Se você chama Bolsonaro de fascista, você é um idiota.

Peço desculpas pelo título “clickbait“, eu não acho realmente que quem ache Bolsonaro um fascista seja um idiota. Ao menos não necessariamente. Mas vamos aproveitar a ocasião em que este assunto foi levantado para discutir o assunto.

Primeiramente, nem todo conservadorismo é fascismo. Digo mais, nem mesmo um reacionário é um fascista. A não ser que fascismo não simbolize um termo político histórico e ideologicamente identificável. Infelizmente, têm-se o hábito no Brasil de chamar de fascismo “tudo o que eu acho ruim, atrasado e eu não gosto“. Peço novamente desculpa a quem pensa assim, mas isso não é fascismo, é simplesmente uma opinião sua. E como nós não vivemos no mundinho fechado das nossas imaginações e sentimentos e sim num mundo real para além de nossas consciências, não basta “achar fascista” para que algo seja fascista.

A coisas historicamente mais próxima do fascismo que tivemos no Brasil foram respectivamente: O Integralismo, O Estado Novo nas suas fases iniciais e o PRONA. Mas nenhum deles chegava efetivamente a se consolidar como fascista.

O integralismo era dividido em vários setores e alas, a de Gustavo Barroso por ter comprado o discurso antissemita e apoiado um corporativismo de tipo moderno é talvez a ala que mais se aproximava. A de Plínio Salgado, por exemplo, gostava da estética militar, mas em sua leitura de mundo, embora tivesse tido muitas influências iniciais de Hegel e Gentile, gradativamente passa a uma visão de cunho tradicionalista que pode sem dúvidas ser chamada de reacionária, mas que não era definitivamente fascista.

O Estado Novo, por sua vez, implementou uma visão do mundo utilitária e secular, o que é compatível com um conceito de altermodernidade presente no fascismo, mas ao seu fim estava tornando-se mais um nacionalismo de esquerda pouco democrático do que de fato, um fenômeno fascista. Não custa lembrar da Polaca, a constituição autoritária que o regime implantou. O Enéas talvez tivesse certas características de uma personalidade populista, uma feição caricatural, gestos bruscos e tom de voz sempre forte e elevado. Mas seu discurso descambava mais para um nacionalismo conservador do que para a anti-democracia. Ao contrário, se analisar bem o discurso do mesmo contra as autoridades de seu tempo, tinham na maior parte dos casos um teor republicano muito evidente. Enéas tinha ainda uma visão tecnocrática do poder, que seria uma visão modernizada do aristoi grego. O líder e os homens de Estado deviam ser tecnicamente qualificados, e não apenas uma personalidade popular. Esta é uma característica também do Estado Novo em todas as suas fases, não podendo portanto ser considerado de direita ou de esquerda nos padrões brasileiros, embora em termos mais globais, possa ser considerado conservador, dado que seria uma hierarquização meritocrática da sociedade.

 E o que é o fascismo?

O fascismo é uma forma de nacionalismo que se particulariza por algumas características que são muito peculiares a ele, em palavras mais simples, não é porque um determinado partido, político ou ideólogo tem uma dessas características que ele será necessariamente um fascista.

O fascismo apresenta um d tipo de visão que não necessariamente é conservadora, mas que de alguma forma busca uma legitimação histórica do movimento. Assim, o fascismo pode acidentalmente esbarrar em alguma pauta ou ideia conservadora ou reacionária, mas isso não significa que isso seja a essência do movimento. O fascismo italiano, por exemplo, diferente de um movimento político conservador não visava como meta primária resguardar ou manter alguma tradição ameaçada, e nem mesmo desejava um retorno a um passado medieval idealizado. Nestes casos não se enquadra nem como conservador e nem como reacionário. Mas buscava na simbologia, na arquitetura e no discurso restaurar uma glória do Império Romano, com o seu facho e seus ícones da cultura pré-cristã.

Propunha isso não como um regresso, mas como uma altermodernidade. Isto é, um redesenhamento dos tempos em que vivia com moldes da antiguidade. Era notabilizado também por uma divisão de funções entre público e privado na economia conforme as diretrizes de um Estado autoritário e nacionalista. A hierarquização era inicialmente tecnocrática, mas com a aliança com o III Reich, elementos racialistas de Hitler começaram a tomar parte da hierarquização. A verve militar é sempre muito difundida, não apenas na estética, mas na prática. O fascismo quando não manifesta um claro expansionismo militar, procura a unificação de territórios dissidentes sempre pela força. Lato sensu, isto é o básico do fascismo. Se analisarmos bem, veremos que na Europa ocidental somente Hitler, Franco e Mussolini se enquadram neste modelo. Nem mesmo Salazar poderia ser considerado um fascista, dada a sua visão tradicionalista e a de um nacionalismo emburrado e autocentrado.

O fascismo notabiliza-se ainda, por uma figura caricatural e personalista que quer se caracterizar como uma espécie de líder ou chefe de seita que encarna o “espírito” da nação ou da raça. Bolsonaro até se assemelha bem a este tipo de conduta, mas outros líderes de esquerda também foram populares ou populistas demagógicos e não são contados entre os fascistas, como Hugo Chávez, o ex-presidente Lula, Evo Morales na Bolívia, etc.

Os governos fascistas na sua fase inicial receberam algum apoio dos tradicionalistas, mas isso não faz deles a mesma coisa e o importante é que, pouco depois acabariam por perdê-lo. Vide que Franco sacou de seu governo os nacional-sindicalistas e optou pelos carlistas que na década de 50 deram uma orientação muito mais “liberal” ao regime.

Outra característica do fascismo é que o apelo a desigualdade nele é tão grande que ela passa a ser consolidado legalmente, não como a estamentação feudal, mas ao contrário, por uma moderna de etnia (entendida aqui como nacionalidade) ou raça.

E Bolsonaro?

Bolsonaro tem essas características? Vejamos:

1- Bolsonaro não manifesta qualquer apreço ou desejo por uma hierarquia de poder, seja ela técnica, étnica ou racial. Ele pode ser conivente com o status quo de desigualdade no Brasil, mas não há qualquer tendência da parte dele em consolidá-la em lei. Ao contrário, Bolsonaro parece dar muito mais privilégios aos norte-americanos e israeleneses no Brasil que aos brasileiros, e manifesta um personalismo administrativo muito forte indicando sempre por laços de sangue ou de apreço pessoal.

2- Bolsonaro não é nacionalista. O nacionalismo dos regimes italiano, alemão e espanhol; ou mesmo de nacionalismos conservadores de tipo não-fascista, como o salazarismo, o integralismo e o regime militar, está completamente ausente para além do discurso. Bolsonaro coloca claramente os interesses dos Estados Unidos e do Estado de Israel acima dos interesses do Estado Brasileiro.

3- Bolsonaro não tem uma ideologia altermoderna, mas sim moderna e inspirada pelo seu guru, Olavo de Carvalho. A visão de Bolsonaro é a de que o Brasil deve se refundar segundo os moldes do Estado e da nação americanas. Com os ideais dos founding fathers, e segundo a leitura jeffersoniana do que era ou ao menos, deveria ser, os Estados Unidos. Mesmo que concedamos que isto fosse uma inspiração histórica do passado para se refundar, temos que levar em consideração que:

a)  O Estado americano é – como o próprio Olavo de Carvalho reconhece n’O jardim das Aflições – o primeiro experimento de estado moderno republicano, laico e liberal-democrático bem sucedido. Sendo portanto, em seu berço, um experimento iminentemente moderno.

b) É uma fonte inspiração que não busca em estados antecedentes do país ou do território ocupado uma inspiração para a modernidade, mas sim um passado de um outro país sem qualquer laço cultural para conosco para além de seu poder econômico e militar. O integralismo, por exemplo, visava na figura dos índios esse símbolo de inspiração.

4- A fonte de inspiração mais próxima culturalmente do Brasil que Bolsonaro tem, é de um outro governo ditatorial e anglicizante: O governo de Pinochet, que tem os mesmos aspectos americanistas, liberais e antinacionalistas do governo Bolsonaro. E que, em geral, não é um governo apreciado nem pelos falangistas chilenos (os fascistas históricos do Chile).

Em resumo, não há porquê considerar Bolsonaro fascista, para além do “eu não gosto dele e ele é tudo de ruim“. Então, por essas razões, julgo não ser adequado tratar Bolsonaro como fascista. isto pode inclusive, criar um alarmismo falso chamando tudo de fascismo, e quando um fascista realmente aparecer, a alegação não terá crédito. É como na anedota do menino que gritava “lobo!”. Quando o lobo apareceu ninguém deu crédito. Aliás, a própria eleição de Bolsonaro sinaliza que isso pode ocorrer. Gritou-se entreguista e direitista para todos os tucanos. Quando um direitista e entreguista de verdade (Bolsonaro) apareceu, as pessoas não se importaram. Que fique a lição.

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A desmoralização institucional do bolsonarismo.

Arthur Rizzi*

Durante os anos do governo PTista, ocorreram inúmeras tentativas de aparelhamento institucional e de desmoralização das instituições. Essas tentativas lograram pouco êxito por uma soma de fatores, que vão de uma oposição midiática tímida vindo de certos setores do jornalismo mais pró-mercado, até a incompetência e/ou incoerência do próprio governo.

Ao longo de 13 anos, o PT oscilou entre tornar-se o queridinho dos mercados e tornar-se um partido bolivariano. O governo Lula foi um pouco disso, ao mesmo tempo em que se adotava uma política econômica ortodoxa e liberal, fazendo uma espécie de acordo de classe entre a burguesia usurária internacional e os sindicatos, o lulismo era anti-liberal numa tentativa de converter as instituições brasileiras num simulacro do chavismo com o PNDH-III.

Ao mesmo tempo em que tentava a regulação da mídia, o PT concedia autonomia a Polícia Federal e ao Ministério Público, bem como dava aval às delações premiadas via STF e seus ministros apaniguados, o mesmo mecanismo que o destronaria. Nem a prosperidade econômica da era Lula e sua enorme popularidade foram de grande ajuda.

Quando a crise explodiu com Dilma e com a memória do último impeachment distante (inclusive tendo tido um resultado bom, o Plano Real), foi fácil para a classe política acreditar que removendo uma presidente confusa e isolada, que a história se repetiria.

Hoje a situação é diferente. O impeachment abriu espaço para o “conservadorismo” americanista de Bolsonaro e aliados, e a crise política e econômica que perdurou por todo o governo Temer deixou a lição ao congresso que o bom resultado do impeachment de Collor fora um fato isolado e meramente acidental. Como previsto, a crise política continuou e culminou na eleição de Bolsonaro.

Temeroso agora de um novo impeachment, que poderia por em xeque a legitimidade da classe política e das instituições, bem como também temendo o resultado de um novo impeachment com um prolongamento da crise (como um possível retorno de um petismo sedento por vingança), o congresso se vê apertado entre um governo retardado preocupado mais com os interesses dos Estados Unidos do que com os nossos (além de envolto em trapalhadas) e um possível retorno do PT.

O resultado é que cada humilhação de ministro, cada ofensa ao decoro e cada destrato pessoal para cada personalidade importante da república, bem como o nepotismo e personalização crescente do poder político, passam a ser tolerados e engolidos a seco, com o temor de uma piora da crise econômica e política. A derrota de Macri nas primarias instaurou o caos na Argentina, o câmbio disparou, o juros também, a inflação voltou a decolar. Como resultado, isso virou sinal de reforço para as instituições de que o temor da queda do “Mito” poderia trazer o caos e o PT de volta.

Graças ao patrocínio do mercado e do jornalismo a Guedes e Moro, e ao temor do congresso, as instituições estão sendo desmoralizadas a um nível jamais visto.

União Européia, China e barganha empresarial.

No nosso primeiro texto sobre o acordo com a União Européia envolvendo o Mercosul, apontamos as razões geopolíticas para que tal acordo fosse fechado, e cada vez mais claro fica que as razões para o acordo ter sido feito a toque de caixa é basicamente afastar o Brasil e os países do Mercosul da China.

O segundo maior mercado para o qual o Brasil exporta é a União Européia, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos. Que o o olavo-bolsonarismo quer afastar-se da China a todo e qualquer custo é já sabido, e desde o excelente texto do nosso colaborador Ricardo Carvalho isto está denunciado. O Brasil exportou quase 100 bilhões para a China em 2018, mais que o dobro da União Européia, dados do Ministério da Economia que podem ser baixados aqui. Porém, notícias dão conta de que o acordo com a União Européia pode fazer o Brasil exportar até 125 bilhões para a mesma em até 15 anos. 25% mais que para a China hoje.

Ao que tudo indica, este foi o meio que Ernesto Araújo conseguiu (como bom liberal-americanista que é), de cumprir sua agenda anti-nacional, oferecendo o mercado Europeu ao nosso setor produtivo, de modo a tornar indolor para a população e para nosso setor primário a entrada na guerra comercial americana contra a China. Em outras palavras, ao invés de termos UE + China, teremos basicamente UE – China. É uma hipótese, é claro. E é também estupidez. Mas para quem é um fanático americanista como Olavo, Araújo e seu séquito de bobalhões, me parece uma aposta válida.


 

O globalismo mais perto da direita: Acordo Mercosul-União Européia.

Arthur Rizzi*

O acordo com a União Europeia é até agora o primeiro e único acerto do ponto de vista econômico do Macumbeiro do Itamaraty, Ernesto Araújo. Seu significado geopolítico, entretanto, é o mais importante: Adesão a OCDE e o abandono do status de país em desenvolvimento da OMC + Juntar-se aos EUA na guerra econômica contra a China + Acordo Mercosul-UE significam o sepultamento total do BRICs para nós, que agora se torna RICs. Ao menos no que tange ao Brasil, e isto quer dizer que integramos totalmente a zona de influência dos Estados Unidos.

Do ponto de vista estritamente econômico, não há nenhuma razão para dar as costas aos BRICs e sair da condição de país em desenvolvimento na OMC. As razões são todas geopolíticas: Os BRICs de um ponto de vista econômico resume-se cada vez mais a China que dividia esse posto com o Brasil, e de um ponto de vista militar é a junção da Rússia, da China e da Índia.

A OMC é um reduto onde a China tem muita influência. Por isso Trump quer tirar o Brasil dela e enfurnar na OCDE onde eles delimitam regras econômicas para os membros mais fracos seguirem (mas que por alguma razão misteriosa eles não seguem… Curioso, não?) Ao enfraquecer o BRICs economicamente tirando o Brasil (8ª economia do mundo, a mais importante depois da China), enfraquece-se assim o projeto Russo de um Banco dos BRICs, alternativo ao FMI – Fundo Monetário Internacional.

Não é curioso que a direita antiglobalista mais uma vez ajudou os globalistas? O FMI sempre fora apontado como um órgão do globalismo, um de seus braços econômicos e, ora, vejam só: É um braço da guerra híbrida dos Estados Unidos. Lembram-se?

O que a nossa secular tradição diplomática, seguindo o legado do Barão do Rio Branco, faria? Provavelmente manter os BRICs, entrar na OCDE e ficar na OMC. Seria a junção do melhor dos mundos. Ainda que não fosse possível, certamente se esforçaria para consegui-lo. E, não conseguindo, optaria pela saída conservadora, que é preferir o conhecido ao desconhecido. O ponto é que em momento algum nossa diplomacia tentou isso. Mas aqui, com o ministro Araújo, infelizmente, não estamos no reduto de nossa tradição diplomática mais.

O acordo entre o Mercosul e a União Européia vinha em banho-maria há 20 anos, e surpreendeu a todos ser resolvido tão rápido na data de hoje. Ora, quando um acordo sai rápido demais depois de um longo período de negociação é sempre preocupante. Nós górdios muito longevos não costumam ser resolvidos assim a golpe de canetada e frase feita. O acordo estava se arrastando a anos pois os europeus sempre pediam algo que os governos anteriores não queriam dar. Resta saber se:

  • a) A conveniência geopolítica de enfraquecer os BRICs sacando o Brasil dele falou mais alto levando os europeus a baixarem exigências. O que eu particularmente duvido muito. A briga Trump-União Européia é em grande parte “prosopopeia flácida” e miudezas. Na hora das crises os americanos sabem que só podem contar com os europeus e os europeus com os americanos. As brigas entre ambos é muito mais sobre o “como” organizar a ordem liberal conduzida pelos Estados Unidos e neutralizar a China, em que Trump exige um papel maior para os Estados Unidos do que qualquer outra coisa, neste caso, oposta ao Trump, a União Européia é o pulmão do internacionalismo cosmopolita hoje.
  • b) Se diferente dos governos anteriores este ofereceu aquilo que os anteriores não queriam dar. Enquanto isso não fica claro, observemos a big picture:

Com o Brasil abrindo mão do status de país em desenvolvimento na OMC e entrando na OCDE (o que não deve tardar muito), não poderemos adotar medidas heterodoxas ou criativas, como as que Trump vem tomando com seu protecionismo, por exemplo (Mas quem tem colhões para cobrar algo dos EUA?).

Sendo obrigados a adotar apenas medidas ortodoxas, tendo a temer os efeitos sobre a indústria brasileira, agora que o BNDES está sendo desmontado. Os industriais brasileiros estão animados com a queda das barreiras tarifárias para entrar na Europa; mas estão vendo apenas metade do quadro. Não estranharia se em breve eles não começassem a murmurar e a reclamar do acordo. Se os resultados nesse caso, forem ruins, teremos bem pouca margem de defesa econômica graças a entrada na OCDE.

Para o Mercosul, um produto é considerado do bloco se tem 60% de seus componentes fabricados dentro do bloco. Para a União Europeia apenas 30%. Ou seja, um produto feito 70% recursos americanos mas com 30% de peças alemãs pode entrar com os benefícios do acordo no nosso mercado. Isso é no mínimo digno de atenção para que ninguém extra bloco europeu goze das vantagens do acordo.

Com as hostilidades com a China e o afastamento dos BRICs, os chineses devem se voltar para Angola e Moçambique, onde eles têm empreendimentos agrícolas que podem no longo prazo eliminar a necessidade do nosso agronegócio. E eles já começam a olhar para outros países da África como possíveis alternativas às nossas commoditties.

Em resumo, O acordo Mercosul-União Européia é bom e pode ajudar a economia brasileira a crescer até 2% no cenário mais otimista para 2020-2021. Preocupam-me, ainda, em resumo os seguintes tópicos:

a) Os termos do acordo ainda obscuros quanto aos seus efeitos.
b) O quadro geral em que esse acordo se insere.

Mais perto do globalismo:

Não tardou para que os notáveis do olavo-bolsonarismo começassem a louvar o acordo com a União Européia. Os mesmos próceres que não menos de alguns meses atrás a reputavam como “a ponta de lança do globalismo”, como é o caso do olavista Leandro Ruschel:

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Fonte: Twitter

Como a direita americanista poderá seguir apoiando movimentos direitistas euroscépticos que querem demolir a União Europeia, apoiar o Brexit e, simultaneamente, torcer para o acordo de livre-mercado com a UE prosperar e salvar o governo Bolsonaro da recessão? De que vale uma União Européia sem Alemanha, Inglaterra, França e Itália? Como os mesmos que esbravejavam contra o Acordo de Paris e as demarcações de reservas indígenas poderão continuar a gritaria se o acordo obriga o Brasil a continuar membro dessas pautas? Mistério.

Um passo mais dado em direção a se tornarem neoconservadores (à americana), e isso significa um passo mais em direção ao globalismo. Esperem só até descobrir que a OCDE é uma das maiores promotoras da agenda LGBT.


Para mais artigos sobre o assunto:

Clique aqui e aqui.

A fraqueza do governo Bolsonaro não se deve a um “deep state”.

Arthur Rizzi

Os olavo-bolsonaristas, diante dos fracassos do governo e das trapalhadas que ele fez já decidiram qual o culpado por isso: o “deep state“. Relevemos por hora a falta de originalidade da desculpa, dado que nada mais é que uma cópia do argumento trumpista. Lá, pelo menos, ele faz algum sentido. Aqui não. O Estado americano possui instituições sólidas e bastante despersonalizadas, funcionando como uma máquia burocrática quase weberiana.

O Estado brasileiro ainda está no paradigma de Sérgio Buarque de Hollanda e Raymundo Faoro. É uma instituição mista, com muitos espaços e brechas para o personalismo e, por isso mesmo, ineficiente.  O termo deep state quando surgiu na Turquia, referia-se a grupos de agentes estatais cuja essência de seu papel não era político, mas econômico ou técnico; mas que ainda assim tinham papel político relevante e não condizente com seu status de quadro técnico.

Ex: O ministro da Economia é alguém que está ali para planejar as medidas econômicas a serem implantadas e negociar com o congresso suas viabilidades. É um papel político.

O presidente do BNDES, por sua vez, embora indicado politicamente, está posto num cargo para viabilizar crédito, financiamento, investimento a pedido da equipe econômica e do executivo. Seu papel é técnico, portanto.

Assim como ele podemos ainda citar:

  • Funcionários do Banco Central: economistas, contadores, administradores, etc.
  • Funcionários do judiciário: Escrivães, assistentes, consultores, ministério público, etc.
  • Setor da defesa: Militares, Inteligência, Polícia Federal, etc.

São indivíduos ligados mais ao Estado do que ao governo. Por isso, quando Bolsonaristas acusam o Centrão de ser um deep state, estão simplesmente comprando uma deturpação tardia feita pelos americanos. Deputados e senadores, ainda que do baixo clero, fisiológicos, representam uma extensão indevida do termo, pois a função deles como políticos é justamente fazer política. Eles estão lá para isso, influenciar em decisões de governo. Barrá-las, aprová-las e moderá-las. Chamar isso de deep state dá a um papel legítimo (ainda que possa ser executado com finalidades e motivações pouco republicanas) a qualidade de ilegítimo, como se o governo devesse governar por decreto e sem oposição.

A alt right americana foi quem expandiu o termo de modo a significar todo mundo que atrapalha o Trump, o que também pode ser dito como sendo: os democratas e os neocons.

Se há algo no Estado brasileiro hoje que vagamente lembra um deep state é, além da ala militar que compõe o governo Bolsonaro e tem limitado alguns de seus movimentos, a própria Lava Jato, que como demonstrou Greenwald, claramente tinha motivações políticas.

No caso específico das Forças Armadas, ela na verdade foi de grande ajuda ao governo, evitando trapalhadas e decisões erradas. Mas, como sabemos, os olavo-bolsonaristas consideram o governo sabotado pelos militares. Afinal, uma guerra com a Venezuela sem dúvidas seria ótimo para o país, não é mesmo?

O microcrédito não é uma ameaça aos grandes bancos.

Arthur Rizzi

Embora eu seja um entusiasta do microcrédito e do empreendimento individual de crédito propiciado pelo governo Bolsonaro recentemente (haja visto o artigo que publicamos aqui do Richard Aleman), há uma alrgação que os olavistas e bolsonaristas em geral vêm fazendo e que é completamente sem fundamento e que revela um completo desconhecimento de como funciona o contemporâneo sistema bancário.

Antes de passarmos ao assunto propriamente dito, contextualizemos a alegação dos olavo-bolsonaristas.

Desde o início do governo Bolsonaro, um setor da direita e de tendência nacionalista começou a elevar críticas ao governo Bolsonaro pela agenda liberal e americanista dos mesmos. Dentre esses setores estão os tradicionalistas católicos mais radicais (a exemplo da Legião da Santa Cruz), setores pronistas e saudosistas do regime militar, bem como alguns grupos vinculados a Integralismo que outrora apoiara o governo.

Estes setores questionando a política externa subserviente ao interesse americano e o liberalismo da equipe econômica de Paulo Guedes, começaram a apontar o governo como sendo falso nacionalismo e um títere dos interesses do globalismo financeiro (sistema financeiro internacional). Em resposta os olavo-bolsonaristas alegam que a medida recente que permite o empreendimento individual de crédito seria uma prova de que Bolsonaro e a equipe econômica não estão de acordo com o globalismo financeiro, dado que este é constituído de grandes bancos, que seriam ameaçado pela competição com os pequenos agentes de crédito.

Uma vez delimitado o contexto dessa discussão relevante, vamos analisar a verdade dos enunciados acima.

1- Os pequenos agentes de crédito não constituem ameaça ao grande setor bancário em lugar nenhum do mundo.

A grande virtude da medida de estímulo ao microcrédito é a possibilidade de as relações de crédito e investimento serem mais horizontais e personalistas junto às pessoas comuns. Contratos mais flexíveis e adequados a situação das pessoas concretas passa a ser uma possibilidade nesse tipo de relação bancária, substituindo, por exemplo, os contratos de adesão dos grandes bancos.

Porém, essa medida afeta apena pequenos e micro-empreendedores, ela é irrelevante para empresas grandes como por exemplo, a Gerdau. Pense: Por que a Guerdau pegaria emprestado dinheiro com o Banco de Quiproquó do Vale, que tem apenas 200 mil reais em ativos, sendo que qualquer operação da Guerdau para investimento demanda de 10 a 20 vezes mais recursos do que o banco tem em patrimônio? Veja, tomar empréstimos de vários pequenos bancos até dar o montante necessário tornaria o sistema incomensuravelmente mais complexo, arriscado e menos eficiente. Por isso sempre acabará sendo preferível a grandes empresas também tomar serviços de grandes bancos.

2- O problema da escala e da concentração:

Isso nos revela um problema que é a escala de operações. O sistema bancário é especializado na capitação e transmissão de informações, e fazer isso de maneira eficiente exige que se seja capaz de arcar com custos fixos muito elevados, que somente entidades de crédito com um grande volume de ativos serão capazes de pagar. Essa é a principal razão pela qual o setor bancário apresenta uma grande tendência a concentração em todo lugar do mundo. Usando o economês como língua, diríamos que o custo médio é decrescente, porque o custo marginal é muito pequeno em face dos custos fixos e do montante de ativos em posse da instituição. O custo para um banco de abrir uma nova conta corrente ou conta poupança é tão diminuto, que isso faz com que os bancos tendam progressivamente a operar no regime de competição monopolista.

3- O pequeno crédito não é a grande fonte de recursos dos bancos.

Embora os grandes bancos não desprezem o micro e pequeno proprietário, ele não é nem de longe a sua maior fonte de receitas. Os grandes bancos ganham muito dinheiro intermediando operações de open market, operações de crédito compromissadas com a dívida pública e financiando grandes empresas. Isso significa que embora certamente eles não ficam felizes em perder clientes de renda baixa, que eles não farão grandes dramas por eles.

4- Suposição:

Suponhamos que ainda assim, os pequenos bancos fossem capazes de vencer todos estes desafios de custo e escala. Ainda assim, eles existiriam no mercado de crédito pela pura e simples benevolência dos grandes bancos, que poderiam expulsá-los através de um dumping de crédito. Pense você que em hipótese que estes pequenos bancos individuais venham a ganhar cada vez mais marketshare, a ponto de assustá-los. Enquanto os novatos ainda não tivessem ativos em igual proporção, eles ainda poderiam ser expulsos do mercado pelos bancos maiores sacrificando temporariamente parte de seu lucro oferecendo crédito abaixo do preço de mercado. Isto não é triunfo do mercado, ao contrário, é a sabotagem do mesmo. Contudo isso nunca aconteceu devido às barreiras supracitadas serem quase intransponíveis.

Isso, obviamente, não significa que a existência de pequenos agentes de crédito n;ao ajude a baixar o spread ou ainda a reduzir um pouco a taxa de juros, mas não será nada muito relevante.


 

Direita brasileira: do globalismo inconsciente ao globalismo ideológico

Arthur Rizzi

A direita brasileira está dando passadas largas em termos de discurso político para num futuro não muito longínquo, tornar-se um porta-voz consciente do globalismo. O raciocínio é simples: Na internet, ponto principal do debate econômico, a radicalização de ideias de lado-a-lado criou a figura do “isentão”.

É óbvio que existem pessoas que num contexto político desfavorável às suas ideias, as transmutam em uma opinião centrista para com isso fazer avançar pelo menos uma parte de sua agenda real. Contudo, isso nada tem a ver com pessoas cuja posição política e proposta de modificação da política sejam mais centristas, moderadas e prudentes.

Isto é, uma coisa é a pessoa que diz defender a solução de dois Estados para a questão israelo-palestina como forma de ocultar seu anti-sionismo, podendo assim apoiar a causa palestina sem ser acusado de antissemita. Outra bem diferente é a pessoa que acredita que a solução de dois Estados é efetivamente s melhor solução.

O problema é que por conveniência dos dos lados, ambos são empurrados sem distinção para o mesmo rótulo de “isentão”. Quanto mais à esquerda (ou à direita) você estiver, mais direitistas (ou esquerdistas) você verá. Veja no caso de Bolsonaro. As críticas que se fazem a política externa podem ser feitas pelas mesmas duas razões acima. Pode ser o caso do “isentão”, o anti-bolsonarista que por estar fora do poder e temer represálias advoga uma versão mista da sua visão real de política externa com uma versão moderada da política bolsonarista. Ou pode ser que seja uma pessoa que realmente tenha uma visão mais moderada desses assuntos sem qualquer compromisso com o anti-bolsonarismo.

De fato, muitas personalidades conservadoras e até tradicionalistas tem feito críticas a orientação da política externa de Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho. Nem por isso são esquerdistas enrustidos. Ao contrário, justamente criticam porque acham que o governo ou o país seriam mais beneficiados por um outro tipo de política externa.

E de fato, se analisarmos, o “nacionalismo” que a imprensa internacional atribui a Bolsonaro não passa da metade da primeira página. O suposto nacionalismo começa e termina no discurso. A política externa visa primariamente os interesses dos Estados Unidos e de Israel, com o Brasil prestando um acordo de suserania e vassalagem com os Estados Unidos e com os setores mais americanistas do governo querendo com a entrada na OTAN, que este pacto de suserano-vassálico converta o Brasil num protetorado dos Estados Unidos.

Ora, mas o nacionalismo não se constitui justamente numa postura de não subserviência a ninguém e de autonomismo? O nacionalismo não acaba por optar por uma política externa independente, optando quando muito e inevitável, por um alinhamento comedido e negociado, e sempre com muitos poréns e declarações de provisoriedade? Afinal, “a pátria vem em primeiro lugar. Se assim é, e se como dizia Santo Tomás de Aquino “falar a verdade é quando o discurso versa sobre o Ser na medida em que este é conhecido”, podemos evidenciar que o discurso nacionalista não versa sobre a realidade do que é a atual política externa.

O problema é que hoje a questão da política externa tornou-se ideológica. Ser de direita é ser pró-EUA e Israel. Ser de esquerda é ser pró-Palestina e Rússia e/ou China. Mas a realpolitik não é assim. China e Estados Unidos têm uma relação econômica simbiótica, onde um lado poupa e o outro consome. Nada poderia ser mais longe do fla-flu acima descrito. Então, passa a compensar para o direitista tachar o nacionalista de “isentão” ou “esquerdista enrustido”, pois ele não adota o credo pró-EUA e pró-Israel per omnia saecula saeculorum. O nacionalista verdadeiro, propondo uma política externa independente, desejaria uma relação saudável com Rússia, China e Estados Unidos, fugindo o máximo possível dos problemas entre eles e tentando levar o melhor possível de vantagem entre todos. Mas para o bolsonarista, isso faz do nacionalista um esquerdista.

Então pensemos: Se nacionalismo factual, real e concreto é de esquerda. Se buscar única e exclusivamente o interesse brasileiro é de esquerda dentro desse discurso fanatizado, é óbvio que a contraposição tenderá a radicalizar cada vez mais no globalismo, no internacionalismo e nos projetos contra autonomia nacional.

Antes que alguém mal intencionado diga que eu estou acusando o bolsonarista de ser globalista, ou de dizer que o nacionalismo é uma ideologia de esquerda (e existem muitos nacionalistas conservadores), eu advirto e peço: leia de novo. O que eu estou dizendo é que na medida em que no plano discursivo a direita atual continue a empurrar o nacionalismo real e factual para o canto da esquerda política, ele começará a se ver na necessidade de delimitar uma distinção igualmente discursiva, e nesse caso ele só poderá se mover para o globalismo que é o outro polo dessa equação, pois o pretenso “nacionalismo” do governo Bolsonaro é meramente discursivo. E com isso, para piorar, acabar dando a própria esquerda que diz combater o monopólio da “defesa dos interesses nacionais” e de que “se preocupa de verdade com o país”. Claro, tudo isso no plano meramente discursivo.

Para ser ainda mais claro, o governo já é globalista na prática. Os bolsonaristas é que ainda não descobriram isso.