A luta de classes e a Doutrina Social da Igreja – Parte 2

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John Médaille*

Nassau Sênior e a Luta de classes:

William Nassau Sênior pode ser o economista mais importante de que você nunca ouviu falar. Ele foi o titular da cadeira de Economia Política na Universidade de Oxford. Mas ele foi também o doutrinário mais importante do Partido Liberal, ou no dialeto atual, o Partido Libertário, e quando esse partido chegou ao poder em 1832, Senior chegou a ele também. Sua maior contribuição ao Partido incluíram as workhouses e o monopólio da criação de  moeda dada ao banco da Inglaterra, naquele tempo, um banco privado.

Foi Senior o primeiro a propor que a economia poderia se livrar da ética, reduzindo-a a quatro proposições, quatro premissas que Senior considerava fundamentais, livres de julgamentos de valor, e autoevidentes. Suas reais proposições, na verdade,  não eram fundamentais, continha juízos de valor embutidos, e eram arbitrárias. Mas, independente de quais fossem, a ideia de que a economia poderia ser uma ciência pura, livre de juízos de valor foi de grande impacto sobre os pensadores dos séculos 19 e 20, que avançaram com sua agenda de uma economia livre de juízos éticos e apolítica, como por exemplo, Alfred Marshall.

Dentre os primeiros frutos dessa nova abordagem, a mais insidiosa foi a justificação da violência contra os pobres, como evidenciado pela nova lei dos pobres de 1834 (New poors law), uma proposta apoiada por Senior. A nova lei forçava todos os pobres a irem para as workhouses, onde eles viveriam em terríveis condições, trabalhando do nascer do sol ao por do sol, desde os quatro anos de idade, vestidos como prisioneiros, subnutridos e recebendo menos que o menor salário providenciado no mercado. As “Outdoor reliefs” (auxílio financeiro paralelo às workhouses) haviam sido abrrogadas legalmente, e as famílias foram separadas em houses distintas e forçadas a trabalhar nas workhouses como punição por sua miséria.

Sênior considerou que tais medidas duras eram necessárias devido à “ameaça de uma classe trabalhadora arrogante, recorrendo a greves, violência e combinações [sindicatos], [eram] uma ameaça para a criação, não apenas de riqueza, mas da própria existência da sociedade.” Se isso não bastasse, Senior opinou que havia apenas três maneiras de controlar os pobres: excluí-los da vida política; confiar em sua devoção ao hábito e costume, e confiar no poder militar – armar e disciplinar as classes alta e média e apoiá-las por um exército regular treinado para impor a obediência. Eu não consigo lembrar demde uma mais clara declaração de endosso a luta de classes nesta geração, depois de Karl Marx. Todo interesse aristotélico no bem comum fora agora banido da ordem econômica e política.

Nós estamos interessados não tanto na força intelectual dessas ideias, mas sim no fato de que elas foram normalizadas, por causa das premissas do “correto” pensamento econômico e social, tão difundida em toda a sociedade e na academia que até questioná-los era suficiente para que alguém fosse rotulado de cara, como comunista, católico ou anarquista. Nada restou da síntese aristotélica; ela estava, como Nietzsche diria mais tarde sobre Deus, verdadeiramente morta.

A instabilidade do poder:

E, no entanto, deve-se admitir que, embora a visão aristotélica tenha sido obtida em princípio, ela foi praticamente ignorada na prática. A classe é a característica mais onipresente de qualquer sociedade avançada, e as distinções de classe freqüentemente assumem dimensões patológicas, não apenas na concentração da riqueza, mas em exibições neuróticas dessa riqueza e uma vontade igualmente neurótica de poder. Este fenômeno requer explicação.

Num nível primitivo, onde cada homem está em contato com as condições de sua própria existência; ele busca seus meios de subsistência em contato direto com a natureza caçando, pescando, plantando, e assim em diante. Neste estágio, a natureza é seu único mestre.

Mas a medida em que a sociedade se torna mais complexa,  e há uma necessidade de coordenação do trabalho e da defesa da comunidade, distinções surgem e o poder é monopolizado por alguns que tem o lazer de treinar em armas ou controlar as forças da natureza, ou seja, o padre ou o engenheiro.

Como Simone Weil observa, quando o homem se torna “livre” das forces da natureza, ele cai mais e mais sob o domínio de outro homem. Mas o poder que pode aumentar a produtividade e defender a comunidade está, também, em posição de extrair riqueza da comunidade pela coerção de armas que excede sua contribuição. Nesta fase, como Lewis Mumford observa: “O poder político organizado apoiado por armas coercitivas é a fonte de propriedade e produtividade”. Simone Weil observa que “o poder contém uma espécie de fatalidade que pesa de maneira tão impiedosa sobre quem comanda quanto quem obedece”. A preservação do poder se torna uma necessidade vital, uma vez que é o poder que fornece seu sustento, e deve ser mantida contra rivais e inferiores. Isso configura um círculo vicioso em que o “mestre produz medo no escravo pelo próprio fato de ele ter medo do escravo e vice-versa; e o mesmo se aplica aos poderes rivais.” Mas esse poder nunca pode ser seguro; ele sempre procura se estabilizar pela expansão. As relações entre governante e governado nunca são totalmente aceitáveis ​​e “Constituem sempre um irremediável desequilíbrio que se agrava constantemente”.

Portantoo que há nunca é poder, mas apenas “uma corrida pelo poder, e que não há prazo, limite ou proporção definida para essa corrida”. O poder, entendido corretamente, é apenas um meio para um fim, o fim da ação, mas a busca pelo poder, devido à sua incapacidade essencial de se apossar de seu objeto, exclui todas as considerações de um fim e, finalmente, torna-se, através de uma reversão inevitável, tomar o lugar de todos os fins. É essa inversão da relação entre meios e fins, é essa loucura fundamental que explica tudo o que é sem sentido e sangrento ao longo da história. A história humana é simplesmente a história da servidão, que faz dos homens opressores e oprimidos, lidando com os seus brinquedos, que são instrumentos de dominação que eles mesmos fabricaram e, assim, reduzindo a humanidade a ser o objeto de bens inanimados.

A análise de Weil nos dá algumas dicas sobre a constância dos conflitos de classe nas história, mas ainda precisamos entender melhor sua variabilidade. O tempo não permite uma análise completa dessa questão, mas eu gostaria de dar uma olhada em um caso, nosso caso ou, mais especificamente, meu caso, pois durante a minha vida testemunhei uma transição de uma sociedade relativamente igualitária para uma dominada por profundas divisões de classe.

Aguarde a parte 3

Referências Bibliográficas:

Simone Weil, Oppression and Liberty (Amherst: The University of Massachusetts Press, 1958), 62.
 
Lewis Mumford,  The Pentagon of Power; The Myth of the Machine. Volume Two (San Diego, New York, London: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1970), 166.
 
 

*John Médaille é economista e teólogo.

“Inflação” de base, por si só, não é inflação.

Arthur Rizzi

Nossos colegas da Escola Austríaca tinham um universo de certezas no qual inflação de base monetária resulta sempre em inflação após a moeda sem lastro passar por todo o sistema financeiro inflando ativos e causando bolhas. Mas de uns tempos para cá o discurso de que aumento de preços é apenas o sintoma do aumento da oferta monetária evoluiu para algo mais maluco. A ideia de que pode haver inflação com preços estáveis, pois inflação é única e exclusivamente aumento de base monetária.

É claro que essa distinção radical destrói completamente a noção de inflação, e um bom exemplo dela pode ser visto no texto de Thorsten Polleit, “There will be (hyper)inflation” no Mises Institute dos Estados Unidos. A ideia é que, mesmo que um pedaço de bife continue custando exatamente o que custava 10 anos atrás, o fato puro e simples do Fed ter aumentado seu balanço em 400%, já constitui per se inflação.

Mas qual o fundamento dessa interpretação radicalizada? A ideia segundo a qual, cada dólar novo “impresso” pelo Fed reduz a utilidade marginal desses mesmos dólares. EM outras palavras, pela lei da utilidade marginal decrescente, cada dólar novo adicional reduz o valor de outro dólar na economia, assim como cada copo d’água extra reduz a utilidade de outro copo d’água para alguém com sede.

O problema desse argumento é bem óbvio para mim. Como tal proposição se baseia na lei da utilidade marginal decrescente, é evidente que ela se fundamenta num tipo de valor-utilidade. Dessa forma, como a utilidade de algo é algo pessoal e subjetivo, não pode ser algo que dá para objetivizar tão facilmente. E, especialmente se levarmos em consideração de que a Escola Austríaca trabalha com utilidade ordinal, ou seja, ela não é quantificável a nível de indivíduo.

Como o próprio F.A. von Hayek ensina, o sistema de preços é o mecanismo pelo qual os desejos e preferências individuais são objetivizados. Logo cada preferência subjetiva empurra o ponteiro do sistema de preços para cima ou para baixo. Se Hayek estiver certo nisso (e eu creio que está), logo fica evidente para nós que essa perda de valor unitário de cada dólar extra deve ser objetivizado no sistema de preços.

Em palavras ainda mais simples: A emissão de moeda deve sempre aparecer como inflacionária no sistema de preços, caso contrário, não é possível afirmar com certeza de que ocorreu uma depreciação marginal da utilidade de cada dólar ou real novo. Logo, se o governo amplia a base em 1000% e, porém os preços continuam estáveis ou aumentam muito pouco, a hipótese mais simples (navalha de Occam) é a de que não houve inflação apesar da inflação da base monetária. Pois doutra forma, não seria possível dizer que houve uma queda do valor unitário de cada moeda. E há uma boa razão para se crer que pode haver um cenário de preços semalteração com aumento de base. A ideia de que o custo unitário de cada dólar ou real cai se assenta no pressuposto de que a demanda por moeda é constante ou decrescente. As evidências empíricas das crises de 2008 e agora da coronacrise sugerem que a demanda por moeda é crescente com a expansão da base., pois devido a incerteza, os agente buscam a maior liquidez possível (motivos precaução e especulação).

Como coloca André Lara Resende (2019, p.68): “A inflação não é resultado do excesso de moeda, mas do excesso de demanda agregada ou das expectativas de inflação”. Ou a inflação é de demanda, ou é de custos (por choques cambiais, de oferta ou indexação).

Referências Bibliográficas:

RESENDE, André Lara. Consenso e Contrassenso: Por uma economia não dogmática. São Paulo: Editora Penguin, 2019.


 

O Covid-19 mudou o mundo da economia

Arthur Rizzi*

O Covid-19 não foi só um tremor de terra para a política mundial ou para o pensamento das pessoas sobre saúde, mas foi um terremoto econômico. Com a maioria dos países desenvolvidos com dívidas públicas altíssimas e com a política monetária com efeito severamente reduzido (como se já não fosse antes), só sobra o recurso da política fiscal para amortecer os impactos da depressão econômica que está por vir. Portanto, como gastar mais sendo que a ortodoxia nos diz que não há espaço para aumentar gastos públicos?

A ortodoxia econômica que parecia inalcançável, inabalável, aparentemente não tem uma resposta, pelo menos até ao momento em que escrevo essas linhas, para a crise. Entretanto, essa aparente solidez da ortodoxia está sendo demolida pela realidade do coronavírus, e o mundo se vê preso entre duas possibilidades pelo menos:

  1. Ou todo mundo ressuscita o “we’re all keynesians now!” e abraça a MMT que basicamente diz que o governo não se financia com impostos, mas sim com “impressão” de moeda. Os impostos seriam apenas o pagamento de um serviço chamado ordem jurídica e autoridade.
  2.  Viramos todos austríacos, nos sentamos, esperamos o pior passar (o que pode durar muito tempo e ser muito dramático), mas que em teoria permitiria uma retomada do crescimento sem “artificialidades”.

É claro que, governos mais ortodoxos e mais ranhetas (Paulo Guedes e Bolsonaro) deverão adotar uma saída a la 2008, com quantitative easing, no máximo, e usando as soluções dos novos keynesianos. Entretanto, essa postura mais conservadora ao invés de abraçar a MMT pode não ser o suficiente. Os que abraçarem a MMT, nos propiciarão pelo menos um bom teste empírico dessa teoria que alguns dizem ser loucura na prática.

Mas, o que realmente esperar da “coronacrise”?

a) Como a velocidade de circulação de moeda vai cair fortemente, a política monetária terá ainda menos força para evitar a deflação que deve vir adiante como resultado da retração econômica.

b) A política fiscal, ao menos no médio prazo, deve também ter seus efeitos reduzidos, pois num cenário de quarentena mundial, as pessoas usarão seus salários para comprar comida e remédio no máximo. E não adianta o governo contratar obras públicas aos montes, pois os trabalhadores que forem empregados nela, ainda assim, se concentrarão em comprar comida e remédios, reduzindo bruscamente o consumo de outros tipos de mercadorias.

c) Como os países que estão muito endividados não tem mais margens para gastar, vão ligar o “impressorão” e emitir moeda adoidado, os resultados disso ainda são um tanto incertos. Mas não me parece haver outra saída, que não seja a alternativa de deixar gente morrer e esperar o fundo do poço chegar, o que pode ser bem mais duro.

d) Ao fim da pandemia, num prazo de 2 a 5 anos é que conseguiremos mensurar a diferença de resultados entre quem adotou medidas mais radicais, como a MMT e os que foram mais conservadores adotando medida nenhuma ou simplesmente o receituário novo-keynesiano,

e) Países de renda média como o Brasil e a Argentina que têm alto grau de endividamento, terão de ser cuidadosos nesse período. Não podem se livrar de suas reservas cambiais a qualquer desvalorização da moeda, pois o pior da crise ainda está por vir, e se as reservas se esgotarem, poderá haver especulação desenfreada levando a um caos monetário. A Argentina, especialmente, foi pega na pior situação possível.

f) Não me surpreenderia se o FMI ajudasse países com grande endividamento público a refinanciar suas dívidas e/ou até ter parte delas perdoadas por grandes credores. Seria uma forma de salvar o mainstream.

g) Deve haver em alguns países, corridas aos bancos e quebradeira generalizada, mas ainda não há como mensurar onde, quando e em que extensão.

h) O Brasil deveria aproveitar a oportunidade para investir no SUS o que jamais investiu e de quebra, retomar investimentos em infraestrutura. Contudo, não dá para saber se a dupla BolsoGuedes tomará esse tipo de medida.

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A China ainda parece levar a melhor na guerra comercial de Trump.

Arthur Rizzi*

A onda de desvalorização das moedas latino-americanas expôs talvez o ponto falho da estratégia anti-China de Donald Trump. A guerra tributária contra os produtos chineses para na desvalorização do yuan e das demais moedas soberanas.

Na recente investida de Trump contra Brasil e Argentina (que expôs mais uma humilhação da diplomacia neocolonial americanista de Ernesto Araújo), Trump acusou Brasil e Argentina de fazerem dumping cambial em favor do aço e do agronegócio contra os interesses americanos. Ora, que se trata de retórica eleitoreira de Trump, já é de conhecimento público, 2020 está aí e ele precisa justificar sua guerra comercial perante os fiéis eleitores do agronegócio americano e da indústria de aço de seu país.

Porém, o que talvez escape a vista do presidente americano é que quanto mais ele impõe tarifas, mais ele semeia instabilidade no mercado global. E ao fazê-lo, mais gente foge das moedas emergentes tais como yuan, real e peso, e corram para o dólar, super apreciando-o e desvalorizando ainda mais o câmbio de países como Brasil, Argentina e… vejam só: China!

Ora, nesta belíssima aula de Delfim Netto na Ancham, ele demonstra com dados como o câmbio é muito mais forte que tributos e subsídios na determinação dos preços internacionais. Se por um lado, a China agradece (não que ela não esteja sentindo o peso dessa guerra, está), a instabilidade gerada no mercado internacional também diminui o vetor de exportações de países como Brasil e Argentina que poderiam ser beneficiado por esse quadro. Se ocorrer de o mercado mundial melhorar no médio prazo (entre 2 e 5 anos daqui para frente), e as moedas de Brasil e Argentina continuarem desvalorizadas, pode ser que haja uma retomada do setor industrial nos dois países.

Aguardemos.

Será uma nuvem negra no horizonte?

Arthur Rizzi*

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A situação da economia brasileira, que parecia sinalizar um 2020 melhor, nas últimas duas semanas começam a dar sinais de que pode muito bem ser o contrário. A deterioração dos termos de troca se aprofundou e os acordos feitos recentemente com a China focando exclusivamente no setor primário-exportador ameaça fortemente a indústria nacional amplificando os efeitos da doença holandesa.

Por outro lado. O governo vem queimando reservas cambiais rapidamente. Em menos de 6 meses o governo queimou quase 7% das reservas, e a deterioração das contas externas acelerada coloca o Brasil numa zona perigosa o que semeia o ambiente econômico com incerteza. Se não fosse pelas reservas cambiais construídas na gestão Guido Mantega, Buenos Aires estaria na latitude e longitude de Brasília.

Porém, segue crescente o risco de restrição externa, embora o governo tenha meios de contorna-la, deixando o dólar flutuar ou subindo o IOF e restringindo o fluxo de capitais. Se o governo não fizer nada, muito provavelmente o governo Bolsonaro estará numa sinuca de bico.

1- Continua a agenda de reformas, amplia o déficit em conta com medidas progressivamente livre-mercadistas.

2- Para as reformas e perde a confiança do mercado.

Mas está tudo bem. Está tudo bem.

O pré-sal e a irracionalidade do mercado financeiro

Ricardo Carvalho*

O leilão da cessão onerosa do pré-sal foi considerado um fracasso pelo governo a serviço do sistema financeiro internacional, mas para qualquer nacionalista e pessoa decente, deveria ter sido considerado bom.

Vejam como é “prazo-curtista” a lógica do tal “mercado”: a Petrobras arrematou, ontem, um dos maiores e melhores poços de petróleo do mundo, o que lhe garante várias décadas de alta lucratividade e crescimento sustentável. Mas, assim que o resultado do leilão foi anunciado, suas ações entraram em queda vertiginosa na bolsa de valores. Por uma razão simples: para conseguir explorar esse formidável ativo, a empresa precisará “investir demais” nos próximos anos, o que deverá acarretar uma redução temporária na sua política de distribuição de dividendos.

É por essas e outras que os setores de energia e combustíveis devem ter uma forte presença empresarial do Estado. O “mercado” não enxerga um palmo à frente do nariz, e confiar em cego para guiar cego é condenado desde os tempos do evangelho.


*Ricardo Carvalho é economista e mestrando em história econômica.

Impressorão e inflação: Instituto Mises reconhece que não é bem assim.

O Instituo Mises Brasil, por meio de sua conta jurídica, postou um texto que meio que reconhece o óbvio. A tese de que imprimir moeda ipso facto gera inflação quase que como resultado automático e inevitável não é verdade.

A política monetária que vem sendo implantada pelo Banco Central americano desde o final de 2008 logrou a façanha de inverter completamente as possíveis relações de causa e efeito. Antes de 2008, quando o Fed expandia a base monetária, era possível prever que haveria um aumento nos preços. E quanto ele contraía a base monetária — ou, mais corretamente, quando ele reduzia o ritmo de crescimento da base monetária —, era possível prever que haveria uma diminuição da inflação de preços. E ambas as relações de causa e efeito de fato ocorriam.

No arranjo atual, no entanto, não mais é possível prever essa relação.

É bem verdade que o argumento austríaco não é similar ao monetarista (e por isso este fato é muito mais um problema para eles do que para os austríacos), mas os austríacos também são defensores da ideia segundo a qual a impressão de moeda gera bolhas de capital. Ora, bolha é justamente o aumento insustentável do preço de um ativo! Logo inflação! Ou seja, além de causar efeitos reais na economia, o aumento de oferta de meios de pagamento leva inequivocamente a inflação. Vide este maravilhoso exemplo do texto do economista austríaco Thorsten Polleit, no qual argumenta que os quantitative easings  do FED levarão inevitavelmente a uma hiperinflação.

O que está acontecendo? Bem, o que ocorre foi explicado por James Tobin na década de 70. O grau de incerteza e a preferência pela liquidez decorrentes faz com que o aumento de oferta dos meios de pagamento (dentre os quais a moeda) fiquem empoçados nos bancos. Como ocorre a troca de “x bilhões” em ativos podres do mercado (retirados de circulação pelo Estado) por “x bilhões” em moeda, não há efeito riqueza, apenas uma mudança de composição do mesmo valor em ativos na economia. Quem diria que quase 40 anos depois Tobin venceria Friedman?

Impacto da Reforma da Previdência sobre o crescimento econômico no curto prazo.

O texto abaixo é um excerto de uma reportagem do Nexo.

Pedro Zahluth Bastos*

Para mim, o impacto no médio prazo será negativo, porque você está diminuindo a renda dos mais pobres sem nenhum tipo de garantia de que haverá aumento no investimento público com as eventuais economias fiscais geradas. Provavelmente não vai haver impulso sobre a demanda. E o impulso sobre a demanda provocado pelo aumento da credibilidade sobre a trajetória fiscal do governo já se mostrou muito tênue, em uma situação em que há também fatores objetivos como desemprego muito elevado, aumento da concorrência internacional, contração do comércio mundial, desaceleração da economia global e uma grande capacidade ociosa dos bens e serviços. Podem até haver alguns impactos localizados. Mas, nesta situação, é difícil imaginar que os efeitos sobre a credibilidade seriam capazes de sustentar uma onda de investimentos por muito tempo.

É mais fácil que essa reforma tenha impacto sobre o mercado de ativos financeiros – grande valorização da bolsa – do que propriamente sobre o investimento produtivo. Tudo mais constante, não vejo impacto positivo da reforma da previdência sobre o nível de atividade e sobre o nível de emprego.
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*Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor de economia da Unicamp e pesquisador do Cecon-Unicamp.

Impacto da Reforma da Previdência sobre a confiança na economia.

O texto abaixo é um excerto de uma reportagem do jornal Nexo.

Marcos Mendes*

Em termos de impacto na economia, a reforma da Previdência é uma condição necessária mas não suficiente para que a economia brasileira se estabilize e volte a crescer. Se você não faz a reforma, não há equilíbrio de longo prazo nas contas públicas. Isso significa que o governo vai, a cada ano, ter um déficit maior. Para pagar essa conta, o governo vai ter que se endividar. Quando a dívida do país cresce muito rápido, surge o temor de que o governo não vai conseguir pagar essa dívida em algum momento. E para pagar essa dívida, ou ele vai aumentar impostos, ou ele vai deixar a inflação subir, ou ele vai dar algum jeito de dar um calote nessa dívida Todos esses três cenários – mais imposto, mais inflação ou calote da dívida – são muito negativos para quem pensa em investir e produzir no país.

Na hora em que você dá uma maior sensação de normalidade, que o governo será capaz de pagar sua dívida, o grau de incerteza cai. As pessoas e as empresas investem e consomem mais e a economia tende a crescer mais rápido.

Além disso – e esse é um efeito que já está acontecendo –, na medida em que o governo precisa de menos dinheiro para fechar suas contas, ele vai pegar menos dinheiro emprestado no mercado. Com isso, ele pressiona menos a taxa de juros e a taxa de juros de equilíbrio da economia cai. Há perspectiva de que a reforma da Previdência, vai permitir, no futuro, taxas de juros mais baixas. E com a taxa de juros caindo, fica mais barato investir, comprar imóveis,financiar a compra de um automóvel etc. Essa queda da taxa de juros também cria condições para o crescimento econômico.


*Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper e consultor legislativo desde 1995.

América Latina fica para trás em relação aos EUA, Europa avança.

Arthur Rizzi*

O professor José Oreiro fez um artigo sobre a diferença de renda per capita entre Brasil e Chile. Os dados, porém, são de 2008 e mostram pouca diferença. Porém, os danos da crise brasileira se mostram evidentes no afastamento entre o progresso chileno e brasileiro quando se toma dados de 2014 e 2017, mais atualizados. Mesmo assim, o Chile não está num processo de alcançamento da economia americana, o que evidencia a crise da América Latina, dado que nem mesmo o seu país mais estável e próspero está evoluindo de modo a alcançar a renda per capita dos mais ricos.

Catching up

O afastamento do Brasil em relação ao Chile começa no governo Dilma, a partir de 2011, quando o Brasil começa a ter um crescimento cada vez menor ao passo que o Chile segue com crescimento estável até 2014. Com a crise do governo Dilma (já explicado neste blog e cuja síntese pode ser lida aqui), o crescimento da renda brasileira parou de acompanhar a chilena, mas por outro lado, a própria economia do Chile também desacelerou. Isso é uma hipótese que pode explicar boa parte das agitações sociais em Santiago esses dias. Não custa lembrar que foi em 2013, quando a desaceleração da economia seguia um ritmo igual em nosso país, que explodiu as Jornadas de Junho, que guardam enormes similaridades com os protestos no Chile de hoje, com direito a Black Blocs e, depois, a uma multidão sem pauta de insatisfeitos.

BraxChi

Fonte: BIRD apud Google

Não há como negar que os contextos são muito semelhantes entre ambos os países. No caso da Europa, vê-se que a mesma teve resultados econômicos superiores aos americanos no período, o que explica o alcançamento.

Referências:

RIBEIRO, A. Rizzi. MIRKO, Raphael. A crise econômica do governo Dilma sob uma ótica distributista. Academia (site), 2019.