Arquivo da tag: Jair Bolsonaro

O fenômeno Bolsonaro e a alternativa social-regressista

Créditos ao Estadão pela imagem.

Arthur Rizzi*

Antes de mais nada, afirmo que este texto reflete exclusivamente a minha posição, não a da Reação ainda. Mas, fato é que Bolsonaro deu ontem (domingo 07/10) um passo importantíssimo para ser o próximo presidente da república. Antes de procurar entender o básico do que levou a esse desfecho, precisamos levar em consideração que mudanças radicais aconteceram mais no corpo político do que na sociedade política.

Ontem, acompanhei a apuração pela Band News, mas por curiosidade mórbida, decidi passar para a Globo News. Percebi semblantes cabisbaixos, muitas lamúrias e considerações entre-dentes de que o brasileiro é essencialmente um povo conservador. As pessoas se iludiram ao longo da república tucano-petista com o mito do brasileiro progressista. Isso nunca foi verdade, se no passado o brasileiro era um católico devoto, hoje com o ocaso da Mãe e mestra de outrora, surge o pentecostalismo e o neo-pentecostalismo como nova face desse conservadorismo.

Este é um espaço demasiado curto para análises sociológicas muito profundas, mas é basicamente aquilo que Luiz Felipe Pondé ressalta em “Para entender o catolicismo hoje“, enquanto a Igreja Católica decidiu falar dos pobres e de justiça social, os pobres elegeram as igrejas evangélicas para falar de Deus e prosperidade. O nordeste que votou no PT não é o nordeste cosmopolita das capitais como Recife ou Salvador, mas sim o agreste, o sertão. Pobre, sem acesso a internet, analfabeto e dependente de ajuda do governo. Foi esse povo, na maioria das vezes moralmente até mais conservador que os das capitais, que votou no PT.

O próprio perfil do protestantismo brasileiro é muito católico. Como notou o pastor luterano Daniel Artur Branco, as “chavinhas abençoadas”, as “águas abençoadas”, as marchas para Jesus e as experiências místicas do pentecostalismo “reteté” são sucesso aqui justamente porque a cultura pregressa era católica, e estas não são mais que versões caricaturais e muito empobrecidas das relíquias dos santos, da água benta, das procissões e das experiências místicas dos grandes santos. O protestantismo asséptico da reforma e do calvinismo nunca logrou êxito aqui por razões puramente sociológicas. Não é por outra razão, que foi através da imitação burlesca e tosca da Renovação Carismática Católica (RCC), que a Igreja Católica conseguiu conter um pouco a sangria que afetava a mesma em favor dos pastores.

Com a derrocada do regime militar e a associação entre os partidos e políticos de direita com a violência, o povo optou por candidatos não tão conservadores, mas a verdade é que exceto as classes abastadas (e bem menos nessa eleição), a massa ignara sempre foi conservadora. Aliás, seria mais justo reverberar o que o liberal Ubiratan Borges de Macedo percebeu no livro “Liberalismo e Justiça Social“: Há um fundo tradicionalista (mais até que conservador) na sociedade brasileira, que é o principal motor do antiliberalismo, ainda que pela sua imanentização e secularização, leve as pessoas a aderir a esquerda.

Mas… Por que? Porque a direita é economicamente liberal. Então, temos isso. O brasileiro vota na direita pelos valores, se dá mal economicamente, e vota na esquerda pela economia. Antes a esquerda pelo menos pragmaticamente não atacava a moral tradicional, mas desde o maio de 68, as coisas mudaram.

O resultado é que o povo conservador para fugir da pobreza vota na esquerda, e quando se vê pressionado pela criminalidade e vê seus valores e sua religião pisada e humilhada pelo progressismo cultural daqueles que arrogantemente se consideram “elites iluminadas encarregadas de educar e esclarecer a plebe fascista“, votam na direita. Falta hoje quem ocupe o espaço que outrora era ocupado por políticos como Juscelino Kubitschek, que embora fosse do PSD (partido keynesiano), considerava-se a si próprio, um conservador. Falta um Plínio Salgado, e mais recentemente um Enéas Carneiro.

Cabo Daciolo é uma imitação burlesca e ridícula desse ponto central e, não fosse pela radicalização PT x Bolsonaro, teria tido ainda mais votos. Ele ficou na frente de Marina, Meirelles e Álvaro Dias! É esse espaço que a Reação Nacional quer ocupar: a direita não liberal, a direita que olha pro trabalho e para o trabalhador na sua totalidade, não só preocupado com o pão que ele vai comer amanhã, mas com a igreja que ele frequenta, com a saúde espiritual de sua família e de sua comunidade. É isso que eu chamo de alternativa social-regressista. É isso que é ser um terço Maritain, um terço Miguel Ayuso e um terço Plínio Salgado.

A esquerda foi humilhada como bem notou o meu companheiro Pedro Ribeiro (neste texto), porque ela tornou-se elitista e preocupada com oprimidos imaginários, com pobres imaginários, e começou em nome da defesa dos “pobres transgêneros, negros, nordestinos e veganos”, a oprimir os pobres evangélicos, os negros policiais vítimas da bandidagem e o tiozão da quitanda que só quer dar uma vida decente aos filhos e a esposa, e cuja recompensa maior é cachaça e churrasco no fim de semana. Esses pobres e oprimidos reais foram chamados de “bando de fascistas” pela elite progressista iluminada que se auto-missionou de educá-los segundo seus valores não-valorativos, de suas certezas céticas e de sua ortodoxia relativista.

O 46 x 29 de ontem é isso. O congresso mais conservador desde os caramurus é isso. Resta saber se a esquerda vétero-trabalhista vai voltar ou se em nome de combater os 46% de fascistas imaginários, vai continuar a defender “pobres oprimidos” imaginários construídos a sua imagem e semelhança.

A minha posição quanto ao hipotético porém real governo Bolsonaro é de independência. Baterei forte em Paulo Guedes que acha que pode fazer a economia de um país real funcionar como quem escreve textos para o Instituto Mises, mas apoiarei a orientação pró-vida e conservadora moral do próximo governo.

Arthur Rizzi* é colaborador oficial da página, formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

 

Anúncios

A esquerda pós-moderna pariu Bolsonaro, quer ela goste ou não.

Pedro Ribeiro*

Último dia 30 eu fui ao Parque Lage, com família e amigos, comemorar o aniversário da patroa.

Logo que chegamos, procuramos um banheiro, pois Teresa precisava trocar fralda. Foi então que notei um pequeno aglomerado de pessoas, numa espécie de polêmica, de debate. O motivo: recentemente, o Parque Lage assumiu, com anúncio de placa e tudo, a “autoidentificação de gênero” como critério para entrada em sanitários. Em outras palavras, se o sujeito é biologicamente homem, mas se sente e se identifica como mulher, ele pode entrar no banheiro feminino. Se uma pessoa é biologicamente mulher, mas se sente e se identifica como homem, então ela pode entrar no banheiro masculino.

Naturalmente, vocês podem imaginar a confusão que a coisa deu. De fato, para além dos problemas enormes e incorrigíveis da própria teoria de gênero [essa doutrina absurda, anti-natural e insana, cuja loucura o senso comum percebe tão bem], o que mais incomodava as pessoas eram questões bem práticas, bem imediatas: o que impedirá um sujeito de se autoidentificar como mulher para entrar no banheiro e ficar espiando as moças trocando de roupa? Que privacidade as mulheres, obviamente mais frágeis perante abusadores e tarados de todo tipo, ainda terão para fazer uso dos sanitários? Que violência profunda há em simplesmente usar o banheiro do seu sexo biológico [uma coisa que dura o quê: dois, dez minutos?], mesmo que você não se identifique pessoalmente com ele? E se essa coisa é tão essencialmente importante – perguntou um – por que então não criar simplesmente um terceiro banheiro, de “gênero neutro”, ao invés de expor mulheres, meninas e crianças, a uma situação tão constrangedora?

No meio da discussão, em que todos concordavam com o mínimo bom senso, um funcionário comentou dos problemas e desentendimentos que a mudança já trouxe [mulher se sentindo olhada por homem, etc.], e explicou como, desde então, orienta todas as mulheres, sem exceção, a nunca mais trocarem de roupa no banheiro [vejam que beleza: num parque…]. Foi então que alguém disse: “É, mas isso só dura até esse ano, no fim do ano essa loucura de ideologia de gênero acaba”. O “fim do ano”, obviamente, era uma referência à provável eleição de Bolsonaro e sua posse em primeiro de janeiro de 2019.

Pois bem: é aqui, neste ponto, que mais uma vez eu gostaria de fazer a mesmíssima reflexão que já fiz por aqui e em outros lugares [na Dicta, na Gazeta do Povo] tantas e tantas vezes.

Reparem bem na frase daquele cara e reparem bem nos incômodos dessas pessoas. “No fim do ano isso acaba”. Reparem, meditem bem sobre isso. Vocês entendem o que está acontecendo aqui? Atenção: não eram ricaços que falavam ali, não era nenhuma “extrema-direita fascista” aos moldes da caricatura que tanto se faz. Ao contrário, eram populares, era gente comum, com preocupações comuns, que simplesmente não quer se ver constrangida no banheiro. E é essa gente, é essa gente que, por um somatório de muitos e muitos motivos simples como esse, vai votar em Bolsonaro.

São trabalhadores. Gente que, via de regra, abomina o governo Temer, sente ódio da reforma trabalhista e de uma injusta reforma da previdência que se avizinha. Gente que quer um Estado voltado pro social, com amplos serviços públicos. Mas gente também que não aguenta mais, que não suporta mais ver pautas identitárias absolutamente descoladas da realidade se tornarem o centro e o sentido do discurso de esquerda hoje.

É por dar mais importância a banheiros moldados pela identidade de gênero do que à reforma do sistema bancário que a esquerda não consegue mais falar com essas pessoas. É por estar mais preocupada com o Queermuseum do que em elaborar um projeto nacional de reindustrialização que a esquerda virou o escárnio dessas pessoas. É por sentir orgasmos em humilhar e agredir tudo o que soe tradicional ou conservador que a esquerda brasileira está prestes a eleger Bolsonaro, o filho bastardo que ela mesma criou.

Não adianta dizer #elenão, meu chapa, se o seu discurso é narcisista e em bolha, hiperpreocupado com as sub-ínfimas-questões dos grupos mais específicos e singulares, mas indiferente aos dramas concretos de milhões de pessoas que enfrentam os brutais problemas da criminalidade e do desemprego, e que, sim, são conservadoras, como, aliás, sempre serão.

Eu não aguento mais escrever e pensar sobre isso, mas como se sabe, todo homem apaixonado tende a ser monotemático, e a política é uma paixão pra mim – é minha matéria de estudo, de reflexão, de trabalho até. Para mim, que me identifico tanto, mas tanto com as causas e as conquistas do trabalhismo e da centro-esquerda histórica, este cenário é uma desolação, é um desespero. E por isso grito, e por isso clamo, quase que certamente em vão, como um João Batista no deserto, esperando talvez por uma esquerda que renasça, que se refaça, que se se reoriente.

Bem ao contrário, porém, o que se anuncia para a esquerda, não só no Brasil, mas em todo o mundo [como tentei mostrar em meu artigo sobre o renascimento do nacionalismo europeu] é o fim. E isto não por um capricho, mas por uma inexorável lei histórica: o propósito e o destino verdadeiramente bom estabelecido pela Providência para o pensamento e a política de esquerda foi a defesa dos pobres e dos seus interesses, diante da ascensão de um sistema econômico simultaneamente formidável e desumano, o capitalismo liberal.

O sentido e a razão de ser da esquerda autêntica, eu repito, está na sua fidelidade aos pequenos e maltratados [com os quais eu não apenas me solidarizo em abstrato, mas me identifico verdadeiramente, conservador com eles que sou]. “É preciso não apenas amar o povo, mas viver com o povo”, ensinava Maritain. Renegar pois, os pobres, afastar-se deles e desprezar seus valores com esnobismo, não é para a esquerda uma opção, senão no sentido em que o é o suicídio.

O que vemos hoje é uma esquerda visceralmente desenraizada da classe trabalhadora, desenraizada de sua única e legítima fonte de ser. Que se dane, pois. Uma esquerda assim não merece nada senão a morte.

Tome o Bolsonaro, esquerda pós-moderna, pois o filho é seu.

*Pedro Ribeiro é articulista da página, maritainista, bacharel e mestrando em filosofia pela UERJ.

Bolsonaristas deveriam ficar felizes, mesmo com um segundo lugar.

Créditos ao Ig pela imagem.

Arthur Rizzi*

Tenho visto amigos que votam e fazem campanha por Bolsonaro um pouco preocupados com a ascensão de Haddad (PT) e o teto aparente dos 33% no qual o peesselista bateu. Verdade também que não são todos, uma grande parte (talvez a maior parte) deles está tão entusiasmada no clima de “já ganhou”, que comentários acerca de vitórias fáceis e massacrantes no primeiro turno são vistas com frequência. Em que pese o irrealismo de tal empolgação, é visível ao observador mais cautelosos que Haddad se constitui em ameaça real ao peesselista, e que o bolsonarismo não logrou êxito em ralear o apoio a qualquer um que carregue o carimbo na testa de “apoiado por Lula”, sobretudo no nordeste onde criticar ex-presidente em público constitui-se quase em risco de vida.

É factual também Bolsonaro vencer (quer seja no primeiro ou no segundo turno), é o resultado mais desejável da perspectiva deles. mas existem boas razões para ficar feliz mesmo com uma derrota.

1- Nosso sistema eleitoral é de voto direto – Muito se objeta a hipótese de um Bolsonaro derrotado no segundo turno aos erros das pesquisas nas eleições americanas. Esquece-se entretanto, que o nosso sistema eleitoral é de voto direto e não tem a intermediação de um colégio eleitoral. Neste ponto, ele se assemelha mais ao modelo francês, onde a candidata equivalente a Trump e Bolsonaro, Marine Le Pen, perdeu as eleições no segundo turno.

2- O exemplo de Le Pen deveria motivá-los – Em caso de derrota (afinal, trata-se de hipótese, pois como diz a máxima “lambari é pescado e jogo é jogado”), o cenário não é totalmente de catástrofe. Afinal, os bolsonaristas e conservadores aguentaram 13 anos de representação “social-bundamolista” do PSDB. Ter este em baixa e o PSL assumindo a posição de partido médio guiado pela práxis bolsonarista, e principal veículo de oposição, constitui num cenário muito melhor para eles do que o dos últimos 13 anos.

Deve-se levar ainda em consideração, que o congresso herdado de 2014 foi intitulado pela mídia como “o mais conservador desde 1964”. E a verdade é que tem tudo para ficar ainda o mais conservador, talvez sugira-se a mídia intitulá-lo de “o mais conservador desde as côrtes afonsinas”. Ou seja, o bolsonarismo terá facilidade para montar uma frente anti-petista no congresso nacional.

Do mesmo modo que a mídia francesa não dormiu tão aliviada quanto gostaria com a vitória de Macron, há boas razões para a grande mídia ficar preocupada com a derrocada do tucano-petismo dos últimos 13 anos. Afinal, sair do “baixo clero” do congresso nacional, ascender politicamente com um discurso considerado pelos luminares do bom-mocismo como “autoritário e extremista”, e chegar a segundo lugar numa eleição presidencial humilhando um partido que governou o Brasil por 8 anos, é algo extremamente significativo. Longe de uma derrota real, um segundo lugar para Bolsonaro seria ainda uma grande vitória.

3- 2022 ta aí… – Eu me lembro como se fosse ontem de Dilma passando mal após o debate do SBT, no qual Aécio a espremeu muito bem. Então, os bolsonaristas não deveriam se preocupar em esperar até 2022, 4 anos são mais rápidos do que parecem ser. Se Haddad fizer mau governo – e tem tudo para fazer – com uma oposição eficiente, o bolsonarismo é candidato natural e favoritíssimo ao planalto em 2022, mais favorito do que hoje, inclusive.

*Arthur Rizzi é contribuinte oficial da Reação Nacional, formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), eleitor de José Maria Eymael, e com boa vontade de ajudar os bolsonaristas a serem mais otimistas, mesmo na adversidade.

Editorial – Ciro Gomes e Jair Bolsonaro: Duas partes de uma mesma indignação.

Créditos à Veja pela foto.

Com a Lava-Jato em alta, focada em Lula,  dois nomes polarizam as redes sociais: Ciro Gomes e Jair Bolsonaro. Mesmo com o pré-candidato Lula com 30% de votos na frente dos dois, não dá outra. “Bolsonetes” e “Ciretes” se estapeiam pela principal rede social da atualidade. O que faz com que, findo um governo esquerdista do PT, muitas viúvas do Lulismo, ao invés de apoiarem Lula ou Haddad, tenham optado por Ciro? Por que Bolsonaro desperta tanta paixão? Comecemos pelo candidato à esquerda.

Ciro Gomes representa um certo descontentamento de um setor vétero-trabalhista mais preocupado com desenvolvimento econômico e direitos trabalhistas, do que com pautas identitárias associadas a esquerda pós-moderna como multiculturalismo, veganismo, casamento gay, aborto e ideologia de gênero. Para os saudosistas de uma espécie de varguismo, Ciro representa o reestabelecimento da classe trabalhadora e do nacionalismo como miragens da nação que se deseja no futuro. Não se trata de negar, ingenuamente, que o velho trabalhismo também não seja favorável hoje às pautas progressistas do campo cultural já mencionadas. Mas não são tão dedicados a elas, e nem as considera a coisa mais importante do momento.

Ciro Gomes representa para a maioria destas pessoas, uma nova esperança. Muitos dos que realmente se preocupavam com causas associadas ao mundo do trabalho e com a questão nacional, se decepcionaram com o petismo, cada vez mais rendido ao mercado financeiro, cada vez menos nacionalista e mais globalistas e cada vez mais centrado em pautas identitárias. O PT tornou-se um caminho alternativo para a “Sociedade Aberta Popperiana”, que constitui-se da parceria entre o liberalismo moral e o liberalismo econômico. Tolerante com o primeiro liberalismo, o pensamento trabalhista de Ciro preocupa-se mais com o último.

De outro lado, temos Jair Bolsonaro, candidato militar que começou com enorme viés nacionalista e patriarcal. Forte defensor da moralidade tradicional, preocupado com a liberdade do cristianismo e da família frente aos avanços de pautas progressistas no campo cultural, começou aos poucos a galgar espaço e apreço entre evangélicos e liberais econômicos, moldando e adaptando seu discurso conforme sua base de apoio de modo a convergir em sua candidatura uma espécie de simulacro americanófilo de liberalismo econômico e conservadorismo de costumes.

Jair Bolsonaro representa para um setor de classe média baixa, bem como para setor considerável da classe trabalhadora, que têm – ambas – um recente e baixo engajamento político, um tipo de clamor por ordem pública, proteção à família e defesa de certos princípios perenes. Não se trata tanto de um desencantamento com o petismo, mas de um ressentimento similar ao da classe branca trabalhadora que elegeu Trump nos Estados Unidos.

Tal como o ex-operário sem emprego de Detroit que votou em Trump, o trabalhador brasileiro, sem emprego e exposto a violência urbana, viu em Jair Bolsonaro a resposta certa para suas carências, enquanto a “esquerda mainstream”, representada pelo PT, pelo PSOL, pelo PCdoB, e por certos figurões do show business, para ele não passava de riquinhos esnobes mais preocupados com palavras esquisitas e incompreensíveis como “heteronormatividade”, ou expressões para eles estranhas como “cultura do estupro”. O católico paroquiano, praticante (uma minoria cada vez mais rara) e o evangélico pentecostal (cada vez mais dominante) sentiram a bota pesada de organismos internacionais que, através da esquerda mainstream, atacava seus filhos, sua família e seus valores mais caros. Desta forma, revoltaram-se ambos, católicos praticantes, evangélicos pentecostais, uma certa classe média meio secularizada mas de baixo engajamento político, e uma fração da classe trabalhadora esquecida (que se confunde em parte com os grupos religiosos acima mencionados), ao redor da campanha de Bolsonaro, como um grito de “Basta!” contra o liberalismo moral da “Sociedade Aberta Popperiana”. Cada grupo ao seu modo enxerga o problema, mas não com a dimensão necessária.

Fato é que ambos os candidatos têm mais em comum do que sus militâncias gostariam.

  • Ambos são personalidades bravias, fortes, consideradas por muitos da “esquerda chique” e da “direita cuckold” como sendo “destemperados”.
  • Bolsonaro votou em Ciro em 2002.
  • Ciro é amigo de Olavo de Carvalho, mentor de Bolsonaro.
  • Ambos têm uma certa percepção da importância da soberania nacional.
  • O mercado financeiro, maior porta-voz do popperianismo reinante já declarou: “Ciro contra Bolsonaro no segundo turno é o pior cenário possível“; claro, afinal, para eles, o cenário ideal é composto por tipos sem testosterona, burocráticos e sem carisma como Marina Silva e Geraldo Alckmin.
  • Ciro foi o primeiro a manifestar desagrado e solidariedade a Bolsonaro no incidente de Juiz de Fora, sendo que Dilma, ex-presidente e uma horda de esquerdistas lunáticos, quando não apenas desejaram a morte do candidato da direita, o culparam pelo mal que lhe atingiu.

Não basta atacar apenas o nascimento do hipercapitalismo, da derrocada do estado-nação e do reino sem fronteiras de um sistema econômico que proletariza cada vez mais pessoas. De nada adianta conceder direitos trabalhistas às pessoas, fazendo-as ter o “pão nosso de cada dia” se não se aprender uma outra lição evangélica, a de que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus”. E isto é muito mais do que trabalho e segurança, trata-se do direito a vida, trata-se de defender um sentido último e metafísico para toda a vida humana, e defender esse sentido e os valores que dele emanam com toda a força e com toda a garra necessária. A modernidade trouxe consigo o niilismo, a ausência de sentido. O consumismo, fenômeno tão denunciado pela esquerda é fruto do próprio materialismo que ela assume, a ideia de que não há nada que não seja o puro choque das forças produtivas numa sociedade. Assim, rebaixa-se o homem a um mero contabilista de recursos, levando-o a ver no consumo o esplendor máximo da sua labuta diária. Afinal, se não há Deus nem família? Por que se preocupar com qualquer outra coisa que não meu próprio prazer?

Na outra mão, não adianta enfatizar valores perenes, erguer e falar da palavra de Deus se não se der o pão. Não adianta ser contra o aborto mas defender a outra perna do popperismo reinante, o liberalismo econômico. A pobreza, a desigualdade a proletarização aumenta proporcionalmente a procura da mulher por clínicas de aborto, sejam elas legais ou clandestinas. Isso é dado empiricamente analisado. Ou alguém duvida que o aborto mate mais crianças negras e pobres?

Ambos os candidatos representam indignações justas, com a corrupção do PT, a morte da sua alternativa trabalhista para um “esquerdismo chique” e com o pé pesado do globalismo internacional. São partes de uma mesma agenda, só que descoladas pela cegueira ideológica, pelo viés de confirmação, pelas premissas de fundo, não rastreadas nos nossos vícios de pensamento. Por outro lado é necessário mais do que só pegar parte do problema, é necessário ataca-lo de todo, de uma só vez, e é isso que a Reação Nacional quer.