O dólar está bom. Por que a indústria não reage?

A maior parte dos teóricos novo-desenvolvimentistas vem sendo questionados acerca disso. Basta que o dólar fique num patamar bom e a indústria fica competitiva, certo? Não. Primeiramente temos de velar em consideração que o considerável período de tempo apreciado demanda um overshooting no setor, por isso apresenta-se uma histerese nos resultados do câmbio mais favorável. E a situação da indústria hoje é distinta da dos anos anteriores. Veja o gráfico abaixo:

71472463_673114823209711_3900049902150877184_n

Do Plano Real para cá houve duas recuperações da indústria: Uma leve logo após a desvalorização do real em 1999 e uma maior após a crise Lula no fim do governo FHC. Naquele período a economia mundial vinha numa condição melhor do que  a atual, de modo que os nossos produtos industrializados em estoque saíram facilmente para o mercado externo.

A situação é diferente hoje. Isto ocorre porque a teoria novo-desenvolvimentista pede que um país ao ter uma vantagem cambial aumente suas margens de lucro onde ele já tenha uma vantagem comparativa industrial, para só depois migrar para novos países onde essa vantagem precise se construída.

A Argentina se encontra numa crise pior que a nossa, o que fez seu câmbio se desvalorizar mais que o nosso e, com isso, a perda de valor da nossa moeda não surtiu efeito no nosso principal importador. Com a crise na Argentina, o poder de compra também se reduziu bastante, o que diminuiu a demanda como um todo.

Porém, para o restante do Mercosul a coisa continua favorável, nossas exportações para Paraguai , Bolívia e Colômbia cresceram, embora estes mercados não tenham a mesma relevância do mercado argentino.

2019 b

Colômbia – Em tons esverdeados setores que exportaram mais em relação ao mesmo período de 2018. – Dados do MDIC.

2019 a

Bolívia – Em tons esverdeados setores que exportaram mais em relaç;ao ao mesmo período de 2018. – Dados do MDIC.

2018

Paraguai – Em tons esverdeados setores que exportaram mais em relaç;ao ao mesmo período de 2017. – Dados do MDIC.

Eis a razão de porquê o câmbio tem surtido pouco efeito por enquanto. Para se ter noção da importância da Argentina, veja a treemap da nossa exportaçã;o de tratores abaixo:

2019 c

Dados MDIC

Remessas de Lucros e seu peso na conta corrente – Um retrato do governo Dilma.

O Brasil perdeu muitos dólares no governo Dilma com as remessas de lucros e dividendos das empresas estrangeiras instaladas no país. Em abril de 2014, foram remetidos US$ 3,2 bilhões; US$ 9 bilhões no primeiro quadrimestre de 2014.

Em 2013, lucros, dividendos e royalties remetidos às matrizes totalizaram quase US$ 40 bilhões. Esse valor seria suficiente para construir de novo as usinas de Jirau, Belo Monte, Santo Antônio e a refinaria Abreu e Lima. é um valor extraordinário e representa quase 50% do rombo externo do período de 2011 a 2014, de US$ 81 bilhões (3,6% do PIB).

Não há problema, dizem os economistas ortodoxos. Com a atual liberdade de capitais, o fluxo de investimentos diretos, os especulativos, em tese, cobrem o rombo, ou quase todo ele. De fato, durante o período do governo Dilma, no ano de 2013, entraram US$ 60 bilhões Um economista liberal diria que compensa. Mas não é assim. O fluxo de investimento estrangeiro é majoritariamente especulativo e instável, qualquer choque externo ou interno afugenta a maior parte dele.

No período as exportações brasileiras não conseguiram gerar um superávit bastante para cobrir a fatia expressiva das remessas e gastos no exterior. O declínio nos preços das commodities e a baixa competitividade das exportações industriais completaram a espiral descendente dos saldos comerciais. Tudo isso acabou coberto por dívida pública. Em 2013, a diferença entre embarques e desembarques deixou apenas US$ 2,561 bilhões no caixa do país, pior resultado da balança comercia desde o ano 2000. Em 2014, apesar da melhora refletida em um superávit mensal de US$ 506 milhões em abril, o acumulado no quadrimestre ainda é negativo: menos US$ 5,5 bilhões de dólares.

Em tese, haveria aí um paradoxo: como uma economia onde o capital estrangeiro acumula lucros tão robustos e remessas tão generosas (US$ 9 bilhões entre janeiro e abril), exporta tão pouco? O que explica isso? A inexistência de sanções que desencorajem as remessas.

Créditos: http://www.conexaojornalismo.com.br/todas-as-noticias/heranca-tucana-um-tabu-que-sangra-o-brasil-0-28404

2020 pode ser um ano bom para o governo Bolsonaro.

Arthur Rizzi*

O PIB brasileiro que vinha apresentando tendência de queda nos últimos trimestres apresentou um crescimento imprevisto pela maioria dos economistas no último, e recentemente, o BC ajustou para cima sua previsão de crescimento para a economia este ano.

A causa desse crescimento é a baixa taxa de juros real,a  menor da história que pode estar surtindo efeito na retomada do crédito e do consumo, bem como da liberação do FGTS que se destinará em parte à quitação das dívidas das famílias (que tende a tornar o crédito mais barato) e ao aumento do consumo. A junção dos dois elementos clássicos da política econômica keynesiana, a política monetária (juros mais baixos) e política fiscal (FGTS) com uma economia operando abaixo de sua capacidade de produção e com alto nível de desemprego tem sido bem sucedida.

A expectativa é que a taxa de juros siga caindo para o próximo ano, e com as sazonalidades de fim de ano: Black Friday, Natal, Férias e 13º, a previsão é que o cenário seja ligeiramente melhor para o início de 2020, já que a demanda fica mais aquecida no fim do ano. Por hora, aposto num crescimento de 1,5% para o próximo ano.

Aguardemos.

Indústria atinge menor nível histórico: 10,4% do PIB no 1º Tri de 2019

Blog Valor Adicionado

Participação da Indústria de Transformação no PIB, Brasil, 1996 a 2019, trimestral, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A desindustrialização brasileira avança em 2019. A parcela da indústria de transformação contribuiu com apenas 10,4% para a formação do PIB no primeiro trimestre de 2019. Esta é a menor contribuição industrial na série com a metodologia atual do IBGE, divulgada com dados comparáveis desde 1995.

A parcela da manufatura diminuiu de 11,0% para 10,4% do PIB no 1º Tri de 2019, comparativamente ao 1º Tri de 2018.

O maior percentual obtido foi em 1986, ano em que a manufatura representou 27,3% do PIB na série a preços correntes comparável a metodologia atual do IBGE (Ver post).

Quando se observa a participação da manufatura no PIB a preços constantes do 1º Trimestre de 2019, com ajuste sazonal, a tendência também é de queda (Ver segundo Gráfico). Isso significa que a indústria de transformação tem crescido abaixo do PIB brasileiro, que também cresceu pouco – sobretudo a partir de 2009…

Ver o post original 247 mais palavras

Investigação mostra que viés ideológico influencia economistas (Valor Econômico, 20/09/2019)

Professor José Oreiro conta suas razões pra ser keynesiano.

José Luis Oreiro

O jornalista Cyro Andrade publicou um belo artigo no Valor de hoje (https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/09/20/investigacao-mostra-que-vies-ideologico-influencia-economistas.ghtml) a respeito de como o viés ideológico influencia ideias e julgamentos de economistas. O artigo foi baseado em trabalho empírico conduzido pelos economistas Mohsen Javdani, professor na Universidade de British Columbia, no Canadá, e Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra no qual se constatou que não faltam evidências de que o viés ideológico, entendido como inclinação preconcebida para determinadas valorações cognitivas e normativas, influencia ideias e julgamentos dos economistas, indistintamente, sejam ortodoxos ou heterodoxos. Cyro entrevistou três economistas (José Luis Oreiro da UnB, Silmão Silber da FEA/USP e o José Roberto Afonso do IDP) e dois cientistas políticos (Marcos Mello do Insper e Marco Aurélio Mello) para avaliar os seus posicionamentos sobre a questão em debate. Os resultados do estudo de Javdani e Ha-Joon Chang pode ser visualizado na figura abaixo:

Além de minhas…

Ver o post original 1.803 mais palavras

Proposições teóricas básicas do novo-desenvolvimentismo

Artigo novo do professor José Oreiro (UnB).

José Luis Oreiro

Enumero abaixo as proposições teóricas básicas do novo-desenvolvimentismo na minha interpretação do mesmo, a qual pode ter algumas diferenças pontuais com relação a interpretação do Bresser.

1 – O desenvolvimento econômico é um processo cumulativo de elevação dos salários reais e do padrão de vida da população que é viabilizado pelo aumento da produtividade do trabalho que decorre do progresso técnico incorporado em novas máquinas e equipamentos e da transformação estrutural da economia, com a migração de mão-de-obra dos setores com menor valor adicionado por trabalhador para os setores com maior valor adicionado por trabalhador. A taxa de crescimento da produtividade depende, portanto, da taxa de crescimento do estoque de capital por trabalhador e da evolução da estrutura produtiva ao longo do tempo.

2 – O ritmo de crescimento do produto real é determinado pelo crescimento da demanda autônoma que não cria capacidade. O investimento se ajusta, no longo prazo…

Ver o post original 633 mais palavras

Arrocho salarial é crime contra os pobres.

Arthur Rizzi

Os apaniguados do sistema financeiro internacional, isto é, os filhotes de Paulo Guedes no ministério da economia avançaram agora com a proposta de uma emenda constitucional para acabar com o reajuste do salário mínimo com base na inflação. A proposta em teoria visaria gerar uma economia de 37 bilhões de reais nas contas públicas.

A proposta é tão absurda quanto criminosa. Primeiro que, com o congelamento do salário nominal, mantida uma taxa de inflação constante, produzirá no médio prazo um decréscimo substancial do salário real. Com a queda do salário real, se segue como consequência imediata a queda da demanda agregada por conta da falta de poder aquisitivo. Ora, a economia brasileira ainda está carente de demanda, e a falta de consumo é um mecanismo de desestímulo à própria oferta. Portanto, uma queda do salário real vai deprimir ainda mais a demanda tornando a recuperação econômica cada vez mais lenta para não dizer inexistente.

Se o consumo é deprimido ainda mais se seguirá uma queda na arrecadação, pois no Brasil a maior parte da carga tributária se dá sobre o consumo. Portanto, no fim das contas, o governo acabará por não poupar nada. A proposta é em si mesmo absurda coma alegação dada pelos gênios malignos de Paulo Guedes. Mas nada é tão ruim que não possa piorar.

Toda vez que um brasileiro faz uma compra no crediário, paga um boleto, pega um empréstimo, ele paga juros. Sempre que ele paga a fatura do cartão ou faz uso do cheque especial, ele paga juros. No Brasil, se o governo baixar a taxa Selic em 1%, ele poupa o dobro disso em um ano. Mas então, por que não baixar?

Interesses da banqueirada…

A burguesia usurária não permite, simples. Basta pensar, se o salário real cai, mas o juro real não (Selic – Taxa de inflação), isso significa que cada vez que um brasileirinho pobre paga um boleto ele está transferindo parte de sua renda para o setor bancário. O poder de compra que o brasileiro pobre perde é apropriado pelos bancos! Isso aumenta a desigualdade e é a usura elevada ao seu grau mais satânico.

E não há desculpas para não baixar o juros. A taxa de juros mundo a fora está despencando, a União Européia já vê juros negativos e Trump quer que o Federal Reserve  siga o mesmo caminho. Então, mesmo que o Brasil baixe a taxa básica de juros para 5%, com a taxa atual de inflação na faixa dos 3%, o Brasil ainda terá um juro real positivo! Compensará para o especulador deixar o seu dinheiro rendendo juros no Brasil de 1,5% a 2% ao ano do que deixá-lo na Europa onde o juro está negativo ou nos EUA onde a presidência americana faz pressão para que o mesmo ocorra. Se o juro real for igual ou menor que o crescimento do PIB, a trajetória da dívida pública se estabiliza.

Contudo, não custa lembrar, no Brasil a única coisa que nunca tem arrocho é o lucro dos bancos. O seu salário pode ter.

O amor e o desejo na pós-modernidade.

Pedro Ribeiro

Trecho de Zygmunt Bauman sobre a distinção entre o amor erótico genuíno e o mero desejo físico, de momento:

“Desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir — aniquilar. O desejo não precisa ser instigado por nada mais do que a presença da alteridade. (…) O desejo é um impulso que incita a despir a alteridade dessa diferença; portanto, a desempoderá-la. Provar, explorar, tornar familiar e domesticar. Em sua essência, o desejo é um impulso de destruição. E, embora de forma oblíqua, de autodestruição: o desejo é contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém, seu segredo mais bem guardado — sobretudo de si mesmo.

O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que ‘está lá fora’. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. (…) O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito a auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a — ciumentamente — guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultando em exaltação.

Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua. (…)

Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.”

O bolsonarismo não é redutível a um rótulo pronto.

Arthur Rizzi*

Comentaristas de direita e esquerda tentam em vão entender o que é o fenômeno Bolsonaro, e na sua incapacidade de entender o problema sempre reduzem-no a rotulações políticas tradicionais, seja como populismo, seja como fascismo, seja como conservadorismo, etc. Marco Antonio Villa, tipicamente associado à direita e o pessoal do Brasil 247, por exemplo, vivem reduzindo o bolsonarismo ao fascismo. No meu artigo anterior eu expliquei, por exemplo, o porquê de ser imprecisa essa definição.

Bolsonaro tem aqui ou acolá elementos de cada um, mas não é nenhum destes ao mesmo tempo. O bolsonarismo está muito mais para um fenômeno religioso e de natureza teológica do que simplesmente política, ele é a ampliação do americanismo udnista em categorias metafísicas. Por isso digo que é necessário trabalhar um pouco mais as ideias antes de definir o que é o Bolsonarismo.

O bolsonarismo só pode ser entendido corretamente, portanto, em termos religiosos, como fé, penitência, Deus, salvação, etc. Por isso, retomo aqui a noção de Leão XIII do que viria a ser conhecido como heresia “americanista” na Testem Benevolentie. Como veremos, ela é um estado de espírito que evolui paulatinamente de apenas uma questão teológica voltada para o temporal para uma postura política que transcendentaliza a política e, especialmente, a geopolítica. Para mais explicações, recomendo este texto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X – FSSPX.

“Em relação à vida moral e espiritual de um católico comum, o “americanismo” exaltou a superioridade das virtudes naturais e “ativas” em detrimento da sobrenatural e “passiva”, e transferindo o ideal político à esfera espiritual, pregava que o Espírito Santo guiava imediatamente os indivíduos, sem intermediação de direção espiritual externa . Finalmente, o “americanismo” aceita como fato irrevogável do “destino manifesto” do país a noção puritana de que a América é o “povo escolhido”, e a ampliou para incluir a Igreja americana.”

Em outras palavras, o americanismo é a crença de que os Estados Unidos têm um papel providencial na história e que ele substitui a Igreja como veículo de salvação, cabendo à Igreja apenas seguir o modo de vida americano. Para o americanismo radical, a Igreja quando muito, tem um papel meramente de sinalização da salvação americana. E no que consiste essa salvação? Depende da fonte do o americanismo, se democrata ou republicano. Se democrata, é entendido quase sempre como o espalhar das liberdades individuais pelo mundo. Seria portanto, o destino manifesto dos Estados Unidos, como nação escolhida por Deus, de levar as liberdades civis e individuais a todos os povos oprimidos. Se republicano, é além disso, o espalha da liberal-democracia, do liberalismo econômico e do american way of life pelo mundo.

Perceba caro leitor, esta é uma psotura diferente do americanismo moderado que a direita brasileira sempre teve mesmo nos eu período passado mais forte que era nos tempos da UDN de Carlos Lacerda. O lacerdismo e a primeira república viam no modelo americano um exemplo de como prosperar, a fórmula do sucesso e, portanto, as razões eram utilitárias. Graças ao crescimento do protestantismo e do olavismo, a coisa agora ganhou dimensões metafísicas e vagamente hegelianas, a exemplo do texto Trump e o ocidente de Ernesto Araújo, que é quem melhor traduziu o olavismo em política externa:

“Evidentemente esse Deus por quem os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump (quem imaginou que alguma vez leria estas palavras, “o Deus de Trump”?) não é o Deus‑consciência cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo (mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord, diz o início do “Hino de Batalha da República”, aquele do famoso refrão Glory Hallelujah, que precisa ser escutado com atenção para começar‑se a entender a alma americana)”.

Ou seja, o Deus de Trump é o Deus de Hegel, o espírito absoluto que age na História estando nela e além dela. Trump é o novo Napoleão, só que ao invés de levar o destino manifesto e o triunfo da paz kantiana, ele traz o reino de Deus na Terra pela nação americana, pelo american way of life e pelas instituições liberais de governo e de mercado. Ou você acha mesmo que o fato de Ernesto Araújo passar metade do artigo fazendo analogias como o futebol americano e as paixões esportivas preferenciais do americano típico é mero uso retórico?

Como o artigo da FSSPX também descreve:

“Em questões relativas à doutrina da fé, o “americanismo” foi até os extremos da adaptação para não ofender os protestantes. Em 1858, Mons. John McCloskey (bispo de Albano), que mais tarde se tornou o primeiro cardeal americano, considerou “inoportuna” a declaração do dogma da Imaculada Conceição e que podia ferir a sensibilidade protestante, em consequência, se negou a difundir a doutrina em sua diocese… O “americanismo” estava pronto a esconder ou diluir um dos mais característicos e essenciais dogmas católicos como uma estratégia de proselitismo. Como afirmava o padre Hecker, a apologética deve “expor as necessidades do coração e buscar seus próprios objetos, ao invés de (apresentar) uma lógica da igreja.”

Veja que curioso, o americanismo é também uma forma de visão religiosa que visa acomodar a doutrina da Igreja não só a sociedade laica, mas também ao próprio protestantismo; Não é curioso que o artigo de Ernesto em momento algum faça a distinção entre o fato gritante de que Trump, assim como o país que preside, é de formação protestante e que a Polônia é de formação católica? Como podem ser o mesmo Deus o de lá e o de cá? Podem ser em suas concepções mais remotas mas o modo como é entendido por cada lado é completamente diferente. Não é no mínimo estranho que um suposto católico dito “tradicional” como Ernesto Araújo cite hinos protestantes? O “hino de batalha da república” não só é uma canção protestante como está nos hinários das principais igrejas evangélicas de origem americana, como “Glória, glória, Aleluia!” e “vencendo vem Jesus“. O próprio fato dele ser considerado um hino político que historicamente ganhou popularidade entre os soldados confederados já denuncia a noção de que o republicanismo liberal era algo realmente divino.

O bolsonarismo, não através de Bolsonaro (é óbvio), nada mais é que a ideia de que Deus escolheu os Estados Unidos para guiar o mundo a salvação. É o seu Destino Manifesto, e que servir à nação e ao Estado americano é sempre em todo caso, servir a Deus. Só assim a política externa brasileira e o bolsonarismo pode ser entendido, como a adesão do Brasil ao destino manifesto do mundo, como um fiel que tem seu kerigma e recebe a boa nova do evangelho ianque. Somente se entendermos o conceito de americanismo, que é um conceito religioso, seremos capazes de entender qual a “ideologia” do governo Bolsonaro, e seu objetivo final. tornar o Brasil uma caricatura da propaganda paleoconservadora do que é a nação americana e o Estado americano. Talvez até conseguir uma vaguinha para o brasil como 52º estado americano, por que não? Para concluir, essa nova religiosidade pode ser dita como estando para o cristianismo como a nova era está para o hinduísmo tradicional.