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Alguns apontamentos acerca do debate sobre o cálculo econômico no socialismo.

Texto originalmente publicado no Social Democracy in 21st century e traduzido por Reação Nacional.

Uma premissa crucial de Ludwig von Mises no seu argumento contra uma economia de comando era o seguinte:

“[…]von Mises (também como todos os outros naqueles tempos) visualizava o socialismo tendo como objetivo operar sob a soberania do consumidor. Ele explicitamente exclui a soberania do planejador—a determinação autoritária da produção – e consequentemente as relações de escassez entre todos os bens e serviços na base da preferência subjetiva dos planejadores. A tarefa da economia socialista na percepção dele era maximizar o bem-estar social na base  da preferência subjetiva dos cidadãos. E essa é a razão pela qual ele achou que o socialismo era incapaz de fazê-lo.” (Keizer 1987: 115).

E é bastante  óbvio que os antigos estados comunistas como a União Soviética não operava sua economia na base do princípio da soberania do consumidor.  Elas eram economias de  comando com decisões políticas tomadas pelos planejadores. E essa é a razão pela qual o debate sobre o cálculo econômico socialista é mais um exercício acadêmico. Se alguém presume que a produção em uma economia de comando é planejada pelos administradores Segundo seus próprios padrões e desígnios, e não primariamente maximizar o bem-estar social na base da preferência individual dos cidadãos” então nós temos um debate diferente.

Por exemplo, os soviéticos  desenvolveram um programa espacial  que requeria planejamento e produção em larga e complexa escala e seus êxitos não foram insignificantes:

“Over its sixty-year history, … [sc. the Soviet space program] was responsible for a number of pioneering accomplishments in space flight, including the first intercontinental ballistic missile (1957), first satellite (Sputnik-1), first animal in space (the dog Laika on Sputnik 2), first human in space and Earth orbit (cosmonaut Yuri Gagarin on Vostok 1), first woman in space and Earth orbit (cosmonaut Valentina Tereshkova on Vostok 6), first spacewalk (cosmonaut Alexey Leonov on Voskhod 2), first Moon impact (Luna 2), first image of the far side of the moon (Luna 3) and unmanned lunar soft landing (Luna 9), first space rover, first space station, and first interplanetary probe.”

A união soviética criou uma economia industrial que derrotou a Alemanha Nazista (com a ajuda do Ocidente), e alcançou  crescimento real de produtividade  em bens de consumo. A evidência empírica mostra que a União Soviética “funcionou”  no sentido de que foi capaz de aumentar a produção real por algumas décadas, como decidido pelos planejadores, embora viesse a enfrentar problemas muito sérios a partir da década de 70 (para literatura recente, cf. Allen 2003; Gregory and Lazarev 2003; Gregory 2004; Davies 2004). E note que as evidências tardias NÃO SÃO UM ENDOSSO, OU APOIO AO BRUTAL SISTEMA DE ECONOMIAS COMANDADAS  SOVIÉTICO, mas meramente considerações acerca de alguns fatos. Mesmo que no longo prazo ela tenha sido ineficiente e os problemas econômicos se tornaram severos, o planejamento central soviético funcionou no curto e médio prazo, apesar da estupidez, crueldade e incompetência de seus comandantes como Stalin que impôs sofrimentos enormes só comparados ao da Alemanha Nazista .

BIBLIOGRAFIA

Allen, Robert C. 2003. Farm to Factory: A Reinterpretation of the Soviet Industrial Revolution. Princeton University Press, Princeton, N.J. and Oxford.

Davies, R. W. 2004. Years of Hunger: Soviet Agriculture 1931-1933. Palgrave Macmillan, Basingstoke.

Gregory, Paul R. 2004. The Political Economy of Stalinism: Evidence from the Soviet Secret Archives. Cambridge University Press, Cambridge, U.K. and New York.

Gregory, P. R. and V. Lazarev. 2003. The Economics of Forced Labor: The Soviet Gulag. Hoover Institution Press, Stanford, CA.

Keizer, W. 1987. “Two Forgotten Articles by Ludwig von Mises on the Rationality of Socialist Economic Calculation,” Review of Austrian Economics 1.1: 109–122.

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Marx falhou ao prever a queda do capitalismo

Texto originalmente postado em Social Democracy in 21st Century e traduzido por Reação Nacional.

Marx no volume 1 do Capital previu o fim do capitalismo numa revolução proletária, por algumas razões:

Primeiro, a classe dos proletários apenas cresce sob o capitalismo, alcançando grandes números. Há também uma grande concentração de capital e tendência ao monopólio. A miséria, opressão e exploração desses proletários cresce continuamente, e adicionalmente  a isso há uma grande e crescente classe, que é o exército reserva de trabalho industrial (trabalhadores desempregados), que é feita de desempregados pelo crescimento do uso de maquinaria e automatização (Cf. Capítulos 15 e 25 do volume 1 do Capital).

Então a teoria de Marx prevê uma crescente classe de proletários e uma crescente classe de desempregados.

Eventualmente, o número desses trabalhadores oprimidos cresce a tais números que eles se organizam (ganham consciência de classe) e derrubam o capitalismo, que se tornara totalmente monopolista.

Isso está muito claro nas previsões de Marx ao fim do volume 1 do Capital:

“Em consonância com o numero cada vez mais diminuto de magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, cresce a massa dos miseráveis, a opressão, a escravidão, a degradação, a exploração; mas com isso cresce também a revolta da classe trabalhadora, uma classe sempre crescente em números, e disciplinada, unida, organizada pelos mesmos mecanismos do processo capitalista de produção. O monopólio do capital se torna um fardo sob o modo de produção, o qual nasceu e floresceu com ele, e debaixo dele. A centralização dos meios de produção e socialização do trabalho ao fim alcança um ponto onde eles se tornam incompatíveis com seu tegumento capitalista. Este tegumento é quebrado em pedaços. A trombeta da propriedade privada capitalista ressoa. Os expropriadores são expropriados.” (Marx 1906: 836–837).

Nós precisamos também notar que a miséria, a opressão, a escravidão, a degradação e a exploração dos trabalhadores sempre crescem por que:

(1) A tendência do capitalismo é manter o salário real ao nível de subsistência, que é o valor de manutenção e reprodução da força de trabalho (mais sobre isso, clique aqui);

(2) O maquinário deveria em tese aumentar a intensidade e o caráter árduo do trabalho para o proletariado (veja Capítulo 15 do volume 1), e também aumentar o emprego das mulheres e crianças (embora leis governamentais possam conter isso em alguma extensão);

(3) O exército reserva de trabalhadores (desempregados) cresce continuamente, o que ajuda a manter os salários reais no nível de subsistência.

(4) O volume 3 do Capital adiciona a isso a tendência de queda das taxas de lucros.

Embora, alguns marxistas modernos agora disputem quão importante é a tendência da queda da taxa de lucros para a teoria do colapso final do capitalismo, como a Çenfase a isso pode ser mais o resultado da edição tendenciosa que Engels fez do volume 3 do Capital.

De qualquer modo, estes fatores acima descrevem porque o capitalismo vai colapsar na teoria de Marx.

Todavia essa teoria foi completamente contraditada pela evidência histórica. A classe trabalhadora eventualmente se estabilizou e a sociedade experimentou o crescimento de uma grande e próspera classe média com mobilidade social. As taxas de desemprego no capitalismo são apenas o resultado cíclicos dos ciclos de negócios: mesmo no século XIX, as taxas de desemprego não cresceram ou cresceram no longo prazo, como a teoria de Marx previu, mas simplesmente circundaram ao redor de um ponto abaixo do pleno emprego como John Maynard Keynes demonstrou na sua Teoria Geral do juro, do emprego e da moeda.

A tendência de longo prazo no capitalismo, mesmo no século 19, foi o incremento massivo do salário real, que ultrapassou o nível de subsistência, mesmo para os trabalhadores (veja aqui e aqui e aqui [Eucken]). O crescimento do salário real e o aumento da renda disponível aos trabalhadores no capitalismo também permitiram uma massiva capacidade de produção de novas mercadorias e novas oportunidades de emprego (e.g.,especialmente no setor de serviços).

Os países ocidentais mais desenvolvidos como Estados Unidos e Reino Unido mostraram-se mais resistentes ao clamor revolucionário do que as retardatárias China e Rússia contrariamente ao previsto por Marx. E mesmo as comoções comunistas  em Itália e a Alemanha deram-se por meio das crises da Segunda Guerra e por invasão militar, o que não aparece nas previsões de Marx (como eu pontuei aqui).

A grande depressão não é explicada pelas teorias de Marx: ao contrário, a depressão foi apenas um mau arranjo contingente e circunstancial de políticas econômicas provocando a pior crise da história do capitalismo. É perfeitamente explicada tanto pela teoria keynesiana do ciclo como pela teoria financeira de Minsky (Nota do Tradutor: Eu particularmente gosto da minha atualização da teoria do ciclo ropkeana aliada a tese de Minsky para explicar a crise de 29, a qual você pode ler aqui e aqui), para o qual nós podemos adicionar uma dinâmica de deflação por dívida (embora Keynes estivesse bem consciente da deflação por dívida também).

Um crítico meu, Jehu diz:

“Primeiro, para ser claro, Marx nunca previu o fim do capitalismo; ele previu a quebra do sistema de produção com base no valor de troca […] Porque a relação entre valores e preços foi cortada pelos países industrializados em 1930 precisamente para salvar o capitalismo,para prevenir seu total colapso. Como o autor está plenamente ciente, ou deveria saber, as economias das nações industrializadas colapsaram em 1930 — Nós chamamos esse colapso de Grande Depressão. A evidência histórica oferece muitos recursos para mostrar que a economia desses países apenas começaram a se recuperar quando eles abandonaram o padrão-ouro e cortaram o valor das mercadorias do seus preços nominais (moeda fiduciária)”.
Jehu, “Four Questions for LK on Money,” The Real Movement, February 20, 2016.

Isto é um grande mal-entendido e uma perversão da teoria de Marx.

Marx não previu o corte entre a “relação valor-preços” depois de seu tempo, como nós vimos no volume 3 do Capital. Os preços no capitalismo do século XIX   divergiam do seu verdadeiro valor-trabalho porque os preços de produção se tornaram as âncoras para o sistema de preços.

No volume 1 do Capital onde Marx assume que as mercadorias tendem a se trocar no seu verdadeiro valor-trabalho, Marx não faz nenhuma previsão do corte da “relação entre valores e preços,” e sua teoria de porque capitalismo vai colapsar não contem uma teoria do corte da “relação preço-valor.”


 

Por que a mais-valia está errada? (em poucas palavras)

Texto originalmente postado em Social-Democracy in 21st century e traduzido por Carlos Magno/GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes.

A teoria do valor-trabalho, como apresentada na primeira parte do primeiro volume d’O Capital, está errada pelas seguintes razões: (1) o argumento a priori a favor da teoria do valor-trabalho, no primeiro volume d’O Capital de Marx, é um non sequitur e, depois, se contradiz; (2) Marx enfrenta o problema de reduzir todo heterogêneo trabalho humano a uma homogênea e abstrata unidade de tempo de trabalho socialmente necessário; ele, porém, não explica adequadamente como isso ocorre; (3) mesmo que Marx pudesse superar (1) e (2), ele enfrenta os problemas de definir o valor-trabalho nos casos de produção conjunta, em que é possível que o valor-trabalho de uma commodity possa ser indefinido, nulo, ou negativo; (4) não há razão pela qual o trabalho assalariado de homens livres deveria ter um poder especial que animais, escravos ou máquinas não tenham, sem que se recorra ao idealismo quebrando a base fundamental do materialismo dialético; (5) a moeda fiduciária moderna impugna a teoria marxista do dinheiro, e também sua teoria do valor-trabalho, porque, na teoria de Marx, o dinheiro deve ser uma commodity produzida; há muito tempo, porém, deixou de sê-lo, conforme sabemos; (6) a realidade empírica é que os preços não são firmados por meio do abstrato tempo de trabalho socialmente necessário de commodities, ou do dinheiro enquanto commodity produzida; e (7) o problema de que o valor excedente do trabalho (se este conceito sequer pudesse ser adequadamente defendido) não explicaria, de fato, os lucros financeiros, porque tais lucros podem existir numa economia escravista e, muito provavelmente, inclusive numa economia em que as máquinas realizem boa parte do trabalho. Esses pontos, em conjunto, são devastadores para a teoria do valor-trabalho; porém, basta que um só seja verdadeiro para que se demonstre que a teoria de Marx, tal como aparece no primeiro volume d’O Capital, é equivocada. Abaixo, hei de rever alguns dos problemas mais importantes.

No ponto (1), pode-se ver que o argumento de Marx em favor da teoria do valor-trabalho é um non sequitur. Não é óbvio de modo algum que as trocas de commodities constituam uma igualdade tal como Marx as vê. De fato, ele depois admite, no Capítulo 1, que em algumas sociedades humanas as commodities podem simplesmente ser trocadas, enquanto valor de uso, por valor de uso (Marx 1906: 75) e, no Capítulo 3, que a maioria das commodities, normalmente, não são trocadas em seus iguais e verdadeiros valores de trabalho (Marx 1906: 114). Bem, há uma igualdade nas trocas no sentido de que, digamos, 2 ovelhas podem ser trocadas por 1 vaca; e só se trocam duas ovelhas, nada mais, e vice-versa. Mas este é um sentido trivial de igualdade, que não ajuda Marx. Seu salto à conclusão de que deve haver uma adicional, fundamental unidade de tempo de trabalho homogêneo, em que ambas as commodities podem ser medidas quantitativamente, e pela qual ambas podem ser mostradas como sendo equivalentes, simplesmente não decorre: é um non sequitur. É possível que não exista o valor-trabalho como Marx o definia; seu argumento era desonesto, e cometia uma singela falácia lógica. Posteriormente, ele admite que o valor-trabalho não pode ser completamente separado ou “abstraído” do valor de uso, de modo que o argumento inteiro se contradiz.

No ponto (2), Marx sustenta que todo trabalho qualificado ou especializado é um múltiplo do simples trabalho abstrato, e que todo trabalho é redutível a uma significativa, comum unidade de trabalho homogênea. Ele não explica adequadamente como fazer isso. Primeiro, sugere que se pode conduzir a redução do trabalho especializado a uma simples unidade de trabalho abstrato de um modo físico ou científico, examinando o “dispêndio de inteligência, nervos e músculos humanos”. Mas então Marx declara que: “A experiência mostra que essa redução está sendo feita constantemente. Uma commodity pode ser produto do trabalho mais qualificado, mas seu valor, que a equipara ao produto do simples trabalho não-qualificado, representa uma quantidade definida tão só deste último. As diferentes proporcões em que os diferentes tipos de trabalho se reduzem ao trabalho não-qualificado como seu padrão, são estabelecidas por um processo social que se desenrola por trás das costas dos produtores e, em consequência, parece ser fixado pelo costume” (Marx 1906: 51-52). No entanto, porquanto Marx admite que a maioria das commodities sequer são trocadas por seus verdadeiros valores de trabalho, esse argumento não funciona. E tanto mais porque contradiz sua abordagem anterior: se o único modo efetivo de determinar o valor do trabalho qualificado não é senão olhando para a troca mercantil real dos produtos do trabalho qualificado pelos produtos do trabalho não-qualificado, então por que se preocupar em explicar a diferença em termos de “dispêndio de inteligência, nervos e músculos humanos”? Além do mais, se pode-se usar a troca dos produtos do trabalho qualificado pelos produtos do trabalho não-qualificado para determinar o valor do trabalho qualificado como um múltiplo do trabalho simples, então o argumento é circular. Os valores de troca determinam os valores de trabalho, mas supõe-se que os valores de trabalho sejam uma fonte dos valores de troca.

No ponto (3), a teoria do valor-trabalho enfrenta o problema da produção conjunta: se um processo de produção produz mais que uma commodity, senão duas ou várias, então como se calcula o tempo de trabalho socialmente necessário? (veja-se Brewer 1984: 23; Nitzan e Bichler 2009: 101-102) Em particular, Ian Steedman sustentava que a produção conjunta deixa aberta a possibilidade de que alguns valores de trabalho de commodities produzidas mediante produção conjunta podem ser indefinidos, nulos, ou negativos (Nitzan e Bichler 2009: 101).

No ponto (5), a moeda fiduciária moderna refuta totalmente a teoria de Marx do valor-trabalho, porque, para que sua teoria funcione, o dinheiro precisa ser uma commodity produzida, com um valor-trabalho. Mas o dinheiro, há muito tempo, cessou de ser uma commodity produzida e é, agora, moeda fiduciária. Esse é um dos problemas devastadores quanto à teoria marxista; e é suficiente, em si mesma, para refutar tal teoria , como se mostra aqui e aqui. Por exemplo, Marx pensava que os preços são determinados (pelo menos) [1] pelo valor-trabalho de longo prazo do ouro, conforme determinado pelo abstrato tempo de trabalho socialmente necessário para a produção do ouro e [2] por como isto se relaciona, em câmbio, com o valor-trabalho de outras commodities (Marx 1906: 108). Essa ideia, todavia, se levada a sério, requereria que o valor de troca real do ouro, enquanto dinheiro, contra outras commodities, gravitasse em torno do valor de longo prazo do abstrato tempo de trabalho socialmente necessário para produzir-se o ouro. Esse ponto é importante, e enfraquece totalmente as alegações dos apologistas marxistas, segundo as quais Marx nunca pretendeu, no primeiro volume d’O Capital, que o valor-trabalho fosse um determinador dos preços individuais das commodities. Mas agora, no mundo moderno, temos a moeda fiduciária, e tal teoria é inútil: a teoria de Marx, de como os valores de trabalho determinam os preços, é de todo impossível. Tudo considerado, não se pode levar a sério a teoria marxista do valor-trabalho: é equivocada, ou sub-determinada de tantas formas, bem como refutada pela realidade da moeda fiduciária moderna.

O mal menor – Eleição 2018

Muito se ouve falar em meios eclesiais em “votar no mal menor”, contudo, temos que nos lembrar que num mundo que já não conta mais com o reinado social de Cristo, escolher em eleições o caminho menos ofensivo á Doutrina Social da Igreja nem sempre é tarefa fácil. Primeiro porque nem sempre aquilo que um candidato diz em debate, em propaganda ou no seu programa de governo é necessariamente verdade. Segundo, porque em geral, todas as doutrinas políticas em voga (quando se tem alguma, pelo menos) são heréticas, de modo que escolher o mal menor nem sempre é algo que se visualiza num primeiro olhar.

Desde 2002 o Brasil passa por um momento muito esquerdista, com propaganda comunista às claras e o PT só não conseguiu chegar efetivamente ao socialismo – que deveria ser aplicado segundo os cânones do modelo bolivariano aplicado na Venezuela – porque não conseguiu desmontar a máquina fisiológica e matreira da dupla PMDB-PP. Dupla maquiavélica não no sentido pejorativo de maldoso, mas sim no sentido filosófico da palavra. Todo fisiologismo é um adesismo do poder, que é visto ou como fim em si mesmo, ou como meio de saquear o povo e pô-lo ao seu serviço. Seja de uma forma ou de outra, Santo Tomás de Aquino no De regimine principum (De regno) já havia demonstrado que estas são formas degeneradas de governo, pois não têm como fim o bem comum.

Além do mais, o socialismo já foi criticado em inúmeras encíclicas, seja como ideia ou ideologia, seja como caso concreto; através do qual posso citar tanto a Divini Redemptoris de Pio XI, ou ainda o Decretum contra communismum do Papa Pio XII, quanto na Notre Charge Apostolique em que há a condenação da parte de Pio X a um caso concreto na França de um movimento “socialista cristão”, o Sillón. Felizmente, a partir das afamadas “Jornadas de Junho” em 2013, o quadro começou a mudar.

Mas será que a alternativa que nasceu de 2013 que levaria aos protestos de 2015 e ao impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff e o fim de 13 anos de petismo representa o mal menor? Se observado em termos relativos, sim, sem dúvidas! Não há dúvidas de que EM CERTO SENTIDO MATERIAL a coalizão liberal formada pelo MBL, pelo EPL e pelos think tanks liberais como o Instituto Mises Brasil são menos ruins que o comunismo e o socialismo. Mas eles NÃO são o que há de menos ruim a disposição. Muitos ditos católicos são libertários ou liberais clássicos, adeptos do laissez faire promovido pelos supracitados grupos. Se esquecem, contudo, de que a Igreja condena fortemente o liberalismo, basta consultar as encíclicas Mirari Vos do papa Gregório XVI, Quanta Cura e Syllabus de Pio IX, Rerum Novarum de Leão XIII e Ubi arcano Dei consilio de Pio XI. E como já mostrei neste artigo que traduzi para a The Distributist Review, tal orientação não mudou após o Concílio Vaticano II. O papa Francisco outro dia mesmo reafirmou isso em advertência à vários bispos.

Ora, se liberais não são o caminho, qual é o caminho então? Depende! No Brasil temos hoje pelo menos quatro formas de pensar a política e especialmente a economia. Temos a decadente via socialista/comunista, que como já vimos é anticristã e quem a defende sabendo de todas as implicações filosóficas do marxismo, acaba excomungado lata sententiae. O liberalismo não está muito atrás, razão pela qual o muito prestigiado historiador Thomas Woods Jr; que escreveu o bom livro “Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental“, acabou se tornando persona non grata para os católicos americanos, ao desdenhar e torcer e retorcer a lógica para inserir o liberalismo dentro da DSI e da escolástica, como em “The Church and the market“. Consta que recentemente o mesmo desistiu disso e passou a desdenhar a própria doutrina social e, inclusive, negar a infalibilidade papal nessa matéria. O que é muito triste, mas não deixa de ser uma amostra do que a adesão ao liberalismo pode fazer com um cristão. Para quem quiser mais informações a respeito, recomendo a excelente obra de Christopher A. Ferrara, “The Church and the libertarian” onde se refutam todas as falácias heréticas de Woods.

As outras duas alternativas que sobram é a economia social de mercado e um vago consenso keynesiano à brasileira (um nacional-desenvolvimentismo fiscalmente responsável). Os partidos que defendem uma terceira via econômica, a economia social de mercado são, a saber, o PSDB, o DC, o PSC, o PSL o PRB, o PHS e o DEM. O primeiro tem uma visão correta da economia, mas é adepto do progressismo moral. Pautas como aborto, casamento homossexual, liberação da maconha, entre outras coisas nos impedem de aderir a este partido excepto em último caso. O DEM parece ter uma visão menos progressista nessa matéria e sua proposta é de terceira via, e, portanto, pode ser uma alternativa factual. O problema, porém, é que o partido está quase sempre numa coligação com o PSDB, o que inviabiliza sua candidatura não só a pleitos nacionais, da qual não participa independentemente a mais de 25 anos, mas também em locais, onde quase sempre está a reboque dos tucanos.

PSC, PSL PRB, PRTB, Patri, PHS e DC são os partidos que mais têm compromisso com pautas cristãs, o primeiro, porém, está cada vez mais adepto do liberalismo econômico e é dominado por evangélicos, mas se constitui ainda assim, num mal menor. A sua adesão gradativa a um liberalismo econômico cada vez mais radical é preocupante, contudo.O PSL de Bolsonaro é a mesma coisa, talvez até pior pois o liberalismo é mais escancarado. Contudo, muito se questiona acerca do quão longe vai esse affair Paulo Guedes e Bolsonaro. Um affair que ninguém pediu, que ninguém queria, e que se Deus quiser vaia acabar. PHS e DC mantêm suas bandeiras tradicionais, mas são partidos nanicos e de nicho, o que torna difícil que alguém proponha uma economia social de mercado com chances reais de vencer. Mas se você tiver a sorte de encontrar os dois últimos em pleitos independentes, vote neles. O caso do PRB é ainda mais complicado, pois é um partido associado à tenebrosa igreja Universal do reino de Deus do bispo Macedo. O PRB, ainda por cima se afasta um pouco da ESM em sua doutrina econômica, já que tende mais a um keynesianismo vulgar do que à terceira via.  Contudo, todos os quatro, em vista de socialistas do PT, PSOL, PCdoB e ultraliberais como os candidatos do MBL, do NOVO são males menores.

A economia social de mercado tem sido a única apoiada pela Igreja de maneira mais enfática dentro do capitalismo, tanto o papa Francisco, como João Paulo II, segundo Thomas Storck, professor de Doutrina Social da Igreja, a tem apoiado formalmente.

PMDB, PSD, PP, SD, o PRTB, o Patri além de outros partidos são adeptos do pensamento keynesiano; PMDB, PSD e SD são novos keynesianos, PP, herdeiro da ARENA, é adepto do “desenvolvimentismo conservador”, razão pela qual foi talvez um dos maiores adeptos do social-desenvolvimentismo que o PT implantou a partir do segundo governo Lula. O PRTB, em coligação com o PSL, e o Patri despontam como um nacionalismos de direita keynesianos, são alternativas que se afastam da ESM, mas são ainda assim aceitáveis. O pensamento keynesiano está um pouco afastado da DSI quando comparado à economia social de mercado, mas na sua versão novo-keynesiana é aceitável e têm pontos de intersecção muito interessantes. O keynesianismo desenvolvimentista se afasta um pouco mais e, portanto, só deve ser escolhido caso as alternativas seja o socialismo/comunismo ou o liberalismo radical. Há ainda, uma vertente que, com os devidos ajustes é similar ao novo-keynesianismo.

Portanto, votos para a presidência em Bolsonaro (PSL), Cabo Daciolo (Patri) e Eymael (DC) são votos justificados moralmente, não obstante apenas o voto em Jair Bolsonaro ser recomendável na situação presente, por sua situação mais favorável no pleito político. Contudo, quem quer que se decida pelos dois primeiros não está de modo algum, deslegitimado.

O professor de teologia moral da Universidade do Texas e especialista em Doutrina Social da Igreja, John Médaille, em seu artigo para a The Distributist Review, The Politics of Ingratitude“, pontuou que o católico entre um liberal clássico e um keynesiano moderado ou entre um socialista/comunista e um keynesiano moderado ou desenvolvimentista, deve optar pelo keynesiano, pois se ele erra no entendimento do bem comum pelos princípios utilitários, ao menos acerta nos fins e nas intenções.

Do liberalismo ao comunismo – uma análise meta-económica

Luiz Paulo Tavares Gonçalves*

Não muito corriqueiramente, vira e mexe, aparece alguém afirmando que a proposta de implantação do modo de produção comunista é filha do liberalismo. Bom, a afirmação é, ao mesmo tempo, provocadora e pertinente: é de conhecimento e aceitação unânime que, nos séculos XVII e XVIII, ou melhor, desde o rompimento com o mercantilismo, o liberalismo desempenhou uma carga revolucionária notável, mas não nos esqueçamos que o fim almejado, teoricamente, por ambos são diferentes; tanto do arcabouço teórico quanto da práxis — tonalidades semelhantes, mas com densidades diferentes.

Desde do nascimento com os fisiocratas, o Laissez-faire — com Nicholas Barbon e François Quesnay — almejava, de certa forma, a ruptura com os resquícios das políticas econômicas feudais e com o metalismo mercantilista; assim como, David Hume, em seu Writings on economics, levanta a questão da balança comercial e do livre comércio, contrapondo-se ao bulionismo e ao ciúme do comércio. Consolidando, assim, a tão famosa teoria quantitativa da moeda clássica (TQM):

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Tal teoria que colocava em xeque as políticas econômicas mercantilistas, pois, segundo a formulação, o nível geral dos preços (P) estava diretamente ligado a quantidade de moeda (M) disponível em dado momento e com a velocidade de circulação (V) que seria dividido pelo nível de produto real (Y): Portanto, contrariando a posição dos mercantilistas, o acúmulo de metais preciosos não teria contribuído para uma expansão de longo prazo da riqueza (i.e., do nível de produto real), mas apenas para o aumento continuado do nível de preços. À luz dos debates macroeconômicos modernos, de acordo com a TQM [teoria quantitativa da moeda] de longo prazo de Hume a moeda seria

exógena e neutra no longo prazo, em contraste com a visão de não neutralidade da moeda de longo prazo implícita na visão mercantilista [1].

Não obstante, tal exemplo, apenas ilustra uma quebra de paradigma econômico efetuado pelos teóricos do liberalismo clássico, quebra de paradigma que não deixa de ser

revolucionário — mais notável se levarmos em consideração a influência que vai provocar nos teóricos do liberalismo clássico posteriores, leia-se: Adam Smith & David Ricardo —, porém não prova qualquer ligação direta com os teóricos do comunismo. Pois, o cordão umbilical que une, o liberalismo e o comunismo, está além do arcabouço teórico, das reformas conquistadas, das emancipações propostas e das ‘’Liberté, Égalité, Fraternité’’ almejadas — levando em consideração as similitudes históricas, teóricas e, principalmente, o facto da imanentização e da fé metastática (‘’teológico-metafísico’’): o liberalismo assim como o comunismo, segundo Eric Voegelin, carrega inerente aos seus postulados a noção de imanentização e de fé metastática, isto é, ambos, em primeiro lugar, são uma religião invertida, ou seja, transpõe o sentido transcendente da religião ao imanente da ideologia e, em segundo, transpondo o reino do céu ao imanente, ao terreno, resolveria o caos imperante no plano terreno:

For in liberalism also there is the irrational element of an eschatological final state, of a society which will produce though its rational methods, without violent disturbances, a condition of everlasting peace. Liberalism too is a part of the revolutionary movement which lives to the extent that it moves [2].

Por outro prisma analítico, numa ordem voltada para os postulados filosóficos e políticos, segundo o jovem Karl Marx: A rigor e falando em sentido prosaico, o Iluminismo francês do século XVIII e, concretamente, o materialismo francês, não foram apenas luta contra as instituições políticas existentes e contra religião e a teologia imperantes, mas também e na mesma medida uma luta aberta e marcada contra a metafísica do século XVIII e contra toda a metafísica, especialmente contra a de Descartes, Spinoza e Leibniz. Opunha-se a filosofia à metafísica, conforme Feuerbach, em

sua primeira investida resoluta contra Hegel, opunha à especulação embriagada a filosofia sóbria. A metafísica do século XVII, derrotada pelo Iluminismo francês e, concretamente, pelo materialismo francês do século XVIII, alcançou sua restauração vitoriosa e pletórica na filosofia alemã, especialmente na filosofia alemã especulativa do século XIX [3].

No entanto, levando em consideração as inúmeras variáveis correlacionadas mencionadas anteriormente (e, como visto, não são poucas), o elo umbilical de maior expressividade — e aqui a conclusão é mais provocadora que a própria suposta afirmação inicial — é essencialmente a implantação do modo de produção capitalista e das políticas econômicas liberais e de Laissez-faire. Os movimentos de revolta nascem, na prática, como o lado negativo, ou melhor, os movimentos de revolta nascem como resposta às mazelas acometidas pelo modo de produção capitalista. Mazelas que nascem com o despontar da industrialização, que arrasta tradições e costumes, no florescer do século XVIII. Aqui é pertinente salientar que, como primeira resposta ao caos do século XVIII, longe de ter sido de Karl Marx (1818-1883), os socialistas utópicos e muitos outros teóricos reformista e tradicionalistas — aqueles que Marx chamou de anti-capitalistas românticos —, por exemplo, William Thompson, Charles Fourier, Pierre J. Proudhon, Thomas Hodgskin, Saint-Simon (aqui só para ficar nos mais conhecidos) já haviam denunciado e erguido bandeira, cada qual do seu modo, contra os desdobramentos do florescer do capitalismo. Karl Marx está longe de ter sido o precursor dos movimentos de contestação — por mais que, como nos lembra Eric Voegelin, tenha sido, junto com os postulados do liberalismo, o mais imanentista. As propostas de reforma e até mesmo de superação do modo de produção capitalista nascem das próprias mazelas do liberalismo; nesse sentido podemos afirmar que, por excelência, o comunismo ou socialismo científico é filho do liberalismo! Filho do caótico século XVIII.

Notas:

[1] ​Conselho Regional de Economia. Escolas da macroeconomia. Rio de Janeiro: Albatroz, 2015, pág 07.

[2] VOEGELIN, Eric. Liberalism an its history. The Review of Politicus, vol. 36, No. 4, 1974, pág 510.

[3] MARX, Karl. A sagrada família, ou, crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. São Paulo: Boitempo, 2011, pág 144.

Referências

Conselho Regional de Economia 1ª região. Escolas da macroeconomia. Rio de Janeiro: Albatroz, 2015.

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MARX, Karl. A sagrada família, ou, crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. São Paulo: Boitempo, 2011.

RONCAGLIA, Alessandro. La riqueza de las ideas : una historia del pensamiento económico. Zaragoza : Prensas Universitarias de Zaragoza, 2006.

VOEGELIN, Eric. A nova ciência política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.

VOEGELIN, Eric. Liberalism an its history. The Review of Politicus, vol. 36, No. 4, 1974.

*Luiz Paulo Tavares Gonçalves é colaborador extraordinário, formado em economia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG)