Vingadores e a lacração

Já que o assunto é Vingadores: Ultimato, como leitores de quadrinhos não podemos deixar de opinar. O que me leva a uma discussão política aqui é perceber como a lacração está invadindo o universo das HQs e dos filmes de super-heróis.
 
Não vou me referir a nenhum caso específico, quem assiste, sabe. Mas o fato que deve realmente incomodar os lacradores nesses filmes (o que, não obstante toda a lacração, dificilmente chama a atenção das “minorias” para esse tipo de entretenimento, uma vez que quem lacra não lucra), é o fato inconteste de que a virtude do heroísmo é uma coisa conservadora, reacionária até.
 
É sempre uma noção sacerdotal, sacrifical, apoiada em valores e deveres atemporais, objetivos, que pela sua própria natureza não podem ser subvertidos sem deixarem de ser o que são. Dizendo de forma mais simples, se você muda algo no que é heróico, a coisa deixa de ser heróica. Torna-se mundana, prosaica, ou até pior, pode se tornar um ato de inominável vilania, uma covardia, maldade pura.
 
O heroísmo tão louvado pelos gregos e romanos, como dizia Kierkegaard, não passava de uma imitação imperfeita que antecipava um ato sacrifical transcendente: O do Cristo. Com isso Kierkegaard não dizia que o sacrifício do Messias era algo heróico. Ao contrário! Ele dizia que era coisa para os “cavaleiros da fé”, não para o homem do estágio ético. O homem do estágio ético, era o mais longe que o mero mortal poderia se aproximar do sacrifício messiânico, uma imitação imperfeita como imperfeito é o homem.
 
O heroísmo implica sempre em sacrificar a si próprio, em maior ou menor grau, ou assumir riscos para si próprio, em maior ou menor grau, em nome de uma verdade moral objetivamente reconhecível. Seja salvar uma vida, seja salvar o mundo, seja salvar a família. Nenhum herói pode ser um relativista ou um utilitário. Caso se torne um relativista, ele torna-se um vilão, alguém que por não acreditar em valor nenhum, sacrifica os outros pelo seu próprio bem; ou se se torna um utilitarista, ele vira um homem de negócios, um burguês, em que uma mão lava a outra.
 
Por isso os lacradores sempre tentam infrutiferamente subverter o heroísmo, chamando pessoas que saem do armário em público de heróicas, como se fosse algo extraordinário admitir publicamente que se faz sexo de forma pouco convencional. Os mais espertos, reconhecendo isso, usam o heroísmo, uma incômoda praga conservadora, como forma de mostrar que mesmo pessoas problemáticas, esquizóides ou com uma série de comportamentos pecaminosos e injuriosos, podem no fim das contas fazer atos nobres. Isso não diminui o feito heróico, só mostra o como essas pessoas são incoerentes em jurar fazer algo que as condena, não como deslize diário de pessoas que como todas são falhas, mas sim de pessoas duais, que ostentam e se gabam de ter dois sistemas de valores contraditórios, e é essa estranheza que nos faz rejeitar a lacração.
 
No fim das contas, embora seus personagens possam até ser heróicos, os autores são apenas vilões que usam do heroísmo de suas criações para vender o erro a milhões. A lacração é uma expressão da esquerda burguesa. Tanto espírito burguês quanto o igualitarismo marxista se combinam no choro contra o heroísmo. O herói é alguém dotado de virtude, uma elite moral superior aos homens comuns, aponta para a existência de uma hierarquia, uma aristocracia, seus atos não são facilmente imitados. Ao mesmo tempo é alguém que não se move pela lógica do lucro, o drama clássico do Homem-Aranha, tão bem demonstrado nas histórias clássicas de Stan Lee e Steve Ditko, bem como no Universo Ultimate, ou ainda na trilogia de Sam Raimi, em que deixando o lucrativo negócio da luta livre para se encrencar lutando contra o crime ao mesmo tempo em que vive em um subemprego aturando o xarope do J. J. Jameson, é algo que expressa bem isso.

Por isso que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” é a frase mais famosa do universo de super-heróis. Pois o herói, ao se dar conta de que tem algo mais que o torna diferente de todos os demais, sente o dever de fazer algo com seu poder. O herói é movido pelo dever, pois sabe que o bem que pode fazer é proporcional ao mal que pode criar. Assim, ele sabe que não tem o direito de errar, o mal não tem direitos, ele deve ser bom; é sob certos aspectos uma ética tomista, mas também, uma ética kantiana. O lacrador, por outro lado, está preocupado com representatividade. Ele não lamenta a morte do Homem de ferro. Não, ele lamenta a ausência de um personagem islâmico, ou o não protagonismo de uma mulher.

O lacrador não se importa com a história, com os valores, com os feitos. Ao contrário! Tudo isso é algo reacionário. O que importa é que haja alguém de uma “minoria” num lugar de destaque, para equilibrar um balança de poder. Não o poder dos personagens, mas o poder político. No fim das contas, o lacrador é um vilão, pois não se importa com o heroísmo e sim com poder.
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Arthur Rizzi e Edmundo Noir escreveram este texto.
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Feminismo, relacionamentos e contos de fadas

Texto originalmente postado no Instituto Shibumi por Lawlyet Ribeiro

Leonardo Lawlyet Ribeiro*

O feminismo vê os contos de fadas sob uma ótica materialista. Vêem coisas tão belas como príncipes, princesas, dragões, árvores mágicas, espelhos encantados, rios de chocolate, gigantes, castelos nas nuvens, árvores de computadores etc., como “papéis sociais opressores”.

Para o feminismo, uma princesa encantada nada mais é do que uma alienação. Um papel de passividade. A passividade de esperar um homem com determinadas características para o casamento. Para o feminismo, a princesa está sendo oprimida sem ter escolha. Talvez o feminismo pense que o príncipe é o machista opressor que deveria ser preso acusado de misoginia ao jogar a pobre princesa para longe das máquinas de tear, justamente quando ela estava quase transformando palha em ouro e conseguiria uma promoção na empresa de Rumpelstichen. Ou por tirá-la do sono tão gostoso e libertador que sua amiga ‘não-alienada’, Malévola, havia induzido (talvez para salvá-la de ser se casar com um porco machista opressor).

O ponto chave aqui é justamente os olhos com que o feminismo vê os contos de fada. No país das fadas, pêssegos capazes de dar a vida eterna continuam florescendo em árvores encantadas. Você arranca um e outro magicamente nascerá. Isso continuará sendo uma realidade no país das fadas, independentemente da visão do leitor. Não importa se essa árvore é contemplada por uma criança sonhadora que vê mágica em tudo ou por um banqueiro materialista que só vê custos em tudo. A árvore continuará sendo uma árvore encantada sempre. Essa é a realidade da árvore. Mas, por mais frutos mágicos que essa árvore seja capaz de dar, o feminismo irá ignorar essa realidade e enxergar somente o preço desses frutos. Se o fruto é capaz de dar juventude e beleza eterna, essa característica para o feminismo será somente algo a mais para poder vender os frutos. A preocupação do feminismo com a árvore não é sua mágica, mas seu custo.

Foi assim que o feminismo criou a falácia da ‘cultura de princesas‘. Ao olhar para os príncipes e princesas dos contos de fada, o feminismo fecha os olhos para a beleza, para a mágica, para virtude, para a sensibilidade, para o heroísmo e para o amor. O feminismo vê nela uma alienada oprimida por ter que esperar um príncipe salvá-la. Me pergunto se o feminismo veria numa vítima de incêndio uma alienada oprimida socialmente por estar sendo salva por um bombeiro. Talvez recusar a ajuda machista e opressora da polícia ao ser atacada por um agressor seja uma verdadeira demonstração de feminismo. Talvez, por minha insistência em manter viva a criança dentro de mim e por ter crescido com desenhos da Disney, eu não consiga entender bem essa visão feminista. Uma coisa que percebo com isso é que é justamente essa obsessão feminista com opressão que torna o feminismo tão fetichista por opressão. Ao olhar uma princesa tão nobre, com todas as virtudes e mais belos encantamentos, o feminismo vê somente uma alienada. Será que isso também não significa que o feminismo vê dessa forma todas as mulheres? Talvez o feminismo veja uma princesa dessa forma por ser incapaz de ver dignidade na mulher. Talvez essa obsessão do feminismo com objetificação seja justamente porque o próprio feminismo veja as mulheres como objetos. E o que dizer do príncipe encantado, esse opressor machista? Será que o feminismo não percebe que o príncipe simboliza justamente um homem que ama tão intensamente uma mulher a ponto de matar mil dragões e arriscar sua vida por ela com todo prazer e alegria? Particularmente acho muito triste uma ideologia que insiste em ver opressão e objetificação até mesmo nos mais nobres e puros sentimentos.

Ao criar a falácia da “cultura das princesas”, o feminismo na verdade mostrou que foi dominado justamente por tudo aquilo que critica, tornando-se incapaz de perceber que os contos de fada na verdade mostram que tanto o príncipe, como a princesa, só se tornam realmente príncipe e princesa quando se encontram.


*Leonardo Lawlyet Ribeiro é fundador do Instituto Shibumi.