A burguesia bolsonarista

Recentemente assistimos estupefatos o show de horrores proporcionado pela subserviência do dono das lojas Havan a Olavo de Carvalho, que de modo o vil o ofendeu das mais variadas maneiras. Independente de se justificado ou não as ofensas, o fato dele ter cedido e oferecido dinheiro ao guru virginiensis, denota o grau de lealdade de um certo setor da burguesia ao bolsonarismo. Recentemente, investigações referentes ao “gabinete do ódio” revelaram ainda que o mesmo parece ser financiado por uma rede de empresários, e, se puxarmos um pouco mais pela memória, recordaremos de empresários que desde o começo de puseram contra a quarentena e a favor do governo.

Uma coisa chama a atenção em todos, ou quase todos. A enorme maioria deles vem de serviços comerciais, do mercado financeiro ou do agronegócio. Mas por que? Por que toda essa gente que devia ser amante do lucro de repente adotou um servilismo canino para com um presidente fracassado?

Eu tenho uma hipótese: Ideologia e interesse de classe.

No caso, o bolsonarismo conseguiu através de um discurso que funde o americanismo e liberalismo de Olavo de Carvalho ao ideário de anti-trabalhista de Bolsonaro, atender ao interesse de classe desses setores da burguesia.

1- Agronegócio:

No agronegócio, o apoio se mantém pois por mais que as brigas com a China sejam inoportunas, o cenário geral ainda é favorável a ele. O cenário de desindustrialização e doença holandesa reforça o agro como o setor da economia brasileira com maior rentabilidade. Com isso, mais da poupança doméstica se dirige ao agronegócio e menos a indústria cambaleante, que mesmo puxando saco do governo implorando migalhas, recebe muito pouco. Não tendo que competir com a indústria por financiamento, o agronegócio de financia com juros ainda mais baixos do que os já praticados no mercado.

2- Serviços comerciais:

As grandes redes de varejo, as grandes lojas como a Havan, mesmo com a profunda queda de renda, ainda são muito favorecidas pelo contexto geral. A oferta de bens industrializados importados nas suas lojas atraem clientes, o seu custo unitário menor em relação aos produtos nacionais lhes oferecem maiores margens de lucro e, não podemos esquecer, as flexibilizações trabalhistas. Como são serviços de baixíssima produtividade, eles concentram a maior parte dos postos de trabalho mais afetados pela reforma trabalhista e é o que primeiro absorve a mão de obra mais jovem, que tem facilitada sua contratação pela proposta da carteira verde e amarela.

3- Os farialimers/traders:

A estes interessa a solvência do Estado brasileiro a longo prazo (para lhes pagar juros), bem como a estabilidade da moeda. Para um usurário do mercado financeiro, o cenário ideal sempre será juro alto e deflação, pois ele sempre ganhará com a moeda no longo prazo e com o juro no curto. Na maior parte dos casos isso não é possível, neste caso contentam-se com inflação baixa. A inflação é e sempre será o inimigo número um do rentista, ao passo que o desemprego sempre será o inimigo número um do trabalhador.

A atual conjuntura de especulação desenfreada na bolsa, juros em mínimas históricas, desemprego alto e deflação é um paraíso para eles, é oportunidade diária de fazer dinheiro com pump and dump. Como Bolsonaro e Guedes se opõem terminantemente a qualquer medida mais drástica para manter a economia funcionando, para se ater a um dogmatismo fiscalista extremamente rígido, atendem ao interesse desses grupos, postergando e até sabotando o programa “Pró-Brasil” do general Braga Netto, garantindo austeridade e a “agenda de  reformas” que sempre transferem renda da sociedade para o setor bancário e rentista e, por fim, garantindo uma ortodoxia monetária que sempre use o juro como corretor da inflação ao invés de qualquer outro método. Essa gente ama Bolsonaro e Guedes de paixão, e estão dispostos a matar e a morrer por eles.

4- Histórico:

Historicamente no Brasil, o liberalismo longe de ser a arma dos vanguardistas, sempre foi dos grupos mais atrasados. E aqui evito os termos “progressista” e “conservador” propositadamente. No Brasil, a aristocracia escravista era liberal, pois isso garantia-lhes não apenas o protagonismo político de um empreendimento já bem estabelecido no mercado internacional, como também, por estar sempre associado ao federalismo, isto garantia-lhes o poder local, onde poderiam governar e fortalecer seus mandonismos longe da interferência da coroa. Os conservadores, ao contrário, mais centralistas, tinham ideias mais desenvolvimentistas e pensavam já desde o século XIX num Brasil industrializado, para o qual era necessário a abolição e a criação de um proletariado urbano, e pensavam o país além de suas regiões e interesses mais imediatos, mas como um todo.

O interesse dos grandes fazendeiros do Império nos conservadores só durou enquanto havia a ameaça da secessão e das guerras civis, que logo que foram superadas no Segundo Reinado, passaram paulatinamente a transitar do tradicional apoio aos conservadores para o entusiástico apoio aos liberais. O ponto mais claro de inflexão foi a Guerra do Paraguai e, a partir dali, todo escravista era quase um luzia de carteirinha. O golpe que derrubou a monarquia como represália a abolição da escravidão no Brasil foi capitaneada por grandes fazendeiros convertidos em liberais e até republicanos.

A carta magna de 1891, uma cópia descarada do modelo americano, não apenas garantiu a eles a autonomia dos estados, onde seu poder era quase implacável, através de um federalismo radicalizado, em que a presidência era mero acessório. O coronelismo, a política do café com leite, a política dos governadores, tudo isso foi feito para atender a essa base de apoio. Aliás, o primeiro ministério da república era composto por egressos do antigo partido liberal e republicano. Os conservadores do Império foram soterrados e esquecidos, e seu lugar tomado pelos positivistas e pelos nacionalistas, especialmente a partir da Semana de Artes Modernas de 22.

Como Bresser-Pereira (1985, p.101) pontua:

“O único aspecto curioso a se observar é o seguinte: enquanto na Europa o liberalismo constituiu-se numa ideologia essencialmente burguesa, um instrumento da luta dos comerciantes e industriais contra os privilégios concedidos a aristocracia feudal, no Brasil ocorreu o oposto, transformando-se o liberalismo numa arma ideológica da aristocracia rural brasileira. […] Ora, colocado nestes termos, o liberalismo econômico em uma arma daqueles grupos, daqueles setores da economia que a curto prazo fossem mais eficientes e tivessem condições de concorrer tanto no mercado interno quanto no mercado externo. […] O liberalismo transformava-se assim, e uma arma ideológica dos grandes fazendeiros e do alto comércio importador e exportador brasileiro, ideologia essa que vai se  opor em termos práticos à emergência de uma classe de empresários industriais no Brasil”.

Em outras palavras,  a burguesia que serve ao liberalismo americanista de Bolsonaro e Olavo de Carvalho, atende pelos mesmos interesses pelos quais atendia ao Partido Liberal, pelo qual defendia a República Velha e a fracassada revolução constitucionalista de 32, pelos mesmos motivos que se encastelou na UDN, pela qual defendeu o general Sylvio Frota contra o presidente Ernesto Geisel, pela qual andou a contragosto de mãos dadas com os tucanos e, mais importante, pela qual teve uma vitória momentânea com Jair Bolsonaro.

Muito se fala em criminalizar o comunismo, o integralismo, mas se “pelos frutos os  conhecereis“, então se há uma ideologia que merecia ser criminalizada no Brasil, essa ideologia é o liberalismo.

Referência Bibliográfica:

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Desenvolvimento e Crise no Brasil (1930-1983). São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

Os tipos de liberalismo – Dom Félix Sardá y Salvany

Excerto da obra "O liberalismo é pecado" de Dom Félix Sardá y Salvany, que fora fortemente embasada no Syllabus de Pio IX e recebeu louvores da Santa Sé. Transcrito de texto originalmente publicado em "GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes".

Nesta variedade, ou melhor, confusão entre matizes e meias-tintas que oferece a variedade família do liberalismo, haverá sinais ou notas características com que distinguir facilmente o que é liberal do que não é? Eis outra questão muito prática também para o católico de hoje e que de um modo ou de outro o teólogo moralista tem de resolver frequentemente.

Dividiremos para estes fins os liberais (sejam pessoas ou escritos) em três classes:

  1. Liberais avançados;

  2. Liberais moderados [1];

  3. Apenas eivados de liberalismo[2].

1- Liberais Avançados:

Ensaiemos uma descrição semi-fisiológica de cada um destes tipos. É estudo que não carece de interesse. O liberal avançado conhece-se desde logo, porque não trata de negar nem encobrir sua maldade. É inimigo formal do Papa e dos padres e de toda a gente da Igreja; basta-lhe que qualquer coisa seja sagrada para excitar seu desenfreado rancor. Procura dentre os periódicos os mais desbragados; vota  entre os candidatos, os mais abertamente ímpios; aceita seu funesto sistema até as últimas consequências. Faz gala de viver sem prática alguma de religião, e a muito custo a tolera em sua mulher e filhos. Costuma pertencer a seitas secretas e morre geralmente sem socorros alguns da Igreja.

2- Liberais Moderados:

O liberal moderado ou manso costuma ser tão mau como o primeiro, porém cuida bastante em não parecê-lo. As boas formas e as conveniências sociais são tudo para ele; salvo este ponto, não lhe importa muito o resto. Incendiar um convento não lhe parece bem; apoderar-se do solar do convento incendiado é para ele coisa já mais regular e tolerável. Que um jornaleco qualquer desses de bordel venda suas blasfêmias em prosa, verso ou gravura a dez réis é um excesso que ele proibiria e até lamenta que não o proíba algum governo conservador; porém, que se diga o mesmo inteiramente em frases cultas, um livro de boa impressão ou em um drama de sonoros versos, sobretudo se o autor é um acadêmico ou semelhante, já não oferece inconveniente[3]. Ouvir falar em clubes dá-lo calafrios, porque ali, diz ele, se seduzem as massas e se subvertem os fundamentos da ordem social[4]; porém, ateneus livres podem muito bem consentir-se. porque a discussão científica de todos os problemas sociais, quem há de estranhar? Escola sem catecismo é um insulto ao país católico que a paga; porém, Universidade católica, isto é, com sujeição inteira ao catolicismo, quer dizer, ao critério da fé, isso deve deixar-se para os tempos da Inquisição. O liberal manso não aborrece ao Papa, e só não acha bem certas, pretensões da cúria romana e certos extremos de ultramontanismo que não condizem bem com as ideias de hoje. Gosta dos padres, sobretudo dos ilustrados, isto é, dos que pensam à moderna como ele; porém os fanáticos ou reacionários, evita-os ou lastima-os. Vai à Igreja e recebe até os sacramentos; porém sua máxima é que na Igreja se deve viver como cristão, mas fora dela convém viver com o século em que nasceu e não se obstinar em remar contra a corrente. Vive assim entre duas águas, costuma morrer com o sacerdote ao lado, porém com a biblioteca abarrotada de livros proibidos.

3- Eivados de liberalismo:

O católico simplesmente eivado de liberalismo conhece-se em que, sendo homem de bem e de práticas sinceramente religiosas, respira, todavia liberalismo falando ou escrevendo ou trazendo-o entre as mãos. Poderia dizer ao seu modo como Mme. Savigné: “Não sou a rosa, mas estive junto dela e tomei algo de seu perfume“. O verdadeiramente eivado discorre, fala e obra como liberal deveras, sem que ele mesmo, o pobrezinho, o deixe de ver. O seu forte é a condado; este homem é a caridade em pessoa. Como aborrece as exagerações da imprensa ultramontana! Chamar de mau a um homem que difunde más ideias parece a esse singular teólogo um pecado contra o Espírito Santo. Para ele não há mais que extraviados. Não se deve resistir nem combater: o que se deve é atrair. “Aforgar o mal com a abundância de bem” é a sua fórmula favorita[5], que leu um dia em Balmes e foi a única coisa do grande filósofo catalão que lhe ficou na memória. As invectivas espantosas contra o farisaísmo dir-se-ia que as tem por excessos de gênio e de zelo do divino Salvador; apesar de que sabe usá-las ele mesmo rijamente contra os irritáveis ultramontanos, que com suas exagerações comprometem a cada dia a causa de uma religião que é todo paz e amor. […]

Não conhece outra tática senão a de atacar de lado, que em religião costuma ser a mais cômoda, porém não a mais decisiva. Bem quisera ele vencer, porém a troco de não ferir o inimigo, nem causar-lhe mortificação ou enfado. O nome de guerra irrita-lhe os nervos, mas acomoda-se ele a pacífica discussão. Está pelos círculos liberais, onde se discursa e se delibera mais do que pelas associações ultramontanas, onde se dogmatiza e censura. Numa palavra, se por seus frutos se conhece o liberal fero ou manso, por suas afeições se distinguirá, principalmente o eivado de liberalismo.[…]

4- Conclusão:

Resumindo em poucas palavras os traços mais característicos de sua respectiva fisionomia, diremos que o liberal avançado ruge com o seu liberalismo; o liberal moderado esconde, o pobre eivado de liberalismo suspira e faz lamúrias.

Todos são maus, como dizia de seus pais aquele velhaco da fábula; porém ao primeiro paralisa-o muitas vezes o seu próprio furor; ao terceiro a sua condição híbrida, de si infecunda e estéril. O segundo, o pior, é o tipo satânico, por excelência, o que em nossos tempos produz o verdadeiro estrago.

 


Notas de rodapé:

1 – Os assim chamados conservadores ou conservadores liberais.

2- Por eivado de liberalismo, refere-se a um tipo de  liberalismo prático, em que a afeição pessoal e o apreço pela respeitabilidade pública  suplanta o amor pela Verdade.

3- Há um certo apreço por tradições humanas e por uma ideia de alta cultura.

4- Aqui é uma possível referência a Edmund Burke, que em suas “Reflexões sobre a revolução na França“, critica como agitadores os membros do clube de Old Jewry.

5- O Concílio Vaticano II seria um concílio eivado de liberalismo.

A eminência parda por detrás do aborto, o médico.

Pedro Ribeiro*

Há uma coisa muito importante, mas que quase nunca é lembrada ou denunciada com a veemência necessária entre os que são militantes pró-vida e contrários à legalização da interrupção da gravidez (eu estou nesse bonde, e, portanto, faço meu próprio mea culpa): o caráter especialmente maligno da indústria do aborto.

É um fato: sempre que se debate aborto, são os pais, quase sempre só a mulher, que se tem em mira. É a decisão deles (e em especial dela) que é condenada. É o impedimento da realização do homicídio intrauterino por eles (e sobretudo por ele) que se busca. O problema é que com isso se invisibiliza os autores mais funestos e bandidos neste processo: os médicos e donos de clínicas de aborto.

Simplesmente não há comparação possível entre os agentes. Por mais errado e mau que seja o ato do pai e da mãe que abortam, o que os move é, em boa parte dos casos, o desespero, especialmente em circunstâncias com o estupro e o risco de vida para a mãe. Isto não justifica o ato, mas o põe em certo plano. Mesmo enfim, nos casos em que o motor da ação é o puro e simples egoísmo, ainda assim o que os pais praticam é um caso específico, singular.

No caso dos médicos e donos de clínica, a situação é totalmente outra. O que estamos não é diante de sujeitos imersos numa circunstância concreta complexa e não planejada. Antes, o que vemos são sujeitos que simplesmente vêem na morte de inocentes um “nicho de mercado”, uma chance de ganhar dinheiro, de fazer poupança e de viajar prum lugar mais legal no fim de ano. Esses caras batem ponto toda a semana no “emprego” como se fosse um trabalho comum. Não estão movidos pelo desespero, por pressão social ou mesmo egoísmo bruto de quem não se planejou. Não. Eles são de outro tipo de perversidade, muito mais grave: eles tem um egoísmo planejado, organizam e estruturam seu mal, tornam a vida humana simples mercadoria, no sentido mais estrito da expressão.

A indústria do aborto é a face mais escancarada e mais doentia de um mercado sem limites éticos. É a mostra mais clara de como o individualismo econômico se expande e busca dominar todos os setores da vida social (e me admira que haja tanta gente de esquerda que não veja o capitalismo mais desumano aqui).

Combater e extirpar essa indústria tem de ser a prioridade número um do movimento pró-vida. Focar nos pais que abortam e não nela é como querer resolver a questão toxicológica atacando o usuário e não o tráfico de drogas.

Quem comete aborto, mata. Quem realiza o aborto, torna o homicídio um serviço.

O endurecimento das penas para médicos e donoso de clínica tem de ser nossa obsessão.


*Pedro é mestrando em filosofia com foco em neotomismo; maritaineano, bergogliano e democrata cristão.

A desonestidade intelectual do Sr. Olavo de Carvalho

“Desonestidade intelectual é você fingir que sabe aquilo que não sabe e que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem.”

Olavo de Carvalho

A inépcia assombrosa de Olavo de Carvalho em assuntos relativos a economia e relações internacionais é conhecida de todos que o acompanham há algum tempo. Nem por isso o polemista fazedor-de-ministros perde a oportunidade de pontificar, com a maior arrogância possível, sobre esses e outros assuntos que ignora. Essa atitude demonstra, acima de qualquer dúvida, que é um homem intelectualmente desonesto segundo seus próprios critérios.

Em entrevista recente ao jornal O Estado de São Paulo, Olavo faz declarações tão estapafúrdias sobre a política e o comércio exterior brasileiros que a tentação é dizer, como fez celebremente o físico Wolfgang Pauli, que suas opiniões não estão sequer erradas. Não fossem ditas em uma publicação de grande circulação por alguém que lamentavelmente se tornou, neste triste momento brasileiro, uma das pessoas mais influentes do país, provavelmente seriam ignoradas como baboseiras indignas de qualquer atenção, exceto pelo seu caráter cômico.

Além dos seus já conhecidos expedientes de ofensas, desqualificações e mesmo ameaças ao interlocutor, Olavo dá diversos exemplos daquilo que o torna tão pernicioso ao debate público: enxurradas de informações falsas; uma ignorância vergonhosa acerca de conceitos elementares para qualquer cidadão bem informado; chutes e hipóteses ad hoc sobre a realidade das relações exteriores do Brasil, aparentemente com o objetivo de encaixá-las à força em suas próprias interpretações, generalistas e excessivamente ambiciosas, da política internacional contemporânea.

Logo no início da entrevista, Olavo afirma que “o presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil”, dando a entender que essa cifra representa uma alternativa às nossas relações comerciais com a China. Na realidade, “Trump” não tem um único centavo “esperando” para investir no Brasil, pois o que está em questão são transações entre países, não entre governos. Com todo o respeito, um indivíduo que não sabe a diferença entre contas nacionais (transações de uma nação com outras) e contas governamentais (que dizem respeito a recursos públicos) deveria simplesmente abster-se de opinar com tamanha arrogância sobre economia internacional. Ademais, não se trata de “investimentos”, mas de uma estimativa otimista do quanto um acordo bilateral comercial com os Estados Unidos poderia propiciar, anualmente, em transações totais (de compra e venda) entre ambos os países. Portanto, esse valor não representaria, necessariamente, um “ganho” para o Brasil, muito menos uma possível alternativa ao comércio com a China, como se os governos pudessem escolher com quem as empresas dos seus países irão transacionar (crença curiosa, vinda de alguém que se diz adepto do liberalismo econômico mais estrito).

Em seguida, Olavo faz a afirmação risível de que a China só comercia com o Brasil porque nosso governo estaria “distribuindo dinheiro” para os “amigos” deles, mencionando Angola, Cuba e Venezuela, em um montante que supostamente totalizaria 1 trilhão de dólares. Como já vimos, trata-se de um indivíduo que não sabe diferenciar estoque e fluxo, muito menos contas governamentais e contas nacionais, portanto é impossível saber o que ele pretendeu dizer com “distribuindo dinheiro”, nem de onde tirou uma cifra tão impressionante, correspondente a mais da metade do PIB nacional. De qualquer forma, não faz sentido atribuir o comércio sino-brasileiro a motivações ideológicas dos governos desses países. Talvez Olavo tenha dificuldade de entender que o mundo se move por considerações e necessidades que transcendem em muito as suas paranoias conspiratórias, mas a verdade é que esse comércio se deve à elevada complementariedade entre as duas economias. Cresceu apesar de, e não devido às, preferências políticas de seus governantes. É, na realidade, um exemplo típico da especialização comercial decorrente de vantagens comparativas e do livre-cambismo, doutrina defendida pelos economistas liberais desde David Ricardo e que Olavo supostamente endossa — embora, evidentemente, não compreenda.

A soja brasileira não foi comprada em peso pelos chineses porque o Partido Comunista do país estava feliz com as nossas boas relações com Cuba e Venezuela, mas porque seus numerosos criadores de suínos demandaram elevadas quantidades desse grão para alimentar seus rebanhos. O minério de ferro produzido pela Vale, por sua vez, foi um dos viabilizadores da urbanização acelerada da China — país paupérrimo em recursos minerais e dependente de imensas importações desses insumos para prosseguir com seu desenvolvimento. Note-se, ainda, que tanto em um caso como em outro estamos falando de bens indiferenciados (commodities) cuja cotação é determinada internacionalmente em mercados que se aproximam da situação teórica de concorrência perfeita. Portanto, na realidade, ninguém, muito menos o governo, “escolhe” de quem o país irá comprar baseando-se em critérios ideológicos. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais desses bens, e, por isso, foi beneficiado enormemente pela explosão na demanda por eles que o crescimento chinês proporcionou. Não fosse por esse crescimento, o Brasil seria hoje um país muito mais pobre, viveria crises recorrentes em suas contas externas e a formidável expansão do agronegócio — ironicamente umas das principais bases de apoio do governo Bolsonaro — jamais teria acontecido. Fica, então, a pergunta: já que Olavo acredita que o comércio com a China é “escravidão” e propõe que ele cesse — já que supostamente decorre apenas de uma “vantagem política” que irá acabar com o governo Bolsonaro — qual é a alternativa que sugere ao Brasil? Devemos esperar que “o Trump” venha comprar a nossa soja e o nosso minério, uma vez que a China saia de cena? Ou devemos aceitar ficar muito mais pobres, apenas para nos preservarmos de qualquer contato comercial com o perigoso “esquema russo-chinês”?

O show de absurdos não acaba aí. Pouco depois, Olavo afirma que a riqueza da China é “quase toda construída com dinheiro americano”. Ora, seria um exagero, porém mais próximo da verdade, dizer que isso é o inverso do que realmente ocorre. Pois são os Estados Unidos que têm déficits imensos em transações correntes há mais de 30 anos, beneficiando-se do privilégio exorbitante de serem os emissores da moeda de reserva internacional (Dólar). Isso significa, em jargão econômico, que os norte-americanos dependem da absorção de poupança externa para fechar suas contas e financiar seu crescimento. A China, em contraste, é um dos países que mais poupam no mundo; exatamente por isso se tornou exportador de capitais e está comprando tantos ativos em outros países. Em outras palavras, boa parte do consumismo norte-americano, frequentemente exaltado pelo senhor Olavo de Carvalho, é pago por poupança do resto do mundo, principalmente da China. É essa a razão, aliás, de os chineses serem hoje os maiores credores da dívida norte-americana. Mais uma vez, o oráculo da Virgínia demonstra a cegueira decorrente de seu fanatismo americanófilo e liberal-conservador, distorcendo os fatos com uma cara-de-pau impressionante.

Outro momento curioso da entrevista vem em seguida, quando Olavo afirma, indignado, que a China está “comprando o Brasil a preço de banana”. Aqui, pela primeira vez, estou de acordo com ele, ao menos no sentimento: de fato estamos criando um passivo preocupante com o país asiático. Porém, vindo de um defensor radical do governo Bolsonaro e de sua agenda de privatizações e liberalização econômica, essa preocupação é no mínimo intrigante. Afinal, quando se coloca à venda um ativo — ainda mais um ativo público, supostamente sujeito à impessoalidade do Estado — o comprador é aquele que dispõe de capital suficiente e oferece o melhor preço. Sendo o objetivo declarado da política econômica “atrair investimentos” — apresentados como a panacéia para os nossos problemas — o apetite dos capitais chineses merecia ser comemorado, não lamentado! Vejam, caros leitores, a irracionalidade (ou cinismo) dos atuais governistas brasileiros: colocam o país à venda e, em seguida, reclamam que ele está sendo comprado! Aparentemente, Olavo deseja criar uma regra ad hoc segundo a qual os capitalistas chineses, especificamente, ficariam impedidos de comprar estatais e ativos privados brasileiros. Só capitais “do bem” — suponho que norte-americanos e israelenses — seriam bem-vindos. Com a sua paranoia antichinesa, Olavo favorece os interesses norte-americanos e omite o que realmente está em jogo: não só “a China”, mas capitalistas de diversos países, estão “comprando o Brasil a preço de banana” pelo fato de terem a visão estratégia e de longo prazo que nossos governantes não têm.

Olavo de Carvalho não faz ideia do que está falando. Está  apenas empenhado, como sempre, em promover os interesses da pátria norte-americana que escolheu para si, agindo sem qualquer pudor, respeito pela realidade ou humildade intelectual. É — reitero — um homem intelectualmente desonesto segundo sua própria definição do termo. Em situações normais, seria merecedor apenas de risadas, mas, em vista do gravíssimo perigo que representa sua influência desmedida no atual momento brasileiro, não resta alternativa senão respondê-lo com seus próprios métodos:

CALA A BOCA, BURRO!


Ricardo Carvalho é economista formado pela Universidade de São Paulo (USP).

A sociedade capitalista liberal é inorgânica

Arthur Rizzi*

Estive por esses dias apreciando a obra “Mas alla de la oferta y la demanda” de Wilhelm Röpke, obra cujo título em inglês é “A Humane Economy”. E lá pelas tantas, quase ao fim do livro, percebi um curioso paradoxo que o próprio Röpke não se deu conta.

Enquanto o alemão criticava a universalidade do sistema de saúde inglês, ele elencou um grupo de medidas que tornariam no parecer dele, o sistema do NHS mais subsidiário. Não custa lembrar que Röpke, um luterano, era uma curiosa fusão de Maritain e Edmund Burke.

Diz o ordoliberal na página 219:

En la mayoria de los casos es tan agudo, que es preciso esforzarse por normalizarlo, através de los seguientes procedimientos: primero, limitando el seguro obligatorio de enfermidad a aquellas esferas para las cuales el riesgo constituye realmente una pesada carga y a las cuales dificilmente podria convencérseles para que se asegurasen voluntariamente; en segundo lugar, favoreciendo las infinitas formas de asistencia médica descentralizadas, de las cuales puede servir Suiza como muestra; y en tercer término,mediante la introducción de una notable participación própia, de la cual puede restarse sin dificultad todos los inconvenientes del caso particular.

Ora, para estabelecer tais procedimentos, ao invés de se simplificar o sistema, tornar-se-ia ele ainda mais burocrático. A medida 1 e a medida 3, por exemplo, demandaria que o Estado, através dos mecanismos do imposto de renda, separasse a população em função da renda, escalonando-as em quem pode usar os serviços e quanto deve pagar (ou se não deve pagar pelo serviço), e quem seria obrigado a contratar um serviço privado ou não.

Isso demandaria uma rede de fiscalização cartorial, verdadeiros “pentes finos” periódicos para evitar fraudes, bem como uma tremenda papelada. O segundo ponto demandaria uma rede de fiscais de contratos com clínicas e hospitais particulares, para ver a licitude e probidade na gestão dos contratos, bem como fiscalizar a qualidade do atendimento.

Em outras palavras, longe de fazer o sistema mais orgânico, a subsidiariedade tornaria-o mais burocrático. Um sistema universalizado, na verdade, exigira apenas a burocracia da gestão dos hospitais, clínicas e serviços, dispensando toda a parafernalha burocrática de classificação por renda, recebimento de parcelas, etc. Em outras palavras, na sociedade liberal, em alguns casos a aplicação de medidas de subsidiariedade tornam o sistema mais inorgânico.

Por que este paradoxo? A razão é simples, e sem perceber, o próprio Röpke a descreve no capitulo 1 do livro. Vivemos numa sociedade de massa que só foi possível pelo advento do capitalismo liberal. As sociedades do antigo regime e medieval eram personalistas, o senhor feudal conhecia o servo da gleba, sua família e suas necessidades, bem como o rei conhecia seus nobres e suas necessidades. Assim, o sistema era subsidiário e orgânico,e isso era possível porque o capital e o trabalho, quer no campo, quer nos burgos, através das guildas não estavam totalmente separados.

Com a radical separação entre capital e trabalho diagnosticada por G.K. Chesterton e Hillaire Belloc, ainda com a dissolução das guildas e o cercamento dos campos (privatização das terras comunais), aliado a uma produção em massa, surge necessariamente uma sociedade de massas. Os produtos do trabalho humano (e não apenas o próprio trabalho em si), deixam de ser uma vocatio (vocação) como dizia Weaver, para ser uma espece de tarefa inglória. As roupas antes feitas para alguém por um alfaiate, com as preferências pessoais de uma pessoa específica, agora tornam-se roupas padronizadas, com logos, dizeres, desenhos das grandes marcas.

As próprias relações laborais não mais se dão entre um senhor que conhece seu súdito, mas sim entre o patrão e uma massa de proletários sem rosto, aos quais ele desconhece a maioria e com alto grau de rotatividade no posto, dado que a produtividade marginal do trabalho individual de um funcionário não é muito diferente da de outro. É justamente por isso que as leis trabalhistas são demandadas, para impedir que desse relacionamento sem face, surjam abusos. Inclusive, dizem alguns psicólogos, que é muito mais fácil matar alguém se você não ver o rosto da pessoa.

Se para ganhar o pão é necessário burocracia para humanizar as coisas, por que não seria no atendimento médico? Outro dado curioso. A burocratização de certos setores, ao diminuir a rotatividade dos postos de trabalho, forçam o patrão a investir na produtividade do funcionário com cursos técnicos e profissionalizantes, e por acostumar-se com a mesma pessoa por anos a fio na mesma empresa, isso leva, por vezes, o patrão a conhecer melhor seu trabalhador. Em outras palavras, nem sempre a burocracia joga contra a organicidade das relações sociais.

É óbvio que o princípio da subsidiariedade deve ser atendido, mas somente quando ser subsidiário significa ser mais orgânico – e isso atende claramente a DSI. Em alguns casos, ser subsidiário significa apenas ser liberal, burocrático e racionalista e não personalista. Aliás, o próprio Papa João XXIII o diz na encíclica Mater et Magistra: Que se a socialização de serviços significar menos fiscalismos rigoristas, ela é desejável.

*Arthur Rizzi é contribuinte oficial do Reação, é graduado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e em pedagogia pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.

Não há uma terceira via?

Este texto é uma tradução do texto "No third way" feita pelo amigo Guilherme Pöttker.
Liberais econômicos na Igreja Católica freqüentemente citam a encíclica social Centesimus Annus (doravante, CA) do Papa São João Paulo II para afirmar que a Doutrina Social da Igreja Católica não é uma “terceira via” entre e além do comunismo/socialismo e o capitalismo. Na verdade, depois da publicação da CA, o falecido Pe. Richard John Neuhaus, escrevendo para The Wall Street Journal, chamou essa perspectiva de terceira via de “um sério erro”. No vigésimo aniversário da encíclica, George Weigel triumfantemente proclamou na First Things que a CA “abandonou fantasias de ‘terceira via católica”. Posto que a expressão “terceira via” não aparece em lugar algum da CA, a base textual dessa afirmação é questionável. Geralmente, os liberais econômicos citam o seguinte:
« Voltando agora à questão inicial, pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos Países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos Países do Terceiro Mundo, que procuram a estrada do verdadeiro progresso económico e civil?

EUA-BRA

 

A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por «capitalismo» se indica um sistema económico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no sector da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de «economia de empresa», ou de «economia de mercado», ou simplesmente de «economia livre». Mas se por «capitalismo» se entende um sistema onde a liberdade no sector da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa. (…)(§42)

 

 

A Igreja não tem modelos a propor. Os modelos reais e eficazes poderão nascer apenas no quadro das diversas situações históricas, graças ao esforço dos responsáveis que enfrentam os problemas concretos em todos os seus aspectos sociais, económicos, políticos e culturais que se entrelaçam mutuamente [84]. A esse empenhamento, a Igreja oferece, como orientação ideal indispensável, a própria doutrina social que — como se disse — reconhece o valor positivo do mercado e da empresa, mas indica ao mesmo tempo a necessidade de que estes sejam orientados para o bem comum.(…)(§43) »

 

 
O problema com essa e outras passagens da CA que superficialmente parecem endossar o capitalismo de livre mercado é que elas são freqüentemente divorciadas do resto do texto e, de facto, do resto do magistério social da Igreja. Como escreve Thomas Storck no seu excelente ‘What Does Centesimus Annus Really Teach?’ (N.T.:’O que a Centesimus Annus Realmente Ensina?’), publicado no Distributist Review em 21 de Fevereiro de 2009, essas passagens não endossam a plenos pulmões o capitalismo desregulado, e, na verdade, o texto da CA indica que o ocaso do socialismo não implica o triunfo do capitalismo. Eis o que afirma Storck:

« Relevante a isto também é a seguinte passagem ignorada na Centesimus, que realmente esclarece que João Paulo não decidiu que a opção capitalista é a única que restou: “Como vimos lá atrás, é inaceitável a afirmação de que a derrocada do denominado «socialismo real» deixe o capitalismo como único modelo de organização económica.” Na verdade, se alguma economia atual é elogiada na Centesimus Annus, é a “economia social de mercado” da Alemanha Ocidental. »

Richard Aleman, noutro texto excelente, ‘The Continuity of Centesimus Annus’ (NT.: ‘A Continuidade de Centesimus Annus’), publicada no Distributist Review em 22 de Setembro de 2011, põe à prova aquela supracitada alegação de Weigel, argumentando, contra os liberais econômicos, que a CA é uma continuação do magistério dos Papas Leão XIII e Pio XI, ao invés de uma ruptura radical. Ao fazê-lo, Aleman permanece fiel ao chamado do Papa Emérito Bento XVI à leitura do magistério da Igreja segundo uma hermenêutica de continuidade. Em que pese muitos liberais econômicos insistam que esse é o modo correto de interpretar o Concílio Vaticano II, muitos parecem implicitamente rejeitar tal hermenêutica na esfera social. Por quê? Seria porque pontífice algum jamais aceitou a sua cosmovisão liberal, que totaliza o mercado e alega – falsamente – que as “descobertas” da “ciência econômica” superam as prescrições morais da Santa Igreja Católica? Qualquer que seja seu raciocínio, persiste o facto de que liberais econômicos, mais do que nunca, estão-se esforçando para manter a aparente pureza de suas questionáveis doutrinas a despeito de freqüentes lembranças pelo Papa Francisco de que a lógica da ganância, amparada numa perspectiva utilitarista, não é aceitável em um mundo onde Deus ainda reina como Senhor e Rei.

A heresia liberal

O texto a seguir é um excerto da obra de Perillo Gomes, “O liberalismo, escrito em 1933. O autor, um renomado tradicionalista católico de seu tempo, escreveu e atuou por muitos anos no Centro Dom Vital ao lado de outros grandes tradicionalistas brasileiros como Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, Jackson de Figueiredo entre outros. Na transcrição trouxe o texto para as normas ortográficas vigentes.

NdT = Nota do transcritor

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Liberal é o termo de maior prestígio em nosso meio. Para muitos ele define o nosso carácter, o espírito das nossas instituições, no Império e na República. Por sua causa somos capazes de todos os extravasamentos de sensibilidade, do entusiasmo à indignação ou aos acessos de ternura feminina. Liberal é sem dúvida a palavra de maior cotação de nosso vocabulário. Tudo se pode dizer impunemente de um homem público no Brasil. Muitos são insensíveis ao insulto. Alguns indiferentes a lisonja. Nenhum, porém, a sangue frio, suporta a acusação de não ser liberal.

Deste modo, neste país, são liberais o governo e a oposição, a lei que escorcha o contribuinte e o cidadão que sonega o imposto ao Estado. O cientista, o literato, o militar, os financistas, os poetas, os demagogos, os investigadores de polícia, honrados comerciantes desta praça, em suma, todo mundo é liberal.

Certa vez em pleno Senado da República, um jovem licurgo arriscou uma frase imprudente: declarou que no mundo moderno não havia mais lugar para os liberais. Foi este um dia tempestuoso na câmara alta. Todas as fisionomias, de súbito, se fecharam. Houve um momento grave de concentração, desses que pronunciam os grandes acontecimentos e, a seguir, uma violenta explosão de protestos indignados. Felizmente ainda a tempo interviram pessoas cautelosas. E o jovem senador veio à tribuna para dar uma explicação reconciliadora: ele dissera que não havia mais lugar para os liberais porque os liberais já se tinham apossado de todos os lugares! Houve aplausos nas galerias, emoção no recinto e o orador foi cumprimentado…

Não seria fácil encontrar senão motivos psicológicos para explicar a nossa fascinação com o vocábulo liberal. O Padre At, a propósito da liberdade, fez a seguinte reflexão, que tanto agradou a Pierre Christian: Nous nous chargeons, sans talisman, dé degriser les trois quarts des démocrates de leru engouement pour la liberté, le moyen est très simple, c’est la definition même de la liberté.”

Ora, esta reflexão se aplica á merveile, ao nosso caso. Nós somos liberais, na generalidade, sem termos tentado sequer, um esforço para definir a palavra que tanto nos seduz, isto é, sem indagarmos da natureza das ideias que ela implica, de onde se originam essas ideias e que especie de consequências podem autorizar.

De que isso não é mera suposição, basta-nos dizer que, praticamente, tomando como campo de observação, para exemplificar, o meio político, não há diferença essencial na ação dos nossos homens de Estado. Com efeito os mais comprometidos com a opinião pública, no período da sua doutrinação, pelo sustentáculo do programa liberal, nas promessas de acatamento a todas as liberdades, uma vez investidos do mando pouco diferem dos que são apontados à ira da populaça sob a injuriosa alcunha de reacionários. Tentar uma definição do termo liberal, no seu sentido filosófico, depois do exposto, é uma necessidade, mesmo porque estamos certos de que a sua voga se funda, principalmente na ideia imprecisa que, em geral, existe  seu respeito.

Liberal é um adjetivo. Significa a qualidade do que, do ponto de vista das ideias aceitou os princípios do liberalismo. De modo que em ultima análise, a definição que interessa é a do liberalismo. Vejamos a que nos propõe Dom Felix Sarde y Salvany: “Na ordem das ideias, o liberalismo é o conjunto do que se chama princípios liberais.”

Os princípios liberais são: a soberania absoluta do indivíduo, a soberania absoluta da sociedade, a soberania nacional, a liberdade absoluta de imprensa e a liberdade absoluta de associação.

A esse conjunto de liberdades se dá também o nome de liberdades modernas. Se se quiser investigar um pouco mais o assunto, na questão de nomenclatura, pode-se verificar que essas liberdades foram por Pio IX catalogadas no Syllabus errorum sob o rótulo de erros modernos. Conservemos contudo, para não maltratar demasiadamente a sensibilidade indígena, a classificação amável de liberdades modernas. Essas liberdades em substância, são modalidades de um programa radical de emancipação do homem. 

O homem nasce livre. E é originariamente bom. A sociedade é o que o perverte e o degrada. Deste modo justo é que se liberte de tudo, de todos os laços políticos, históricos, religiosos, sentimentais, inclusive os que se prendem aos seus ascendentes e à sua prole, e o solidarizam com qualquer instituição corporativa, histórica ou política que possa limitar a sua liberdade. 

Tratando das suas origens, Pio IX é categórico no Syllabus, na infomação que nos dá: essas liberdades provem de teses fundamentais da revolução luterana e propagaram-se pelo mundo graças aos pseudo-filósofos da enciclopédia no século XVIII e triunfaram com a revolução francesa. Se desejar investigar sua origem mais remota chegar-se-á ao ponto inicial de todas as negações e de todas as revoltas: o grito de soberba de um anjo rebelado.

O que caracteriza, com efeito, essas liberdades é a revolta. revolta do indivíduo contra a autoridade de Deus e de toda influência disciplinadora do seu pensamento e dos seus apetites; revolta da sociedade contra toda limitação em nome das realidades de ordem transcendente. e de direitos extra-naturais. Anarquia, portanto, das consciências, desordem política e despotismo: Em conclusão: bolchevismo. Ao menos por definição existem duas formulas de liberalismo: um radical e um moderado. O radical não só afirma a inteira, a absoluta independência do homem e da sociedade em relação a tudo que está fora de si mesmo, como incita que se combata toda influência natural ou sobrenatural tendente a limitar a sua expansão.

liberalismo radical é ostensivamente ateu, anticlerical, demagógico e revolucionário. Como expressão política proclama a supremacia do estado sobre o indivíduo e as corporações de qualquer natureza. O liberalismo moderado (NdT: ou conservador) tenta uma fórmula de conciliação entre os princípios do liberalismo radical e a coexistência do sobrenatural, determinando na vida do homem um dualismo fundamental: de um lado as atividades da fé e de outro as cognoscitivas, cívicas, utilitárias, etc. A razão, portanto, nada tem a ver com a revelação; os dois planos da vida, o natural e o sobrenatural são independentes entre si, como dois departamentos estanques.


Sua fórmula política é a igualdade entre os poderes espirituais e temporais, essa pretensa igualdade em si mesmo já é uma heresia. Não é possível nivelar a vida religiosa, que interessa a vida futura do homem – sua vida verdadeira –  àquela a que estão confiados apenas os seus interesses imediatos, tangíveis, transitórios. Além disso essa declaração de igualdade é puramente teórica, não corresponde à realidade, porque não podendo existir dois poderes autônomos, absolutos, interessando ao mesmo indivíduo, daí resulta que na prática o Estado, sob alegação de que lhe cabe a função de mantenedor da ordem, impõe a Igreja as soluções que bem lhe parecem. Daí os conflitos que se verificam entre a Igreja e as liberdades modernas.


Esse conflito está na lógica mesma dos princípios que a Igreja e as referidas liberdades representam. A Igreja pugna pela mais intolerante das verdades: a verdade religiosa. O liberalismo desconhece ou opõe-se a existência dessa verdade. A Igreja põe Deus como fundamento e alvo dos nossos atos. O liberalismo parte da negação de Deus ou da indiferença religiosa para concluir pela felicidade puramente temporal do indivíduo ou da sociedade. A Igreja subordina o homem e a sociedade a Deus. O liberalismo pretende subtrair ao homem e a sociedade o Império do Criador. Um conflito de princípios não pode se restringir a um campo teórico, necessariamente tende a se objetivar.


De modo que a oposição dos princípios que informam a doutrina católica e a doutrina liberal, gera fatalmente a luta em que duas forças se degladiam. Constitui mesmo a história de todas as contendas presentes, passadas e futuras da sociedade. Proudhon não pode ocultar que no fundo de todas as disputas políticas exite uma questão teológica. Com efeito, tudo quanto pretende fornecer ao homem norma de conduta e conduzi-lo para um ideal de amor, de paz, de glória ou de felicidade, tudo, direta ou indiretamente, vai atingir a Igreja na sua doutrina e no seu apostolado. 


Compreende-se porque as chamadas  liberdades modernas favorecem todas as liberdades com exclusão das liberdades católicas.

A revolução é capitalista e liberal

Pedro Ribeiro*

De todos os fenômenos do mundo moderno, nenhum provavelmente é mais corrosivo para as relações sociais do que o capitalismo liberal. Isto não é um aspecto secundário e acidental ao sistema, mas intrínseco a ele.

De fato, diferente de todos os sistemas econômicos anteriores, a ordem liberal, definitivamente vitoriosa após a industrialização do século XVIII, não encontra maiores dificuldades em produzir o necessário para a subsistência das pessoas. Ao contrário, o que ela faz é produzir em excesso, ao extremo [na última vez em que pesquisei sobre o assunto, descobri que o mundo hoje produz sete vezes mais alimentos do que o necessário para toda a população mundial… E há gente que passa fome].

Se à primeira vista isto parece formidável e estupendo, e de fato é, sob certo aspecto, por outro lado, a superprodução capitalista traz consigo um grave problema, que é escoar todo esse excedente. E como é que os empresários fazem isso? Simples. Através da publicidade, da propaganda de massa. Se há hiperprodução, o único jeito de não haver falência econômica, é se houver hiperconsumo, estimulado pela propaganda.

É, por isto que, como já ensinaram os frankfurtianos [e aqui a Escola de Frankfurt, pense-se o que se quiser, é muito útil], o consumismo e o hedonismo não acompanham por acaso a ordem capitalista liberal, mas são sua consequência necessária. Com efeito, como há de sobreviver e não falir um sistema de superprodução senão induzindo, via mídia, um superconsumo? Como vai sobreviver um sistema que produz sete vezes mas alimentos do que o preciso, senão produzindo uma multidão de obesos? Como vai sobreviver um sistema de avanço tecnológico endêmico senão por meio de zumbis viciados em internet e redes sociais [e, sob este aspecto, definitivamente, os ouvidos mais próximos de minha boca são os meus]?

O problema, porém, é ainda maior do que o consumismo estritamente econômico. Em verdade, a maior desgraça do consumismo talvez não seja ele próprio, em sua seara própria, mas o modo como ele se espraia e modula todas as demais relações humanas [a respeito, ver Bauman]. Vemos assim o consumismo tornar-se a lógica operativa da religião, com a proliferação de grupos espirituais que vêem em Deus acima de tudo o milagreiro, o que me faz parar de sofrer, o que me arranja um emprego, o que me faz vencer na vida. Do mesmo modo, a lógica de consumo se apropriou inteiramente das relações afetivas: o amor não mais entendido, nem remotamente, como doação e compromisso, mas sempre como prazer egoísta; o divórcio não apenas tolerado quando inevitável (caso de violência doméstica, etc.), mas visto como destino normal e banal de qualquer relacionamento. O que é o Tinder senão a prova viva da lógica de consumo se apropriando dos relacionamentos, com cada um tratando a si mesmo apenas como um produto a ser adquirido (e que deve, portanto, ter uma “boa imagem”), bem como tratando o outro igualmente como produto, avaliado como se avalia carne no açougue? [E não, não há aqui uma avaliação moralista do que cada um faz de sua vida, mas um diagnóstico sociológico geral]

Por tudo isto, a superação do capitalismo liberal (em primeiro lugar, rumo a uma economia social de mercado, mas, a longo prazo, sempre tendo em vista a construção de uma ordem econômica solidarista/distributista/comunitária) não é apenas um desejo ou uma boa idéia, mas um imperativo ético fundamental e inegociável [e eu peço encarecidamente que quem pensar que eu estou fazendo apologia do socialismo vá catar coquinhos].

Como diz o Papa Francisco, “esta economia mata”. Ou a matamos, pois, ou morremos nós.

*Pedro Ribeiro é bacharel e mestrando em filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), neotomista, estudioso e admirador de Jacques Maritain.

O mal menor – Eleição 2018

Muito se ouve falar em meios eclesiais em “votar no mal menor”, contudo, temos que nos lembrar que num mundo que já não conta mais com o reinado social de Cristo, escolher em eleições o caminho menos ofensivo á Doutrina Social da Igreja nem sempre é tarefa fácil. Primeiro porque nem sempre aquilo que um candidato diz em debate, em propaganda ou no seu programa de governo é necessariamente verdade. Segundo, porque em geral, todas as doutrinas políticas em voga (quando se tem alguma, pelo menos) são heréticas, de modo que escolher o mal menor nem sempre é algo que se visualiza num primeiro olhar.

Desde 2002 o Brasil passa por um momento muito esquerdista, com propaganda comunista às claras e o PT só não conseguiu chegar efetivamente ao socialismo – que deveria ser aplicado segundo os cânones do modelo bolivariano aplicado na Venezuela – porque não conseguiu desmontar a máquina fisiológica e matreira da dupla PMDB-PP. Dupla maquiavélica não no sentido pejorativo de maldoso, mas sim no sentido filosófico da palavra. Todo fisiologismo é um adesismo do poder, que é visto ou como fim em si mesmo, ou como meio de saquear o povo e pô-lo ao seu serviço. Seja de uma forma ou de outra, Santo Tomás de Aquino no De regimine principum (De regno) já havia demonstrado que estas são formas degeneradas de governo, pois não têm como fim o bem comum.

Além do mais, o socialismo já foi criticado em inúmeras encíclicas, seja como ideia ou ideologia, seja como caso concreto; através do qual posso citar tanto a Divini Redemptoris de Pio XI, ou ainda o Decretum contra communismum do Papa Pio XII, quanto na Notre Charge Apostolique em que há a condenação da parte de Pio X a um caso concreto na França de um movimento “socialista cristão”, o Sillón. Felizmente, a partir das afamadas “Jornadas de Junho” em 2013, o quadro começou a mudar.

Mas será que a alternativa que nasceu de 2013 que levaria aos protestos de 2015 e ao impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff e o fim de 13 anos de petismo representa o mal menor? Se observado em termos relativos, sim, sem dúvidas! Não há dúvidas de que EM CERTO SENTIDO MATERIAL a coalizão liberal formada pelo MBL, pelo EPL e pelos think tanks liberais como o Instituto Mises Brasil são menos ruins que o comunismo e o socialismo. Mas eles NÃO são o que há de menos ruim a disposição. Muitos ditos católicos são libertários ou liberais clássicos, adeptos do laissez faire promovido pelos supracitados grupos. Se esquecem, contudo, de que a Igreja condena fortemente o liberalismo, basta consultar as encíclicas Mirari Vos do papa Gregório XVI, Quanta Cura e Syllabus de Pio IX, Rerum Novarum de Leão XIII e Ubi arcano Dei consilio de Pio XI. E como já mostrei neste artigo que traduzi para a The Distributist Review, tal orientação não mudou após o Concílio Vaticano II. O papa Francisco outro dia mesmo reafirmou isso em advertência à vários bispos.

Ora, se liberais não são o caminho, qual é o caminho então? Depende! No Brasil temos hoje pelo menos quatro formas de pensar a política e especialmente a economia. Temos a decadente via socialista/comunista, que como já vimos é anticristã e quem a defende sabendo de todas as implicações filosóficas do marxismo, acaba excomungado lata sententiae. O liberalismo não está muito atrás, razão pela qual o muito prestigiado historiador Thomas Woods Jr; que escreveu o bom livro “Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental“, acabou se tornando persona non grata para os católicos americanos, ao desdenhar e torcer e retorcer a lógica para inserir o liberalismo dentro da DSI e da escolástica, como em “The Church and the market“. Consta que recentemente o mesmo desistiu disso e passou a desdenhar a própria doutrina social e, inclusive, negar a infalibilidade papal nessa matéria. O que é muito triste, mas não deixa de ser uma amostra do que a adesão ao liberalismo pode fazer com um cristão. Para quem quiser mais informações a respeito, recomendo a excelente obra de Christopher A. Ferrara, “The Church and the libertarian” onde se refutam todas as falácias heréticas de Woods.

As outras duas alternativas que sobram é a economia social de mercado e um vago consenso keynesiano à brasileira (um nacional-desenvolvimentismo fiscalmente responsável). Os partidos que defendem uma terceira via econômica, a economia social de mercado são, a saber, o PSDB, o DC, o PSC, o PSL o PRB, o PHS e o DEM. O primeiro tem uma visão correta da economia, mas é adepto do progressismo moral. Pautas como aborto, casamento homossexual, liberação da maconha, entre outras coisas nos impedem de aderir a este partido excepto em último caso. O DEM parece ter uma visão menos progressista nessa matéria e sua proposta é de terceira via, e, portanto, pode ser uma alternativa factual. O problema, porém, é que o partido está quase sempre numa coligação com o PSDB, o que inviabiliza sua candidatura não só a pleitos nacionais, da qual não participa independentemente a mais de 25 anos, mas também em locais, onde quase sempre está a reboque dos tucanos.

PSC, PSL PRB, PRTB, Patri, PHS e DC são os partidos que mais têm compromisso com pautas cristãs, o primeiro, porém, está cada vez mais adepto do liberalismo econômico e é dominado por evangélicos, mas se constitui ainda assim, num mal menor. A sua adesão gradativa a um liberalismo econômico cada vez mais radical é preocupante, contudo.O PSL de Bolsonaro é a mesma coisa, talvez até pior pois o liberalismo é mais escancarado. Contudo, muito se questiona acerca do quão longe vai esse affair Paulo Guedes e Bolsonaro. Um affair que ninguém pediu, que ninguém queria, e que se Deus quiser vaia acabar. PHS e DC mantêm suas bandeiras tradicionais, mas são partidos nanicos e de nicho, o que torna difícil que alguém proponha uma economia social de mercado com chances reais de vencer. Mas se você tiver a sorte de encontrar os dois últimos em pleitos independentes, vote neles. O caso do PRB é ainda mais complicado, pois é um partido associado à tenebrosa igreja Universal do reino de Deus do bispo Macedo. O PRB, ainda por cima se afasta um pouco da ESM em sua doutrina econômica, já que tende mais a um keynesianismo vulgar do que à terceira via.  Contudo, todos os quatro, em vista de socialistas do PT, PSOL, PCdoB e ultraliberais como os candidatos do MBL, do NOVO são males menores.

A economia social de mercado tem sido a única apoiada pela Igreja de maneira mais enfática dentro do capitalismo, tanto o papa Francisco, como João Paulo II, segundo Thomas Storck, professor de Doutrina Social da Igreja, a tem apoiado formalmente.

PMDB, PSD, PP, SD, o PRTB, o Patri além de outros partidos são adeptos do pensamento keynesiano; PMDB, PSD e SD são novos keynesianos, PP, herdeiro da ARENA, é adepto do “desenvolvimentismo conservador”, razão pela qual foi talvez um dos maiores adeptos do social-desenvolvimentismo que o PT implantou a partir do segundo governo Lula. O PRTB, em coligação com o PSL, e o Patri despontam como um nacionalismos de direita keynesianos, são alternativas que se afastam da ESM, mas são ainda assim aceitáveis. O pensamento keynesiano está um pouco afastado da DSI quando comparado à economia social de mercado, mas na sua versão novo-keynesiana é aceitável e têm pontos de intersecção muito interessantes. O keynesianismo desenvolvimentista se afasta um pouco mais e, portanto, só deve ser escolhido caso as alternativas seja o socialismo/comunismo ou o liberalismo radical. Há ainda, uma vertente que, com os devidos ajustes é similar ao novo-keynesianismo.

Portanto, votos para a presidência em Bolsonaro (PSL), Cabo Daciolo (Patri) e Eymael (DC) são votos justificados moralmente, não obstante apenas o voto em Jair Bolsonaro ser recomendável na situação presente, por sua situação mais favorável no pleito político. Contudo, quem quer que se decida pelos dois primeiros não está de modo algum, deslegitimado.

O professor de teologia moral da Universidade do Texas e especialista em Doutrina Social da Igreja, John Médaille, em seu artigo para a The Distributist Review, The Politics of Ingratitude“, pontuou que o católico entre um liberal clássico e um keynesiano moderado ou entre um socialista/comunista e um keynesiano moderado ou desenvolvimentista, deve optar pelo keynesiano, pois se ele erra no entendimento do bem comum pelos princípios utilitários, ao menos acerta nos fins e nas intenções.

Pobreza é importante, desigualdade também.

Créditos à Zona Curva pela imagem.

Arthur Rizzi*

Muitas vezes vejo os amigos da “direita mainstream” que ao invés de aderir a uma forma  de economia preocupada com o social, como por exemplo o distributismo ou a Economia Social de Mercado, aderem ao liberalismo radical dizerem: “O problema não é a desigualdade, e sim a pobreza!“.

É verdade, mas apenas em parte. Isto é, a desigualdade causa sim problemas. Quando o montante da renda nacional está majoritariamente acumulada nas mãos de um pequeno grupo detêm o capital e aqueles que dependem dos salários ficam com uma porção consideravelmente menor, você tem problemas com a demanda agregada.

Isto é, o empregado tem poder de compra reduzido em face do poder de produzir do “capitalista”, o resultado é que nem tudo é vendido e, com o declínio de preços subsequente, o custo de oportunidade para produzir medido por uma grandeza chamada eficiência marginal do capital se torna desfavorável, levando a paralisação da atividade produtiva e ao corte de gastos pra equilibrar orçamentos. Tais cortes de gastos advém das demissões, o que, na ausência de salários cria maior ausência de consumo e, logo, piora a recessão.

Os fatores de produção aceitos pela economia clássica são, a saber, trabalho, terra e capital. Como Alessandro Roncaglia (1979, p.87) demonstra, a eficiência do sistema produtivo, e até a determinação dos preços  depende necessariamente de como o excedente é distribuído entre as classes sociais; se a remuneração do fator trabalho, ou do fator terra, ou do fator capital forem muito desproporcionais, a eficiência do sistema produtivo fica comprometido. Isso é importante frisar, pois, nenhum sistema econômico existe in abstracto, praxeologicamente. Eles existem na realidade, e por um conjunto de fatores históricos, culturais, institucionais, é necessário analisar nessa sociedade concreta o como a renda está distribuída entre as classes. Assim, mudanças na distribuição de renda afetam os preços ao consumidor, pois afetam as possibilidades de consumo e de oferta.

O princípio da utilidade ordinal simplesmente impede a quantificação das valorações subjetivas dos indivíduos, de modo que determinar essas coisas abstratamente é impossível. O fato é que a posição social de um indivíduo oferece certas limitações às suas possibilidades, de modo tal que não se pode dizer que é a busca puramente individual e anárquica dos indivíduos com valorações subjetivas que determinam pura e simplesmente o nível geral de preços, mas também como os condicionantes reais de um dada sociedade, cultura e instituições numa dada época os impelem a tomar certas decisões. E a partir daí é possível mais ou menos traçar quais são os padrões médios de consumo e, dessa forma, traçar políticas distributivas. Em outras palavras, em certos arranjos societários, políticas distributivas e reformas institucionais que permitam um maior equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada aumentam a eficiência do capitalismo.

Isto assim é, pois como já demonstrado por keynesianos como Roncaglia, por distributistas como John Médaille e até mesmo alguns ordoliberais como Wilhelm Röpke, a lei de Say – se ela existe – é só parcialmente válida. Isto é, ela é criada pelas instituições e sua validade depende das mesmas. No coração da lei de Say existe a teoria incerta e muito provavelmente falsa da taxa natural de juros, que pela sua própria condição de incognoscibilidade faz com que, na verdade, as taxas de juros sejam valores quase arbitrários como já dizia Delfim Netto.

A economia capitalista apresenta tais problemas com recessões e depressões causadas por insuficiência de demanda, não (apenas e nem em todos os casos) por ação estatal always and always como pregam os austríacos, mas sim pelo seu problema fundamental diagnostificado por Chesterton: “Muito capitalismo não significa muitos capitalistas, mas muito poucos“. Isto é, o capitalismo é baseado numa plutocracia da qual a maior parte da sociedade está destituída de qualquer capital, ao passo que poucos tem capital. Esta distinção faz com que a desigualdade natural do processo econômico na qual o capital recebe o seu pagamento mais o seu excedente como recompensa por poupar, se torne uma transferência brutal de recursos que poderiam ser parte do consumo do trabalhador.

*Arthur Rizzi é colaborador oficial, é graduado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e é estudante de história econômica.