Globalização e globalismo são interdependentes.

Arthur Rizzi*

Em resposta ao meu artigo sobre globalismo e a União Européia e seu acordo com Mercosul, alguns conservadores liberais me responderam dizendo que apoiam a globalização sem apoiar o globalismo. Não que isto seja impossível, mas há boas razões para crer ser profundamente indesejável. Em geral, os conservadores liberais temem o globalismo pois representa o multiculturalismo, o cosmopolitismo e a perda de soberania nacional. Contudo, a economia liberal é em si mesma uma fonte inesgotável de intromissão de interesses econômicos de outros países.

Houve na história vários momentos em que aconteceram ensaios de globalização do mundo conhecido. O Império de Alexandre e o Império Romano são bons exemplos, em que pela dominação militar e anexação num vasto Império, as mesmas instituições, moeda e economia passava a se aplicar à todos os reinos súditos.

Porém a primeira globalização bem sucedida foi a globalização do fim do século XIX, como nos mostra Niall Ferguson na obra “A ascensão do dinheiro“. Quem não tiver o livro, recomendo o episódio 6 do documentário que pode ser assistido abaixo.

Como Ferguson destaca, a grande dificuldade no século XIX, ainda continua sendo a grande dificuldade de hoje (embora a tecnologia tenha amenizado as coisas). O que fazer quando um mutuário do outro lado do mundo decide dar um calote? A resposta curta e grossa para isso na era vitoriana era a “diplomacia das canhoneiras“. O Império Britânico e sua poderosa marinha eram a chave política e de garantia dos contratos.

Por isso Vladimir Lênin dizia que o imperialismo era a forma superior do capitalismo; não que Lênin estivesse certo totalmente, mas era bastante evidente para ele que se a teoria marxista estivesse certa e se os estados-nação nada mais fossem que os quartéis generais das burguesias, os interesses econômicos e militares iriam acabar se confundindo. Não é também mera coincidência histórica que a tomada de poder na Rússia pelos bolcheviques aconteceu no momento da morte da primeira onda de globalização: A primeira guerra mundial.

O fato é que não existe vácuo de poder na geopolítica; a primeira onda de “globalização sem globalismo” nada mais foi que o imperialismo cru, diferente das pressões imperiais ainda certamente existentes mas diluídas entre mil e uma instituições transnacionais. Como não havia naquele período de tempo leis e instituições supranacionais para garantir a paz, o cumprimento de acordos, financiamento internacional, julgamentos e formalizar contratos; o que em geral acontecia era que o país mais rico impunha essas coisas a força e, em geral, poder econômico grande tem grandes probabilidades de se converter em poder militar grande. E eu não esperaria imparcialidade de uma única nação imperial  na validação e tutela dos acordos. Elas frequentemente puxam sardinha para si próprias (Oh, really?)

A guerra do ópio, promovida por corsários “empreendedores” ingleses, bem como a primeira guerra mundial se deu justamente por causa da globalização sem globalismo. Os países mais poderosos abrem mercados nos canhões e baionetas e os mais fracos se fecham com protecionismo quando possível. Quando impossível, sofriam com bombardeios como a China e o Japão, ou quintas colunas internas como o caso de Portugal e Brasil.

A criação de órgãos como as Nações Unidas, o FMI, o BIRD, a CEPAL, a OCDE, a OMC, a OIT, os BRICs e várias outras permitiu que muito mais acordos de livre-comércio fossem feitos do que anteriormente e sem a necessidade de invadir e bombardear ninguém. Frequentemente, o mecanismo utilizado são embargos, isolamentos, multas e, quando em casos específicos como o atual do Brasil, quintas colunas como a neo-direita que governa hoje.

É curioso que muito raramente os conservadores-liberais e olavo-bolsonaristas em geral ignorem que o Euro é a única moeda séria (Bitcoin we’re not talking about you) de circulação global hoje completamente fora do controle dos estados nacionais que a usam. Mas, o Estado manipular a base monetária não era ruim? Portanto isso deveria ser bom, não? (E voltamos ao Peso-Real…)

Como Dani Rodrik pontua em”A globalização foi longe demais?“, a desregulamentação financeira e a existência de grande mobilidade de capital físico e financeiro pelo mundo fez com que empresas preferissem fazer terra arrasada e mudar de país do que negociar com sindicatos e pagar impostos mais elevados. Essa é, como se pode ver, a raiz pela qual Donald Trump venceu as eleições nos EUA: Trazer os empregos de volta. Tirar as empresas americanas da China.

Quem não enxerga que hoje o melhor meio de se haver globalização econômica é através da globalização política precisa voltar para a Terra.  A ideia de “Globalização sem globalismo” sempre teve mais a ver com guerra, pilhagem e economia de rapina do que com a  “paz perpétua” kantiana e o idílico paraíso de paz dos mercadores smithianos.

A globalização têm que ser vista, como aponta Rodrik, como uma inovação tecnológica. E como tal não podemos ser ludistas.  A globalização gera o interesse das grandes potências do capitalismo central em impor o modelo liberal aos países de renda média e baixa, mantendo-os na posição primário-exportadora ou, quando muito, como paraísos fiscais.

Os países em desenvolvimento devem saber lidar com isso, usar as regras de jogo ao seu favor. Ninguém soube fazer isso melhor que Coréia do Sul, Japão e China. Usar os fluxos de capital e investimento para se industrializar e participar do jogo dos grandes playeres. Simultaneamente é necessário levar o homem esquecido de Roosevelt a participar desses ganhos, e uma das formas é descentralizar capital estimulando ferramentas de cooperativização para pequenos produtores (vide as cooperativas agropecuárias), a cooperativização do crédito (vide as cooperativas de crédito alemãs), estimulando a divisão do trabalho entre firmas (como o caso da Emiglia-Romanana Itália) e a participação na gestão e nos lucros, cujo maior exemplo é talvez a corporação Mondragón, como nos recorda John Médaille em “Toward a truly free market.

Isso pode soar neo-mercantil, mas não nos esqueçamos que o mercantilismo era inicialmente um feudalismo monetizado, e que muitos homens cristãos de nossa tradição católica e hispano-lusitana como Dom Duarte Ribeiro de Macedo, Dom Francisco Manuel de Mello, o Padre Sancho de Moncada e o Padre Antônio Vieira iam nessa direção.

Por isso aponto como saída um desenvolvimentismo distributista, remédio para o estágio atual do capitalismo em que reforça o poder dos Estados sobre as finanças, sem entretanto, proibi-las. E simultaneamente, feito em conjunto com o arranjo social mais tradicional e moral possível.


Referências:

FERGUSON, Niall. A Ascensão do Dinheiro. São Paulo: Editora Planeta, 2008.

RODRIK, Dani. A globalização foi longe demais? São Paulo: Unesp, 2011.

MÉDAILLE, John. Toward a truly free market: a distributist perspective on Role of Government, Taxes, Healthcare, Deficits, and More. Wilimington: ISI Books, 2010.

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Comércio internacional: Relações centro-periferia.

O texto abaixo é um excerto do artigo de César Benjamin para o Portal Disparada.

O comércio exterior de países periféricos, como o Brasil, apresenta forte assimetria, com exportações concentradas em bens primários e de baixo valor agregado, e importações de bens e serviços mais intensivos em capital, técnica e conhecimento.

A dinâmica desses dois subconjuntos é muito diferente. Pois, na medida em que a renda das sociedades cresce, diminui a participação relativa do primeiro subconjunto, seja pela menor utilização de matérias-primas nos produtos finais, seja pela descoberta de novos materiais, seja pelo aumento da participação dos bens industriais e dos serviços na cesta de consumo das populações (isso se chama, em economia, elasticidade-renda menor do que 1). O inverso também é verdadeiro: os países ricos produzem, em maior proporção, os bens cuja demanda cresce mais do que o crescimento da renda (em economia, elasticidade-renda maior do que 1).

Por causa dessa assimetria, políticas de proteção aplicadas no centro e na periferia têm conseqüências bem diferentes. A proteção dos mercados dos países centrais, quando atinge os produtos ofertados pela periferia, retarda o crescimento e aumenta a vulnerabilidade dos países periféricos, reduzindo sua capacidade de contribuir para o crescimento do comércio mundial, visto como um todo.

A proteção seletiva dos mercados da periferia tem um efeito contrário. Pois os países periféricos em via de modernização continuarão necessitando realizar importações no limite de suas possibilidades, e por isso sempre farão o maior esforço exportador que esteja ao seu alcance. A proteção seletiva de seus mercados permite diminuir sua vulnerabilidade externa, tornando mais completa a sua base produtiva e aumentando sua renda interna, sem diminuir (ao contrário, aumentando) o volume de suas importações. Esse tipo de proteção altera apenas a composição dessas importações, concentrando-as naqueles produtos que os países pobres realmente não têm condições de produzir.

Ou seja, a adoção de níveis adequados de proteção pelos países periféricos, ao aumentar sua renda sem diminuir sua propensão global a importar, maximiza o potencial do comércio mundial. Por isso, a confiança no livre jogo das forças de mercado e a proposta, dela decorrente, de reduzir igualmente as tarifas só seriam corretas se se aplicassem a países com estruturas econômicas homogêneas.

Quando o centro se abre para receber exportações da periferia, a periferia responde aumentando suas importações oriundas do próprio centro. Quando a periferia se abre da mesma maneira, a recíproca não é verdadeira. Neste caso, os países periféricos tendem a ter déficit nas contas externas, forçando-os a aumentar seu endividamento (e sua fragilidade) ou a reduzir suas importações.

Chegamos assim ao aspecto central do argumento: em um sistema internacional marcado por forte heterogeneidade, a maximização do livre-comércio não coincide com a maximização do comércio. Por uma questão de eficiência econômica, e não de ideologia, países que apresentam estruturas muito diferentes não devem ser submetidos às mesmas regras comerciais. Para obter maximização do comércio – que é, de fato, o desejável – é preciso reconhecer uma realidade histórica: as trajetórias de desenvolvimento, entre países e entre regiões, são desiguais.


César Benjamin é cientista político e contribuinte do Portal Disparada.

O globalismo mais perto da direita: Acordo Mercosul-União Européia.

Arthur Rizzi*

O acordo com a União Europeia é até agora o primeiro e único acerto do ponto de vista econômico do Macumbeiro do Itamaraty, Ernesto Araújo. Seu significado geopolítico, entretanto, é o mais importante: Adesão a OCDE e o abandono do status de país em desenvolvimento da OMC + Juntar-se aos EUA na guerra econômica contra a China + Acordo Mercosul-UE significam o sepultamento total do BRICs para nós, que agora se torna RICs. Ao menos no que tange ao Brasil, e isto quer dizer que integramos totalmente a zona de influência dos Estados Unidos.

Do ponto de vista estritamente econômico, não há nenhuma razão para dar as costas aos BRICs e sair da condição de país em desenvolvimento na OMC. As razões são todas geopolíticas: Os BRICs de um ponto de vista econômico resume-se cada vez mais a China que dividia esse posto com o Brasil, e de um ponto de vista militar é a junção da Rússia, da China e da Índia.

A OMC é um reduto onde a China tem muita influência. Por isso Trump quer tirar o Brasil dela e enfurnar na OCDE onde eles delimitam regras econômicas para os membros mais fracos seguirem (mas que por alguma razão misteriosa eles não seguem… Curioso, não?) Ao enfraquecer o BRICs economicamente tirando o Brasil (8ª economia do mundo, a mais importante depois da China), enfraquece-se assim o projeto Russo de um Banco dos BRICs, alternativo ao FMI – Fundo Monetário Internacional.

Não é curioso que a direita antiglobalista mais uma vez ajudou os globalistas? O FMI sempre fora apontado como um órgão do globalismo, um de seus braços econômicos e, ora, vejam só: É um braço da guerra híbrida dos Estados Unidos. Lembram-se?

O que a nossa secular tradição diplomática, seguindo o legado do Barão do Rio Branco, faria? Provavelmente manter os BRICs, entrar na OCDE e ficar na OMC. Seria a junção do melhor dos mundos. Ainda que não fosse possível, certamente se esforçaria para consegui-lo. E, não conseguindo, optaria pela saída conservadora, que é preferir o conhecido ao desconhecido. O ponto é que em momento algum nossa diplomacia tentou isso. Mas aqui, com o ministro Araújo, infelizmente, não estamos no reduto de nossa tradição diplomática mais.

O acordo entre o Mercosul e a União Européia vinha em banho-maria há 20 anos, e surpreendeu a todos ser resolvido tão rápido na data de hoje. Ora, quando um acordo sai rápido demais depois de um longo período de negociação é sempre preocupante. Nós górdios muito longevos não costumam ser resolvidos assim a golpe de canetada e frase feita. O acordo estava se arrastando a anos pois os europeus sempre pediam algo que os governos anteriores não queriam dar. Resta saber se:

  • a) A conveniência geopolítica de enfraquecer os BRICs sacando o Brasil dele falou mais alto levando os europeus a baixarem exigências. O que eu particularmente duvido muito. A briga Trump-União Européia é em grande parte “prosopopeia flácida” e miudezas. Na hora das crises os americanos sabem que só podem contar com os europeus e os europeus com os americanos. As brigas entre ambos é muito mais sobre o “como” organizar a ordem liberal conduzida pelos Estados Unidos e neutralizar a China, em que Trump exige um papel maior para os Estados Unidos do que qualquer outra coisa, neste caso, oposta ao Trump, a União Européia é o pulmão do internacionalismo cosmopolita hoje.
  • b) Se diferente dos governos anteriores este ofereceu aquilo que os anteriores não queriam dar. Enquanto isso não fica claro, observemos a big picture:

Com o Brasil abrindo mão do status de país em desenvolvimento na OMC e entrando na OCDE (o que não deve tardar muito), não poderemos adotar medidas heterodoxas ou criativas, como as que Trump vem tomando com seu protecionismo, por exemplo (Mas quem tem colhões para cobrar algo dos EUA?).

Sendo obrigados a adotar apenas medidas ortodoxas, tendo a temer os efeitos sobre a indústria brasileira, agora que o BNDES está sendo desmontado. Os industriais brasileiros estão animados com a queda das barreiras tarifárias para entrar na Europa; mas estão vendo apenas metade do quadro. Não estranharia se em breve eles não começassem a murmurar e a reclamar do acordo. Se os resultados nesse caso, forem ruins, teremos bem pouca margem de defesa econômica graças a entrada na OCDE.

Para o Mercosul, um produto é considerado do bloco se tem 60% de seus componentes fabricados dentro do bloco. Para a União Europeia apenas 30%. Ou seja, um produto feito 70% recursos americanos mas com 30% de peças alemãs pode entrar com os benefícios do acordo no nosso mercado. Isso é no mínimo digno de atenção para que ninguém extra bloco europeu goze das vantagens do acordo.

Com as hostilidades com a China e o afastamento dos BRICs, os chineses devem se voltar para Angola e Moçambique, onde eles têm empreendimentos agrícolas que podem no longo prazo eliminar a necessidade do nosso agronegócio. E eles já começam a olhar para outros países da África como possíveis alternativas às nossas commoditties.

Em resumo, O acordo Mercosul-União Européia é bom e pode ajudar a economia brasileira a crescer até 2% no cenário mais otimista para 2020-2021. Preocupam-me, ainda, em resumo os seguintes tópicos:

a) Os termos do acordo ainda obscuros quanto aos seus efeitos.
b) O quadro geral em que esse acordo se insere.

Mais perto do globalismo:

Não tardou para que os notáveis do olavo-bolsonarismo começassem a louvar o acordo com a União Européia. Os mesmos próceres que não menos de alguns meses atrás a reputavam como “a ponta de lança do globalismo”, como é o caso do olavista Leandro Ruschel:

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Fonte: Twitter

Como a direita americanista poderá seguir apoiando movimentos direitistas euroscépticos que querem demolir a União Europeia, apoiar o Brexit e, simultaneamente, torcer para o acordo de livre-mercado com a UE prosperar e salvar o governo Bolsonaro da recessão? De que vale uma União Européia sem Alemanha, Inglaterra, França e Itália? Como os mesmos que esbravejavam contra o Acordo de Paris e as demarcações de reservas indígenas poderão continuar a gritaria se o acordo obriga o Brasil a continuar membro dessas pautas? Mistério.

Um passo mais dado em direção a se tornarem neoconservadores (à americana), e isso significa um passo mais em direção ao globalismo. Esperem só até descobrir que a OCDE é uma das maiores promotoras da agenda LGBT.


Para mais artigos sobre o assunto:

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A indústria é mesmo tão importante? E de qual indústria estamos falando?

*Ricardo Carvalho

Uma das passagens mais célebres da Riqueza das Nações de Adam Smith é seu relato sobre o funcionamento das fábricas de alfinetes e a explicação que oferece para a elevada produtividade que nelas observou: a divisão do trabalho, isto é, a especialização dos trabalhadores em diferentes etapas do processo produtivo, que lhes permitia ganhar tempo, aprimorar suas habilidades e criava oportunidades para a inovação técnica.

O próprio Smith reconhecia não ser mera coincidência que essa sua descoberta se desse no contexto de uma manufatura, não de um empreendimento agrícola ou de serviços. Pois, segundo ele, “a natureza da agricultura não comporta tantas divisões do trabalho, nem uma diferenciação tão grande de uma atividade para outra, quanto ocorre nas manufaturas”. Em outras palavras, a produção de bens manufaturados oferece, em virtude da sua maior complexidade, mais oportunidades de especialização do trabalho dentro das empresas e entre empresas. Com isso, possibilita maiores ganhos de produtividade, contribuindo de maneira especial para o processo de desenvolvimento econômico.

Economistas de diferentes épocas apontaram outras razões pelas quais, como sintetizou  categoricamente Nicholas Kaldor, “o tipo de crescimento econômico que envolve o uso de tecnologia moderna e que resulta em alto nível de renda per capita é inconcebível sem o desenvolvimento de uma moderna indústria manufatureira”. A principal dessas razões é o fato de a indústria, ao contrário dos demais setores da economia, apresentar, geralmente, retornos crescentes de escala, o que significa que aumentos nas quantidades de fatores de produção empregados produzem aumentos mais do que proporcionais na produção total. Além disso, nota-se também que a indústria manufatureira promove, na sua relação com outros setores da economia, um papel importante na difusão de inovações tecnológicas, impactando positivamente na produtividade geral.

Por essas razões, uma experiência mais ou menos intensiva de industrialização foi experimentada — e considerada politicamente prioritária — por todos os países que lograram se desenvolver. Por meio dela, é criado um processo cumulativo de desenvolvimento, no qual o aumento inicial da produtividade, resultante do crescimento da indústria, melhora a competitividade das exportações, e o montante exportado, então, aumenta em razão de sua maior competitividade. Por fim, com o aumento no montante exportado, a produtividade média torna a aumentar, em razão dos próprios retornos crescentes de escala que caracterizam a indústria exportadora, e assim sucessivamente. Durante esse processo, os ativos baseados em conhecimento e inovação, usados mais intensivamente nas manufaturas, são difundidos para os demais setores da economia. Essa é, em resumo, a dinâmica de desenvolvimento proporcionada pela industrialização intensiva.

Há ainda outros motivos — de defesa, segurança, estabilidade macroeconômica e integração social — que fizeram com que estadistas de diferentes épocas compreendessem o papel único e insubstituível da indústria de transformação na superação do atraso socioeconômico e na afirmação da soberania nacional, sobretudo em países grandes e ricos em recursos naturais, como é o caso do Brasil.  Não tenho intenção, neste breve artigo, de me aprofundar em todas as razões pelas quais a “indústria importa”, razões que são capazes de preencher livros inteiros. Quero, apenas, após tê-las sugerido brevemente, tecer algumas considerações sobre o problema prático representado pela desindustrialização brasileira.

Em primeiro lugar, vejamos alguns fatos sobre ela. Em 1980, a indústria de transformação correspondia a 33% do PIB nacional. Hoje, não passa de 10%. A produção está praticamente estagnada desde 2010. As exportações industriais, que viveram um período de expansão no início da década passada, hoje estão em situação de letargia, sobretudo em setores de alta tecnologia, fazendo com que o déficit comercial do setor seja crescente. Alguém poderia contra-argurmentar, como frequentemente se faz, que a desindustrialização brasileira apenas segue um fenômeno global. Trata-se, porém, de um grande engano, como buscaremos explicar.

Em países europeus, nos Estados Unidos ou no Japão, por exemplo, fala-se muito em “desindustrialização”, mas o termo diz respeito apenas a uma redução da participação do emprego industrial no emprego total. Essa redução se dá justamente por conta dos ganhos de produtividade mais elevados na indústria em relação aos outros setores econômicos. É um sintoma de sua vitalidade, não de sua fraqueza. Pois, ao se tornar cada vez mais eficiente, a manufatura desses países necessita de menos trabalhadores para produzir quantidades iguais, de modo que reduz sua participação no emprego, mas a conserva no PIB e nas exportações. Ademais, embora gere menos empregos diretos, os que ainda gera são de maior qualidade e mais bem remunerados, e também contribui decisivamente para gerar empregos de qualidade no restante da economia, por conta  dos serviços e insumos sofisticados que demanda.

Definitivamente, não é esse o caso da indústria no Brasil. Aqui, não apenas o setor secundário como um todo está se reduzindo, como sua qualidade relativa está piorando. Encolhem as atividades mais inovadoras e intensivas em tecnologia, ao mesmo tempo em que avança um processo de desnacionalização das poucas indústrias sofisticadas e exportadores que ainda restam, reduzindo nossas possibilidades de crescimento econômico autossustentado no futuro. Também se constata, empiricamente, que os empregos destruídos em razão da desindustrialização são, quase sempre, substituídos por empregos de menor qualidade. Reduz-se, assim, a produtividade geral da nossa economia e as possibilidades de progresso econômico oferecidas aos nossos concidadãos. É essa a realidade, já tão conhecida e comentada, de um país no qual é cada vez mais comum encontrar engenheiros sobrevivendo em subempregos ou atividades de baixa qualificação. Cabe perguntar como, afinal, poderíamos esperar outro resultado, numa economia em que há cada vez menos dinamismo industrial e investimento em infraestrutura. Onde esperávamos que essa mão-de-obra qualificada se empregasse?

É urgente que as pessoas realmente interessadas no destino do país se mobilizem para encontrar meios de reverter o atual quadro de regressão produtiva. Foi com muito sangue, suor e lágrimas de nossos antepassados que o Brasil se tornou uma economia industrial, grande e diversificada. Não temos o direito de permitir que os enormes custos sociais incorridos nesse processo sejam jogados no lixo, assistindo passivamente enquanto compatriotas perdem empregos industriais qualificados e são forçados a regredir para ocupações de menor produtividade, ou — no caso dos mais afortunados — a sair do país por falta de alternativas. É preciso agir, e agir com efetividade. Para isso, proponho algumas reflexões sobre a natureza da nossa indústria, seus problemas, e as transformações necessárias para que ela embarque em uma nova era de desenvolvimento.

Antes de tudo, é preciso deixar claro um ponto que, talvez por ser politicamente sensível, com frequência permanece oculto no debate: para que a nossa indústria cresça, será indispensável que ela mude. Não é possível continuar alimentando ilusões, tão influentes em governos recentes, de que a indústria brasileira poderá ser salva por uma política meramente defensiva, que busque apenas proteger, a custos sociais extraordinariamente elevados, nosso parque industrial atualmente existente, isolando-o cada vez mais das correntes internacionais de comércio e, assim, garantindo-lhe certa sobrevida no curto prazo, mas tornando-o ainda mais defasado em relação à competição internacional. Precisamos, ao contrário, criar condições que favoreçam o crescimento das nossas indústrias dinâmicas e exportadoras, em detrimento de manufaturas obsoletas — frequentemente dominadas por cartéis transnacionais — que não tem e nunca terão condições de sobrevivência em um ambiente concorrencial, por isso vivem de explorar oligopolisticamente nosso mercado interno, o qual querem, obviamente, manter o mais protegido possível.

Para entender essa situação e a transformação necessária, precisamos recordar como foi construído o parque industrial brasileiro, resultante de um longo e bem-sucedido processo de substituição de importações. Esse processo, por sua própria natureza, consiste em internalizar a produção daquilo que o país demanda do exterior, para atender domesticamente às suas próprias necessidades. A indústria por ele criada, portanto, é uma indústria voltada para o mercado interno e pouco integrada ao resto do mundo. É um parque industrial grande e diversificado, mas pouco especializado em termos da economia global. Numa situação inicial de subdesenvolvimento, na qual o país precisa, primeiramente, adquirir escala no seu parque industrial, urbanizando-se e reduzindo sua dependência externa, a substituição de importações é a estratégia mais adequada. Entretanto, uma vez consolidado esse processo, é necessário fazer uma transição para um modelo exportador de manufaturados, integrando essa indústria ao comércio internacional. Tal transição implica uma reestruturação profunda do parque produtivo, por meio da qual são selecionados alguns setores competitivos com condições de projetar-se internacionalmente, em detrimento de outros menos eficientes que não podem sobreviver.

A grande tragédia brasileira, se formos sintetizá-la em um parágrafo, está no fato de não termos sido capazes de fazer a transição adequada, ou completa, para um modelo exportador de manufaturados. Ao contrário, talvez tenhamos levado o velho modelo de substituição de importações longe demais. Ainda alimentamos, em nosso país, a “ilusão autárquica” de que seremos capazes de produzir internamente tudo aquilo de que necessitamos. Essa ilusão, combinada com um cenário macroeconômico de juros indecentemente altos e uma tendência crônica e cíclica à apreciação cambial, só poderia ter um resultado desastroso para a indústria, especialmente em seus segmentos verdadeiramente favoráveis ao desenvolvimento econômico nacional, os quais não querem depender de subsídios governamentais e de protecionismo para sobreviver, mas, ao contrário, anseiam por projetar-se no exterior e conquistar novos mercados, e para isso também necessitam de condições favoráveis para importar insumos e bens de capital de qualidade.

Os governos erram terrivelmente quando, em vez de tomar medidas visando corrigir as distorções do ambiente macroeconômico — inclusive por meio de uma necessária e saudável abertura comercial, conduzida na velocidade e nos termos de nosso interesse –, tomam medidas paliativas de proteção a setores específicos, onerando o consumidor e cadeias produtivas inteiras que poderiam se beneficiar de insumos mais baratos importados do exterior, mas são forçadas a comprar nacionalmente. Assim, a pretexto de salvar alguns empregos de baixa qualidade, tais governos impedem o surgimento de diversos outros de qualidade superior, colocando o país na contramão de uma indústria global cuja eficiência decorre, justamente, da integração comercial e do fatiamento da produção entre diversos países, beneficiando-se da complementariedade de suas economias. Essa atitude de fechamento generalizado e sem critérios contribui, ainda, para manter a taxa de câmbio excessivamente valorizada, pois faz com que as importações sejam menores do que seriam em uma situação de maior abertura comercial.

Portanto, é preciso ter clareza sobre a natureza do problema estrutural que estamos enfrentando. Nossa intenção, neste artigo, não foi adentrar nos meandros do complexo debate sobre as políticas industrial e macroeconômica mais adequadas para fazer frente aos atuais problemas brasileiros, mas apenas apontar alguns critérios que devem servir para orientá-lo. Esses critérios decorrem das respostas às duas perguntas sugeridas no título deste artigo. À primeira delas, sobre se a indústria deve ser considerada mesmo tão fundamental, respondemos com um inequívoco e sonoro “sim”. Na atual conjuntura, em que já se vê ganhar força uma “ideologia da reprimarização” empenhada em justificar a regressão produtiva nacional como um fenômeno necessário e positivo, nos parece necessário insistir nesse ponto. À segunda questão, propomos que se responda de maneira igualmente clara e inequívoca, para que nossa reação tenha foco: não é qualquer indústria que nos interessa, muito menos uma indústria cartelizada, fechada e dependente de subsídios para sobreviver. Interessa a indústria competitiva, intensiva em tecnologia e integrada ao comércio internacional. É o crescimento dela que criará condições para a retomada do nosso desenvolvimento econômico. E para que ela cresça, será inevitável que a outra diminua.


Ricardo da Silva Carvalho é economista e pesquisador em História Econômica.