A fraqueza do governo Bolsonaro não se deve a um “deep state”.

Arthur Rizzi

Os olavo-bolsonaristas, diante dos fracassos do governo e das trapalhadas que ele fez já decidiram qual o culpado por isso: o “deep state“. Relevemos por hora a falta de originalidade da desculpa, dado que nada mais é que uma cópia do argumento trumpista. Lá, pelo menos, ele faz algum sentido. Aqui não. O Estado americano possui instituições sólidas e bastante despersonalizadas, funcionando como uma máquia burocrática quase weberiana.

O Estado brasileiro ainda está no paradigma de Sérgio Buarque de Hollanda e Raymundo Faoro. É uma instituição mista, com muitos espaços e brechas para o personalismo e, por isso mesmo, ineficiente.  O termo deep state quando surgiu na Turquia, referia-se a grupos de agentes estatais cuja essência de seu papel não era político, mas econômico ou técnico; mas que ainda assim tinham papel político relevante e não condizente com seu status de quadro técnico.

Ex: O ministro da Economia é alguém que está ali para planejar as medidas econômicas a serem implantadas e negociar com o congresso suas viabilidades. É um papel político.

O presidente do BNDES, por sua vez, embora indicado politicamente, está posto num cargo para viabilizar crédito, financiamento, investimento a pedido da equipe econômica e do executivo. Seu papel é técnico, portanto.

Assim como ele podemos ainda citar:

  • Funcionários do Banco Central: economistas, contadores, administradores, etc.
  • Funcionários do judiciário: Escrivães, assistentes, consultores, ministério público, etc.
  • Setor da defesa: Militares, Inteligência, Polícia Federal, etc.

São indivíduos ligados mais ao Estado do que ao governo. Por isso, quando Bolsonaristas acusam o Centrão de ser um deep state, estão simplesmente comprando uma deturpação tardia feita pelos americanos. Deputados e senadores, ainda que do baixo clero, fisiológicos, representam uma extensão indevida do termo, pois a função deles como políticos é justamente fazer política. Eles estão lá para isso, influenciar em decisões de governo. Barrá-las, aprová-las e moderá-las. Chamar isso de deep state dá a um papel legítimo (ainda que possa ser executado com finalidades e motivações pouco republicanas) a qualidade de ilegítimo, como se o governo devesse governar por decreto e sem oposição.

A alt right americana foi quem expandiu o termo de modo a significar todo mundo que atrapalha o Trump, o que também pode ser dito como sendo: os democratas e os neocons.

Se há algo no Estado brasileiro hoje que vagamente lembra um deep state é, além da ala militar que compõe o governo Bolsonaro e tem limitado alguns de seus movimentos, a própria Lava Jato, que como demonstrou Greenwald, claramente tinha motivações políticas.

No caso específico das Forças Armadas, ela na verdade foi de grande ajuda ao governo, evitando trapalhadas e decisões erradas. Mas, como sabemos, os olavo-bolsonaristas consideram o governo sabotado pelos militares. Afinal, uma guerra com a Venezuela sem dúvidas seria ótimo para o país, não é mesmo?

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