Pobreza e desigualdade: Uma questão cristã.

Pedro Ribeiro*

Dentre as nove ou dez fórmulas mágicas que os liberais brasileiros pronunciam sem cessar dia e noite, mais piedosamente talvez do que os hare krishnas com seus mantras, uma merece destaque especial: “O problema não é a desigualdade. O problema é a pobreza”. Hoje mesmo tive o slogan invocado contra mim pelo menos três vezes, quando compartilhei uma reportagem do El País sobre a distribuição de renda no Brasil.

Veja bem, é claro que é absurdo haver cidadãos sem acesso ao mínimo de qualidade de vida, sem saúde, sem educação, sem saneamento” – diz o interlocutor – “então a pobreza certamente é um mal a ser combatido. Mais que uns poucos tem quase tudo, bilhões e trilhões, e o outro, seu próximo, possua apenas o mínimo para viver, que mal há? Que mal cometeu o primeiro? Ora, desde que a riqueza deste tenha sido obtida de modo justo e que o segundo possua o mínimo, não há nada de errado“. Uma beleza de raciocínio, não?

Pois é, o problema é que tudo isso se trata tão-somente de uma meia-verdade, uma mistura sedutora de acerto e erro, mistura que, por sua vez, merece análise, pois revela a um só tempo, e como poucas coisas na vida, tanto os méritos quanto os limites brutais do liberalismo econômico.

Vejamos: de um lado, por certo, é óbvio, que no nível mais abstrato, os liberais estão corretos. Em si mesma e formalmente considerada, a desigualdade social, a existência de ricos e pobres, não é um mal que brade aos céus. Primeiro, porque, como mostra fartamente a história, ela é inevitável em qualquer sociedade de larga escala. Mais do que isso, porém, a distribuição desigual de recursos é, em muitas e muitas circunstâncias, algo legítimo e mesmo desejável: por exemplo, quando é o prêmio para o esforço dos mais abnegados ou para as habilidades socialmente importantes dos mais talentosos.

O problema, e aí está o que ignoram os liberais, em que a extensão e a intensidade das desigualdades em nosso tempo transcendem em muito o escopo legítimo citado acima. O capitalismo é historicamente o sistema econômico mais reprodutor de desigualdades [a distância de poder e status entre o rei da França medieval e o camponês famélico do país era, por exemplo, infinitamente menor do que a distância hoje existente entre o acionista majoritário do Itaú e um mendigo da esquina]. Hoje, o que era distância tornou-se abismo.

E qual é o grande mal quando as desigualdades se tornam tão grandes e tão alastradas? O mal é que os laços sociais se fragilizam e a unidade moral da sociedade é perdida.

Trata-se do mesmo problema de sempre, que os liberais nunca entendem: a sociedade não é um agregado de átomos, de indivíduos autônomos e autossuficientes, Robinsons Crusoés, uma simples arena onde cada qual busca solitariamente seu próprio bem e só estabelece relações contratuais com o outro. Ao contrário, a sociedade é uma comunidade moral, um organismo social complexo, uma teia permeada por laços e tradições, em que indivíduos não autônomos, mas historicamente e socialmente situados, buscam realizar um bem que, consciente ou inconscientemente, sempre vislumbram como comum.

Trocando em miúdos: ninguém, ao olhar e avaliar sua condição financeira, olha apenas para si e para os seus, se têm o mínimo ou não. Olhamos também sempre para os lados, para o outro, que é nosso irmão no convívio social. E se esse outro, que está ao meu lado, tem 500, 1000, 1 milhão de vezes mais riqueza do que eu, é perfeitamente natural que isto me incomode e até me ultraje. É natural que eu apreenda isto como algo errado, mau, que corrói os laços sociais, pois não não nos permite mais vivermos juntos como irmãos.

Nada disso é inveja ou ressentimento, mas apenas uma consequência necessária da natureza social do homem. O homem necessita, do fundo de ser, viver em comunidade. Contudo, só há comunidade, só há comunhão de vida, quando os diversos cidadãos partilham de um mesmo horizonte existencial, de um mesmo cenário de possibilidades históricas. Pequenas e moderadas desigualdades não só permitem, mas até favorecem isto. Já os abismos sociais de hoje não só dificultam, como impedem.

Já não há mais irmãos, uns um tanto mais fortes, outros um tanto mais fracos. Há sim uma minoria de deuses, ilhados em seus privilégios obscenos, e uma multidão de espoliados. E daí vem inúmeros males, como de uma fonte: a diminuição da mobilidade social, que prejudica a eficiência econômica; a violência, alimentada pelo ressentimento (aqui sim) mal digerido de certos ultrajados; o preconceito e a exclusão no trato para com os pequenos; a perda do senso de bem comum e interesse geral, numa sociedade dividida praticamente em castas; o Estado corrupto capturado pela plutocracia; a cultura consumista, hedonista e materialista; etc.

No fim, que liberais nunca entendam isso e morram em sua antropologia atomista, típica da infância intelectual, é coisa que se compreende. Afinal, é a natureza deles. Mas que tenha tanta gente autointitulada conservadora caindo nisso – logo os consevadores, que tanto falam de laços, tradições e organicidade social – é coisa realmente para chorar.

Não tem jeito: os liberais-consservadores acabam todos sempre, conscientemente ou não, advogados de Mamon.


*Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia e estudioso do pensamento neotomista de Jacques Maritain;

2 respostas em “Pobreza e desigualdade: Uma questão cristã.

  1. Na visão Equibasista, o problema não é a existência de ricos; o problema é a existência dos miseráveis. Como resolver isso? Capitalizando todo cidadão aos 21 anos de idade. Se ter renda de capital é bom para alguns, por que não seria bom para todos a partir de 21 anos de idade?

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