido bom é bandido morto”, o vagabundo é o pobre, o preto que recebe bolsa família e vota no PT, que é sindicalizado e que “por acaso” é o vagabundo sustentado pelo primeiro.

A mentalidade de classe média nesse caso não se refere a classe média enquanto classe econômica, mas sim um tipo de mentalidade que emerge no seio dela e nela encontra solo fértil, e que é produto de um desvio da percepção que a aliena. É normal, é natural que haja hierarquização em qualquer sociedade e não há nada de errado com isso. Uma dessas formas de hierarquia é a típica de que existem pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais capacitadas e, que como tal são também em menor número do que aquelas que são apenas medianas. O ponto é que na classe média essa mesma hierarquia também existe. Há na classe média como pontuou Magnoli, aquelas pessoas que por terem conseguido um certo patamar de bem-estar material são capazes de com isso financiar seu próprio crescimento humano através do estudo, da cultura e da espiritualidade. Entretanto, apenas uma pequena fração da classe média faz isso. A outra está preocupada apenas em crescer financeiramente ou preservar o que já foi adquirido. O resultado é a preocupação excessiva com viagens de férias, compras no shopping, jantares e baladas, enfim, a vida consumista que o Papa Francisco tanto critica. E isso é o que podemos dizer de mentalidade burguesa ou espírito da classe média. Essas coisas não são ruins em si mesmas, mas quando elas se imiscuem com o discurso americanizante e de moralismo semi-calvinista das relações econômicas vira um estorvo que pune os mais fracos na escala social.

Recordo-me que durante o ato de apoio ao impeachment de Dilma algumas pessoas tiraram fotos humilhando um morador de rua. É o “vagabundo” e o petista na cabeça da classe média. No fim das contas, ainda que um dos riquinhos que aplaudiram Fux não odeie um pobre, preto e favelado sequer pessoalmente (até porque duvido que eles conheçam um de verdade), o espírito que os move não é em essência diferente do que o que move um coxinha com camisa da seleção que tira foto humilhando um morador de rua. Afinal, ambos punem os “vagabundos”. Precisamos recuperar o ideal da justiça apropriado pelo espírito burguês e de novo rico da classe média.


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