O microcrédito não é uma ameaça aos grandes bancos.

Arthur Rizzi

Embora eu seja um entusiasta do microcrédito e do empreendimento individual de crédito propiciado pelo governo Bolsonaro recentemente (haja visto o artigo que publicamos aqui do Richard Aleman), há uma alrgação que os olavistas e bolsonaristas em geral vêm fazendo e que é completamente sem fundamento e que revela um completo desconhecimento de como funciona o contemporâneo sistema bancário.

Antes de passarmos ao assunto propriamente dito, contextualizemos a alegação dos olavo-bolsonaristas.

Desde o início do governo Bolsonaro, um setor da direita e de tendência nacionalista começou a elevar críticas ao governo Bolsonaro pela agenda liberal e americanista dos mesmos. Dentre esses setores estão os tradicionalistas católicos mais radicais (a exemplo da Legião da Santa Cruz), setores pronistas e saudosistas do regime militar, bem como alguns grupos vinculados a Integralismo que outrora apoiara o governo.

Estes setores questionando a política externa subserviente ao interesse americano e o liberalismo da equipe econômica de Paulo Guedes, começaram a apontar o governo como sendo falso nacionalismo e um títere dos interesses do globalismo financeiro (sistema financeiro internacional). Em resposta os olavo-bolsonaristas alegam que a medida recente que permite o empreendimento individual de crédito seria uma prova de que Bolsonaro e a equipe econômica não estão de acordo com o globalismo financeiro, dado que este é constituído de grandes bancos, que seriam ameaçado pela competição com os pequenos agentes de crédito.

Uma vez delimitado o contexto dessa discussão relevante, vamos analisar a verdade dos enunciados acima.

1- Os pequenos agentes de crédito não constituem ameaça ao grande setor bancário em lugar nenhum do mundo.

A grande virtude da medida de estímulo ao microcrédito é a possibilidade de as relações de crédito e investimento serem mais horizontais e personalistas junto às pessoas comuns. Contratos mais flexíveis e adequados a situação das pessoas concretas passa a ser uma possibilidade nesse tipo de relação bancária, substituindo, por exemplo, os contratos de adesão dos grandes bancos.

Porém, essa medida afeta apena pequenos e micro-empreendedores, ela é irrelevante para empresas grandes como por exemplo, a Gerdau. Pense: Por que a Guerdau pegaria emprestado dinheiro com o Banco de Quiproquó do Vale, que tem apenas 200 mil reais em ativos, sendo que qualquer operação da Guerdau para investimento demanda de 10 a 20 vezes mais recursos do que o banco tem em patrimônio? Veja, tomar empréstimos de vários pequenos bancos até dar o montante necessário tornaria o sistema incomensuravelmente mais complexo, arriscado e menos eficiente. Por isso sempre acabará sendo preferível a grandes empresas também tomar serviços de grandes bancos.

2- O problema da escala e da concentração:

Isso nos revela um problema que é a escala de operações. O sistema bancário é especializado na capitação e transmissão de informações, e fazer isso de maneira eficiente exige que se seja capaz de arcar com custos fixos muito elevados, que somente entidades de crédito com um grande volume de ativos serão capazes de pagar. Essa é a principal razão pela qual o setor bancário apresenta uma grande tendência a concentração em todo lugar do mundo. Usando o economês como língua, diríamos que o custo médio é decrescente, porque o custo marginal é muito pequeno em face dos custos fixos e do montante de ativos em posse da instituição. O custo para um banco de abrir uma nova conta corrente ou conta poupança é tão diminuto, que isso faz com que os bancos tendam progressivamente a operar no regime de competição monopolista.

3- O pequeno crédito não é a grande fonte de recursos dos bancos.

Embora os grandes bancos não desprezem o micro e pequeno proprietário, ele não é nem de longe a sua maior fonte de receitas. Os grandes bancos ganham muito dinheiro intermediando operações de open market, operações de crédito compromissadas com a dívida pública e financiando grandes empresas. Isso significa que embora certamente eles não ficam felizes em perder clientes de renda baixa, que eles não farão grandes dramas por eles.

4- Suposição:

Suponhamos que ainda assim, os pequenos bancos fossem capazes de vencer todos estes desafios de custo e escala. Ainda assim, eles existiriam no mercado de crédito pela pura e simples benevolência dos grandes bancos, que poderiam expulsá-los através de um dumping de crédito. Pense você que em hipótese que estes pequenos bancos individuais venham a ganhar cada vez mais marketshare, a ponto de assustá-los. Enquanto os novatos ainda não tivessem ativos em igual proporção, eles ainda poderiam ser expulsos do mercado pelos bancos maiores sacrificando temporariamente parte de seu lucro oferecendo crédito abaixo do preço de mercado. Isto não é triunfo do mercado, ao contrário, é a sabotagem do mesmo. Contudo isso nunca aconteceu devido às barreiras supracitadas serem quase intransponíveis.

Isso, obviamente, não significa que a existência de pequenos agentes de crédito n;ao ajude a baixar o spread ou ainda a reduzir um pouco a taxa de juros, mas não será nada muito relevante.


 

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Direita brasileira: do globalismo inconsciente ao globalismo ideológico

Arthur Rizzi

A direita brasileira está dando passadas largas em termos de discurso político para num futuro não muito longínquo, tornar-se um porta-voz consciente do globalismo. O raciocínio é simples: Na internet, ponto principal do debate econômico, a radicalização de ideias de lado-a-lado criou a figura do “isentão”.

É óbvio que existem pessoas que num contexto político desfavorável às suas ideias, as transmutam em uma opinião centrista para com isso fazer avançar pelo menos uma parte de sua agenda real. Contudo, isso nada tem a ver com pessoas cuja posição política e proposta de modificação da política sejam mais centristas, moderadas e prudentes.

Isto é, uma coisa é a pessoa que diz defender a solução de dois Estados para a questão israelo-palestina como forma de ocultar seu anti-sionismo, podendo assim apoiar a causa palestina sem ser acusado de antissemita. Outra bem diferente é a pessoa que acredita que a solução de dois Estados é efetivamente s melhor solução.

O problema é que por conveniência dos dos lados, ambos são empurrados sem distinção para o mesmo rótulo de “isentão”. Quanto mais à esquerda (ou à direita) você estiver, mais direitistas (ou esquerdistas) você verá. Veja no caso de Bolsonaro. As críticas que se fazem a política externa podem ser feitas pelas mesmas duas razões acima. Pode ser o caso do “isentão”, o anti-bolsonarista que por estar fora do poder e temer represálias advoga uma versão mista da sua visão real de política externa com uma versão moderada da política bolsonarista. Ou pode ser que seja uma pessoa que realmente tenha uma visão mais moderada desses assuntos sem qualquer compromisso com o anti-bolsonarismo.

De fato, muitas personalidades conservadoras e até tradicionalistas tem feito críticas a orientação da política externa de Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho. Nem por isso são esquerdistas enrustidos. Ao contrário, justamente criticam porque acham que o governo ou o país seriam mais beneficiados por um outro tipo de política externa.

E de fato, se analisarmos, o “nacionalismo” que a imprensa internacional atribui a Bolsonaro não passa da metade da primeira página. O suposto nacionalismo começa e termina no discurso. A política externa visa primariamente os interesses dos Estados Unidos e de Israel, com o Brasil prestando um acordo de suserania e vassalagem com os Estados Unidos e com os setores mais americanistas do governo querendo com a entrada na OTAN, que este pacto de suserano-vassálico converta o Brasil num protetorado dos Estados Unidos.

Ora, mas o nacionalismo não se constitui justamente numa postura de não subserviência a ninguém e de autonomismo? O nacionalismo não acaba por optar por uma política externa independente, optando quando muito e inevitável, por um alinhamento comedido e negociado, e sempre com muitos poréns e declarações de provisoriedade? Afinal, “a pátria vem em primeiro lugar. Se assim é, e se como dizia Santo Tomás de Aquino “falar a verdade é quando o discurso versa sobre o Ser na medida em que este é conhecido”, podemos evidenciar que o discurso nacionalista não versa sobre a realidade do que é a atual política externa.

O problema é que hoje a questão da política externa tornou-se ideológica. Ser de direita é ser pró-EUA e Israel. Ser de esquerda é ser pró-Palestina e Rússia e/ou China. Mas a realpolitik não é assim. China e Estados Unidos têm uma relação econômica simbiótica, onde um lado poupa e o outro consome. Nada poderia ser mais longe do fla-flu acima descrito. Então, passa a compensar para o direitista tachar o nacionalista de “isentão” ou “esquerdista enrustido”, pois ele não adota o credo pró-EUA e pró-Israel per omnia saecula saeculorum. O nacionalista verdadeiro, propondo uma política externa independente, desejaria uma relação saudável com Rússia, China e Estados Unidos, fugindo o máximo possível dos problemas entre eles e tentando levar o melhor possível de vantagem entre todos. Mas para o bolsonarista, isso faz do nacionalista um esquerdista.

Então pensemos: Se nacionalismo factual, real e concreto é de esquerda. Se buscar única e exclusivamente o interesse brasileiro é de esquerda dentro desse discurso fanatizado, é óbvio que a contraposição tenderá a radicalizar cada vez mais no globalismo, no internacionalismo e nos projetos contra autonomia nacional.

Antes que alguém mal intencionado diga que eu estou acusando o bolsonarista de ser globalista, ou de dizer que o nacionalismo é uma ideologia de esquerda (e existem muitos nacionalistas conservadores), eu advirto e peço: leia de novo. O que eu estou dizendo é que na medida em que no plano discursivo a direita atual continue a empurrar o nacionalismo real e factual para o canto da esquerda política, ele começará a se ver na necessidade de delimitar uma distinção igualmente discursiva, e nesse caso ele só poderá se mover para o globalismo que é o outro polo dessa equação, pois o pretenso “nacionalismo” do governo Bolsonaro é meramente discursivo. E com isso, para piorar, acabar dando a própria esquerda que diz combater o monopólio da “defesa dos interesses nacionais” e de que “se preocupa de verdade com o país”. Claro, tudo isso no plano meramente discursivo.

Para ser ainda mais claro, o governo já é globalista na prática. Os bolsonaristas é que ainda não descobriram isso.


 

Entenda o que é o americanismo: a ideologia do governo Bolsonaro.

Arthur Rizzi*

[…] só não me sinto envergonhado de haver nascido no Brasil porque não tive a menor parcela de responsabilidade nesse infausto acontecimento. Meus antepassados portugueses e alemães, uns burros, achavam que estavam indo para a América.

Olavo de Carvalho em Valei-me, Alborghetti!

As pessoas tem observado e chamado de conservadorismo a ideologia manifestada pelo governo Bolsonaro, especialmente pela ala associada ao escritor e jornalista Olavo de Carvalho. Assim,  a ala composta por Weintraub (MEC), Ernesto Araújo (Itamaraty) e Damares (DH), seriam por assim dizer alas conservadoras. Em que pese de fato haver uma relação com o conservadorismo, não é apropriado dizer que esta ala seja conservadora e que a ideologia do governo seja conservadora.

Conservadorismo é uma expressão que pode ser tomada em vários sentidos, tanto como um nome genérico para posições à direita ou como uma expressão voltada única e exclusivamente para as doutrinas burkeanas e derivadas que se manifestam mais comumente em países de língua inglesa.

Se tomado como nome específico de uma doutrina e de suas variantes, o governo Bolsonaro especialmente na ala olavista, até pode ser dito ideologicamente conservador embora seja muito pouco conservador na prática. Isso acontece porque a definição de conservadorismo como uma doutrina filosófica oriunda em Burke, torna restrito demais o conservadorismo como uma manifestação histórica e cultural geograficamente restrita. Medidas como a do governo Bolsonaro em relação às armas, à economia, ao federalismo e à política externa são sem dúvidas conservadoras se fossem aplicadas por um governo inglês ou americano. Porém, com uma historicidade totalmente distinta e uma realidade completamente a parte do mundo anglo-saxão, essas medidas geram enorme estranheza no Brasil. O que nos leva ao conservadorismo como um nome genérico para posições à direita.

Um conservadorismo brasileiro deveria prezar pela realidade histórica do Brasil. O pensamento conservador no Brasil, como demonstrou o nosso colaborador Ricardo Carvalho neste artigo, tem uma origem nacionalista e anti-liberal em matéria econômica (veja o caso não só dos primeiros conservadores, mas também os Integralistas, o regime militar e o Prona). Ele também é de tendência centralista administrativamente falando, preferindo um Estado unitário a um Estado federal. É preocupado com a religiosidade e isolacionista em política externa, tendo sua preocupação exclusivamente limitada à América do Sul.

Ora, o olavo-bolsonarismo (que é como tem sido chamado), ignorando essas preocupações históricas e importando o credo conservador de matriz anglo-americana em doutrina e em práxis, tem ido na contramão desse histórico. De forma que, embora os autores que embasem essa visão de fato sejam conservadores, a implementação das ideias aqui tem sido na verdade uma inovação.

E é por ser uma inovação, que eu digo que a ideologia desse governo é o americanismo. Tomo o termo aqui emprestado, tal como ele é definido como uma heresia pela Igreja Católica. Segundo o Papa Leão XIII na carta Testem Benevolentiae, o americanismo seria uma variante exclusivamente americana da heresia liberal e modernista. Ela, como o liberalismo, não apenas toleraria as liberdades modernas, mas também as endossaria. Diferiria-se do liberalismo, porém, por uma certa imanentização da providência no sentido de apontar os Estados Unidos e a civilização americana como uma antecipação do reino de Deus ou como uma realização mais perfeita da cristandade. Conhece esse tipo de visão? É a de Jacques Maritain, que endossou durante muito tempo o americanismo embora terminasse por rejeitá-lo n’O camponês da Garona enquanto se lamentava pelo Concílio Vaticano II.

O americanismo fazia uma apropriação de uma visão protestante, assim como os calvinistas perseguidos em fuga para as 13 colônias, os católicos irlandeses (essa heresia afetou muito essa comunidade) passaram a se ver como o povo hebreu em fuga pelo deserto em busca da Canaã prometida por Deus. Ao chegar nos EUA e alcançarem rápida prosperidade, esses católicos oficializaram sua visão da América como a nova Israel.

A direita brasileira bolsonarista, por razões históricas outras tem essa mesma visão imanente dos Estados Unidos, explícitas à seguir:

1- Uma adoração por um modelo idealizado das instituições americanas.
2- Uma concepção a priorista da essência do que é o ethos americano como sendo a narrativa ideológica republicana.
3- A teologia histórica do Estado e da nação americanas, como sendo o receptáculo da vontade de Deus, e atores principais (papel dividido com Israel) da execução da vontade de Deus no mundo. Instrumentos da Providência na História. A city upon a hill.
4- Uma concepção metafísica e transcendente das causas do progresso económico e material: a prosperidade não é a consequência natural de política externa eficiente, com políticas públicas distributistas e políticas macroeconômicas desenvolvimentistas. Ao contrário, o progresso seria fruto de como o Brasil se insere dentro do projeto divino no destino histórico de Israel e EUA.
5- Se Deus escolheu os veículos históricos da salvação imanente, o diabo escolheu os veículos geopolíticos da perdição. Qualquer país que se oponha ao projeto americano. Podem ser islâmicos, comunistas, fascistas, etc. A Russia ocuparia a posição do pecador indeciso, com a alma dividida entre servir a Deus (EUA) ou ao diabo (o mítico comunismo), por isso o chanceler Ernesto Araújo idealizava uma parceria EUA, Brasil e Rússia, representando a união das três nações braço do cristianismo.

  • O Brasil sendo o maior país católico do mundo.
  • A Rússia maior país ortodoxo do mundo.
  • Estados Unidos o maior país protestante do mundo e escolhido por Deus na visão olavo-bolsonariana.

A China seria a mão do diabo na Terra. O veículo da perdição por excelência. Coréia do Norte e Venezuela os possessos em vias de serem exorcizados. De certo, há uma ligação entre conservadorismo enquanto doutrina filosófica e esse americanismo, mas dado que não conserva nada do Brasil e cuja missão é americanizar o país, não se pode dizer de maneira nenhuma que seja um conservadorismo.

Isso se dá pois o americanismo enquanto doutrina do governo é uma força de modernização. A literatura clássica da sociologia brasileira cristalizada em Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Raimundo Faoro, consagrou a visão do Brasil como um povo pré-moderno cercado por instituições modernas, o que resultaria no patrimonialismo, no populismo e na corrupção endêmica. Ainda hoje, embora o processo modernizador esteja mais avançado, o brasileiro é um povo que encontra muitas dificuldades em se modernizar e continua sendo em grande medida um povo de hábitos e mentalidade do Antigo Regime português.

Desta forma, não buscando conservar nada, o americanismo visa modernizar o país através da imposição de uma fôrma como um molde cultural, sociológico, antropológico norte-americano idealizado. Unindo de um lado o protestantismo americano (Malafaias, Damares, Felicianos, Edir Macedos) e um catolicismo americanista ou filo/cripto-americanista (Pe. Paulo Ricardo, TFP, CDB, etc.) saudosista de uma outra força americanista, a UDN.

Se é para dar um nome, que nomeemos a ideologia corretamente. O governo Bolsonaro não é conservador, é americanista.


*Arthur Rizzi é formado em história pela UFES.


Fontes úteis para pesquisa:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/566284-que-tipo-de-heresia-e-o-trumpismo

http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/velhaheresia/

http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/testem/

Entrar na OCDE compensa?

O texto abaixo é um excerto da entrevista do economista Nelson Marconi para o NEXO, para acessar o texto completo basta clicar no link.

Nelson Marconi*

Desde o governo Temer, o Executivo tenta entrar na OCDE. Os outros governos evitaram avançar nesse tema porque viram que para entrar tem que cumprir um certo programa de ajuste macroeconômico e que o Brasil está um pouco fora desse critério. Eu vejo assim: ter uma estabilidade macroeconômica, fazer ajuste fiscal e resolver a Previdência é importante não por causa da OCDE, é importante para o Brasil. Agora, justificar que vai entrar para a OCDE porque a OCDE vai cobrar isso mostra a nossa incapacidade de resolver  nossos problemas macroeconômicos. E eu não acho que é entrando para a OCDE que se resolve isso, o problema é nosso. Eles exigem desempenho fiscal, mas a gente volta no argumento anterior. Ter uma camisa de força não significa que você vai cumprir aquilo. E nem que é necessário uma camisa de força para se chegar ao resultado. A entrada na OCDE limita o raio de ação da política macroeconômica, principalmente por causa da liberalização que se tem que ter sobre o fluxo de capitais. A gente passou por alguns momentos no Brasil, quando houve a crise de 2008, em que o controle de capitais foi importante para regular melhor o fluxo, atrair o capital de longo prazo e menos o especulativo. Aumentou-se o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para inibir a entrada de dinheiro especulativo. Foi importante. Na OCDE isso não pode. Não pode ter controle de importações em um momento de crise, fica difícil qualquer controle da taxa de câmbio. A gente ganharia um selo. Um selo que mostra que é um país que tem uma renda alta e uma situação macroeconômica razoável. Mas todo mundo, olhando para os dados do Brasil, sabe que a realidade não é essa. Então está se forçando uma situação que não corresponde à realidade. O que vai trazer investimento não é o selo da OCDE, pode ajudar um pouco no mercado financeiro, mas na esfera produtiva o que vai atrair é confiança e crescimento. O que atrai é a perspectiva de retorno.

[Uma mudança de status] na OMC é pior ainda! Porque se tira um status que te possibilita usar prerrogativas de proteção tarifária e subsídios, usar conteúdo local. Seria um pouco abrir mão. É grave porque os países desenvolvidos, por não terem essas prerrogativas, usam de outros mecanismos para se protegerem. Criam barreiras sanitárias, ambientais, padronização de produtos para evitar importações de produtos que prejudicam a indústria deles. Nós não criamos essas barreiras, eles é que decidem se vão comprar nosso produto ou não. E a gente está extinguindo a possibilidade de ter política de conteúdo local, ter subsídios que podem nos ajudar. Justamente por ser um país em desenvolvimento é que a gente precisa desenvolver tecnologia ou pelo menos incorporar tecnologia. Todo mundo se protege, de uma forma ou de outra. Nós estamos fazendo o contrário. Abrir o mercado, aumentar as importações, não vai ajudar nosso mercado. Nós não temos uma estrutura adequada para exportar mais. O que a gente vai ter é uma invasão de produtos importados como a gente já viu no passado. O que a gente precisava mesmo é de uma política de exportação. O que precisa ver é se isso não acaba, por exemplo, com a possibilidade de devolver tributos de empresas que exportam. Eu não sou contra a abertura, a gente tem que ser competitivo, mas o que a gente sempre fez foi uma abertura para importações, nunca se fez uma estratégia preocupada em exportar. O que estamos fazendo aqui é abrir mais a possibilidade de importar e restringir a de exportar.


*Nelson Marconi é economista, coordenador-executivo do Fórum de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Bolsonaro cavou a própria cova

Arthur Rizzi*

As lutas intestinas do governo entre a ala olavo-bolsonarista e a ala militar se intensificaram muito nas últimas semanas, com Bolsonaro recebendo um ultimato de seus ministros e vice-presidente para que o mesmo criticasse o astrólogo desbocado e maledicente Olavo de Carvalho. Como esperado, tal medida suscitou fúria e ódio na olavosfera, que agora se divide entre a ideia de um presidente fraco e manipulado pelos seus ministros e a figura de um traidor inominável.

A verdade é que o presidente Jair Bolsonaro tentou levar essa situação em banho-maria, empurrando com a barriga. E a ideia fazia algum sentido, onde um lado limitava as burradas e exageros do outro. Onde o olavismo fosse extremamente subserviente aos interesses de sua verdadeira pátria e razão de viver, os Estados Unidos, os militares entrariam com uma boa dose de razão e nacionalismo. Do outro, onde houvesse certo laxismo moral, entrava o olavismo com moralismo protestante para amenizar. A ideia não era ruim, exceto por um ponto.

A história nos mostra que presidentes só se sustentam sobre bases divididas se ele, pessoalmente, tiver mais força que as duas facções de suporte de seu mandato. Um exemplo recente é Vladimir Putin, que reúne em sua base liberais, nacionalistas e até alguns comunistas desgarrados do PCFR. Putin encarna, assim, a figura do charreteiro com um martelo. De um lado da charrete o cavalo vermelho, do outro o cavalo liberal. Sempre que um começa a andar mais rápido que outro ele dá uma martelada na cabeça do cavalo, que logo retorna ao seu passo normal.

Bolsonaro desde antes de seu mandato, desde o início do período eleitoral, disse e desdisse coisas várias vezes por conta da pressão. Quando encarnava certo nacionalismo vulgar, percebeu que perdia apoio da ala olavista. Com isso, amoldou o discurso ao liberalismo mais entreguista. Quando percebia que o excesso de liberalismo desagradava a certas alas do militarismo com quem contava com apoio certo, diminuía a ênfase no liberalismo salvaguardando algumas estatais estratégicas.

Uma coisa é o uso do discurso para encontrar meios termos toleráveis, outra é sucumbir à pressão de lobbies. A fraqueza reiterada do presidente, juntamente com falas e aparições desastradas; nomeações ministeriais completamente ineptas e ideológicas, beneficiando assim a ala olavista. A presença deletéria dos filhos mostrando ter mais voz e vez que o próprio pai no governo, levaram a inevitável ascensão do General Mourão.

Mourão fez muito pouco pelo destaque que ganhou. Tudo o que ele precisou fazer foi sorrir para as câmeras, falar obviedades que todo mundo sabe, mas que andam esquecidas pelo poder discursivo do olavo-bolsonarismo, e tratar jornalistas com algum respeito. Do outro lado, um presidente sem qualquer poder sobre a ação ideológica dos próprios filhos, em conjunto com uma postura de enfrentamento à mídia, além da sua incapacidade de entender os elementos mais essenciais da economia (em frangalhos) e dos problemas políticos com os quais têm que lidar, aliado a sua crença genuína (true believer) nas teorias estapafúrdias do velho morfético da Virgínia, acabou por fazer com que Mourão brilhasse mais por demérito do presidente do que por qualquer qualidade de Mourão. Era inevitável.

Nenhum dos dois lados ganhou o apoio da ala liberal-mercadista comandada por Paulo Guedes, o que poderia ser o fiel da balança. As razões são simples. Apesar da ala militar representar a sobriedade política e a capacidade de articulação de que essa ala precisa, ela têm um viés nacionalista e estatizante, com Mourão se opondo a privatização dos correios e querendo até rever a entrega da Embraer. Por outro lado, a ala olavo-bolsonarisra, amante do livre-mercado e da Escola Austríaca de economia, goza de prestígio no campo econômico. O americanismo desabrido dessa ala do governo favorece ao espírito privatista desse grupo. Por outro lado, a inabilidade política da mesma criando cizânia no seio do congresso e sua política externa idealista e conflituosa com importantes parceiros comerciais, fazem com que essa ala não apoie de imediato o olavo-bolsonarismo.

Sem um presidente forte, e sem um fiel da balança, podem haver dois cenários possíveis:

1- Mourão toma a dianteira, ganha apoio de um setor da esquerda e derruba o presidente.

2- O clima de balbúrdia e conflito crescerá até que ou um lado entregue os pontos por completo, ou até o governo ficar completamente paralisado em todas as esferas.

Se eu fosse o presidente, torceria para a ala olavista desistir, pois pelo menos com ela abandonando o barco, ainda é possível contornar a situação com a habilidade política e técnica da ala militar. Se os militares abandonarem o navio, faltará quadros técnicos para preencher os ministérios e aí o reino do caos ideológico terá início. Isso levará o governo a um fim precipitado tão ou mais melancólico que o de Dilma.

Contudo, no fim das contas, se Bolsonaro cair, reclamarão do Mourão, ou do Paulo Guedes, ou do partido da imprensa golpista, ou da esquerda comunista, etc. Mas a culpa será do próprio presidente, um despreparado e omisso.


*Arthur Rizzi é formado em história.

 

Previdência: Uma alternativa ao toma lá, dá cá.

Arthur Rizzi*

Em pleno descenso econômico de 2008, Paul Krugman lançou um livro sobre a crise. Traduzido no Brasil como “A crise de 2008 e a economia da depressão” pela Elsevier, o livro em seu último capítulo uma estimativa de Krugman, de que seria necessário um aprofundamento de 4% do déficit americano em política fiscal, para tirar os Estados Unidos do buraco. A receita não foi seguida tão fielmente assim, dado que a opção primordial fora a política monetária com os inúmeros quantitative easings, mas o fato é que houve alguma expansão de gastos do governo, o que por fim teve resultado.

No Brasil, que já saiu da crise, provavelmente para impulsionar a economia talvez fosse o caso de fazermos o mesmo. Sim, você não leu errado! Trata-se de “Bring John Maynard Keynes back!” E do jeito certo. Bolsonaro tem tido dificuldades para passar a reforma da previdência no congresso pois queria evitar a troca de cargos por apoio. Talvez ele não precise disso. Vamos ser sinceros, só ingênuo acredita que em qualquer parlamento do mundo deputados debatem e são movidos apenas por ideias. E não há nada essencialmente errado em trocar um apoio numa pauta por um apoio recíproco em outra.

O que um deputado mais quer enquanto político? Obviamente ser bem visto. Os deputados vivem tentando emendas e verbas para seus respectivos públicos e regiões no congresso e com o executivo. O presidente Jair Bolsonaro poderia condicionar a liberação dessas verbas ao apoio a reforma da previdência. E como o governo optou por um diálogo direto com bancadas e governadores, pode fazer uma articulação com os governadores para que eles façam projetos de infraestrutura locais, que passem nos seus parlamentos ao passo em que o governo federal repassa essas verbas.

Isso teria várias vantagens, mas as principais são:

  1. Bolsonaro evitaria a troca de cargos por apoio.
  2. Bolsonaro reativaria com isso a economia e descentralizaria obras de infraestrutura.
  3. Isso aumentaria a arrecadação no médio prazo.

Alguém poderia alegar que isso espantaria o mercado, que não toleraria a essa altura do campeonato um aumento do déficit primário que fechou em 1,5% do PIB pelo segundo ano consecutivo. Mas a verdade é que Bolsonaro pode não ter escolha! O mercado não vai esperar para sempre e se até junho a reforma não tiver sido apreciada pela câmara, o mercado vai abandonar o barco do mesmíssimo jeito. Se era necessário 4% para parar uma economia em depressão na visão do Krugman, muito menos seria necessário para ajudar uma economia como a brasileira com subutilização de capital e que já escapou da recessão, mas cujos resultados são ainda medíocres.

Um dilema:

A verdade é que estamos num dilema entre assegurar o equilíbrio fiscal de curto prazo – o que tem sido uma briga inglória e cujos alvos não foram sequer arranhados – e assegurar um equilíbrio fiscal duradouro, muito mais relevante de longo prazo que é a reforma da previdência. Cabe ao presidente fazer política e convencer o mercado de que tolerar um déficit de 3,2% (aumento de 1,7% em proporção do PIB nos gastos públicos), é essencial para a aprovação da reforma. Como isso pode gerar um boost nos resultados econômicos permitindo um crescimento de 1,9 a 2,3% do PIB, haverá como contraparte um aumento de arrecadação. Após a aprovação da reforma, já haverá uma redução natural dos gastos, e portanto, o governo poderá, com mais sucesso, tentar novamente voltar às medidas de austeridade daí dois ou três anos (para assegurar o crescimento) para atingir a meta de zerar o déficit tendo um impacto menor sobre o crescimento.

Acho sinceramente que tolerar um déficit primário de 3,2% por dois anos ou três após a aprovação da previdência não é pedir muito se tivermos em mente que uma economia muito maior será feita no longo prazo.


*Arthur Rizzi é historiador com foco em história do pensamento econômico.

Está na hora de acordar: o bolsonarismo não é nem nacionalista e nem extremista.

Arthur Rizzi*

Volta e meia vemos a imprensa nacional e internacional atribuir os rótulos de “extrema-direita” e “nacionalista” ao novo governo brasileiro. E sempre que vejo isso, na mesma proporção, surge aquele risinho irônico e involuntário na minha face, como quem diz: “Vocês têm ideia do que estão dizendo”? E qualquer primata, por mais simiesco que seja, percebe que não há qualquer coisa de nacionalista e nem de extremista no governo Bolsonaro. Para nossa insatisfação e infelicidade, Bolsonaro não tomou nenhuma medida que fosse extremista e ou nacionalista.

O nacionalismo de direita teve três fases notáveis no Brasil apenas, nem sempre se manifestando da mesma forma e nem sempre com um conteúdo ideológico claro. Mas há de se convir que no período republicano, em apenas três períodos o nacionalismo conservador deu sinais de vida no país.

  • O integralismo –  acusado muitas vezes injustamente de nazista e fascista, o integralismo na prática era mais um tradicionalismo, no qual o nacionalismo era uma afirmação da identidade nacional e do papel da tradição nela. Dentre outras coisas, os integralistas defenderam a estatalidade da Petrobrás, uma política externa autônoma, e dentre outros pequenos detalhes, tinham uma proposta de política econômica e social sob muitos aspectos bem mais saudáveis do que as do presente governo.

Dentre as afirmativas integralistas, encontrava-se a defesa do papel central do índio e do negro na formação da identidade étnica nacional. Não por outra razão, a saudação integralista era Anauê!, palavra de origem indígena. Elementos dos movimentos tenentistas e da revolta da chibata, não tardaram a se alinhar ao movimento. E um sinal da força inclusiva do integralismo era o fato de que o berço do movimento negro se deu dentro dele. Arlindo Veiga dos Santos, integralista, patrianovista e pai da Frente Negra Brasileira é um dos símbolos desse período do movimento.

Ao contrário do Bolsonarismo que funda a si próprio na ignorância, o integralismo produziu artistas e intelectuais notáveis, como o já citado Arlindo Veiga dos Santos, o escritor Gustavo Barroso (em que pese seu antissemitismo), o próprio Plínio Salgado, além de Miguel Reale e Menotti del Picchia; mesmo depois tendo se convertido em um elemento da esquerda também vale citar Dom Hélder Câmara. Há quem aponte ainda que Gilberto Freyre seria simpático a ala plinista do movimento. Quer goste-se deles ou não, considere-os reacionários ou não, é forçoso admitir que o integralismo gerou uma gama personalidades influentes na cultura e na sociedade, algo que o bolsonarismo jamais poderá fazer.

Os próprio neo-integralistas, nos dias de hoje, demonstram estafa e insatisfação com o bolsonarismo. Não por outro motivo manifestaram-se contra a entrega da Embraer junto com outros movimentos nacionalistas na Avenida Paulista.

  • Médici, Geisel e Figueiredo – O segundo momento de destaque do nacionalismo conservador, foi o meio-fim do regime militar instaurado em 64. Embora o regime militar tenha surgido por razões tão americanistas quanto às do governo Bolsonaro, em dado momento, com Médici e Geisel, o regime tomou feições nacionalistas. Ao contrário dos demais regimes militares no continente, que seguiram à risca o projeto de privatização e desmanche do Estado; o regime militar brasileiro investiu na proteção das estatais já existentes, criou novas estatais, reformou o Estado e aplicou medidas desenvolvimentistas.

Com Médici ainda havia um alinhamento notável com os Estados Unidos, o que era justificável num período de Guerra Fria e diante de uma real ameaça comunista (ao contrário do comunismo fantasmagórico contra o qual o bolsonarismo luta); porém, a ausência da subserviência necessária ao poder americano, por parte do governo brasileiro, levou ao azedamento das relações e ao surgimento da Política Externa Independente no governo Geisel. Com Figueiredo, ainda fora notável o fato de que o Brasil na guerra das Malvinas tenha se colocado, ainda que não oficialmente, do lado da Argentina e contra o histórico aliado americano: O Reino Unido.

Ao contrário, o Bolsonarismo ao abraçar o liberalismo, quer destruir o legado do regime militar, dilapidando estatais, vendendo infraestruturas a preço de banana para os americanos, renegando o legado anti-liberal dos três maiores presidentes do período, bem como ao invés de se posicionar contra a ingerência militar do primeiro mundo no continente sul-americano, como fizera Figueiredo, opta por embarcar numa guerra que ninguém pediu na Venezuela.

  • Enéas e o Prona – O último suspiro do nacionalismo conservador no Brasil foi com o ex-presidenciável e ex-deputado Enéas Carneiro. Com uma visão um pouco mais focada na prosperidade e desenvolvimento econômico, como os militares, mas sem abrir mão de seu notável conservadorismo moral, religioso e de costumes, foi chamado por admiradores de “o último dos integralistas” e por críticos de “fascista”.

Foi terceiro colocado no pleito presidencial de 1994 e foi durante muitos anos o deputado mais votado do país. A imagem de Enéas acabou usurpada por Bolsonaro, o que gerou indignação de antigos aliados e novos admiradores; sua visão de mundo era em parte influenciada pelo integralismo e em parte pelo pensamento do nacionalista americano Lyndon LaRouche.

Admirador do protecionismo clássico de Friedrich List e Alexander Hamilton (influências de LaRouche), Enéas era assessorado por excelentes quadros técnicos, como o economista Adriano Benayon (doutor em economia em Hamburgo) e por um dos nomes mais importantes do Pro-Alcool, Dr. Bautista Vidal.

Além do próprio Bolsonaro não ter nem 1% da erudição de Enéas, que tinha conhecimentos básicos sobre muitas áreas, além da sua especialidade, a medicina, os quadros do PSL ou são a ficção olaviana (que é uma espécie de câncer metastático), ou a horda de aproveitadores do mercado financeiro cujo compromisso com o governo é menor do que o compromisso com seus próprios interesses corporativos e de seus aliados globalistas internacionais. O que há de bom no governo não é mérito de Bolsonaro, que são as sempre muito competentes Forças Armadas.

Por fim, após rememorar os rápidos vislumbres de nacionalismo conservador no país, chegamos ao momento de nos perguntar novamente. Há algo de nacionalista ou de “extrema-direita” no bolsonarismo? Se há algo que se destaca no bolsonarismo é a completa subserviência ao interesse americano. E se há algo que demonstra todo dia na política interna é a sua fraqueza e incapacidade de passar as coisas mais moderadas e de senso comum pelo congresso nacional.

O que o bolsonarismo é?

A resposta é simples. É o que sempre alegou ser desde que se formou como candidatura política. Um liberal-conservadorismo americanista; um udenismo requentado que contém em si as mesmas propriedades do udenismo histórico. A mesma subserviência aos interesses do departamento de Estado americano, a mesma sanha privatista e o mesmo desprezo pelo ethos brasileiro, para o qual propõe como remédio a americanização do país.

Mas há algo de novo. Uma espécie de importação (méritos de Ernesto Araújo) do discurso belicista e intervencionista do neoconservadorismo americano. Em resumo, o bolsonarismo é a direita convencional que existe nos EUA, no Reino Unido, um conservadorismo liberal como o de Thatcher e Reagan e que vagamente se assemelha na política externa ao neoconservadorismo de George W. Bush. Mas difere substancialmente do trumpismo, embora haja complementaridade entre ambos (um lado quer explorar e o outro ser explorado). O trumpismo é uma espécie de nacionalismo pragmático, ao passo que o bolsonarismo, caso se manifestasse nos EUA, seria uma espécie de zona mista entre os neoconservadores tão criticados pelos trumpistas, e alguns indivíduos mais moderados do Tea Party.


*Arthur Rizzi é historiador e estudioso do pensamento econômico.