O governo americano interveio na recessão de 1920

O texto a seguir é uma tradução adaptada de Social Democracy in 21st century feita por Reação Nacional.

Os EUA tiveram uma recessão entre janeiro de 1920 e julho de 1921. Os austríacos estão sempre tagarelando sobre isso, chamando-a (incorretamente) de depressão e argumentando que isso mostra como os mercados livres podem “rapidamente” acabar com recessões / depressões deflacionárias. Isso já foi refutado várias vezes.

Sabemos que a recuperação começou em agosto de 1921 e continuou em 1922.

O desenvolvimento e a força dessa recuperação tiveram algo a ver com não intervenção do Estado? Vejamos o que Murray Rothbard diz:

“As reservas dos bancos membros aumentaram durante a década de 1920 em grande parte em três grandes surtos – um em 1922, um em 1924 e o terceiro na segunda metade de 1927. Em cada um desses surtos, as compras de títulos do governo pelo Federal Reserve desempenharam um papel de liderança. As compras e vendas de títulos do governo em operações de “mercado aberto” só surgiram como um fator crucial no controle monetário do Federal Reserve durante a década de 1920. O processo começou quando o Federal Reserve triplicou seu estoque de títulos do governo de novembro de 1921 a junho de 1922 (suas participações totalizaram US $ 193 milhões no final de outubro e US $ 603 milhões no final do mês de maio seguinte). Fez isso para tornar a posse de dinheiro mais fácil e inflacionar a oferta monetária, sendo essas relações pouco compreendidas na época, mas simplesmente para aumentar os ganhos do Federal Reserve. O resultado inflacionário dessas compras foi uma consequência inesperada. Foi uma lição que aprendeu e foi apreciada a partir de então. ” – Nota de rodapé 52.

52. No entanto, não totalmente inesperado, pois achamos que o Governador Strong escreveu em abril de 1922 que uma de suas principais razões para as compras no mercado aberto era “estabelecer um nível de taxas de juros. . . o que facilitaria a contracção de empréstimos estrangeiros neste país. . . e facilitar a melhoria dos negócios. ”Benjamin Strong, subsecretário do Tesouro S. Parker Gilbert, 18 de abril de 1922. Chandler, Benjamin Strong, presidente do Banco Central, pp. 210–11.

(Rothbard 2000: 133).

Em outras palavras, uma operação de mercado aberto sem precedentes pelo Federal Reserve parece ter ajudado fortemente o processo de recuperação no final de 1921. Ora, isso é política monetária!

Strong disse ainda explicitamente (como citado na nota de rodapé de Rothbard) que “uma de suas principais razões para as compras no mercado aberto era ‘estabelecer um nível de taxas de juros. . . o que facilitaria a contracção de empréstimos estrangeiros neste país. . . e facilitar a melhoria do negócio. ‘”

Uma vez que vemos que esta política foi combinada com cortes do Fed na taxa de desconto durante a recessão de 1920-1921, vemos que ela usou uma política monetária frouxa para acabar com a recessão:

Discount Rate of the Federal Reserve Bank of New York
Date | Rate

1920
May | 6%
June | 7%
Dec. | 7%
1921
Jan. | 7%
Apr. | 7%
May. | 6.5%
Jun. | 6%
Jul. | 5.5%
Sep. | 5%
Nov. | 4.5%

1922
Jan. | 4.5%
Jun. | 4%.
http://fraser.stlouisfed.org/download-page/page.pdf?pid=38&id=1477

Embora a taxa tenha subido para 7% em junho de 1920, a taxa foi reduzida de 7% em 1921 para 5,5% em julho, e um novo corte para 5% em setembro quando a recuperação começou, e então para 4,5% em novembro. Foi quando as compras no mercado aberto começaram. Neste ponto, acho que toda a moderna narrativa austríaca sobre 1920-1921 se desfaz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Rothbard, Murray N. 2000. America’s Great Depression (5th edn.), Ludwig von Mises Institute, Auburn, Alabama.

Mises contradiz Rothbard em matéria de inflação.

Este artigo foi originalmente postado no Social Democracy in 21st Century e republicado por Reação Nacional.

No Mises.org há um artigo interessante acerca das definições de inflação entre os austríacos.

Per Bylund, “Inflation and Deflation: Austrian Definitions,” November 18, 2011.

Em essência, o autor cita esta definição de inflação por Mises em seu tratado The Theory of Money and Credit (1953):

“Inflação: um aumento na quantidade de dinheiro (em sentido amplo do termo, assim incluindo meios fiduciários de pagamento), que não é contrabalanceado por um aumento correspondente na procura por dinheiro (novamente em sentido amplo do termo), então uma queda no valor objetivo de troca do dinheiro acontecerá. Novamente, deflação significa: uma diminuição da quantidade de dinheiro (em sentido amplo) que não é contrabalanceado por uma diminuição correspondente na procura por dinheiro (em sentido amplo), o que produz um ganho no valor objetivo de troca do mesmo.” (Mises 2009 [1953]: 240).

O significado dessa passagem é discutida por Horwitz (2000, p.78), que argumenta que isso parece permitir a idéia de que um Sistema bancário de reserva fracionária poderia criar crédito e moeda (meios fiduciários) em resposta a uma demanda por isso, sem, na visão de Mises, causar inflação.

Em contraste a esta visão, nós temos a definição de Murray Rothbard em Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles (1962):

“O processo de emissão de pseudo-recibos de depósito ou, mais exatamente, o processo de emissão de dinheiro além de qualquer aumento no estoque de espécie, pode ser chamado de inflação. Uma contração da oferta de dinheiro enorme em comparação a qualquer período (exceto numa queda de espécie) pode ser claramente chamado deflação.” (Rothbard 2004 [1962]: 990).

Essa definição obviamente contradiz a de Mises, e o que nós temos aqui é  uma clara divisão dentro da escola Austríaca aqueles que:

(1) sustentam o  “equilíbrio monetário” como visão acerca da inflação como aumento de dinheiro maior que a demanda por ele (Tal como Steve Horwitz, e a visão dos Free Bankers), e

(2) os Rothbardianos e outros anti-reserva fracionárias que afirmam que qualquer aumento na oferta de dinheiro não lastreada por mercadorias como inflação.

 

BIBLIOGRAPHY

Horwitz, S. 2000. Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective, Routledge, London and New York.

Horwitz, S. “Mises Defining Inflation the Monetary Equilibrium Way (in 1951),” Coordination Problem, September 3, 2009.

Mises, L. von, 2009 [1953]. The Theory of Money and Credit (trans. J. E. Batson), Mises Institute, Auburn, Ala.

Rothbard, M. N. 2004 [1962]. Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala

Teoria austríaca da inflação: exposição e crítica – parte 1.

Este artigo foi originalmente postado em Social Democracy in 21st century, foi traduzido, comentado e ampliado por Reação Nacional.

Muitos libertários, defensores do liberalismo econômico ou apoiadores da economia austríaca sempre mencionam o dinheiro fiduciário como causa do aumento da oferta de moeda. Tipicamente, os austríacos vulgares dizem que qualquer aumento na oferta de moeda levará necessariamente a um aumento do nível geral de preços. Os mais ingênuos inclusive afirmam que o aumento será sempre proporcional.

Aqui temos um vídeo de Ron Paul preocupado com a criação de dinheiro pelo FED porque isso gerará inflação. Ou este artigo do Mises Institute prevendo hiperinflação nos EUA em 2009 por conta dos Quantitative Easings.

Então, primeiramente a palavra “inflação” é definida pelos austríacos como visto acima, como sendo aumento na oferta de dinheiro, e contrariamente a definição popular de  “um aumento no nível geral de preços.”

O propósito deste artigo é mostrar que muitas pessoas hoje que são simpáticas a Escola Austríaca ou que são auto proclamadas seguidoras da Escola Austríaca realmente não entendem a teoria austríaca da inflação.

A maioria das pessoas não conseguem distinguir a teoria monetarista de Friedman acerca da inflação (baseada na teoria quantitativa da moeda) da visão Austríaca que é, na verdade um bocado diferente da de Friedman, a qual, aliás, mudou ao longo do tempo. Primeiro, falaremos acerca da teoria quantitativa da moeda. (Nota da RN: Nosso contribuinte esporádico Luiz Paulo Tavares já falou um pouco dela aqui) Contrariamente ao que muitos pensam, os austríacos sempre foram ambíguos e mesmo críticos da teoria quantitativa da moeda. A teoria supracitada é a base do monetarismo de Milton Friedman, uma abordagem macroeconômica que se popularizou no fim das décadas de 70 e 80.

Entretanto, muitos austríacos tinham na verdade uma visão cética dessa teoria:

Ludwig von Mises, por exemplo:

“concordemos com a teoria quantitativa clássica de que um aumento na oferta de dólares ou de onças de oura levará a sua queda de valor/preço (e como consequência a um aumento no preço de outros bens e serviços); mas refinemos essa abordagem bruta e integremo-la com a análise econômica geral. Em um aspecto, ela demonstra que os movimentos de preço e oferta de moeda são pouco proporcionais; um aumento na oferta de moeda tenderá a diminuir seu valor, mas como isso ocorre, ou mesmo se isso ocorre, depende da utilidade marginal do dinheiro e consequentemente da demanda do público por manter o equilíbrio de caixa. Além dos mais, Mises mostrou que a ‘quantidade de dinheiro’ não aumenta em somatório: o aumento é injetado em um ponto do sistema econômico e os preços subirão apenas  onde o dinheiro novo se espalhar pela economia. Se o governo imprime dinheiro novo e o gasta, digamos, com clips de papel, o que acontece não é um simples aumento de preços,’ como economistas não austríacos diriam; o que ocorre é que primeiro  a renda dos produtores de clipes e os preços dos clipes aumentam, e então os preços dos ofertantes da indústria de clipes de papel também, e assim sucessivamente. Assim esse aumento da oferta de dinheiro muda os preços relativos ao menos temporariamente, e podem resultar em mudanças permanentes na renda relativa também” (ROTHBARD, 2009, p.15).

Em outras palavras, Mises negou que um dado aumento na oferta de dinheiro (digamos, 5%) levaria a uma direta, proporcional e mecânico aumento de 5% no nível geral de preços. E mesmo ele reconheceu que um aumento da oferta de dinheiro pode ter efeitos permanentes de renda.

Monetaristas ingênuos acreditam que há uma explicação monocausal da inflação: crescimento da oferta de dinheiro que causará aumento direto e proporcional de preços. Isto é tolice. Friedrich August von Hayek acreditava que a forma simples da teoria quantitativa era um guia útil , mas era, no entanto, um crítico dessa teoria, e mambas as versões como propostas por Irving Fischer e por Milton Friedman (Arena 2002). Em particular, “Hayek criticou Friedman por se concentrar demais na relação estatística entre a quantidade de dinheiro o nível de preços, reclamando que a matéria não é tão simples” (Garrison 2007, p.3). Austríacos estão divididos ainda hoje nessa questão. Alguns ainda sãocríticos, como Jesús Huerta de Soto.

O mesmo argumenta que o erro na teoria é o de ignorar a TACE. De Soto pensa que a teoria quantitativa da moeda é inadequada pois ignora os efeitos do aumento de moeda na estrutura produtiva, o que poderia causar maliventments. Logo, recessões. Com o aumento da oferta de moeda, haveria aumento de compra de capital, logo aumento de produção. No início haveriam preços crescentes, mas tão logo o consumo se mostrasse pequeno e a expansão da produção artificial haveria queda de preços ocasionadas por uma crise no setor, o que Wilhelm Röpke chamava de crise primária.

Esta diferença entre a TQM e a visão austríaca é ignorada por muitos.

Austríacos, em essência, afirmam duas coisas acerca da inflação. O seu efeito visível (enquanto a produção não aumenta) é aumento de preços. Aumento de preços em bens e serviços (não proporcionalmente), mas também aumento de preços em ativos financeiros. Os austríacos de modo razoável incluem inflação de preços de ativos no nível geral de preços (note que o preços de títulos, papéis, ações e outros derivativos não são normalmente calculados no índice geral de preços). Mas a maior preocupação é que há também um efeito invisível: um aumento na oferta de moeda impede o estoque de moeda de se manter estável o que com o aumento “orgânico” da produção faria da moeda deflacionária, o que aumentaria o poder de compra do dinheiro.

Com respeito a inflação, a visão austríaca ignora o fato de que uma regulação financeira eficiente pode prevenir bolhas, especialmente em ativos reais como casas. Os Estados Unidos, por exemplo, teve os preços imobiliários baixos entre 1950 e 1970, e o mesmo foi verdadeiro para muitos outros, por causa de regras e regulamentos apropriados. (Nota da RN: Esse período se notabilizou por taxas de juros permanentemente baixas).

A afirmação Austríaca de que o aumento da oferta de dinheiro tem como efeito invisível evitar a deflação ignora o fato de que, embora a deflação aumente o poder de compra da moeda, de que a deflação pode ter efeitos terríveis sobre a economia. (Nota da RN: Deflação potencializa a usura, dado que nenhum banqueiro deixará de cobrar juros por uma moeda que ganha valor ao invés de perder).

As dívidas, por exemplo, são fixadas em valores nominais, com deflação, o custo real das dívidas passa a ser muito maior, devedores enfrentam grandes dificuldades em repagar dívidas. Segundo John Médaille, no período do padrão-ouro em que havia deflação constante, os períodos deflacionários por essa mesma razão tinha um efeito concentrador da propriedade e de renda, dado que somente pessoas mais bem abastadas e grandes empresas conseguiam lidar com dívidas cujo custo real era ascendente levando pequenos negociantes e fazendeiros a falência.

Continua…

A praxeologia é uma filosofia anti-cristã.

O texto a seguir é um excerto do livro "The Church and the libertarian" de Christopher A. Ferrara. E foi trazido para cá a partir da postagem do blog GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes.

Christopher A. Ferrara*

O que a teoria da utilidade marginal subjetiva da “praxeologia” nos diz sobre uma sociedade virtuosa? Num primeiro instante, nada. Mas esta insistência numa teoria da utilidade exclusivamente subjetiva de acordo com a qual, a ação humana é governada por uma “lei” que diz que cada indivíduo aloca recursos escassos de modo a satisfazer sua escala ordinal de valor, é na verdade, o conceito-alicerce para o argumento libertário em favor da “liberdade”.

Se as ações humanas são uma simples série de cálculos sobre alocação marginal de recursos escassos, e se estes cálculos são a “lei” da ação humana, então não existe padrão de justiça no comércio que não seja o acordo voluntário de cada “homem calculante” um com o outro. Desta forma, o mercado na mesma proporção em que tecnicamente se regula, também se torna moralmente auto-regulável, e, portanto, imune a correção moral da autoridade da Igreja.

E se o preço justo não é nada mais que o preço de mercado, preço este que nasce de uma infinidade de cálculos marginais subjetivos de inúmeros indivíduos, então, convenientemente o mercado nunca falha em ser justo[1]. Disso se segue que a melhor sociedade é uma “sociedade de livre-mercado” onde toda a ação humana está livre de qualquer restrição às trocas entre pessoas, exceto é claro às arbitrariamente selecionadas proibições acerca de violência e roubo (incluso roubo por fraude). […]

Então, se nós esquecermos que na visão austríaca a economia não tem nada a ver com a moralidade (como o próprio Mises esquece ás vezes), então entendemos porque os economistas austríacos defendem que a praxeologia pode revelar a profunda e moralmente funcional verdade não apenas das trocas econômicas, mas de toda ação humana em sociedade. Por isso, Rothbard entende que a economia é apenas uma parte “bem trabalhada” da praxeologia, sendo todo o resto “uma grande área inexplorada”. Em outras palavras, para os austríacos a praxeologia era uma ciência da ação humana em sua totalidade, desde guerra a política. Não há registros de qualquer tentativa bem sucedida de explorar essas outras áreas ainda não trabalhadas, e Rothbard fala apenas de “tentativas” e “inícios promissores”, e até hoje, sem qualquer sucesso, Thomas Woods confiantemente descreve a praxeologia como “a ciência do comportamento humano”.

Embora a praxeologia nunca tenha dado qualquer evidência de algum funcionamento fora do mundo mágico e hipotético da Escola Austríaca, os austríacos frequentemente empregam termos como “ganho”, “liberdade”, “benefício”, “felicidade”, “bem-estar”, “satisfação”, “desejo” e “necessidade” nas suas análises praxeológicas, como se elas fossem mais que relações econômicas. O próprio Rothbard dizia:

“Existem basicamente dois tipos de relações interpessoais ou trocas: as livres e voluntárias, e as coercitivas ou hegemônicas […] Sempre que um ato pacífico e livre de troca ocorre, o princípio do mercado foi posto em operação; e sempre que um homem coage outro por ameaça de violência (punição legal), o princípio hegemônico foi posto em operação. Todas as sociedades têm aspectos de ambos em tons de cinza. Quão maior for o princípio de mercado, maior será a liberdade e a prosperidade. Quão maior for o princípio hegemônico, maior será também a pobreza e a escravidão. Tais são as leis que a praxeologia apresentam a espécie humana… Neste ponto o praxeologista se retira, e o ético precisa escolher o que julga ser melhor[2]”.

Perceba como Rothbard carrega o texto com termos cheios de conotações morais e depois diz sair de cena para que o filósofo moral (ou o ético) entre e debata o que é uma boa sociedade! Ele faz isso, claro, depois dele mesmo viciar a discussão com a terminologia austríaca permeada com vários julgamentos de valor implícitos, que levarão, obviamente, qualquer um a conclusão de que somente o mais absoluto laissez-faire, onde o aborto e o infanticídio por inanição são permitidos, podem fornecer uma sociedade perfeitamente ética! Quando um austríaco tenta definir termos como “livre” em relação a um tipo particular de sociedade, ele se torna um moralista que usa a “praxeologia” como janela de seu julgamento moral.

O que um austríaco realmente quer dizer com a ideia de que todo mundo “ganha” a partir da soma da busca de seus interesses individuais sob o “princípio de mercado” como garantidor da “liberdade”? […] “O que eles querem dizer com ganhos para a sociedade, por exemplo, ao permitir que o “auto-interesse” leve alguém a destruir uma vida no útero da mãe? Permitindo a sodomia? Vendendo pornografia? Que noção é esta de “ganho”, quando o Estado passa a permitir estes males? Evidencia-se assim que qualquer comportamento pernicioso, desde que praticado de modo consentido entre dois adultos é o sumo bem do pensamento libertário.

Aqui os católicos liberais e/ou libertários tendem a ser elusivos em suas apresentações. Em um momento eles dizem estar apenas descrevendo “o que é” (mercados funcionam melhor quando são livres), e não dizendo como “deveria ser”. Mas, no momento seguinte, eles tiram seus chapéus de economistas e põem os de filósofo moral e dizem que toda uma ordem social baseado na livre troca entre pessoas é de fato o que o mundo “deveria ser”. A constante troca de papéis entre o cientistas descritivo e o moralista prescritivo é uma contradição constante no pensamento austríaco e dos demais credos liberais.

No exato momento em que eles transitam da economia “livre” para a ideia de que todas as relações sociais, mesmo fora do aspecto estritamente econômico deveria obedecer os mesmos princípios de mercado, eles estão, neste mesmo ato, contradizendo a ideia de que estão apenas construindo uma teoria científica. E ao fazer isso, sem perceber, eles criam uma sociedade tão dogmática quanto a que eles dizem combater, a sociedade de um só dogma, a sociedade da “virtude da liberdade”.

Com ou sem praxeologia, a Escola Austríaca não pode sustentar uma filosofia política que realmente abarque o homem integral na sociedade. Em outras palavras, a economia austríaca não pode sustentar nenhuma filosofia política. Tudo o que ela pode fazer – e isso é tudo o que ela pode fazer – é predizer que forma de economia pode servir aos desejos de um homem moralmente decaído por gratificação material ao produzir bens de modo mais eficiente.Não há dúvidas de que o “livre” mercado pode satisfazer várias necessidades e desejos com inexaurível ingenuidade, mesmo que para isso ela precise criar novos desejos e novas “necessidades” num círculo vicioso infinito de invenção, produção e troca. Mas o que isso nos diz sobre a constituição de uma boa sociedade do modo que a Igreja o vê a luz da revelação: corpo e alma com um destino eterno? Nada.

De fato, os austríacos ostentam que o fato de não dizer nada é a grande conquista de seu sistema. Ao excluir toda e qualquer concepção fixa de “bem” para o homem e o fundamento da sociedade, eles estão a repetir a mesma velha e liberal visão do homem e do Estado, como se fossem uma grande descoberta científica alcançada pela genialidade de Mises e Rothbard.

Embora Mises admitisse que “até o fim do século XIX, a economia política permaneceu como uma ciência dos aspectos econômicos da ação humana, uma teoria de riqueza e egoísmo”, ele mesmo assim sustentou que a visão moderna e subjetivista que “a teoria dos preços de mercado  converteu-se em uma teoria geral das escolhas humanas, é uma ciência de todo o tipo de comportamento humano” como exposto na página 3 do Human Action (edição americana).

Contudo não é possível extrair todas as ações humanas possíveis apenas do comportamento do sistema de preços. E como este é apenas um aspecto da ação humana, pode-se apenas extrair disso uma teoria do comportamento do consumidor e do ofertante em suas escolhas, mas ainda assim, sujeitas a inúmeros e imponderáveis outros fatores de ordem não econômica que não estão – na realidade – separados das econômicas e que podem influenciar nessa escolha; isso inclusive força alguns austríacos a utilizar a expressão ceteris paribus (todo o restante constante) com frequência. […]

Logo, conclui-se que todo o edifício político-filosófico autro-libertário se fundamenta sobre um grande non sequitur: de que a existência do “livre” mercado, e sua pretensa superioridade técnica, demonstram a necessidade de uma sociedade “livre”. Esse salto lógico para a acima mencionada conclusão esconde que há realmente um julgamento moral apriorístico acerca da natureza da liberdade humana. E os austríacos misesianos (como Rothbard) transferem esse julgamento moral para a sua filosofia política sob o pretexto de “ciência” da economia e de “leis” praxeológicas, todavia, eles nunca realmente explicam – porque não podem explicar – como suas “ciência” e “leis” os levam logicamente a conclusão de que o laissez-faire é o melhor guia para a sociedade como um todo[3].


[1] Em Toward a truly free market, John Médaille chama a atenção para o fato de que os conceitos tomistas de justice comutativa e justice distributiva são a mesma coisa no pensamento liberal.

[2]Rothbard, Power and market, online edition, p.1363.

[3] Como Misesianos são em geral kantianos, isso equivale a um imperativo hipotético (um dever-ser técnico e condicional) ditar um imperativo categórico (um dever-ser moral e incondicional), o que é um erro.


FERRARA, Christopher A. The Church and the libertarian: a defense of Catholic Church’s teaching on man, economy and State. Minnesota: The Remnant Press, 2010.


Os artigos aqui republicados têm a única finalidade de divulgar ideias e os trabalhos originais. Para maiores informações procure os originais nos sites, livrarias e sebos credenciados aos autores e editoras.


*Christopher A. Ferrara é um jus-filósofo e teólogo católico, militante pró-vida, tradicionalista e autor de vários livros como “The great façade”, “Liberty, the God that failed” e “The Church and the libertarian”.

Rothbard e a ética da psicopatia

Texto de Arthur Rizzi originalmente postado no GEPG - Grupo de estudos Perillo Gomes.

Um dos maiores ídolos do libertarianismo e do liberalismo moderno, citado tanto por anarcocapitalistas quanto por liberais como autoridade em suas obras, Murray N. Rothbard é famoso por sua defesa intransigente da liberdade como fundamento único da sociedade.

Em seu livro The Ethics of Liberty o autor defende que os país, pela perspectiva do “direito negativo” podem deixar seu filho morrer de fome, pois a criança é, de alguma forma, propriedade privada dos pais. Na edição americana de 1999, nas páginas 99 até 101 Rothbard diz:

“Suppose now that the baby has been born. Then what? First, we may say that the parents-or rather the mother, who is the only certain and visible parent-as the creators of the baby become its owners. A newborn baby cannot be an existent self-owner in any sense. Therefore, either the mother or some other party or parties may be the baby’s owner, but to assert that a third party can claim his ‘ownership’ over the baby would give that person the right to seize the baby by force from its natural or ‘homesteading’ owner, its mother. The mother, then, is the natural and rightful owner of the baby, and any attempt to seize the baby by force is an invasion of her property right.

Aqui vemos que para Rothbard, a criança é propriedade dos pais. uma propriedade privada. Contudo, para Rothbard, essa propriedade não é absoluta.

But surely the mother or parents may not receive the ownership of the child in absolute fee simple, because that would imply the bizarre state of affairs that a fifty-year old adult would be subject to the absolute and unquestioned jurisdiction of his seventy-year-old parent. So the parental property right must be limited in time. But it also must be limited in kind, for it surely would be grotesque for a libertarian who believes in the right of self-ownership to advocate the right of a parent to murder or torture his or her children. We must therefore state that, even from birth, the parental ownership is not absolute but of a ‘trustee’ or guardianship kind. In short, every baby as soon as it is born and is therefore no longer contained within his mother’s body possesses the right of self-ownership by virtue of being a separate entity and a potential adult. It must therefore be illegal and a violation of the child’s rights for a parent to aggress against his person by mutilating, torturing, murdering him, etc. On the other hand, the very concept of ‘rights’ is a ‘negative’ one, demarcating the areas of a person’s action that no man may properly interfere with.

Ou seja, a guarda da criança é que é possuída. Em que pese isso guardar uma contradição com trecho superior (que abordarei ao fim do texto), com isso ele já delibera que a criança tem algum autonomia. E como a criança se tornará um adulto em potencial, ela não pode receber danos uma vez que esteja fora da barriga de sua mãe. Logo, os pais não podem torturar uma criança. Contudo, para Rothbard, eles podem fazer vistas grossas ao seu sofrimento, desde que não seja causado por eles, pois o direito é sempre um direito negativo. e sireito positivo seria ao seu ver, coerção, o que é contra os princípios do libertarianismo e vocês podem conferir abaixo.

No man can therefore have a ‘right’ to compel someone to do a positive act, for in that case the compulsion violates the right of person or property of the individual being coerced. Thus, we may say that a man has a right to his property (i.e., a right not to have his property invaded), but we cannot say that anyone has a ‘right’ to a ‘living wage,’ for that would mean that someone would be coerced into providing him with such a wage, and that would violate the property rights of the people being coerced. As a corollary this means that, in the free society, no man may be saddled with the legal obligation to do anything for another, since that would invade the former’s rights; the only legal obligation one man has to another is to respect the other man’s rights.

Prosseguindo…

Applying our theory to parents and children, this means that a parent does not have the right to aggress against his children, but also that the parent should not have a legal obligation to feed, clothe, or educate his children, since such obligations would entail positive acts coerced upon the parent and depriving the parent of his rights. The parent therefore may not murder or mutilate his child, and the law properly outlaws a parent from doing so. But the parent should have the legal right not to feed the child, i.e., to allow it to die. The law, therefore, may not properly compel the parent to feed a child or to keep it alive. (Again, whether or not a parent has a moral rather than a legally enforceable obligation to keep his child alive is a completely separate question.) This rule allows us to solve such vexing questions as: should a parent have the right to allow a deformed baby to die (e.g. by not feeding it)? The answer is of course yes, following a fortiori from the larger right to allow any baby, whether deformed or not, to die. (Though, as we shall see below, in a libertarian society the existence of a free baby market will bring such ‘neglect’ down to a minimum.)”

Desses princípios, Rothbard concorda que há uma obrigação moral de cuidar de uma criança que é seu filho. Contudo, o autor diz que caso um pai psicopata decida se deleitar diante de seu filho agonizando sem comida e morrendo por inanição, ele não deve ser forçado a alimentar por força (coerção) e nem deve ser punido por isso.

Disso se conclui ainda que, caso um vizinho sabendo do que o pai psicopata está fazendo ao próprio filho, decida intervir e invadir a casa pra raptar a criança e salvá-la da morte por inanição, o pai psicopata poderia atirar nessa pessoa ou ate denunciá-la a polícia privada, sem maiores problemas para si e com punições para a pessoa caridosas que tentou salvar uma vida. Suponhamos que o pai psicopata mate o nosso vizinho herói, o pai não seria punido por isso, pois apenas defendeu sua propriedade e o que ele faz (ou não faz a seu filho) não é da conta de outros. É óbvio que esta é uma sociedade formada por psicopatas.

  • O primeiro ponto é: A coerção tem um papel social importante desde que controlada..
  • O segundo ponto é: O erro de Rothbard é elencar como o único princípio fundamentador da sociedade, a liberdade individual como sendo agir sem ser coagido.

Se chegamos a conclusão que o direito de invadir a propriedade de outrem é possível para salvar a vida, chegamos a conclusão de que a violação da propriedade é possível e útil, e que a coerção é útil do ponto de vista social.

O segundo é que Rothbard elege um princípio abstrato como valor ao invés de um concreto, que é a liberdade individual. O valor que deve fundamentar QUALQUER sociedade é a dignidade da pessoa humana, princípio da Doutrina Social da Igreja e do Direito Natural Clássico. Neste conceito a liberdade humana, o direito de igualdade perante os outros humanos, bem como a sacralidade absoluta da vida humana já estão garantidos. Sendo a vida sagrada, a pessoa tem o direito de ter uma vida digna, pois ser humano já é condição necessária pra merecer isso.

Isso significa que pela condição sacral da vida humana, nós temos ordenações positivas e negativas e, logo, obrigações e deveres.

Rothbard ainda se contradiz ao dizer que um recém nascido “cannot be an existent self-owner in any sense,” e na sequencia dizer que um recém-nascido “is therefore no longer contained within his mother’s body possesses the right of self-ownership by virtue of being a separate entity and a potential adult.” – Traduzindo: Rothbard diz que de maneira NENHUMA um recém-nascido possui o direito de auto-propriedade. E na sequência diz que uma vez que ele tenha saído da barriga de sua mãe ele já o tem em virtude de ser um adulto em potencial e, logo, um corpo separado do de sua mãe.

Outra contradição se encontra inserida na questão do aborto. Na página 98 o mesmo diz:

The proper groundwork for analysis of abortion is in every man’s absolute right of self-ownership. This implies immediately that every woman has the absolute right to her own body, that she has absolute dominion over her body and everything within it. This includes the fetus. Most fetuses are in the mother’s womb because the mother consents to this situation, but the fetus is there by the mother’s freely-granted consent. But should the mother decide that she does not want the fetus there any longer, then the fetus becomes a parasitic “invader” of her person, and the mother has the perfect right to expel this invader from her domain. Abortion should be looked upon, not as “murder” of a living person, but as the expulsion of an unwanted invader from the mother’s body. Any laws restricting or prohibiting abortion are therefore invasions of the rights of mothers.

Tradicionalistas e democratas cristãos têm sistematicamente afirmado ao longo dos séculos a sacralidade da vida humana, e ainda, que o embrião fecundado já é ser humano, não havendo portanto diferença entre um bebê na barriga da mãe e fora dele. Paradoxalmente, alguns grupos pró-aborto concordam, tanto que já defendem o abominável aborto pós-parto com base em uma constatação científica por dois médicos especializados em filosofia. Sim, você acabou de ler exatamente isso! ABORTO PÓS-PARTO, ou se preferir INFANTICÍDIO.

 

Ora, sendo o bebê fora da mãe, indistinto do bebê dentro da mãe, significa que Rothbard criou um precedente para a tortura com base no critério de violação da propriedade privada. Se um pai de repente achar que não quer mais o filho em sua casa, ele passa a ser um invasor na sua casa e pode bater nele e torturá-lo até que ele fuja de sua propriedade ou  o próprio pai o ponha pra fora, assim como você pode abrir fogo num invasor que entra em sua casa pra roubá-lo. A “Ética da Liberdade” Rothbardiana é, sem dúvidas, a ética da psicopatia.

Rothbard: Contradições acerca dos monopólios.

Texto traduzido de artigo originalmente postado em Social Democracy in 21st century

Rothbard tinha uma postura curiosa diante dos cartéis e oligopólios. Rothbard admitia a possibilidade de monopólios e cartéis surgirem num mercado completamente livre, e defendia suas existências nessas circunstâncias:

 

“Até agora, temos estabelecido que não há nada de “errado” com preços monopolizados, seja por uma empresa ou quando Instituído por um cartel; De fato, o preço que o mercado livre (sem interferência de violência ou ameaça de violência) estabelecerá será o “melhor” de preços.” (Rothbard 2009: 661).

Ainda, uma vez que um monopólio ou cartel será um formador de preços, seria um disparate falar sobre preço monopolizado sendo o preço que o “livre mercado estabelece.” A acusação de que Rothbard apresenta um duplo padrão no monopólio também foi feita pelo L. E. Hill (1963). A visão rothbardiana deve ser colocada dentro do contexto das concepções austríacas acerca de um monopólio:

 

“Uma vez que as teorias econômicas de Rothbard estão geralmente dentro da tradição econômica austríaca, poderia ser útil para comparar sua posição no monopólio com os de Ludwig von Mises e Israel M. Kirzner. Mises declarou que monopólio poderia existir em um mercado livre sempre que toda a oferta de uma mercadoria fosse controlada por um vendedor ou grupo de vendedores que agem em conjunto. Tal situação não é necessariamente prejudicial, a menos que a curva de demanda pela commodity fosse inelástica. Em seguida, de acordo com Mises, o monopolista teria um incentivo perverso para restringir a produção e criar um preço de monopólio, e esse preço seria “uma violação da supremacia dos consumidores e à democracia de mercado. ‘Kirzner sugeriu que a posse de um monopólio de algum recurso poderia ter “efeitos nocivos”, uma vez que criaria um incentivo por parte do proprietário do recurso para não empregar o recurso de ‘toda a extensão compatível com o padrão de consumo disponível no mercado.” (Armentano 1988: 7).

Rothbard rejeita a definição de monopólio como o controle absoluto do suplemento de uma commodity, e pensa que não há diferenças entre preços de mercado e preços monopolizados. Na página 662 (edição inglesa) de “Man, Economy, and State”, Rothbard se compromete em uma tortuosa e profundamente inconvincente tentativa de negar qualquer diferença entre o pequeno produtor num mercado competitivo e uma enorme corporação com muitos meios de distribuição da produção. A definição eventual de Rothbard dos monopólios apenas como um direito de produção exclusiva garantido pelo Estado à alguma entidade é um truque de malabarismo que o permite argumentar que um “monopólio nunca surgirá num livre-mercado” (Rothbard 2009: 670).

 

Mais ainda, a visão de Rothbard é inconsistente, desde um ponto qualquer sua visão é que os livres mercados são superiores precisamente porque os consumidores fixam os preços:

“No livre-mercado, consumidores podem ditar os preços, e logo assegurar a melhor alocação dos recursos produtivos para suprir suas demandas. Numa empresa pública isso jamais poderia ser feito.” (Rothbard 2009: 1261).

Mas, se nos mercados desregulados, cartéis, oligopólios e monopólios podem se desenvolver em produtores do mercado, e os preços das commoditties foram fixados pelos administradores, e não pela dinâmica da relação oferta e demanda, então é óbvio que os consumidores não estão ditando os preços. De acordo com a argumentação de Murray N. Rothbard aqui, livres mercados totalmente desregulados não assegurariam necessariamente a melhor alocação de recursos, com cartéis e oligopólios presentes. Claro que alguém que leu uma literatura especializada dos departamentos de economia das universidades, alguém que estuda a realidade de como os preços são criados, sabe que empresas preferem preços estáveis à instabilidade da flutuação e da guerra de preços. No mundo real, são as grandes corporações que fixam os preços através de mark up, não os consumidores. A fixação dos preços tem aspectos negligenciados pelos ideólogos do mercado totalmente desregulado e pelos libertários. Há outra crítica que pode ser feita. Rothbard alega que os mercados livres tendem ao equilíbrio, mesmo se eles não estiverem num estado de equilíbrio:

 

“Rothbard presume que em mercados individuais, a lei do preço único domina, e que a compensação de mercado acontece de forma rápida e sem problemas (124). Como numa convencional economia neoclássica, o equilíbrio geral, era essa a direção para qual a economia estava indo uniformemente. A difusão da mudança tornou improvável que uma economia jamais iria conseguir o equilíbrio geral de preços, mas, no entanto, como um cão perseguindo um coelho mecânico, pelo menos, poderia explicar o sentido da mudança (274). Ainda assim, Rothbard alertou contra levar o equilíbrio muito a sério, dado o mundo de constantes mudanças em que vivemos, foi, no entanto, sua a suposição de que os mercados se ajustam rapidamente às novas posições de equilíbrio. De fato, sua justificativa para a eficiência de base dos mercados era que “os empresários vão ser muito rápidos para deixar a indústria do perdedor”’quando erros são cometidos.” (Vaughn 1994: 97).

Um dos elementos que causam supostamente a eficiência de base de mercados é a flexibilidade de preços. Mas, com o reconhecimento de Rothbard que os cartéis e monopólios poderiam surgir em um mercado livre e fixar preços, não há, na verdade, a menor probabilidade de flexibilidade de preços e de equilíbrio do mercado. Rothbard não explica como uma sociedade anarco-capitalista iria lidar com os monopólios coercitivos decorrentes dos mercados totalmente livres.

Um exemplo perfeito de como um mercado competitivo em um sistema anarco-capitalista pode entrar em colapso em um monopólio coercitivo é o setor de proteção e policiamento. Empresas de proteção privadas, de fato, teriam um incentivo para vitimizar consumidores potenciais para aumentar sua quota de mercado. Violência do tipo a que ocorre entre mafias. Um monopólio natural provavelmente se desenvolveria como uma das mais ponderosas firmas a empurrar os competidores para for a do negócio (ou ainda um cartel poderia se tornar dominante), o que resultaria em essência em um estado, o mesmo que o anarcocapitalismo procurava destruir.

BIBLIOGRAFIA

Armentano, D. T. 1988. “Rothbardian Monopoly Theory and Antitrust Policy,” in W. Block and L. H. Rockwell (eds), Man, Economy, and Liberty: Essays in Honor of Murray N. Rothbard, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala. 3–11.

Heck, V. C. 1963. “Review of Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State,” American Economic Review 53.5: 460–461.

Holcombe, R. G. 2004. “Government: Unnecessary but Inevitable,”Independent Review 8.3: 325–342.

Hill, L. E. 1963. “Review of Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State,” Southern Economic Journal 29.3: 252–254.

Rothbard, M. N. 2009. Man, Economy, and State, with Power and Market: The Scholar’s Edition, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala.

Vaughn, K. I. 1994. Austrian Economics in America: The Migration of a Tradition, Cambridge University Press, Cambridge and New York.

 

Schuller: Contradições de Ludwig von Mises

Texto ampliado e originalmente publicado em Social Democracy in 21st Century.
Muitos anos atrás, George J. Schuller revisou a primeira edição de “A Ação Humana” de Mises (1949). Murray Rothbard (1951) escreveu uma resposta a essa revisão e, por sua vez Schuller (1951) respondeu as críticas de Rothbard. A releitura de que a troca retribui o esforço envolvido. Como é sabido, Ludwig von Mises argumentou que a intervenção do governo será sempre ineficaz ou contrária ao direito econômico. De acordo com Mises, tal intervenção é instável e sempre provocará o caos a partir do qual o socialismo ou o capitalismo de estado vai emergir (Rothbard, 1951: 184; Ikeda 1998: 346; Mises, 1997: 37-38).
Aqui está a definição da intervenção do governo Mises:
“A intervenção é um decreto emitido direta ou indiretamente, pela autoridade encarregada da máquina administrativa da sociedade de coerção e compulsão, que obriga os empresários e capitalistas a empregar alguns dos fatores de produção de uma forma diferente do que teria recorrido a se eles estavam apenas obedecendo aos ditames do mercado. Tal decreto pode ser um fim de fazer alguma coisa ou uma ordem para não fazer algo. Não é necessário que o decreto seja emitido diretamente pela própria autoridade comprovada e geralmente reconhecida. Pode acontecer que algumas outras agências se arrogam o poder de emitir tais ordens ou proibições para aplicá-las através de um aparelho de coerção e opressão violenta dos seus próprios meios. Se o governo reconheceu e tolera tais procedimentos, ou mesmo apoia-los pelo emprego de seu aparato policial governamental, então, estão as coisas, como se o próprio governo tivesse agido. Se o governo se opõe à ação violenta das outras agências, mas não conseguem suprimi-la por meio de suas próprias forças armadas, embora gostaria de suprimi-lo, os resultado é anarquia “(Mises de 1998 [1949]: 714-715).
Em seguida, temos Mises dando claramente a sua opinião sobre o intervencionismo:
“Os partidários da mais recente série de intervencionismo, o alemão” sozialemarktwirtschaft [isto é, pós-Segunda Guerra Mundial, a economia social de mercado na Alemanha], “estão corretos quando que consideram a economia de mercado como sendo o melhor sistema possível e mais desejável de organização econômica da sociedade , e que eles são contra a onipotência do governo do socialismo. Mas, é claro, todos esses defensores de uma política de meio do caminho enfatizam com o mesmo vigor, que eles rejeitam manchesterismo e o laissez-faire… Todos estes campeões do intervencionismo não conseguem perceber que o seu programa implica, assim, o estabelecimento de supremacia total do governo em todas as questões econômicas e, finalmente, provoca um estado de coisas que não diferem do que é chamado em alemão de padrão de Hindenburg, ou do nacional socialismo (referência ao nazismo). Se é da jurisdição do governo decidir se quer ou não condições definitivas de economia para justificar a sua intervenção, nenhuma esfera de operação ficará a cargo do mercado. Em seguida, isso significa que não é mais o consumidor quem acaba por determinar o que deve ser produzido, e em que quantidade, de que qualidade, por quem, onde e como, mas sim, o governo. Pois tão logo o resultado provocado pelo funcionamento do mercado livre difere do que as autoridades consideram “socialmente” desejável, o governo interfere. Isso significa que o mercado é livre, desde que ele faça exatamente o que o governo quer que ele faça. Ele é “livre” para fazer o que as autoridades consideram ser as coisas “certas”, mas não fazer o que eles consideram as coisas “erradas”; a decisão sobre o que é certo e o que é errado cabe ao governo. Assim, a doutrina e a prática do intervencionismo em última análise, tendem a abandonar o que originalmente os distinguia socialismo definitivo e adota totalmente os princípios de planejamento de conjunto totalitário “(Mises, 1996: 723-724).
Nesta passagem, Mises condenou no pós-Segunda Guerra Mundial, as economias keynesianas e economias sociais de mercado que existiam quando “A Ação Humana” foi publicada. De acordo com ele, eles tendem a “planejamento cumulativo totalitário.” Assim, o intervencionismo de qualquer tipo está descartado. Presumivelmente, isso deveria ser uma teoria praxeológica de Mises, que segundo ele teria “certeza irrefutável.” Se não, então esta passagem é claramente a opinião do próprio Mises e que seria necessária uma justificação independentemente de sua praxeologia. Rothbard caracterizava a posição de Mises em sua resposta a Schuller da seguinte forma:
“Quando Mises apresenta-nos com a escolha entre o mercado livre e o socialismo, ele está dizendo que, sistemas mistos em que o mercado é de alguma forma prejudicado, não são sistemas consistentes e coerentes. Ele demonstra que qualquer medida de intervenção do governo no mercado gera problemas e consequências que retiram das pessoas uma ampla escolha: revogação desta medida, ou por efeito uma outra medida de intervenção governamental… Medidas intervencionistas, logicamente, conduzirão a outras [sc. Livre-mercado ou o socialismo]. Uma vez que um sistema socialista não pode existir, a única escolha inteligente é um mercado puramente livre. Desde que Mises demonstrou que todas as formas de intervenção do governo no mercado criam consequências que levam a uma economia pior do que a de que se estivéssemos em um mercado livre, Schuller não pôde distinguir entre formas racionais e irracionais de intervenção do governo… Para Mises, qualquer intervenção do governo no mercado é irracional e, portanto, contrária à lei econômica”. (Rothbard, 1951: 184).
Em sua resposta a Rothbard em “A visão de Mises acerca do intervencionismo”,  G.J. Schuller apontou uma falha fatal e uma contradição brutal no raciocínio de Mises:
“O que significa “medidas intervencionistas logicamente levarão a”? Ou Mises acredita que o intervencionismo é cumulativo e necessariamente leva em direção ao socialismo, e então ao “caos” (outro termo indefinido), ou ele não acredita. Se ele acredita, ele poderia explicar como as nações ocidentais, reverteram as intervenções mercantilistas que estabeleceram mercados livres nos séculos 18 e 19? Ou como eles conseguiram descontrole parcial após a Primeira Guerra Mundial e II? Ele pode explicar como o mercado puramente livre é sempre um alvo a ser atingido? Por outro lado, se o intervencionismo não precisa ser cumulativo (e Rothbard diz que leva logicamente para o mercado livre, bem como para o socialismo), então é necessariamente incoerente, instável e transitório? Se intervencionismo aponta logicamente em duas direções opostas (em direção a zero e infinito), que tem de continuar em qualquer um até atingir respectivamente os Elíseos ou o caos?” (Schuller, 1951: 190).
Schuller faz um ponto brilhante aqui: Houve intervenção mercantilista maciça no início do período moderno da Europa. Mas esse período não terminou em “caos” ou “socialismo”. Houve principalmente uma reforma ordenada dos sistemas econômicos, como o comércio livre ou, pelo menos, muito menos trocas restritivas foram adotadas no século 19. A Idéia de Mises é que se é supostamente aplicável às condições do mundo real, é confrontada com a evidência empírica de invalidação clara. (claro, o miseanos puros vão dizer que a história econômica é separada da teoria praxeológica e que a evidência empírica nunca pode verificar ou falsificar praxeologia, etc).
Mas, além disso, Mises descaradamente se contradisse, porque em Ação Humana (1949: 741) argumenta que a intervenção do governo na forma de regulamentos emergenciais, como por exemplo, anti-incêndio, podem realmente ser justificadas:
“A economia não aprova nem desaprova as medidas do governo ao restringir a produção e a saída. Ela apenas considera seu dever de esclarecer as consequências de tais medidas. A escolha das políticas a serem adotadas recai sobre as pessoas. Mas na escolha não devem ignorar os ensinamentos da economia, se quiserem atingir os fins pretendidos. Há certamente casos em que as pessoas podem considerar medidas restritivas definitivas como justificadas. Disposições relativas à prevenção de incêndio são restritivas e aumentam o custo de produção. Mas a redução da produção total que essa medida trouxer é o preço a ser pago para evitar desastre maior. A decisão sobre cada medida restritiva deve ser feita no chão de uma meticulosa ponderação dos custos a serem incorridos e o prêmio a ser obtido. Nenhum homem razoável poderia questionar essa regra.”(Mises de 1998 [1949]: 741; ver Murphy e Gabriel 2008: 286 para uma discussão sobre esta passagem).
Mises nas últimas observações está, na verdade, admitindo que há espaço para um sistema de intervenção “no terreno de uma meticulosa ponderação dos custos a serem incorridos e o prêmio a ser obtido.” Alguns podem argumentar que Mises só pensava que as intervenções individuais devem ser consideradas na base de uma “meticulosa pesagem.” Mas não é isso que ele está dizendo. Uma vez que Mises admitiu que as intervenções são possíveis e que há uma regra para permiti-las, ele nos deu um sistema.
A observação de Mises que “nenhum homem razoável poderia questionar esta regra”, sugere que ele mesmo concordou com ela, e, presumivelmente, com a ideia de regulamentos anti-incêndio de origem governamental. E, mesmo que ele não o fez, ele claramente permitiu que a “escolha de políticas a serem adotadas recai sobre o povo” em tais casos. G.J. Schuller aponta uma devastadora contradição fundamental aqui no pensamento de Mises:
“Se “toda intervenção é irracional,” então como pode Mises sancioná-la para defender “o cidadão contra invasão violenta de sua pessoa e propriedade” Mises responde: “A decisão sobre cada medida restritiva deve ser feita no chão de uma meticulosa ponderação dos custos a serem incorridos e o prêmio a ser obtido.” Nas regulações contra incêndios, o prêmio supera os custos… Sendo assim, ele admite que a intervenção do governo em mercados privados para armas, soldadores de marcenaria, prédios com deficiência na proteção contra incêndios, ou equipamentos problemáticos podem atingir seu fim sem levar ao socialismo. Uma vez que Mises… Garante uma distinção entre intervenções inteligentes e não inteligentes, e mesmo na necessidade de formar e preserver o livre mercado, Mises deixa sua sectaria utopia e junta-se a todo os resto de nós em escolher entre imperfeitas, mas possíveis alternativas no mundo real.” (Schuller 1951: 190).
Schuller está inteiramente correto. Regulamentos contra incêndios do governo são uma intervenção óbvia, mesmo para os padrões de Mises: Tais regulamentos de incêndio exigem a ação coercitiva do Estado para violar os direitos de propriedade privada e, até os mercados livres, e os ameaça de força para mantê-los. A posição de Mises é auto-contraditória. Em “A Ação Humana”, Mises afirma que a intervenção é inaceitável e vai levar para o socialismo ou o caos, mas depois deixa perfeitamente claro que há espaço para o que ele acha que é a intervenção do governo inteligente e racional, o que pode ser justificado pela “meticulosa ponderação dos custos a serem incorridos e do prêmio a ser obtido. “Esse processo de tomada de decisão é, certamente, também no domínio da política democrática em uma comunidade. Com base nisso, pode-se facilmente construir um caso racional para todos os tipos de intervenções do governo, de regulação de medicamentos e defesa do consumidor todo o caminho para o déficit keynesiano.”
Apesar argumento de Mises de que um sistema de intervenção é ineficaz ou contrário ao direito econômico e que tais sistemas levará ao socialismo ou o caos, ele, na verdade, permite (e parece defender) o seu próprio sistema particular de intervenções do governo!
Mises deixou a porta de trás do seu sistema praxeológico aberto a todos os tipos de intervenção, uma contradição lógica que é um buraco enorme na ideologia anti-governo  que argumentou em “A Ação Humana”.
Pode-se mesmo dizer (em tom de gozação) que inconsistência lógica Mises o “deixa parecendo um socialista disfarçado.” Muito bem disfarçado por sinal!
Talvez economistas austríacos devem começar a escrever artigos atacando seu amado herói com títulos como “Mises foi um vermelho”! (afinal, Rothbard fez algo parecido para Ayn Rand – e muito bem também).
BIBLIOGRAFIA
Ikeda, S. 1998 “intervencionismo”, na PJ Boettke (ed.), The Companion Elgar a Austrian Economics, Elgar, Cheltenham, Reino Unido. 345-351.
Mises, L. 1977 Crítica da Intervencionismo (trans. HF Sennholz), Arlington House, New Rochelle, NY
Mises, L. 1996 Ação Humana: Um Tratado de Economia (. 4 rev ed), Fox e Wilkes, San Francisco.
Mises, L. 1998 [1949]. Ação Humana: Um Tratado de Economia, Ludwig von Mises Institute, Auburn, no Alabama.
Murphy, RP e A. Gabriel, 2008 Guia de Estudo de Ação Humana: Um Tutorial Guia da obra clássica de Ludwig von Mises, Ludwig von Mises Institute, Auburn, no Alabama.
Rothbard. MN 1951 “Mises” Ação Humana “: Comentário,” American Economic Review 41.1: 181-185.
Schuller, GJ 1950 Revisão da Ação Humana: Um Tratado de Economia Ludwig von Mises, American Economic Review 40.3: 418-422.
Schuller, GJ 1951 “Mises” Ação Humana “: tréplica,” American Economic Review 41.1: 185-190.