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Ciro Gomes tem encontro com centrais sindicais

por Raphael Mirko
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Cobrimos o candidato à presidência da república Ciro Gomes no dia 19/09/2018 no Palácio dos Trabalhadores em São Paulo:
Em minha coluna no Reação Nacional abro espaço para matérias não só de caráter intelectual, mas também de caráter midiático e informativo, conforme a já ocorrida entrevista com o saudoso doutor Adriano Benayon e tantas outras mais que virão.
Na última quarta-feira o presidenciável Ciro Gomes compareceu junto aos vários ramos do sindicalismo brasileiro em São Paulo, junto com o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro, Carlos Lupi e o candidato ao senado Antônio Neto. Firmou propostas para geração de empregos, reiterou a proposta “Nome Limpo”, na qual pretende facilitar a vida dos negativados nos sistemas de créditos e exaltou as riquezas nacionais como o petróleo.
O encontro foi marcado pelo apoio das frentes sindicais ao presidenciável, fazendo assim, frente à CUT (Central Única dos Trabalhadores), ferrenha apoiadora do Partido dos Trabalhadores. Vale lembrar que a aproximação do Ciro Gomes com os sindicalistas já vem de algum tempo, Paulinho da Força foi seu vice na eleição presidencial de 2002.
Logo após o discurso e as entrevistas para a mídia tradicional, Ciro Gomes foi perguntado pelo nosso blog, sobre o recorte de vídeo que circula nas redes sociais no qual ele fala sobre “o fim da ilusão moralista católica, o fim da ilusão, a humanidade precisa de controle, não adianta ninguém imaginar que um anjo vingador vai descer do céu e estalar o chicote e resolver o problema nacional brasileiro“, o presidenciável visivelmente não gostou da pergunta e respondeu que sempre foi católico, no entanto, a sua equipe de segurança, que viu claramente que o candidato não gostou da pergunta, atingiu com uma cotovelada o indagador, logo depois a candidata à primeira dama nos respondeu dizendo que eles eram católicos.
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O caráter retórico do liberalismo brasileiro e seu antídoto ‘saquarema’: lições do Império

Ricardo Carvalho*

As declarações recentes do presidenciável João Amôedo defendendo o fim da imunidade tributária de instituições religiosas, já muito bem comentadas pelo meu colega Pedro Ribeiro, foram a manifestação mais marcante, em tempos recentes, das inconsistências ideológicas que sempre marcaram o pensamento liberal brasileiro.

O candidato se opõe ferozmente à tributação de lucros e dividendos e a qualquer esforço para atenuar a péssima distribuição de renda no país; defende, ultrapassando qualquer limite de razoabilidade e bom senso, a privatização incondicional de todos os serviços públicos; mas demonstra, por outro lado, não dar a menor importância para uma das mais essenciais garantias à liberdade de consciência e de expressão individual — valores inegociáveis e prioritários para qualquer liberal verdadeiro. A ironia é que as limitações ao poder estatal de tributar, dentre as quais se situa a que o candidato critica e propõe abolir, surgem da preocupação dupla e tipicamente liberal de estabelecer limites à atuação do Estado e garantias aos direitos individuais. Buscam, antes de tudo, impedir que a política tributária seja usada — como frequentemente o é em contextos autoritários — como instrumento de perseguição ideológica, política e religiosa.

Não é coincidência que o mesmo artigo da constituição brasileira a estabelecer imunidade tributária aos “templos de qualquer culto” o faça também aos sindicatos de trabalhadores, aos partidos políticos e à publicação de livros, periódicos e jornais — importantes meios de organização política e divulgação de ideias. Seria uma grave incoerência considerar essa imunidade fundamental para o exercício da liberdade política e de expressão, mas não estendê-la aos templos e atividades religiosas, onde está em jogo não apenas a liberdade religiosa individual, mas também a laicidade do Estado. Felizmente, tamanha obviedade não passou despercebida ao constituinte brasileiro; e a importância desse dispositivo na Lei vigente pode ser indicada pelo fato de ter status de Cláusula Pétrea — não podendo proposta tendente a sua abolição, portanto, nem mesmo ser objeto de deliberação, como parece ignorar o presidenciável.

Mas não deveria nos surpreender que um líder liberal brasileiro demonstrasse tamanho descaso com valores fundamentais do liberalismo. Muitos estudiosos da nossa história política já haviam observado como o liberalismo tupiniquim, nascido no Primeiro Império, caracterizou-se, desde o início, por uma profunda dissonância entre a doutrina e a prática. Vale a pena refletir mais detidamente sobre essa questão importante na formação política do nosso país.

Enquanto o liberalismo clássico, nos seus países de origem, pautava-se pela defesa efetiva e corajosa de valores como a igualdade perante a lei, a liberdade de consciência, a impessoalidade na administração pública e a expansão progressiva dos direitos civis e das garantias; o liberalismo brasileiro — com raras e honradas exceções — sempre foi essencialmente negativoNão se pautava por uma promoção afirmativa desses e de outros valores liberais, mas apenas por uma rejeição do Estado enquanto instrumento de ação coletiva da nacionalidade. No fundo, procurava, por todos os meios, negar efetividade ao poder estatal de modo a conservar intacta a primazia de uma esfera privada de governo e de monopólio da violência: a escravidão. As doutrinas liberais eram basicamente pretextos ideológicos na defesa do mandonismo privado contra as limitações a ele impostas pela lei e a autoridade públicas.

Não por acaso, Sérgio Buarque de Holanda chega a dizer que os conservadores do Brasil Império eram, naquele contexto, os verdadeiros “progressistas” —  o que talvez devesse ser entendido, hoje, como algo mais próximo de “desenvolvimentistas”. Na medida em que fortaleciam o Poder Central em detrimento dos chefes locais e do clientelismo, os conservadores criavam as precondições políticas e administrativas para qualquer desenvolvimento nacional posterior, desenvolvimento este que necessariamente implicaria — como implicou naquele momento — em superar deficiências institucionais herdadas da colônia e contrariar os velhos interesses que delas dependiam. Concentrar os poderes Político e Judiciário na Côrte era, na visão dos saquaremas, a única maneira de constituir uma verdadeira potestade pública nacional e estender a autoridade e o poder de polícia do Império, calcados na legalidade e na impessoalidade, sobre todo o extenso e hostil território da antiga América Portuguesa, disciplinando assim os interesses meramente privados que nele prevaleciam.

O caráter “desenvolvimentista” do conservadorismo imperial transparece em obra que o seu principal formulador e executor político, o visconde de Uruguai, escreveu décadas após o triunfo do regresso, quando já tinha se retirado da política. Nela, o velho saquarema defende a necessidade de um Estado forte e ativo para conseguir o desenvolvimento de um país como o Brasil. Com a eloquência confiante de quem havia acumulado uma longa experiência na administração pública, Uruguai insiste que a centralização política no Rio de Janeiro não encerrava um fim em si mesmo, sendo antes uma etapa primitiva e indispensável de um longo esforço de construção nacional:

“A centralização política é essencial. Nenhuma nação pode existir sem ela.

Sem a centralização como haver um cadastro, uniformidade de moeda, pesos e medidas; como formar e administrar um Exército e uma Marinha, que não podem deixar de ser únicos; como manter aquela ordem e uniformidade que é indispensável no Clero e na Magistratura; como fabricar armadas, construir fortalezas, melhorar portos, abrir canais, construir estradas gerais, caminhos de ferro, e administrá-los, por meio de uma administração única e uniforme?

Sem a centralização não seria possível criar um sistema de comunicações que ligasse as diversas partes do Império. Cada uma atenderia somente àquelas que lhe fossem especialmente úteis. Sem a centralização não seria possível a uniformidade dos impostos e da sua arrecadação; a admissão de todos os brasileiros aos empregos públicos; a uniformidade dos Códigos, das jurisdições, das penas e das garantias; a livre circulação das pessoas, e dos gêneros, e a igualdade perante a Lei.

Em uma palavra, sem a centralização não haveria Império.”

De fato, até mesmo liberais como Joaquim Nabuco reconheceram a centralização política promovida pelos conservadores como necessária não apenas para a sobrevivência do país — anteriormente sob sério risco de fragmentação e caos social — mas também para o processo de abolição gradual da escravidão — todo ele conduzido, também, por governos conservadores.

Sem a força administrativa, fiscal e política adquirida pelo Governo Central no regresso, não existiriam as condições para construir um aparato policial e judiciário capaz de fiscalizar todo o imenso litoral brasileiro em meados do século XIX, reprimindo eficazmente o tráfico de escravos africanos. Também não teriam ocorrido, sem a atuação decidida do Poder Moderador e do Conselho de Estado (reestabelecidos pelos conservadores), a aprovação e a aplicação decidida da Lei do Ventre Livre, dando às autoridades públicas a prerrogativa de entrar nas unidades produtivas (principalmente fazendas) para fiscalizá-las, averiguando o adequado cumprimento da lei. Esse importante marco legislativo foi, por isso mesmo, interpretado por setores da opinião pública como uma demonstração inaceitável de “despotismo” e “intervencionismo” do Governo Imperial, mais especificamente do Poder Moderador, levando muitos antigos liberais a abraçarem o republicanismo e dando início à primeira grande crise de legitimidade do regime monárquico, crise da qual jamais se recuperaria.

Em texto a ser publicado futuramente neste blog, buscarei explorar melhor aspectos pouco conhecidos do pensamento político conservador (saquarema) do Império brasileiro, ainda relevante para a compreensão do país e para a elaboração de um agenda política nacional, desenvolvimentista e democrática que ofereça soluções para os desafios dos nossos dias.

Ricardo da Silva Carvalho é bacharel em Economia pela Universidade de São Paulo e colaborador do blog. Continuar lendo O caráter retórico do liberalismo brasileiro e seu antídoto ‘saquarema’: lições do Império

Editorial – Ciro Gomes e Jair Bolsonaro: Duas partes de uma mesma indignação.

Créditos à Veja pela foto.

Com a Lava-Jato em alta, focada em Lula,  dois nomes polarizam as redes sociais: Ciro Gomes e Jair Bolsonaro. Mesmo com o pré-candidato Lula com 30% de votos na frente dos dois, não dá outra. “Bolsonetes” e “Ciretes” se estapeiam pela principal rede social da atualidade. O que faz com que, findo um governo esquerdista do PT, muitas viúvas do Lulismo, ao invés de apoiarem Lula ou Haddad, tenham optado por Ciro? Por que Bolsonaro desperta tanta paixão? Comecemos pelo candidato à esquerda.

Ciro Gomes representa um certo descontentamento de um setor vétero-trabalhista mais preocupado com desenvolvimento econômico e direitos trabalhistas, do que com pautas identitárias associadas a esquerda pós-moderna como multiculturalismo, veganismo, casamento gay, aborto e ideologia de gênero. Para os saudosistas de uma espécie de varguismo, Ciro representa o reestabelecimento da classe trabalhadora e do nacionalismo como miragens da nação que se deseja no futuro. Não se trata de negar, ingenuamente, que o velho trabalhismo também não seja favorável hoje às pautas progressistas do campo cultural já mencionadas. Mas não são tão dedicados a elas, e nem as considera a coisa mais importante do momento.

Ciro Gomes representa para a maioria destas pessoas, uma nova esperança. Muitos dos que realmente se preocupavam com causas associadas ao mundo do trabalho e com a questão nacional, se decepcionaram com o petismo, cada vez mais rendido ao mercado financeiro, cada vez menos nacionalista e mais globalistas e cada vez mais centrado em pautas identitárias. O PT tornou-se um caminho alternativo para a “Sociedade Aberta Popperiana”, que constitui-se da parceria entre o liberalismo moral e o liberalismo econômico. Tolerante com o primeiro liberalismo, o pensamento trabalhista de Ciro preocupa-se mais com o último.

De outro lado, temos Jair Bolsonaro, candidato militar que começou com enorme viés nacionalista e patriarcal. Forte defensor da moralidade tradicional, preocupado com a liberdade do cristianismo e da família frente aos avanços de pautas progressistas no campo cultural, começou aos poucos a galgar espaço e apreço entre evangélicos e liberais econômicos, moldando e adaptando seu discurso conforme sua base de apoio de modo a convergir em sua candidatura uma espécie de simulacro americanófilo de liberalismo econômico e conservadorismo de costumes.

Jair Bolsonaro representa para um setor de classe média baixa, bem como para setor considerável da classe trabalhadora, que têm – ambas – um recente e baixo engajamento político, um tipo de clamor por ordem pública, proteção à família e defesa de certos princípios perenes. Não se trata tanto de um desencantamento com o petismo, mas de um ressentimento similar ao da classe branca trabalhadora que elegeu Trump nos Estados Unidos.

Tal como o ex-operário sem emprego de Detroit que votou em Trump, o trabalhador brasileiro, sem emprego e exposto a violência urbana, viu em Jair Bolsonaro a resposta certa para suas carências, enquanto a “esquerda mainstream”, representada pelo PT, pelo PSOL, pelo PCdoB, e por certos figurões do show business, para ele não passava de riquinhos esnobes mais preocupados com palavras esquisitas e incompreensíveis como “heteronormatividade”, ou expressões para eles estranhas como “cultura do estupro”. O católico paroquiano, praticante (uma minoria cada vez mais rara) e o evangélico pentecostal (cada vez mais dominante) sentiram a bota pesada de organismos internacionais que, através da esquerda mainstream, atacava seus filhos, sua família e seus valores mais caros. Desta forma, revoltaram-se ambos, católicos praticantes, evangélicos pentecostais, uma certa classe média meio secularizada mas de baixo engajamento político, e uma fração da classe trabalhadora esquecida (que se confunde em parte com os grupos religiosos acima mencionados), ao redor da campanha de Bolsonaro, como um grito de “Basta!” contra o liberalismo moral da “Sociedade Aberta Popperiana”. Cada grupo ao seu modo enxerga o problema, mas não com a dimensão necessária.

Fato é que ambos os candidatos têm mais em comum do que sus militâncias gostariam.

  • Ambos são personalidades bravias, fortes, consideradas por muitos da “esquerda chique” e da “direita cuckold” como sendo “destemperados”.
  • Bolsonaro votou em Ciro em 2002.
  • Ciro é amigo de Olavo de Carvalho, mentor de Bolsonaro.
  • Ambos têm uma certa percepção da importância da soberania nacional.
  • O mercado financeiro, maior porta-voz do popperianismo reinante já declarou: “Ciro contra Bolsonaro no segundo turno é o pior cenário possível“; claro, afinal, para eles, o cenário ideal é composto por tipos sem testosterona, burocráticos e sem carisma como Marina Silva e Geraldo Alckmin.
  • Ciro foi o primeiro a manifestar desagrado e solidariedade a Bolsonaro no incidente de Juiz de Fora, sendo que Dilma, ex-presidente e uma horda de esquerdistas lunáticos, quando não apenas desejaram a morte do candidato da direita, o culparam pelo mal que lhe atingiu.

Não basta atacar apenas o nascimento do hipercapitalismo, da derrocada do estado-nação e do reino sem fronteiras de um sistema econômico que proletariza cada vez mais pessoas. De nada adianta conceder direitos trabalhistas às pessoas, fazendo-as ter o “pão nosso de cada dia” se não se aprender uma outra lição evangélica, a de que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus”. E isto é muito mais do que trabalho e segurança, trata-se do direito a vida, trata-se de defender um sentido último e metafísico para toda a vida humana, e defender esse sentido e os valores que dele emanam com toda a força e com toda a garra necessária. A modernidade trouxe consigo o niilismo, a ausência de sentido. O consumismo, fenômeno tão denunciado pela esquerda é fruto do próprio materialismo que ela assume, a ideia de que não há nada que não seja o puro choque das forças produtivas numa sociedade. Assim, rebaixa-se o homem a um mero contabilista de recursos, levando-o a ver no consumo o esplendor máximo da sua labuta diária. Afinal, se não há Deus nem família? Por que se preocupar com qualquer outra coisa que não meu próprio prazer?

Na outra mão, não adianta enfatizar valores perenes, erguer e falar da palavra de Deus se não se der o pão. Não adianta ser contra o aborto mas defender a outra perna do popperismo reinante, o liberalismo econômico. A pobreza, a desigualdade a proletarização aumenta proporcionalmente a procura da mulher por clínicas de aborto, sejam elas legais ou clandestinas. Isso é dado empiricamente analisado. Ou alguém duvida que o aborto mate mais crianças negras e pobres?

Ambos os candidatos representam indignações justas, com a corrupção do PT, a morte da sua alternativa trabalhista para um “esquerdismo chique” e com o pé pesado do globalismo internacional. São partes de uma mesma agenda, só que descoladas pela cegueira ideológica, pelo viés de confirmação, pelas premissas de fundo, não rastreadas nos nossos vícios de pensamento. Por outro lado é necessário mais do que só pegar parte do problema, é necessário ataca-lo de todo, de uma só vez, e é isso que a Reação Nacional quer.