União Européia, China e barganha empresarial.

No nosso primeiro texto sobre o acordo com a União Européia envolvendo o Mercosul, apontamos as razões geopolíticas para que tal acordo fosse fechado, e cada vez mais claro fica que as razões para o acordo ter sido feito a toque de caixa é basicamente afastar o Brasil e os países do Mercosul da China.

O segundo maior mercado para o qual o Brasil exporta é a União Européia, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos. Que o o olavo-bolsonarismo quer afastar-se da China a todo e qualquer custo é já sabido, e desde o excelente texto do nosso colaborador Ricardo Carvalho isto está denunciado. O Brasil exportou quase 100 bilhões para a China em 2018, mais que o dobro da União Européia, dados do Ministério da Economia que podem ser baixados aqui. Porém, notícias dão conta de que o acordo com a União Européia pode fazer o Brasil exportar até 125 bilhões para a mesma em até 15 anos. 25% mais que para a China hoje.

Ao que tudo indica, este foi o meio que Ernesto Araújo conseguiu (como bom liberal-americanista que é), de cumprir sua agenda anti-nacional, oferecendo o mercado Europeu ao nosso setor produtivo, de modo a tornar indolor para a população e para nosso setor primário a entrada na guerra comercial americana contra a China. Em outras palavras, ao invés de termos UE + China, teremos basicamente UE – China. É uma hipótese, é claro. E é também estupidez. Mas para quem é um fanático americanista como Olavo, Araújo e seu séquito de bobalhões, me parece uma aposta válida.


 

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O globalismo mais perto da direita: Acordo Mercosul-União Européia.

Arthur Rizzi*

O acordo com a União Europeia é até agora o primeiro e único acerto do ponto de vista econômico do Macumbeiro do Itamaraty, Ernesto Araújo. Seu significado geopolítico, entretanto, é o mais importante: Adesão a OCDE e o abandono do status de país em desenvolvimento da OMC + Juntar-se aos EUA na guerra econômica contra a China + Acordo Mercosul-UE significam o sepultamento total do BRICs para nós, que agora se torna RICs. Ao menos no que tange ao Brasil, e isto quer dizer que integramos totalmente a zona de influência dos Estados Unidos.

Do ponto de vista estritamente econômico, não há nenhuma razão para dar as costas aos BRICs e sair da condição de país em desenvolvimento na OMC. As razões são todas geopolíticas: Os BRICs de um ponto de vista econômico resume-se cada vez mais a China que dividia esse posto com o Brasil, e de um ponto de vista militar é a junção da Rússia, da China e da Índia.

A OMC é um reduto onde a China tem muita influência. Por isso Trump quer tirar o Brasil dela e enfurnar na OCDE onde eles delimitam regras econômicas para os membros mais fracos seguirem (mas que por alguma razão misteriosa eles não seguem… Curioso, não?) Ao enfraquecer o BRICs economicamente tirando o Brasil (8ª economia do mundo, a mais importante depois da China), enfraquece-se assim o projeto Russo de um Banco dos BRICs, alternativo ao FMI – Fundo Monetário Internacional.

Não é curioso que a direita antiglobalista mais uma vez ajudou os globalistas? O FMI sempre fora apontado como um órgão do globalismo, um de seus braços econômicos e, ora, vejam só: É um braço da guerra híbrida dos Estados Unidos. Lembram-se?

O que a nossa secular tradição diplomática, seguindo o legado do Barão do Rio Branco, faria? Provavelmente manter os BRICs, entrar na OCDE e ficar na OMC. Seria a junção do melhor dos mundos. Ainda que não fosse possível, certamente se esforçaria para consegui-lo. E, não conseguindo, optaria pela saída conservadora, que é preferir o conhecido ao desconhecido. O ponto é que em momento algum nossa diplomacia tentou isso. Mas aqui, com o ministro Araújo, infelizmente, não estamos no reduto de nossa tradição diplomática mais.

O acordo entre o Mercosul e a União Européia vinha em banho-maria há 20 anos, e surpreendeu a todos ser resolvido tão rápido na data de hoje. Ora, quando um acordo sai rápido demais depois de um longo período de negociação é sempre preocupante. Nós górdios muito longevos não costumam ser resolvidos assim a golpe de canetada e frase feita. O acordo estava se arrastando a anos pois os europeus sempre pediam algo que os governos anteriores não queriam dar. Resta saber se:

  • a) A conveniência geopolítica de enfraquecer os BRICs sacando o Brasil dele falou mais alto levando os europeus a baixarem exigências. O que eu particularmente duvido muito. A briga Trump-União Européia é em grande parte “prosopopeia flácida” e miudezas. Na hora das crises os americanos sabem que só podem contar com os europeus e os europeus com os americanos. As brigas entre ambos é muito mais sobre o “como” organizar a ordem liberal conduzida pelos Estados Unidos e neutralizar a China, em que Trump exige um papel maior para os Estados Unidos do que qualquer outra coisa, neste caso, oposta ao Trump, a União Européia é o pulmão do internacionalismo cosmopolita hoje.
  • b) Se diferente dos governos anteriores este ofereceu aquilo que os anteriores não queriam dar. Enquanto isso não fica claro, observemos a big picture:

Com o Brasil abrindo mão do status de país em desenvolvimento na OMC e entrando na OCDE (o que não deve tardar muito), não poderemos adotar medidas heterodoxas ou criativas, como as que Trump vem tomando com seu protecionismo, por exemplo (Mas quem tem colhões para cobrar algo dos EUA?).

Sendo obrigados a adotar apenas medidas ortodoxas, tendo a temer os efeitos sobre a indústria brasileira, agora que o BNDES está sendo desmontado. Os industriais brasileiros estão animados com a queda das barreiras tarifárias para entrar na Europa; mas estão vendo apenas metade do quadro. Não estranharia se em breve eles não começassem a murmurar e a reclamar do acordo. Se os resultados nesse caso, forem ruins, teremos bem pouca margem de defesa econômica graças a entrada na OCDE.

Para o Mercosul, um produto é considerado do bloco se tem 60% de seus componentes fabricados dentro do bloco. Para a União Europeia apenas 30%. Ou seja, um produto feito 70% recursos americanos mas com 30% de peças alemãs pode entrar com os benefícios do acordo no nosso mercado. Isso é no mínimo digno de atenção para que ninguém extra bloco europeu goze das vantagens do acordo.

Com as hostilidades com a China e o afastamento dos BRICs, os chineses devem se voltar para Angola e Moçambique, onde eles têm empreendimentos agrícolas que podem no longo prazo eliminar a necessidade do nosso agronegócio. E eles já começam a olhar para outros países da África como possíveis alternativas às nossas commoditties.

Em resumo, O acordo Mercosul-União Européia é bom e pode ajudar a economia brasileira a crescer até 2% no cenário mais otimista para 2020-2021. Preocupam-me, ainda, em resumo os seguintes tópicos:

a) Os termos do acordo ainda obscuros quanto aos seus efeitos.
b) O quadro geral em que esse acordo se insere.

Mais perto do globalismo:

Não tardou para que os notáveis do olavo-bolsonarismo começassem a louvar o acordo com a União Européia. Os mesmos próceres que não menos de alguns meses atrás a reputavam como “a ponta de lança do globalismo”, como é o caso do olavista Leandro Ruschel:

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Fonte: Twitter

Como a direita americanista poderá seguir apoiando movimentos direitistas euroscépticos que querem demolir a União Europeia, apoiar o Brexit e, simultaneamente, torcer para o acordo de livre-mercado com a UE prosperar e salvar o governo Bolsonaro da recessão? De que vale uma União Européia sem Alemanha, Inglaterra, França e Itália? Como os mesmos que esbravejavam contra o Acordo de Paris e as demarcações de reservas indígenas poderão continuar a gritaria se o acordo obriga o Brasil a continuar membro dessas pautas? Mistério.

Um passo mais dado em direção a se tornarem neoconservadores (à americana), e isso significa um passo mais em direção ao globalismo. Esperem só até descobrir que a OCDE é uma das maiores promotoras da agenda LGBT.


Para mais artigos sobre o assunto:

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Política externa: Brasil, pan-lusitanismo e hispanismo.

Arthur Rizzi*

Ao longo da história, a diplomacia brasileira orientou nossa política externa em muitos sentidos, mas quase sempre de maneira responsável. Mesmo quando se optou por uma Política Externa Independente, seja sob a égide do terceiro mundismo, ou sob a égide do universalismo, tudo sempre foi feito de maneira muito gradual e condizente com nossa posição e nível de força.

Mesmo a profundamente ideologizada diplomacia petista demorou muito tempo para engrenar na linha mais ideológica. Por exemplo, a intervenção do Brasil na questão Turca com o Irã, certamente gerou alguns constrangimentos de lado-a-lado, mas ela em momento algum trouxe ameaça bélica para o Brasil, pois tudo sempre fora feito por meio de diálogo e diplomacia.

A novidade em relação a desastrada política externa de Araújo é que ela é radical, repentina e beligerante. A primeira tentativa de acordo que Araújo fechou como ministro das relações exteriores, foi a desautorizada posteriormente, promessa de apoio militar brasileiro em caso de incursão militar americana na Venezuela.

Se durante os anos do PT o Brasil deu as costas a Israel e abraçou a causa Palestina; uma inversão de 180º ocorreu: O Brasil passou a apoiar os israelenses contra os palestinos. Se o Brasil na era PT deu as costas ao mundo e fechou-se no Mercosul, abrindo-se no máximo aos BRICs, o novo governo  menospreza seus vizinhos e procura bajular o tio Sam  torto e a direito.

A questão Venezuelana é simbólica. Saímos dos afagos PTistas à quase guerra contra os venezuelanos com Maduro ponto misseis de longo alcance apontados para Belém do Pará e Manaus.

Trocou-se uma ideologia pela outra. Não é de se admirar que a diplomacia mais racional que tivemos nos últimos tempos fora a do governo Temer, que trazendo o Mercosul de volta ao campo democrático, procurou soluções diplomáticas para questão V=venezuelana, como embargos e a suspensão do bloco. Ocorreu também que o Brasil voltou oficialmente a adotar a posição de dois Estados na questão israelo-palestina, além de procurar mercados com a União Européia e conciliando ainda por cima China e Estados Unidos.

Mas eu creio que o Brasil pode um pouco mais em termos de política externa, e tenho duas bases para pensar isso:

  • O universalismo do general Figueiredo – Essa forma de diplomacia defendia em seu contexto geopolítico (a Guerra Fria), que o Brasil deveria procurar os melhores acordos comerciais e políticos, independente se no ocidente capitalista ou com os países da cortina de ferro. O café brasileiro nestes tempos chegou a responder por 80% do café consumido na Polônia, tornando-se um mercado interessante.
  • O segundo ponto é o luso-hispanismo (junção de pan-lusitanismo e hispanismo) – Por sua vez essa orientação entende que o Brasil, assim como seus vizinhos, fazem parte de um contexto cultural ibérico; isto significa que apesar do Brasil estar aberto ao diálogo e a negociação com todos os países, que ele dará prioridade às suas raízes e tradições favorecendo os países amigos por ordem de proximidade cultural e geográfica com quem desenvolvemos laços históricos. Desta maneira Portugal, os nossos vizinhos da América do Sul e Latina, as ex-colônias portuguesas na África, Timor Leste e a Espanha são amigos prioritários nas nossas negociações.

Essa abordagem nos dá certas instituições já existentes como passíveis de diálogo: O Mercosul – Bloco comercial que abriga o maior contingente comercial da América do Sul. A aliança do Pacífico, que engloba países amigos andinos. Por manter uma boa relação com Portugal e Espanha, poderíamos ter facilidades no diálogo com a União Européia, sobretudo se levarmos em consideração que temos a Guiana Francesa bem na nossa fronteira norte. Com nossos irmãos angolanos e moçambicanos teríamos muito a oferecer. Eles têm um mercado consumidor em crescimento para manufaturas e eletrônicos que seria de grande valia para as nossas indústrias, e as deles seriam grandemente beneficiadas ao fornecer insumos para a as nossas.

Nossas relações com os Estados Unidos, com a China e com a Rússia, que não guardam proximidade cultural nem geográfica conosco, seria a do universalismo, procuraremos em todos o melhor que tem a oferecer. E ofereceremos a todos o que desejarem de nós em boa fé.

Saindo um pouco da concretude e do pragmatismo, e falando um pouco mais em ideais, seria possível ainda pensar mais em longo prazo. Uma bela e moral ideia, seria talvez de algum dia, formar-se uma organização militar de mútua defesa dos países luso-hispânicos, em moldes similares a OTAN/NATO. Contudo, focado em construir um verdadeiro e competitivo poder militar no Atlântico Sul, de modo a garantir a soberania dos países de tradição luso-hispânica na América, na África e também na Península Ibérica. Esse acordo acabaria tendo como fonte de auxílio um país irmão como o Brasil, ou os demais países da América do Sul, e não um Império muitas vezes pouco afável como os Estados Unidos.

Um banco de desenvolvimento conjunto como alternativa ao FMI também seria uma possibilidade, dado que seria positivo não só para os países da América Latina, mas como para os países da África que compartilham uma longa história conosco e que certamente prezariam muito por nossa ajuda. Tudo isso pode ser longínquo e por demais hipotético, mas é uma boa meta para se desejar.

Mas o ponto mais importante, é que a imagem que o Brasil grande que eu gostaria de ver projetada no mundo, não é de maneira nenhuma a de um Império com armas apontadas para os rivais. Não quereríamos uma doutrina Monroe para garantir a lealdade dos nossos companheiros de continente. Não! Nossas armas são para a nossa defesa, mas também para a vossa. Nossos braços são para lutar por nós, mas também para lutar por vocês. E tudo que o Brasil pediria seria reciprocidade. Idealista? Sim, mas sem saber onde chegar, não há razões para desenhar trilhas e mapas.

No hemisfério Sul, o Brasil nessas condições, se tornaria hegemônico, um “gigante gentil”, dado que teria como missão histórica usar esse poder de modo passivo e não imperialista e não intervencionista.


*Arthur Rizzi é historiador.

Bolsonaro e Trump: Mais diferenças que semelhanças

Niall Ferguson*

Embora a Argentina seja a anfitriã do encontro do G20 esse ano, a maior economia latino-americana de longe é o Brasil. Você procurará em vão evidência de crise em São Paulo, onde fiquei a maior parte da última semana.

A cobertura da mídia do hemisfério norte da vitória do populista de direita Jair Bolsonaro na eleição de outubro tem sido predominantemente negativa, focando em seus antecedentes militares, sua linguagem inflamada e sua simpatia política por Trump. “Jair Bolsonaro’s climb to power has been marked by divisive rhetoric and offensive speech,” tuitou o jornal The New York Times. “Our planet can’t take many more populists like Brazil’s Bolsonaro,” lamentou o The Guardian. Como um populista de extrema-direita pró-ditadura e pró-tortura foi eleito?

Na realidade, as semelhanças entre Bolsonaro e Trump são superficiais. Ambos certamente se expressaram com sentimentos social e culturalmente conservadores que se tornaram um tabu nos círculos da elite esclarecida do ocidente. Ambos dirigiram seu poder de fogo a estamentos políticos falidos e corruptos. E ambos certamente entenderam melhor do que seus oponentes como explorar o poder político das redes sociais. Mas as semelhanças param aqui.

Primeiro, o foco de Bolsonaro é lei e ordem, não a imigração, com a qual o Brasil não tem problemas. O Brasil viu mais de 60,000 assassinatos no último ano, mais do que China, Estados Unidos e México juntos. Segundo, Bolsonaro juntou forças com o liberal monetarista de Chicago, o economista Paulo Guedes, ao passo que Trump tem como princípio o protecionismo. Enquanto Bolsonaro apelou ao voto dos jovens, ao contrário, Trump apelou a nostalgia dos mais velhos.

O novo governo brasileiro está comprometido com estabilização fiscal, privatização de estatais, simplkificação tributária e maior liberalização de mercado. Este é o tipo de reforma econômica que o Brasil precisa desesperadamente. O país é a nona maior economia do mundo mas está na 125ª posição no ranking de facilidade para fazer negócios do BIRD, atrás até do Irã. O que Guedes tem falado em quase nada soa como o modelo chinês — soa mais como Margaret Thatcher dançando um sambinha. E de fato, Bolsonaro foi abertamente hostil à China durante a campanha, declarindo: “A China não está comprando coisas no Brasil, ela está comprando o Brasil.” Ele inclusive visitou Taiwan.

Por todo o mundo, do grandioso Brasil à minúscula Nova Zelândia, vários países estão escolhendo seus lados ao passo em que o antagonismo Sino-Americano muda sua escala de tensão de uma guerra comercial a uma nova guerra fria.


*Niall Ferguson é historiador econômico e autor de vários livros como Colosso, Império, A Ascensão do Dinheiro, Civilização, A lógica do Dinheiro e a Grande degeneração.

Ernesto Araújo e o destino manifesto dos tupiniquins

Arthur Rizzi*

O sapo barbudo de Tréveris, Karl Marx, dizia que a história primeiro se repete como tragédia e depois como farsa. Essa frase não poderia ser mais apropriada para inaugurar um artigo sobre política externa na era do olavismo triunfante. Do somatório de fracassadas intervenções americanas pelo mundo, e trágicas incursões militares em locais remotos da Terra para salvaguardar interesses americanos (não há limites claros para o que é e o que não é interesse americano), nasceu nos EUA uma cada vez mais forte posição dos americanos por uma posição isolacionista. Eu os compreendo e me compadeço, Trump venceu as eleições em 2016 com esse discurso e não obstante as lutas contra o Estado Islâmico, vem progressivamente cumprindo suas promessas, embora, talvez, não com a velocidade desejada por muitos. Mas dado que o presidente americano anunciou a saída da Síria a alguns dias, pode-se constatar que Trump não era favas contadas, afinal.

Agregue-se a isso um cenário no qual China e Rússia vem ganhando espaço geopolítico na África e na América Latina, o que tem forçado os EUA a focarem sua atenção no seu velho quintal, a América Latina.

O intervencionismo americano vem da crença na doutrina do “Destino Manifesto”, uma espécie de teologia da história que coloca o povo americano como centro dela e a sua nação como o veículo de libertação do mundo. Quando os calvinistas fugiram da perseguição anglicana na Inglaterra para as treze colônias, muitos pastores protestantes como John Withtrop utilizaram a visão do êxodo dos hebreus em fuga pelo deserto da perseguição de Faraó como modelo para o que viviam, e assim como o povo escolhido tinha uma missão para a revelação de Jesus, o povo americano tinha a mesma missão de ser “a nation under God” vivendo na “city upon a hill” (Mt 5, 14). E essa visão guiou tudo, da guerra da independência a expansão para o Oeste, todas essas ideias já antes misturadas ao ideário iluminista dos founding fathers tornou-se o guia para a política externa americana.

Muito se critica os neoconservadores por terem supostamente inovado ao fazer do imperialismo e do intervencionismo americano no Oriente Médio uma prática que nada tem a ver com o conservadorismo dos Estados Unidos. Seria na visão deles uma distorção grave, a ideia segundo a qual a “América” era fundada sobre ideais de riqueza, democracia e liberdades individuais. E que, portanto, sua teologia e teleologia históricas eram espalhar e zelar por esses valores no mundo “’Til the kingdom come”. Todavia isso não é nem uma inovação do partido republicano dos neocons e nem uma distorção. Ao contrário, ela é precisamente o fundamento do Estado americano.

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Como Christopher Ferrara (2012, p.230) assinala, a doutrina Monroe nada mais era que essa ideia em germe. Da mesma forma que o triunfo do norte sobre o sul foi a salvação do ideal democrático, republicano e do direito do indivíduo emanado da revolução americana, vitória esta contra o escravagismo e aristocratismo do sul, a doutrina Monroe era, então, a unificada nação americana como polícia das Américas.

The Monroe doctrine, promulgated with [Thomas] Jefferson’s advice, declared: “The American continents […] are henceforth not to be considered as subjects for future colonization by any european powers.” The effect of the doctrine, soon to be backed by America’s economic and military might, was to create “two separate spheres of influence the Americas and Europe: the independent lands of western hemisphere would be solely United States domain”.

Assim, como pontua mais adiante Ferrara, isso fez dos Estados Unidos “the policeman of Liberty throughout the Americas”. Em outras palavras, a doutrina Monroe nada mais era do que uma parte do processo pelo qual os EUA tornaram-se o xerifão do mundo. E agora, temos Ernesto Araujo que em posts recentes vem propondo ao Brasil seguir os passos dos Estados Unidos, ser um exportador de ideais de esperança, de democracia liberal e direitos individuais, a começar pela América Latina, lançando no twitter impropérios contra os rivais ideológicos do novo governo e fazendo a proposta de uma aliança entre EUA, Rússia e Brasil, as três maiores nações cristãs do mundo na visão dele. Ou seja, o Brasil é a nova  “a nation under God”.

E a doutrina de Araújo, uma mistura de TFPismo e olavismo é a nossa nova “doutrina Monroe”, doutrina que visa enfurnar o Brasil na OTAN, atirar ao lixo da história a tradição de um país com sua respeitada diplomacia, e que através dela construiu seu território de proporções continentais, e que por ela preservou a monarquia recebida do velho mundo num acordo de família, e que por ela preservou o Estado confessional que recebeu da Igreja Católica e de Portugal. Doutrina esta baseada em acordos e tratados exemplarmente respeitados e que só se envolve em guerras justas como a do Paraguai e a Segunda Guerra Mundial por manifesta falta de alternativas, e cuja respeitabilidade advém justamente da sua capacidade de procurar saídas pacíficas. Mas um governo conservador não deveria, em tese, preservar tradições ao invés de destruí-las? Sobra essa pergunta ao senhor Araújo a qual aguardo uma resposta dele ou da história. Essa é a nossa farsa, a de querer os fins antes de ter os meios. E que Deus abençoe a América o Brasil.


Referências

FERRARA, Christopher A. Liberty, the God that failed: Policing the sacred and constructing myths of the secular State – from Locke to Obama. Tacoma: Angelico Press, 2012.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo  (UFES) e pedagogo formado pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.


Atualização: https://br.sputniknews.com/americas/2019030413428932-eua-bolton-venezuela-doutrina-monroe-lavrov-america-latina/