O microcrédito não é uma ameaça aos grandes bancos.

Arthur Rizzi

Embora eu seja um entusiasta do microcrédito e do empreendimento individual de crédito propiciado pelo governo Bolsonaro recentemente (haja visto o artigo que publicamos aqui do Richard Aleman), há uma alrgação que os olavistas e bolsonaristas em geral vêm fazendo e que é completamente sem fundamento e que revela um completo desconhecimento de como funciona o contemporâneo sistema bancário.

Antes de passarmos ao assunto propriamente dito, contextualizemos a alegação dos olavo-bolsonaristas.

Desde o início do governo Bolsonaro, um setor da direita e de tendência nacionalista começou a elevar críticas ao governo Bolsonaro pela agenda liberal e americanista dos mesmos. Dentre esses setores estão os tradicionalistas católicos mais radicais (a exemplo da Legião da Santa Cruz), setores pronistas e saudosistas do regime militar, bem como alguns grupos vinculados a Integralismo que outrora apoiara o governo.

Estes setores questionando a política externa subserviente ao interesse americano e o liberalismo da equipe econômica de Paulo Guedes, começaram a apontar o governo como sendo falso nacionalismo e um títere dos interesses do globalismo financeiro (sistema financeiro internacional). Em resposta os olavo-bolsonaristas alegam que a medida recente que permite o empreendimento individual de crédito seria uma prova de que Bolsonaro e a equipe econômica não estão de acordo com o globalismo financeiro, dado que este é constituído de grandes bancos, que seriam ameaçado pela competição com os pequenos agentes de crédito.

Uma vez delimitado o contexto dessa discussão relevante, vamos analisar a verdade dos enunciados acima.

1- Os pequenos agentes de crédito não constituem ameaça ao grande setor bancário em lugar nenhum do mundo.

A grande virtude da medida de estímulo ao microcrédito é a possibilidade de as relações de crédito e investimento serem mais horizontais e personalistas junto às pessoas comuns. Contratos mais flexíveis e adequados a situação das pessoas concretas passa a ser uma possibilidade nesse tipo de relação bancária, substituindo, por exemplo, os contratos de adesão dos grandes bancos.

Porém, essa medida afeta apena pequenos e micro-empreendedores, ela é irrelevante para empresas grandes como por exemplo, a Gerdau. Pense: Por que a Guerdau pegaria emprestado dinheiro com o Banco de Quiproquó do Vale, que tem apenas 200 mil reais em ativos, sendo que qualquer operação da Guerdau para investimento demanda de 10 a 20 vezes mais recursos do que o banco tem em patrimônio? Veja, tomar empréstimos de vários pequenos bancos até dar o montante necessário tornaria o sistema incomensuravelmente mais complexo, arriscado e menos eficiente. Por isso sempre acabará sendo preferível a grandes empresas também tomar serviços de grandes bancos.

2- O problema da escala e da concentração:

Isso nos revela um problema que é a escala de operações. O sistema bancário é especializado na capitação e transmissão de informações, e fazer isso de maneira eficiente exige que se seja capaz de arcar com custos fixos muito elevados, que somente entidades de crédito com um grande volume de ativos serão capazes de pagar. Essa é a principal razão pela qual o setor bancário apresenta uma grande tendência a concentração em todo lugar do mundo. Usando o economês como língua, diríamos que o custo médio é decrescente, porque o custo marginal é muito pequeno em face dos custos fixos e do montante de ativos em posse da instituição. O custo para um banco de abrir uma nova conta corrente ou conta poupança é tão diminuto, que isso faz com que os bancos tendam progressivamente a operar no regime de competição monopolista.

3- O pequeno crédito não é a grande fonte de recursos dos bancos.

Embora os grandes bancos não desprezem o micro e pequeno proprietário, ele não é nem de longe a sua maior fonte de receitas. Os grandes bancos ganham muito dinheiro intermediando operações de open market, operações de crédito compromissadas com a dívida pública e financiando grandes empresas. Isso significa que embora certamente eles não ficam felizes em perder clientes de renda baixa, que eles não farão grandes dramas por eles.

4- Suposição:

Suponhamos que ainda assim, os pequenos bancos fossem capazes de vencer todos estes desafios de custo e escala. Ainda assim, eles existiriam no mercado de crédito pela pura e simples benevolência dos grandes bancos, que poderiam expulsá-los através de um dumping de crédito. Pense você que em hipótese que estes pequenos bancos individuais venham a ganhar cada vez mais marketshare, a ponto de assustá-los. Enquanto os novatos ainda não tivessem ativos em igual proporção, eles ainda poderiam ser expulsos do mercado pelos bancos maiores sacrificando temporariamente parte de seu lucro oferecendo crédito abaixo do preço de mercado. Isto não é triunfo do mercado, ao contrário, é a sabotagem do mesmo. Contudo isso nunca aconteceu devido às barreiras supracitadas serem quase intransponíveis.

Isso, obviamente, não significa que a existência de pequenos agentes de crédito n;ao ajude a baixar o spread ou ainda a reduzir um pouco a taxa de juros, mas não será nada muito relevante.


 

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