Sobre reacao nacional

Portal Nacionalista Conservador sobre economia. @saulaodamassa

Investigação mostra que viés ideológico influencia economistas (Valor Econômico, 20/09/2019)

Professor José Oreiro conta suas razões pra ser keynesiano.

José Luis Oreiro

O jornalista Cyro Andrade publicou um belo artigo no Valor de hoje (https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/09/20/investigacao-mostra-que-vies-ideologico-influencia-economistas.ghtml) a respeito de como o viés ideológico influencia ideias e julgamentos de economistas. O artigo foi baseado em trabalho empírico conduzido pelos economistas Mohsen Javdani, professor na Universidade de British Columbia, no Canadá, e Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra no qual se constatou que não faltam evidências de que o viés ideológico, entendido como inclinação preconcebida para determinadas valorações cognitivas e normativas, influencia ideias e julgamentos dos economistas, indistintamente, sejam ortodoxos ou heterodoxos. Cyro entrevistou três economistas (José Luis Oreiro da UnB, Silmão Silber da FEA/USP e o José Roberto Afonso do IDP) e dois cientistas políticos (Marcos Mello do Insper e Marco Aurélio Mello) para avaliar os seus posicionamentos sobre a questão em debate. Os resultados do estudo de Javdani e Ha-Joon Chang pode ser visualizado na figura abaixo:

Além de minhas…

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Se você chama Bolsonaro de fascista, você é um idiota.

Peço desculpas pelo título “clickbait“, eu não acho realmente que quem ache Bolsonaro um fascista seja um idiota. Ao menos não necessariamente. Mas vamos aproveitar a ocasião em que este assunto foi levantado para discutir o assunto.

Primeiramente, nem todo conservadorismo é fascismo. Digo mais, nem mesmo um reacionário é um fascista. A não ser que fascismo não simbolize um termo político histórico e ideologicamente identificável. Infelizmente, têm-se o hábito no Brasil de chamar de fascismo “tudo o que eu acho ruim, atrasado e eu não gosto“. Peço novamente desculpa a quem pensa assim, mas isso não é fascismo, é simplesmente uma opinião sua. E como nós não vivemos no mundinho fechado das nossas imaginações e sentimentos e sim num mundo real para além de nossas consciências, não basta “achar fascista” para que algo seja fascista.

A coisas historicamente mais próxima do fascismo que tivemos no Brasil foram respectivamente: O Integralismo, O Estado Novo nas suas fases iniciais e o PRONA. Mas nenhum deles chegava efetivamente a se consolidar como fascista.

O integralismo era dividido em vários setores e alas, a de Gustavo Barroso por ter comprado o discurso antissemita e apoiado um corporativismo de tipo moderno é talvez a ala que mais se aproximava. A de Plínio Salgado, por exemplo, gostava da estética militar, mas em sua leitura de mundo, embora tivesse tido muitas influências iniciais de Hegel e Gentile, gradativamente passa a uma visão de cunho tradicionalista que pode sem dúvidas ser chamada de reacionária, mas que não era definitivamente fascista.

O Estado Novo, por sua vez, implementou uma visão do mundo utilitária e secular, o que é compatível com um conceito de altermodernidade presente no fascismo, mas ao seu fim estava tornando-se mais um nacionalismo de esquerda pouco democrático do que de fato, um fenômeno fascista. Não custa lembrar da Polaca, a constituição autoritária que o regime implantou. O Enéas talvez tivesse certas características de uma personalidade populista, uma feição caricatural, gestos bruscos e tom de voz sempre forte e elevado. Mas seu discurso descambava mais para um nacionalismo conservador do que para a anti-democracia. Ao contrário, se analisar bem o discurso do mesmo contra as autoridades de seu tempo, tinham na maior parte dos casos um teor republicano muito evidente. Enéas tinha ainda uma visão tecnocrática do poder, que seria uma visão modernizada do aristoi grego. O líder e os homens de Estado deviam ser tecnicamente qualificados, e não apenas uma personalidade popular. Esta é uma característica também do Estado Novo em todas as suas fases, não podendo portanto ser considerado de direita ou de esquerda nos padrões brasileiros, embora em termos mais globais, possa ser considerado conservador, dado que seria uma hierarquização meritocrática da sociedade.

 E o que é o fascismo?

O fascismo é uma forma de nacionalismo que se particulariza por algumas características que são muito peculiares a ele, em palavras mais simples, não é porque um determinado partido, político ou ideólogo tem uma dessas características que ele será necessariamente um fascista.

O fascismo apresenta um d tipo de visão que não necessariamente é conservadora, mas que de alguma forma busca uma legitimação histórica do movimento. Assim, o fascismo pode acidentalmente esbarrar em alguma pauta ou ideia conservadora ou reacionária, mas isso não significa que isso seja a essência do movimento. O fascismo italiano, por exemplo, diferente de um movimento político conservador não visava como meta primária resguardar ou manter alguma tradição ameaçada, e nem mesmo desejava um retorno a um passado medieval idealizado. Nestes casos não se enquadra nem como conservador e nem como reacionário. Mas buscava na simbologia, na arquitetura e no discurso restaurar uma glória do Império Romano, com o seu facho e seus ícones da cultura pré-cristã.

Propunha isso não como um regresso, mas como uma altermodernidade. Isto é, um redesenhamento dos tempos em que vivia com moldes da antiguidade. Era notabilizado também por uma divisão de funções entre público e privado na economia conforme as diretrizes de um Estado autoritário e nacionalista. A hierarquização era inicialmente tecnocrática, mas com a aliança com o III Reich, elementos racialistas de Hitler começaram a tomar parte da hierarquização. A verve militar é sempre muito difundida, não apenas na estética, mas na prática. O fascismo quando não manifesta um claro expansionismo militar, procura a unificação de territórios dissidentes sempre pela força. Lato sensu, isto é o básico do fascismo. Se analisarmos bem, veremos que na Europa ocidental somente Hitler, Franco e Mussolini se enquadram neste modelo. Nem mesmo Salazar poderia ser considerado um fascista, dada a sua visão tradicionalista e a de um nacionalismo emburrado e autocentrado.

O fascismo notabiliza-se ainda, por uma figura caricatural e personalista que quer se caracterizar como uma espécie de líder ou chefe de seita que encarna o “espírito” da nação ou da raça. Bolsonaro até se assemelha bem a este tipo de conduta, mas outros líderes de esquerda também foram populares ou populistas demagógicos e não são contados entre os fascistas, como Hugo Chávez, o ex-presidente Lula, Evo Morales na Bolívia, etc.

Os governos fascistas na sua fase inicial receberam algum apoio dos tradicionalistas, mas isso não faz deles a mesma coisa e o importante é que, pouco depois acabariam por perdê-lo. Vide que Franco sacou de seu governo os nacional-sindicalistas e optou pelos carlistas que na década de 50 deram uma orientação muito mais “liberal” ao regime.

Outra característica do fascismo é que o apelo a desigualdade nele é tão grande que ela passa a ser consolidado legalmente, não como a estamentação feudal, mas ao contrário, por uma moderna de etnia (entendida aqui como nacionalidade) ou raça.

E Bolsonaro?

Bolsonaro tem essas características? Vejamos:

1- Bolsonaro não manifesta qualquer apreço ou desejo por uma hierarquia de poder, seja ela técnica, étnica ou racial. Ele pode ser conivente com o status quo de desigualdade no Brasil, mas não há qualquer tendência da parte dele em consolidá-la em lei. Ao contrário, Bolsonaro parece dar muito mais privilégios aos norte-americanos e israeleneses no Brasil que aos brasileiros, e manifesta um personalismo administrativo muito forte indicando sempre por laços de sangue ou de apreço pessoal.

2- Bolsonaro não é nacionalista. O nacionalismo dos regimes italiano, alemão e espanhol; ou mesmo de nacionalismos conservadores de tipo não-fascista, como o salazarismo, o integralismo e o regime militar, está completamente ausente para além do discurso. Bolsonaro coloca claramente os interesses dos Estados Unidos e do Estado de Israel acima dos interesses do Estado Brasileiro.

3- Bolsonaro não tem uma ideologia altermoderna, mas sim moderna e inspirada pelo seu guru, Olavo de Carvalho. A visão de Bolsonaro é a de que o Brasil deve se refundar segundo os moldes do Estado e da nação americanas. Com os ideais dos founding fathers, e segundo a leitura jeffersoniana do que era ou ao menos, deveria ser, os Estados Unidos. Mesmo que concedamos que isto fosse uma inspiração histórica do passado para se refundar, temos que levar em consideração que:

a)  O Estado americano é – como o próprio Olavo de Carvalho reconhece n’O jardim das Aflições – o primeiro experimento de estado moderno republicano, laico e liberal-democrático bem sucedido. Sendo portanto, em seu berço, um experimento iminentemente moderno.

b) É uma fonte inspiração que não busca em estados antecedentes do país ou do território ocupado uma inspiração para a modernidade, mas sim um passado de um outro país sem qualquer laço cultural para conosco para além de seu poder econômico e militar. O integralismo, por exemplo, visava na figura dos índios esse símbolo de inspiração.

4- A fonte de inspiração mais próxima culturalmente do Brasil que Bolsonaro tem, é de um outro governo ditatorial e anglicizante: O governo de Pinochet, que tem os mesmos aspectos americanistas, liberais e antinacionalistas do governo Bolsonaro. E que, em geral, não é um governo apreciado nem pelos falangistas chilenos (os fascistas históricos do Chile).

Em resumo, não há porquê considerar Bolsonaro fascista, para além do “eu não gosto dele e ele é tudo de ruim“. Então, por essas razões, julgo não ser adequado tratar Bolsonaro como fascista. isto pode inclusive, criar um alarmismo falso chamando tudo de fascismo, e quando um fascista realmente aparecer, a alegação não terá crédito. É como na anedota do menino que gritava “lobo!”. Quando o lobo apareceu ninguém deu crédito. Aliás, a própria eleição de Bolsonaro sinaliza que isso pode ocorrer. Gritou-se entreguista e direitista para todos os tucanos. Quando um direitista e entreguista de verdade (Bolsonaro) apareceu, as pessoas não se importaram. Que fique a lição.

Tipos de inflação e suas causas.

O texto abaixo é uma transcrição de um artigo de João Sicsú* chamado “Políticas não-monetárias de combate a inflação: uma abordagem pós-keynesiana” para a Revista de Análise Econômica. Comentário prévio de Reação Nacional.

 RN: Muitas das categorias abaixo podem ser facilmente reduzidas a classificação dual simples de inflação de custos e de demanda, mas é importante ainda assim esta distinção para melhor caracterizar a fonte de origem da subida de preços. Isto, em termos de política econômica, facilita a detecção e a diagnose do problema.

Inflação de salários – Os aumentos salariais são obtidos nas negociações entre trabalhadores e empresários. Um aumento dos salários nominais, cet. par., causará inflação. Este evento é normalmente chamado de inflação de salários. Quando o hiato de emprego é reduzido, é mais fácil para os trabalhadores individualmente ou coletivamente obterem tais ganhos e é mais fácil para os empresários repassarem essa elevação de custos aos preços. Sendo assim, esse tipo de inflação tende a se tornar mais perigoso quando o hiato de emprego diminui. Um aumento de salário não causará inflação se for compensado por um aumento da produtividade. Tal aumento, por seu turno, não guarda qualquer relação com o tamanho do hiato de emprego. A capacidade dos aumentos de produtividade de manter (ou reduzir) os preços depende das barganhas entre empresários e trabalhadores, isto é, dependerá de quanto dos ganhos de produtividade se transformam em aumento de margem de lucro ou de salários. A produtividade, por sua vez, depende em grande medida da adoção de políticas de desenvolvimento tecnológico e qualificação de trabalhadores por parte do governo e por parte das empresas.

A inflação de salários pode ocorrer também com um hiato de emprego mais elevado, desde que um grupo significativo de trabalhadores consiga (por qualquer motivo, por exemplo, por possuir habilidades diferenciadas) obter ganhos salariais e, ainda, que os empresários não sofram pressões de demanda relevantes no seu mercado no momento da passagem dessa elevação de custos para os preços. Em outras palavras, é necessário que a indústria, em que houve o aumento de salários, tenha um elevado grau de monopólio. Contudo, tais situações são mais raras, e o mais comum é que a redução do hiato de emprego tenda a aumentar as chances da inflação de salários ocorrer – já que é sob tais condições que os empresários têm mais liberdade para aumentar preços.

Inflação de grau de monopólio ou inflação de lucros Quando os empresários percebem que a demanda em seus mercados possui uma elasticidade favorável à elevação das suas margens de lucro provocam uma elevação de preços. Tal inflação foi chamada por Davidson (1994, p. 144) de inflação de grau de monopólio ou inflação de lucros. Lavoie (1992) classificou tal tipo como inflação de preços administrados. Não existe nenhuma justificativa teórica que estabeleça que as mudanças no nível de mark-up estão necessariamente associadas ao tamanho do hiato de emprego. Isto implica que há autores que acreditam que as margens de lucro aumentam quando a economia está em fase de crescimento, como R. Harrod, e há autores que acreditam exatamente no contrário, como M.Kalecki (Davidson, 1994, p. 144). O potencial da inflação de lucros depende diretamente do grau de monopólio da economia.

RN: Quando os custos de entrada são estruturalmente altos (abrir um banco para financiar setores intensivos em capital e em tecnologia, por exemplo) e o custo adicional marginal do serviço ou da produção é próximo de zero (abrir uma conta corrente ou conta poupança); se ocorrer de nesse mercado a sensibilidade das curvas de demanda forem baixas, a tendência é que haja estímulo a uma inflação de custos por conta de um incremento na margem de lucro.

Inflação de retornos decrescentes – A inflação de retornos decrescentes, tal como chamada por Davidson (1994, p. 143), é relevante porque esse tipo de retornos está normalmente presente na economia sob certas condições. Em verdade, as firmas operam com retornos constantes para uma faixa muito extensa do hiato de emprego. A inflação de salários pode ocorrer também com um hiato de emprego mais elevado, desde que um grupo significativo de trabalhadores consiga (por qualquer motivo, por exemplo, por possuir habilidades diferenciadas) obter ganhos salariais e, ainda, que os empresários não sofram pressões de demanda relevantes no seu mercado no momento da passagem dessa elevação de custos para os preços. Em outras palavras, é necessário que a indústria, em que houve o aumento de salários, tenha um elevado grau de monopólio. Contudo, tais situações são mais raras, e o mais comum é que a redução do hiato de emprego tenda a aumentar as chances da inflação de salários ocorrer – já que é sob tais condições que os empresários têm mais liberdade para aumentar preços. […]

Inflação importada – Uma economia pode ter inflação importada do exterior. A capacidade do exterior de influenciar a trajetória de preços domésticos dependerá da variação do nível de preços internacional e da variação do valor taxa de câmbio. Quanto maior o grau de abertura da economia, maior será a inflação importada potencial. Define- se o grau de abertura de uma economia, tal como Davidson (1994, p. 204), como sendo a razão total de gastos com importações/total de gastos domésticos com produtos e serviços finais (ambos, numerador e denominador, medidos na moeda doméstica). Um grau de abertura maior gera maior inflação importada potencial, porque quanto mais produtos são comprados no exterior em relação ao total de produtos adquiridos pelos residentes, maior é a probabilidade de um aumento de um produto qualquer internacional influenciar o nível de preços domésticos. Então, quanto maior o grau de abertura da economia, maior será o número de produtos importados que compõem a cesta doméstica de cálculo da inflação. Se a taxa de câmbio permanece constante, mas houve um aumento em dólares de produtos importados que compõem a cesta de compras domésticas, cet.par., haverá inflação. O mesmo ocorre se os preços dessas mercadorias não se alteram em dólares, mas há uma desvalorização da moeda doméstica em relação ao dólar. Em ambos os casos há aumento de preços na moeda doméstica. O potencial da inflação importada pode ser explicado também pelo hiato de emprego e pelo grau de monopólio da economia. Uma elevação de preços (na moeda nacional) de produtos importados, seja devido a uma variação cambial seja em virtude de um aumento de preços em dólares, representa um custo para as empresas que utilizam ou comercializam tais produtos na economia doméstica. Como qualquer outro custo, são mais facilmente repassados aos preços quando o hiato de emprego é baixo ou quando o grau de monopólio (do setor atingido pelo problema externo) é elevado.

Choques de oferta inflacionários – Consideram-se choques inflacionários somente aqueles choques domésticos de oferta que podem provocar um aumento de custos. Davidson (1994, p. 158) chamou a inflação decorrente de tais choques de inflação spot ou inflação de commodity. Os choques de oferta tendem a causar aumentos de custos, como exemplos podem ser citados a quebra de uma safra agrícola ou a escassez de energia elétrica. Como todos os outros aumentos de custos apontados anteriormente, os aumentos de custos advindos de choques de oferta domésticos serão mais facilmente repassados aos preços quando o hiato de emprego for menor. Se o hiato de emprego não é reduzido, mas o setor atingido possui elevado grau de monopólio, os custos serão repassados aos preços, cet.par., causando inflação. Logo, o potencial da inflação de commodity depende do hiato de emprego e do grau de monopólio da economia. Quando o hiato de emprego é elevado e o grau de monopólio é baixo, um choque negativo de oferta pode causar somente compressão de margens de lucro.

 Inflação de impostos – Os impostos são determinados pelo governo central. Quando a alíquota de impostos é alterada, cet.par., há um impacto direto sobre o nível de preços. A alíquota de tributação é determinada com base nas necessidades de gastos públicos18. O aumento de alíquotas, cet.par., tende a ter um impacto maior sobre os preços quando os empresários podem repassar o aumento de custos tributários aos preços, e tal liberdade é maior quanto menor é o hiato de emprego. Portanto, o potencial da inflação causada por um choque tributário será maior quanto menor for o tamanho do hiato de emprego e maior o grau de monopólio da economia. Os aumentos de alíquotas podem também causar um efeito considerável sobre o nível de preços, mesmo quando o hiato de emprego não for baixo, bastando que o aumento de alíquota incida sobre os produtos que sejam negociados em mercados com elevado grau de monopólio (em que os empresários repassam facilmente uma elevação de custos aos preços).

 Inflação de demanda – A inflação de demanda ocorre quando o hiato de emprego não é mais positivo. Neste estágio, os aumentos de gastos do governo, de investimento ou de consumo provocam inflação, cet.par.. Sendo assim, a inflação de demanda potencial tende a se elevar quando o hiato de emprego é zero. Uma vez alcançado o pleno emprego, novos trabalhadores somente aceitarão trabalhar por um salário real mais elevado (adotando-se, é óbvio, a hipótese de que não há mudanças nas preferências trabalho-lazer). Para haver aumento de salários reais, nessas condições, necessariamente terá que haver um aumento de salários nominais e um aumento de preços. Caso o primeiro tenha um aumento superior ao segundo, pode-se dizer que, pelo menos inicialmente, haverá em situação de inflação de demanda uma compressão percentual das margens de lucro, embora o volume total de lucros seja maior.

A identificação das causas da elevação do nível de preços permitiu, portanto, a classificação de sete tipos de inflação: (i) inflação de salários, (ii) inflação de lucros, (iii) inflação de rendimentos decrescentes, (iv) inflação importada, (v) choques inflacionários, (vi) inflação de impostos e (vii) inflação de demanda.


P.S: Em função do aniversário de 25 anos do Plano Real nós fizemos esse post especial.


Os artigos aqui republicados têm a única finalidade de divulgar ideias e os trabalhos originais. Para maiores informações procure os originais nos sites, livrarias e sebos credenciados aos autores e editoras.


*João Sicsú é professor doutor do departamento de economia da UFRJ.


SICSU. João. Revista de Análise Econômica: Políticas não-monetárias de combate a inflação: uma abordagem pós-keynesiana. Porto Alegre: UFRGS; v.31; n.39; 2003

União Européia, China e barganha empresarial.

No nosso primeiro texto sobre o acordo com a União Européia envolvendo o Mercosul, apontamos as razões geopolíticas para que tal acordo fosse fechado, e cada vez mais claro fica que as razões para o acordo ter sido feito a toque de caixa é basicamente afastar o Brasil e os países do Mercosul da China.

O segundo maior mercado para o qual o Brasil exporta é a União Européia, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos. Que o o olavo-bolsonarismo quer afastar-se da China a todo e qualquer custo é já sabido, e desde o excelente texto do nosso colaborador Ricardo Carvalho isto está denunciado. O Brasil exportou quase 100 bilhões para a China em 2018, mais que o dobro da União Européia, dados do Ministério da Economia que podem ser baixados aqui. Porém, notícias dão conta de que o acordo com a União Européia pode fazer o Brasil exportar até 125 bilhões para a mesma em até 15 anos. 25% mais que para a China hoje.

Ao que tudo indica, este foi o meio que Ernesto Araújo conseguiu (como bom liberal-americanista que é), de cumprir sua agenda anti-nacional, oferecendo o mercado Europeu ao nosso setor produtivo, de modo a tornar indolor para a população e para nosso setor primário a entrada na guerra comercial americana contra a China. Em outras palavras, ao invés de termos UE + China, teremos basicamente UE – China. É uma hipótese, é claro. E é também estupidez. Mas para quem é um fanático americanista como Olavo, Araújo e seu séquito de bobalhões, me parece uma aposta válida.


 

Comércio internacional: Relações centro-periferia.

O texto abaixo é um excerto do artigo de César Benjamin para o Portal Disparada.

O comércio exterior de países periféricos, como o Brasil, apresenta forte assimetria, com exportações concentradas em bens primários e de baixo valor agregado, e importações de bens e serviços mais intensivos em capital, técnica e conhecimento.

A dinâmica desses dois subconjuntos é muito diferente. Pois, na medida em que a renda das sociedades cresce, diminui a participação relativa do primeiro subconjunto, seja pela menor utilização de matérias-primas nos produtos finais, seja pela descoberta de novos materiais, seja pelo aumento da participação dos bens industriais e dos serviços na cesta de consumo das populações (isso se chama, em economia, elasticidade-renda menor do que 1). O inverso também é verdadeiro: os países ricos produzem, em maior proporção, os bens cuja demanda cresce mais do que o crescimento da renda (em economia, elasticidade-renda maior do que 1).

Por causa dessa assimetria, políticas de proteção aplicadas no centro e na periferia têm conseqüências bem diferentes. A proteção dos mercados dos países centrais, quando atinge os produtos ofertados pela periferia, retarda o crescimento e aumenta a vulnerabilidade dos países periféricos, reduzindo sua capacidade de contribuir para o crescimento do comércio mundial, visto como um todo.

A proteção seletiva dos mercados da periferia tem um efeito contrário. Pois os países periféricos em via de modernização continuarão necessitando realizar importações no limite de suas possibilidades, e por isso sempre farão o maior esforço exportador que esteja ao seu alcance. A proteção seletiva de seus mercados permite diminuir sua vulnerabilidade externa, tornando mais completa a sua base produtiva e aumentando sua renda interna, sem diminuir (ao contrário, aumentando) o volume de suas importações. Esse tipo de proteção altera apenas a composição dessas importações, concentrando-as naqueles produtos que os países pobres realmente não têm condições de produzir.

Ou seja, a adoção de níveis adequados de proteção pelos países periféricos, ao aumentar sua renda sem diminuir sua propensão global a importar, maximiza o potencial do comércio mundial. Por isso, a confiança no livre jogo das forças de mercado e a proposta, dela decorrente, de reduzir igualmente as tarifas só seriam corretas se se aplicassem a países com estruturas econômicas homogêneas.

Quando o centro se abre para receber exportações da periferia, a periferia responde aumentando suas importações oriundas do próprio centro. Quando a periferia se abre da mesma maneira, a recíproca não é verdadeira. Neste caso, os países periféricos tendem a ter déficit nas contas externas, forçando-os a aumentar seu endividamento (e sua fragilidade) ou a reduzir suas importações.

Chegamos assim ao aspecto central do argumento: em um sistema internacional marcado por forte heterogeneidade, a maximização do livre-comércio não coincide com a maximização do comércio. Por uma questão de eficiência econômica, e não de ideologia, países que apresentam estruturas muito diferentes não devem ser submetidos às mesmas regras comerciais. Para obter maximização do comércio – que é, de fato, o desejável – é preciso reconhecer uma realidade histórica: as trajetórias de desenvolvimento, entre países e entre regiões, são desiguais.


César Benjamin é cientista político e contribuinte do Portal Disparada.

Como a moeda fiduciária destrói a Teoria Marxista da Moeda (Uma discussão entre L.K. e Jehu) 

O texto abaixo é um excerto de artigo de Social Democracy in 21st century. Com nota de Reação Nacional.

Para Marx o dinheiro é uma mercadoria especial que em si mesmo precisa ter um valor-trabalho então ela poderá funcionar como um meio universal de trocas e numerário. Essa é a base pela qual o o dinheiro pode se trocar por outras mercadorias de acordo com a lei do valor no volume 1 do Capital. Entretanto, a moeda fiduciária destrói a base da teoria do valor trabalho.

Segue-se que a moderna ideia marxista de equivalência monetária com o valor trabalho (MELT) também está inteiramente falida intelectualmente, sob a teoria metalista dogmática do dinheiro de Marx.

Neste post, um autor marxista concorda que o dinheiro fiduciário moderno destruiu a capacidade do dinheiro de refletir adequadamente o valor-trabalho a la Marx. Como, então, a teoria de Marx ainda poderia estar certa? A resposta: a moeda moderna não é realmente dinheiro! Além disso, os preços e valores-trabalhos divergem como no volume 3, mas agora o dinheiro fiduciário destruiu até mesmo qualquer relação entre valores e preços de produção, como postulado no volume 3 do Capital, já que esta é (aparentemente) a trajetória do capitalismo supostamente profetizado, por Marx.

RN: Basta ver o funcionamento coordenado da economia que ainda é bastante racional, que por mais que a consistência interna do argumento seja boa, a conclusão é absolutamente estranha à realidade que percebemos todos os dias.

Qual é o valor desse argumento? É agradavelmente honesto, pelo menos. Mas há uma estranha falácia de equívoco no argumento. As palavras “dinheiro” e “moeda” recebem significados diferentes: dinheiro significa uma mercadoria produzida com o valor do trabalho usado como uma unidade de conta e “moeda” meramente um elemento simbólico para a mercadoria “dinheiro”.

Mas, na verdade, o conceito básico de dinheiro não exige de modo algum a mitologia metalista ou marxista de que ela deve ser uma mercadoria produzida. A definição básica de dinheiro é algo que cumpre estas três funções:

(1) um meio de troca;

(2) uma unidade de conta e;

(3) reserva de valor.

A própria ideia de que o dinheiro deve necessariamente ser uma mercadoria produzida era uma ilusão e um erro da teoria econômica. Se a moeda fiduciária for impossível, nossas economias modernas teriam entrado em colapso décadas atrás, quando o dinheiro foi cortado do ouro na década de 1930 para transações econômicas domésticas, e certamente desde o fim de Bretton Woods (um sistema no qual o ouro só tinha um papel no mercado internacional). sistema de pagamentos de qualquer maneira).

Marx estava fundamentalmente errado quanto ao dinheiro e a moeda fiduciária moderna certamente explode a lei do valor no volume 1 do Capital.


Referências:

L.K. Social Democracy in 21st century: A Marxist agrees with me on the Labour Theory of Value and Fiat Money!. Disponível em: <http://socialdemocracy21stcentury.blogspot.com/2016/02/a-marxist-agrees-with-me-on-labour.html> Acessado em 18/06/2019.

JEHU. The real movement: Reply to LK: How labor theory of value destroys fiat ‘money’. Disponível em: <https://therealmovement.wordpress.com/2015/06/12/reply-to-lk-how-labor-theory-of-value-destroys-fiat-money/> Acessado em 18/06/2019.

 

O capitalismo depende de uma base monetária crescente.

Artigo de Bóris* para a Reação Nacional.

Volta e meia aparece um saudosista do padrão-ouro ou um entusiasta do bitcoin por ele ser uma moeda deflacionária. isto é, cujo valor dela cresce por ser sua base limitada. Não vou tratar especificamente do assunto do padrão-ouro ou da criptomoeda, mas de um aspecto que envolve o saudosismo das duas: base fixa.

Quem quer que tenha estudado a literatura mercantilista e os problemas dos primórdios do capitalismo entenderá o que eu vou dizer; um dos grandes dramas vivenciados por economistas portugueses do período como Francisco Manuel de Mello e Duarte Ribeiro de Macedo (dois áureos representantes do pensamento econômico português do século XVII) era a escassez de moeda ocasionado pelo fato dos bens comprados pelos portugueses serem de valor agregado mais elevado que os por eles comprados. Os déficits comerciais faziam com que o ouro escoasse de Portugal para a Inglaterra, e na carência de meios monetários a economia portuguesa estagnava.

Dizia Duarte Ribeiro de Macedo (2007, p.93):

“Mal é este que pede remédio pronto, porque, se continua, se perderão as conquistas e o reino: as conquistas, porque a sua conservação é dependente do valor dos frutos que nelas se cultivam – e se não têm valor, não têm gasto, nem se podem comutar pelo infinito número de gêneros de que os moradores delas necessitam; o Reino, porque o dinheiro é o sangue das repúblicas, e sucede no corpo político com a falta de dinheiro o mesmo que sucede no corpo físico com a falta de sangue.”

Tal pensamento como o próprio Duarte reconhecia era um aspecto importante do pensamento econômico tradicional que era “derivada das fontes de Platão e Aristóteles, seguida e aprovada por todos os autores, e sobre que se fundam várias leis que achamos no direito civil.”.

Os efeitos dessa carência de moeda é a queda dos preços, a morte do comércio e o que os mercantilistas chamavam de “entesouramento”. Francisco Manuel de Mello (2007, p.82) diagnosticava:

“Porque se os ricos gastassem e os pobres merecessem, brevemente viriam todos a conseguir igualdade de conforto”. […] Porque se o cheio não lançar água no vazio e aquele, depois de cheio, não a despejar no outro, que está vazio ainda, como ele há pouco estava, a água jamais poderá chegar arriba”.

Aqui vê-mo-lo fazer uma descrição do ciclo monetário interrompido pelo entesouramento e a deflação. A causa desse emperramento por eles diagnosticado vem da concepção medieval da moeda e do sistema econômico como veremos abaixo.

A moeda na época funcionava com base no conceito de moeda-mercadoria do qual o padrão-ouro é apenas uma degeneração tardia. Assim, quando um país importava bens, a moeda como representava o valor do material em que era cunhada, era levada para o país que vendeu o bem e tirada do que comprou, e quem tinha déficit perdia moeda circulante. Em outras palavras, a base monetária encolhia. Por isso os reis de Portugal e Espanha ficavam realmente loucos atrás de minas de ouro na América, pois só assim poderiam aumentar a base monetária sem precisar depreciar a moeda (reduzindo a pureza do ouro ou diminuindo a massa da moeda).

Hoje em dia, com a moeda fiduciária e com a possibilidade dos países cobrirem o déficit com emissão de dívida a base permanece estável, mas na época isso causava sérios transtornos. Esta concepção de moeda era, portanto, o primeiro desafio do capitalismo. O desprendimento gradual entre o material e a moeda que levará da moeda-mercadoria à moeda fiduciária, facilitou em muito o comércio internacional.

Por outro lado, havia ainda uma concepção imprópria do capitalismo, como podemos ver em Francisco Manuel de Mello (2007, p.82):

“Tudo isto advém de que não entendam os homens que o dinheiro se deve usar como meio e não como fim. É o dinheiro o meio universal de todas as coisas temporais, porque por ele todas se alcançam e facilitam. Mas, sendo tão bom por ser meio, é muito mau para ser fim.”

O dinheiro como mero meio universal de trocas é uma visão medieval. Na idade média se requeria dinheiro para trocar bens por bens; porém na economia capitalista o dinheiro é também meio para conseguir mais dinheiro. Era o que Karl Marx indetificou por circulação capitalista (D-M-D’). O economista austríaco George Reisman inclusive elogia Marx (!!) por perceber isso!

“Marx teve sim uma grande ideia, a qual era em si totalmente correta, e que pode jogar mais luz sobre esta discussão.  Esta sua ideia foi fazer uma distinção entre aquilo que ele chamou de “circulação capitalista” e aquilo que ele chamou de “circulação simples”. […] Aquilo que todos os “capitalistas exploradores” praticam é a circulação capitalista.  A circulação capitalista, como Marx a descreveu, é o gasto de dinheiro, D, para a compra de materiais, M, que serão utilizados na produção de produtos que serão vendidos por uma quantia maior de dinheiro, D’.  A circulação capitalista, em suma, é D-M-D’.  Se os capitalistas exploradores deixassem de existir, e a circulação capitalista desaparecesse do mundo, os sobreviventes entre aqueles que hoje trabalham como assalariados estariam vivendo em um mundo de circulação simples, isto é, M-D-M”.

Com isso, como a economia capitalista depende usar material para conseguir mais dinheiro, a tendência de uma base monetária fixa é se concentrar e, com a queda de preços (deflação), a economia estagnar. O capitalismo depende, portanto, de uma base monetária expansiva. Milton Friedman percebera isso, inclusive. Ele sugeria ao Banco Central expandir a base na mesma proporção do crescimento da economia (se o PIB cresceu 2%, M1 deve expandir 2%).

O padrão-ouro não resolve o problema, pois como chama a atenção John Médaille (2010):

“Since gold is a limited commoditty, it’s supply cannot expand as quickly as the economic activity. This led to a chronic period of deflation, which destroyed both farmer and small merchant. Wheat sold for $2.06 per bushel in 1866, but only got 80 cents in 1880 and 35 cents in 1890″.

Uma alternativa para facilitar um consenso na questão da moeda fiduciária e da moeda lastreada foi dada pelo economista Robert E. Hall e que eu chamo de padrão-mercadoria. Hall criou uma cesta de mercadorias cujo aumento de produção fosse constante e chamou de ANCAP (iniciais de cada material da cesta), e propôs que essa cesta fosse um lastro para o dólar. Assim, a economia não se veria atingida tão fortemente por crises deflacionárias. É uma boa alternativa.


Referências:

MELO, Francisco Manuel de; MACEDO, Duarte Ribeiro. Economistas Portugueses: O escritório avarento (1655) e Sobre a introdução das artes (1675). Curitiba: Editora Segesta, 2007.

REISMAN, George. A teoria marxista da exploração e a realidade. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1368> acessado em: 23 de junho de 2019.

MÉDAILLE, John. Toward a truly free market. Wilmington: ISI Books, 2010.

HALL, Robert E. Explorations in the gold standard and alternatives for stabilizing the dollar. Disponível em: <https://web.stanford.edu/~rehall/Explorations%20in%20Gold%20Standard%201982.pdf> acessado em 23 de junho de 2019.


* Bóris é colaborador esporádico da Reação Nacional.