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Portal Nacionalista Conservador sobre economia. @saulaodamassa

A Igreja deve agir também no mundo.

Dom Gerhard Ludwig Müller*

Recentemente, a encíclica Fides et Ratio ressaltou expressamente que, no que diz respeito à teologia, não se trata apenas de uma interpretação imanente a fé dos textos e realizações cristãos, mas que somente no diálogo com a filosofia e com as ciências humanas e sociais é que a teologia pode prestar seu serviço à verdade do ser humano no horizonte de sua referência a Deus.

[…] segue-se agora a reflexão crítica e racional da análise da sociedade, das causas nacionais e internacionais, bem como das dimensões históricas e estruturais da miséria à luz do evangelho e de acordo coma revelação.

Por fim, […] é preciso lidar com uma mudança criticamente refletida e ativa da realidade empírica. Com efeito, a meta é o reinado de Deus sobre a Terra, como Jesus o anunciou. O reino de Deus no caso deve ser entendido como um princípio dinâmico que faz da situação concreta das pessoas que sofrem o distanciamento em relação a Deus, a força motriz da configuração da vida humana e social. Daí resulta a opção preferencial pelos pobres e pelas pessoas privadas de sua dignidade humana. A opção pelos pobres não exclui os ricos. De fato, também eles são meta do agir libertador de Deus, nisso que eles são libertados da ansiedade na qual julgam dever aproveitar a vida somente à custa dos outros. O agir libertador de Deus em relação aos pobres e ricos visa à subjetivação do ser humano e, portanto, à sua liberdade perante toda forma de opressão e dependência.

Que a redenção deva ser compreendida como agir libertador, mostra-o já o antigo testamento na experiência do Êxodo. Aos israelitas escravizados, Deus não aponta um mundo vindouro melhor, mas os conduz para a terra da promessa, que é uma terra da liberdade. A ação libertadora de Deus culmina no evento Cristo. Jesus anunciou o Reino de Deus como evangelho para os pobres, os excluídos, os doentes. Jesus manifestou o agir libertador de Deus ainda perante a resistência dos pecadores, na medida em que atestou, até a própria morte, o amor de Deus como fundamento da existência humana no viver e no morrer. Através da morte de cruz e de Jesus, Deus preparou o mundo como o campo da nova criação que se vai impondo. A cruz é, portanto, a revelação da opção de Deus pelos sofredores, dos que foram privados de seus direitos, dos torturados e dos assassinados. Na ressurreição de Jesus dos mortos, Deus mostrou original e exemplarmente para todos que a vida realmente é, como a liberdade pode implementar-se em um poder existir para os outros em uma luta por condições de existência humanamente dignas.


* Dom Gerhard Ludwig Müller é cardeal da Igreja Católica e ex-presidente da Congregação para a Doutrina da Fé nos pontificados de Bento XVI e Francisco.


Referência bibliográfica:

MÜLLER, Gerhard Ludwig; GUTIÉRREZ, Gustavo. Ao lado dos pobres: Teologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2014.

Os usos e abusos da MMT

O texto a seguir é um resumo do artigo de Michael Hudson sobre as leituras financistas da MMT, que é muito bom e pode ser lido aqui.

Após ser atacada pelos monetaristas e outros economistas por décadas, a MMT e a ideia de que governos deficitários estabilizam ao invés de desestabilizar a economia, está repentinamente ganhando aplausos das partes do espectro político que por muitos anos se opuseram a MMT: o setor bancário e financeiro, em especial, republicanos.

Mas o que é aplaudido é, em muitos casos, bem diferente do que os proponentes da MMT têm apoiado a muito tempo. A Teoria Monetária Moderna (MMT) foi desenvolvida para explicar a lógica dos governos que atuam com déficits orçamentários para aumentar a demanda e o consumo na economia e o investimento em setores de capital para mantê-los sempre no pleno emprego. Todavia, os enormes déficits orçamentários do salvamento de bancos proporcionado por Obama depois da crise de 2008, até os cortes de impostos de Trump, bem como o salvamento do sistema financeiro na crise do coronavírus não injetaram dinheiro na economia para financiar novos investimentos, novos empregos, subindo assim salários e melhorando a qualidade de vida. Ao invés disso, a criação de dinheiro via Quantitative Easing foi direcionado para setor financeiro e bancário. O resultado é uma falsificação da MMT.

Ao subsidiar o setor financeiro e sua dívida privada, a política é deflacionária, que ao invés de socorrer a economia real, tem como resultado dar ainda mais poder ao setor bancário, cujo produto é a criação de débito e crédito que tomou uma forma extrativa e improdutiva. O resultado é dividir a economia privada em suas partes: A economia real, que é a economia da produção e do consumo, fica presa numa rede de dívidas e extração de renda. Rendas imobiliárias, renda de monopólio e criação de dívidas financeiras. Reconhecendo este ponto de divergência, é essencial distinguir entre um positivo déficit público que ajuda a manter os empregos e melhorar os padrões de vida quando em comparação ao gasto do governo “capturado” pelo setor financeiro e bancário.

(…)

Se os governos não criam poder de compra através do gasto público para permitir à economia crescer, o papel de providenciar dinheiro e crédito terá de ser dado aos bancos – o que será feito via juros e pelos motivos que os bancos decidirem (majoritariamente, empréstimos para especulação imobiliária, ações e títulos). A esse respeito, bancos competem com o governo sobre quem vai providenciar crédito e débitos na economia e com qual propósito.

Os bancos querem o governo fora da economia – não apenas no que diz respeito à criação de dinheiro, mas também por razões financeiras e de política de preços, impostos e leis que governam o sistema financeiro e corporativo. Esses setores sempre querem se apropriar dos monopólios públicos, recursos naturais do país e infraestruturas públicas através da imposição de amarras fiscais por conveniência política, ao invés de necessidade, sem acesso ao seu próprio dinheiro.

Para se colocar nessa posição, os bancos precisam impedir o governo de criar seu próprio dinheiro. O resultado é um conflito entre o crédito publico e o crédito privado criado no sistema bancário. Dinheiro público é criado por razões de governo e, portanto, com finalidades sociais, em especial para manter a produção e o consumo. O crédito bancário, todavia é criado por razões especulativas, majoritariamente visando a transferência de recursos, propriedades e de ativos financeiros (títulos públicos, ações e outros ativos líquidos).

(…)

O objetivo da elite financeira em capturar a MMT é inflar preços de ativos financeiros, não reanimar a economia.


Michael Hudson é PhD em Economia pelo Bard College.

MMT – O que você precisa saber sobre ela?

Como a MMT deve desempenhar um papel importante no mundo pós-coronavirus, é importante conhecer algumas hipóteses que ela propõe.
 
1) A MMT não diz que o governo pode dinheiro imprimir dinheiro e com isso criar riqueza. Ela diz o que os governos JÁ fazem hoje: Desde 2008, Estados Unidos, União Européia, China e Japão simplesmente imprimem dinheiro para um monte de coisas, especialmente em 2008 pra salvar o sistema financeiro.
 
2) Isso gera inflação? Nem sempre. O sistema bancário JÁ cria moeda absolutamente sem limites (e muito mais que o Estado) devido as reservas fracionárias, e isso não cria inflação, assim como em 2008 os QEs não criaram.
 
3) O que a MMT propõe é reestabelecer a função aristotélica do dinheiro como nomisma, isto é, um objeto do direito e não do mercado. É uma idéia pré-moderna na verdade.
 
4) Isso significa que dinheiro dá em árvore e o governo pode por 1 milhão de reais na conta de todo mundo? Não. O governo na MMT só não tem restrição financeira, mas ainda tem restrições fiscais reais e externas. O governo não pode emitir moeda soberana de outro país e não pode violar os limites físicos da economia. Se o governo gastar moeda até o limite dos fatores de produção ocorre inflação. Isto porque moeda não é mercadoria, é um crédito contra o governo, é um objeto do direito. A limitação está na realidade porque os recursos são escassos.
É importante dizer isso, pois a MMT não nega a escassez de recursos e meios, o que ela nega é que o governo possa ser insolvente em sua própria moeda.

A TACE e a crise brasileira.

Arthur Rizzi

Nossos amigos austríacos andam silenciosos ultimamente. Não acham? Eu tenho uma hipótese para explicar essa quietude. A TACE.

Como sabemos, a TACE se fundamenta na TAC (Teoria Austríaca do Capital) tal como proposta por Böhm-Bawerk. Essa teoria explica que taxas de juros artificialmente mais baixas, fazem com que haja um aumento irreal e insustentável na taxa de lucros de setores com maior produção indireta (roundaboutness). Esses setores possuem taxas de lucros sustentáveis mas mais baixos que os de bens finais com todo seu valor agregado.

Com isso, ilude-se o empresário com taxas de lucros artificialmente infladas o que faz com que ele vá a falência quando o juro sobe esmagando ou eliminando o seu lucro. Por isso a TACE explica as crises econômicas como sendo teorias de sobrecapitalização, pois os setores industriais são os que tem maior roundaboutness.

Só que a taxa de juros no Brasil cai sem parar desde 2016, e já deixou para trás faz tempo qualquer expectativa sobre a “taxa de juros natural”. Ou seja, devia haver uma bolha industrial no Brasil.

Porém o que se vê na prática é o oposto: O país está se desindustrializando, ou seja se descapitalizando. Nem o capital financeiro escapa. Houve uma fuga brutal do capital estrangeiro da Bolsa.

E é por isso que os austriacos estão quietinhos.

 

Recuperando a imagem católica de Getúlio Vargas.

O texto a seguir é um compilado de informações colhidas na internet pela página.

Depois da ascensão dos liberais e da direita americanista, a imagem de Getúlio foi devidamente pintada como a de um aliado do comunismo e anticristão fervoroso em peças de propaganda como o documentário Brasil Paralelo.

Porém seria esse o Getúlio real? Seria Getúlio o pai da esquerda anticristã e lacradora no Brasil e Bolsonaro a ressurreição da moral cristã udenista?

É importante que se diga que muito disse se deve também a astúcia se setores de esquerda terem reivindicado para si o legado de Vargas de modo muito mais eficiente que os grupos conservadores que, no pós guerra, deixaram se encantar pelo que Eduardo Prado chamava de “ilusão americana”.

Este texto de Eduardo Cruz do Trincheira Moral pode ajudar a elucidar a questão:

Numa escala comparativa, Getúlio foi muito superior a Bolsonaro, tomando como critério o Magistério da Igreja:

(1) Consagrou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, em 1931:
https://www.facebook.com/TrincheiraMoral/posts/499334023799577

(2) Reintroduziu o ensino religioso nas escolas públicas, por meio do Decreto nº 19.941, de 30 de abril de 1931.

(3) Proibiu a usura, nos termos do Decreto nº 22.626, de 7 de abril de 1933.

(4) Baniu os maçons do governo:
http://bensodicavour.org.br/artigos/95-a-maconaria-de-volta-as-origens/

(5) Solicitou ajuda do clero para elaborar a CLT:
https://www.facebook.com/TrincheiraMoral/posts/315070735559241

(6) Instituiu incentivos ao casamento e à natalidade, por meio do Decreto-Lei nº 3.200, de 19 de abril de 1941. O texto foi redigido com sugestões do Centro Dom Vital.

(7) Reintroduziu o serviço de assistência religiosa nas Forças Armadas, nos termos do Decreto-Lei nº 6.535, de 26 de maio de 1944. O serviço havia sido extinto décadas antes, com a proclamação da República, que separou a Igreja do Estado.

(8) Determinou ao DOPS que reprimisse a propaganda anticatólica disseminada por maçons, protestantes, comunistas e demais transviados:
https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/historia/historia-do-brasil/os-quebra-santos-2573403

Fato pouco conhecido é que durante o Estado Novo houve uma negociação entre o governo e a Santa Sé para a assinatura de uma Concordata, por força da qual o Brasil voltaria a ser um país oficialmente católico (1939). Por algum motivo, não se chegou a um acordo. Isso, sim, é um bom motivo para criticar Getúlio Vargas, não o fato de ter sido ditador. Ele deu vários passos rumo à construção do Estado Católico, mas não deu o passo definitivo, que seria o mais importante de todos.

Mas como Loss et al (2011) relatam:

A respeito do relacionamento de Getúlio com as autoridades eclesiásticas, com quem teve que se haver a partir mesmo do momento de triunfo da Revolução de 1930, pode-se observar uma ambigüidade fundamental da personalidade do líder. De formação positivista, pertencente à linhagem de Júlio de Castilhos e de Borges de Medeiros, surpreendentemente, passou à história também como aquele que praticamente reintegrou o catolicismo em sua antiga posição, faltando-lhe apenas afinal o título de religião oficial, pois sem dúvida passou a religião oficiosa, em um regime de concordata informal. O camaleônico político, ao lado de outros tantos papéis que representou, assumiu a persona, senão do católico devoto, que realmente jamais pretendeu ser, a de benfeitor da religião da maioria dos brasileiros.
Verdadeiramente, no ocaso de sua trajetória, o grande líder deixa entrever a feição problemática de sua relação com o catolicismo. As duas forças apoiaram-se mutuamente, engrandecendo-se no processo. A trajetória política de Getúlio desligada da religião é incompreensível. A elucidação desta dinâmica é de grande interesse, e contribui para a melhor inteligibilidade do período.

Que Getúlio Vargas não era santo é desnecessário afirmar, que não era um Salazar ou um Franco também. Mas foi o mais próximo que tivemos de tão ilustres figuras.

Referências:

LOSS et al. Luz, escuridão e penumbra: o Governo Vargas e a Igreja Católica. Revista Dimensão. Vitória: UFES, 2011.

O que é pior: Anarquia ou Estado opressor? O caso dos Lele.

O texto é um excerto de uma postagem da página "Porco capitalista".

Nas margens do rio Cassai, onde hoje fica a República Democrática do Congo, vivam dois povos diferentes, os falantes da língua lele, do lado ocidental do rio e os falantes da língua bushong, vivendo no lado oriental. Até meados do século XVII, os dois povos eram muito parecidos em cultura, organização social e estilo de vida.

Isso até que o lendário Shyaam a-Mbul uniu as tribos bushong e criou um reino centralizado, o reino de Kuba, sendo ele próprio o rei, enquanto que os lele continuaram vivendo em vilas fortificadas isoladas, sem um estado centralizado. O reino de Kuba era altamente opressor, o rei cobrava impostos altíssimos apenas para enriquecer a si mesmo, havia um conselho de líderes, mas eles não eram eleitos democraticamente para representar o povo, eram apenas uma forma de nobreza interessada em manter seus privilégios.


No entanto a diferença nas condições de vida dos dois lados do rio era visível. Enquanto o reino de Kuba tinha uma agricultura muito mais produtiva, uma tecnologia mais desenvolvida, uma espécie de polícia que garantia a ordem e uma atividade comercial relevante, os lele, do outro lado do rio, produziam apenas para a sua própria subsistência, usavam técnicas agrícolas muito rudimentares e eram constantemente ameaçados pela violência e pelos roubos.

A explicação é muito simples: Sem um estado para manter a ordem, os Lele não tinham nenhuma segurança de que aproveitariam o fruto de seu trabalho, por isso não tinham incentivos para adotar as tecnologias que os Bushong do reino Kuba já conheciam. Por outro lado, o rei dos bushong sabia que, para ser rico, seu povo teria que ser minimamente produtivo, caso contrário, não haveria o que expropriar dele, por isso, tratava de reprimir a violência e proteger a propriedade dos seus súditos.

Sobre a tal da restrição externa ….

Oreiro strikes again…

José Luis Oreiro

Recentemente alguns aprendizes da economia mainstream criticaram meu post sobre o General Restrição Externa (https://jlcoreiro.wordpress.com/2019/11/19/o-general-restricao-externa-se-aquece-para-entrar-em-campo/) argumentando de que eu teria usado um caso particular do modelo de Thirwall, no qual a parte da equação de crescimento com restrição de balanço de pagamentos referente ao impacto da variação da taxa real de câmbio sobre a taxa de crescimento das exportações e das importações é excluída da forma final da “lei de Thirwall”. Em tais condições a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos seria dada apenas pela razão entre as elasticidades renda das exportações e das importações multiplicada pela taxa de crescimento da renda do resto do mundo. Como países primário-exportadores como, por exemplo, o Brasil tem elasticidade renda das exportações baixa e elasticidade renda das importações alta, então a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos seria inferior a taxa de crescimento…

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