Méritos a quem os têm.

Arthur Rizzi

Apesar de ter sido até presente instante um site de oposição ao governo Bolsonaro, deve-se elogiar a atual postura do governo Bolsonaro num ponto recente. O governo Bolsonaro parece ter abraçado um certo pragmatismo na política externa nos últimos dias. As viagens de Bolsonaro à Ásia, longe de vexaminosas, trouxeram alguns bons resultados.

Na China, em que pese não gostar do acordo feito a longo prazo (que acelera o projeto Brasil fazendão), ao menos no curto prazo o acordo comercial feito com os chineses foi positivo. Bolsonaro ainda defendeu a integralidade territorial da China, mudando sua posição pró-Hong Kong e pró-Taiwan nos meses anteriores. O acordo deve trazer algum alívio ao agronegócio e facilidades para nossos produtos primários.

Nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, o governo volta com investimentos em infraestrutura e assegurando também o interesse do nosso agronegócio. Isto é muito positivo para o país, e não há a menor sobra de dúvidas disso. É curioso perceber como o governo perdeu tempo com delírios ideológicos baseado na furadíssima teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, o que o fez desperdiçar tempo, recursos e capital político bajulando Israel e Estados Unidos, que não só não trouxeram lucros (pelo contrário, deram prejuízos) mas também se mostraram máquinas de memes contra o governo.

Em pouco mais do que algumas semanas de viagens aos países do “eixo do mal olaviano/americanista”, Bolsonaro retornou com muito mais conquistas do que em nove meses de lambeção de botas do Tio Sam e de Netanyahu. Minha hipótese é que com o naufrágio de aliados externos importantes ao governo brasileiro, o governo se viu forçado a agir de modo menos bravateiro e mais realista. O fato de Olavo de Carvalho ter defendido essa Ostpolitik, ao contrário de sua posição no início do ano, pode significar também que o mesmo esteja perdendo espaço junto ao clã Bolsonaro na decisão dos assuntos da política externa em favor de Paulo Guedes e da ala militar do governo (liderada por Hamilton Mourão).

Aguardemos a futura viagem a Rússia. Se Bolsonaro continuar a trilhar esse caminho, coisas interessantes podem acontecer.

Sobre o Bolsonaro afirmar que a China é “capitalista”

Raphael Mirko

Desde o início de seu mandato enquanto presidente Bolsonaro tratava a China como comunista seguindo as afirmações do guru Olavo de Carvalho, mas depois de inúmeros fracassos em negociatas com os americanos, como por exemplo a concessão de isenção de vistos sem compensação; entrega da base de Alcântara, silêncio sobre a entrega da Embraer, perda para os EUA no mercado internacional nas commodities e a vergonha maior, ficar de fora da OCDE.

Bolsonaro ficou impressionado com a recepção que os chineses lhe deram, percebeu o desenvolvimento tecnológico chinês, pleno emprego, entre outras qualidades da China, logo, ele pensou “isso aqui não pode ser um país comunista”, justamente porque Bolsonaro interpreta que país comunista, é país pobre, ou então países que forçam a agenda politicamente correta, quando na verdade, país comunista é país de indústria forte como a China, ou como foi o parque industrial soviete, que comunismo é a divisão da riqueza e não coletivização da pobreza.

Ou seja, Bolsonaro não sabe o que é capitalismo, nem comunismo, ele apenas separa capitalismo e comunismo da seguinte maneira: países que deram certo são capitalistas e países que deram errado são comunistas. Uma intoxicação ideológica.

Enquanto seus eleitores agora fazem malabarismo intelectual para provar que a China é capitalista, mesmo as principais empresas chinesas sendo estatais, possuindo um único partido e o principal estudioso sobre China no Brasil afirmando que a China é de fato um país comunista, ou até o seu próprio guru Olavo de Carvalho que também diz que a China é um país comunista.

Mas para essa gentalha nada disso importa, na cabeça deles agora a China passou a ser capitalista, enquanto que a Hillary Clinton é comunista.

Reflexões acerca da atual Política Externa

Arthur Rizzi*

No decorrer da história, a diplomacia brasileira orientou nossa política externa em muitos sentidos, ora mais pró-ocidente, ora pró-oriente, mas quase sempre de maneira responsável. Mesmo quando se optou por uma Política Externa Independente, seja sob a égide do terceiro mundismo, ou sob a égide do universalismo, tudo sempre foi feito de maneira muito prudente, levando em conta nossa posição e nível de força.

A diplomacia petista, mesmo quando se aventurou ideologicamente na questão israelo-palestina o fez de forma gradual e cautelosa. Por exemplo, a intervenção do Brasil na questão Turca com o Irã, certamente gerou alguns constrangimentos de lado-a-lado, mas ela em momento algum trouxe ameaça bélica para o Brasil, pois tudo sempre fora feito por meio de diálogo e diplomacia.

A novidade em relação à desastrada política externa de Araújo não é tanto que ela seja influenciada por uma maior proximidade com os Estados Unidos, mas sim que ela é irresponsável, idealista e beligerante. A primeira tentativa de acordo que Araújo fechou como ministro das relações exteriores foi, a desautorizada posteriormente, promessa de apoio militar brasileiro em caso de incursão militar americana na Venezuela. Pensemos nisso: Durante os anos do governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil optou por uma via pró-americana, mas em momento nenhum nos envolvemos em aventuras bélicas ou com devaneios intervencionistas.

Se durante os anos do PT o Brasil deu as costas a Israel e abraçou a causa Palestina; uma inversão de 180º ocorreu: O Brasil passou a apoiar os israelenses contra os palestinos sem maiores pudores. Se o Brasil na era PT deu as costas ao mundo e fechou-se no Mercosul, abrindo-se no máximo aos BRICs, o novo governo procura fazer a vontade dos Estados Unidos e se abre de modo pouco estratégico à União Européia, concedendo aos europeus mais do que eles a nós. A questão venezuelana é exemplar nesta matéria. Saímos dos afagos petistas à quase guerra contra os venezuelanos com Maduro ponto misseis de longo alcance apontados para Belém (PA) e Manaus (AM).

Trocou-se uma ideologia pela outra. E com imperícia.

Precisamos nos afastar dessa rota doutrinária e metafísica de política externa. Não que os “valores” não sejam importantes. Mas não é lícito cometer estragos maiores que os que se busca corrigir. Se houve erros durante gestões passadas, o governo deve ser cauteloso nas correções, prudente na dosagem, e tolerar o que não se pode mudar sem maior dano para o bem comum. O ponto central do erro da atual política externa é que, por ser idealista, ela é maniqueísta, o ocidente é bom; o oriente é mau. Os Estados Unidos são bons, tanto que se procura o “Deus de Trump”, a China é má. O Estado e a nação americana até podem ser um Napoleão no qual o “espírito absoluto” de Hegel se deposita; mas longe de conservador (o que aparentemente esse governo tenta ser), isto é revolucionário, e isto certamente é bem “pouco cristão” (algo que ao que parece o atual chanceler se preocupa muito em ser) e tem bem pouco a ver com a forma tradicional do Brasil fazer política externa.

Em resumo, o grande erro da política externa de Araújo é o que célebre escritor Eduardo Prado percebeu como o grande mal e o grande erro da elite política brasileira desde os primórdios da república: A ilusão americana. A crença mítica de que os Estados Unidos enquanto sociedade política e nação têm um papel providencial na História.

Esta é a forma como os conservadores americanos costumavam se ver, como a polícia do mundo. A “América” seria supostamente “fundada numa ideia”, como a nação santa de Deus destinada a ensinar o mundo liberdade e democracia. Isto tudo começou com a Doutrina Monroe. Antes de ser guardiã da liberdade e democracia no mundo, os Estados Unidos o foram no continente americano; tutelando nações como infantes, incapazes de gerenciar suas próprias crises e de aprender com elas. Golpes e contra-golpes foram apoiados pelos Estados Unidos nem sempre tendo como resultado democracia e liberdade.

O que a atual política externa nos propõe hoje? Ser uma terceirizada da doutrina Monroe. A princípio, é claro, pode ser que seja assim. Mas caso nos tornemos mais autônomos com essa filosofia, em que isso será original? Será apenas uma cópia de mais uma ideologia importada. E para piorar, será uma cópia transcendentalista que vê no seguir os passos dos Estados Unidos a redenção do Brasil.

A comparação com os Estados Unidos é um drama que persegue a elite política e intelectual brasileira desde o fim do Império. O desejo de ser os Estados Unidos está na nossa primeira carta constitucional republicana (1891); está na nossa primeira bandeira republicana (uma cópia verde e amarela da americana); no nome oficial do Brasil até àquela altura como Estados Unidos do Brasil e até na nossa literatura sociológica: De Oliveira Vianna a Gilberto Freyre; de Sérgio Buarque de Hollanda a Raymundo Faoro, de Celso Furtado a Caio Prado Júnior; quer seja de modo esperançoso ou fatalista, otimista ou pessimista, o dilema de sempre é “Por que os americanos e não nós?”, “Por que não somos como eles?”. Foi essa a ideologia motriz do udenismo e que está agora requentada no governo Bolsonaro. É com isso que devemos romper, superar, construir nosso próprio caminho. Há uma enorme diferença entre copiar boas práticas de uma nação desenvolvida e trata-la como musa inspiradora de uma obra de arte, paixão platônica totalmente inalcançável.

Precisamos pensar o Brasil com outra abordagem a nível geopolítico: meridional, tropical, de renda média, de origem ibérica, e multiétnico.

Essa abordagem nos dá certas instituições já existentes como passíveis de diálogo: O Mercosul – Bloco comercial que abriga o maior contingente comercial da América do Sul. A aliança do Pacífico, que engloba países amigos andinos. Por manter uma boa relação com Portugal e Espanha, poderíamos ter facilidades no diálogo com a União Européia, sobretudo se levarmos em consideração que temos a Guiana Francesa bem na nossa fronteira norte. Este último ponto se torna ainda mais desejável em face do recente acordo do Mercosul com a União Européia. Com nossos irmãos angolanos e moçambicanos teríamos muito a oferecer. Eles têm um mercado consumidor em crescimento para manufaturas e eletrônicos que seria de grande valia para as nossas indústrias, e as deles seriam grandemente beneficiadas ao fornecer insumos para a as nossas.

Nossas relações com os Estados Unidos, com a China e com a Rússia, que não guardam proximidade cultural nem geográfica conosco, seria a do universalismo, procuraremos em todos o melhor que tem a oferecer. E ofereceremos a todos o que desejarem de nós em boa fé.


 

2020 pode ser um ano bom para o governo Bolsonaro.

Arthur Rizzi*

O PIB brasileiro que vinha apresentando tendência de queda nos últimos trimestres apresentou um crescimento imprevisto pela maioria dos economistas no último, e recentemente, o BC ajustou para cima sua previsão de crescimento para a economia este ano.

A causa desse crescimento é a baixa taxa de juros real,a  menor da história que pode estar surtindo efeito na retomada do crédito e do consumo, bem como da liberação do FGTS que se destinará em parte à quitação das dívidas das famílias (que tende a tornar o crédito mais barato) e ao aumento do consumo. A junção dos dois elementos clássicos da política econômica keynesiana, a política monetária (juros mais baixos) e política fiscal (FGTS) com uma economia operando abaixo de sua capacidade de produção e com alto nível de desemprego tem sido bem sucedida.

A expectativa é que a taxa de juros siga caindo para o próximo ano, e com as sazonalidades de fim de ano: Black Friday, Natal, Férias e 13º, a previsão é que o cenário seja ligeiramente melhor para o início de 2020, já que a demanda fica mais aquecida no fim do ano. Por hora, aposto num crescimento de 1,5% para o próximo ano.

Aguardemos.

O bolsonarismo não é redutível a um rótulo pronto.

Arthur Rizzi*

Comentaristas de direita e esquerda tentam em vão entender o que é o fenômeno Bolsonaro, e na sua incapacidade de entender o problema sempre reduzem-no a rotulações políticas tradicionais, seja como populismo, seja como fascismo, seja como conservadorismo, etc. Marco Antonio Villa, tipicamente associado à direita e o pessoal do Brasil 247, por exemplo, vivem reduzindo o bolsonarismo ao fascismo. No meu artigo anterior eu expliquei, por exemplo, o porquê de ser imprecisa essa definição.

Bolsonaro tem aqui ou acolá elementos de cada um, mas não é nenhum destes ao mesmo tempo. O bolsonarismo está muito mais para um fenômeno religioso e de natureza teológica do que simplesmente política, ele é a ampliação do americanismo udnista em categorias metafísicas. Por isso digo que é necessário trabalhar um pouco mais as ideias antes de definir o que é o Bolsonarismo.

O bolsonarismo só pode ser entendido corretamente, portanto, em termos religiosos, como fé, penitência, Deus, salvação, etc. Por isso, retomo aqui a noção de Leão XIII do que viria a ser conhecido como heresia “americanista” na Testem Benevolentie. Como veremos, ela é um estado de espírito que evolui paulatinamente de apenas uma questão teológica voltada para o temporal para uma postura política que transcendentaliza a política e, especialmente, a geopolítica. Para mais explicações, recomendo este texto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X – FSSPX.

“Em relação à vida moral e espiritual de um católico comum, o “americanismo” exaltou a superioridade das virtudes naturais e “ativas” em detrimento da sobrenatural e “passiva”, e transferindo o ideal político à esfera espiritual, pregava que o Espírito Santo guiava imediatamente os indivíduos, sem intermediação de direção espiritual externa . Finalmente, o “americanismo” aceita como fato irrevogável do “destino manifesto” do país a noção puritana de que a América é o “povo escolhido”, e a ampliou para incluir a Igreja americana.”

Em outras palavras, o americanismo é a crença de que os Estados Unidos têm um papel providencial na história e que ele substitui a Igreja como veículo de salvação, cabendo à Igreja apenas seguir o modo de vida americano. Para o americanismo radical, a Igreja quando muito, tem um papel meramente de sinalização da salvação americana. E no que consiste essa salvação? Depende da fonte do o americanismo, se democrata ou republicano. Se democrata, é entendido quase sempre como o espalhar das liberdades individuais pelo mundo. Seria portanto, o destino manifesto dos Estados Unidos, como nação escolhida por Deus, de levar as liberdades civis e individuais a todos os povos oprimidos. Se republicano, é além disso, o espalha da liberal-democracia, do liberalismo econômico e do american way of life pelo mundo.

Perceba caro leitor, esta é uma psotura diferente do americanismo moderado que a direita brasileira sempre teve mesmo nos eu período passado mais forte que era nos tempos da UDN de Carlos Lacerda. O lacerdismo e a primeira república viam no modelo americano um exemplo de como prosperar, a fórmula do sucesso e, portanto, as razões eram utilitárias. Graças ao crescimento do protestantismo e do olavismo, a coisa agora ganhou dimensões metafísicas e vagamente hegelianas, a exemplo do texto Trump e o ocidente de Ernesto Araújo, que é quem melhor traduziu o olavismo em política externa:

“Evidentemente esse Deus por quem os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump (quem imaginou que alguma vez leria estas palavras, “o Deus de Trump”?) não é o Deus‑consciência cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo (mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord, diz o início do “Hino de Batalha da República”, aquele do famoso refrão Glory Hallelujah, que precisa ser escutado com atenção para começar‑se a entender a alma americana)”.

Ou seja, o Deus de Trump é o Deus de Hegel, o espírito absoluto que age na História estando nela e além dela. Trump é o novo Napoleão, só que ao invés de levar o destino manifesto e o triunfo da paz kantiana, ele traz o reino de Deus na Terra pela nação americana, pelo american way of life e pelas instituições liberais de governo e de mercado. Ou você acha mesmo que o fato de Ernesto Araújo passar metade do artigo fazendo analogias como o futebol americano e as paixões esportivas preferenciais do americano típico é mero uso retórico?

Como o artigo da FSSPX também descreve:

“Em questões relativas à doutrina da fé, o “americanismo” foi até os extremos da adaptação para não ofender os protestantes. Em 1858, Mons. John McCloskey (bispo de Albano), que mais tarde se tornou o primeiro cardeal americano, considerou “inoportuna” a declaração do dogma da Imaculada Conceição e que podia ferir a sensibilidade protestante, em consequência, se negou a difundir a doutrina em sua diocese… O “americanismo” estava pronto a esconder ou diluir um dos mais característicos e essenciais dogmas católicos como uma estratégia de proselitismo. Como afirmava o padre Hecker, a apologética deve “expor as necessidades do coração e buscar seus próprios objetos, ao invés de (apresentar) uma lógica da igreja.”

Veja que curioso, o americanismo é também uma forma de visão religiosa que visa acomodar a doutrina da Igreja não só a sociedade laica, mas também ao próprio protestantismo; Não é curioso que o artigo de Ernesto em momento algum faça a distinção entre o fato gritante de que Trump, assim como o país que preside, é de formação protestante e que a Polônia é de formação católica? Como podem ser o mesmo Deus o de lá e o de cá? Podem ser em suas concepções mais remotas mas o modo como é entendido por cada lado é completamente diferente. Não é no mínimo estranho que um suposto católico dito “tradicional” como Ernesto Araújo cite hinos protestantes? O “hino de batalha da república” não só é uma canção protestante como está nos hinários das principais igrejas evangélicas de origem americana, como “Glória, glória, Aleluia!” e “vencendo vem Jesus“. O próprio fato dele ser considerado um hino político que historicamente ganhou popularidade entre os soldados confederados já denuncia a noção de que o republicanismo liberal era algo realmente divino.

O bolsonarismo, não através de Bolsonaro (é óbvio), nada mais é que a ideia de que Deus escolheu os Estados Unidos para guiar o mundo a salvação. É o seu Destino Manifesto, e que servir à nação e ao Estado americano é sempre em todo caso, servir a Deus. Só assim a política externa brasileira e o bolsonarismo pode ser entendido, como a adesão do Brasil ao destino manifesto do mundo, como um fiel que tem seu kerigma e recebe a boa nova do evangelho ianque. Somente se entendermos o conceito de americanismo, que é um conceito religioso, seremos capazes de entender qual a “ideologia” do governo Bolsonaro, e seu objetivo final. tornar o Brasil uma caricatura da propaganda paleoconservadora do que é a nação americana e o Estado americano. Talvez até conseguir uma vaguinha para o brasil como 52º estado americano, por que não? Para concluir, essa nova religiosidade pode ser dita como estando para o cristianismo como a nova era está para o hinduísmo tradicional.

A estupidez bolsonarista na questão amazônica.

Arthur Rizzi*

Começo o artigo com uma pergunta: “Você acha mesmo que Trump nunca sairá do poder? Que os democratas jamais retornarão à presidência dos Estados Unidos?“. Se você acha, você é um idiota.

Essa aliança automática com os Estados Unidos ainda levará o Brasil a ficar de joelhos para algum apaniguado dos Clintons ou para o Bernie Sanders. E a questão é simples: a diferença entre o globalismo (internacionalismo democrata) e o imperialismo republicano é apenas de espécie. Democratas e republicanos querem apenas redfinir, cada uma  seu modo, o papel que os Estados Unidos desempenham na ordem liberal global. Os democratas defendem o modelo instaurado em 1945 com os Estados Unidos dividindo o poder e as decisões de modo colegiado com organismos internacionais como a ONU, a OTAN, o FMI e a União Européia. Do outro lado temos os republicanos, mais nacionalistas que querem que a ordem internacional do “mundo livre” se volte para um arranjo que atenda mais diretamente aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos. Portanto, com Trump (e nisso ele não difere tanto dos seus predecessores republicanos), os Estados Unidos querem redefinir o sistema global de modo devolver o protagonismo ao seu país nas decisões internacionais, mesmo que às custas de humilhar a Europa Ocidental seus parceiros históricos.

Ou vocês acham mesmo que a briga EUA vs. UE em que Bolsonaro se meteu é realmente uma briga real?

É particularmente estúpido acreditar, como bolsonaristas fazem crer, que a Europa de Macron representa o “globalismo” e os Estados Unidos o “anti-globalismo”. Se a Rússia invadisse a Europa Ocidental imediatamente os Estados Unidos declararia guerra a Rússia, pois a União Européia é um domínio importante do poder imperial americano, e os europeus sabem que o único aliado com quem podem certamente contar são os americanos.

Portanto, o que está acontecendo na questão amazônica é que o Brasil é globalista e apoia o globalismo, contanto que ele seja conduzido pelos Estados Unidos única e exclusivamente, atendendo aos interesses americanos. Ou seja, as ONGs e empresas européias “explorarem” o subsolo amazônico é globalismo. As ONGs e empresas americanas não são. É tão simplista e ridículo que nem vale a pena comentar mais a fundo sobre isso.

Agora, para concluir, pergunto aos gênios: Quando os democratas voltarem ao poder e fizerem as pazes com “os globalistas europeus”, o que vocês acham que vai acontecer? Respondo-lhes, as empresas e ONGs norte-americanas que na expectativa de lucrar no Brasil, bajularam o trumpismo através de lobby com os republicanos, não mais que suddenly virarão a casaca para os democratas e passarão a atender os interesses deles única e exclusivamente, para continuarem sugando as riquezas do Brasil sem perder as tetas e as mamatas do Estado americano, tais como a bufunfa de de senadores próximos a lobbystas e do Eximbank.

E ainda tem idiota para achar esse governo patriota, nacionalista ou fascista. É o mau e velho udenismo requentado como seu americanismo histórico como força-motriz.

Se você chama Bolsonaro de fascista, você é um idiota.

Peço desculpas pelo título “clickbait“, eu não acho realmente que quem ache Bolsonaro um fascista seja um idiota. Ao menos não necessariamente. Mas vamos aproveitar a ocasião em que este assunto foi levantado para discutir o assunto.

Primeiramente, nem todo conservadorismo é fascismo. Digo mais, nem mesmo um reacionário é um fascista. A não ser que fascismo não simbolize um termo político histórico e ideologicamente identificável. Infelizmente, têm-se o hábito no Brasil de chamar de fascismo “tudo o que eu acho ruim, atrasado e eu não gosto“. Peço novamente desculpa a quem pensa assim, mas isso não é fascismo, é simplesmente uma opinião sua. E como nós não vivemos no mundinho fechado das nossas imaginações e sentimentos e sim num mundo real para além de nossas consciências, não basta “achar fascista” para que algo seja fascista.

A coisas historicamente mais próxima do fascismo que tivemos no Brasil foram respectivamente: O Integralismo, O Estado Novo nas suas fases iniciais e o PRONA. Mas nenhum deles chegava efetivamente a se consolidar como fascista.

O integralismo era dividido em vários setores e alas, a de Gustavo Barroso por ter comprado o discurso antissemita e apoiado um corporativismo de tipo moderno é talvez a ala que mais se aproximava. A de Plínio Salgado, por exemplo, gostava da estética militar, mas em sua leitura de mundo, embora tivesse tido muitas influências iniciais de Hegel e Gentile, gradativamente passa a uma visão de cunho tradicionalista que pode sem dúvidas ser chamada de reacionária, mas que não era definitivamente fascista.

O Estado Novo, por sua vez, implementou uma visão do mundo utilitária e secular, o que é compatível com um conceito de altermodernidade presente no fascismo, mas ao seu fim estava tornando-se mais um nacionalismo de esquerda pouco democrático do que de fato, um fenômeno fascista. Não custa lembrar da Polaca, a constituição autoritária que o regime implantou. O Enéas talvez tivesse certas características de uma personalidade populista, uma feição caricatural, gestos bruscos e tom de voz sempre forte e elevado. Mas seu discurso descambava mais para um nacionalismo conservador do que para a anti-democracia. Ao contrário, se analisar bem o discurso do mesmo contra as autoridades de seu tempo, tinham na maior parte dos casos um teor republicano muito evidente. Enéas tinha ainda uma visão tecnocrática do poder, que seria uma visão modernizada do aristoi grego. O líder e os homens de Estado deviam ser tecnicamente qualificados, e não apenas uma personalidade popular. Esta é uma característica também do Estado Novo em todas as suas fases, não podendo portanto ser considerado de direita ou de esquerda nos padrões brasileiros, embora em termos mais globais, possa ser considerado conservador, dado que seria uma hierarquização meritocrática da sociedade.

 E o que é o fascismo?

O fascismo é uma forma de nacionalismo que se particulariza por algumas características que são muito peculiares a ele, em palavras mais simples, não é porque um determinado partido, político ou ideólogo tem uma dessas características que ele será necessariamente um fascista.

O fascismo apresenta um d tipo de visão que não necessariamente é conservadora, mas que de alguma forma busca uma legitimação histórica do movimento. Assim, o fascismo pode acidentalmente esbarrar em alguma pauta ou ideia conservadora ou reacionária, mas isso não significa que isso seja a essência do movimento. O fascismo italiano, por exemplo, diferente de um movimento político conservador não visava como meta primária resguardar ou manter alguma tradição ameaçada, e nem mesmo desejava um retorno a um passado medieval idealizado. Nestes casos não se enquadra nem como conservador e nem como reacionário. Mas buscava na simbologia, na arquitetura e no discurso restaurar uma glória do Império Romano, com o seu facho e seus ícones da cultura pré-cristã.

Propunha isso não como um regresso, mas como uma altermodernidade. Isto é, um redesenhamento dos tempos em que vivia com moldes da antiguidade. Era notabilizado também por uma divisão de funções entre público e privado na economia conforme as diretrizes de um Estado autoritário e nacionalista. A hierarquização era inicialmente tecnocrática, mas com a aliança com o III Reich, elementos racialistas de Hitler começaram a tomar parte da hierarquização. A verve militar é sempre muito difundida, não apenas na estética, mas na prática. O fascismo quando não manifesta um claro expansionismo militar, procura a unificação de territórios dissidentes sempre pela força. Lato sensu, isto é o básico do fascismo. Se analisarmos bem, veremos que na Europa ocidental somente Hitler, Franco e Mussolini se enquadram neste modelo. Nem mesmo Salazar poderia ser considerado um fascista, dada a sua visão tradicionalista e a de um nacionalismo emburrado e autocentrado.

O fascismo notabiliza-se ainda, por uma figura caricatural e personalista que quer se caracterizar como uma espécie de líder ou chefe de seita que encarna o “espírito” da nação ou da raça. Bolsonaro até se assemelha bem a este tipo de conduta, mas outros líderes de esquerda também foram populares ou populistas demagógicos e não são contados entre os fascistas, como Hugo Chávez, o ex-presidente Lula, Evo Morales na Bolívia, etc.

Os governos fascistas na sua fase inicial receberam algum apoio dos tradicionalistas, mas isso não faz deles a mesma coisa e o importante é que, pouco depois acabariam por perdê-lo. Vide que Franco sacou de seu governo os nacional-sindicalistas e optou pelos carlistas que na década de 50 deram uma orientação muito mais “liberal” ao regime.

Outra característica do fascismo é que o apelo a desigualdade nele é tão grande que ela passa a ser consolidado legalmente, não como a estamentação feudal, mas ao contrário, por uma moderna de etnia (entendida aqui como nacionalidade) ou raça.

E Bolsonaro?

Bolsonaro tem essas características? Vejamos:

1- Bolsonaro não manifesta qualquer apreço ou desejo por uma hierarquia de poder, seja ela técnica, étnica ou racial. Ele pode ser conivente com o status quo de desigualdade no Brasil, mas não há qualquer tendência da parte dele em consolidá-la em lei. Ao contrário, Bolsonaro parece dar muito mais privilégios aos norte-americanos e israeleneses no Brasil que aos brasileiros, e manifesta um personalismo administrativo muito forte indicando sempre por laços de sangue ou de apreço pessoal.

2- Bolsonaro não é nacionalista. O nacionalismo dos regimes italiano, alemão e espanhol; ou mesmo de nacionalismos conservadores de tipo não-fascista, como o salazarismo, o integralismo e o regime militar, está completamente ausente para além do discurso. Bolsonaro coloca claramente os interesses dos Estados Unidos e do Estado de Israel acima dos interesses do Estado Brasileiro.

3- Bolsonaro não tem uma ideologia altermoderna, mas sim moderna e inspirada pelo seu guru, Olavo de Carvalho. A visão de Bolsonaro é a de que o Brasil deve se refundar segundo os moldes do Estado e da nação americanas. Com os ideais dos founding fathers, e segundo a leitura jeffersoniana do que era ou ao menos, deveria ser, os Estados Unidos. Mesmo que concedamos que isto fosse uma inspiração histórica do passado para se refundar, temos que levar em consideração que:

a)  O Estado americano é – como o próprio Olavo de Carvalho reconhece n’O jardim das Aflições – o primeiro experimento de estado moderno republicano, laico e liberal-democrático bem sucedido. Sendo portanto, em seu berço, um experimento iminentemente moderno.

b) É uma fonte inspiração que não busca em estados antecedentes do país ou do território ocupado uma inspiração para a modernidade, mas sim um passado de um outro país sem qualquer laço cultural para conosco para além de seu poder econômico e militar. O integralismo, por exemplo, visava na figura dos índios esse símbolo de inspiração.

4- A fonte de inspiração mais próxima culturalmente do Brasil que Bolsonaro tem, é de um outro governo ditatorial e anglicizante: O governo de Pinochet, que tem os mesmos aspectos americanistas, liberais e antinacionalistas do governo Bolsonaro. E que, em geral, não é um governo apreciado nem pelos falangistas chilenos (os fascistas históricos do Chile).

Em resumo, não há porquê considerar Bolsonaro fascista, para além do “eu não gosto dele e ele é tudo de ruim“. Então, por essas razões, julgo não ser adequado tratar Bolsonaro como fascista. isto pode inclusive, criar um alarmismo falso chamando tudo de fascismo, e quando um fascista realmente aparecer, a alegação não terá crédito. É como na anedota do menino que gritava “lobo!”. Quando o lobo apareceu ninguém deu crédito. Aliás, a própria eleição de Bolsonaro sinaliza que isso pode ocorrer. Gritou-se entreguista e direitista para todos os tucanos. Quando um direitista e entreguista de verdade (Bolsonaro) apareceu, as pessoas não se importaram. Que fique a lição.