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EDITORIAL: O que esperar do governo Bolsonaro?

Bolsonaro venceu a eleição, e estamos a pouco mais de 30 dias da posse. O que esperar desse governo para 2019? Dado que é a reestreia de uma direita que se assume como direita na política e no governo desde 1964, ainda tudo é muito incerto, e portanto nossa previsão será mais curta. Mas o governo de transição já deu ideias do que pode estar vindo por aí.

Separaremos os prognósticos em quatro setores: moral, econômico, política externa e relações laborais.

Na moralidade, podemos esperar um governo conservador nesta matéria, mas não espere um moralismo católico, intelectualmente coerente e fundado no direito natural clássico, e sim um moralismo evangélico de um certo setor neopentecostal grosseiro e messiânico, pois caso fosse pelo menos luterano, anglicano (high church) ou metodista, haveria suficiente proximidade com a doutrina católica para que houvesse algum critério e razoabilidade.

O que ocorrerá, entretanto, será um arrazoado de proibicionismos arbitrários e sem contexto lógico que os unifique, um verdadeiro show de biblismos, hermenêutica arbitrária e subjetivista, além de chavões duvidosos. Ou seja, longe de termos aquele escopo intelectualmente sério de uma Pontifícia Academia para Vida, teremos a arbitrariedade e o caos tentando serem unificados, quando possível, pelo intelectual americanista Olavo de Carvalho. Quando não for possível, veremos ele próprio “baixar a ripa” com força, o que poderá ou não, surtir efeito no governo.

Um dos exemplo disso é o caso do projeto Escola sem Partido, que a partir de uma intuição moral certa, descambou para outra coisa bem pior que o mal que queria combater. Gerando um clima inquisitorial de perseguição ideológica, o projeto não possui critérios claros, ameaça professores e intelectuais universitários com sanções legais por quaisquer palavras, gestos e pensamentos expostos que possam soar como ideologizados e doutrinários. Com a atual ocupação liberal-conservadora e americanista das instituições, poderá acabar tentando criar uma hegemonia intelectual lib-cons/americanista na sociedade, punindo não apenas os “comunistas malvados” originalmente traçados, mas até nacionalistas e cristãos sérios que ofereçam uma perspectiva que fuja da neo-ortodoxia liberal-conservadora americanista. É o ambiente perfeito para o nascimento de intelectuais radicais anti-sistêmicos, dado que a tendência a arbitrariedade é grande.

OBS¹Eu não me surpreenderia se os evangélicos, agora no poder, começassem a usar o mesmo para prejudicar o catolicismo no país ou limitar a parca e quase inexistente influência católica no governo. A CNBB e a própria Igreja Católica poderá ter uma vida muito difícil nos próximos anos, com os evangélicos usando o poder estatal para se tornarem a religião dominante e quiçá oficial do país.


Do ponto de vista econômico, o atual governo não herda um paraíso, mas a situação nunca foi tão fácil para um presidente se criar. A reforma trabalhista já foi feita no governo Temer e, ao que parece, a previdenciária não tarda muito mais. Então, tendo apenas de passar a reforma da previdência com quatro anos pela frente, e com legitimidade das urnas, Bolsonaro tem a facílima tarefa de fazer o PIB passar de 1% (já faz dois anos que o PIB não chega a 2%), o que é algo que julgamos que ele e sua equipe de chicagoboys, poderão fazer com facilidade.

Os empecilhos serão, obviamente, um setor nacional-desenvolvimentista/nacionalista das FFAA, que já teve sua primeira baixa, o general Oswaldo Ferreira, será ainda a oposição a esquerda que deve congregar a terceira via neo-trabalhista de FHC e o que sobrar do tucanato (dado que parte vai pra direita), o vétero-trabalhismo de Ciro Gomes, e a esquerda identitária doente liderada pelo petismo.

Há ainda um possível contratempo a ser levado em consideração. As lambanças da política externa preocupam o setor produtivo nacional, em especial o agronegócio e a indústria que estão arrependidos de terem elegido Bolsonaro. Os primeiros, interessados no porte de armas para impedir os avanços do MST, agora começam a ver que o sionismo e o americanismo da teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, personificado no Itamaraty por Ernesto Araújo, colocam em risco a soberania brasileira no mercado árabe e chinês. Os últimos, vendo o completo desdém de Paulo Guedes pela indústria nacional e seu aceno as multinacionais americanas, sentem já que passarão o pão que o diabo amassou nas mãos do super-ministro da economia.

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Como Arthur Rizzi previu no podcast da Legião da Santa Cruz, existe um risco de mexicanização da economia brasileira, isto é, a indústria nacional deve ser progressivamente substituída pela indústria estrangeira, e que se a indústria nacional não piorar ainda mais  sua posição em termos de participação no PIB, aprofundando assim a desindustrialização, não deverá haver melhora no quadro atual, ficando estável nos valores atuais. Portanto, se contarmos apenas a indústria nacional, ela deve diminuir ou continuar no mesmo patamar. Porém, se pensarmos na possível invasão de multinacionais, deve haver uma desnacionalização da indústria, o que eu chamo de mexicanização da economia. Isto é, em termos gerais, haverá aumento de participação da indústria no PIB, mas se dando através da queda da participação da indústria nacional e o crescimento da indústria estrangeira. Essa conta industrial deve cobrar caro mais no longo prazo. As guinadas ideológicas na política externa, porém, se radicalizadas ainda mais, poderão cobrar no curto prazo.


A política externa deve seguir a linha olavista a partir de agora, isto é, ela se fundará na interpretação que Ernesto Araújo faz da teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, sinteticamente exposta no livro “Os EUA e a nova ordem mundial“, que foi um debate com o geopolítico russo Aleksandr Dugin, e também pode ser melhor aprofundada através do livro “O Jardim das Aflições“, o qual especialmente na sua edição mais recente, conta com uma entrevista com Silvio Grimaldo como apêndice, que é uma retificação da teoria do livro com uma créscimo que exime o ethos estadunidense tradicional da culpa pelo globalismo. Deverá haver uma influência forte de Guénon também nessa leitura, mas provavelmente, a linha olavista deverá se destacar mais.

Esta política externa pró-Israel e pró-Estados Unidos deverá gozar de grande apoio dos evangélicos sionistas, o que pode ser eleitoralmente um motivador para Bolsonaro aprofundá-la. Porém, os exageros nessa pauta podem isolar o Brasil do comércio mundial, o que será ruim para a economia. Tudo deverá depender de como essa pauta será tocada, se acriticamente, ou se de modo moderado porém eficiente. Se da segunda forma, não deve haver grandes prejuízos a economia.


Do ponto de vista das relações laborais, deverá haver uma  maior precarização das leis trabalhistas, o próprio Paulo Guedes circulou a ideia de uma carteira de trabalho verde-e-amarela, na qual o funcionário trabalha por “livre e espontânea vontade” sem nenhum dos direitos assegurados pela CLT. Óbvio que o “livre e espontânea vontade” fica entre aspas, pois sendo mais barato e estando o patrão em posição de vantagem, ele só contratará (nos mercados de competição perfeita e menos sofisticado) pela carteira verde-e-amarela, dado que o candidato a vaga não tem como “punir” o patrão do mesmo modo que o patrão o tem com a sua não contratação. A Folha de São Paulo mesmo publicou que Paulo Guedes achou a reforma Temer muito moderada e pró-trabalho e quer aprofundá-la tornando-a mais pró-capital. Se essas medidas lograrão êxito no congresso nacional ainda é incerto, mas pensando a longo prazo e pressupondo que vão, concluiremos que enquanto o crescimento econômico for favorável ao governo, isso deve amenizar o impacto de medidas tão anti-pobre quanto a citada, mas quando o “vôo de galinha” da economia acabar, há o risco de ocorrer uma desagregação ainda maior do que a atual, na qual há um país dividido no ódio, a distorção bolchevista do tecido social será uma consequência quase lógica. A completa ausência de direitos trabalhistas favorece a radicalização das massas, a ideologização das relações laborais e o espírito revolucionário.

Se isso prosseguir, quando o bolsonarismo acabar (porque ele vai acabar em algum momento), pode ser que troquemos um Olavo de Carvalho por um Nildo Ouriques, e aí a burguesia usurária e até a produtiva vai gemer.


Do ponto de vista da teoria das castas, da qual os autores que mais se destacam são Julius Evola, Roland Mousnier e mais recentemente David Priestland, o governo Bolsonaro representa uma aliança entre três setores bem definidos: a) a burguesia usurária (banqueiros e mercado financeiro); b) setor maçônico e frotista das FFAA; c) evangélicos neopentecostais e sionistas. Teremos, portanto, um governo weberiano por excelência.

OBS²: Para quem se diz antiglobalista essa base de apoio é muito internacionalista, e soa curioso como os que outrora tanto criticavam o internacionalismo, agora saúdam uma equipe liderada por banqueiros usurários, pela maçonaria verde-oliva, e por pastores neopentecostais que parecem amar mais a Israel e Estados Unidos que ao Brasil.

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A desonestidade intelectual do Sr. Olavo de Carvalho

“Desonestidade intelectual é você fingir que sabe aquilo que não sabe e que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem.”

Olavo de Carvalho

A inépcia assombrosa de Olavo de Carvalho em assuntos relativos a economia e relações internacionais é conhecida de todos que o acompanham há algum tempo. Nem por isso o polemista fazedor-de-ministros perde a oportunidade de pontificar, com a maior arrogância possível, sobre esses e outros assuntos que ignora. Essa atitude demonstra, acima de qualquer dúvida, que é um homem intelectualmente desonesto segundo seus próprios critérios.

Em entrevista recente ao jornal O Estado de São Paulo, Olavo faz declarações tão estapafúrdias sobre a política e o comércio exterior brasileiros que a tentação é dizer, como fez celebremente o físico Wolfgang Pauli, que suas opiniões não estão sequer erradas. Não fossem ditas em uma publicação de grande circulação por alguém que lamentavelmente se tornou, neste triste momento brasileiro, uma das pessoas mais influentes do país, provavelmente seriam ignoradas como baboseiras indignas de qualquer atenção, exceto pelo seu caráter cômico.

Além dos seus já conhecidos expedientes de ofensas, desqualificações e mesmo ameaças ao interlocutor, Olavo dá diversos exemplos daquilo que o torna tão pernicioso ao debate público: enxurradas de informações falsas; uma ignorância vergonhosa acerca de conceitos elementares para qualquer cidadão bem informado; chutes infundados e hipóteses ad hoc sobre a realidade das relações exteriores do Brasil, aparentemente com o objetivo de encaixá-las à força em suas próprias interpretações, generalistas e excessivamente ambiciosas, da política internacional contemporânea.

Logo no início da entrevista, Olavo afirma que “o presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil”, dando a entender que essa cifra representa uma alternativa às nossas relações comerciais com a China. Na realidade, “Trump” não tem um único centavo “esperando” para investir no Brasil, pois o que está em questão são transações entre países, não entre governos. Com todo o respeito, um indivíduo que não sabe a diferença entre contas nacionais (transações de uma nação com outras) e contas governamentais (que dizem respeito a recursos públicos) deveria simplesmente abster-se de opinar com tamanha arrogância sobre economia internacional. Ademais, não se trata de “investimentos”, mas de uma estimativa otimista do quanto um acordo bilateral comercial com os Estados Unidos poderia propiciar, anualmente, em transações totais (de compra e venda) entre ambos os países. Portanto, esse valor não representaria, necessariamente, um “ganho” para o Brasil, muito menos uma possível alternativa ao comércio com a China, como se os governos pudessem escolher com quem as empresas dos seus países irão transacionar (crença curiosa, vinda de alguém que se diz adepto do liberalismo econômico mais estrito).

Em seguida, Olavo faz a afirmação risível de que a China só comercia com o Brasil porque nosso governo estaria “distribuindo dinheiro” para os “amigos” deles, mencionando Angola, Cuba e Venezuela, em um montante que supostamente totalizaria 1 trilhão de dólares. Como já vimos, trata-se de um indivíduo que não sabe diferenciar estoque e fluxo, muito menos contas governamentais e contas nacionais, portanto é impossível saber o que ele pretendeu dizer com “distribuindo dinheiro”, muito menos de onde tirou uma cifra tão impressionante, correspondente a mais da metade do PIB nacional. De qualquer forma, é ridículo atribuir o comércio sino-brasileiro a motivações ideológicas dos governos desses países. Talvez Olavo tenha dificuldade de entender que o mundo se move por considerações e necessidades que transcendem em muito as suas paranoias conspiratórias, mas a verdade é que esse comércio se deve à elevada complementariedade entre as duas economias. Cresceu apesar de, e não devido às, preferências políticas de seus governantes. É, na realidade, um exemplo típico da especialização comercial decorrente de vantagens comparativas e do livre-cambismo, doutrina defendida pelos economistas liberais desde David Ricardo e que Olavo supostamente endossa — embora, evidentemente, não compreenda.

A soja brasileira não foi comprada em peso pelos chineses porque o Partido Comunista do país estava feliz com as nossas boas relações com Cuba e Venezuela, mas porque seus numerosos criadores de suínos demandaram elevadas quantidades desse grão para alimentar seus rebanhos. O minério de ferro produzido pela Vale, por sua vez, foi um dos viabilizadores da urbanização acelerada da China — país paupérrimo em recursos minerais e dependente de imensas importações desses insumos para prosseguir com seu desenvolvimento. Note-se, ainda, que tanto em um caso como em outro estamos falando de bens indiferenciados (commodities) cuja cotação é determinada internacionalmente em mercados que se aproximam da situação teórica de concorrência perfeita. Portanto, na realidade, ninguém, muito menos o governo, “escolhe” de quem o país irá comprar baseando-se em critérios ideológicos. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais desses bens, e, por isso, foi beneficiado enormemente pela explosão na demanda por eles que o crescimento chinês proporcionou. Não fosse por esse crescimento, o Brasil seria hoje um país muito mais pobre, viveria crises recorrentes em suas contas externas e a formidável expansão do agronegócio — ironicamente umas das principais bases de apoio do governo Bolsonaro — jamais teria acontecido. Fica, então, a pergunta: já que Olavo acredita que o comércio com a China é “escravidão” e propõe que ele cesse — já que supostamente decorre apenas de uma “vantagem política” que irá acabar com o governo Bolsonaro — qual é a alternativa que sugere ao Brasil? Devemos esperar que “o Trump” venha comprar a nossa soja e o nosso minério, uma vez que a China saia de cena? Ou devemos aceitar ficar muito mais pobres, apenas para nos preservarmos de qualquer contato comercial com o perigoso “esquema russo-chinês”?

O show de absurdos não acaba aí. Pouco depois, Olavo afirma que a riqueza da China é “quase toda construída com dinheiro americano”. Ora, seria um exagero, porém mais próximo da verdade, dizer que isso é o inverso do que realmente ocorre. Pois são os Estados Unidos que têm déficits imensos em transações correntes há mais de 30 anos, beneficiando-se do privilégio exorbitante de serem os emissores da moeda de reserva internacional (Dólar). Isso significa, em jargão econômico, que os norte-americanos dependem da absorção de poupança externa para fechar suas contas e financiar seu crescimento. A China, em contraste, é um dos países que mais poupam no mundo; exatamente por isso se tornou exportador de capitais e está comprando tantos ativos em outros países. Em outras palavras, boa parte do consumismo norte-americano, frequentemente exaltado pelo senhor Olavo de Carvalho, é pago por poupança do resto do mundo, principalmente da China. É essa a razão, aliás, de os chineses serem hoje os maiores credores da dívida norte-americana. Mais uma vez, o oráculo da Virgínia demonstra a cegueira decorrente de seu fanatismo americanófilo e liberal-conservador, distorcendo os fatos com uma cara-de-pau impressionante.

Outro momento curioso da entrevista vem em seguida, quando Olavo afirma, indignado, que a China está “comprando o Brasil a preço de banana”. Aqui, pela primeira vez, estou de acordo com ele, ao menos no sentimento: de fato estamos criando um passivo preocupante com o país asiático. Porém, vindo de um defensor radical do governo Bolsonaro e de sua agenda de privatizações e liberalização econômica, essa preocupação é no mínimo intrigante. Afinal, quando se coloca à venda um ativo — ainda mais um ativo público, supostamente sujeito à impessoalidade do Estado — o comprador é aquele que dispõe de capital suficiente e oferece o melhor preço. Sendo o objetivo declarado da política econômica “atrair investimentos” — apresentados como a panacéia para os nossos problemas — o apetite dos capitais chineses merecia ser comemorado, não lamentado! Vejam, caros leitores, a irracionalidade (ou cinismo) dos atuais governistas brasileiros: colocam o país à venda e, em seguida, reclamam que ele está sendo comprado! Aparentemente, Olavo deseja criar uma regra ad hoc segundo a qual os capitalistas chineses, especificamente, ficariam impedidos de comprar estatais e ativos privados brasileiros. Só capitais “do bem” — suponho que norte-americanos e israelenses — seriam bem-vindos. Com a sua paranoia antichinesa, Olavo favorece os interesses norte-americanos e omite o que realmente está em jogo: não só “a China”, mas capitalistas de diversos países, estão “comprando o Brasil a preço de banana” pelo fato de terem a visão estratégia e de longo prazo que nossos governantes não têm.

Olavo de Carvalho não faz ideia do que está falando. Está  apenas empenhado, como sempre, em promover os interesses da pátria norte-americana que escolheu para si, agindo sem qualquer pudor, respeito pela realidade ou humildade intelectual. É — reitero — um homem intelectualmente desonesto segundo sua própria definição do termo. Em situações normais, seria merecedor apenas de risadas, mas, em vista do gravíssimo perigo que representa sua influência desmedida no atual momento brasileiro, não resta alternativa senão respondê-lo com seus próprios métodos:

CALA A BOCA, BURRO!


Ricardo Carvalho é economista formado pela Universidade de São Paulo (USP).

Igreja: Nem todos os padres conservadores apoiaram Bolsonaro

Durante as eleições ficou no ar a ideia de que a Igreja Católica estava dividida entre a ala esquerda apoiadora de Lula, Haddad e PT e a ala direitista ou conservadora apoiadora de Bolsonaro. Sem meios termos. Mas a verdade é que alguns padres conservadores não caíram no conto da sereia do Bolsonarismo. O Pe. Elílio Júnior, teólogo e comentarista de política expôs sua posição na internet recentemente acerca do proto-governo Bolsonaro.

Pe. Elílio Júnior*

Quem me conhece, sabe que nunca simpatizei com o Bolsonaro. Quando o conheci, há cerca de quatro anos, considerei-o um Tiririca um pouco melhorado. Ou mais um dos tantos deputados que usaram a política pra enriquecimento pessoal e familiar. Com efeito, ele nada fez de significativo em seus 7 mandatos de deputado federal, a não ser levantar vez ou outra a bandeira em favor da própria classe militar. Além, é claro, de falar muita besteira, como fazer apologia da tortura e elogiar o Comandante Ustra. Devo reconhecer, contudo, que se mostrou muito esperto ao saber aproveitar a crise política e econômica brasileira para surfar na onda e eleger-se. Fake news à parte! Não é agora que os brasileiros resolveram elegê-lo presidente que eu me vou tornar um puxa-saco dele. Não sou funcionário público federal (ainda que o fosse) nem dependo de nada diretamente da presidência da República.

Vou continuar sendo crítico do Bolsonaro como tenho sido há quatro anos. Dentro, é claro, dos limites da ética cristã e do bom-senso. Quem quiser brigar comigo por isso, estou disposto a perder amizades, afinal, na vida a gente tem pai e mãe, e mais um ou dois amigos verdadeiros. O resto é parente ou colega. Digo mais: Além de não simpatizar com Bolsonaro, não simpatizo com duas outras pessoas, que estão por detrás dele: Paulo Guedes e Olavo de Carvalho. Guedes, se conseguir atuar seu plano, privatizará a Caixa, o BB e a Petrobrás, além de colocar o ensino federal nas malhas da privataria e o Brasil na rota do modelo americano (mas Brasil é Brasil, com sua história e idiossincrasias  e EUA são EUA). Olavo de Carvalho, acho que dispensa comentários. É mais um ideólogo conspiracionista cheio de ideias estapafúrdias. Com relação à economia do Brasil, já temos sinais de que está se recuperando, embora a passos lentos. É bem provável que o curso de recuperação seguirá tranquilo.

Isso dará certa aprovação ao novo governo, pois o brasileiro está interessado sobretudo no bolso. A classe média só se revoltou ultimamente e colocou sua camiseta amarela porque o dinheiro no bolso diminuiu. Então, ao que tudo indica, teremos tempos de satisfação com Bolsonaro. Resta saber, depois, qual será o julgamento da história – esse, sim, mais certeiro – sobre o medíocre capitão que se tornou presidente do Brasil.


*Padre Elílio Júnior, sacerdote católico de linha ratzingeriana, é conhecido pela sua participação nas redes sociais indicando conteúdos filosóficos, teológicos e políticos. Tornou-se mais conhecido em um debate com Olavo de Carvalho no facebook.

Governo Bolsonaro perde o seu melhor ministro.

Dois dias atrás a Folha de São Paulo noticiou que o general Oswaldo Ferreira, o único nacionalista da velha guarda da equipe de governo decidiu abandonar o proto-governo. Ferreira é um nacionalista conservador na linha de Médici e Geisel, estava cotado para assumir a pasta da infraestrutura, mas decidiu abandonar o governo alegando razões pessoais.

Apesar das alegações do general, é bastante evidente que o que aconteceu foi um racha ideológico entre a ala liberal composta por generais entreguistas como Hamilton Mourão, o deputado Onyx Lorenzoni e o super-ministro Paulo Guedes. O projeto do general Ferreira consistia no uso dos recursos do BNDES para fazer as maiores obras de infraestrutura desde o fim do regime militar, rasgar o país com estradas, ferrovias e hidrelétricas.

Contudo, ao passo que o general tinha uma linha keynesiana desenvolvimentista, Paulo Guedes é um liberal heterodoxo que une ideias da escola monetarista e escola austríaca, e os desentendimentos eram graves. A indicação do ministro Joaquim Levy para o BNDES foi a gota d’água para frustrar os planos do general, dado que Levy entra em cena com a função de tornar o BNDES cada vez menos relevante na economia brasileira. Há temores por parte de setores da esquerda de que a entrada de Levy no BNDES represente o começo do fim do banco. A indicação recente de Roberto Campos Neto, outro economista liberal para o Banco Central, também ajudou a dar o sinal vermelho para o general Ferreira.

A saída do general Ferreira é só mais uma evidência do racha entre um setor militar desenvolvimentista e o setor civil liberal-olavista, e ao que tudo indica, o conluio entre olavismo e mercado financeiro vem vencendo facilmente, de modo que este será o governo mais entreguista e anti-nacional desde FHC.

Abaixo citações da monografia do general Ferreira:

general

Paulo Guedes, Bolsonaro e a hétero-ortodoxia.

Arthur Rizzi*

Paulo Guedes vem surpreendendo quem esperava das declarações dele uma política econômica extremamente ortodoxa. Na prática, Guedes vem sendo o heterodoxo do mercado, ou como eu gosto de dizer, o hétero-ortodoxo. Boatos indicavam que ele optaria por uma política cambial extremamente valorizada, alguns até falaram de padrão-ouro. Mas o que se vem anunciando é justamente o contrário.

Após pressões da CNI, Guedes (link 1, link 2) já cogitou manter o câmbio em patamares bastante desvalorizados, algo que é advogado em maior ou menor grau pelos novos desenvolvimentistas. Com isso Guedes parece querer utilizar as típicas operações de open market e os swaps cambiais para implementar extraoficialmente um sistema de bandas cambiais.

O patamar desvalorizado atual do câmbio têm sido bastante benéfico para a indústria que tem exportado muito, como pontua Marchezan. Em conjunto com a reforma trabalhista, que tornou menos custoso contratar e demitir, o câmbio mais fraco torna os produtos brasileiros mais competitivos no exterior e, como o salário real fica mais baixo, há um desincentivo ao consumo interno, trocando a demanda interna pela externa.
Subsiste, entretanto, no pensamento do economista de Bolsonaro certos aspectos do pensamento de Milton Friedman, tais como a crença nas expectativas racionais e a resposta imediata do mercado aos estímulos e tendências.

Fica patente que no programa econômico de Paulo Guedes não há nada que indique ele fornecerá linhas de créditos especiais, ou fará desonerações. Ao contrário, ele pretende reduzir gradativamente a proteção dada a indústria pelos governos petistas para forçar a competição entre as empresas nacionais e as estrangeiras também em solo nacional. Isso é um limitador no projeto industrialista se feito de modo demasiado irresponsável.

A falta de consideração pelo Mercosul e por mercados subdesenvolvidos que devido ao baixo custo de nossos manufaturados poderiam ser promissores para a nossa indústria de exportação são também marcas contraditórias do mesmo. Um crescimento da nossa indústria dificilmente ocorrerá na Europa ocidental e nos EUA, extremamente industrializados. Mas deve ganhar muita força nos vizinhos latino-americanos e teria nos países lusófonos na África um promissor mercado.

Sem essas medidas de ajuste fino, o Brasil corre o risco de virar um novo México visto que a indústria nacional sem espaço para crescer pode ser abocanhada por multinacionais europeias e americanas, então teríamos um país cheio de empresas, mas nenhuma brasileira.

O projeto de Paulo Guedes representa uma certa melhora em relação as expectativas? Sem dúvidas. Mas ainda há muito por caminhar e melhorar. Falta entender, como entendeu o keynesiano Ha-Joon Chang que não há tal coisa como “capital internacional”; as empresas multinacionais são dos países em que elas nasceram. Chang lista vários casos de empresas que quando se instalavam em um novo país, abriam sua diretoria para administradores e presidentes com nacionalidade mista, mas que ao longo do tempo, iam se tornando novamente administradores nativos do país de origem da empresa.

É necessário ainda entender, como pontuei neste artigo, que os produtos industrializados se constroem da parte para o todo, então é necessário renacionalizar a produção dos insumos (e o governo deve ajudar nesse processo) antes de desvalorizar o câmbio. Desde a abertura comercial da década de 90, muitos insumos são importados, então a desvalorização poderia encarecê-los e por a perder os benefícios da desvalorização do câmbio. Aguardemos e vejamos os rumos desse governo.


*Arthur Rizzi é formado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e em Pedagogia pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.

O tradicionalismo católico no Brasil corre sério risco com Bolsonaro.

"No longo prazo, o mal menor causa muito mais estragos".

Javier Barraycoa.

Arthur Rizzi*

Ao ler o título você deve ter pensado: – “Bem, o Rizzi enlouqueceu!”. Peço que continue a leitura, ainda que pense que não faz sentido um candidato conservador de costumes ser uma ameaça maior que o PT. Porém, eu digo: É maior, sim!

A esquerda política era um inimigo fácil de identificar e distinguir, o conservadorismo liberal, não. Em nome da “unidade da direita”, abraçou-se numa grande frente ampla tradicionalistas, nacionalistas, conservadores e liberais contra o PT. Formaram-se alianças, acordos e apoios mútuos. Isto significa que os lados em questão tiveram de fazer concessões.

Os tradicionalistas abriram mão de uma adesão mais firme a DSI e aceitaram o liberalismo econômico para agradar os liberais e os conservadores. Os liberais toleraram algum conservadorismo moral para agradar tradicionalistas e conservadores, e também, conservadores e liberais toleraram algumas “estatais estratégicas” sendo mantidas para agradar aos nacionalistas.

Em outras palavras, na política prática – real politics – faz-se concessões o tempo todo, que depois deverão ser honradas e cumpridas. Com isso subiram nos mesmos palanques, participaram dos mesmos eventos, lecionaram nos mesmos espaços intelectuais das mais diferentes vertentes ideológicas. Olavetes estão em grande numero no CDB; liberais do MBL dividem espaço com conservadores no fórum da liberdade, e participam dos manifestos contra o queermuseum junto com os tradicionalistas do CDB.

Essa mistura deixa, obviamente influências em cada grupo. Então você percebe onde quero chegar: Em nome de eleger um presidente, todos participaram disso. os tradicionalistas em nome de um hipotético mal menor, apoiaram Bolsonaro, mesmo ele dizendo coisas que não se adequam a DSI. Agora, ele está eleito. O que farão os tradicionalistas?

A posição correta seria uma oposição cordial e respeitosa. Cordial para apoiar aquilo que este governo fizer de bom, respeitosa para atacar o que há de errado sem favorecer a oposição a esquerda. Mas o que farão? Minha experiência pessoal e o que eu tenho visto sugere apoio total.

Sob a capa de evitar o retorno da esquerda o tradicionalismo vai defender e justificar o governo Bolsonaro em tudo, e pode acabar por fazer vista grossa e até apoiar medidas que claramente vão contra a DSI. Não que defender o governo Bolsonaro não seja desejável em algum aspecto. Mas uma coisa é defender aspectos de um governo. Outra é justificar qualquer merda que um governo faça. E até hoje nunca vi massa militante fazer essa distinção.

Veremos (e eu já tenho visto) daqui a algum tempo, tradicionalistas católicos dizendo que a privatização do SUS é de acordo com a subsidiariedade e previsto na DSI; que políticas sociais para promover uma menor disparidade de renda é comunismo; que a privatização de estatais estratégicas – se levadas a cabo – está de acordo com a DSI, pois está de acordo com o princípio de subsidiariedade. Que promover a desindustrialização do Brasil e fazer do país um mix de fazenda, paraíso fiscal e cassinos é algo bem tradicional e agrarianista.

E paulatinamente, a DSI na visão destes grupos, assim como a interpretação que a velha TFP fazia dela, vai se tornar tão incrivelmente similar ao liberalismo econômico que será praticamente impossível distinguir um do outro. E no final das contas, o tradicionalismo vai desaparecer num mar de conservadorismo liberal e “justificacionismo” de um governo que tem mais compromisso com evangélicos e maçons do que com a Igreja Católica, sempre vista com suspeita por causa da “ameaça comunista” representada pela “teologia da libertação” e o seu símbolo-mor o papa Francisco…

Meu último apelo é que ouçam/leiam dois autores chave: Perillo Gomes e Christopher Ferrara. Se ainda assim não ficarem satisfeitos, depois não digam que eu não avisei…


*Arthur Rizzi é católico apostólico romano, lefevbrista, regressista, trabalhista em economia, distributista em políticas públicas e tradicionalista em princípios.

O fenômeno Bolsonaro e a alternativa social-regressista

Créditos ao Estadão pela imagem.

Arthur Rizzi*

Antes de mais nada, afirmo que este texto reflete exclusivamente a minha posição, não a da Reação ainda. Mas, fato é que Bolsonaro deu ontem (domingo 07/10) um passo importantíssimo para ser o próximo presidente da república. Antes de procurar entender o básico do que levou a esse desfecho, precisamos levar em consideração que mudanças radicais aconteceram mais no corpo político do que na sociedade política.

Ontem, acompanhei a apuração pela Band News, mas por curiosidade mórbida, decidi passar para a Globo News. Percebi semblantes cabisbaixos, muitas lamúrias e considerações entre-dentes de que o brasileiro é essencialmente um povo conservador. As pessoas se iludiram ao longo da república tucano-petista com o mito do brasileiro progressista. Isso nunca foi verdade, se no passado o brasileiro era um católico devoto, hoje com o ocaso da Mãe e mestra de outrora, surge o pentecostalismo e o neo-pentecostalismo como nova face desse conservadorismo.

Este é um espaço demasiado curto para análises sociológicas muito profundas, mas é basicamente aquilo que Luiz Felipe Pondé ressalta em “Para entender o catolicismo hoje“, enquanto a Igreja Católica decidiu falar dos pobres e de justiça social, os pobres elegeram as igrejas evangélicas para falar de Deus e prosperidade. O nordeste que votou no PT não é o nordeste cosmopolita das capitais como Recife ou Salvador, mas sim o agreste, o sertão. Pobre, sem acesso a internet, analfabeto e dependente de ajuda do governo. Foi esse povo, na maioria das vezes moralmente até mais conservador que os das capitais, que votou no PT.

O próprio perfil do protestantismo brasileiro é muito católico. Como notou o pastor luterano Daniel Artur Branco, as “chavinhas abençoadas”, as “águas abençoadas”, as marchas para Jesus e as experiências místicas do pentecostalismo “reteté” são sucesso aqui justamente porque a cultura pregressa era católica, e estas não são mais que versões caricaturais e muito empobrecidas das relíquias dos santos, da água benta, das procissões e das experiências místicas dos grandes santos. O protestantismo asséptico da reforma e do calvinismo nunca logrou êxito aqui por razões puramente sociológicas. Não é por outra razão, que foi através da imitação burlesca e tosca da Renovação Carismática Católica (RCC), que a Igreja Católica conseguiu conter um pouco a sangria que afetava a mesma em favor dos pastores.

Com a derrocada do regime militar e a associação entre os partidos e políticos de direita com a violência, o povo optou por candidatos não tão conservadores, mas a verdade é que exceto as classes abastadas (e bem menos nessa eleição), a massa ignara sempre foi conservadora. Aliás, seria mais justo reverberar o que o liberal Ubiratan Borges de Macedo percebeu no livro “Liberalismo e Justiça Social“: Há um fundo tradicionalista (mais até que conservador) na sociedade brasileira, que é o principal motor do antiliberalismo, ainda que pela sua imanentização e secularização, leve as pessoas a aderir a esquerda.

Mas… Por que? Porque a direita é economicamente liberal. Então, temos isso. O brasileiro vota na direita pelos valores, se dá mal economicamente, e vota na esquerda pela economia. Antes a esquerda pelo menos pragmaticamente não atacava a moral tradicional, mas desde o maio de 68, as coisas mudaram.

O resultado é que o povo conservador para fugir da pobreza vota na esquerda, e quando se vê pressionado pela criminalidade e vê seus valores e sua religião pisada e humilhada pelo progressismo cultural daqueles que arrogantemente se consideram “elites iluminadas encarregadas de educar e esclarecer a plebe fascista“, votam na direita. Falta hoje quem ocupe o espaço que outrora era ocupado por políticos como Juscelino Kubitschek, que embora fosse do PSD (partido keynesiano), considerava-se a si próprio, um conservador. Falta um Plínio Salgado, e mais recentemente um Enéas Carneiro.

Cabo Daciolo é uma imitação burlesca e ridícula desse ponto central e, não fosse pela radicalização PT x Bolsonaro, teria tido ainda mais votos. Ele ficou na frente de Marina, Meirelles e Álvaro Dias! É esse espaço que a Reação Nacional quer ocupar: a direita não liberal, a direita que olha pro trabalho e para o trabalhador na sua totalidade, não só preocupado com o pão que ele vai comer amanhã, mas com a igreja que ele frequenta, com a saúde espiritual de sua família e de sua comunidade. É isso que eu chamo de alternativa social-regressista. É isso que é ser um terço Maritain, um terço Miguel Ayuso e um terço Plínio Salgado.

A esquerda foi humilhada como bem notou o meu companheiro Pedro Ribeiro (neste texto), porque ela tornou-se elitista e preocupada com oprimidos imaginários, com pobres imaginários, e começou em nome da defesa dos “pobres transgêneros, negros, nordestinos e veganos”, a oprimir os pobres evangélicos, os negros policiais vítimas da bandidagem e o tiozão da quitanda que só quer dar uma vida decente aos filhos e a esposa, e cuja recompensa maior é cachaça e churrasco no fim de semana. Esses pobres e oprimidos reais foram chamados de “bando de fascistas” pela elite progressista iluminada que se auto-missionou de educá-los segundo seus valores não-valorativos, de suas certezas céticas e de sua ortodoxia relativista.

O 46 x 29 de ontem é isso. O congresso mais conservador desde os caramurus é isso. Resta saber se a esquerda vétero-trabalhista vai voltar ou se em nome de combater os 46% de fascistas imaginários, vai continuar a defender “pobres oprimidos” imaginários construídos a sua imagem e semelhança.

A minha posição quanto ao hipotético porém real governo Bolsonaro é de independência. Baterei forte em Paulo Guedes que acha que pode fazer a economia de um país real funcionar como quem escreve textos para o Instituto Mises, mas apoiarei a orientação pró-vida e conservadora moral do próximo governo.

Arthur Rizzi* é colaborador oficial da página, formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)