Recuperando a imagem católica de Getúlio Vargas.

O texto a seguir é um compilado de informações colhidas na internet pela página.

Depois da ascensão dos liberais e da direita americanista, a imagem de Getúlio foi devidamente pintada como a de um aliado do comunismo e anticristão fervoroso em peças de propaganda como o documentário Brasil Paralelo.

Porém seria esse o Getúlio real? Seria Getúlio o pai da esquerda anticristã e lacradora no Brasil e Bolsonaro a ressurreição da moral cristã udenista?

É importante que se diga que muito disse se deve também a astúcia se setores de esquerda terem reivindicado para si o legado de Vargas de modo muito mais eficiente que os grupos conservadores que, no pós guerra, deixaram se encantar pelo que Eduardo Prado chamava de “ilusão americana”.

Este texto de Eduardo Cruz do Trincheira Moral pode ajudar a elucidar a questão:

Numa escala comparativa, Getúlio foi muito superior a Bolsonaro, tomando como critério o Magistério da Igreja:

(1) Consagrou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, em 1931:
https://www.facebook.com/TrincheiraMoral/posts/499334023799577

(2) Reintroduziu o ensino religioso nas escolas públicas, por meio do Decreto nº 19.941, de 30 de abril de 1931.

(3) Proibiu a usura, nos termos do Decreto nº 22.626, de 7 de abril de 1933.

(4) Baniu os maçons do governo:
http://bensodicavour.org.br/artigos/95-a-maconaria-de-volta-as-origens/

(5) Solicitou ajuda do clero para elaborar a CLT:
https://www.facebook.com/TrincheiraMoral/posts/315070735559241

(6) Instituiu incentivos ao casamento e à natalidade, por meio do Decreto-Lei nº 3.200, de 19 de abril de 1941. O texto foi redigido com sugestões do Centro Dom Vital.

(7) Reintroduziu o serviço de assistência religiosa nas Forças Armadas, nos termos do Decreto-Lei nº 6.535, de 26 de maio de 1944. O serviço havia sido extinto décadas antes, com a proclamação da República, que separou a Igreja do Estado.

(8) Determinou ao DOPS que reprimisse a propaganda anticatólica disseminada por maçons, protestantes, comunistas e demais transviados:
https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/historia/historia-do-brasil/os-quebra-santos-2573403

Fato pouco conhecido é que durante o Estado Novo houve uma negociação entre o governo e a Santa Sé para a assinatura de uma Concordata, por força da qual o Brasil voltaria a ser um país oficialmente católico (1939). Por algum motivo, não se chegou a um acordo. Isso, sim, é um bom motivo para criticar Getúlio Vargas, não o fato de ter sido ditador. Ele deu vários passos rumo à construção do Estado Católico, mas não deu o passo definitivo, que seria o mais importante de todos.

Mas como Loss et al (2011) relatam:

A respeito do relacionamento de Getúlio com as autoridades eclesiásticas, com quem teve que se haver a partir mesmo do momento de triunfo da Revolução de 1930, pode-se observar uma ambigüidade fundamental da personalidade do líder. De formação positivista, pertencente à linhagem de Júlio de Castilhos e de Borges de Medeiros, surpreendentemente, passou à história também como aquele que praticamente reintegrou o catolicismo em sua antiga posição, faltando-lhe apenas afinal o título de religião oficial, pois sem dúvida passou a religião oficiosa, em um regime de concordata informal. O camaleônico político, ao lado de outros tantos papéis que representou, assumiu a persona, senão do católico devoto, que realmente jamais pretendeu ser, a de benfeitor da religião da maioria dos brasileiros.
Verdadeiramente, no ocaso de sua trajetória, o grande líder deixa entrever a feição problemática de sua relação com o catolicismo. As duas forças apoiaram-se mutuamente, engrandecendo-se no processo. A trajetória política de Getúlio desligada da religião é incompreensível. A elucidação desta dinâmica é de grande interesse, e contribui para a melhor inteligibilidade do período.

Que Getúlio Vargas não era santo é desnecessário afirmar, que não era um Salazar ou um Franco também. Mas foi o mais próximo que tivemos de tão ilustres figuras.

Referências:

LOSS et al. Luz, escuridão e penumbra: o Governo Vargas e a Igreja Católica. Revista Dimensão. Vitória: UFES, 2011.

O que é pior: Anarquia ou Estado opressor? O caso dos Lele.

O texto é um excerto de uma postagem da página "Porco capitalista".

Nas margens do rio Cassai, onde hoje fica a República Democrática do Congo, vivam dois povos diferentes, os falantes da língua lele, do lado ocidental do rio e os falantes da língua bushong, vivendo no lado oriental. Até meados do século XVII, os dois povos eram muito parecidos em cultura, organização social e estilo de vida.

Isso até que o lendário Shyaam a-Mbul uniu as tribos bushong e criou um reino centralizado, o reino de Kuba, sendo ele próprio o rei, enquanto que os lele continuaram vivendo em vilas fortificadas isoladas, sem um estado centralizado. O reino de Kuba era altamente opressor, o rei cobrava impostos altíssimos apenas para enriquecer a si mesmo, havia um conselho de líderes, mas eles não eram eleitos democraticamente para representar o povo, eram apenas uma forma de nobreza interessada em manter seus privilégios.


No entanto a diferença nas condições de vida dos dois lados do rio era visível. Enquanto o reino de Kuba tinha uma agricultura muito mais produtiva, uma tecnologia mais desenvolvida, uma espécie de polícia que garantia a ordem e uma atividade comercial relevante, os lele, do outro lado do rio, produziam apenas para a sua própria subsistência, usavam técnicas agrícolas muito rudimentares e eram constantemente ameaçados pela violência e pelos roubos.

A explicação é muito simples: Sem um estado para manter a ordem, os Lele não tinham nenhuma segurança de que aproveitariam o fruto de seu trabalho, por isso não tinham incentivos para adotar as tecnologias que os Bushong do reino Kuba já conheciam. Por outro lado, o rei dos bushong sabia que, para ser rico, seu povo teria que ser minimamente produtivo, caso contrário, não haveria o que expropriar dele, por isso, tratava de reprimir a violência e proteger a propriedade dos seus súditos.

Sobre o tradicionalismo ingênuo ou parcial.

Arthur Rizzi
Uma relação que o marxismo faz e é verdadeira, é a relação entre o modo de produção e as instituições. Obviamente nem todas as conclusões que os marxistas tiram dessa ideia estão certas. Contudo, seguindo o exemplo do cardeal Müller (1), avancemos:
 
Geralmente o impulso inicial de uma mudança institucional advém de mudanças no modo de produção. Não que o inverso não seja possível, mas geralmente quando o impulso parte das instituições é que vem os grandes impactos revolucionários (aqui a conclusão a que chego contrária a de Marx), ao passo que mudanças que nascem no modo de produção tendem a ser mais orgânicos.
Essas mudanças institucionais ocorrem pois como a atividade econômica supera a capacidade gerencial (organização, administração, representação e tributação) das instituições vigentes, elas precisam se modificar para continuar a existir, mas também para aprimorar os novos modos de produção, redirecionando-os a um fim comum.
Por isso vejo com grande estranheza tradicionalistas que odeiam o Estado moderno mas são mui amigáveis e até amantes do mercado moderno. E é por essa mesma razão que é ilusório um reacionário esperar uma mudança nas instituições sem ter uma contrapartida no modo de produção daquela sociedade.
As instituições medievais tinham sua razão de existir em parte nas necessidades daquela sociedade historicamente construída, portanto, as guildas faziam um sentido orgânico num sistema cujo modo de produção excluía a terra, o trabalho e o dinheiro do processo mercantil.
Isso significa que qualquer transposição histórica de instituições medievais para uma sociedade urbana, capitalista e cosmopolita, só poderá ser feito de modo a acomoda-las a estrutura básica do capitalismo (o que significa que elas só executarão em parte suas funções sociais originárias) ou através de um processo revolucionário que destruirá todas as instituições capitalistas.
É ingênuo pensar que tal radical transformação vai nascer no seio do próprio sistema capitalista, que será do interesse do burguês a destruição de seu próprio mundo. Pode ser de um ou outro, mas nunca será algo generalizado. Logo o reacionário só pode recorrer ao Estado moderno que tanto odeia, é o único quê não necessariamente opera sob a lógica do lucro.
Em resumo, se o tradicionalista não percebe este problema inerente a relação modo de produção (ou economia) e instituições, ainda que ele não seja um liberal doutrinário, ainda que ele tenha repulsa pelo liberal-conservadorismo, ele acabará por ser um deles na prática, pois sempre tentará desmontar o único poder que poderia ajudar a construir o que ele tanto deseja. E o resultado será uma “ordem espontânea” hayekiana, que nada tem de tradicionalista, dado que parte da ideia de ordo ab chaos. É mais ou menos assim que pensava Plínio Corrêa de Oliveira (2).
——-
(1) Cf. Livro: “Ao lado dos pobres: Teologia da Libertação” escrito pelo cardeal Müller e pelo Pe, Gustavo Gutiérrez.
(2) Cf. Livro: “Nobreza e elites tradicionais e análogos”. Plínio Corrêa de Oliveira.

Sobre a tal da restrição externa ….

Oreiro strikes again…

José Luis Oreiro

Recentemente alguns aprendizes da economia mainstream criticaram meu post sobre o General Restrição Externa (https://jlcoreiro.wordpress.com/2019/11/19/o-general-restricao-externa-se-aquece-para-entrar-em-campo/) argumentando de que eu teria usado um caso particular do modelo de Thirwall, no qual a parte da equação de crescimento com restrição de balanço de pagamentos referente ao impacto da variação da taxa real de câmbio sobre a taxa de crescimento das exportações e das importações é excluída da forma final da “lei de Thirwall”. Em tais condições a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos seria dada apenas pela razão entre as elasticidades renda das exportações e das importações multiplicada pela taxa de crescimento da renda do resto do mundo. Como países primário-exportadores como, por exemplo, o Brasil tem elasticidade renda das exportações baixa e elasticidade renda das importações alta, então a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos seria inferior a taxa de crescimento…

Ver o post original 925 mais palavras

A China ainda parece levar a melhor na guerra comercial de Trump.

Arthur Rizzi*

A onda de desvalorização das moedas latino-americanas expôs talvez o ponto falho da estratégia anti-China de Donald Trump. A guerra tributária contra os produtos chineses para na desvalorização do yuan e das demais moedas soberanas.

Na recente investida de Trump contra Brasil e Argentina (que expôs mais uma humilhação da diplomacia neocolonial americanista de Ernesto Araújo), Trump acusou Brasil e Argentina de fazerem dumping cambial em favor do aço e do agronegócio contra os interesses americanos. Ora, que se trata de retórica eleitoreira de Trump, já é de conhecimento público, 2020 está aí e ele precisa justificar sua guerra comercial perante os fiéis eleitores do agronegócio americano e da indústria de aço de seu país.

Porém, o que talvez escape a vista do presidente americano é que quanto mais ele impõe tarifas, mais ele semeia instabilidade no mercado global. E ao fazê-lo, mais gente foge das moedas emergentes tais como yuan, real e peso, e corram para o dólar, super apreciando-o e desvalorizando ainda mais o câmbio de países como Brasil, Argentina e… vejam só: China!

Ora, nesta belíssima aula de Delfim Netto na Ancham, ele demonstra com dados como o câmbio é muito mais forte que tributos e subsídios na determinação dos preços internacionais. Se por um lado, a China agradece (não que ela não esteja sentindo o peso dessa guerra, está), a instabilidade gerada no mercado internacional também diminui o vetor de exportações de países como Brasil e Argentina que poderiam ser beneficiado por esse quadro. Se ocorrer de o mercado mundial melhorar no médio prazo (entre 2 e 5 anos daqui para frente), e as moedas de Brasil e Argentina continuarem desvalorizadas, pode ser que haja uma retomada do setor industrial nos dois países.

Aguardemos.