Do verdadeiro conceito de solidariedade – Reflexões em tempos de Pandemia.

Pedro Ribeiro*

Minha primeira grande crise de fé se deu por volta dos 15 anos. Como qualquer crise de fé, ela era um amontado de coisas ao mesmo tempo, mas um dos seus componentes essenciais era de ordem social e política.

Eu sempre fui “de esquerda”, grosso modo: sempre me percebi como uma pessoa para a qual a preocupação com a questão social era algo bastante visceral, íntimo mesmo. E, no entanto, lá na minha primeira quinzena de vida, tomei nota, por meios virtuais (tempos de Orkut) e um tanto abruptamente, que a Igreja condenava completa e definitivamente tanto o comunismo marxista como toda e qualquer modalidade de socialismo, mesmo a mais moderada.

Não dispondo dos anos de estudo e dos instrumentos teóricos de que disponho hoje, entendi tolamente naquela época (e muitos tolamente entendem hoje) que o que resta aos católicos, em política, é a defesa, mesmo que envergonhada, do desprezível capitalismo liberal, e nada mais.

Aquela crise de fé, contudo, foi superada. Permaneço hoje, e mais do que nunca, mesmo que coberto de pecados, na mesma Igreja em que me gestaram meus pais. E o responsável por isto, sob o aspecto da crise que enfoco neste post, foi, humanamente falando, o Padre Fernando Bastos d’Ávila, cujas obras conheci naquele já distante ano de 2008 e que tão profundamente me marcam até hoje.

Ávila foi, estou convencido, e tendo lido sua bela autobiografia, um santo – peço sua intercessão por vezes. Mas o que posso garantir a qualquer um é que, santo ou não, por meio de suas letras a graça de Deus desceu sobre mim e serenou minhas angústias.

Ensinou-me o velho jesuíta que há mais opções sócio-econômicas que o capitalismo liberal e os socialismos. Ensinou-me ele também que, na verdade, não apenas os segundos, mas também o primeiro são duramente condenados pela doutrina social católica. Ensinou-me, por fim, que há várias escolas disponíveis aos católicos: o social-liberalismo (ou neocapitalismo, como ele dizia), para os mais à direita; a social-democracia e o trabalhismo, para os mais à esquerda; e o solidarismo, que o próprio Ávila propunha e considerava mais perfeito, por superar a dicotomia direita-esquerda e por enfatizar não o mercado ou Estado, mas as comunidades reais e concretas, como a família, a vizinhança e a empresa cooperativa.

Seja como for, nos tempos duros em que vivemos, percebo que a maior lição me dada pelo velho aluno do Anchieta foi algo de mais básico e essencial. Ávila me fez entender o que efetivamente é a solidariedade.

Com efeito, segundo o nobre líder da Resistência Democrática ao regime militar e protetor de perseguidos políticos, muitos antes de ser uma virtude ou uma prática, a solidariedade é um estado de coisas, é uma situação concreta, é uma realidade na qual estamos imersos: a interdependência de todos para com todos.

“Solidariedade” – cito-o textualmente – “é a condição concreta de duas ou mais pessoas, das quais cada uma só se realiza precisamente à medida que empenha o seu ser e haver na promoção do outro, ou dos outros.”

O paradigma da solidariedade, segundo Padre Fernando, é o matrimônio, o casamento, onde o esposo tanto mais se realiza como homem quanto mais empenha seus valores na realização da esposa, como mulher, e vice-versa. Ou como diria o Mestre: é dando que se recebe (cf. Atos 20, 35) e quem quiser ganhar a sua vida, irá perdê-la, mas quem perdê-la por amor, este irá ganhá-la (Cf. Mt 16, 25).

Dito de modo direto, exercer ações de solidariedade, ajudar concretamente o outro, não é fazer atos no vazio, agir a partir do nada ou de nossa mera vontade, mas sim tomar consciência e tornar efetizar aquela solidariedade fundamental que já está inserida em nós, em nossa natureza racional e social. Por isso, aliás, a esmola, para quem tem muito e de sobra, não é favor, mas obrigação de justiça, ou, como dizia tecnicamente Santo Tomás: “Os bens que alguns possuem em superabundância são devidos, em virtude do direito natural, ao sustento dos pobres” [Suma Teológica, II-II, q. 66, a. 7]

Muitas vezes nos esquecemos desta interdependência essencial e inescapável de todos para com todos. Daí somos egoístas e mesquinhos. O jeito como nossa sociedade capitalista atomizada funciona, inclusive, favorece tal esquecimento.

Mas Deus tem de seus caminhos e dispôs sua Providência que, por meio de um vírus maldito, recordemos essa verdade primária: somos solidários uns dos outros, queiramos ou não, vivamos isso conscientemente ou não – o bem e o mal que praticamos respingará sempre no outro, e vice-versa.

Aos 15 anos, aprendi isso teórica e filosoficamente, sentado no quarto, lendo os belos e puídos textos de um velho jesuíta, a quem pude, por bondade de Deus, agradecer ao telefone, uma semana antes de sua morte, por me ter sanado crises e angústias espirituais difíceis para um adolescente. Infelizmente, já estava Ávila senil, com doença avançada, e pouco entendeu do que disse. Mesmo assim, como alegro por aqueles poucos minutos de trocas de palavras e de gratidão!

Agora, às portas dos 27 anos, casado, chefe de família, trabalhador e pai de três (duas pequeninas aqui em casa e um guri no Céu, que vela por mim), aprendo prática e existencialmente, por meio deste confinamento forçado e da semi-paranóia inevitável dele proveniente, a mesma lição: a solidariedade não é uma opção ou uma escolha pessoal, dentre tantas outras. Ela é a própria matéria-prima da vida humana.

Sejamos bons alunos, pois, do Deus Pedagogo, mantendo este conhecimento na cabeça mesmo depois da prova difícil que o professor oferece.


*Pedro é mestrando em filosofia.

Pobreza e desigualdade: Uma questão cristã.

Pedro Ribeiro*

Dentre as nove ou dez fórmulas mágicas que os liberais brasileiros pronunciam sem cessar dia e noite, mais piedosamente talvez do que os hare krishnas com seus mantras, uma merece destaque especial: “O problema não é a desigualdade. O problema é a pobreza”. Hoje mesmo tive o slogan invocado contra mim pelo menos três vezes, quando compartilhei uma reportagem do El País sobre a distribuição de renda no Brasil.

Veja bem, é claro que é absurdo haver cidadãos sem acesso ao mínimo de qualidade de vida, sem saúde, sem educação, sem saneamento” – diz o interlocutor – “então a pobreza certamente é um mal a ser combatido. Mais que uns poucos tem quase tudo, bilhões e trilhões, e o outro, seu próximo, possua apenas o mínimo para viver, que mal há? Que mal cometeu o primeiro? Ora, desde que a riqueza deste tenha sido obtida de modo justo e que o segundo possua o mínimo, não há nada de errado“. Uma beleza de raciocínio, não?

Pois é, o problema é que tudo isso se trata tão-somente de uma meia-verdade, uma mistura sedutora de acerto e erro, mistura que, por sua vez, merece análise, pois revela a um só tempo, e como poucas coisas na vida, tanto os méritos quanto os limites brutais do liberalismo econômico.

Vejamos: de um lado, por certo, é óbvio, que no nível mais abstrato, os liberais estão corretos. Em si mesma e formalmente considerada, a desigualdade social, a existência de ricos e pobres, não é um mal que brade aos céus. Primeiro, porque, como mostra fartamente a história, ela é inevitável em qualquer sociedade de larga escala. Mais do que isso, porém, a distribuição desigual de recursos é, em muitas e muitas circunstâncias, algo legítimo e mesmo desejável: por exemplo, quando é o prêmio para o esforço dos mais abnegados ou para as habilidades socialmente importantes dos mais talentosos.

O problema, e aí está o que ignoram os liberais, em que a extensão e a intensidade das desigualdades em nosso tempo transcendem em muito o escopo legítimo citado acima. O capitalismo é historicamente o sistema econômico mais reprodutor de desigualdades [a distância de poder e status entre o rei da França medieval e o camponês famélico do país era, por exemplo, infinitamente menor do que a distância hoje existente entre o acionista majoritário do Itaú e um mendigo da esquina]. Hoje, o que era distância tornou-se abismo.

E qual é o grande mal quando as desigualdades se tornam tão grandes e tão alastradas? O mal é que os laços sociais se fragilizam e a unidade moral da sociedade é perdida.

Trata-se do mesmo problema de sempre, que os liberais nunca entendem: a sociedade não é um agregado de átomos, de indivíduos autônomos e autossuficientes, Robinsons Crusoés, uma simples arena onde cada qual busca solitariamente seu próprio bem e só estabelece relações contratuais com o outro. Ao contrário, a sociedade é uma comunidade moral, um organismo social complexo, uma teia permeada por laços e tradições, em que indivíduos não autônomos, mas historicamente e socialmente situados, buscam realizar um bem que, consciente ou inconscientemente, sempre vislumbram como comum.

Trocando em miúdos: ninguém, ao olhar e avaliar sua condição financeira, olha apenas para si e para os seus, se têm o mínimo ou não. Olhamos também sempre para os lados, para o outro, que é nosso irmão no convívio social. E se esse outro, que está ao meu lado, tem 500, 1000, 1 milhão de vezes mais riqueza do que eu, é perfeitamente natural que isto me incomode e até me ultraje. É natural que eu apreenda isto como algo errado, mau, que corrói os laços sociais, pois não não nos permite mais vivermos juntos como irmãos.

Nada disso é inveja ou ressentimento, mas apenas uma consequência necessária da natureza social do homem. O homem necessita, do fundo de ser, viver em comunidade. Contudo, só há comunidade, só há comunhão de vida, quando os diversos cidadãos partilham de um mesmo horizonte existencial, de um mesmo cenário de possibilidades históricas. Pequenas e moderadas desigualdades não só permitem, mas até favorecem isto. Já os abismos sociais de hoje não só dificultam, como impedem.

Já não há mais irmãos, uns um tanto mais fortes, outros um tanto mais fracos. Há sim uma minoria de deuses, ilhados em seus privilégios obscenos, e uma multidão de espoliados. E daí vem inúmeros males, como de uma fonte: a diminuição da mobilidade social, que prejudica a eficiência econômica; a violência, alimentada pelo ressentimento (aqui sim) mal digerido de certos ultrajados; o preconceito e a exclusão no trato para com os pequenos; a perda do senso de bem comum e interesse geral, numa sociedade dividida praticamente em castas; o Estado corrupto capturado pela plutocracia; a cultura consumista, hedonista e materialista; etc.

No fim, que liberais nunca entendam isso e morram em sua antropologia atomista, típica da infância intelectual, é coisa que se compreende. Afinal, é a natureza deles. Mas que tenha tanta gente autointitulada conservadora caindo nisso – logo os consevadores, que tanto falam de laços, tradições e organicidade social – é coisa realmente para chorar.

Não tem jeito: os liberais-consservadores acabam todos sempre, conscientemente ou não, advogados de Mamon.


*Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia e estudioso do pensamento neotomista de Jacques Maritain;

Para que serve um cristianismo que não se comove com a pobreza?

O artigo aborda um ponto que o artigo de Arthur Rizzi e Ricardo Carvalho com José Oreiro aborda, um cristianismo que se preocupa com os pobres.

Pedro Ribeiro*

Certo tipo de cristão conformista, oposto a todo e qualquer tipo de projeto de inclusão social ou mesmo da centralidade evangélica dos pobres, adora citar aquela passagem do Evangelho de João: “Os pobres sempre tereis convosco“. Este tipo de cristão faz essa citação para insinuar que a pobreza e miséria de uma multidão de pessoas seja parte do plano originário de Deus, algo que devamos aceitar passivamente.

O problema é que, neste versículo, Jesus não está dizendo nada deste tipo, mas justamente o oposto. Em verdade, Cristo está ali apenas rememorando uma velha passagem bíblica, de Deuteronômio 15,11, que ensina o contrário do conformismo: “Pobres nunca faltarão nesta terra. Por isso, te ordeno que sejas generoso para com os teus compatriotas necessitados e para com os pobres que vivem na tua terra.

Mais claro impossível. A existência permanente de uma multidão de pobres e miseráveis não é parte do plano positivo de Deus, mas um chamado permanente à conversão e ao serviço. A pobreza sempre teremos conosco tal como sempre teremos o pecado, a tentação do Maligno, a doença e a morte. Não para que nos confortemos e congratulemos com essas realidades, mas para que as enfrentemos com justiça, sob as graças do Santo.


*Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia pela UERJ, especialista em neotomismo.

O amor e o desejo na pós-modernidade.

Pedro Ribeiro

Trecho de Zygmunt Bauman sobre a distinção entre o amor erótico genuíno e o mero desejo físico, de momento:

“Desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir — aniquilar. O desejo não precisa ser instigado por nada mais do que a presença da alteridade. (…) O desejo é um impulso que incita a despir a alteridade dessa diferença; portanto, a desempoderá-la. Provar, explorar, tornar familiar e domesticar. Em sua essência, o desejo é um impulso de destruição. E, embora de forma oblíqua, de autodestruição: o desejo é contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém, seu segredo mais bem guardado — sobretudo de si mesmo.

O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que ‘está lá fora’. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. (…) O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito a auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a — ciumentamente — guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultando em exaltação.

Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua. (…)

Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.”

Os católicos entre a esquerda e a direita.

Pedro Ribeiro*

Eu entendo perfeitamente as boas intenções daqueles que têm encampado o discurso “católico não é nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. Católico é católico“. Também acho deplorável a ideologização da Igreja que este discurso visa combater. O problema é que ele é a clássica afirmação verdadeira em certo âmbito e absolutamente falsa noutro nível da realidade. Senão, vejamos:

Ora, é evidente que em si mesmo a fé católica e a sua doutrina social não são nem poderiam ser de esquerda, de direita ou de centro. Esposa de Cristo, dotada da missão suprema de salvar as almas e fincada em raízes muito anteriores e muito mais profundas do que a dicotomia política advinda da Revolução Francesa, é óbvio que a Igreja não pode ser espremida e apequenada em limites tão estreitos. Erra, portanto, gravemente, quem submete sua fé a ditames ideológicos, quaisquer que sejam.

Doutro lado, e aí está o erro, a política cristã não é obra da Igreja, mas dos cristãos, dos cidadãos concretos que têm fé. Estes, ao atuar politicamente, não simplesmente reproduzem a doutrina social católica de modo mecânico, uma vez que esta oferece apenas princípios gerais. Ao contrário, o que os bons políticos católicos fazem é, tomando a DSI como base, aplicar estes princípios aos casos concretos de modo criativo, segundo as circunstâncias do momento e segundo seu juízo pessoal, sempre falível.

Em outras palavras, existe A posição católica sobre matérias de princípio (oposição ao aborto, necessidade de proteção social dos pobres pelo Estado, direito à propriedade privada, etc.), mas não sobre casos concretos. Quer dizer, o aborto deve ser sempre proibido, mas a punição, como deve ser? Só ao médico ou também à mulher? Não existe definição de fé sobre isso. Igualmente, é obrigatório que o católico defenda a assistência do poder público aos pobres, mas não há definição sobre de que modo e em que extensão. Menos ainda se poderá exigir coesão e unanimidade no que há de debate político mais imediato, como a reforma da previdência ou a política internacional a ser seguida.

Neste sentido das concretudes, portanto, é evidente que um católico pode ser de esquerda ou de direita (desde que não caia nos extremos do liberalismo e do socialismo propriamente ditos, incompatíveis com a fé). Negar isto, infelizmente, é, ainda que involuntariamente, querer impor dramas desnecessários à consciência alheia, requerendo uniformidade onde ela não só é impossível, como também desnecessária e até má.

Diante da Primavera dos Povos de 1848, Juan Donoso Cortés, importante filósofo tradicionalista e colaborador de Pio IX, julgava estar perante um evento literalmente satânico, prenúncio do apocalipse e reencenação da revolta de Lúcifer (tudo isto é textual). Já para o Beato Frederico Ozanam, fundador dos vicentinos, otimista, aquele levante era a grande chance de reconciliação entre a Igreja e as camadas populares, o auspicioso alvorecer da democracia cristã. Acaso um dos dois deve ser visto como menos católico por essa divergência ou não partilhavam ambos sinceramente da mesma fé e hoje mui provavelmente convivem no Céu?

Se nem a teologia dogmática, ramo tão mais estrito da doutrina, exclui a variedade de correntes e escolas (que o diga a secular querela entre molinistas e os discípulos de Bãnez) quanto mais a política cristã! Como ensina o Vaticano II, nas contendas políticas de irmãos de fé, desde que respeitado os princípios fundamentais, “Embora as soluções propostas por uma e outra parte, mesmo independentemente da sua intenção, sejam por muitos facilmente vinculadas à mensagem evangélica, devem, no entanto, lembrar-se de que a ninguém é permitido, em tais casos, invocar exclusivamente a favor da própria opinião a autoridade da Igreja“.

Ela, a Santa Madre, não é nem de direita, nem de esquerda, nem de centro, mas do Alto. Já nós, sem deixar de ser do Alto, podemos nos afeiçoar mais da destra ou da canhota, sem coagir ninguém por isso.


* Pedro é mestrando em filosofia, estudioso da doutrina social da Igreja.

Direita e esquerda: cúmplices na politização do judiciário.

Hoje o STF legislou a lei contra a homofobia usurpando poderes ao congresso nacional.

Pedro Ribeiro*

O papel de legislar sobre questões morais (aborto, união homossexual, combate à homofobia, etc.) é do sistema político, sobretudo do Congresso Nacional. Mas a esquerda não considera o sistema político confiável, pois é “muito conservador”. E aí apela para o Judiciário (que não é o foro apropriado para isso, pois só deve aplicar a lei, não criá-la), mas pensa que está tudo certo, afinal, é pelo bem da “sociedade”.

O papel de “limpar a política”, de torná-la melhor, de tirar de lá quem “todo mundo sabe que é corrupto” é do sistema político, sobretudo do Congresso Nacional. Mas a direita não confia no sistema político, pois ele “já está todo podre”. E aí apela para o Judiciário (que não é o foro apropriado para isso, pois só deve julgar segundo os autos do processo, nada mais), mas pensa que está tudo certo, afinal, é pelo bem da “sociedade”.

Cada um quer um Judiciário para chamar de seu. E aí quando o outro faz o mesmo, rasga as vestes, denunciando o absurdo. Mas são ambos os lados coniventes e, cada qual a seu modo, vão empoderando indevidamente aquele que deveria ser o mais discreto e sutil poder da República.

Judicialização da política leva apenas à politização da Justiça.

Uma democracia que espera sua redenção dos juízes, à direita e à esquerda, não está viva, mas agonizando, à beira da morte.


*Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia.

Reflexões sobre Canudos.

Pedro Ribeiro*

Passem ou venham os anos, Mestre Ariano Suassuna permanece correto: se há um sonho de Deus para o Brasil, se há uma utopia encravada em nossa história e pela qual possamos nos guiar, este sonho, está utopia é Canudos.

E aqui pouco importam as minúcias históricas. O que vale é o mito fundador.

Canudos, em primeiro lugar, foi obra dos debaixo, dos pobres e desvalidos de Deus, não das elites apátridas, à direita e à esquerda. Isto é, foi um projeto soberano, do povo mesmo, e não de quem pretende falar em seu nome.

Canudos, em segundo lugar, foi obra conservadora no mais autêntico e genuíno sentido da palavra, feito de um povo enraizado em sua tradição e sobretudo em sua fé, defendendo seus valores históricos e sua identidade, contra todo progressismo antinacional e anticristão (na época, o positivismo; hoje, o pós-modernismo), mas também contra todo conservadorismo entojado, gravata-borboleta e anglófilo, que vê no Rei não o herdeiro de Dom Sebastião, mas a cópia da Rainha Elizabeth.

Canudos, por fim, foi um arranjo “socialista”. Não o socialismo teórico dos livros empoeirados, menos ainda os ditatorais, sanguinolentos e materialistas, insensíveis à dimensão transcendente do homem, mas sim o “socialismo” como generalização libertária, de concreta experiência de partilha, de divisão comunitária dos bens, embebida dos Atos dos Apóstolos e da Doutrina Social da Igreja, não estudada, mas vivida e crida no fundo d’alma por aqueles sertanejos iletrados.

Fé, Tradição, Partilha e Organização Popular: hoje, como ontem, ecoam no íntimo de cada brasileiro autêntico os apelos de Canudos.


*Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia.