Como a moeda fiduciária destrói a Teoria Marxista da Moeda (Uma discussão entre L.K. e Jehu) 

O texto abaixo é um excerto de artigo de Social Democracy in 21st century. Com nota de Reação Nacional.

Para Marx o dinheiro é uma mercadoria especial que em si mesmo precisa ter um valor-trabalho então ela poderá funcionar como um meio universal de trocas e numerário. Essa é a base pela qual o o dinheiro pode se trocar por outras mercadorias de acordo com a lei do valor no volume 1 do Capital. Entretanto, a moeda fiduciária destrói a base da teoria do valor trabalho.

Segue-se que a moderna ideia marxista de equivalência monetária com o valor trabalho (MELT) também está inteiramente falida intelectualmente, sob a teoria metalista dogmática do dinheiro de Marx.

Neste post, um autor marxista concorda que o dinheiro fiduciário moderno destruiu a capacidade do dinheiro de refletir adequadamente o valor-trabalho a la Marx. Como, então, a teoria de Marx ainda poderia estar certa? A resposta: a moeda moderna não é realmente dinheiro! Além disso, os preços e valores-trabalhos divergem como no volume 3, mas agora o dinheiro fiduciário destruiu até mesmo qualquer relação entre valores e preços de produção, como postulado no volume 3 do Capital, já que esta é (aparentemente) a trajetória do capitalismo supostamente profetizado, por Marx.

RN: Basta ver o funcionamento coordenado da economia que ainda é bastante racional, que por mais que a consistência interna do argumento seja boa, a conclusão é absolutamente estranha à realidade que percebemos todos os dias.

Qual é o valor desse argumento? É agradavelmente honesto, pelo menos. Mas há uma estranha falácia de equívoco no argumento. As palavras “dinheiro” e “moeda” recebem significados diferentes: dinheiro significa uma mercadoria produzida com o valor do trabalho usado como uma unidade de conta e “moeda” meramente um elemento simbólico para a mercadoria “dinheiro”.

Mas, na verdade, o conceito básico de dinheiro não exige de modo algum a mitologia metalista ou marxista de que ela deve ser uma mercadoria produzida. A definição básica de dinheiro é algo que cumpre estas três funções:

(1) um meio de troca;

(2) uma unidade de conta e;

(3) reserva de valor.

A própria ideia de que o dinheiro deve necessariamente ser uma mercadoria produzida era uma ilusão e um erro da teoria econômica. Se a moeda fiduciária for impossível, nossas economias modernas teriam entrado em colapso décadas atrás, quando o dinheiro foi cortado do ouro na década de 1930 para transações econômicas domésticas, e certamente desde o fim de Bretton Woods (um sistema no qual o ouro só tinha um papel no mercado internacional). sistema de pagamentos de qualquer maneira).

Marx estava fundamentalmente errado quanto ao dinheiro e a moeda fiduciária moderna certamente explode a lei do valor no volume 1 do Capital.


Referências:

L.K. Social Democracy in 21st century: A Marxist agrees with me on the Labour Theory of Value and Fiat Money!. Disponível em: <http://socialdemocracy21stcentury.blogspot.com/2016/02/a-marxist-agrees-with-me-on-labour.html> Acessado em 18/06/2019.

JEHU. The real movement: Reply to LK: How labor theory of value destroys fiat ‘money’. Disponível em: <https://therealmovement.wordpress.com/2015/06/12/reply-to-lk-how-labor-theory-of-value-destroys-fiat-money/> Acessado em 18/06/2019.

 

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O capitalismo depende de uma base monetária crescente.

Artigo de Bóris* para a Reação Nacional.

Volta e meia aparece um saudosista do padrão-ouro ou um entusiasta do bitcoin por ele ser uma moeda deflacionária. isto é, cujo valor dela cresce por ser sua base limitada. Não vou tratar especificamente do assunto do padrão-ouro ou da criptomoeda, mas de um aspecto que envolve o saudosismo das duas: base fixa.

Quem quer que tenha estudado a literatura mercantilista e os problemas dos primórdios do capitalismo entenderá o que eu vou dizer; um dos grandes dramas vivenciados por economistas portugueses do período como Francisco Manuel de Mello e Duarte Ribeiro de Macedo (dois áureos representantes do pensamento econômico português do século XVII) era a escassez de moeda ocasionado pelo fato dos bens comprados pelos portugueses serem de valor agregado mais elevado que os por eles comprados. Os déficits comerciais faziam com que o ouro escoasse de Portugal para a Inglaterra, e na carência de meios monetários a economia portuguesa estagnava.

Dizia Duarte Ribeiro de Macedo (2007, p.93):

“Mal é este que pede remédio pronto, porque, se continua, se perderão as conquistas e o reino: as conquistas, porque a sua conservação é dependente do valor dos frutos que nelas se cultivam – e se não têm valor, não têm gasto, nem se podem comutar pelo infinito número de gêneros de que os moradores delas necessitam; o Reino, porque o dinheiro é o sangue das repúblicas, e sucede no corpo político com a falta de dinheiro o mesmo que sucede no corpo físico com a falta de sangue.”

Tal pensamento como o próprio Duarte reconhecia era um aspecto importante do pensamento econômico tradicional que era “derivada das fontes de Platão e Aristóteles, seguida e aprovada por todos os autores, e sobre que se fundam várias leis que achamos no direito civil.”.

Os efeitos dessa carência de moeda é a queda dos preços, a morte do comércio e o que os mercantilistas chamavam de “entesouramento”. Francisco Manuel de Mello (2007, p.82) diagnosticava:

“Porque se os ricos gastassem e os pobres merecessem, brevemente viriam todos a conseguir igualdade de conforto”. […] Porque se o cheio não lançar água no vazio e aquele, depois de cheio, não a despejar no outro, que está vazio ainda, como ele há pouco estava, a água jamais poderá chegar arriba”.

Aqui vê-mo-lo fazer uma descrição do ciclo monetário interrompido pelo entesouramento e a deflação. A causa desse emperramento por eles diagnosticado vem da concepção medieval da moeda e do sistema econômico como veremos abaixo.

A moeda na época funcionava com base no conceito de moeda-mercadoria do qual o padrão-ouro é apenas uma degeneração tardia. Assim, quando um país importava bens, a moeda como representava o valor do material em que era cunhada, era levada para o país que vendeu o bem e tirada do que comprou, e quem tinha déficit perdia moeda circulante. Em outras palavras, a base monetária encolhia. Por isso os reis de Portugal e Espanha ficavam realmente loucos atrás de minas de ouro na América, pois só assim poderiam aumentar a base monetária sem precisar depreciar a moeda (reduzindo a pureza do ouro ou diminuindo a massa da moeda).

Hoje em dia, com a moeda fiduciária e com a possibilidade dos países cobrirem o déficit com emissão de dívida a base permanece estável, mas na época isso causava sérios transtornos. Esta concepção de moeda era, portanto, o primeiro desafio do capitalismo. O desprendimento gradual entre o material e a moeda que levará da moeda-mercadoria à moeda fiduciária, facilitou em muito o comércio internacional.

Por outro lado, havia ainda uma concepção imprópria do capitalismo, como podemos ver em Francisco Manuel de Mello (2007, p.82):

“Tudo isto advém de que não entendam os homens que o dinheiro se deve usar como meio e não como fim. É o dinheiro o meio universal de todas as coisas temporais, porque por ele todas se alcançam e facilitam. Mas, sendo tão bom por ser meio, é muito mau para ser fim.”

O dinheiro como mero meio universal de trocas é uma visão medieval. Na idade média se requeria dinheiro para trocar bens por bens; porém na economia capitalista o dinheiro é também meio para conseguir mais dinheiro. Era o que Karl Marx indetificou por circulação capitalista (D-M-D’). O economista austríaco George Reisman inclusive elogia Marx (!!) por perceber isso!

“Marx teve sim uma grande ideia, a qual era em si totalmente correta, e que pode jogar mais luz sobre esta discussão.  Esta sua ideia foi fazer uma distinção entre aquilo que ele chamou de “circulação capitalista” e aquilo que ele chamou de “circulação simples”. […] Aquilo que todos os “capitalistas exploradores” praticam é a circulação capitalista.  A circulação capitalista, como Marx a descreveu, é o gasto de dinheiro, D, para a compra de materiais, M, que serão utilizados na produção de produtos que serão vendidos por uma quantia maior de dinheiro, D’.  A circulação capitalista, em suma, é D-M-D’.  Se os capitalistas exploradores deixassem de existir, e a circulação capitalista desaparecesse do mundo, os sobreviventes entre aqueles que hoje trabalham como assalariados estariam vivendo em um mundo de circulação simples, isto é, M-D-M”.

Com isso, como a economia capitalista depende usar material para conseguir mais dinheiro, a tendência de uma base monetária fixa é se concentrar e, com a queda de preços (deflação), a economia estagnar. O capitalismo depende, portanto, de uma base monetária expansiva. Milton Friedman percebera isso, inclusive. Ele sugeria ao Banco Central expandir a base na mesma proporção do crescimento da economia (se o PIB cresceu 2%, M1 deve expandir 2%).

O padrão-ouro não resolve o problema, pois como chama a atenção John Médaille (2010):

“Since gold is a limited commoditty, it’s supply cannot expand as quickly as the economic activity. This led to a chronic period of deflation, which destroyed both farmer and small merchant. Wheat sold for $2.06 per bushel in 1866, but only got 80 cents in 1880 and 35 cents in 1890″.

Uma alternativa para facilitar um consenso na questão da moeda fiduciária e da moeda lastreada foi dada pelo economista Robert E. Hall e que eu chamo de padrão-mercadoria. Hall criou uma cesta de mercadorias cujo aumento de produção fosse constante e chamou de ANCAP (iniciais de cada material da cesta), e propôs que essa cesta fosse um lastro para o dólar. Assim, a economia não se veria atingida tão fortemente por crises deflacionárias. É uma boa alternativa.


Referências:

MELO, Francisco Manuel de; MACEDO, Duarte Ribeiro. Economistas Portugueses: O escritório avarento (1655) e Sobre a introdução das artes (1675). Curitiba: Editora Segesta, 2007.

REISMAN, George. A teoria marxista da exploração e a realidade. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1368> acessado em: 23 de junho de 2019.

MÉDAILLE, John. Toward a truly free market. Wilmington: ISI Books, 2010.

HALL, Robert E. Explorations in the gold standard and alternatives for stabilizing the dollar. Disponível em: <https://web.stanford.edu/~rehall/Explorations%20in%20Gold%20Standard%201982.pdf> acessado em 23 de junho de 2019.


* Bóris é colaborador esporádico da Reação Nacional.

Marx estava errado sobre a natureza do dinheiro

 

Texto traduzido e extraído do site Social Democracy in 21st century traduzido por Boris.

Extraído do volume 3 d’O Capital (primeira publicação de Engels in 1894):

“Mas tão breve quanto o crédito é abalado [em crises comerciais]—e essa fase sempre surge da necessidade de ciclos na indústria moderna—toda a riqueza real é na realidade e repentinamente transformada em dinheiro, em ouro e prata, uma demanda louca, que entretanto, necessariamente cresce dentro do próprio sistema. E todo o ouro e prata, que supostamente deveria satisfazer essas enormes demandas, contabilizam alguns milhões de cédulas num banco.

O efeito da drenagem do ouro, o fato de que a produção como um processo social não está sujeito ao controle social é notavelmente enfatizado pela existência de uma forma social de riqueza que existiria fora dela como uma coisa separada. O Sistema de produção capitalista, é verdade, compartilha isso com sistemas de produção anteriores, na medida em que ele também se apoia em troca de mercadorias e comércio privado. Mas somente isso se torna aparente na forma mais marcante e grotesca da mais absurda contradição, porque, em primeiro lugar, a produção para o uso direto dos produtores é quase que completamente abolida sob o sistema capitalista, de modo que a riqueza existe apenas como um processo social expresso pelas inter-relações de produção e circulação (as coisas não são produzidas para serem utilizadas, mas para serem vendidas); e, em segundo lugar, porque  o sistema de produção capitalista sempre luta para superar essa barreira metálica, a barreira material e fantástica da riqueza e de seus movimentos, na medida em que o sistema de crédito se desenvolve, mas sempre quebra a cara nessa mesma barreira.

Na crise, a demanda é  quase toda convertida em letras de câmbio, títulos e mercadorias que sejam simultaneamente conversíveis em dinheiro do banco, e todo esse dinheiro do banco é composto de ouro ”. (Marx 1909: 673–674).

“Mas nunca deve ser esquecido que o dinheiro, em primeiro lugar, existe na forma de metais preciosos, e isso continua a ser a base da qual o sistema de crédito naturalmente nunca pode escapar. ”(Marx, 1909: 712)

“O sistema bancário mostra, além disso, colocando diferentes formas de crédito circulante no lugar do dinheiro, que o dinheiro é, na realidade, nada além de uma expressão especial do caráter social do trabalho e seus produtos, de modo que esse caráter, distinto da base da produção individual, deve apresentar-se em última análise como uma coisa, como uma mercadoria peculiar ao lado das outras mercadorias ”. (Marx 1909: 713).

 

Essas afirmações têm a virtude de serem claras: o dinheiro, para Marx, só pode, no fim das contas, ser uma mercadoria e, por implicação, o dinheiro de papel ou o dinheiro do crédito só pode ser um símbolo para o dinheiro como mercadoria.

[…]

“Dinheiro – a forma comum, na qual todas as mercadorias como valores de troca são transformadas, isto é, a mercadoria universal – deve existir em si mesma como uma commodity em particular junto com as outras, já que o que é necessário não é apenas que elas possam ser medidas , mas que eles possam ser convertidas e trocadas por ele no processo de troca real. […] O dinheiro não surge por convenção, muito  mais do que o Estado faz. Ela surge da troca e surge naturalmente fora da troca; é um produto da mesma. ”

Marx, The Grundrisse, Caderno 1, outubro de 1857, O Capítulo sobre Dinheiro (Parte II)

https://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch03.htm

Tentativas de reivindicar que o dinheiro fiduciário pode funcionar adequadamente como dinheiro dentro do sistema econômico de Marx, tal como Marx entendia o dinheiro estão totalmente erradas. Se os marxistas vão fazer isso, eles devem admitir que precisam rever radicalmente o sistema econômico de Marx e que Marx estava errado sobre dinheiro em aspectos importantes.

REFERÊNCIAS
Marx, Karl. 1909. Capital. A Critique of Political Economy. Volume III. The Process of Capitalist Production as a Whole (trans. Ernst Untermann from 1st German edn.). Charles H. Kerr & Co., Chicago.

Marx falhou ao prever a queda do capitalismo

Texto originalmente postado em Social Democracy in 21st Century e traduzido por Reação Nacional.

Marx no volume 1 do Capital previu o fim do capitalismo numa revolução proletária, por algumas razões:

Primeiro, a classe dos proletários apenas cresce sob o capitalismo, alcançando grandes números. Há também uma grande concentração de capital e tendência ao monopólio. A miséria, opressão e exploração desses proletários cresce continuamente, e adicionalmente  a isso há uma grande e crescente classe, que é o exército reserva de trabalho industrial (trabalhadores desempregados), que é feita de desempregados pelo crescimento do uso de maquinaria e automatização (Cf. Capítulos 15 e 25 do volume 1 do Capital).

Então a teoria de Marx prevê uma crescente classe de proletários e uma crescente classe de desempregados.

Eventualmente, o número desses trabalhadores oprimidos cresce a tais números que eles se organizam (ganham consciência de classe) e derrubam o capitalismo, que se tornara totalmente monopolista.

Isso está muito claro nas previsões de Marx ao fim do volume 1 do Capital:

“Em consonância com o numero cada vez mais diminuto de magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, cresce a massa dos miseráveis, a opressão, a escravidão, a degradação, a exploração; mas com isso cresce também a revolta da classe trabalhadora, uma classe sempre crescente em números, e disciplinada, unida, organizada pelos mesmos mecanismos do processo capitalista de produção. O monopólio do capital se torna um fardo sob o modo de produção, o qual nasceu e floresceu com ele, e debaixo dele. A centralização dos meios de produção e socialização do trabalho ao fim alcança um ponto onde eles se tornam incompatíveis com seu tegumento capitalista. Este tegumento é quebrado em pedaços. A trombeta da propriedade privada capitalista ressoa. Os expropriadores são expropriados.” (Marx 1906: 836–837).

Nós precisamos também notar que a miséria, a opressão, a escravidão, a degradação e a exploração dos trabalhadores sempre crescem por que:

(1) A tendência do capitalismo é manter o salário real ao nível de subsistência, que é o valor de manutenção e reprodução da força de trabalho (mais sobre isso, clique aqui);

(2) O maquinário deveria em tese aumentar a intensidade e o caráter árduo do trabalho para o proletariado (veja Capítulo 15 do volume 1), e também aumentar o emprego das mulheres e crianças (embora leis governamentais possam conter isso em alguma extensão);

(3) O exército reserva de trabalhadores (desempregados) cresce continuamente, o que ajuda a manter os salários reais no nível de subsistência.

(4) O volume 3 do Capital adiciona a isso a tendência de queda das taxas de lucros.

Embora, alguns marxistas modernos agora disputem quão importante é a tendência da queda da taxa de lucros para a teoria do colapso final do capitalismo, como a Çenfase a isso pode ser mais o resultado da edição tendenciosa que Engels fez do volume 3 do Capital.

De qualquer modo, estes fatores acima descrevem porque o capitalismo vai colapsar na teoria de Marx.

Todavia essa teoria foi completamente contraditada pela evidência histórica. A classe trabalhadora eventualmente se estabilizou e a sociedade experimentou o crescimento de uma grande e próspera classe média com mobilidade social. As taxas de desemprego no capitalismo são apenas o resultado cíclicos dos ciclos de negócios: mesmo no século XIX, as taxas de desemprego não cresceram ou cresceram no longo prazo, como a teoria de Marx previu, mas simplesmente circundaram ao redor de um ponto abaixo do pleno emprego como John Maynard Keynes demonstrou na sua Teoria Geral do juro, do emprego e da moeda.

A tendência de longo prazo no capitalismo, mesmo no século 19, foi o incremento massivo do salário real, que ultrapassou o nível de subsistência, mesmo para os trabalhadores (veja aqui e aqui e aqui [Eucken]). O crescimento do salário real e o aumento da renda disponível aos trabalhadores no capitalismo também permitiram uma massiva capacidade de produção de novas mercadorias e novas oportunidades de emprego (e.g.,especialmente no setor de serviços).

Os países ocidentais mais desenvolvidos como Estados Unidos e Reino Unido mostraram-se mais resistentes ao clamor revolucionário do que as retardatárias China e Rússia contrariamente ao previsto por Marx. E mesmo as comoções comunistas  em Itália e a Alemanha deram-se por meio das crises da Segunda Guerra e por invasão militar, o que não aparece nas previsões de Marx (como eu pontuei aqui).

A grande depressão não é explicada pelas teorias de Marx: ao contrário, a depressão foi apenas um mau arranjo contingente e circunstancial de políticas econômicas provocando a pior crise da história do capitalismo. É perfeitamente explicada tanto pela teoria keynesiana do ciclo como pela teoria financeira de Minsky (Nota do Tradutor: Eu particularmente gosto da minha atualização da teoria do ciclo ropkeana aliada a tese de Minsky para explicar a crise de 29, a qual você pode ler aqui e aqui), para o qual nós podemos adicionar uma dinâmica de deflação por dívida (embora Keynes estivesse bem consciente da deflação por dívida também).

Um crítico meu, Jehu diz:

“Primeiro, para ser claro, Marx nunca previu o fim do capitalismo; ele previu a quebra do sistema de produção com base no valor de troca […] Porque a relação entre valores e preços foi cortada pelos países industrializados em 1930 precisamente para salvar o capitalismo,para prevenir seu total colapso. Como o autor está plenamente ciente, ou deveria saber, as economias das nações industrializadas colapsaram em 1930 — Nós chamamos esse colapso de Grande Depressão. A evidência histórica oferece muitos recursos para mostrar que a economia desses países apenas começaram a se recuperar quando eles abandonaram o padrão-ouro e cortaram o valor das mercadorias do seus preços nominais (moeda fiduciária)”.
Jehu, “Four Questions for LK on Money,” The Real Movement, February 20, 2016.

Isto é um grande mal-entendido e uma perversão da teoria de Marx.

Marx não previu o corte entre a “relação valor-preços” depois de seu tempo, como nós vimos no volume 3 do Capital. Os preços no capitalismo do século XIX   divergiam do seu verdadeiro valor-trabalho porque os preços de produção se tornaram as âncoras para o sistema de preços.

No volume 1 do Capital onde Marx assume que as mercadorias tendem a se trocar no seu verdadeiro valor-trabalho, Marx não faz nenhuma previsão do corte da “relação entre valores e preços,” e sua teoria de porque capitalismo vai colapsar não contem uma teoria do corte da “relação preço-valor.”


 

Por que a mais-valia está errada? (em poucas palavras)

Texto originalmente postado em Social-Democracy in 21st century e traduzido por Carlos Magno/GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes.

A teoria do valor-trabalho, como apresentada na primeira parte do primeiro volume d’O Capital, está errada pelas seguintes razões: (1) o argumento a priori a favor da teoria do valor-trabalho, no primeiro volume d’O Capital de Marx, é um non sequitur e, depois, se contradiz; (2) Marx enfrenta o problema de reduzir todo heterogêneo trabalho humano a uma homogênea e abstrata unidade de tempo de trabalho socialmente necessário; ele, porém, não explica adequadamente como isso ocorre; (3) mesmo que Marx pudesse superar (1) e (2), ele enfrenta os problemas de definir o valor-trabalho nos casos de produção conjunta, em que é possível que o valor-trabalho de uma commodity possa ser indefinido, nulo, ou negativo; (4) não há razão pela qual o trabalho assalariado de homens livres deveria ter um poder especial que animais, escravos ou máquinas não tenham, sem que se recorra ao idealismo quebrando a base fundamental do materialismo dialético; (5) a moeda fiduciária moderna impugna a teoria marxista do dinheiro, e também sua teoria do valor-trabalho, porque, na teoria de Marx, o dinheiro deve ser uma commodity produzida; há muito tempo, porém, deixou de sê-lo, conforme sabemos; (6) a realidade empírica é que os preços não são firmados por meio do abstrato tempo de trabalho socialmente necessário de commodities, ou do dinheiro enquanto commodity produzida; e (7) o problema de que o valor excedente do trabalho (se este conceito sequer pudesse ser adequadamente defendido) não explicaria, de fato, os lucros financeiros, porque tais lucros podem existir numa economia escravista e, muito provavelmente, inclusive numa economia em que as máquinas realizem boa parte do trabalho. Esses pontos, em conjunto, são devastadores para a teoria do valor-trabalho; porém, basta que um só seja verdadeiro para que se demonstre que a teoria de Marx, tal como aparece no primeiro volume d’O Capital, é equivocada. Abaixo, hei de rever alguns dos problemas mais importantes.

No ponto (1), pode-se ver que o argumento de Marx em favor da teoria do valor-trabalho é um non sequitur. Não é óbvio de modo algum que as trocas de commodities constituam uma igualdade tal como Marx as vê. De fato, ele depois admite, no Capítulo 1, que em algumas sociedades humanas as commodities podem simplesmente ser trocadas, enquanto valor de uso, por valor de uso (Marx 1906: 75) e, no Capítulo 3, que a maioria das commodities, normalmente, não são trocadas em seus iguais e verdadeiros valores de trabalho (Marx 1906: 114). Bem, há uma igualdade nas trocas no sentido de que, digamos, 2 ovelhas podem ser trocadas por 1 vaca; e só se trocam duas ovelhas, nada mais, e vice-versa. Mas este é um sentido trivial de igualdade, que não ajuda Marx. Seu salto à conclusão de que deve haver uma adicional, fundamental unidade de tempo de trabalho homogêneo, em que ambas as commodities podem ser medidas quantitativamente, e pela qual ambas podem ser mostradas como sendo equivalentes, simplesmente não decorre: é um non sequitur. É possível que não exista o valor-trabalho como Marx o definia; seu argumento era desonesto, e cometia uma singela falácia lógica. Posteriormente, ele admite que o valor-trabalho não pode ser completamente separado ou “abstraído” do valor de uso, de modo que o argumento inteiro se contradiz.

No ponto (2), Marx sustenta que todo trabalho qualificado ou especializado é um múltiplo do simples trabalho abstrato, e que todo trabalho é redutível a uma significativa, comum unidade de trabalho homogênea. Ele não explica adequadamente como fazer isso. Primeiro, sugere que se pode conduzir a redução do trabalho especializado a uma simples unidade de trabalho abstrato de um modo físico ou científico, examinando o “dispêndio de inteligência, nervos e músculos humanos”. Mas então Marx declara que: “A experiência mostra que essa redução está sendo feita constantemente. Uma commodity pode ser produto do trabalho mais qualificado, mas seu valor, que a equipara ao produto do simples trabalho não-qualificado, representa uma quantidade definida tão só deste último. As diferentes proporcões em que os diferentes tipos de trabalho se reduzem ao trabalho não-qualificado como seu padrão, são estabelecidas por um processo social que se desenrola por trás das costas dos produtores e, em consequência, parece ser fixado pelo costume” (Marx 1906: 51-52). No entanto, porquanto Marx admite que a maioria das commodities sequer são trocadas por seus verdadeiros valores de trabalho, esse argumento não funciona. E tanto mais porque contradiz sua abordagem anterior: se o único modo efetivo de determinar o valor do trabalho qualificado não é senão olhando para a troca mercantil real dos produtos do trabalho qualificado pelos produtos do trabalho não-qualificado, então por que se preocupar em explicar a diferença em termos de “dispêndio de inteligência, nervos e músculos humanos”? Além do mais, se pode-se usar a troca dos produtos do trabalho qualificado pelos produtos do trabalho não-qualificado para determinar o valor do trabalho qualificado como um múltiplo do trabalho simples, então o argumento é circular. Os valores de troca determinam os valores de trabalho, mas supõe-se que os valores de trabalho sejam uma fonte dos valores de troca.

No ponto (3), a teoria do valor-trabalho enfrenta o problema da produção conjunta: se um processo de produção produz mais que uma commodity, senão duas ou várias, então como se calcula o tempo de trabalho socialmente necessário? (veja-se Brewer 1984: 23; Nitzan e Bichler 2009: 101-102) Em particular, Ian Steedman sustentava que a produção conjunta deixa aberta a possibilidade de que alguns valores de trabalho de commodities produzidas mediante produção conjunta podem ser indefinidos, nulos, ou negativos (Nitzan e Bichler 2009: 101).

No ponto (5), a moeda fiduciária moderna refuta totalmente a teoria de Marx do valor-trabalho, porque, para que sua teoria funcione, o dinheiro precisa ser uma commodity produzida, com um valor-trabalho. Mas o dinheiro, há muito tempo, cessou de ser uma commodity produzida e é, agora, moeda fiduciária. Esse é um dos problemas devastadores quanto à teoria marxista; e é suficiente, em si mesma, para refutar tal teoria , como se mostra aqui e aqui. Por exemplo, Marx pensava que os preços são determinados (pelo menos) [1] pelo valor-trabalho de longo prazo do ouro, conforme determinado pelo abstrato tempo de trabalho socialmente necessário para a produção do ouro e [2] por como isto se relaciona, em câmbio, com o valor-trabalho de outras commodities (Marx 1906: 108). Essa ideia, todavia, se levada a sério, requereria que o valor de troca real do ouro, enquanto dinheiro, contra outras commodities, gravitasse em torno do valor de longo prazo do abstrato tempo de trabalho socialmente necessário para produzir-se o ouro. Esse ponto é importante, e enfraquece totalmente as alegações dos apologistas marxistas, segundo as quais Marx nunca pretendeu, no primeiro volume d’O Capital, que o valor-trabalho fosse um determinador dos preços individuais das commodities. Mas agora, no mundo moderno, temos a moeda fiduciária, e tal teoria é inútil: a teoria de Marx, de como os valores de trabalho determinam os preços, é de todo impossível. Tudo considerado, não se pode levar a sério a teoria marxista do valor-trabalho: é equivocada, ou sub-determinada de tantas formas, bem como refutada pela realidade da moeda fiduciária moderna.

Eucken e o erro de análise dos marxistas.

Texto originalmente publicado em GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes

As mais famosas refutações à obra de Karl Marx (1818-1883) ou ainda, a ideia geral de socialismo, são sem sombras de dúvidas as obras de Piero Sraffa, o keynesiano, na obra “Produção de mercadorias por meio de mercadorias“, e também Eugen von Böhm-Bawerk (1851-1914), “A teoria da exploração do socialismo-comunismo” e a obra “Socialismo” de Ludwig von Mises (1881-1973), ambos pertencentes a Escola Austríaca de Economia. Porém, outras obras surgiram questionando o marxismo ou o socialismo enquanto ideia prática, poderia citar o filósofo Sir Karl Popper (1902-1994) em relação à fundamentação historicista do marxismo, no seu clássico “A miséria do historicismo” ou o próprio economista neoclássico Lionel Robbins (1898-1984), que em “Teoria da Política Econômica” usa argumentos clássicos da escola de Manchester (baseados em Adam Smith, J.S. Mill e David Ricardo) para questionar o socialismo como ideia prática. Todavia, não obstante todas essas críticas serem excelentes e bem fundamentadas, gostaria de mostrar como a Escola de Freiburg e os ordoliberais contribuíram para desmascarar a maior falácia político-econômica já inventada. Em seu magnum opus, Fundamentos da Política Económica“, o economista alemão Walter Eucken (1891-1950) aponta um erro brutal na interpretação marxista do capitalismo laissez faire. É importante dizer que Eucken não era um defensor do laissez faire, mas que não obstante esse fato, ele percebeu na crítica marxista um erro crasso, onde o filósofo alemão aplica uma lógica que se aplica a um tipo específico de mercado a todo o capitalismo independente das inúmeras formas de mercado que ele poderia se apresentar, a depender das organizações políticas e institucionais.

Marx, em sua obra em três volume, “O Capital“, pontua que todo lucro advém da mais-valia; isto é, de um período de tempo que o trabalhador labuta sem remuneração, e que é apropriado pelo patrão. Para o prussiano de Tréveris, essa era a razão pela qual os burgueses tornavam-se cada vez mais ricos e os proletários cada vez mais miseráveis. Ou seja, para Marx, a conditio sine qua non para a existência do lucro é a exploração do mais pobres que não têm alternativas a não ser vender sua força de trabalho ao burguês sem coração, que movido pelo interesse do lucro, se cega aos sofrimentos humanos e às lamúrias do proletariado em favor de sua ideologia de classe.

Karl Marx em sua obra demonstra que o proletariado estava cada vez mais pobre em relação à burguesia, ele em suas obras aponta dados referentes a Inglaterra e a Alemanha; tais dados ainda podem ser encontrados e confirmados pela historiografia. Por exemplo, o historiador da economia Jacques Brasseul, em “História Econômica do Mundo – Das origens aos subprimes” traz na página 129 dados bastante evidentes desse empobrecimento do proletariado entre os anos de 1750 e 1810. Em 1750, os trabalhadores ingleses ganhavam apenas 42% do que viriam a ganhar em 1900, em 1770 ganhavam apenas 38% em 1810 ganhava ainda menos, míseros 33%! Em contraposição, a burguesia estava cada vez mais rica!

Eucken demonstra que o raciocínio marxista não está amparado na realidade, e toma o particular pelo todo. De fato, a tal exploração existia, mas essa exploração não representava a essência do capitalismo e sim uma forma peculiar de mercado. E também que a exploração ocorrida nesse período não correspondia às explicações – um tanto metafísicas, por sinal – que Marx dava a ela.;

O que ocorreu no período, foi a junção de um grupo de fatores que depois nunca mais viria a acontecer generalizadamente, apenas em situações pontuais em um país ou outro. A ascensão do modelo industrial baseado na produção em massa, ocorreu, como era de se esperar, num momento histórico em que a sociedade estava fundamentada na produção artesanal e agrícola de pequena escala. Uma sociedade majoritariamente acostumada com o trato da terra e com uma forma de trabalho menos sofisticada tecnicamente. Quando a produção em massa surge, imediatamente a produção artesanal se torna cara, menos eficiente, atrasada e é, por fim, superada pelo modelo fabril.

“Con la industrialización perdieron muchos trabajadores la propiedad de los medios de producción con que trabajaban y que poseían en explotaciones artesanas o agrarias, o en la economia individual. Se estabeleció una disociación entre economia domestica y empresa, que en la pequena explotacion y en la economia individual se encuentran unidas. Desde luego esta disposición ha existido en la historia bajo multiples formas. Pero entonces dominaba entreramente.” (Eucken, 1956, p.79)

Como toda e qualquer inovação técnica nunca surge em quantidades massivas, mas sim em experimentos localizados e acessíveis a poucas pessoas, assim também surge a produção industrial, nas mãos de poucos que detinham recursos financeiros para investir em maquinários.  Para ser exato, o capitalismo liberal já começou monopolizado, através da quebra de um sistema mercantilista – e também – pelo fato de que a própria inovação tecnológica sempre surge em experimentos individuais e tendem a se tornar populares depois de decorrido um período de tempo. Walter Eucken observou isso e, checando dados percebeu que o enorme contingente de pessoas que perderam suas ocupações tradicionais e não tinham qualquer outro nível de instrução, a qual deveriam recorrer para uma ocupação alternativa, só poderiam subsistir pelo trabalho braçal. E somente a recém nascida indústria de produção em massa poderia acolher essa mão-de-obra sobressaliente.

Ora, se em uma situação em que existem oligopólios ou monopólios na oferta necessitando de mão-de-obra, e simultaneamente, uma larga quantidade de pessoas disposta a vender sua força de trabalho sem alternativas a não ser esses poucos compradores, obviamente estamos num caso de monopsônio, ou, como diz Eucken (1956, p.78): Monopólio de demanda. Para piorar, isso estava concentrado no mercado de trabalho, onde havia um número enorme de vendedores de força de trabalho, mas poucos – quando não apenas um – comprador dessa força de trabalho. Nesse caso, o trabalhador não tem outra escolha, senão aceitar salários cada vez menores para não ir parar na sarjeta. Eucken na mesma página explica:

“Qué es lo que existia en realidad? Un monopolio de demanda en un mercado de trabajo. Era algo que entonces estaba muy extendido. En él, el salário puede ser reducido por el patrono hasta un limite indeterminado, y los trabajadores reciben una participación en el producto social que es mucho menor que si existiese también concurrencia por parte de el patrono, que hubiese equilibrado los salarios”.

A exploração vista por Marx de fato existia, mas ele havia diagnosticado errado não apenas a causa dessa exploração, mas também a sua natureza.

“La situación de miseria de los trabajadores, que Marx describió correcta e insitentemente, también fue explicada incorrectamente por él.” El análisis falla en un punto decisivo de su sistema, al ignorar las formas de mercado.” (Eucken, 1956, p.80)

Com o passar do tempo as inovações tecnológicas na oferta foram se popularizando e novas fábricas foram sendo aberta, e com isso novos “compradores de força de trabalho” foram aparecendo. As opções aumentavam e a exploração não era mais a única alternativa. Como consequência disso, os salários começaram a crescer. Brasseul (2010, p.129) mostra que em 1820 os salários começam a subir – 42% naquela ano em relação a 1900 -, em 1850 já estavam a 60% do valor que viriam atingir em 1900 e, por fim, em 1910, já registrava 2% de crescimento, superando nessa margem o salário de 1900. Eucken (1956, p.78) em sua obra avalia a realidade desse monopsônio na própria Alemanha, onde ele aponta que em toda a Silesia (região na fronteira entre a Polônia e a Alemanha que pertencia a antiga Prússia) não havia mais do que um único tear de algodão.


Referências

BRASSEUL, Jacques. História Econômica do Mundo – Das origens aos subprimes. Lisboa: Edições texto e grafia, 2010.

EUCKEN, Walter. Fundamentos de Política Económica. Madrid: Rialp S.A, 1956.

Do liberalismo ao comunismo – uma análise meta-económica

Luiz Paulo Tavares Gonçalves*

Não muito corriqueiramente, vira e mexe, aparece alguém afirmando que a proposta de implantação do modo de produção comunista é filha do liberalismo. Bom, a afirmação é, ao mesmo tempo, provocadora e pertinente: é de conhecimento e aceitação unânime que, nos séculos XVII e XVIII, ou melhor, desde o rompimento com o mercantilismo, o liberalismo desempenhou uma carga revolucionária notável, mas não nos esqueçamos que o fim almejado, teoricamente, por ambos são diferentes; tanto do arcabouço teórico quanto da práxis — tonalidades semelhantes, mas com densidades diferentes.

Desde do nascimento com os fisiocratas, o Laissez-faire — com Nicholas Barbon e François Quesnay — almejava, de certa forma, a ruptura com os resquícios das políticas econômicas feudais e com o metalismo mercantilista; assim como, David Hume, em seu Writings on economics, levanta a questão da balança comercial e do livre comércio, contrapondo-se ao bulionismo e ao ciúme do comércio. Consolidando, assim, a tão famosa teoria quantitativa da moeda clássica (TQM):

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Tal teoria que colocava em xeque as políticas econômicas mercantilistas, pois, segundo a formulação, o nível geral dos preços (P) estava diretamente ligado a quantidade de moeda (M) disponível em dado momento e com a velocidade de circulação (V) que seria dividido pelo nível de produto real (Y): Portanto, contrariando a posição dos mercantilistas, o acúmulo de metais preciosos não teria contribuído para uma expansão de longo prazo da riqueza (i.e., do nível de produto real), mas apenas para o aumento continuado do nível de preços. À luz dos debates macroeconômicos modernos, de acordo com a TQM [teoria quantitativa da moeda] de longo prazo de Hume a moeda seria

exógena e neutra no longo prazo, em contraste com a visão de não neutralidade da moeda de longo prazo implícita na visão mercantilista [1].

Não obstante, tal exemplo, apenas ilustra uma quebra de paradigma econômico efetuado pelos teóricos do liberalismo clássico, quebra de paradigma que não deixa de ser

revolucionário — mais notável se levarmos em consideração a influência que vai provocar nos teóricos do liberalismo clássico posteriores, leia-se: Adam Smith & David Ricardo —, porém não prova qualquer ligação direta com os teóricos do comunismo. Pois, o cordão umbilical que une, o liberalismo e o comunismo, está além do arcabouço teórico, das reformas conquistadas, das emancipações propostas e das ‘’Liberté, Égalité, Fraternité’’ almejadas — levando em consideração as similitudes históricas, teóricas e, principalmente, o facto da imanentização e da fé metastática (‘’teológico-metafísico’’): o liberalismo assim como o comunismo, segundo Eric Voegelin, carrega inerente aos seus postulados a noção de imanentização e de fé metastática, isto é, ambos, em primeiro lugar, são uma religião invertida, ou seja, transpõe o sentido transcendente da religião ao imanente da ideologia e, em segundo, transpondo o reino do céu ao imanente, ao terreno, resolveria o caos imperante no plano terreno:

For in liberalism also there is the irrational element of an eschatological final state, of a society which will produce though its rational methods, without violent disturbances, a condition of everlasting peace. Liberalism too is a part of the revolutionary movement which lives to the extent that it moves [2].

Por outro prisma analítico, numa ordem voltada para os postulados filosóficos e políticos, segundo o jovem Karl Marx: A rigor e falando em sentido prosaico, o Iluminismo francês do século XVIII e, concretamente, o materialismo francês, não foram apenas luta contra as instituições políticas existentes e contra religião e a teologia imperantes, mas também e na mesma medida uma luta aberta e marcada contra a metafísica do século XVIII e contra toda a metafísica, especialmente contra a de Descartes, Spinoza e Leibniz. Opunha-se a filosofia à metafísica, conforme Feuerbach, em

sua primeira investida resoluta contra Hegel, opunha à especulação embriagada a filosofia sóbria. A metafísica do século XVII, derrotada pelo Iluminismo francês e, concretamente, pelo materialismo francês do século XVIII, alcançou sua restauração vitoriosa e pletórica na filosofia alemã, especialmente na filosofia alemã especulativa do século XIX [3].

No entanto, levando em consideração as inúmeras variáveis correlacionadas mencionadas anteriormente (e, como visto, não são poucas), o elo umbilical de maior expressividade — e aqui a conclusão é mais provocadora que a própria suposta afirmação inicial — é essencialmente a implantação do modo de produção capitalista e das políticas econômicas liberais e de Laissez-faire. Os movimentos de revolta nascem, na prática, como o lado negativo, ou melhor, os movimentos de revolta nascem como resposta às mazelas acometidas pelo modo de produção capitalista. Mazelas que nascem com o despontar da industrialização, que arrasta tradições e costumes, no florescer do século XVIII. Aqui é pertinente salientar que, como primeira resposta ao caos do século XVIII, longe de ter sido de Karl Marx (1818-1883), os socialistas utópicos e muitos outros teóricos reformista e tradicionalistas — aqueles que Marx chamou de anti-capitalistas românticos —, por exemplo, William Thompson, Charles Fourier, Pierre J. Proudhon, Thomas Hodgskin, Saint-Simon (aqui só para ficar nos mais conhecidos) já haviam denunciado e erguido bandeira, cada qual do seu modo, contra os desdobramentos do florescer do capitalismo. Karl Marx está longe de ter sido o precursor dos movimentos de contestação — por mais que, como nos lembra Eric Voegelin, tenha sido, junto com os postulados do liberalismo, o mais imanentista. As propostas de reforma e até mesmo de superação do modo de produção capitalista nascem das próprias mazelas do liberalismo; nesse sentido podemos afirmar que, por excelência, o comunismo ou socialismo científico é filho do liberalismo! Filho do caótico século XVIII.

Notas:

[1] ​Conselho Regional de Economia. Escolas da macroeconomia. Rio de Janeiro: Albatroz, 2015, pág 07.

[2] VOEGELIN, Eric. Liberalism an its history. The Review of Politicus, vol. 36, No. 4, 1974, pág 510.

[3] MARX, Karl. A sagrada família, ou, crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. São Paulo: Boitempo, 2011, pág 144.

Referências

Conselho Regional de Economia 1ª região. Escolas da macroeconomia. Rio de Janeiro: Albatroz, 2015.

HUME, David. Discursos políticos del señor David Hume, caballero Escocés. Madrid: en la imprenta de Gonzalez, 1789.

MARX, Karl. A sagrada família, ou, crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. São Paulo: Boitempo, 2011.

RONCAGLIA, Alessandro. La riqueza de las ideas : una historia del pensamiento económico. Zaragoza : Prensas Universitarias de Zaragoza, 2006.

VOEGELIN, Eric. A nova ciência política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.

VOEGELIN, Eric. Liberalism an its history. The Review of Politicus, vol. 36, No. 4, 1974.

*Luiz Paulo Tavares Gonçalves é colaborador extraordinário, formado em economia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG)