Feminismo, relacionamentos e contos de fadas

Texto originalmente postado no Instituto Shibumi por Lawlyet Ribeiro

Leonardo Lawlyet Ribeiro*

O feminismo vê os contos de fadas sob uma ótica materialista. Vêem coisas tão belas como príncipes, princesas, dragões, árvores mágicas, espelhos encantados, rios de chocolate, gigantes, castelos nas nuvens, árvores de computadores etc., como “papéis sociais opressores”.

Para o feminismo, uma princesa encantada nada mais é do que uma alienação. Um papel de passividade. A passividade de esperar um homem com determinadas características para o casamento. Para o feminismo, a princesa está sendo oprimida sem ter escolha. Talvez o feminismo pense que o príncipe é o machista opressor que deveria ser preso acusado de misoginia ao jogar a pobre princesa para longe das máquinas de tear, justamente quando ela estava quase transformando palha em ouro e conseguiria uma promoção na empresa de Rumpelstichen. Ou por tirá-la do sono tão gostoso e libertador que sua amiga ‘não-alienada’, Malévola, havia induzido (talvez para salvá-la de ser se casar com um porco machista opressor).

O ponto chave aqui é justamente os olhos com que o feminismo vê os contos de fada. No país das fadas, pêssegos capazes de dar a vida eterna continuam florescendo em árvores encantadas. Você arranca um e outro magicamente nascerá. Isso continuará sendo uma realidade no país das fadas, independentemente da visão do leitor. Não importa se essa árvore é contemplada por uma criança sonhadora que vê mágica em tudo ou por um banqueiro materialista que só vê custos em tudo. A árvore continuará sendo uma árvore encantada sempre. Essa é a realidade da árvore. Mas, por mais frutos mágicos que essa árvore seja capaz de dar, o feminismo irá ignorar essa realidade e enxergar somente o preço desses frutos. Se o fruto é capaz de dar juventude e beleza eterna, essa característica para o feminismo será somente algo a mais para poder vender os frutos. A preocupação do feminismo com a árvore não é sua mágica, mas seu custo.

Foi assim que o feminismo criou a falácia da ‘cultura de princesas‘. Ao olhar para os príncipes e princesas dos contos de fada, o feminismo fecha os olhos para a beleza, para a mágica, para virtude, para a sensibilidade, para o heroísmo e para o amor. O feminismo vê nela uma alienada oprimida por ter que esperar um príncipe salvá-la. Me pergunto se o feminismo veria numa vítima de incêndio uma alienada oprimida socialmente por estar sendo salva por um bombeiro. Talvez recusar a ajuda machista e opressora da polícia ao ser atacada por um agressor seja uma verdadeira demonstração de feminismo. Talvez, por minha insistência em manter viva a criança dentro de mim e por ter crescido com desenhos da Disney, eu não consiga entender bem essa visão feminista. Uma coisa que percebo com isso é que é justamente essa obsessão feminista com opressão que torna o feminismo tão fetichista por opressão. Ao olhar uma princesa tão nobre, com todas as virtudes e mais belos encantamentos, o feminismo vê somente uma alienada. Será que isso também não significa que o feminismo vê dessa forma todas as mulheres? Talvez o feminismo veja uma princesa dessa forma por ser incapaz de ver dignidade na mulher. Talvez essa obsessão do feminismo com objetificação seja justamente porque o próprio feminismo veja as mulheres como objetos. E o que dizer do príncipe encantado, esse opressor machista? Será que o feminismo não percebe que o príncipe simboliza justamente um homem que ama tão intensamente uma mulher a ponto de matar mil dragões e arriscar sua vida por ela com todo prazer e alegria? Particularmente acho muito triste uma ideologia que insiste em ver opressão e objetificação até mesmo nos mais nobres e puros sentimentos.

Ao criar a falácia da “cultura das princesas”, o feminismo na verdade mostrou que foi dominado justamente por tudo aquilo que critica, tornando-se incapaz de perceber que os contos de fada na verdade mostram que tanto o príncipe, como a princesa, só se tornam realmente príncipe e princesa quando se encontram.


*Leonardo Lawlyet Ribeiro é fundador do Instituto Shibumi.

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Alain Soral – Feminismo, uma ideologia a serviço do sistema?

por Alain Soral

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Você precisa diferenciar claramente o feminismo, da mulher e da feminilidade. Feminismo é um movimento político que, da mesma forma que o modelo marxista, proclama que a história é uma luta de classes, aqui proclama que a história é uma guerra dos sexos e que, de fato, a função da história seria libertar… as mulheres da opressão que elas estão sujeitas pelos homens. Então é uma visão de mundo, que eu chamo de comunitarismo vitimista, com um aspecto monodeterminista, que quer dizer “as mulheres são alienadas pelos homens e tem de se libertar da opressão masculina”, esta é a primeira definição do que seria feminismo.

Elas manipulam as reivindicações feministas, algumas são frequentemente legítimas, de libertar a mulher, para a realidade, torná-las servas da sociedade de mercado e assalariada, que são a mesma coisa, já que você precisa de salário para consumir. Então, de fato, as exigências feministas por emancipação costumam transformá-las em assalariadas, torná-las trabalhadoras assalariadas e consumidoras. É um processo em duas etapas. E… isso se iniciou nos EUA, com o que se chama de “teoria da nova mulher”, que consiste em tirar a mulher de casa, uma função não-mercantil, sem poder de compra direto, e então lhes fazer sentir culpa e ao mesmo tempo… forçar sua consciência a pensar que ser dona de casa, esposa é uma alienação, um sofrimento, uma forma de humilhação, e por fim, fazê-las mudar da esfera de influência do marido para a do patrão, o que é um pouco ambíguo. E no fim das contas, você percebe que as mulheres terminam, graças a luta feminista, por sofrer uma “dupla alienação” que é a de suportar o marido e o patrão. É o que alguns chamam de jornada dupla: ser mãe, esposa e trabalhadora assalariada.

O que com frequência, especialmente na classe popular, agravou sua situação cotidiana, não melhorou. E isso nos traz para outra análise, que é a de que, finalmente, o feminismo não transcende a luta de classes, porque, na verdade, o foco da emancipação feminista frequentemente tem sido os interesses das mulheres da burguesia que raramente o identificam como tal. Na verdade, 3/4 da militantes feministas são burguesas, que tentam se emancipar de seus papéis de mãe de família, esposa, seu status de dependente para ir à sociedade civil, que é… que para elas é um avanço, já que significa ter profissões interessantes. Elas podem ser advogadas, pesquisadoras, ter uma livraria, etc.

Ao passo que para as mulheres de classe popular, não é apenas cuidar da casa e das crianças, mas acima disso, ser uma trabalhadora de produção. E o que é bem interessante é que para a classe popular, a emancipação, pelo contrário, seria escapar dos constrangimentos da produção e do sistema assalariado. Tornar-se uma mulher sustentada ou dona de casa, que é um luxo, é… é uma aspiração das mulheres da classe trabalhadora, escapar do imperativo de produção, do trabalho, enquanto que para a burguesia é escapar do tédio, o tédio de casa, da mulher burguesa, para ter acesso uma vida social mais interessante, profissões mais interessantes, o que significa que há uma oposição, em termos de classe, entre as ambições da mulher burguesa, em termos de emancipação, e ambições da mulher da classe trabalhadora. O feminismo raramente identifica essa contradição, e é fácil ver que a maioria das líderes feministas são mulheres da burguesia, corresponde a sensibilidade da esquerda burguesa.

Então, este é o trabalho que eu tenho feito que eu considero contestável, mas que foi criticado demais, geralmente sem… presumindo minhas as minhas intenções. Machismo, desdenho por mulheres, etc.

É possível que uma mulher seja uma trabalhadora assalariada desde que alguém tome conta das suas crianças pequenas, com frequência, o que nós esquecemos é que por trás das mulheres feministas libertas, existe uma outra mulher, que sofre uma dupla alienação, a empregada, por exemplo. Ou a babá que cuida da criança burguesa emancipada e de seus próprios filhos, então na verdade a emancipação feminina com frequência acontece às custas de outras mulheres que sofrem dupla alienação. Porque enfrentam todos os problemas ao mesmo tempo: dar a luz, criar seus garotinhos e trabalhar também, isto é… multiplicam o tempo de trabalho, mas os dias não se esticam, e as mulheres não possuem mais ubiquidade do que os homens. Então como você dá conta das suas crianças quando tem que trabalhar 8 horas por dia? Essa é a questão.

Agora algumas mulheres podem pagar por uma babá e ir trabalhar, o que significa que elas tem de ganhar mais do que a babá, mas para as mulheres da classe trabalhadora, uma babá poderia lhes custar mais do que elas mesmas conseguem ganhar. Então esta não é uma escolha livre. É uma questão de classe social. E frequentemente acaba em, ao menos na classe popular, jornada dupla. Porque hoje, realmente, o “direito” ao trabalho é um embuste. É uma obrigação trabalhar. Praticamente nenhum casal, hoje em dia, consegue se manter só com um salário na classe trabalhadora(o que demonstra uma regressão social por sinal). Você necessita, nas famílias da classe trabalhadora ou pobres de colarinho branco, dois salários para que a casa sobreviva. Você precisa de dois. Então se ela deixa de trabalhar, atualmente é um luxo para a classe trabalhadora. Ela tem que trabalhar.

Então o que o feminismo considera fruto de sua luta, o direito assalariado, é, na verdade uma obrigação… é uma obrigação que e é o que deseja o sistema mercantil… já que esse mercado em eterno crescimento, tem interesse em expandir o assalariamento e o poder de compra. A capacidade de consumir. Então, realmente, o que as feministas consideram o fruto de sua luta foi na verdade a vontade oculta da sociedade de mercado: “colocar as mulheres no mercado assalariado e consumidor.”. Por isto que as feministas, que sempre foram poucas, são sempre mimadas pela mídia e pelo poder, diferente das lutas sociais unissex. Porque, na verdade, elas sem saber estão agindo nas mãos da sociedade de mercado e da sociedade de consumo. E é por isso que eu digo que as feministas, em retrospectiva, aparecem finalmente como… sendo umas idiotas úteis da sociedade de mercado, da sociedade de consumo e da sociedade assalariada, em geral.

Onde quer que o feminismo ascenda, geralmente as lutas de classe e a consciência de classe regridem. e, por isto, o feminismo é um tanto ambíguo. Quanto mais burguesa, liberal e “boba” uma sociedade se torna, maior disparidade entre ricos e pobres se alcança, mais feministas você verá e mais poder lhes será dado. É uma observação consistente então.

Eu creio que infelizmente as feministas desempenham um papel de idiotas úteis ou ainda pior nesta questão. Eu tenho grande respeito por todas as mulheres, que declaram que não serão jamais feministas, Marguerite Yourcenar ridicularizou as feministas porque ela viu o “Ardil-22”.

Mulheres de inteligência superior, que são conscientes de seu ser e que desejam lutar por sua liberdade, sempre denunciaram as mentiras, a ingenuidade, a estupidez do combate estritamente feminista. E mesmo ícones feministas como a Sra. Halimi, que escreveu um livro, não faz tanto tempo, onde basicamente admite… que ela queria irritar seu pai e é basicamente uma questão edípica burguesa. Geralmente o feminismo é apenas um acerto de contas edípico burguês, o exemplo mais flagrante seria Simone de Beavouir. Simone de Beavouir é a prova de que o feminismo é uma merda, integralmente. A relação dela com sua família, com Sartre, com a esquerda, com os homens, é de uma ingenuidade que é apenas igualada… enfim, é mesquinho, malicioso e desonesto. E eu gostaria que as pessoas interessadas nessa questão tenham a honestidade de analisar, retrospectivamente, o que Simone Beavouir representa… quando concerne a produção filosófica, seu comprometimento político, sua, como diria, ambiguidade de socialite. Esta longe de ser brilhante, eu prefiro pensar em Louise Michel.

 

Transcrição – Raphael Mirko, texto publicado originalmente no blog: conservadoresantiliberais.blogspot.com