Sobre Arthur Rizzi

Licenciou-se em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), apresentando uma monografia sobre a implantação da Economia Social de Mercado Alemã pela Democracia Cristã entre 1949 e 1966.

Peso-Real: E a “direita antiglobalista” se mostra cada vez mais globalista.

Arthur Rizzi

O meu texto recente sobre como a direita olavo-bolsonarista caminhava do pseudo-nacionalismo para o globalismo mostrou-se profético. Mal se passaram alguns dias desde esse texto, eis que o ministro Paulo Guedes (um amiguinho de George Soros) e o presidente Bolsonaro trazem de volta ao mundo dos vivos a velhíssima ideia da moeda única continental, outrora conhecida como Austral, vem ao mundo dos caminhantes com o nome de Peso-Real, em tese, ela deveria funcionar como o Euro.

Aqui nós vemos a completa disparidade entre o bolsonarismo e a nova direita nacionalista ao redor do mundo. Enquanto o primeiro quer construir um Euro e uma zona do Euro para chamar de seus, os demais querem livrar-se das correntes de Bruxelas. O olavo-bolsonarismo é liberal econômico. O novo nacionalismo de direita na Europa, protecionista. O próprio trumpismo é bem diferente do bolsonarismo em suas motivações e alicerces, como notou Niall Ferguson (que simpatiza mais com o presidente brasileiro, diga-se de passagem).

A única coisa comum entre Bolsonaro e Trump é que ambos têm uma profunda devoção aos Estados Unidos, “América first!” é o lema de ambos. A diferença, além das já salientadas, é que só o segundo é presidente dos Estados Unidos. O primeiro não é, só não se deu conta ainda disso. Ambos são americanistas, mas Bolsonaro consegue ser mais.

A proposta da moeda comum, o Peso-Real, gerou risos, críticas e refutações. Mas o mais curioso é que este é claramente um movimento de tendência globalista. Expliquemos o porquê:

Os bancos centrais nacionais, por mais autônomos que sejam ainda estão sujeitos à influência do jogo político das democracias. A qualquer momento, um outsider, um candidato “contra tudo isso que está aí”, pode ganhar as eleições e bater de frente com a autoridade monetária. E nessa briga, frequentemente, chega-se a um meio termo. Vide o Federal Reserve e o governo Trump. Isto quer dizer que o sistema financeiro internacional, o financismo global, não é a única fonte de influência sobre a política monetária destes países.

Por outro lado, a criação de uma moeda única, implica na retirada do poder dos Estados Nacionais de influenciar nas políticas monetárias e cambiais que regem o país. Se houver conflito entre uma e outra, paciência. Não há como bater de frente. E ao tirar dos governos os meios de influenciar nessas políticas, “um candidato contra tudo isso que está aí” vai ter de escolher:

a) Aderir ao que está aí, quer goste ou não;

b) Brexit.

Isso, por si só, é a extinção do poder democrático de pautar discussões econômicas. Não sou um grande fã da democracia, considere-me um aristocrata mais que um democrata, mas sejamos sinceros: Algum grau de legitimidade e de influência um governo deve receber do povo na elaboração de sua política econômica. Sem essa sensibilidade, provavelmente teríamos tido ainda mais revoluções bolchevistas entre as décadas de 30 e 50.

Um bom exemplo é o caso do Syriza na Grécia, que após muita balbúrdia e “Oxi” para lá e para cá, acabou tendo que baixar a cabeça para a Troika.

Mas o mais pernicioso disso tudo é que, se o povo não pode se fazer sentir na política monetária e cambial, o mesmo não podemos dizer do financismo globalista. Eles são a única força agora de influência nas políticas monetárias e cambiais. É o caso do Banco Central Europeu (BCE), a menina dos olhos de um monte de gente muito mais graúda do que o o boi de piranha George Soros. Ele é um cara mal? Sim. Mas ele está muito em evidência no momento, e os assim chamados “globalistas” adoram fazer truques de mágica. E, que mal lhes pergunte, vocês ainda se lembram da regra número um da mágica? Não? Então os lembrarei: “Distraia o publico com uma mão e faça o truque com a outra”. Soros é a mão visível e chamando a atenção, nesse momento. Não se esqueça disso.


 

Anúncios

O microcrédito não é uma ameaça aos grandes bancos.

Arthur Rizzi

Embora eu seja um entusiasta do microcrédito e do empreendimento individual de crédito propiciado pelo governo Bolsonaro recentemente (haja visto o artigo que publicamos aqui do Richard Aleman), há uma alrgação que os olavistas e bolsonaristas em geral vêm fazendo e que é completamente sem fundamento e que revela um completo desconhecimento de como funciona o contemporâneo sistema bancário.

Antes de passarmos ao assunto propriamente dito, contextualizemos a alegação dos olavo-bolsonaristas.

Desde o início do governo Bolsonaro, um setor da direita e de tendência nacionalista começou a elevar críticas ao governo Bolsonaro pela agenda liberal e americanista dos mesmos. Dentre esses setores estão os tradicionalistas católicos mais radicais (a exemplo da Legião da Santa Cruz), setores pronistas e saudosistas do regime militar, bem como alguns grupos vinculados a Integralismo que outrora apoiara o governo.

Estes setores questionando a política externa subserviente ao interesse americano e o liberalismo da equipe econômica de Paulo Guedes, começaram a apontar o governo como sendo falso nacionalismo e um títere dos interesses do globalismo financeiro (sistema financeiro internacional). Em resposta os olavo-bolsonaristas alegam que a medida recente que permite o empreendimento individual de crédito seria uma prova de que Bolsonaro e a equipe econômica não estão de acordo com o globalismo financeiro, dado que este é constituído de grandes bancos, que seriam ameaçado pela competição com os pequenos agentes de crédito.

Uma vez delimitado o contexto dessa discussão relevante, vamos analisar a verdade dos enunciados acima.

1- Os pequenos agentes de crédito não constituem ameaça ao grande setor bancário em lugar nenhum do mundo.

A grande virtude da medida de estímulo ao microcrédito é a possibilidade de as relações de crédito e investimento serem mais horizontais e personalistas junto às pessoas comuns. Contratos mais flexíveis e adequados a situação das pessoas concretas passa a ser uma possibilidade nesse tipo de relação bancária, substituindo, por exemplo, os contratos de adesão dos grandes bancos.

Porém, essa medida afeta apena pequenos e micro-empreendedores, ela é irrelevante para empresas grandes como por exemplo, a Gerdau. Pense: Por que a Guerdau pegaria emprestado dinheiro com o Banco de Quiproquó do Vale, que tem apenas 200 mil reais em ativos, sendo que qualquer operação da Guerdau para investimento demanda de 10 a 20 vezes mais recursos do que o banco tem em patrimônio? Veja, tomar empréstimos de vários pequenos bancos até dar o montante necessário tornaria o sistema incomensuravelmente mais complexo, arriscado e menos eficiente. Por isso sempre acabará sendo preferível a grandes empresas também tomar serviços de grandes bancos.

2- O problema da escala e da concentração:

Isso nos revela um problema que é a escala de operações. O sistema bancário é especializado na capitação e transmissão de informações, e fazer isso de maneira eficiente exige que se seja capaz de arcar com custos fixos muito elevados, que somente entidades de crédito com um grande volume de ativos serão capazes de pagar. Essa é a principal razão pela qual o setor bancário apresenta uma grande tendência a concentração em todo lugar do mundo. Usando o economês como língua, diríamos que o custo médio é decrescente, porque o custo marginal é muito pequeno em face dos custos fixos e do montante de ativos em posse da instituição. O custo para um banco de abrir uma nova conta corrente ou conta poupança é tão diminuto, que isso faz com que os bancos tendam progressivamente a operar no regime de competição monopolista.

3- O pequeno crédito não é a grande fonte de recursos dos bancos.

Embora os grandes bancos não desprezem o micro e pequeno proprietário, ele não é nem de longe a sua maior fonte de receitas. Os grandes bancos ganham muito dinheiro intermediando operações de open market, operações de crédito compromissadas com a dívida pública e financiando grandes empresas. Isso significa que embora certamente eles não ficam felizes em perder clientes de renda baixa, que eles não farão grandes dramas por eles.

4- Suposição:

Suponhamos que ainda assim, os pequenos bancos fossem capazes de vencer todos estes desafios de custo e escala. Ainda assim, eles existiriam no mercado de crédito pela pura e simples benevolência dos grandes bancos, que poderiam expulsá-los através de um dumping de crédito. Pense você que em hipótese que estes pequenos bancos individuais venham a ganhar cada vez mais marketshare, a ponto de assustá-los. Enquanto os novatos ainda não tivessem ativos em igual proporção, eles ainda poderiam ser expulsos do mercado pelos bancos maiores sacrificando temporariamente parte de seu lucro oferecendo crédito abaixo do preço de mercado. Isto não é triunfo do mercado, ao contrário, é a sabotagem do mesmo. Contudo isso nunca aconteceu devido às barreiras supracitadas serem quase intransponíveis.

Isso, obviamente, não significa que a existência de pequenos agentes de crédito n;ao ajude a baixar o spread ou ainda a reduzir um pouco a taxa de juros, mas não será nada muito relevante.


 

Direita brasileira: do globalismo inconsciente ao globalismo ideológico

Arthur Rizzi

A direita brasileira está dando passadas largas em termos de discurso político para num futuro não muito longínquo, tornar-se um porta-voz consciente do globalismo. O raciocínio é simples: Na internet, ponto principal do debate econômico, a radicalização de ideias de lado-a-lado criou a figura do “isentão”.

É óbvio que existem pessoas que num contexto político desfavorável às suas ideias, as transmutam em uma opinião centrista para com isso fazer avançar pelo menos uma parte de sua agenda real. Contudo, isso nada tem a ver com pessoas cuja posição política e proposta de modificação da política sejam mais centristas, moderadas e prudentes.

Isto é, uma coisa é a pessoa que diz defender a solução de dois Estados para a questão israelo-palestina como forma de ocultar seu anti-sionismo, podendo assim apoiar a causa palestina sem ser acusado de antissemita. Outra bem diferente é a pessoa que acredita que a solução de dois Estados é efetivamente s melhor solução.

O problema é que por conveniência dos dos lados, ambos são empurrados sem distinção para o mesmo rótulo de “isentão”. Quanto mais à esquerda (ou à direita) você estiver, mais direitistas (ou esquerdistas) você verá. Veja no caso de Bolsonaro. As críticas que se fazem a política externa podem ser feitas pelas mesmas duas razões acima. Pode ser o caso do “isentão”, o anti-bolsonarista que por estar fora do poder e temer represálias advoga uma versão mista da sua visão real de política externa com uma versão moderada da política bolsonarista. Ou pode ser que seja uma pessoa que realmente tenha uma visão mais moderada desses assuntos sem qualquer compromisso com o anti-bolsonarismo.

De fato, muitas personalidades conservadoras e até tradicionalistas tem feito críticas a orientação da política externa de Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho. Nem por isso são esquerdistas enrustidos. Ao contrário, justamente criticam porque acham que o governo ou o país seriam mais beneficiados por um outro tipo de política externa.

E de fato, se analisarmos, o “nacionalismo” que a imprensa internacional atribui a Bolsonaro não passa da metade da primeira página. O suposto nacionalismo começa e termina no discurso. A política externa visa primariamente os interesses dos Estados Unidos e de Israel, com o Brasil prestando um acordo de suserania e vassalagem com os Estados Unidos e com os setores mais americanistas do governo querendo com a entrada na OTAN, que este pacto de suserano-vassálico converta o Brasil num protetorado dos Estados Unidos.

Ora, mas o nacionalismo não se constitui justamente numa postura de não subserviência a ninguém e de autonomismo? O nacionalismo não acaba por optar por uma política externa independente, optando quando muito e inevitável, por um alinhamento comedido e negociado, e sempre com muitos poréns e declarações de provisoriedade? Afinal, “a pátria vem em primeiro lugar. Se assim é, e se como dizia Santo Tomás de Aquino “falar a verdade é quando o discurso versa sobre o Ser na medida em que este é conhecido”, podemos evidenciar que o discurso nacionalista não versa sobre a realidade do que é a atual política externa.

O problema é que hoje a questão da política externa tornou-se ideológica. Ser de direita é ser pró-EUA e Israel. Ser de esquerda é ser pró-Palestina e Rússia e/ou China. Mas a realpolitik não é assim. China e Estados Unidos têm uma relação econômica simbiótica, onde um lado poupa e o outro consome. Nada poderia ser mais longe do fla-flu acima descrito. Então, passa a compensar para o direitista tachar o nacionalista de “isentão” ou “esquerdista enrustido”, pois ele não adota o credo pró-EUA e pró-Israel per omnia saecula saeculorum. O nacionalista verdadeiro, propondo uma política externa independente, desejaria uma relação saudável com Rússia, China e Estados Unidos, fugindo o máximo possível dos problemas entre eles e tentando levar o melhor possível de vantagem entre todos. Mas para o bolsonarista, isso faz do nacionalista um esquerdista.

Então pensemos: Se nacionalismo factual, real e concreto é de esquerda. Se buscar única e exclusivamente o interesse brasileiro é de esquerda dentro desse discurso fanatizado, é óbvio que a contraposição tenderá a radicalizar cada vez mais no globalismo, no internacionalismo e nos projetos contra autonomia nacional.

Antes que alguém mal intencionado diga que eu estou acusando o bolsonarista de ser globalista, ou de dizer que o nacionalismo é uma ideologia de esquerda (e existem muitos nacionalistas conservadores), eu advirto e peço: leia de novo. O que eu estou dizendo é que na medida em que no plano discursivo a direita atual continue a empurrar o nacionalismo real e factual para o canto da esquerda política, ele começará a se ver na necessidade de delimitar uma distinção igualmente discursiva, e nesse caso ele só poderá se mover para o globalismo que é o outro polo dessa equação, pois o pretenso “nacionalismo” do governo Bolsonaro é meramente discursivo. E com isso, para piorar, acabar dando a própria esquerda que diz combater o monopólio da “defesa dos interesses nacionais” e de que “se preocupa de verdade com o país”. Claro, tudo isso no plano meramente discursivo.

Para ser ainda mais claro, o governo já é globalista na prática. Os bolsonaristas é que ainda não descobriram isso.


 

Política externa: Brasil, pan-lusitanismo e hispanismo.

Arthur Rizzi*

Ao longo da história, a diplomacia brasileira orientou nossa política externa em muitos sentidos, mas quase sempre de maneira responsável. Mesmo quando se optou por uma Política Externa Independente, seja sob a égide do terceiro mundismo, ou sob a égide do universalismo, tudo sempre foi feito de maneira muito gradual e condizente com nossa posição e nível de força.

Mesmo a profundamente ideologizada diplomacia petista demorou muito tempo para engrenar na linha mais ideológica. Por exemplo, a intervenção do Brasil na questão Turca com o Irã, certamente gerou alguns constrangimentos de lado-a-lado, mas ela em momento algum trouxe ameaça bélica para o Brasil, pois tudo sempre fora feito por meio de diálogo e diplomacia.

A novidade em relação a desastrada política externa de Araújo é que ela é radical, repentina e beligerante. A primeira tentativa de acordo que Araújo fechou como ministro das relações exteriores, foi a desautorizada posteriormente, promessa de apoio militar brasileiro em caso de incursão militar americana na Venezuela.

Se durante os anos do PT o Brasil deu as costas a Israel e abraçou a causa Palestina; uma inversão de 180º ocorreu: O Brasil passou a apoiar os israelenses contra os palestinos. Se o Brasil na era PT deu as costas ao mundo e fechou-se no Mercosul, abrindo-se no máximo aos BRICs, o novo governo  menospreza seus vizinhos e procura bajular o tio Sam  torto e a direito.

A questão Venezuelana é simbólica. Saímos dos afagos PTistas à quase guerra contra os venezuelanos com Maduro ponto misseis de longo alcance apontados para Belém do Pará e Manaus.

Trocou-se uma ideologia pela outra. Não é de se admirar que a diplomacia mais racional que tivemos nos últimos tempos fora a do governo Temer, que trazendo o Mercosul de volta ao campo democrático, procurou soluções diplomáticas para questão V=venezuelana, como embargos e a suspensão do bloco. Ocorreu também que o Brasil voltou oficialmente a adotar a posição de dois Estados na questão israelo-palestina, além de procurar mercados com a União Européia e conciliando ainda por cima China e Estados Unidos.

Mas eu creio que o Brasil pode um pouco mais em termos de política externa, e tenho duas bases para pensar isso:

  • O universalismo do general Figueiredo – Essa forma de diplomacia defendia em seu contexto geopolítico (a Guerra Fria), que o Brasil deveria procurar os melhores acordos comerciais e políticos, independente se no ocidente capitalista ou com os países da cortina de ferro. O café brasileiro nestes tempos chegou a responder por 80% do café consumido na Polônia, tornando-se um mercado interessante.
  • O segundo ponto é o luso-hispanismo (junção de pan-lusitanismo e hispanismo) – Por sua vez essa orientação entende que o Brasil, assim como seus vizinhos, fazem parte de um contexto cultural ibérico; isto significa que apesar do Brasil estar aberto ao diálogo e a negociação com todos os países, que ele dará prioridade às suas raízes e tradições favorecendo os países amigos por ordem de proximidade cultural e geográfica com quem desenvolvemos laços históricos. Desta maneira Portugal, os nossos vizinhos da América do Sul e Latina, as ex-colônias portuguesas na África, Timor Leste e a Espanha são amigos prioritários nas nossas negociações.

Essa abordagem nos dá certas instituições já existentes como passíveis de diálogo: O Mercosul – Bloco comercial que abriga o maior contingente comercial da América do Sul. A aliança do Pacífico, que engloba países amigos andinos. Por manter uma boa relação com Portugal e Espanha, poderíamos ter facilidades no diálogo com a União Européia, sobretudo se levarmos em consideração que temos a Guiana Francesa bem na nossa fronteira norte. Com nossos irmãos angolanos e moçambicanos teríamos muito a oferecer. Eles têm um mercado consumidor em crescimento para manufaturas e eletrônicos que seria de grande valia para as nossas indústrias, e as deles seriam grandemente beneficiadas ao fornecer insumos para a as nossas.

Nossas relações com os Estados Unidos, com a China e com a Rússia, que não guardam proximidade cultural nem geográfica conosco, seria a do universalismo, procuraremos em todos o melhor que tem a oferecer. E ofereceremos a todos o que desejarem de nós em boa fé.

Saindo um pouco da concretude e do pragmatismo, e falando um pouco mais em ideais, seria possível ainda pensar mais em longo prazo. Uma bela e moral ideia, seria talvez de algum dia, formar-se uma organização militar de mútua defesa dos países luso-hispânicos, em moldes similares a OTAN/NATO. Contudo, focado em construir um verdadeiro e competitivo poder militar no Atlântico Sul, de modo a garantir a soberania dos países de tradição luso-hispânica na América, na África e também na Península Ibérica. Esse acordo acabaria tendo como fonte de auxílio um país irmão como o Brasil, ou os demais países da América do Sul, e não um Império muitas vezes pouco afável como os Estados Unidos.

Um banco de desenvolvimento conjunto como alternativa ao FMI também seria uma possibilidade, dado que seria positivo não só para os países da América Latina, mas como para os países da África que compartilham uma longa história conosco e que certamente prezariam muito por nossa ajuda. Tudo isso pode ser longínquo e por demais hipotético, mas é uma boa meta para se desejar.

Mas o ponto mais importante, é que a imagem que o Brasil grande que eu gostaria de ver projetada no mundo, não é de maneira nenhuma a de um Império com armas apontadas para os rivais. Não quereríamos uma doutrina Monroe para garantir a lealdade dos nossos companheiros de continente. Não! Nossas armas são para a nossa defesa, mas também para a vossa. Nossos braços são para lutar por nós, mas também para lutar por vocês. E tudo que o Brasil pediria seria reciprocidade. Idealista? Sim, mas sem saber onde chegar, não há razões para desenhar trilhas e mapas.

No hemisfério Sul, o Brasil nessas condições, se tornaria hegemônico, um “gigante gentil”, dado que teria como missão histórica usar esse poder de modo passivo e não imperialista e não intervencionista.


*Arthur Rizzi é historiador.

Entenda o que é o americanismo: a ideologia do governo Bolsonaro.

Arthur Rizzi*

[…] só não me sinto envergonhado de haver nascido no Brasil porque não tive a menor parcela de responsabilidade nesse infausto acontecimento. Meus antepassados portugueses e alemães, uns burros, achavam que estavam indo para a América.

Olavo de Carvalho em Valei-me, Alborghetti!

As pessoas tem observado e chamado de conservadorismo a ideologia manifestada pelo governo Bolsonaro, especialmente pela ala associada ao escritor e jornalista Olavo de Carvalho. Assim,  a ala composta por Weintraub (MEC), Ernesto Araújo (Itamaraty) e Damares (DH), seriam por assim dizer alas conservadoras. Em que pese de fato haver uma relação com o conservadorismo, não é apropriado dizer que esta ala seja conservadora e que a ideologia do governo seja conservadora.

Conservadorismo é uma expressão que pode ser tomada em vários sentidos, tanto como um nome genérico para posições à direita ou como uma expressão voltada única e exclusivamente para as doutrinas burkeanas e derivadas que se manifestam mais comumente em países de língua inglesa.

Se tomado como nome específico de uma doutrina e de suas variantes, o governo Bolsonaro especialmente na ala olavista, até pode ser dito ideologicamente conservador embora seja muito pouco conservador na prática. Isso acontece porque a definição de conservadorismo como uma doutrina filosófica oriunda em Burke, torna restrito demais o conservadorismo como uma manifestação histórica e cultural geograficamente restrita. Medidas como a do governo Bolsonaro em relação às armas, à economia, ao federalismo e à política externa são sem dúvidas conservadoras se fossem aplicadas por um governo inglês ou americano. Porém, com uma historicidade totalmente distinta e uma realidade completamente a parte do mundo anglo-saxão, essas medidas geram enorme estranheza no Brasil. O que nos leva ao conservadorismo como um nome genérico para posições à direita.

Um conservadorismo brasileiro deveria prezar pela realidade histórica do Brasil. O pensamento conservador no Brasil, como demonstrou o nosso colaborador Ricardo Carvalho neste artigo, tem uma origem nacionalista e anti-liberal em matéria econômica (veja o caso não só dos primeiros conservadores, mas também os Integralistas, o regime militar e o Prona). Ele também é de tendência centralista administrativamente falando, preferindo um Estado unitário a um Estado federal. É preocupado com a religiosidade e isolacionista em política externa, tendo sua preocupação exclusivamente limitada à América do Sul.

Ora, o olavo-bolsonarismo (que é como tem sido chamado), ignorando essas preocupações históricas e importando o credo conservador de matriz anglo-americana em doutrina e em práxis, tem ido na contramão desse histórico. De forma que, embora os autores que embasem essa visão de fato sejam conservadores, a implementação das ideias aqui tem sido na verdade uma inovação.

E é por ser uma inovação, que eu digo que a ideologia desse governo é o americanismo. Tomo o termo aqui emprestado, tal como ele é definido como uma heresia pela Igreja Católica. Segundo o Papa Leão XIII na carta Testem Benevolentiae, o americanismo seria uma variante exclusivamente americana da heresia liberal e modernista. Ela, como o liberalismo, não apenas toleraria as liberdades modernas, mas também as endossaria. Diferiria-se do liberalismo, porém, por uma certa imanentização da providência no sentido de apontar os Estados Unidos e a civilização americana como uma antecipação do reino de Deus ou como uma realização mais perfeita da cristandade. Conhece esse tipo de visão? É a de Jacques Maritain, que endossou durante muito tempo o americanismo embora terminasse por rejeitá-lo n’O camponês da Garona enquanto se lamentava pelo Concílio Vaticano II.

O americanismo fazia uma apropriação de uma visão protestante, assim como os calvinistas perseguidos em fuga para as 13 colônias, os católicos irlandeses (essa heresia afetou muito essa comunidade) passaram a se ver como o povo hebreu em fuga pelo deserto em busca da Canaã prometida por Deus. Ao chegar nos EUA e alcançarem rápida prosperidade, esses católicos oficializaram sua visão da América como a nova Israel.

A direita brasileira bolsonarista, por razões históricas outras tem essa mesma visão imanente dos Estados Unidos, explícitas à seguir:

1- Uma adoração por um modelo idealizado das instituições americanas.
2- Uma concepção a priorista da essência do que é o ethos americano como sendo a narrativa ideológica republicana.
3- A teologia histórica do Estado e da nação americanas, como sendo o receptáculo da vontade de Deus, e atores principais (papel dividido com Israel) da execução da vontade de Deus no mundo. Instrumentos da Providência na História. A city upon a hill.
4- Uma concepção metafísica e transcendente das causas do progresso económico e material: a prosperidade não é a consequência natural de política externa eficiente, com políticas públicas distributistas e políticas macroeconômicas desenvolvimentistas. Ao contrário, o progresso seria fruto de como o Brasil se insere dentro do projeto divino no destino histórico de Israel e EUA.
5- Se Deus escolheu os veículos históricos da salvação imanente, o diabo escolheu os veículos geopolíticos da perdição. Qualquer país que se oponha ao projeto americano. Podem ser islâmicos, comunistas, fascistas, etc. A Russia ocuparia a posição do pecador indeciso, com a alma dividida entre servir a Deus (EUA) ou ao diabo (o mítico comunismo), por isso o chanceler Ernesto Araújo idealizava uma parceria EUA, Brasil e Rússia, representando a união das três nações braço do cristianismo.

  • O Brasil sendo o maior país católico do mundo.
  • A Rússia maior país ortodoxo do mundo.
  • Estados Unidos o maior país protestante do mundo e escolhido por Deus na visão olavo-bolsonariana.

A China seria a mão do diabo na Terra. O veículo da perdição por excelência. Coréia do Norte e Venezuela os possessos em vias de serem exorcizados. De certo, há uma ligação entre conservadorismo enquanto doutrina filosófica e esse americanismo, mas dado que não conserva nada do Brasil e cuja missão é americanizar o país, não se pode dizer de maneira nenhuma que seja um conservadorismo.

Isso se dá pois o americanismo enquanto doutrina do governo é uma força de modernização. A literatura clássica da sociologia brasileira cristalizada em Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Raimundo Faoro, consagrou a visão do Brasil como um povo pré-moderno cercado por instituições modernas, o que resultaria no patrimonialismo, no populismo e na corrupção endêmica. Ainda hoje, embora o processo modernizador esteja mais avançado, o brasileiro é um povo que encontra muitas dificuldades em se modernizar e continua sendo em grande medida um povo de hábitos e mentalidade do Antigo Regime português.

Desta forma, não buscando conservar nada, o americanismo visa modernizar o país através da imposição de uma fôrma como um molde cultural, sociológico, antropológico norte-americano idealizado. Unindo de um lado o protestantismo americano (Malafaias, Damares, Felicianos, Edir Macedos) e um catolicismo americanista ou filo/cripto-americanista (Pe. Paulo Ricardo, TFP, CDB, etc.) saudosista de uma outra força americanista, a UDN.

Se é para dar um nome, que nomeemos a ideologia corretamente. O governo Bolsonaro não é conservador, é americanista.


*Arthur Rizzi é formado em história pela UFES.


Fontes úteis para pesquisa:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/566284-que-tipo-de-heresia-e-o-trumpismo

http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/velhaheresia/

http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/testem/

O teto de gastos melou os serviços públicos.

Arthur Rizzi*

Embora haja um problema fiscal real e a ideia central do teto de gastos tenha sido em essência correto, os seus efeitos não atacaram os problemas reais. Ao passo em que despesas de custeio (salários, logística, benefícios e benesses) continuaram crescendo fora de controle, para o teto ser respeitado, o governo viu-se forçado a cortar em serviços públicos.

Em nota o MEC disse que os cortes são frutos da:

“necessidade de o governo federal se adequar ao disposto na LRF, meta de resultado primário e teto de gastos”.

Esse risco já havia sido considerado por economistas heterodoxos, que consideravam a ideia que a classe política terceirizaria custos, penalizando os serviços públicos: O economista Luiz Carlos Bresser-Pereira ponderou em 2016, que o Brasil precisa de um melhor regramento no campo fiscal, “mas o que está sendo proposto é a redução do tamanho do Estado, com redução do custo de saúde e educação, com o objetivo de reduzir o Estado de bem-estar social“.

Assim, o que começou com a ideia de um reajuste pela inflação para em tese manter os gastos sem redução, acabam por gerar não apenas redução real (pelo aumento da população), mas redução nominal também.


*Arthur Rizzi é historiador de economia.

Cala a boca, Ernesto!

O macumbeiro do Itamaraty, vulgo Ernesto Araújo, disse recentemente em aula magna que o comércio com a China é a causa da nossa estagnação!

“O Brasil foi o país que mais cresceu no mundo quando seu principal parceiro de desenvolvimento eram os EUA, e depois estagnou, quando desprezou essa parceria com os EUA e passou a buscar Europa, integração latino-americana, e, mais recentemente, o mundo pós-americano dos Brics”, disse.

“De fato, a China passou a ser o grande parceiro comercial do Brasil e, coincidência ou não, tem sido um período de estagnação do nosso país.”

Primeiro ponto notável nesta “análise”, é uma crença metafísica de que o simples fato do Brasil tornar-se parceiro dos Estados Unidos, faz as forças cósmicas, os ventos do universo e a divina providência soprarem a favor. Não há um dado, não há nenhum modelo econométrico que justifique tal asserção. É pura e simples crença no messias terreno de Olavo e Ernesto, o sacrossanto, divino e guia para todos os povos, o Estado americano! Cada dia mais fica evidente que a ideologia desse governo não é nenhum conservadorismo, mas uma idealização (um tanto fantasmagórica) da nação americana, tal como reproduzida pela literatura republicana, que enxerga os Estados Unidos como o principal ator de uma teologia histórica, na qual a nação americana encarna as virtudes cardeais e teologais para toda a humanidade. (Não custa lembrar que essa é uma visão maçônica).

Como vemos nos dados do banco central (aqui e aqui), foi a partir de 2002 que a economia chinesa começa realmente a crescer em importância frente os Estados Unidos e a União Européia; e de 2002 a 2010 o Brasil registrou um ótimo crescimento econômico. De fato, a média do crescimento econômico apontado por Delfim Netto nesta palestra da ANCHAM seria muito menor sem a China. O que denota que o crescimento baixo que é inaugurado com o plano Real só não foi pior por causa da China. E não o contrário! De resto a palestra do Delfim fala por si, explicando nosso baixo crescimento e a crise do governo Dilma.

Em outras palavras, ao invés de procurar explicações sérias para nosso baixo crescimento nas últimas duas décadas e meia, como o regime macroeconômico adotado, a desindustrialização, a cartelização de multinacionais e bancos, não! Mais sensato é o ministro, que prefere dedicar-se a explicações esotéricas. Cala a boca, Ernesto!