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A eminência parda por detrás do aborto, o médico.

Pedro Ribeiro*

Há uma coisa muito importante, mas que quase nunca é lembrada ou denunciada com a veemência necessária entre os que são militantes pró-vida e contrários à legalização da interrupção da gravidez (eu estou nesse bonde, e, portanto, faço meu próprio mea culpa): o caráter especialmente maligno da indústria do aborto.

É um fato: sempre que se debate aborto, são os pais, quase sempre só a mulher, que se tem em mira. É a decisão deles (e em especial dela) que é condenada. É o impedimento da realização do homicídio intrauterino por eles (e sobretudo por ele) que se busca. O problema é que com isso se invisibiliza os autores mais funestos e bandidos neste processo: os médicos e donos de clínicas de aborto.

Simplesmente não há comparação possível entre os agentes. Por mais errado e mau que seja o ato do pai e da mãe que abortam, o que os move é, em boa parte dos casos, o desespero, especialmente em circunstâncias com o estupro e o risco de vida para a mãe. Isto não justifica o ato, mas o põe em certo plano. Mesmo enfim, nos casos em que o motor da ação é o puro e simples egoísmo, ainda assim o que os pais praticam é um caso específico, singular.

No caso dos médicos e donos de clínica, a situação é totalmente outra. O que estamos não é diante de sujeitos imersos numa circunstância concreta complexa e não planejada. Antes, o que vemos são sujeitos que simplesmente vêem na morte de inocentes um “nicho de mercado”, uma chance de ganhar dinheiro, de fazer poupança e de viajar prum lugar mais legal no fim de ano. Esses caras batem ponto toda a semana no “emprego” como se fosse um trabalho comum. Não estão movidos pelo desespero, por pressão social ou mesmo egoísmo bruto de quem não se planejou. Não. Eles são de outro tipo de perversidade, muito mais grave: eles tem um egoísmo planejado, organizam e estruturam seu mal, tornam a vida humana simples mercadoria, no sentido mais estrito da expressão.

A indústria do aborto é a face mais escancarada e mais doentia de um mercado sem limites éticos. É a mostra mais clara de como o individualismo econômico se expande e busca dominar todos os setores da vida social (e me admira que haja tanta gente de esquerda que não veja o capitalismo mais desumano aqui).

Combater e extirpar essa indústria tem de ser a prioridade número um do movimento pró-vida. Focar nos pais que abortam e não nela é como querer resolver a questão toxicológica atacando o usuário e não o tráfico de drogas.

Quem comete aborto, mata. Quem realiza o aborto, torna o homicídio um serviço.

O endurecimento das penas para médicos e donoso de clínica tem de ser nossa obsessão.


*Pedro é mestrando em filosofia com foco em neotomismo; maritaineano, bergogliano e democrata cristão.

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A desonestidade intelectual do Sr. Olavo de Carvalho

“Desonestidade intelectual é você fingir que sabe aquilo que não sabe e que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem.”

Olavo de Carvalho

A inépcia assombrosa de Olavo de Carvalho em assuntos relativos a economia e relações internacionais é conhecida de todos que o acompanham há algum tempo. Nem por isso o polemista fazedor-de-ministros perde a oportunidade de pontificar, com a maior arrogância possível, sobre esses e outros assuntos que ignora. Essa atitude demonstra, acima de qualquer dúvida, que é um homem intelectualmente desonesto segundo seus próprios critérios.

Em entrevista recente ao jornal O Estado de São Paulo, Olavo faz declarações tão estapafúrdias sobre a política e o comércio exterior brasileiros que a tentação é dizer, como fez celebremente o físico Wolfgang Pauli, que suas opiniões não estão sequer erradas. Não fossem ditas em uma publicação de grande circulação por alguém que lamentavelmente se tornou, neste triste momento brasileiro, uma das pessoas mais influentes do país, provavelmente seriam ignoradas como baboseiras indignas de qualquer atenção, exceto pelo seu caráter cômico.

Além dos seus já conhecidos expedientes de ofensas, desqualificações e mesmo ameaças ao interlocutor, Olavo dá diversos exemplos daquilo que o torna tão pernicioso ao debate público: enxurradas de informações falsas; uma ignorância vergonhosa acerca de conceitos elementares para qualquer cidadão bem informado; chutes infundados e hipóteses ad hoc sobre a realidade das relações exteriores do Brasil, aparentemente com o objetivo de encaixá-las à força em suas próprias interpretações, generalistas e excessivamente ambiciosas, da política internacional contemporânea.

Logo no início da entrevista, Olavo afirma que “o presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil”, dando a entender que essa cifra representa uma alternativa às nossas relações comerciais com a China. Na realidade, “Trump” não tem um único centavo “esperando” para investir no Brasil, pois o que está em questão são transações entre países, não entre governos. Com todo o respeito, um indivíduo que não sabe a diferença entre contas nacionais (transações de uma nação com outras) e contas governamentais (que dizem respeito a recursos públicos) deveria simplesmente abster-se de opinar com tamanha arrogância sobre economia internacional. Ademais, não se trata de “investimentos”, mas de uma estimativa otimista do quanto um acordo bilateral comercial com os Estados Unidos poderia propiciar, anualmente, em transações totais (de compra e venda) entre ambos os países. Portanto, esse valor não representaria, necessariamente, um “ganho” para o Brasil, muito menos uma possível alternativa ao comércio com a China, como se os governos pudessem escolher com quem as empresas dos seus países irão transacionar (crença curiosa, vinda de alguém que se diz adepto do liberalismo econômico mais estrito).

Em seguida, Olavo faz a afirmação risível de que a China só comercia com o Brasil porque nosso governo estaria “distribuindo dinheiro” para os “amigos” deles, mencionando Angola, Cuba e Venezuela, em um montante que supostamente totalizaria 1 trilhão de dólares. Como já vimos, trata-se de um indivíduo que não sabe diferenciar estoque e fluxo, muito menos contas governamentais e contas nacionais, portanto é impossível saber o que ele pretendeu dizer com “distribuindo dinheiro”, muito menos de onde tirou uma cifra tão impressionante, correspondente a mais da metade do PIB nacional. De qualquer forma, é ridículo atribuir o comércio sino-brasileiro a motivações ideológicas dos governos desses países. Talvez Olavo tenha dificuldade de entender que o mundo se move por considerações e necessidades que transcendem em muito as suas paranoias conspiratórias, mas a verdade é que esse comércio se deve à elevada complementariedade entre as duas economias. Cresceu apesar de, e não devido às, preferências políticas de seus governantes. É, na realidade, um exemplo típico da especialização comercial decorrente de vantagens comparativas e do livre-cambismo, doutrina defendida pelos economistas liberais desde David Ricardo e que Olavo supostamente endossa — embora, evidentemente, não compreenda.

A soja brasileira não foi comprada em peso pelos chineses porque o Partido Comunista do país estava feliz com as nossas boas relações com Cuba e Venezuela, mas porque seus numerosos criadores de suínos demandaram elevadas quantidades desse grão para alimentar seus rebanhos. O minério de ferro produzido pela Vale, por sua vez, foi um dos viabilizadores da urbanização acelerada da China — país paupérrimo em recursos minerais e dependente de imensas importações desses insumos para prosseguir com seu desenvolvimento. Note-se, ainda, que tanto em um caso como em outro estamos falando de bens indiferenciados (commodities) cuja cotação é determinada internacionalmente em mercados que se aproximam da situação teórica de concorrência perfeita. Portanto, na realidade, ninguém, muito menos o governo, “escolhe” de quem o país irá comprar baseando-se em critérios ideológicos. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais desses bens, e, por isso, foi beneficiado enormemente pela explosão na demanda por eles que o crescimento chinês proporcionou. Não fosse por esse crescimento, o Brasil seria hoje um país muito mais pobre, viveria crises recorrentes em suas contas externas e a formidável expansão do agronegócio — ironicamente umas das principais bases de apoio do governo Bolsonaro — jamais teria acontecido. Fica, então, a pergunta: já que Olavo acredita que o comércio com a China é “escravidão” e propõe que ele cesse — já que supostamente decorre apenas de uma “vantagem política” que irá acabar com o governo Bolsonaro — qual é a alternativa que sugere ao Brasil? Devemos esperar que “o Trump” venha comprar a nossa soja e o nosso minério, uma vez que a China saia de cena? Ou devemos aceitar ficar muito mais pobres, apenas para nos preservarmos de qualquer contato comercial com o perigoso “esquema russo-chinês”?

O show de absurdos não acaba aí. Pouco depois, Olavo afirma que a riqueza da China é “quase toda construída com dinheiro americano”. Ora, seria um exagero, porém mais próximo da verdade, dizer que isso é o inverso do que realmente ocorre. Pois são os Estados Unidos que têm déficits imensos em transações correntes há mais de 30 anos, beneficiando-se do privilégio exorbitante de serem os emissores da moeda de reserva internacional (Dólar). Isso significa, em jargão econômico, que os norte-americanos dependem da absorção de poupança externa para fechar suas contas e financiar seu crescimento. A China, em contraste, é um dos países que mais poupam no mundo; exatamente por isso se tornou exportador de capitais e está comprando tantos ativos em outros países. Em outras palavras, boa parte do consumismo norte-americano, frequentemente exaltado pelo senhor Olavo de Carvalho, é pago por poupança do resto do mundo, principalmente da China. É essa a razão, aliás, de os chineses serem hoje os maiores credores da dívida norte-americana. Mais uma vez, o oráculo da Virgínia demonstra a cegueira decorrente de seu fanatismo americanófilo e liberal-conservador, distorcendo os fatos com uma cara-de-pau impressionante.

Outro momento curioso da entrevista vem em seguida, quando Olavo afirma, indignado, que a China está “comprando o Brasil a preço de banana”. Aqui, pela primeira vez, estou de acordo com ele, ao menos no sentimento: de fato estamos criando um passivo preocupante com o país asiático. Porém, vindo de um defensor radical do governo Bolsonaro e de sua agenda de privatizações e liberalização econômica, essa preocupação é no mínimo intrigante. Afinal, quando se coloca à venda um ativo — ainda mais um ativo público, supostamente sujeito à impessoalidade do Estado — o comprador é aquele que dispõe de capital suficiente e oferece o melhor preço. Sendo o objetivo declarado da política econômica “atrair investimentos” — apresentados como a panacéia para os nossos problemas — o apetite dos capitais chineses merecia ser comemorado, não lamentado! Vejam, caros leitores, a irracionalidade (ou cinismo) dos atuais governistas brasileiros: colocam o país à venda e, em seguida, reclamam que ele está sendo comprado! Aparentemente, Olavo deseja criar uma regra ad hoc segundo a qual os capitalistas chineses, especificamente, ficariam impedidos de comprar estatais e ativos privados brasileiros. Só capitais “do bem” — suponho que norte-americanos e israelenses — seriam bem-vindos. Com a sua paranoia antichinesa, Olavo favorece os interesses norte-americanos e omite o que realmente está em jogo: não só “a China”, mas capitalistas de diversos países, estão “comprando o Brasil a preço de banana” pelo fato de terem a visão estratégia e de longo prazo que nossos governantes não têm.

Olavo de Carvalho não faz ideia do que está falando. Está  apenas empenhado, como sempre, em promover os interesses da pátria norte-americana que escolheu para si, agindo sem qualquer pudor, respeito pela realidade ou humildade intelectual. É — reitero — um homem intelectualmente desonesto segundo sua própria definição do termo. Em situações normais, seria merecedor apenas de risadas, mas, em vista do gravíssimo perigo que representa sua influência desmedida no atual momento brasileiro, não resta alternativa senão respondê-lo com seus próprios métodos:

CALA A BOCA, BURRO!


Ricardo Carvalho é economista formado pela Universidade de São Paulo (USP).

Alain Soral – Feminismo, uma ideologia a serviço do sistema?

por Alain Soral

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Você precisa diferenciar claramente o feminismo, da mulher e da feminilidade. Feminismo é um movimento político que, da mesma forma que o modelo marxista, proclama que a história é uma luta de classes, aqui proclama que a história é uma guerra dos sexos e que, de fato, a função da história seria libertar… as mulheres da opressão que elas estão sujeitas pelos homens. Então é uma visão de mundo, que eu chamo de comunitarismo vitimista, com um aspecto monodeterminista, que quer dizer “as mulheres são alienadas pelos homens e tem de se libertar da opressão masculina”, esta é a primeira definição do que seria feminismo.

Elas manipulam as reivindicações feministas, algumas são frequentemente legítimas, de libertar a mulher, para a realidade, torná-las servas da sociedade de mercado e assalariada, que são a mesma coisa, já que você precisa de salário para consumir. Então, de fato, as exigências feministas por emancipação costumam transformá-las em assalariadas, torná-las trabalhadoras assalariadas e consumidoras. É um processo em duas etapas. E… isso se iniciou nos EUA, com o que se chama de “teoria da nova mulher”, que consiste em tirar a mulher de casa, uma função não-mercantil, sem poder de compra direto, e então lhes fazer sentir culpa e ao mesmo tempo… forçar sua consciência a pensar que ser dona de casa, esposa é uma alienação, um sofrimento, uma forma de humilhação, e por fim, fazê-las mudar da esfera de influência do marido para a do patrão, o que é um pouco ambíguo. E no fim das contas, você percebe que as mulheres terminam, graças a luta feminista, por sofrer uma “dupla alienação” que é a de suportar o marido e o patrão. É o que alguns chamam de jornada dupla: ser mãe, esposa e trabalhadora assalariada.

O que com frequência, especialmente na classe popular, agravou sua situação cotidiana, não melhorou. E isso nos traz para outra análise, que é a de que, finalmente, o feminismo não transcende a luta de classes, porque, na verdade, o foco da emancipação feminista frequentemente tem sido os interesses das mulheres da burguesia que raramente o identificam como tal. Na verdade, 3/4 da militantes feministas são burguesas, que tentam se emancipar de seus papéis de mãe de família, esposa, seu status de dependente para ir à sociedade civil, que é… que para elas é um avanço, já que significa ter profissões interessantes. Elas podem ser advogadas, pesquisadoras, ter uma livraria, etc.

Ao passo que para as mulheres de classe popular, não é apenas cuidar da casa e das crianças, mas acima disso, ser uma trabalhadora de produção. E o que é bem interessante é que para a classe popular, a emancipação, pelo contrário, seria escapar dos constrangimentos da produção e do sistema assalariado. Tornar-se uma mulher sustentada ou dona de casa, que é um luxo, é… é uma aspiração das mulheres da classe trabalhadora, escapar do imperativo de produção, do trabalho, enquanto que para a burguesia é escapar do tédio, o tédio de casa, da mulher burguesa, para ter acesso uma vida social mais interessante, profissões mais interessantes, o que significa que há uma oposição, em termos de classe, entre as ambições da mulher burguesa, em termos de emancipação, e ambições da mulher da classe trabalhadora. O feminismo raramente identifica essa contradição, e é fácil ver que a maioria das líderes feministas são mulheres da burguesia, corresponde a sensibilidade da esquerda burguesa.

Então, este é o trabalho que eu tenho feito que eu considero contestável, mas que foi criticado demais, geralmente sem… presumindo minhas as minhas intenções. Machismo, desdenho por mulheres, etc.

É possível que uma mulher seja uma trabalhadora assalariada desde que alguém tome conta das suas crianças pequenas, com frequência, o que nós esquecemos é que por trás das mulheres feministas libertas, existe uma outra mulher, que sofre uma dupla alienação, a empregada, por exemplo. Ou a babá que cuida da criança burguesa emancipada e de seus próprios filhos, então na verdade a emancipação feminina com frequência acontece às custas de outras mulheres que sofrem dupla alienação. Porque enfrentam todos os problemas ao mesmo tempo: dar a luz, criar seus garotinhos e trabalhar também, isto é… multiplicam o tempo de trabalho, mas os dias não se esticam, e as mulheres não possuem mais ubiquidade do que os homens. Então como você dá conta das suas crianças quando tem que trabalhar 8 horas por dia? Essa é a questão.

Agora algumas mulheres podem pagar por uma babá e ir trabalhar, o que significa que elas tem de ganhar mais do que a babá, mas para as mulheres da classe trabalhadora, uma babá poderia lhes custar mais do que elas mesmas conseguem ganhar. Então esta não é uma escolha livre. É uma questão de classe social. E frequentemente acaba em, ao menos na classe popular, jornada dupla. Porque hoje, realmente, o “direito” ao trabalho é um embuste. É uma obrigação trabalhar. Praticamente nenhum casal, hoje em dia, consegue se manter só com um salário na classe trabalhadora(o que demonstra uma regressão social por sinal). Você necessita, nas famílias da classe trabalhadora ou pobres de colarinho branco, dois salários para que a casa sobreviva. Você precisa de dois. Então se ela deixa de trabalhar, atualmente é um luxo para a classe trabalhadora. Ela tem que trabalhar.

Então o que o feminismo considera fruto de sua luta, o direito assalariado, é, na verdade uma obrigação… é uma obrigação que e é o que deseja o sistema mercantil… já que esse mercado em eterno crescimento, tem interesse em expandir o assalariamento e o poder de compra. A capacidade de consumir. Então, realmente, o que as feministas consideram o fruto de sua luta foi na verdade a vontade oculta da sociedade de mercado: “colocar as mulheres no mercado assalariado e consumidor.”. Por isto que as feministas, que sempre foram poucas, são sempre mimadas pela mídia e pelo poder, diferente das lutas sociais unissex. Porque, na verdade, elas sem saber estão agindo nas mãos da sociedade de mercado e da sociedade de consumo. E é por isso que eu digo que as feministas, em retrospectiva, aparecem finalmente como… sendo umas idiotas úteis da sociedade de mercado, da sociedade de consumo e da sociedade assalariada, em geral.

Onde quer que o feminismo ascenda, geralmente as lutas de classe e a consciência de classe regridem. e, por isto, o feminismo é um tanto ambíguo. Quanto mais burguesa, liberal e “boba” uma sociedade se torna, maior disparidade entre ricos e pobres se alcança, mais feministas você verá e mais poder lhes será dado. É uma observação consistente então.

Eu creio que infelizmente as feministas desempenham um papel de idiotas úteis ou ainda pior nesta questão. Eu tenho grande respeito por todas as mulheres, que declaram que não serão jamais feministas, Marguerite Yourcenar ridicularizou as feministas porque ela viu o “Ardil-22”.

Mulheres de inteligência superior, que são conscientes de seu ser e que desejam lutar por sua liberdade, sempre denunciaram as mentiras, a ingenuidade, a estupidez do combate estritamente feminista. E mesmo ícones feministas como a Sra. Halimi, que escreveu um livro, não faz tanto tempo, onde basicamente admite… que ela queria irritar seu pai e é basicamente uma questão edípica burguesa. Geralmente o feminismo é apenas um acerto de contas edípico burguês, o exemplo mais flagrante seria Simone de Beavouir. Simone de Beavouir é a prova de que o feminismo é uma merda, integralmente. A relação dela com sua família, com Sartre, com a esquerda, com os homens, é de uma ingenuidade que é apenas igualada… enfim, é mesquinho, malicioso e desonesto. E eu gostaria que as pessoas interessadas nessa questão tenham a honestidade de analisar, retrospectivamente, o que Simone Beavouir representa… quando concerne a produção filosófica, seu comprometimento político, sua, como diria, ambiguidade de socialite. Esta longe de ser brilhante, eu prefiro pensar em Louise Michel.

 

Transcrição – Raphael Mirko, texto publicado originalmente no blog: conservadoresantiliberais.blogspot.com

A sociedade capitalista liberal é inorgânica

Arthur Rizzi*

Estive por esses dias apreciando a obra “Mas alla de la oferta y la demanda” de Wilhelm Röpke, obra cujo título em inglês é “A Humane Economy”. E lá pelas tantas, quase ao fim do livro, percebi um curioso paradoxo que o próprio Röpke não se deu conta.

Enquanto o alemão criticava a universalidade do sistema de saúde inglês, ele elencou um grupo de medidas que tornariam no parecer dele, o sistema do NHS mais subsidiário. Não custa lembrar que Röpke, um luterano, era uma curiosa fusão de Maritain e Edmund Burke.

Diz o ordoliberal na página 219:

En la mayoria de los casos es tan agudo, que es preciso esforzarse por normalizarlo, através de los seguientes procedimientos: primero, limitando el seguro obligatorio de enfermidad a aquellas esferas para las cuales el riesgo constituye realmente una pesada carga y a las cuales dificilmente podria convencérseles para que se asegurasen voluntariamente; en segundo lugar, favoreciendo las infinitas formas de asistencia médica descentralizadas, de las cuales puede servir Suiza como muestra; y en tercer término,mediante la introducción de una notable participación própia, de la cual puede restarse sin dificultad todos los inconvenientes del caso particular.

Ora, para estabelecer tais procedimentos, ao invés de se simplificar o sistema, tornar-se-ia ele ainda mais burocrático. A medida 1 e a medida 3, por exemplo, demandaria que o Estado, através dos mecanismos do imposto de renda, separasse a população em função da renda, escalonando-as em quem pode usar os serviços e quanto deve pagar (ou se não deve pagar pelo serviço), e quem seria obrigado a contratar um serviço privado ou não.

Isso demandaria uma rede de fiscalização cartorial, verdadeiros “pentes finos” periódicos para evitar fraudes, bem como uma tremenda papelada. O segundo ponto demandaria uma rede de fiscais de contratos com clínicas e hospitais particulares, para ver a licitude e probidade na gestão dos contratos, bem como fiscalizar a qualidade do atendimento.

Em outras palavras, longe de fazer o sistema mais orgânico, a subsidiariedade tornaria-o mais burocrático. Um sistema universalizado, na verdade, exigira apenas a burocracia da gestão dos hospitais, clínicas e serviços, dispensando toda a parafernalha burocrática de classificação por renda, recebimento de parcelas, etc. Em outras palavras, na sociedade liberal, em alguns casos a aplicação de medidas de subsidiariedade tornam o sistema mais inorgânico.

Por que este paradoxo? A razão é simples, e sem perceber, o próprio Röpke a descreve no capitulo 1 do livro. Vivemos numa sociedade de massa que só foi possível pelo advento do capitalismo liberal. As sociedades do antigo regime e medieval eram personalistas, o senhor feudal conhecia o servo da gleba, sua família e suas necessidades, bem como o rei conhecia seus nobres e suas necessidades. Assim, o sistema era subsidiário e orgânico,e isso era possível porque o capital e o trabalho, quer no campo, quer nos burgos, através das guildas não estavam totalmente separados.

Com a radical separação entre capital e trabalho diagnosticada por G.K. Chesterton e Hillaire Belloc, ainda com a dissolução das guildas e o cercamento dos campos (privatização das terras comunais), aliado a uma produção em massa, surge necessariamente uma sociedade de massas. Os produtos do trabalho humano (e não apenas o próprio trabalho em si), deixam de ser uma vocatio (vocação) como dizia Weaver, para ser uma espece de tarefa inglória. As roupas antes feitas para alguém por um alfaiate, com as preferências pessoais de uma pessoa específica, agora tornam-se roupas padronizadas, com logos, dizeres, desenhos das grandes marcas.

As próprias relações laborais não mais se dão entre um senhor que conhece seu súdito, mas sim entre o patrão e uma massa de proletários sem rosto, aos quais ele desconhece a maioria e com alto grau de rotatividade no posto, dado que a produtividade marginal do trabalho individual de um funcionário não é muito diferente da de outro. É justamente por isso que as leis trabalhistas são demandadas, para impedir que desse relacionamento sem face, surjam abusos. Inclusive, dizem alguns psicólogos, que é muito mais fácil matar alguém se você não ver o rosto da pessoa.

Se para ganhar o pão é necessário burocracia para humanizar as coisas, por que não seria no atendimento médico? Outro dado curioso. A burocratização de certos setores, ao diminuir a rotatividade dos postos de trabalho, forçam o patrão a investir na produtividade do funcionário com cursos técnicos e profissionalizantes, e por acostumar-se com a mesma pessoa por anos a fio na mesma empresa, isso leva, por vezes, o patrão a conhecer melhor seu trabalhador. Em outras palavras, nem sempre a burocracia joga contra a organicidade das relações sociais.

É óbvio que o princípio da subsidiariedade deve ser atendido, mas somente quando ser subsidiário significa ser mais orgânico – e isso atende claramente a DSI. Em alguns casos, ser subsidiário significa apenas ser liberal, burocrático e racionalista e não personalista. Aliás, o próprio Papa João XXIII o diz na encíclica Mater et Magistra: Que se a socialização de serviços significar menos fiscalismos rigoristas, ela é desejável.

*Arthur Rizzi é contribuinte oficial do Reação, é graduado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e em pedagogia pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.

Não há uma terceira via?

Este texto é uma tradução do texto "No third way" feita pelo amigo Guilherme Pöttker.
Liberais econômicos na Igreja Católica freqüentemente citam a encíclica social Centesimus Annus (doravante, CA) do Papa São João Paulo II para afirmar que a Doutrina Social da Igreja Católica não é uma “terceira via” entre e além do comunismo/socialismo e o capitalismo. Na verdade, depois da publicação da CA, o falecido Pe. Richard John Neuhaus, escrevendo para The Wall Street Journal, chamou essa perspectiva de terceira via de “um sério erro”. No vigésimo aniversário da encíclica, George Weigel triumfantemente proclamou na First Things que a CA “abandonou fantasias de ‘terceira via católica”. Posto que a expressão “terceira via” não aparece em lugar algum da CA, a base textual dessa afirmação é questionável. Geralmente, os liberais econômicos citam o seguinte:
« Voltando agora à questão inicial, pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos Países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos Países do Terceiro Mundo, que procuram a estrada do verdadeiro progresso económico e civil?

EUA-BRA

 

A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por «capitalismo» se indica um sistema económico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no sector da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de «economia de empresa», ou de «economia de mercado», ou simplesmente de «economia livre». Mas se por «capitalismo» se entende um sistema onde a liberdade no sector da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa. (…)(§42)

 

 

A Igreja não tem modelos a propor. Os modelos reais e eficazes poderão nascer apenas no quadro das diversas situações históricas, graças ao esforço dos responsáveis que enfrentam os problemas concretos em todos os seus aspectos sociais, económicos, políticos e culturais que se entrelaçam mutuamente [84]. A esse empenhamento, a Igreja oferece, como orientação ideal indispensável, a própria doutrina social que — como se disse — reconhece o valor positivo do mercado e da empresa, mas indica ao mesmo tempo a necessidade de que estes sejam orientados para o bem comum.(…)(§43) »

 

 
O problema com essa e outras passagens da CA que superficialmente parecem endossar o capitalismo de livre mercado é que elas são freqüentemente divorciadas do resto do texto e, de facto, do resto do magistério social da Igreja. Como escreve Thomas Storck no seu excelente ‘What Does Centesimus Annus Really Teach?’ (N.T.:’O que a Centesimus Annus Realmente Ensina?’), publicado no Distributist Review em 21 de Fevereiro de 2009, essas passagens não endossam a plenos pulmões o capitalismo desregulado, e, na verdade, o texto da CA indica que o ocaso do socialismo não implica o triunfo do capitalismo. Eis o que afirma Storck:

« Relevante a isto também é a seguinte passagem ignorada na Centesimus, que realmente esclarece que João Paulo não decidiu que a opção capitalista é a única que restou: “Como vimos lá atrás, é inaceitável a afirmação de que a derrocada do denominado «socialismo real» deixe o capitalismo como único modelo de organização económica.” Na verdade, se alguma economia atual é elogiada na Centesimus Annus, é a “economia social de mercado” da Alemanha Ocidental. »

Richard Aleman, noutro texto excelente, ‘The Continuity of Centesimus Annus’ (NT.: ‘A Continuidade de Centesimus Annus’), publicada no Distributist Review em 22 de Setembro de 2011, põe à prova aquela supracitada alegação de Weigel, argumentando, contra os liberais econômicos, que a CA é uma continuação do magistério dos Papas Leão XIII e Pio XI, ao invés de uma ruptura radical. Ao fazê-lo, Aleman permanece fiel ao chamado do Papa Emérito Bento XVI à leitura do magistério da Igreja segundo uma hermenêutica de continuidade. Em que pese muitos liberais econômicos insistam que esse é o modo correto de interpretar o Concílio Vaticano II, muitos parecem implicitamente rejeitar tal hermenêutica na esfera social. Por quê? Seria porque pontífice algum jamais aceitou a sua cosmovisão liberal, que totaliza o mercado e alega – falsamente – que as “descobertas” da “ciência econômica” superam as prescrições morais da Santa Igreja Católica? Qualquer que seja seu raciocínio, persiste o facto de que liberais econômicos, mais do que nunca, estão-se esforçando para manter a aparente pureza de suas questionáveis doutrinas a despeito de freqüentes lembranças pelo Papa Francisco de que a lógica da ganância, amparada numa perspectiva utilitarista, não é aceitável em um mundo onde Deus ainda reina como Senhor e Rei.

A heresia liberal

O texto a seguir é um excerto da obra de Perillo Gomes, “O liberalismo, escrito em 1933. O autor, um renomado tradicionalista católico de seu tempo, escreveu e atuou por muitos anos no Centro Dom Vital ao lado de outros grandes tradicionalistas brasileiros como Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, Jackson de Figueiredo entre outros. Na transcrição trouxe o texto para as normas ortográficas vigentes.

NdT = Nota do transcritor

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Liberal é o termo de maior prestígio em nosso meio. Para muitos ele define o nosso carácter, o espírito das nossas instituições, no Império e na República. Por sua causa somos capazes de todos os extravasamentos de sensibilidade, do entusiasmo à indignação ou aos acessos de ternura feminina. Liberal é sem dúvida a palavra de maior cotação de nosso vocabulário. Tudo se pode dizer impunemente de um homem público no Brasil. Muitos são insensíveis ao insulto. Alguns indiferentes a lisonja. Nenhum, porém, a sangue frio, suporta a acusação de não ser liberal.

Deste modo, neste país, são liberais o governo e a oposição, a lei que escorcha o contribuinte e o cidadão que sonega o imposto ao Estado. O cientista, o literato, o militar, os financistas, os poetas, os demagogos, os investigadores de polícia, honrados comerciantes desta praça, em suma, todo mundo é liberal.

Certa vez em pleno Senado da República, um jovem licurgo arriscou uma frase imprudente: declarou que no mundo moderno não havia mais lugar para os liberais. Foi este um dia tempestuoso na câmara alta. Todas as fisionomias, de súbito, se fecharam. Houve um momento grave de concentração, desses que pronunciam os grandes acontecimentos e, a seguir, uma violenta explosão de protestos indignados. Felizmente ainda a tempo interviram pessoas cautelosas. E o jovem senador veio à tribuna para dar uma explicação reconciliadora: ele dissera que não havia mais lugar para os liberais porque os liberais já se tinham apossado de todos os lugares! Houve aplausos nas galerias, emoção no recinto e o orador foi cumprimentado…

Não seria fácil encontrar senão motivos psicológicos para explicar a nossa fascinação com o vocábulo liberal. O Padre At, a propósito da liberdade, fez a seguinte reflexão, que tanto agradou a Pierre Christian: Nous nous chargeons, sans talisman, dé degriser les trois quarts des démocrates de leru engouement pour la liberté, le moyen est très simple, c’est la definition même de la liberté.”

Ora, esta reflexão se aplica á merveile, ao nosso caso. Nós somos liberais, na generalidade, sem termos tentado sequer, um esforço para definir a palavra que tanto nos seduz, isto é, sem indagarmos da natureza das ideias que ela implica, de onde se originam essas ideias e que especie de consequências podem autorizar.

De que isso não é mera suposição, basta-nos dizer que, praticamente, tomando como campo de observação, para exemplificar, o meio político, não há diferença essencial na ação dos nossos homens de Estado. Com efeito os mais comprometidos com a opinião pública, no período da sua doutrinação, pelo sustentáculo do programa liberal, nas promessas de acatamento a todas as liberdades, uma vez investidos do mando pouco diferem dos que são apontados à ira da populaça sob a injuriosa alcunha de reacionários. Tentar uma definição do termo liberal, no seu sentido filosófico, depois do exposto, é uma necessidade, mesmo porque estamos certos de que a sua voga se funda, principalmente na ideia imprecisa que, em geral, existe  seu respeito.

Liberal é um adjetivo. Significa a qualidade do que, do ponto de vista das ideias aceitou os princípios do liberalismo. De modo que em ultima análise, a definição que interessa é a do liberalismo. Vejamos a que nos propõe Dom Felix Sarde y Salvany: “Na ordem das ideias, o liberalismo é o conjunto do que se chama princípios liberais.”

Os princípios liberais são: a soberania absoluta do indivíduo, a soberania absoluta da sociedade, a soberania nacional, a liberdade absoluta de imprensa e a liberdade absoluta de associação.

A esse conjunto de liberdades se dá também o nome de liberdades modernas. Se se quiser investigar um pouco mais o assunto, na questão de nomenclatura, pode-se verificar que essas liberdades foram por Pio IX catalogadas no Syllabus errorum sob o rótulo de erros modernos. Conservemos contudo, para não maltratar demasiadamente a sensibilidade indígena, a classificação amável de liberdades modernas. Essas liberdades em substância, são modalidades de um programa radical de emancipação do homem. 

O homem nasce livre. E é originariamente bom. A sociedade é o que o perverte e o degrada. Deste modo justo é que se liberte de tudo, de todos os laços políticos, históricos, religiosos, sentimentais, inclusive os que se prendem aos seus ascendentes e à sua prole, e o solidarizam com qualquer instituição corporativa, histórica ou política que possa limitar a sua liberdade. 

Tratando das suas origens, Pio IX é categórico no Syllabus, na infomação que nos dá: essas liberdades provem de teses fundamentais da revolução luterana e propagaram-se pelo mundo graças aos pseudo-filósofos da enciclopédia no século XVIII e triunfaram com a revolução francesa. Se desejar investigar sua origem mais remota chegar-se-á ao ponto inicial de todas as negações e de todas as revoltas: o grito de soberba de um anjo rebelado.

O que caracteriza, com efeito, essas liberdades é a revolta. revolta do indivíduo contra a autoridade de Deus e de toda influência disciplinadora do seu pensamento e dos seus apetites; revolta da sociedade contra toda limitação em nome das realidades de ordem transcendente. e de direitos extra-naturais. Anarquia, portanto, das consciências, desordem política e despotismo: Em conclusão: bolchevismo. Ao menos por definição existem duas formulas de liberalismo: um radical e um moderado. O radical não só afirma a inteira, a absoluta independência do homem e da sociedade em relação a tudo que está fora de si mesmo, como incita que se combata toda influência natural ou sobrenatural tendente a limitar a sua expansão.

liberalismo radical é ostensivamente ateu, anticlerical, demagógico e revolucionário. Como expressão política proclama a supremacia do estado sobre o indivíduo e as corporações de qualquer natureza. O liberalismo moderado (NdT: ou conservador) tenta uma fórmula de conciliação entre os princípios do liberalismo radical e a coexistência do sobrenatural, determinando na vida do homem um dualismo fundamental: de um lado as atividades da fé e de outro as cognoscitivas, cívicas, utilitárias, etc. A razão, portanto, nada tem a ver com a revelação; os dois planos da vida, o natural e o sobrenatural são independentes entre si, como dois departamentos estanques.


Sua fórmula política é a igualdade entre os poderes espirituais e temporais, essa pretensa igualdade em si mesmo já é uma heresia. Não é possível nivelar a vida religiosa, que interessa a vida futura do homem – sua vida verdadeira –  àquela a que estão confiados apenas os seus interesses imediatos, tangíveis, transitórios. Além disso essa declaração de igualdade é puramente teórica, não corresponde à realidade, porque não podendo existir dois poderes autônomos, absolutos, interessando ao mesmo indivíduo, daí resulta que na prática o Estado, sob alegação de que lhe cabe a função de mantenedor da ordem, impõe a Igreja as soluções que bem lhe parecem. Daí os conflitos que se verificam entre a Igreja e as liberdades modernas.


Esse conflito está na lógica mesma dos princípios que a Igreja e as referidas liberdades representam. A Igreja pugna pela mais intolerante das verdades: a verdade religiosa. O liberalismo desconhece ou opõe-se a existência dessa verdade. A Igreja põe Deus como fundamento e alvo dos nossos atos. O liberalismo parte da negação de Deus ou da indiferença religiosa para concluir pela felicidade puramente temporal do indivíduo ou da sociedade. A Igreja subordina o homem e a sociedade a Deus. O liberalismo pretende subtrair ao homem e a sociedade o Império do Criador. Um conflito de princípios não pode se restringir a um campo teórico, necessariamente tende a se objetivar.


De modo que a oposição dos princípios que informam a doutrina católica e a doutrina liberal, gera fatalmente a luta em que duas forças se degladiam. Constitui mesmo a história de todas as contendas presentes, passadas e futuras da sociedade. Proudhon não pode ocultar que no fundo de todas as disputas políticas exite uma questão teológica. Com efeito, tudo quanto pretende fornecer ao homem norma de conduta e conduzi-lo para um ideal de amor, de paz, de glória ou de felicidade, tudo, direta ou indiretamente, vai atingir a Igreja na sua doutrina e no seu apostolado. 


Compreende-se porque as chamadas  liberdades modernas favorecem todas as liberdades com exclusão das liberdades católicas.

A revolução é capitalista e liberal

Pedro Ribeiro*

De todos os fenômenos do mundo moderno, nenhum provavelmente é mais corrosivo para as relações sociais do que o capitalismo liberal. Isto não é um aspecto secundário e acidental ao sistema, mas intrínseco a ele.

De fato, diferente de todos os sistemas econômicos anteriores, a ordem liberal, definitivamente vitoriosa após a industrialização do século XVIII, não encontra maiores dificuldades em produzir o necessário para a subsistência das pessoas. Ao contrário, o que ela faz é produzir em excesso, ao extremo [na última vez em que pesquisei sobre o assunto, descobri que o mundo hoje produz sete vezes mais alimentos do que o necessário para toda a população mundial… E há gente que passa fome].

Se à primeira vista isto parece formidável e estupendo, e de fato é, sob certo aspecto, por outro lado, a superprodução capitalista traz consigo um grave problema, que é escoar todo esse excedente. E como é que os empresários fazem isso? Simples. Através da publicidade, da propaganda de massa. Se há hiperprodução, o único jeito de não haver falência econômica, é se houver hiperconsumo, estimulado pela propaganda.

É, por isto que, como já ensinaram os frankfurtianos [e aqui a Escola de Frankfurt, pense-se o que se quiser, é muito útil], o consumismo e o hedonismo não acompanham por acaso a ordem capitalista liberal, mas são sua consequência necessária. Com efeito, como há de sobreviver e não falir um sistema de superprodução senão induzindo, via mídia, um superconsumo? Como vai sobreviver um sistema que produz sete vezes mas alimentos do que o preciso, senão produzindo uma multidão de obesos? Como vai sobreviver um sistema de avanço tecnológico endêmico senão por meio de zumbis viciados em internet e redes sociais [e, sob este aspecto, definitivamente, os ouvidos mais próximos de minha boca são os meus]?

O problema, porém, é ainda maior do que o consumismo estritamente econômico. Em verdade, a maior desgraça do consumismo talvez não seja ele próprio, em sua seara própria, mas o modo como ele se espraia e modula todas as demais relações humanas [a respeito, ver Bauman]. Vemos assim o consumismo tornar-se a lógica operativa da religião, com a proliferação de grupos espirituais que vêem em Deus acima de tudo o milagreiro, o que me faz parar de sofrer, o que me arranja um emprego, o que me faz vencer na vida. Do mesmo modo, a lógica de consumo se apropriou inteiramente das relações afetivas: o amor não mais entendido, nem remotamente, como doação e compromisso, mas sempre como prazer egoísta; o divórcio não apenas tolerado quando inevitável (caso de violência doméstica, etc.), mas visto como destino normal e banal de qualquer relacionamento. O que é o Tinder senão a prova viva da lógica de consumo se apropriando dos relacionamentos, com cada um tratando a si mesmo apenas como um produto a ser adquirido (e que deve, portanto, ter uma “boa imagem”), bem como tratando o outro igualmente como produto, avaliado como se avalia carne no açougue? [E não, não há aqui uma avaliação moralista do que cada um faz de sua vida, mas um diagnóstico sociológico geral]

Por tudo isto, a superação do capitalismo liberal (em primeiro lugar, rumo a uma economia social de mercado, mas, a longo prazo, sempre tendo em vista a construção de uma ordem econômica solidarista/distributista/comunitária) não é apenas um desejo ou uma boa idéia, mas um imperativo ético fundamental e inegociável [e eu peço encarecidamente que quem pensar que eu estou fazendo apologia do socialismo vá catar coquinhos].

Como diz o Papa Francisco, “esta economia mata”. Ou a matamos, pois, ou morremos nós.

*Pedro Ribeiro é bacharel e mestrando em filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), neotomista, estudioso e admirador de Jacques Maritain.