“Inflação” de base, por si só, não é inflação.

Arthur Rizzi

Nossos colegas da Escola Austríaca tinham um universo de certezas no qual inflação de base monetária resulta sempre em inflação após a moeda sem lastro passar por todo o sistema financeiro inflando ativos e causando bolhas. Mas de uns tempos para cá o discurso de que aumento de preços é apenas o sintoma do aumento da oferta monetária evoluiu para algo mais maluco. A ideia de que pode haver inflação com preços estáveis, pois inflação é única e exclusivamente aumento de base monetária.

É claro que essa distinção radical destrói completamente a noção de inflação, e um bom exemplo dela pode ser visto no texto de Thorsten Polleit, “There will be (hyper)inflation” no Mises Institute dos Estados Unidos. A ideia é que, mesmo que um pedaço de bife continue custando exatamente o que custava 10 anos atrás, o fato puro e simples do Fed ter aumentado seu balanço em 400%, já constitui per se inflação.

Mas qual o fundamento dessa interpretação radicalizada? A ideia segundo a qual, cada dólar novo “impresso” pelo Fed reduz a utilidade marginal desses mesmos dólares. EM outras palavras, pela lei da utilidade marginal decrescente, cada dólar novo adicional reduz o valor de outro dólar na economia, assim como cada copo d’água extra reduz a utilidade de outro copo d’água para alguém com sede.

O problema desse argumento é bem óbvio para mim. Como tal proposição se baseia na lei da utilidade marginal decrescente, é evidente que ela se fundamenta num tipo de valor-utilidade. Dessa forma, como a utilidade de algo é algo pessoal e subjetivo, não pode ser algo que dá para objetivizar tão facilmente. E, especialmente se levarmos em consideração de que a Escola Austríaca trabalha com utilidade ordinal, ou seja, ela não é quantificável a nível de indivíduo.

Como o próprio F.A. von Hayek ensina, o sistema de preços é o mecanismo pelo qual os desejos e preferências individuais são objetivizados. Logo cada preferência subjetiva empurra o ponteiro do sistema de preços para cima ou para baixo. Se Hayek estiver certo nisso (e eu creio que está), logo fica evidente para nós que essa perda de valor unitário de cada dólar extra deve ser objetivizado no sistema de preços.

Em palavras ainda mais simples: A emissão de moeda deve sempre aparecer como inflacionária no sistema de preços, caso contrário, não é possível afirmar com certeza de que ocorreu uma depreciação marginal da utilidade de cada dólar ou real novo. Logo, se o governo amplia a base em 1000% e, porém os preços continuam estáveis ou aumentam muito pouco, a hipótese mais simples (navalha de Occam) é a de que não houve inflação apesar da inflação da base monetária. Pois doutra forma, não seria possível dizer que houve uma queda do valor unitário de cada moeda. E há uma boa razão para se crer que pode haver um cenário de preços semalteração com aumento de base. A ideia de que o custo unitário de cada dólar ou real cai se assenta no pressuposto de que a demanda por moeda é constante ou decrescente. As evidências empíricas das crises de 2008 e agora da coronacrise sugerem que a demanda por moeda é crescente com a expansão da base., pois devido a incerteza, os agente buscam a maior liquidez possível (motivos precaução e especulação).

Como coloca André Lara Resende (2019, p.68): “A inflação não é resultado do excesso de moeda, mas do excesso de demanda agregada ou das expectativas de inflação”. Ou a inflação é de demanda, ou é de custos (por choques cambiais, de oferta ou indexação).

Referências Bibliográficas:

RESENDE, André Lara. Consenso e Contrassenso: Por uma economia não dogmática. São Paulo: Editora Penguin, 2019.


 

O Covid-19 mudou o mundo da economia

Arthur Rizzi*

O Covid-19 não foi só um tremor de terra para a política mundial ou para o pensamento das pessoas sobre saúde, mas foi um terremoto econômico. Com a maioria dos países desenvolvidos com dívidas públicas altíssimas e com a política monetária com efeito severamente reduzido (como se já não fosse antes), só sobra o recurso da política fiscal para amortecer os impactos da depressão econômica que está por vir. Portanto, como gastar mais sendo que a ortodoxia nos diz que não há espaço para aumentar gastos públicos?

A ortodoxia econômica que parecia inalcançável, inabalável, aparentemente não tem uma resposta, pelo menos até ao momento em que escrevo essas linhas, para a crise. Entretanto, essa aparente solidez da ortodoxia está sendo demolida pela realidade do coronavírus, e o mundo se vê preso entre duas possibilidades pelo menos:

  1. Ou todo mundo ressuscita o “we’re all keynesians now!” e abraça a MMT que basicamente diz que o governo não se financia com impostos, mas sim com “impressão” de moeda. Os impostos seriam apenas o pagamento de um serviço chamado ordem jurídica e autoridade.
  2.  Viramos todos austríacos, nos sentamos, esperamos o pior passar (o que pode durar muito tempo e ser muito dramático), mas que em teoria permitiria uma retomada do crescimento sem “artificialidades”.

É claro que, governos mais ortodoxos e mais ranhetas (Paulo Guedes e Bolsonaro) deverão adotar uma saída a la 2008, com quantitative easing, no máximo, e usando as soluções dos novos keynesianos. Entretanto, essa postura mais conservadora ao invés de abraçar a MMT pode não ser o suficiente. Os que abraçarem a MMT, nos propiciarão pelo menos um bom teste empírico dessa teoria que alguns dizem ser loucura na prática.

Mas, o que realmente esperar da “coronacrise”?

a) Como a velocidade de circulação de moeda vai cair fortemente, a política monetária terá ainda menos força para evitar a deflação que deve vir adiante como resultado da retração econômica.

b) A política fiscal, ao menos no médio prazo, deve também ter seus efeitos reduzidos, pois num cenário de quarentena mundial, as pessoas usarão seus salários para comprar comida e remédio no máximo. E não adianta o governo contratar obras públicas aos montes, pois os trabalhadores que forem empregados nela, ainda assim, se concentrarão em comprar comida e remédios, reduzindo bruscamente o consumo de outros tipos de mercadorias.

c) Como os países que estão muito endividados não tem mais margens para gastar, vão ligar o “impressorão” e emitir moeda adoidado, os resultados disso ainda são um tanto incertos. Mas não me parece haver outra saída, que não seja a alternativa de deixar gente morrer e esperar o fundo do poço chegar, o que pode ser bem mais duro.

d) Ao fim da pandemia, num prazo de 2 a 5 anos é que conseguiremos mensurar a diferença de resultados entre quem adotou medidas mais radicais, como a MMT e os que foram mais conservadores adotando medida nenhuma ou simplesmente o receituário novo-keynesiano,

e) Países de renda média como o Brasil e a Argentina que têm alto grau de endividamento, terão de ser cuidadosos nesse período. Não podem se livrar de suas reservas cambiais a qualquer desvalorização da moeda, pois o pior da crise ainda está por vir, e se as reservas se esgotarem, poderá haver especulação desenfreada levando a um caos monetário. A Argentina, especialmente, foi pega na pior situação possível.

f) Não me surpreenderia se o FMI ajudasse países com grande endividamento público a refinanciar suas dívidas e/ou até ter parte delas perdoadas por grandes credores. Seria uma forma de salvar o mainstream.

g) Deve haver em alguns países, corridas aos bancos e quebradeira generalizada, mas ainda não há como mensurar onde, quando e em que extensão.

h) O Brasil deveria aproveitar a oportunidade para investir no SUS o que jamais investiu e de quebra, retomar investimentos em infraestrutura. Contudo, não dá para saber se a dupla BolsoGuedes tomará esse tipo de medida.

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A China ainda parece levar a melhor na guerra comercial de Trump.

Arthur Rizzi*

A onda de desvalorização das moedas latino-americanas expôs talvez o ponto falho da estratégia anti-China de Donald Trump. A guerra tributária contra os produtos chineses para na desvalorização do yuan e das demais moedas soberanas.

Na recente investida de Trump contra Brasil e Argentina (que expôs mais uma humilhação da diplomacia neocolonial americanista de Ernesto Araújo), Trump acusou Brasil e Argentina de fazerem dumping cambial em favor do aço e do agronegócio contra os interesses americanos. Ora, que se trata de retórica eleitoreira de Trump, já é de conhecimento público, 2020 está aí e ele precisa justificar sua guerra comercial perante os fiéis eleitores do agronegócio americano e da indústria de aço de seu país.

Porém, o que talvez escape a vista do presidente americano é que quanto mais ele impõe tarifas, mais ele semeia instabilidade no mercado global. E ao fazê-lo, mais gente foge das moedas emergentes tais como yuan, real e peso, e corram para o dólar, super apreciando-o e desvalorizando ainda mais o câmbio de países como Brasil, Argentina e… vejam só: China!

Ora, nesta belíssima aula de Delfim Netto na Ancham, ele demonstra com dados como o câmbio é muito mais forte que tributos e subsídios na determinação dos preços internacionais. Se por um lado, a China agradece (não que ela não esteja sentindo o peso dessa guerra, está), a instabilidade gerada no mercado internacional também diminui o vetor de exportações de países como Brasil e Argentina que poderiam ser beneficiado por esse quadro. Se ocorrer de o mercado mundial melhorar no médio prazo (entre 2 e 5 anos daqui para frente), e as moedas de Brasil e Argentina continuarem desvalorizadas, pode ser que haja uma retomada do setor industrial nos dois países.

Aguardemos.

Será uma nuvem negra no horizonte?

Arthur Rizzi*

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A situação da economia brasileira, que parecia sinalizar um 2020 melhor, nas últimas duas semanas começam a dar sinais de que pode muito bem ser o contrário. A deterioração dos termos de troca se aprofundou e os acordos feitos recentemente com a China focando exclusivamente no setor primário-exportador ameaça fortemente a indústria nacional amplificando os efeitos da doença holandesa.

Por outro lado. O governo vem queimando reservas cambiais rapidamente. Em menos de 6 meses o governo queimou quase 7% das reservas, e a deterioração das contas externas acelerada coloca o Brasil numa zona perigosa o que semeia o ambiente econômico com incerteza. Se não fosse pelas reservas cambiais construídas na gestão Guido Mantega, Buenos Aires estaria na latitude e longitude de Brasília.

Porém, segue crescente o risco de restrição externa, embora o governo tenha meios de contorna-la, deixando o dólar flutuar ou subindo o IOF e restringindo o fluxo de capitais. Se o governo não fizer nada, muito provavelmente o governo Bolsonaro estará numa sinuca de bico.

1- Continua a agenda de reformas, amplia o déficit em conta com medidas progressivamente livre-mercadistas.

2- Para as reformas e perde a confiança do mercado.

Mas está tudo bem. Está tudo bem.

O pré-sal e a irracionalidade do mercado financeiro

Ricardo Carvalho*

O leilão da cessão onerosa do pré-sal foi considerado um fracasso pelo governo a serviço do sistema financeiro internacional, mas para qualquer nacionalista e pessoa decente, deveria ter sido considerado bom.

Vejam como é “prazo-curtista” a lógica do tal “mercado”: a Petrobras arrematou, ontem, um dos maiores e melhores poços de petróleo do mundo, o que lhe garante várias décadas de alta lucratividade e crescimento sustentável. Mas, assim que o resultado do leilão foi anunciado, suas ações entraram em queda vertiginosa na bolsa de valores. Por uma razão simples: para conseguir explorar esse formidável ativo, a empresa precisará “investir demais” nos próximos anos, o que deverá acarretar uma redução temporária na sua política de distribuição de dividendos.

É por essas e outras que os setores de energia e combustíveis devem ter uma forte presença empresarial do Estado. O “mercado” não enxerga um palmo à frente do nariz, e confiar em cego para guiar cego é condenado desde os tempos do evangelho.


*Ricardo Carvalho é economista e mestrando em história econômica.

Impressorão e inflação: Instituto Mises reconhece que não é bem assim.

O Instituo Mises Brasil, por meio de sua conta jurídica, postou um texto que meio que reconhece o óbvio. A tese de que imprimir moeda ipso facto gera inflação quase que como resultado automático e inevitável não é verdade.

A política monetária que vem sendo implantada pelo Banco Central americano desde o final de 2008 logrou a façanha de inverter completamente as possíveis relações de causa e efeito. Antes de 2008, quando o Fed expandia a base monetária, era possível prever que haveria um aumento nos preços. E quanto ele contraía a base monetária — ou, mais corretamente, quando ele reduzia o ritmo de crescimento da base monetária —, era possível prever que haveria uma diminuição da inflação de preços. E ambas as relações de causa e efeito de fato ocorriam.

No arranjo atual, no entanto, não mais é possível prever essa relação.

É bem verdade que o argumento austríaco não é similar ao monetarista (e por isso este fato é muito mais um problema para eles do que para os austríacos), mas os austríacos também são defensores da ideia segundo a qual a impressão de moeda gera bolhas de capital. Ora, bolha é justamente o aumento insustentável do preço de um ativo! Logo inflação! Ou seja, além de causar efeitos reais na economia, o aumento de oferta de meios de pagamento leva inequivocamente a inflação. Vide este maravilhoso exemplo do texto do economista austríaco Thorsten Polleit, no qual argumenta que os quantitative easings  do FED levarão inevitavelmente a uma hiperinflação.

O que está acontecendo? Bem, o que ocorre foi explicado por James Tobin na década de 70. O grau de incerteza e a preferência pela liquidez decorrentes faz com que o aumento de oferta dos meios de pagamento (dentre os quais a moeda) fiquem empoçados nos bancos. Como ocorre a troca de “x bilhões” em ativos podres do mercado (retirados de circulação pelo Estado) por “x bilhões” em moeda, não há efeito riqueza, apenas uma mudança de composição do mesmo valor em ativos na economia. Quem diria que quase 40 anos depois Tobin venceria Friedman?

Impacto da Reforma da Previdência sobre o crescimento econômico no curto prazo.

O texto abaixo é um excerto de uma reportagem do Nexo.

Pedro Zahluth Bastos*

Para mim, o impacto no médio prazo será negativo, porque você está diminuindo a renda dos mais pobres sem nenhum tipo de garantia de que haverá aumento no investimento público com as eventuais economias fiscais geradas. Provavelmente não vai haver impulso sobre a demanda. E o impulso sobre a demanda provocado pelo aumento da credibilidade sobre a trajetória fiscal do governo já se mostrou muito tênue, em uma situação em que há também fatores objetivos como desemprego muito elevado, aumento da concorrência internacional, contração do comércio mundial, desaceleração da economia global e uma grande capacidade ociosa dos bens e serviços. Podem até haver alguns impactos localizados. Mas, nesta situação, é difícil imaginar que os efeitos sobre a credibilidade seriam capazes de sustentar uma onda de investimentos por muito tempo.

É mais fácil que essa reforma tenha impacto sobre o mercado de ativos financeiros – grande valorização da bolsa – do que propriamente sobre o investimento produtivo. Tudo mais constante, não vejo impacto positivo da reforma da previdência sobre o nível de atividade e sobre o nível de emprego.
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*Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor de economia da Unicamp e pesquisador do Cecon-Unicamp.