Como o distributismo pode explicar a crise do governo Dilma: Evidenciando a usura.

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Evidências de economia usurária:

Um alicerce da crise brasileira é o infeliz fato do governo ter ignorado o aviso de Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno, onde o sumo pontífice diz que o salário justo demanda três coisas: a segurança da família do trabalhador (seu sustento), a segurança e sustentabilidade da empresa e o bem comum, e finaliza dizendo que “a grandeza do salário deve ser proporcionada ao bem da economia pública[1]”. Vale citar ainda o “Compêndio de Doutrina Social da Igreja” no artigo 302:

O trabalho deve ser remunerado de tal modo que ofereça ao homem a possibilidade de manter dignamente a sua vida e a dos seus, sob o aspecto material, social, cultural e espiritual, considerando-se a tarefa e a produção de cada um, assim como as condições da empresa e o bem comum. (IGREJA CATÓLICA, 2005, p.177)

Como um bom distributista, John Médaille (2010, p.137) não poderia concordar mais:

“[…] the just wage is fulfilled under the following conditions: one, that working families, as a rule, appear to live in the dignity appropriate for that society; two, that they can do so without putting wives and children to work; three, that they have some security against periods of enforced unemployment, such as sickness, layoffs and old age; and, four, that these conditions are accomplished without undue reliance on welfare payments and usury”.

Quando a taxa de salários é inflada acima da produtividade do trabalho, de modo completamente artificial, a economia acabará por falhar contra a justiça distributiva, e o resultado será subprodução e inflação, dado que ocorre neste cenário uma transferência direta de valores da taxa de lucros para a taxa de salários. O que levará inevitavelmente a existir poder de consumo sem poder de investimento para acompanhar o crescimento desse consumo. Assim, esta é uma medida usurária. Durante o governo petista, essas medidas geraram o que Bresser-Pereira chamou de “capitalismo sem lucro[2]”. Oreiro (2016, p.198), um dos mais importantes pensadores NDs, ou da “Escola de São Paulo”, como ficaram conhecidos, resume:

O regime de crescimento adotado no Brasil a partir da crise fiscal de 2008 baseia-se na ideia do “desarollo hacia dentro” […] Trata-se de um modelo no qual as políticas de redistribuição de renda e de aumento real no salário-mínimo, em conjunto com uma forte expansão do crédito bancário, deveriam estimular um vigoroso crescimento dos gastos de consumo, o que levaria os empresários a aumentar os gastos de investimento, permitindo assim um aumento simultâneo da capacidade produtiva e da produtividade do trabalho.

Entretanto, esses mecanismos falharam devido ao trade-off[3] que disso se derivou, e as razões são tanto conjunturais como estruturais da política econômica. A razão conjuntural se dá porque devido a crise de 2008, há uma enxurrada de capital especulativo dos países desenvolvidos (Estados Unidos e União Européia) para os países em desenvolvimento (dentre eles o Brasil). E como esse investimento chega em dólar, ele aumenta as reservas do Banco Central em moeda estrangeira (dólar) aumentando sua oferta interna, fazendo com que o dólar caia e o real se valorize. A apreciação do câmbio, em conjunto com os aumentos exagerados do nível geral de salários, levou a indústria brasileira a perder de competitividade externa, e aumentando a fragilidade a choques de oferta ou demanda externos, como demonstra Lucas (2014). Com redução das margens de lucros resultante da transferência forçada de renda pelos salários e pela perda de competitividade externa, a inflação cresceu e ocorreu o trade-off entre inflação baixa e competitividade externa. Se o governo desvalorizasse o câmbio, a inflação subia e passava dos dois dígitos (o que seria uma tragédia); se ela tentasse manter a inflação sob controle, manteria as empresas numa situação ruim de lucratividade.

Com efeito, a expansão fiscal e o aumento da participação dos salários na renda são incompatíveis com os objetivos de estabilidade da taxa real de câmbio e estabilidade da taxa de inflação. […] Em outras palavras, o regime de política macroeconômica do período 2008-2011 mostrou-se incompatível com a obtenção simultânea de uma taxa real de câmbio competitiva e uma taxa de inflação baixa e estável. (OREIRO, 2016, p.197)

O trade-off também foi percebido por economistas associados a ESM, como Lucas (2014, p,158), que destacou o fato da margem de manobra do BC na lida com a inflação e a perda de competitividade externa era em um “nível estreito de oscilação”, o que gerava um excessivo intervencionismo. Os efeitos da política usurária do governo podem ser confirmadas também por outro economista ND, Paulo Gala (2017, p.100) que diz:

Até 2007 a indústria brasileira conseguiu acompanhar o boom de demanda aumentando a produção, ainda na esteira da desvalorização cambial de 2002. A partir da crise de 2008 nossa indústria sucumbiu à concorrência internacional, aos aumentos de custo de produção em reais (principalmente salários) e à forte apreciação do câmbio nominal e real. Depois de 2008 toda a expansão do PIB foi baseada em serviços não sofisticados e na construção civil, num quadro típico de doença holandesa[4].

Com a perda de competitividade externa e interna, margens de lucros magras, aumento de preços dos produtos nacionais, o câmbio apreciado favoreceu as importações de manufaturados, politicamente estimulados no governo Lula para fornecer uma sensação de riqueza entre as pessoas aumentando seu poder de compra em paridade com o dólar, estes acontecimentos em conjunto com um regime de crescimento baseado no estímulo ao consumo via crédito, fundamentado na crescente participação dos salários na renda nacional, acabaria mesmo por levar necessariamente a um progressivo endividamento das famílias, o que levou também ao governo tomar medidas cada vez mais protetivas para a economia, isolando o país do comércio internacional.

Aqui Röpke recebe a concordância de Bresser-Pereira apud Oreiro (2016) que diz: “Adotar uma política wage-led[5] nessas circunstâncias é inviável, a não ser que queiramos voltar a ter altas tarifas de importação e voltar ao modelo de substituição de importações”. Em resumidas contas, o somatório de políticas usurárias e “lugar errado na hora errada” por parte dos governos Lula II e Dilma, foram a causa do processo acima descrito por Paulo Gala como doença holandesa. Após 13 anos de PT, a economia brasileira é uma economia muito menos industrializada do que a economia que o PT herdou do PSDB (não por mérito destes, mas por mérito dos militares). O processo de como a apreciação cambial leva a esse cenário é muito bem descrita por Delfim Netto (1966, p.37):

“Quando a economia recebe o impulso dinâmico do setor externo, através da ampliação da procura de um produto exportável, ela tende a aplicar em tal setor uma parcela importante de seus recursos e, em breve, toda a economia funciona sob seus estímulos. Isto significa que a oferta de divisas no mercado de câmbio passa a depender essencialmente do volume das exportações e dos preços do produto exportado.”

Com o boom das commodities, que foi o principal sustentáculo do crescimento econômico era petista, com minério e petróleo sendo vendidos em grande quantidade para a China a preços em altas históricas, mas dentro de um cenário externo de fuga de capitais para os países com juro real alto (como o Brasil), mais um somatório de políticas desastradas e usurárias, a economia brasileira acabou perdendo a confiabilidade e entrando em colapso.

Para entender o funcionamento da relação câmbio-importações-PIB elaboramos um típico gráfico neoclássico abaixo:

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Figura 1 – S-I (Savings and investment) X-M (exportation and importation)

Como pode se observar no deslocamento da curva S-I, a apreciação da taxa de câmbio no exemplo, tem como resultado o aumento das importações e a redução das exportações, o que tem efeito depressor sobre o PIB; caso houvesse diminuição de poupança ao invés de modificações deliberadas no câmbio, o efeito seria análogo, mas com o deslocamento dessa vez da curva X-M. Isto é, as pessoas passariam a poupar menos, o que aumentaria o consumo de importados, e provocaria a apreciação da taxa de câmbio por emissão de moeda nacional ao exterior. O modelo neoclássico explica perfeitamente bem o fenômeno que ocorreu na economia brasileira. Uma política de deliberado aumento de câmbio em conjunto com medidas de estímulo ao consumo, levaram a crise.


Notas de rodapé:

[1] PIO XI. Quadragesimo Anno. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19310515_quadragesimo-anno.html> Acessado em: 06/03/2019.

[2] Cf. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Reação Nacional: Não basta reformar o Estado – diz Bresser-Pereira. Disponível em: <www.reacaonacional.wordpress.com/2019/02/18/reformar-o-estad-nao-basta-diz-bresser-pereira/> acessado em: 06/03/2019.

[3] Situação na economia em que há contradição entre dois objetivos da política econômica.

[4] Doença holandesa é um termo cunhado para designar a situação na qual os serviços ou bens de pouca sofisticação ganham enorme participação nas exportações em proporção do PIB. Sendo os lucros desse comércio a causa do aumento de fluxo de moeda estrangeira, eles causam a apreciação da taxa de câmbio, o que tira competitividade da indústria de transformação nacional no mercado externo, fazendo com que o tecido produtivo como um todo se torne menos complexo e sofisticado.

[5] Wage-led significa política de crescimento com base em aumentos de salário acima da produtividade e da inflação, visando aumentar o consumo.

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Como o distributismo pode explicar a crise do governo Dilma: definindo usura.

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O que é usura?

Que a ortodoxia econômica tem grande dificuldade em lidar com métodos que apelam ao metafísico é de conhecimento público, contudo ao invés disto ser um ponto favorável a ela, deveria ser visto como um terrível ponto fraco. O pós-keynesiano Richard Chase (1979, p.79) concorda com o papel relevante da metafísica na economia:

Thus it happens that seeking refuge in the logical-positivistc argument that empirical outcomes are all that matter, not only begs the question, but is itself a metaphysical rather than a scientific position. […] Metaphysics, as we have noted, plays an important […] and necessary role in the pre-analytic stage of theory formulation

Médaille (2010, p.24) concorda:

Every Science, insofar as it really is a Science, is both positive and normative. Every science, insofar as it is a science, must be “normalized” to some criteria of truth. […] Thus, for example, biology is responsible to chemistry, chemistry to physics; physics to metaphysics.  No biologist can violate the laws of chemistry, and no chemist can reach conclusions contrary to laws of physics.

É claro que a economia é uma ciência, mas certamente não é uma hard science como a física ou a química, mas compartilha com ela alguns de seus elementos. Nenhum bem de capital ou de consumo pode violar leis químicas ou físicas, mas há elementos na economia que lidam com o nem sempre tão facilmente redutível ao plano da biologia, ser humano. Tais como critérios como justiça, amor, compaixão, que por mais que não sejam termos em si mesmo econômicos, devem (ou deveriam) andar em conjunto com a mesma para não transformar a economia numa fábrica de monstros. Como Médaille (2010, p.5) pontua:

Humane sciences all rest in some vision of human justice, because justice is the virtue that regulates proper relations between man and man, between man and his society. If we lose justice, and most particularly distributive justice, we lose any hope for society.

A justiça distributiva é a antítese da usura, que é como Médaille (2010, p.61) conceitua a justiça distributiva:

“Distributive justice deals with how society distribute its common goods […] Things that fall to be divided among those who have a share in its constitution. This refers to the common goods of a State, a partnership, or some cooperative enterprise.”

Como Christopher Ferrara (2010, p.150), um dos teólogos mais destacados na defesa da DSI e da doutrina da Igreja na atualidade, define usura? Como sendo “any form of income extracted from a position of power in which one was enabled to charge whatever the market would bear”. No passado, a usura era basicamente associada a toda e qualquer forma de cobrança de juros num empréstimo devido ao fato de que, como chama a atenção Ferrara (2010, p.52): “money was merely a means of Exchange and did not produce investment income in financial markets or lose value over time due to inflation”. Mas devido às inovações financeiras e econômicas que surgem no fim da Idade Média, a moeda passa a ser uma mercadoria vendida e cotada em preços locais em função de sua oferta e demanda, em comparação a si mesma e em comparação a outras moedas, bem como a necessidade de garantias contra imprevistos temporais (em outras palavras inflação, câmbio e juros). Se a moeda era, nos tempos de Santo Tomás, apenas um intermediário neutro entre duas mercadorias (digamos cevada e vinho), não seria lícito a ninguém numa troca exigir mais do que ofereceu a outrem em retorno.

Todavia, uma vez que na renascença a situação se modificara completamente, o juro poderia ser concedido como compensação de um risco quantificável e como restituição da depreciação do valor da moeda (inflação). Contudo, apesar do dinheiro ter deixado de ser um veículo neutro, a economia clássica e neoclássica, ao assumir a “lei” da igualdade ex ante entre oferta e demanda proposta pelo economista francês Jean-Baptiste Say[1], permaneceu com este dogma até que John Maynard Keynes com seu Treatise on Money (1930), e posteriormente com sua “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (1936), decidiu apontar o fato de que o Imperador estava, de fato, nu.

Embora Keynes não tenha feito julgamentos morais, o mesmo ao propor a “eutanásia do rentista”, de certo modo identificou a usura (ainda que não lhe tenha dado seu devido nome) como uma causa meramente técnica da crise do capitalismo. E é na linha da escolástica tardia e em menor escala dos subsídios técnicos de Keynes, que o distributista John Médaille traz-nos a definição prática de usura na economia capitalista moderna: o retorno de juros sobre uma economia deflacionária (cobrança de juros com deflação[2]) e crédito ao consumidor, como política de estabilização da demanda agregada[3].

A razão do primeiro ponto de definição é simples: Se o juro é um corretor da inflação, logo, num cenário de deflação o juro deveria ser negativo. O que ocorre, na realidade, é justamente o inverso. Durante crises deflacionárias como a de 2008, os preços despencaram de parte-a-parte, as taxas de juros, entretanto subiram. Ou ainda, períodos de recessão em que o ajuste fiscal é severamente recessivo como foi durante os governos Dilma e Temer; neste caso a queda do nível geral de preços empurrado por uma ascensão vertiginosa da taxa de juros é se não usura em ato, ao menos o é em potência. O choque de juros foi tão forte que o Brasil vem registrando desde 2017 as menores taxas de inflação da história republicana recente[4]. Por muito pouco o processo de desinflação não virou deflação.

Do outro lado, a medida de crédito é menos evidente. A política monetária, sobretudo visando à retomada da demanda agregada por meio de crédito ao consumidor é usurária devido ao fato de que a maior parte do crédito destina-se a compra de bens de consumo, através da geração de uma renda potencial que será paga com juros. Se um banco empresta dinheiro para aquisição de capital (K), então a renda (Y) desse capital formará um excedente que iguala os juros (i). Desta forma, o retorno em juros nada mais é que o retorno justo sobre o capital. Bens de capital aumentam a riqueza de uma comunidade. Bens de consumo, não.

Here we must distinguish between lending for investment and usury. Investment means giving money to firms and entrepeneurs in order to expand production and increase wealth of society. In this case, interest is merely the investor’s participation in the profits; it is the wage of the capital supplied, and the one who supplies it is entitled in justice to wage. Usury, on the other hand, is lending money at interest to increase consumption. Nothing is added to the wealth of society, however much may be added to the wealth of lender. (MÉDAILLE, 2010, p.56)

Wilhelm Röpke (1960, p.185), um dos pais da economia social de Mercado, via com muito maus olhos o keynesianismo hidráulico do pós-guerra como um estimulador de usura, e teceu críticas fortes a esse aspecto usurário da economia do pós-guerra e defendeu o consumo à vista como veículo-motor principal da economia, pois seria consumo de renda presente.

Otro ejemplo, que se mucho acerca al primeiro, es el de las compras a plazo (créditos al consumidor), al cual nos hemos referido anteriormente. Falta también aqui, dentro de la economia de mercado, simetria entre las fuerzas que favorecen esta forma, tan extraordinariamente extendida, de estimular el consumo y las otras, a las que frenan, apesar de que el más acérrimo partidário del credito al consumidor no puede negar el peligro de su desdobramento y de su degeneración.

De que degeneração fala Röpke? Além do materialismo implícito no consumismo, o mesmo perigo que Médaille (2010, p.56) enxerga.

In fact, usury is the most destructive way of increasing demand. Usury actually delays the problem, postpones the crisis to the future period. This is because a borrowed dollar used to increase demand today must be paid back tomorrow and hence will decrease demand in a future period by that same dollar – plus interest.

Não é de se estranhar, que uma economia recuperada à base de política monetária ao invés de política fiscal como a brasileira (e em grande parte a americana), acaba naquilo que o economista Hyman Misnky chamou de debt-deflation[5] (deflação por dívidas), em que os ganhos de lucratividade posteriores a uma recessão são direcionados ao pagamento de dívidas e não ao aumento de produtividade.

Mas não só o consumismo impulsionado por crédito fácil foi a chave da crise usurária, mas também os ganhos salariais muito acima da produtividade do trabalho; o governo petista forneceu durante seus anos aumentos de salário-mínimo acima da produtividade e da inflação[6], o que gerou um processo econômico pernicioso para a indústria nacional, uma inflação constante e, conforme veremos no tópico subsequente, é ao lado do populismo cambial (aumento artificial do poder de consumo por via cambial), a base da crise usurária.


Nota de rodapé:

[1] A lei de Say afirma que a demanda agregada é ex ante sempre igual à oferta agregada, dado que o dinheiro só tem utilidade como meio de troca.

[2] Cf. MÉDAILLE, 2010, p.76

[3] Cf. MÉDAILLE, 2010, p.54.

[4] FERRARI, Hamilton. Correio Braziliense: Prévia da inflação registra o índice mais baixo desde o Plano Real. Em 23/01/2019.

[5] Cf. MINSKY, Hyman. Bard: The Debt deflation of great depression. 1994 – pode ser encontrado disponível em <www.digitalcommons.bard.edu/hm_archive/159> acessado em 06/03/2019.

[6] Cf. OREIRO, 2016, p.190.

Como o distributismo pode explicar a crise do governo Dilma: Introdução

Esse texto é perfeitamente compatível com o Distributismo e o Desenvolvimentismo distributista.

Arthur Rizzi*

Raphael Mirko**

Contextualizando:

Desde o fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff, a ideia de que a economia brasileira entraria num período de estagnação era considerado não mais uma hipótese, mas um fato. No ano seguinte à disputa eleitoral entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), a economia brasileira começou um intenso processo de contração econômica que foi além de uma recessão e tornou-se uma depressão. O PIB despencou mais de 6% durante dois anos seguidos e o desemprego chegou a cifras antes imprevistas.  O presente artigo visa, portanto, elucidar como a Doutrina Social da Igreja (doravante DSI) e as ideias distributistas podem oferecer subsídios teóricos para analisar essa crise econômica que se abateu sobre o Brasil com o governo Dilma, mas cujas raízes remontam à segunda metade do governo Lula II. Este artigo pretende também promover o diálogo com as ideias da Economia Social de Mercado (ESM) e com as análises novo-desenvolvimentistas (doravante ND) como subsídio técnico para análise da crise econômica que se abateu sobre o país.

A usura como a raiz da crise:

A economia mainstream[1] evita utilizar o termo usura, pois este denota um conceito moral, e a mesma, querendo emular uma espécie de hard science[2], meramente empírica, amoral e utilitária, acaba colocando os fenômenos econômicos como quase “forças da natureza” ou até mesmo como determinação metafísica. Infelizmente mesmo alguns católicos (ou pretensos católicos) caem nesse erro. Thomas Woods Jr, autor do bom livro “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental”, mas do péssimo “The Church and the market”, condena a doutrina social da Igreja por lançar juízos morais acerca da economia, mais especificamente sobre a teoria do preço justo, afirmando em poucas linhas de que o preço de mercado é o preço justo e, inclusive, afirmando-os como produtos, não da “mão invisível”, mas do “dedo de Deus”[3]. As implicações teológicas muito erradas e tendentes à gnose que tal afirmativa opera (a ideia de um Deus que está em nós, e que age através da coletividade inconsciente é hegeliana[4]) não vêm aqui ao caso, mas basta citar, para refutar a “catolicidade” de tal proposição, que como Niall Ferguson (2007, p.84) demonstra, este pensamento está ligado ao extremismo do conceito da soberania divina, oriunda do calvinismo, e que foi apropriado no campo na economia pelos anglicanos e presbiterianos. Em outros termos mais diretos, esta é uma noção protestante.

Na prática, foi o argumento de que tarifas mais baixas induziriam a uma ampliação do volume de comércio, conjugado com uma visão distintamente protestante da economia como mecanismo divinamente ordenado e auto-regulado, que convenceu a maioria da elite política britânica a converter-se ao livre-comércio.

As coisas do ponto de vista distributista e da Doutrina Social da Igreja (DSI) não operam assim, entretanto. A economia, sendo ação humana em relação a bens escassos e à sua gestão e produção, está também debaixo do julgamento do campo da filosofia chamado ética. Desta forma, se a ética é a área da filosofia que julga do ponto de vista moral as ações humanas, sendo economia também ação humana, ela também é julgada do ponto de vista moral pela filosofia. Logo, termos morais não podem e não devem ficar fora da discussão econômica.

Demonstrado assim, a necessidade de rememorar a moralidade intrínseca que envolve a ação humana no terreno da economia, cabe a nós demonstrar, como propusemos na introdução deste fascículo, que a raiz da crise econômica reside na usura. A análise moral da economia que é proposta pela DSI e aprofundada pelos distributistas é o ferramental que utilizaremos para explicar a causa eficiente da crise econômica petista no próximo capítulo deste artigo.

Nota de rodapé:


[1] Diz-se mainstream ou ortodoxia econômica, o conjunto dos métodos e postulados da economia contemporânea, aceitas e praticadas pela maior parte dos economistas nas maiores universidades do mundo. Esse conceito muda de tempos em tempos conforme a discussão econômica progride, mas nos tempos presentes, pode-se dizer que o mainstream é um vago consenso entre monetaristas/novos clássicos e novos keynesianos. Seus métodos utilitários, empíricos e com base em intensa matematização das hipóteses, bem como os postulados filosóficos associados em raiz à economia neoclássica, são em essência o caráter mais identificável da ortodoxia econômica. Assim, o distributismo, bem como a escola austríaca misesiana, o marxismo, e outros são contados como heterodoxias.

[2] Hard Science é um jargão técnico utilizado pela comunidade científica para distinguir as ciências exatas como a física e a química de ciências sociais com altas cargas de subjetivismo, tais como a história, a geografia, a sociologia e o direito, chamadas por eles de soft science. A economia ao ocupar um posto intermediário tenta com pouco sucesso estabelecer um fundamento tão objetivista quanto possível de análise científica, mas como Médaille chama a atenção, ela por tratar ainda do universo complexo e incerto das escolhas humanas, não consegue oferecer previsões universalizáveis como seus ídolos.

[3] Ferrara (2010, p.118) aponta em Thomas Woods a identificação da mão invisível com a mão da Divina Providência: “[…] Woods suggests a divine principle: the “finger of God” on Smith’s invisible hand”.

[4] Para mais informações sobre esse assunto recomendo o melhor livro que conheço sobre o tema, que é a obra “Antropoteísmo: a religião do homem” do saudoso apologista católico e historiador Orlando Fedeli.


*Arthur Rizzi é formado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e dedica-se ao estudo da história econômica, possui extensão na modalidade de curso livre em Macroeconomia pela FASUL-MG.

** Raphael Mirko é graduado em História pela Faculdades Metropolitanas Unidas e graduando em Economia pela Universidade Metodista de São Paulo.

Microcrédito: Uma perspectiva distributista

O texto abaixo é do escritor Richard Aleman* e é um excerto de um artigo para a the Distributist Review.

Já ouvimos falar de programas de microcrédito usados ​​para ajudar nações subdesenvolvidas, como a Índia. Mas os empréstimos para microcrédito são uma solução distributista e podem funcionar diretamente em nossas próprias comunidades. A E.F. Schumacher Society iniciou um programa de empréstimos para micro-crédito em Great Barrington, Massachusetts, há muitos anos chamado SHARE. A Associação de Autoajuda para uma Economia Regional (SHARE) era uma organização sem fins lucrativos baseada na comunidade que oferecia uma maneira simples de os cidadãos criarem uma economia local sustentável apoiando empresas que fornecem produtos ou serviços necessários na região.

Os membros do programa de microcrédito fizeram depósitos no banco local (onde a conta estava localizada), que foram usados ​​para garantir empréstimos para empresas locais com impacto positivo na comunidade. Como os depositantes de microcrédito vivem na mesma comunidade que os donos de empresas que apóiam, o microcrédito traz um rosto humano de volta às decisões de empréstimo. O SHARE foi provavelmente um daqueles poucos experimentos que foram tão bem sucedidos que foi descontinuado.

Bancos e cooperativas de crédito consideraram os programas de microcrédito tão vantajosos que começaram a adotar modelos semelhantes de reinvestimento de pequenas empresas em todo o condado de Berkshire. Os empréstimos para microcrédito podem fazer a diferença para famílias e vizinhos e para o futuro de nossos filhos. RN: Especialmente se devidamente regulado.


*Richard Aleman é articulista da The Distributist review.

Distributismo, Pareto e Competição perfeita.

O texto a seguir é uma tradução de um artigo de Richard Gallenstein da Distributist Review.

Richard Gallenstein*

O argumento liberal

As ciências econômicas contemporâneas são construídas sobre um grande corpo de suposições ou simplificações que permitem o estudo da atividade econômica usando matemática avançada. Sob essas premissas, os economistas fazem inúmeras afirmações poderosas sobre a economia e as justificam com rigorosas provas matemáticas. Um conjunto dessas suposições (e há outras que valem a pena investigar) é o conjunto relacionado ao que é chamado de “concorrência perfeita”. Sob as suposições de concorrência perfeita, uma declaração poderosa é feita sobre a economia como um todo. Diz-se que as economias de mercado alcançam um equilíbrio que maximiza a eficiência do mercado e cria um estado em que ninguém na economia pode estar em melhor situação sem prejudicar alguém. Isso é chamado ótimo de Pareto. Vale a pena investigar os pressupostos da concorrência perfeita e as afirmações da otimização de Pareto e ver que conclusões podem ser tiradas sobre o capitalismo e o distributismo.

A concorrência perfeita é um ambiente econômico que contém um grande número de empresas competitivas em cada mercado. Esse número de empresas deve ser grande o suficiente para que cada empresa não tenha participação de mercado suficiente para sozinha se impor. Outra maneira de dizer é que cada empresa é uma “price taker“. Ele deve vender seus produtos no mercado a qualquer preço que o mercado estabelecer e irá determinar quanto produzir com base em seus próprios custos internos de produção. O mesmo cenário está presente para os consumidores. Há um grande número de consumidores no mercado, de tal forma que os consumidores não podem afetar os preços com suas compras, mais uma vez tornando-os “price takers“. Para reforçar essa suposição, outras suposições são feitas. Primeiro, os consumidores devem ter informações perfeitas sobre eles, especialmente os preços em todo o mercado para o bem. Em segundo lugar, não há barreiras à entrada no mercado dessa indústria. A primeira premissa garante que os preços permanecerão os mesmos em todo o mercado para um determinado bem, pois permite que os consumidores sempre comprem o bem com o menor preço. O segundo garante que novas empresas possam entrar no mercado quando houver lucros a serem feitos nesse mercado. Sob competição perfeita há sempre equilíbrio de mercado, isto é, a oferta é igual à demanda e o mercado limpa (todos os produtos são vendidos). Sob concorrência perfeita, nenhuma empresa tem poder sobre o mercado, nenhuma empresa terá lucros a longo prazo e os salários refletirão com precisão a produtividade dos trabalhadores.

Sob essas condições, os economistas argumentam que o ótimo de Pareto será alcançado. Esta é a melhor maneira de melhorar o mercado e criar uma situação melhor. A otimização ou eficiência de Pareto é o resultado desejado dos entusiastas do livre mercado, porque é esse estado ótimo que somente a mão invisível pode criar e onde, sugere-se, toda a sociedade está em melhor situação. Análises econômicas adicionais mostram que a interferência nos mercados apenas reduz a eficiência e cria uma perda líquida. É claro, a partir da análise econômica, que impostos, regulamentos, controles de preços, tarifas, etc. impedem que a economia atinja o equilíbrio ideal de mercado. Como o equilíbrio competitivo não é atingido, essas interferências do mercado induzidas pelo governo custaram à sociedade o resultado ideal do mercado, e essa perda é chamada de perda de peso morto. Esta perda de eficiência não pode ser recuperada ou redistribuída. A partir desses resultados, pode-se argumentar que mesmo políticas para ajudar os pobres acabariam prejudicando os pobres, porque a riqueza geral da sociedade é reduzida pela perda de peso. Segue-se então o argumento de que seria mais favorável para os pobres se o mercado atingisse sua eficiência ideal e produzisse a maior riqueza para que esse aumento de riqueza pudesse se tornar disponível para eles. […] Reforçando isso, em alocações pareticamente eficientes no equilíbrio de mercado, os pobres não podem estar em melhor situação, sem prejudicar outra pessoa e a economia como um todo. Estes resultados ajudam a defender o mercado livre e desregulado.

Outras hipóteses:

Há outro lado na moeda da otimização do Pareto. A otimização de Pareto por si só não leva em conta a distribuição de riqueza ou qualquer tipo de igualdade dentro da economia. É possível que um resultado aceitável possa ser considerado inaceitável por alguns padrões de igualdade e justiça. Lembre-se, a eficiência de Pareto significa apenas que, para aumentar o bem-estar de alguém, deve-se prejudicar a de outro, mas não se fala diretamente sobre igualdade. No entanto, o economista não está ausente das bases para uma resposta à aparente desigualdade. Outros resultados da análise econômica mostram que existem muitos resultados ideais de Pareto dentro de uma economia. Quando os agentes econômicos têm dotações iniciais diferentes e presumivelmente mais equitativas, a economia alcançará (através da negociação) um equilíbrio diferente, que pode ser um ponto mais desejável do ponto de vista ideal. Ou seja, algum esquema de transferências de riqueza dentro da economia poderia resultar em um resultado pareto-eficiente diferente e mais aceitável socialmente. Portanto, os resultados da análise econômica em eficiência de mercado poderiam ser usados ​​para justificar esquemas de redistribuição apesar dos danos que poderiam ser causados ​​pela tributação. Se o impacto de um determinado imposto sobre a eficiência econômica for pequeno e o dinheiro for bem distribuído, poder-se-ia argumentar que o mercado poderia ser direcionado para um resultado mais eficiente do ponto de vista social. Em conclusão, a análise econômica poderia ser usada para apoiar o capitalismo estatal de estado assistencialista³.

Nesta visão geral muito básica do equilíbrio de mercado, vemos que ele pode ser usado para apoiar tanto o capitalismo laissez-faire ideológico quanto o capitalismo de Estado, ou alguns podem dizer uma forma branda de socialismo. No entanto, ambas as abordagens perdem o foco quando se trata de responder às conclusões dessa análise econômica. Ambas as abordagens avançam com as descobertas sob os pressupostos da concorrência perfeita (em algum grau ou outro). Nem a abordagem do laissez-faire nem a abordagem do grande governo abordam a suposição de concorrência perfeita na qual as conclusões econômicas são baseadas. Examinar mais de perto a concorrência perfeita mostrará que é necessária uma abordagem diferente para atingir os melhores resultados econômicos.

Competição perfeita vs. mundo real.

A competição perfeita não existe no mundo real. Apenas em casos raros, sempre houve mercados que poderiam ser considerados próximos o suficiente para serem tratados como tal. A política não pode avançar sem levar a sério essa verdade. Agora, de forma alguma é uma surpresa para qualquer estudante de economia básica que a concorrência perfeita não seja uma realidade, então isso não é novidade. No entanto, o impacto desse fato não é menos importante. O erro de subestimar essa verdade parece estar no coração do sistema capitalista. Enquanto os capitalistas proclamam a notável eficiência de seu sistema, eles não conseguem ver como seu sistema realmente mina sua própria base e nenhuma quantidade de redistribuição resolverá o problema subjacente.

O capitalismo não é um sistema que proteja ou promova o tipo de competição que capturaria os resultados propostos por Pareto. A mentalidade de “vale tudo” inerente ao capitalismo resulta na destruição da concorrência em geral. Há um incentivo para eliminar seus competidores no sistema capitalista, porque assim você pode lucrar mais com a redução da concorrência. E no mundo real, porque pode haver barreiras significativas à entrada, eliminar a concorrência é possível e lucrativo. Quando olhamos para a economia global hoje, vemos uma economia caracterizada pelo oligopólio e uma tendência contínua de consolidação. (não nos esqueçamos de que essa tendência existiu muito bem, mesmo quando os governos eram muito menores do que são hoje, pense nos trustes do final do século XIX). Uma economia que é caracterizada por um pequeno número de produtores em cada indústria não é uma competição perfeita e, na verdade, pode ter muito pouca concorrência.

Essa falta de competição verdadeira e completa dá a cada produtor algo que eles não poderiam ter sob concorrência perfeita, poder de mercado. Eles têm poder para fixar preços (ou pelo menos afetar os preços), têm poder para aumentar a receita além do que seria necessário para cobrir custos, têm poder sobre o mercado de trabalho (permitindo que eles mantenham salários menores), têm poder sobre o governo, o que por fim, é o poder. E quanto menos empresas houver e quanto maiores as empresas forem, mais poder cada firma individual terá. Quanto mais poder elas têm, mais lucros elas ganham que podem ser usados ​​para adquirir mais poder. Gastam isso em esforços de consolidação (compram outras empresas), usam-no para promulgar preços predatórios, gastam isso em propaganda inteligente destinada a induzir o consumidor a consumir seus produtos ou a criar demanda para seus produtos fora do ar. Quando as firmas são muito grandes, elas começam a afetar os preços não apenas por meio da produção, mas também pelo consumo de insumos. Quando um consumidor de insumos é muito maior do que outros, seu poder de consumo pode afetar o preço desse insumo, reduzindo seus preços e, mais uma vez, dando à empresa uma vantagem maior. Quando o governo é grande, poderoso e aberto a subornos, a situação fica ainda pior. O dinheiro do lucro é gasto em grandes somas para comprar favores econômicos do governo. São aprovadas leis que favorecem indústrias ou produtos específicos em detrimento de outros e de toda a nação. A política do governo chegará a subsidiar direta ou indiretamente os negócios com poder.

O governo não busca mais o bem comum, mas o bem dos agentes econômicos mais poderosos. A economia dos Estados Unidos exemplifica esse processo e mostra suas falhas. As suposições que formam a base da economia matemática moderna não devem ser vistas como apoiando o sistema econômico do laissez-faire e o esquema político que ele requer. Tampouco devem ser vistos como um mero apoio a esquemas de redistribuição em larga escala que movimentam dinheiro apenas dentro de um sistema já quebrado. Em vez disso, deve haver um sistema que promova as condições sob as quais podem ocorrer os resultados favoráveis ​​da concorrência perfeita. Ou seja, um sistema que busca aumentar a concorrência dentro das indústrias, facilita a entrada no mercado para permitir o acesso aos mercados para novas empresas e promove informações uniformes sobre o mercado para os consumidores. Um desses sistemas é o distributismo.

O que é o distributismo?

O distributismo é uma teoria econômica baseada no ensino social católico que busca um ambiente econômico que sustente a dignidade humana, a independência da família e o bem comum da sociedade. A centralidade da família e a dignidade do homem dentro do sistema, longe de enfraquecer sua mensagem, permitiram que os distribuidores formulassem numerosas perspectivas econômicas benéficas. A principal perspectiva focada aqui é a promoção da propriedade amplamente distribuída. Esta posição unicamente aproxima a economia da concorrência perfeita e desses resultados positivos. Com a propriedade amplamente distribuída, a economia naturalmente será preenchida com um número maior de empresas em vários mercados diferentes. Quando muitas firmas são ativas nos mercados, as condições perfeitas de concorrência são atendidas mais de perto e, portanto, a economia em geral se aproxima mais dos resultados econômicos benéficos da otimização do Pareto. Para ser mais específico, o aumento do número de empresas leva ao aumento da concorrência, o que reduz a possibilidade de as empresas ganharem poder de mercado excessivo e, portanto, distorcem o mercado através dos numerosos meios mencionados acima. Simultaneamente, à medida que a propriedade se torna mais difundida, a economia terá uma distribuição mais equitativa das dotações iniciais, portanto, pode-se presumir que um resultado mais aceitável do ponto de vista social será alcançado. Portanto, o distributismo captura as vantagens reivindicadas pelas duas abordagens abordadas acima. Para realizar esse objetivo e ver seus efeitos positivos, os distribuidores pedem duas mudanças principais. A primeira é uma mudança de mentalidade e a segunda é uma mudança na política.

Mudando o Paradigma:

A primeira mudança, a de mudança de mentalidade, viria de algumas maneiras importantes. Primeiro, e mais fundamentalmente, exigimos “um estado de espírito favorável presente na sociedade, um desejo de possuir propriedade, suficiente para apoiar e manter o movimento e nutrir instituições que o tornarão permanente” .4 Esse desejo de propriedade é fundamental porque promoveria uma cultura de empreendedorismo e proporcionaria um controle dentro da sociedade contra o acúmulo de propriedade nas mãos de poucos. Segundo, baseando-se no primeiro, é uma mudança de mentalidade dentro da sociedade para valorizar não apenas a propriedade de si mesmo, mas também dos outros. Isso se manifestaria em maior valor dado às pequenas e familiares empresas sobre grandes corporações cuja existência consolida a propriedade em mãos de poucos. Essa perspectiva mudará fundamentalmente a forma como tomamos decisões de consumo e, naturalmente, impulsionará a economia na direção de ter um número maior de empresas. Em terceiro lugar, é uma mudança de mentalidade em relação a uma maior comunidade e proximidade com os nossos vizinhos. Nós fundamentalmente precisamos pensar mais localmente e comunitariamente. A combinação dessas mudanças em perspectiva acabará afetando a forma como o governo funciona e as políticas que ele faz.

Com base em uma mudança de mentalidade, uma mudança no papel do estado também seria necessária. O papel diferente do estado é que seu papel principal na economia deveria ser “favorecer a propriedade, e sua política deveria ser a de induzir o maior número possível de pessoas a se tornarem donos” .5 Ou seja, o papel do governo é aumentar a propriedade dentro da sociedade, o que resultaria em muitas empresas ativas em tantos mercados quanto possível. Tais políticas que promovem a propriedade devem incluir políticas que facilitem a entrada no mercado para pequenas empresas, bem como remover as ações do governo que realmente subsidiam as grandes corporações e a acumulação de riqueza. Para ser mais específico, algumas idéias para essas políticas são as seguintes: Leis antitruste fortes e rigorosamente aplicadas, assistência específica para pequenas empresas por meio de políticas fiscais favoráveis ​​e empréstimos, eliminação de subsídios e tarifas que favoreçam a consolidação (especialmente na indústria agrícola). , ambiente regulatório favorável para pequenas empresas (especialmente pequenos bancos e cooperativas de crédito), eliminar brechas fiscais e simplificar o código tributário para remover a vantagem criada para grandes corporações, fortes investimentos em educação e treinamento profissional e implementação de serviços sociais através de órgãos intermediários (o princípio da subsidiariedade) que iria aumentar a assistência centrada na comunidade. Um papel adicional do estado seria ajudar a garantir o acesso a informações precisas (simétricas) no mercado. Um olhar para isso (e pode haver muitos) seria usar o exemplo da propaganda. As políticas devem garantir que os anúncios sejam honestos em sua apresentação de produtos e não manipulem o consumidor (apelando para nossos instintos básicos, por exemplo) para garantir que os consumidores tenham informações precisas sobre as quais basear as decisões do consumidor.

Ao centrar seu foco na propriedade generalizada, o Distributismo oferece uma estrutura que pode ajudar a sociedade a obter melhores resultados econômicos. Uma sociedade de propriedade generalizada está muito mais próxima da concorrência perfeita do que uma sociedade de propriedade consolidada. Portanto, o Distributismo realmente oferece uma perspectiva promissora para a discussão econômica contemporânea, mesmo quando considerada à luz da teoria econômica neoclássica contemporânea.


Notas de rodapé:

1- O capitalismo aqui será definido aqui como o sistema econômico do laissez-faire, livre da intervenção do governo (geralmente qualquer intervenção), que é apoiado em grande parte pelos conservadores contemporâneos.
2- Eu não escrevo este artigo afirmando que todas as suposições da economia contemporânea são válidas, nem estou afirmando que a economia como ciência matemática é justificada. Eu não promovo uma posição sobre este artigo. Em vez disso, escrevo isto para investigar o Distributismo sobre o que normalmente poderia ser considerado como motivos capitalistas para ver se ele poderia ser apoiado pela teoria econômica baseada na matemática contemporânea.
3- Desnecessário será dizer que há muito mais que poderia ser dito da análise econômica para apoiar as práticas econômicas contemporâneas relacionadas com a teoria econômica keynesiana.

4- Hilaire Belloc, Servile State.

5- Rerum Novarum, no. 46.


*Richard Gallenstein é doutorando em Economia Agrícola, Ambiental e de Desenvolvimento na Ohio State University.

Os altos custos dos preços baixos

Exclusivo: Entrevista com o distributista John Médaille.

A entrevista foi feita por Arthur Rizzi para a Reação Nacional.

John Médaille é professor da Universidade de Dallas e escreveu alguns livros, dentre eles se destaca o livro “Toward a truly free market: a distributist perspective on government, healthcare, money, déficits and more” (ainda sem tradução para o português); é um escritor recorrente de artigos para a Distributist Review e já prefaciou obras para outros pensadores importantes do catolicismo americano, como Christopher Ferrara.

1- Muitos católicos estão desconfortáveis com o tamanho do Estado. E eles acabam virando austríacos ou aceitam categorias de pensamento austríacas como remédio contra esse gigantismo. Uma vez que todo erro guarda consigo alguma verdade, o que há de errado e o que há de certo nessa percepção?

Eu creio que a nostalgia pelo Estado “pequeno” é algo um pouco deslocado e mal entendido; É meio que um tipo de volta a “era dourada” que na realidade nunca existiu. O “Estado” sempre foi poderoso (ou até mais) naquela época do que hoje. O que é diferente hoje é a centralização do poder, que o torna distante e impessoal. Por exemplo: Nenhum Estado é ou poderia ser tão poderoso quanto os anciãos do vilarejo, que ditariam toda a sua vida de acordo com normas bem estritas. Entretanto, este poder estava completamente em conformidade com as crenças e normas aceitas pelas pessoas.

Do mesmo modo, o artesão medieval provavelmente teria de observar tantas regras quanto um empresário moderno. Mas estas regras eram majoritariamente impostas pela guilda da qual ele era um membro e na qual ele tinha voz. As guildas regulavam condições de trabalho, qualidade, preço, horas, e muitos outros aspectos de seu trabalho. Elas eram de fato cartéis, e reguladas ás vezes pela cidade ou pela coroa, mas ainda assim a maioria governava-se segundo as suas regras.

De modo análogo, impostos eram maiores, se você considerar a corvéia como um imposto e o dízimo obrigatório como tal, o que em adição a todas as outras taxas, tais como as infames poll taxes que eram requeridas. Mas então um Barão poderia reclamar um imposto uma vez que ele tinha grandes deveres diante de seus trabalhadores e estados, e a Igreja poderia reclamar um imposto porque ela tinha responsabilidades por grandes faixas do que hoje são consideradas responsabilidades puramente governamentais: bem-estar, educação e até mesmo regulamentação bancária e de mercado.

A questão real, para mim, não é tanto o poder do Estado, mas a sua localização ou melhor dizendo, a sua distância, e a questão de quem consegue estabelecer as regras. Isto é, qual dos diferente de atores em uma economia localizada, regionalizada, nacionalizada e globalizada. É claro que vivemos nesta última economia, e as regras são estabelecidas ou, pelo menos, estão de acordo com os atores globalizados. Mas acontece que os atores mais poderosos não são os governos em si, mas corporações globalizadas, qualquer uma das quais é mais poderosa que a maioria dos governos, e trabalhando em conjunto capturaram todos os governos. Eles se queixam publicamente sobre as regras, mas na verdade são os atores mais poderosos para defini-las.

É claro que a grande piada sobre o governo “pequeno” libertário é que ele sempre leva a governos maiores e maiores dívidas. Por exemplo, o Partido Liberal – nós diríamos que o “partido libertário” chegou ao poder na Inglaterra em 1832 – o governo inglês nunca cresceu tão rápido ou se tornou tão extenso. De fato, foi preciso o poder do estado para criar a classe trabalhadora da qual o capitalismo depende. Nós tomamos essa “classe trabalhadora” como mais ou menos um “dado” da história, mas na verdade sua criação foi um ato deliberado de governo nos séculos XVIII e XIX. Eu delineio este processo no meu artigo “Trabalho Livre: A Teologia da Libertação do Capitalismo”. https://www.frontporchrepublic.com/2018/07/free-labor-the-liberation-theology-of-capitalism/

Os governos crescem mais rapidamente sob regimes libertários do que qualquer outro por duas razões. Primeiro, se “interesse próprio” é tudo o que deve guiar nossas ações, então é certamente do interesse próprio dos maiores atores apropriar-se do poder do governo para si mesmos e obter vantagens que de outra forma seriam impossíveis sem deter esse poder. E dois, governos libertários nunca conseguiram equilibrar oferta e demanda. Quando as corporações mantêm o poder dos trabalhadores, colocam-se na situação paradoxal de baixar os salários à subsistência. Mas isso só pode significar que há demanda insuficiente para limpar os mercados. Como G.K. Chesterton notou,

Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais difícil que a maioria deles se tornem clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negocio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que os outros tem pra gastar com carvão. […] É um círculo vicioso no qual a sociedade assalariada há de finalmente afundar ao começar a abaixar lucros e abaixar salários.

A solução para isso tem sido sempre os gastos do governo,mesmo em déficit. Esta é a solução keynesiana, que é praticada por cada governo “conservador”; o Estados e torna o consumidor de último recurso. Consequentemente não é surpresa de que os débitos sempre aumentem mais com governos conservadores do que com progressistas, nos Estados Unidos mais com Reagan, ambos os Bushs, e Trump, do que com Carter, Clinton, ou Obama. É uma mera questão de sobrevivência: sem o governo como o ultimo consumidor, o Sistema colapsa.

2) A ascensão da Moderna Teoria Monetária na grande mídia se tornou uma grande polêmica, e isso acabou por trazer os pós-keynesianos para o debate. Alguns distributistas apoiam a MMT. Uma vez que esta é uma normalmente apoiada por pós-keynesianos, o que poderíamos dizer que há de certo e errado na visão deles?

Eu não acho que seja possível um entendimento do que é o pós-keynesianismo sem cobrir o debate sobre o modelo IS-LM, o que não seria adequado fazer neste espaço. Mas em relação a Moderna Teoria Monetária, eu sou um distributista que a apoia por ser ela uma das mais apuradas descrições do dinheiro, e mais compatível com visões pré-modernas onde o crédito estava implícito na própria noção do dinheiro. Vocês podem encontrar mais opiniões minhas sobre o assunto aqui: https://www.frontporchrepublic.com/2012/01/friends-and-strangers-a-meditation-on-money/

Mas deixe-me dar uma breve parábola sobre dinheiro. Um turista dirige em uma pequena cidade a sua Ferrari e pára em um hotel. Ele coloca uma nota de cem reais no balcão e diz para o dono da pousada: “Eu quero um quarto para essa noite, mas tenho que inspecionar primeiro para ver se ele atende aos meus padrões”.

“Claro”, diz o dono da pousada, e dá-lhe uma chave, “está no quarto andar; vá dar uma olhada.”

O turista sobe as escadas. Enquanto isso, o dono da estalagem pega a nota de 100 reais e sai correndo para entregá-la a Matheus, um dono de mercearia a quem ele deve, para liberar sua conta antes travada. Matheus imediatamente leva a nota para Jacó, o fazendeiro que fornece suas provisões para a cozinha da pensão. Jacó leva o dinheiro para o mecânico Max, para pagar o conserto do trator. Max leva o dinheiro para Mariana, uma prostituta com quem ele tem faz alguns negócios. Mariana leva o dinheiro ao dono da pousada e a coloca no balcão para pagar pra ele, ah, no escritório! Naquele momento, o turista desce as escadas e diz: “Desculpe, este quarto não está do meu gosto”, pega a nota de 100 reais e vai embora. Se você entende o que aconteceu, você entende o dinheiro.

3) Na economia mainstream há novos keynesianos como Stiglitz, Mankiw, Krugman, Rodrik e outros, eles tem alguns bons pontos? Quais seriam esses bons pontos na sua opinião?

Não conheço profundamente o trabalho de todos para fazer um comentário útil. Mas o Stiglitz tem muitas coisas úteis a dizer acerca do assim chamado globalismo e seus problemas. Assim também, Krugman tem bons pontos especialmente em comércio internacional e problemas monetários internacionais, mas em outras questões eu o acho seus comentários vulgares, mas talvez seja um problema mais meu do que dele. Eu não conheço a fundo o trabalho de  Mankiw e Rodrik para fazer distinções.

Mas apenas um comentário geral sobre o keynesianismo. A realização de Keynes foi reintroduzir a justiça distributiva na discussão da economia. No entanto, seu grande fracasso foi confinar essa justiça ao domínio político. Keynes realmente não ofereceu nenhum desafio à economia clássica; ele meramente notou que o “equilíbrio geral” prometido pela teoria poderia facilmente ser um equilíbrio menor que o pleno emprego, trazendo miséria às massas. Para trazer prosperidade para todos, precisamos de justiça distributiva. Em Keynes, isso se tornou justiça re-distributiva: o sistema econômico geraria grandes pilhas de riqueza, e o sistema político se apropriaria de algumas delas e as redistribuiria para garantir que houvesse demanda suficiente para limpar os mercados. Longe de ser o inimigo do capitalismo, Keynes era seu salvador, e nenhum sistema capitalista conseguiu se manter, sem ser também um sistema keynesiano.

O que isso significa para um distributista é que, se você quer se livrar de Keynes, é preciso primeiro se livrar do capitalismo. Mas enquanto você tiver capitalismo, precisará do keynesianismo.

4) Ao longo dos anos 80, os antigos keynesianos como Tobin e Samuelson foram desacreditados pelos economistas / monetaristas do lado da oferta, como Friedman, e depois por novos clássicos como Robert Lucas Jr e Barro. Uma vez que é a visão dominante para muitos conservadores americanos, podemos dizer que há idéias úteis para um distributista nessas escolas?

Eu não entendo o porquê de dizer que economistas de “supply side” desacreditaram alguém. Uma vez que no fim das contas trata-se de tentativas de revitalizar a “A lei de Say” que afirma que a “oferta cria sua própria demanda” Mas isto é uma besteira e ninguém investe em nada assim. As pessoas só investem onde acreditam que já existe demanda suficiente para limpar o mercado do seu produto. Nem você nem eu construiríamos uma fábrica da Mercedes para abastecer um país empobrecido, com base na teoria de que “a oferta criará a demanda”. Esperamos que o país se torne rico o suficiente para comprar o carro em quantidades suficientes e depois construa a fábrica. E não é por acaso que os governos que afirmavam ser o mais “lado da oferta” eram, na prática, os mais keynesianos.

O nome popular para essa teoria é “trickle-down”, mas na verdade a sociedade é sempre levantada de baixo para cima. A riqueza sobe; não escorre. Eu sou a favor de dar bilhões – até trilhões – para os ricos. Mas primeiro dê para os pobres e as classes trabalhadoras, e deixem que os ricos compitam por isso. O dinheiro vai borbulhar em breve. Mas, enquanto isso vai enriquecer todo mundo que toca, e não apenas uma classe de elite.

“Trickle-down” é o que as pessoas fazem naquela pequena sala em casa e, em nome da decência humana e da ordem econômica, deve permanecer naquela sala.

5) Segundo Thomas Storck, os papas, João Paulo II, Bento XVI e Francisco, elogiaram o chamado “ordoliberalismo” alemão / economia social de mercado. Embora este seja um apoio pesado, muitos católicos preferem pontos de vista austríacos ou monetaristas em economia do que as visões de Eucken, Alfred Muller-Armack e Röpke. Por quê? E o que poderia ser útil para um distributista nessa escola?

Para completar o círculo com sua primeira pergunta, os católicos têm sido vítimas de uma enorme quantidade de propaganda de “Estado mínimo” proveniente de forças que de fato derivam sua riqueza e poder do governo, conforme descrito acima. No momento, estou lutando essa batalha na minha própria Universidade, onde eles querem estabelecer um programa de “Doutrina Social da Igreja” baseado no neoconservadorismo puro e apoiado por todos os suspeitos usuais (e ricos). Desnecessário dizer que eles não me pediram para servir na comissão.


O link para a entrevista em inglês está aqui: Reply-to-Arthu-Rizzo (1).