Investigação mostra que viés ideológico influencia economistas (Valor Econômico, 20/09/2019)

Professor José Oreiro conta suas razões pra ser keynesiano.

José Luis Oreiro

O jornalista Cyro Andrade publicou um belo artigo no Valor de hoje (https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/09/20/investigacao-mostra-que-vies-ideologico-influencia-economistas.ghtml) a respeito de como o viés ideológico influencia ideias e julgamentos de economistas. O artigo foi baseado em trabalho empírico conduzido pelos economistas Mohsen Javdani, professor na Universidade de British Columbia, no Canadá, e Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra no qual se constatou que não faltam evidências de que o viés ideológico, entendido como inclinação preconcebida para determinadas valorações cognitivas e normativas, influencia ideias e julgamentos dos economistas, indistintamente, sejam ortodoxos ou heterodoxos. Cyro entrevistou três economistas (José Luis Oreiro da UnB, Silmão Silber da FEA/USP e o José Roberto Afonso do IDP) e dois cientistas políticos (Marcos Mello do Insper e Marco Aurélio Mello) para avaliar os seus posicionamentos sobre a questão em debate. Os resultados do estudo de Javdani e Ha-Joon Chang pode ser visualizado na figura abaixo:

Além de minhas…

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Proposições teóricas básicas do novo-desenvolvimentismo

Artigo novo do professor José Oreiro (UnB).

José Luis Oreiro

Enumero abaixo as proposições teóricas básicas do novo-desenvolvimentismo na minha interpretação do mesmo, a qual pode ter algumas diferenças pontuais com relação a interpretação do Bresser.

1 – O desenvolvimento econômico é um processo cumulativo de elevação dos salários reais e do padrão de vida da população que é viabilizado pelo aumento da produtividade do trabalho que decorre do progresso técnico incorporado em novas máquinas e equipamentos e da transformação estrutural da economia, com a migração de mão-de-obra dos setores com menor valor adicionado por trabalhador para os setores com maior valor adicionado por trabalhador. A taxa de crescimento da produtividade depende, portanto, da taxa de crescimento do estoque de capital por trabalhador e da evolução da estrutura produtiva ao longo do tempo.

2 – O ritmo de crescimento do produto real é determinado pelo crescimento da demanda autônoma que não cria capacidade. O investimento se ajusta, no longo prazo…

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Arrocho salarial é crime contra os pobres.

Arthur Rizzi

Os apaniguados do sistema financeiro internacional, isto é, os filhotes de Paulo Guedes no ministério da economia avançaram agora com a proposta de uma emenda constitucional para acabar com o reajuste do salário mínimo com base na inflação. A proposta em teoria visaria gerar uma economia de 37 bilhões de reais nas contas públicas.

A proposta é tão absurda quanto criminosa. Primeiro que, com o congelamento do salário nominal, mantida uma taxa de inflação constante, produzirá no médio prazo um decréscimo substancial do salário real. Com a queda do salário real, se segue como consequência imediata a queda da demanda agregada por conta da falta de poder aquisitivo. Ora, a economia brasileira ainda está carente de demanda, e a falta de consumo é um mecanismo de desestímulo à própria oferta. Portanto, uma queda do salário real vai deprimir ainda mais a demanda tornando a recuperação econômica cada vez mais lenta para não dizer inexistente.

Se o consumo é deprimido ainda mais se seguirá uma queda na arrecadação, pois no Brasil a maior parte da carga tributária se dá sobre o consumo. Portanto, no fim das contas, o governo acabará por não poupar nada. A proposta é em si mesmo absurda coma alegação dada pelos gênios malignos de Paulo Guedes. Mas nada é tão ruim que não possa piorar.

Toda vez que um brasileiro faz uma compra no crediário, paga um boleto, pega um empréstimo, ele paga juros. Sempre que ele paga a fatura do cartão ou faz uso do cheque especial, ele paga juros. No Brasil, se o governo baixar a taxa Selic em 1%, ele poupa o dobro disso em um ano. Mas então, por que não baixar?

Interesses da banqueirada…

A burguesia usurária não permite, simples. Basta pensar, se o salário real cai, mas o juro real não (Selic – Taxa de inflação), isso significa que cada vez que um brasileirinho pobre paga um boleto ele está transferindo parte de sua renda para o setor bancário. O poder de compra que o brasileiro pobre perde é apropriado pelos bancos! Isso aumenta a desigualdade e é a usura elevada ao seu grau mais satânico.

E não há desculpas para não baixar o juros. A taxa de juros mundo a fora está despencando, a União Européia já vê juros negativos e Trump quer que o Federal Reserve  siga o mesmo caminho. Então, mesmo que o Brasil baixe a taxa básica de juros para 5%, com a taxa atual de inflação na faixa dos 3%, o Brasil ainda terá um juro real positivo! Compensará para o especulador deixar o seu dinheiro rendendo juros no Brasil de 1,5% a 2% ao ano do que deixá-lo na Europa onde o juro está negativo ou nos EUA onde a presidência americana faz pressão para que o mesmo ocorra. Se o juro real for igual ou menor que o crescimento do PIB, a trajetória da dívida pública se estabiliza.

Contudo, não custa lembrar, no Brasil a única coisa que nunca tem arrocho é o lucro dos bancos. O seu salário pode ter.

O amor e o desejo na pós-modernidade.

Pedro Ribeiro

Trecho de Zygmunt Bauman sobre a distinção entre o amor erótico genuíno e o mero desejo físico, de momento:

“Desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir — aniquilar. O desejo não precisa ser instigado por nada mais do que a presença da alteridade. (…) O desejo é um impulso que incita a despir a alteridade dessa diferença; portanto, a desempoderá-la. Provar, explorar, tornar familiar e domesticar. Em sua essência, o desejo é um impulso de destruição. E, embora de forma oblíqua, de autodestruição: o desejo é contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém, seu segredo mais bem guardado — sobretudo de si mesmo.

O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que ‘está lá fora’. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. (…) O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito a auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a — ciumentamente — guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultando em exaltação.

Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua. (…)

Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.”

O bolsonarismo não é redutível a um rótulo pronto.

Arthur Rizzi*

Comentaristas de direita e esquerda tentam em vão entender o que é o fenômeno Bolsonaro, e na sua incapacidade de entender o problema sempre reduzem-no a rotulações políticas tradicionais, seja como populismo, seja como fascismo, seja como conservadorismo, etc. Marco Antonio Villa, tipicamente associado à direita e o pessoal do Brasil 247, por exemplo, vivem reduzindo o bolsonarismo ao fascismo. No meu artigo anterior eu expliquei, por exemplo, o porquê de ser imprecisa essa definição.

Bolsonaro tem aqui ou acolá elementos de cada um, mas não é nenhum destes ao mesmo tempo. O bolsonarismo está muito mais para um fenômeno religioso e de natureza teológica do que simplesmente política, ele é a ampliação do americanismo udnista em categorias metafísicas. Por isso digo que é necessário trabalhar um pouco mais as ideias antes de definir o que é o Bolsonarismo.

O bolsonarismo só pode ser entendido corretamente, portanto, em termos religiosos, como fé, penitência, Deus, salvação, etc. Por isso, retomo aqui a noção de Leão XIII do que viria a ser conhecido como heresia “americanista” na Testem Benevolentie. Como veremos, ela é um estado de espírito que evolui paulatinamente de apenas uma questão teológica voltada para o temporal para uma postura política que transcendentaliza a política e, especialmente, a geopolítica. Para mais explicações, recomendo este texto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X – FSSPX.

“Em relação à vida moral e espiritual de um católico comum, o “americanismo” exaltou a superioridade das virtudes naturais e “ativas” em detrimento da sobrenatural e “passiva”, e transferindo o ideal político à esfera espiritual, pregava que o Espírito Santo guiava imediatamente os indivíduos, sem intermediação de direção espiritual externa . Finalmente, o “americanismo” aceita como fato irrevogável do “destino manifesto” do país a noção puritana de que a América é o “povo escolhido”, e a ampliou para incluir a Igreja americana.”

Em outras palavras, o americanismo é a crença de que os Estados Unidos têm um papel providencial na história e que ele substitui a Igreja como veículo de salvação, cabendo à Igreja apenas seguir o modo de vida americano. Para o americanismo radical, a Igreja quando muito, tem um papel meramente de sinalização da salvação americana. E no que consiste essa salvação? Depende da fonte do o americanismo, se democrata ou republicano. Se democrata, é entendido quase sempre como o espalhar das liberdades individuais pelo mundo. Seria portanto, o destino manifesto dos Estados Unidos, como nação escolhida por Deus, de levar as liberdades civis e individuais a todos os povos oprimidos. Se republicano, é além disso, o espalha da liberal-democracia, do liberalismo econômico e do american way of life pelo mundo.

Perceba caro leitor, esta é uma psotura diferente do americanismo moderado que a direita brasileira sempre teve mesmo nos eu período passado mais forte que era nos tempos da UDN de Carlos Lacerda. O lacerdismo e a primeira república viam no modelo americano um exemplo de como prosperar, a fórmula do sucesso e, portanto, as razões eram utilitárias. Graças ao crescimento do protestantismo e do olavismo, a coisa agora ganhou dimensões metafísicas e vagamente hegelianas, a exemplo do texto Trump e o ocidente de Ernesto Araújo, que é quem melhor traduziu o olavismo em política externa:

“Evidentemente esse Deus por quem os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump (quem imaginou que alguma vez leria estas palavras, “o Deus de Trump”?) não é o Deus‑consciência cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo (mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord, diz o início do “Hino de Batalha da República”, aquele do famoso refrão Glory Hallelujah, que precisa ser escutado com atenção para começar‑se a entender a alma americana)”.

Ou seja, o Deus de Trump é o Deus de Hegel, o espírito absoluto que age na História estando nela e além dela. Trump é o novo Napoleão, só que ao invés de levar o destino manifesto e o triunfo da paz kantiana, ele traz o reino de Deus na Terra pela nação americana, pelo american way of life e pelas instituições liberais de governo e de mercado. Ou você acha mesmo que o fato de Ernesto Araújo passar metade do artigo fazendo analogias como o futebol americano e as paixões esportivas preferenciais do americano típico é mero uso retórico?

Como o artigo da FSSPX também descreve:

“Em questões relativas à doutrina da fé, o “americanismo” foi até os extremos da adaptação para não ofender os protestantes. Em 1858, Mons. John McCloskey (bispo de Albano), que mais tarde se tornou o primeiro cardeal americano, considerou “inoportuna” a declaração do dogma da Imaculada Conceição e que podia ferir a sensibilidade protestante, em consequência, se negou a difundir a doutrina em sua diocese… O “americanismo” estava pronto a esconder ou diluir um dos mais característicos e essenciais dogmas católicos como uma estratégia de proselitismo. Como afirmava o padre Hecker, a apologética deve “expor as necessidades do coração e buscar seus próprios objetos, ao invés de (apresentar) uma lógica da igreja.”

Veja que curioso, o americanismo é também uma forma de visão religiosa que visa acomodar a doutrina da Igreja não só a sociedade laica, mas também ao próprio protestantismo; Não é curioso que o artigo de Ernesto em momento algum faça a distinção entre o fato gritante de que Trump, assim como o país que preside, é de formação protestante e que a Polônia é de formação católica? Como podem ser o mesmo Deus o de lá e o de cá? Podem ser em suas concepções mais remotas mas o modo como é entendido por cada lado é completamente diferente. Não é no mínimo estranho que um suposto católico dito “tradicional” como Ernesto Araújo cite hinos protestantes? O “hino de batalha da república” não só é uma canção protestante como está nos hinários das principais igrejas evangélicas de origem americana, como “Glória, glória, Aleluia!” e “vencendo vem Jesus“. O próprio fato dele ser considerado um hino político que historicamente ganhou popularidade entre os soldados confederados já denuncia a noção de que o republicanismo liberal era algo realmente divino.

O bolsonarismo, não através de Bolsonaro (é óbvio), nada mais é que a ideia de que Deus escolheu os Estados Unidos para guiar o mundo a salvação. É o seu Destino Manifesto, e que servir à nação e ao Estado americano é sempre em todo caso, servir a Deus. Só assim a política externa brasileira e o bolsonarismo pode ser entendido, como a adesão do Brasil ao destino manifesto do mundo, como um fiel que tem seu kerigma e recebe a boa nova do evangelho ianque. Somente se entendermos o conceito de americanismo, que é um conceito religioso, seremos capazes de entender qual a “ideologia” do governo Bolsonaro, e seu objetivo final. tornar o Brasil uma caricatura da propaganda paleoconservadora do que é a nação americana e o Estado americano. Talvez até conseguir uma vaguinha para o brasil como 52º estado americano, por que não? Para concluir, essa nova religiosidade pode ser dita como estando para o cristianismo como a nova era está para o hinduísmo tradicional.

A estupidez bolsonarista na questão amazônica.

Arthur Rizzi*

Começo o artigo com uma pergunta: “Você acha mesmo que Trump nunca sairá do poder? Que os democratas jamais retornarão à presidência dos Estados Unidos?“. Se você acha, você é um idiota.

Essa aliança automática com os Estados Unidos ainda levará o Brasil a ficar de joelhos para algum apaniguado dos Clintons ou para o Bernie Sanders. E a questão é simples: a diferença entre o globalismo (internacionalismo democrata) e o imperialismo republicano é apenas de espécie. Democratas e republicanos querem apenas redfinir, cada uma  seu modo, o papel que os Estados Unidos desempenham na ordem liberal global. Os democratas defendem o modelo instaurado em 1945 com os Estados Unidos dividindo o poder e as decisões de modo colegiado com organismos internacionais como a ONU, a OTAN, o FMI e a União Européia. Do outro lado temos os republicanos, mais nacionalistas que querem que a ordem internacional do “mundo livre” se volte para um arranjo que atenda mais diretamente aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos. Portanto, com Trump (e nisso ele não difere tanto dos seus predecessores republicanos), os Estados Unidos querem redefinir o sistema global de modo devolver o protagonismo ao seu país nas decisões internacionais, mesmo que às custas de humilhar a Europa Ocidental seus parceiros históricos.

Ou vocês acham mesmo que a briga EUA vs. UE em que Bolsonaro se meteu é realmente uma briga real?

É particularmente estúpido acreditar, como bolsonaristas fazem crer, que a Europa de Macron representa o “globalismo” e os Estados Unidos o “anti-globalismo”. Se a Rússia invadisse a Europa Ocidental imediatamente os Estados Unidos declararia guerra a Rússia, pois a União Européia é um domínio importante do poder imperial americano, e os europeus sabem que o único aliado com quem podem certamente contar são os americanos.

Portanto, o que está acontecendo na questão amazônica é que o Brasil é globalista e apoia o globalismo, contanto que ele seja conduzido pelos Estados Unidos única e exclusivamente, atendendo aos interesses americanos. Ou seja, as ONGs e empresas européias “explorarem” o subsolo amazônico é globalismo. As ONGs e empresas americanas não são. É tão simplista e ridículo que nem vale a pena comentar mais a fundo sobre isso.

Agora, para concluir, pergunto aos gênios: Quando os democratas voltarem ao poder e fizerem as pazes com “os globalistas europeus”, o que vocês acham que vai acontecer? Respondo-lhes, as empresas e ONGs norte-americanas que na expectativa de lucrar no Brasil, bajularam o trumpismo através de lobby com os republicanos, não mais que suddenly virarão a casaca para os democratas e passarão a atender os interesses deles única e exclusivamente, para continuarem sugando as riquezas do Brasil sem perder as tetas e as mamatas do Estado americano, tais como a bufunfa de de senadores próximos a lobbystas e do Eximbank.

E ainda tem idiota para achar esse governo patriota, nacionalista ou fascista. É o mau e velho udenismo requentado como seu americanismo histórico como força-motriz.

Se você chama Bolsonaro de fascista, você é um idiota.

Peço desculpas pelo título “clickbait“, eu não acho realmente que quem ache Bolsonaro um fascista seja um idiota. Ao menos não necessariamente. Mas vamos aproveitar a ocasião em que este assunto foi levantado para discutir o assunto.

Primeiramente, nem todo conservadorismo é fascismo. Digo mais, nem mesmo um reacionário é um fascista. A não ser que fascismo não simbolize um termo político histórico e ideologicamente identificável. Infelizmente, têm-se o hábito no Brasil de chamar de fascismo “tudo o que eu acho ruim, atrasado e eu não gosto“. Peço novamente desculpa a quem pensa assim, mas isso não é fascismo, é simplesmente uma opinião sua. E como nós não vivemos no mundinho fechado das nossas imaginações e sentimentos e sim num mundo real para além de nossas consciências, não basta “achar fascista” para que algo seja fascista.

A coisas historicamente mais próxima do fascismo que tivemos no Brasil foram respectivamente: O Integralismo, O Estado Novo nas suas fases iniciais e o PRONA. Mas nenhum deles chegava efetivamente a se consolidar como fascista.

O integralismo era dividido em vários setores e alas, a de Gustavo Barroso por ter comprado o discurso antissemita e apoiado um corporativismo de tipo moderno é talvez a ala que mais se aproximava. A de Plínio Salgado, por exemplo, gostava da estética militar, mas em sua leitura de mundo, embora tivesse tido muitas influências iniciais de Hegel e Gentile, gradativamente passa a uma visão de cunho tradicionalista que pode sem dúvidas ser chamada de reacionária, mas que não era definitivamente fascista.

O Estado Novo, por sua vez, implementou uma visão do mundo utilitária e secular, o que é compatível com um conceito de altermodernidade presente no fascismo, mas ao seu fim estava tornando-se mais um nacionalismo de esquerda pouco democrático do que de fato, um fenômeno fascista. Não custa lembrar da Polaca, a constituição autoritária que o regime implantou. O Enéas talvez tivesse certas características de uma personalidade populista, uma feição caricatural, gestos bruscos e tom de voz sempre forte e elevado. Mas seu discurso descambava mais para um nacionalismo conservador do que para a anti-democracia. Ao contrário, se analisar bem o discurso do mesmo contra as autoridades de seu tempo, tinham na maior parte dos casos um teor republicano muito evidente. Enéas tinha ainda uma visão tecnocrática do poder, que seria uma visão modernizada do aristoi grego. O líder e os homens de Estado deviam ser tecnicamente qualificados, e não apenas uma personalidade popular. Esta é uma característica também do Estado Novo em todas as suas fases, não podendo portanto ser considerado de direita ou de esquerda nos padrões brasileiros, embora em termos mais globais, possa ser considerado conservador, dado que seria uma hierarquização meritocrática da sociedade.

 E o que é o fascismo?

O fascismo é uma forma de nacionalismo que se particulariza por algumas características que são muito peculiares a ele, em palavras mais simples, não é porque um determinado partido, político ou ideólogo tem uma dessas características que ele será necessariamente um fascista.

O fascismo apresenta um d tipo de visão que não necessariamente é conservadora, mas que de alguma forma busca uma legitimação histórica do movimento. Assim, o fascismo pode acidentalmente esbarrar em alguma pauta ou ideia conservadora ou reacionária, mas isso não significa que isso seja a essência do movimento. O fascismo italiano, por exemplo, diferente de um movimento político conservador não visava como meta primária resguardar ou manter alguma tradição ameaçada, e nem mesmo desejava um retorno a um passado medieval idealizado. Nestes casos não se enquadra nem como conservador e nem como reacionário. Mas buscava na simbologia, na arquitetura e no discurso restaurar uma glória do Império Romano, com o seu facho e seus ícones da cultura pré-cristã.

Propunha isso não como um regresso, mas como uma altermodernidade. Isto é, um redesenhamento dos tempos em que vivia com moldes da antiguidade. Era notabilizado também por uma divisão de funções entre público e privado na economia conforme as diretrizes de um Estado autoritário e nacionalista. A hierarquização era inicialmente tecnocrática, mas com a aliança com o III Reich, elementos racialistas de Hitler começaram a tomar parte da hierarquização. A verve militar é sempre muito difundida, não apenas na estética, mas na prática. O fascismo quando não manifesta um claro expansionismo militar, procura a unificação de territórios dissidentes sempre pela força. Lato sensu, isto é o básico do fascismo. Se analisarmos bem, veremos que na Europa ocidental somente Hitler, Franco e Mussolini se enquadram neste modelo. Nem mesmo Salazar poderia ser considerado um fascista, dada a sua visão tradicionalista e a de um nacionalismo emburrado e autocentrado.

O fascismo notabiliza-se ainda, por uma figura caricatural e personalista que quer se caracterizar como uma espécie de líder ou chefe de seita que encarna o “espírito” da nação ou da raça. Bolsonaro até se assemelha bem a este tipo de conduta, mas outros líderes de esquerda também foram populares ou populistas demagógicos e não são contados entre os fascistas, como Hugo Chávez, o ex-presidente Lula, Evo Morales na Bolívia, etc.

Os governos fascistas na sua fase inicial receberam algum apoio dos tradicionalistas, mas isso não faz deles a mesma coisa e o importante é que, pouco depois acabariam por perdê-lo. Vide que Franco sacou de seu governo os nacional-sindicalistas e optou pelos carlistas que na década de 50 deram uma orientação muito mais “liberal” ao regime.

Outra característica do fascismo é que o apelo a desigualdade nele é tão grande que ela passa a ser consolidado legalmente, não como a estamentação feudal, mas ao contrário, por uma moderna de etnia (entendida aqui como nacionalidade) ou raça.

E Bolsonaro?

Bolsonaro tem essas características? Vejamos:

1- Bolsonaro não manifesta qualquer apreço ou desejo por uma hierarquia de poder, seja ela técnica, étnica ou racial. Ele pode ser conivente com o status quo de desigualdade no Brasil, mas não há qualquer tendência da parte dele em consolidá-la em lei. Ao contrário, Bolsonaro parece dar muito mais privilégios aos norte-americanos e israeleneses no Brasil que aos brasileiros, e manifesta um personalismo administrativo muito forte indicando sempre por laços de sangue ou de apreço pessoal.

2- Bolsonaro não é nacionalista. O nacionalismo dos regimes italiano, alemão e espanhol; ou mesmo de nacionalismos conservadores de tipo não-fascista, como o salazarismo, o integralismo e o regime militar, está completamente ausente para além do discurso. Bolsonaro coloca claramente os interesses dos Estados Unidos e do Estado de Israel acima dos interesses do Estado Brasileiro.

3- Bolsonaro não tem uma ideologia altermoderna, mas sim moderna e inspirada pelo seu guru, Olavo de Carvalho. A visão de Bolsonaro é a de que o Brasil deve se refundar segundo os moldes do Estado e da nação americanas. Com os ideais dos founding fathers, e segundo a leitura jeffersoniana do que era ou ao menos, deveria ser, os Estados Unidos. Mesmo que concedamos que isto fosse uma inspiração histórica do passado para se refundar, temos que levar em consideração que:

a)  O Estado americano é – como o próprio Olavo de Carvalho reconhece n’O jardim das Aflições – o primeiro experimento de estado moderno republicano, laico e liberal-democrático bem sucedido. Sendo portanto, em seu berço, um experimento iminentemente moderno.

b) É uma fonte inspiração que não busca em estados antecedentes do país ou do território ocupado uma inspiração para a modernidade, mas sim um passado de um outro país sem qualquer laço cultural para conosco para além de seu poder econômico e militar. O integralismo, por exemplo, visava na figura dos índios esse símbolo de inspiração.

4- A fonte de inspiração mais próxima culturalmente do Brasil que Bolsonaro tem, é de um outro governo ditatorial e anglicizante: O governo de Pinochet, que tem os mesmos aspectos americanistas, liberais e antinacionalistas do governo Bolsonaro. E que, em geral, não é um governo apreciado nem pelos falangistas chilenos (os fascistas históricos do Chile).

Em resumo, não há porquê considerar Bolsonaro fascista, para além do “eu não gosto dele e ele é tudo de ruim“. Então, por essas razões, julgo não ser adequado tratar Bolsonaro como fascista. isto pode inclusive, criar um alarmismo falso chamando tudo de fascismo, e quando um fascista realmente aparecer, a alegação não terá crédito. É como na anedota do menino que gritava “lobo!”. Quando o lobo apareceu ninguém deu crédito. Aliás, a própria eleição de Bolsonaro sinaliza que isso pode ocorrer. Gritou-se entreguista e direitista para todos os tucanos. Quando um direitista e entreguista de verdade (Bolsonaro) apareceu, as pessoas não se importaram. Que fique a lição.