Arquivo da tag: Novo desenvolvimentismo

Se a produtividade dos barbeiros é a mesma no mundo, por quê há tanta diferença de salários?

Paulo Gala*

Post originalmente publicado no blog pessoal do economista Paulo Gala.

visual_balassa_samuelson

O gráfico acima mostra a relação entre renda per per capita dos diversos países e preço dos cortes de cabelo em 2015. As diferenças são gigantescas conforme podemos perceber comparando os países pobres e ricos. A pergunta que fica é: se a produtividade de um cabeleireiro é absolutamente a mesma em todos os lugares do mundo, por que custa tão caro cortar cabelo num país rico? Assumindo que o grosso do custo do corte de cabelo vai para o cabeleireiro, mesmo que o imóvel seja caro e o lucro bom, não é difícil perceber que toda a diferença dos preços de cortes de cabelo está nas diferenças de salários pagos. Mas como os cabeleireiros dos países ricos ganham tanto mais (10x) do que o cabeleireiros do países pobres se eles fazem exatamente a mesma coisa e tem a mesma produtividade física? Quem explicou isso muito bem foram 3 economistas nos anos 60: Paul Samuelson, Bela Balassa e William Baumol.

Samuelson e Balassa escreveram quase que simultaneamente o que ficou conhecido na literatura como efeito Balassa Samuelson: os ganhos de produtividade de um economia ocorrem principalmente no setor de bens transacionáveis (manufaturas e commodities) e não no setor de bens não tradables (serviços). Esses aumentos de produtividade no setor de tradables causa aumento de salários que transborda para o setor de não tradables. Como não há aumento de produtividade relevante no setor de não tradables, os preços lá sobem mais do que no setor de tradables: o preço dos cortes de cabelo fica mais caro nos países ricos. Baumol fala a mesma coisa só que usa a divisão serviços e bens. Para Baumol o aumento de produtividade ocorre principalmente no setor de bens. Os serviços não conseguem aumentar produtividade por definição: músicos, educação, garçons, cabeleireiros. São iguais em todos os lugares. O aumento de produtividade no setor de bens acaba pressionando também os salários dos setores de serviços; os preços e salários desse setor sobem, na ausência de aumentos de produtividade.

A explosão de produtividade dos setores manufatureiros e de serviços sofisticados nos países ricos vaza para os salários de serviços não sofisticados (cortes de cabelo). A produtividade da indústria vai parar no preço do corte de cabelo! O brutal diferencial de produtividade entre países pobres e ricos pode ser encontrado nos preços dos bens não transacionáveis convertidos em dólar.

corte


*Paulo Gala é economista da FGV.

Anúncios

Ordo-desenvolvimentismo: Um novo caminho democrata cristão para o Brasil?

O texto abaixo é um excerto de um artigo acadêmico que estou desenvolvendo acerca de uma abordagem econômica democrática cristã (no sentido da Graves de Communi), ainda está sujeito a alterações, contudo a tese central é endossada por mim e dificilmente deve mudar.

Como é de conhecimento público daqueles que estudam formal ou informalmente a economia e o pensamento econômico, o novo desenvolvimentismo pretende induzir uma via alemã prática ao crescimento econômico. Em outras palavras, o supracitado modelo pretende alcançar o desenvolvimento econômico tendo como fundamento um crescimento encabeçado pela poupança doméstica empresarial, pelo investimento, e pelas exportações em detrimento de um regime de crescimento baseado no consumo interno, no crescimento dos salários, na poupança externa e da especialização produtiva da economia em primários, o que poderia ainda gerar um fechamento autárquico da economia. Diz o professor José Oreiro em artigo:

Em segundo lugar, um aumento cumulativo da participação dos salários na renda está associado a uma tendência a apreciação da taxa real de câmbio, a qual poderá impactar o grau de especialização produtiva da economia, induzindo assim uma transferência de atividades produtivas para o exterior, ou seja, levando a um processo de desindustrialização. Como consequência da desindustrialização, a elasticidade renda das exportações irá se reduzir e a elasticidade renda das importações irá aumentar, levando assim a uma redução da taxa de crescimento que é compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos. Dessa forma, a continuidade do regime wage-led levará, mais cedo ou mais tarde, ao estrangulamento externo e a uma crise de balanço de pagamentos.

Este ponto parece muito de acordo com a crítica de Wilhelm Röpke (1960, p.185) ao velho keynesianismo:

Otro ejemplo, que se mucho acerca al primeiro, es el de las compras a plazo (créditos al consumidor), al cual nos hemos referido anteriormente. Falta también aqui, dentro de la economia de mercado, simetria entre las fuerzas que favorecen esta forma, tan extraordinariamente extendida, de estimular el consumo y las otras, a las que frenan, apesar de que el más acérrimo partidário del credito al consumidor no puede negar el peligro de su desdobramento y de su degeneración.

Ou seja, na opinião de ambos os autores, um crescimento baseado exclusivamente no consumo, terminará por guiar a economia  a um crescente endividamento das famílias, e através disso, advirá a necessidade do governo tomar medidas protetivas para a economia,  o que levará ao fechamento da mesma ao invés de de sua abertura, que será feito para evitar assim o aumento das importações e uma crise na balança de pagamentos. De acordo com Röpke, as compras a vista deveriam ser incentivadas, pois elas se fundamentam na premissa de que o consumo nesta circunstância é consumo de poupança real e presente, limitada pela renda presente; dado que o consumo não cresce na mesma proporção da renda, acabaria por se gerar um incentivo progressivo a poupança. Ora, o crescimento da poupança, implicaria numa redução da propensão marginal a consumir, o que só seria contraproducente numa economia fechada como a criticada por Röpke no velho modelo keynesiano. Numa economia aberta, entretanto, o comércio exterior (exportações) surgiria como uma demanda externa, incentivando a produção onde a demanda interna cessa. Desta forma, o novo desenvolvimentismo se adequa bem ao experimento alemão, só que por uma via keynesiana.

Wilhelm Röpke, já citado acima, é conhecido como um dos proponentes da economia social de mercado alemã, e como consequência, seu ferramental teórico e arcabouço técnico estão ligados às raízes da escola de Freiburg. Assim, eles derivam diretamente, em parte da escola austríaca e em parte a economia neoclássica, o que lhe dá uma margem de diálogo com ambos os lados do espectro. Ao lado de Walter Eucken e Alfred Müller-Armack, ele constitui o que ficou conhecido como a escola econômica da Universidade de Freiburg, e como chama a atenção Thomas Storck[1], é o único modelo que até a década de 90 realmente tinha feito resultados bons o bastante para merecer os aplausos de João Paulo II.

Compatibilidades entre ESM e Novo-desenvolvimentismo.

Embora não sejam as mesmas escolas de economia, e portanto, não sejam compatíveis em todos os pontos, há, todavia, muitos pontos nos quais ambas as escolas econômicas (alemã e brasileira) concordam ou teórica ou pelo menos a nível prático, e diria que são essenciais os pontos abaixo elencados:

  • Os ordoliberais defendem que o mercado é o melhor alocador de recursos e que, em situações de competição perfeita o mercado tende a ser pareto-eficiente. Os novo-desenvolvimentistas concordam.
  • Porém, na perspectiva do ordoliberalismo, o capitalismo quando funciona com base em mercados totalmente desregulados pode criar situações bastante indesejáveis, como por exemplo a formação de monopólios, monopsônios, oligopólios e oligopsônios, naturalmente acontece também a emergência de mercados de competição imperfeita, zonas intermediárias onde o grau de competição aproxima-se do cenário de competição monopolística. Os monopólios e oligopólios, sejam de oferta ou de demanda, em certas circunstâncias trazem males econômicos e políticos, tais como políticas de sobre-preço por meio de controle de estoque, uso de mark-up elevado para margens de lucro mais generosas e devem ser supervisionados por agências reguladoras (ANATEL, ANP, etc.). Por sua vez, os malefícios políticos, incluem o fato de que uma grande concentração de poder econômico tem como risco levar a cooptação do Estado e dos agentes públicos, o que seria indesejável visto que isto fragilizaria os alicerces do Estado de direito. Desta forma, essas empresas devem ser também tuteladas por agências anti-cartel, capazes, fortes, e independentes para através de uma constituição econômica como a proposta pelos ordoliberais, assegurar, sobretudo em mercados de baixa complexidade e, portanto mais próximo de uma competição perfeita, que não haja abusos políticos e econômicos. Desta forma, se não for possível assegurar competição, seria positivo criar institucionalmente um ambiente que incentive a empresa a agir como se houvesse competidores no mercado. Os novos-desenvolvimentistas majoritariamente não parecem se opor a essa visão.
  • Setores inovadores e de alta produtividade com retornos crescentes em escala tendem a ser monopolistas ou a existirem em uma situação de competição monopolística, tais como a indústria de informática (celulares, tablets, video-games, notebooks, equipamentos médicos, etc.). Desta forma,  desmantelá-los é contraproducente e em alguns casos forçá-los a uma situação de competição perfeita também (embora mais raros). Por isso não devem ser combatidos, mas vigiados pelas agências para evitar abuso de poder econômico, tais como os já mencionados no tópico anterior. Mas devem ter uma ação limitada da agência anti-cartel (como CADE) sobre as mesmas, podendo assim receber subsídios, investimentos e favorecimentos via banco de desenvolvimento. Os economistas novo-desenvolvimentistas propõem isso, e embora represente uma flexibilização do ideal proposto pelos economistas de Freiburg nessa área não chega a negá-lo totalmente, pois na grande maioria dos países que seguiram a economia social de mercado a economia já funciona desta forma na prática. E na Alemanha, conforme mostra-nos Dietrich em “A Anatomia do milagre econômico“, isso ocorria com alguns setores fora da legislação econômica.
  • A economia social de mercado reconhece o papel do setor industrial como o setor mais produtivo, principalmente quando em comparação com o setor primário. Wilhelm Röpke (1960, p.271) afirma:

A pesar de todos los progresos em la mecanización y racionalización de la agricultura, en lo fundamental sigue siendo un ofício […] con una rama de producción con un nível de productividad muy inferior ao industrial, a pesar de todos los tractores y máquinas de ordeñar.

É notório que os novos desenvolvimentistas concordam com essa posição.

  • Na questão das políticas macroeconômicas, os ordoliberais prezam religiosamente pela estabilidade a longo-prazo, e isto na linguagem de Freiburg significa moedas estáveis. Desta forma um banco central autônomo deve operar com metas de inflação a serem impiedosamente perseguidas pela autoridade monetária. Os novos-desenvolvimentistas não se opõem a isto, mas enfatizam que moeda estável não significa apenas controle de inflação, mas também um câmbio estável a longo prazo, de forma tal que ele seja favorável a indústria e favorável a exportação. Ambas as coisas são compatíveis, especialmente se houver um leve controle de capitais e impostos flexíveis e variáveis de acordo com os cenários econômicos das commoditties e non-tradables. Inclusive, a política macroeconômica prática dos ordoliberais parece admitir o controle responsável do câmbio, pois como notou Wilhelm Dietrich (1970, p.10) o gabinete Kiesinger impôs uma “taxa suplementar de 4% sobre as exportações e a destaxação das importações na mesma percentagem” com a finalidade de “diminuir o desequilíbrio do comércio exterior” e evitar um “novo afluxo de divisas” que poderiam “perturbar a estabilidade relativa dos preços”.
  • Responsabilidade fiscal é parte importante de qualquer proposta econômica sensata. Déficits primários frequentes levam  ao incremento da dívida pública, a inflação crônica, fruto de um cenário de dominância fiscal, o que compromete o quarto tópico. Portanto, o governo deve manter positivo o seu caixa, seguir como diz Paulo Gala, uma “política fiscal contracionista” na bonança, para com isso, não apenas reduzir o endividamento público, mas também, investir em infraestrutura, bem-estar social e fazer uma reserva para políticas anti-cíclicas em períodos de crise como tradicionalmente recomendado por Keynes.
  • Um dos problemas que frequentemente levam a crises, como bem aponta o novo keynesiano Nicholas Gregory Mankiw, são os assim chamados menu costs[2]. Eles atrasam o reajuste dos preços, tornando-os como se diz no jargão econômico, “viscosos”, ou pouco fluídos. Os novo-desenvolvimentistas e novos keynesianos apontam que num cenário de competição imperfeita os reajustes de preço nessa situação são proporcionalmente mais difíceis do que nos de competição perfeita. Desta forma, mais necessária ainda é a supervisão das autoridades reguladoras. Dado que para os adeptos da escola de Freiburg, a lei de mercado de Jean-Baptiste Say é na melhor das hipóteses uma mera criação da confiabilidade e certeza gerados por uma institucionalidade segura e forte, e não uma realidade natural da economia (como propõem os austríacos), a atuação e o enquadramento jurídico prevendo problemas relacionados ao reajuste dos preços no tempo se enquadra perfeitamente como exemplo de institucionalidade funcionando a favor do princípio de Say. Aqui há que se reconhecer uma incontornável divergência teórica, os novos-desenvolvimentistas, como bons keynesianos em geral, não aceitam a lei de Say. Contudo, poderiam aceitar de bom grado o aspecto prático desta doutrina aqui exposta, independente de seus pressupostos. Assim, as intervenções microeconômicas favorecendo o trabalho sobre o capital ou vice-versa propostas por Röpke[3] para combater as assim chamadas crises primárias são bastante efetivas e compatíveis com a abordagem de ambos os grupos.
  • Antes da política cambial ser implementada é importante substituir a importação de alguns insumos dos setores complexos, incentivando a produção interna dos mesmos na proporção das possibilidades reais, pois desde a abertura da economia na década de 90, muitos insumos de produtos industrializados passaram a ser importados, o que poderia levar numa desvalorização cambial, ainda que lenta, a inflação de custos e de demanda[4]. Dado que produtos complexos são compostos pelas suas partes, para não anular os efeitos positivos da complexificação da economia com preços ascendentes e desequilíbrio na balança de importações, é necessário construir os produtos nacionais da parte para o todo, não pondo o carro na frente dos bois.
  • Os ordoliberais entendem que as instituições devem proporcionar condições sãs para o investimento das empresas, tais como taxa de juros baixas e tributação não abusiva. A escola novo-desenvolvimentista, dado que se funda numa perspectiva profit-led pensa de modo similar, de nada adianta haver um aumento das taxas de lucros das empresas, se não existirem condições macroeconômicas que incentivem o investimento. Para ambas as escolas, a de Freiburg e a de São Paulo, o rentismo é o resultado de desarranjos macroeconômicos e institucionais. A escola de Freiburg, embora prese por um câmbio flutuante, como vemos em Resico (2012, p.202), admite outras formas de câmbio desde que previstas na lei econômica e feitas por meios de controle que na tese ropkeana não sejam anti-mercado.

Portanto, é visível que há muitos pontos de convergência teórica ou prática entre as duas formas de se ver a economia, se o novo-desenvolvimentismo adotar além dos aspectos acima demonstrados de compatibilidade, também políticas públicas de carácter distributista tanto a nível de renda quanto de propriedade, tornando-se assim um ordo-desenvolvimentismo, isso permitiria que por meio dos aspectos técnicos acima elencados, que a proposta brasileira receba os mesmos louros que a abordagem da economia social de mercado alemã, por parte da doutrina social da Igreja.


[1] STORCK, Thomas. The Distributist Review: What does centesimus annus really teach? Disponível em: < http://distributistreview.com/what-does-centesimus-annus-really-teach/>Acessado em: 21/10/2018;

[2] Cf. MANKIW, N.G. Macroeconomia. Livros Tecnicos e Científicos, 1998.

[3] Cf. RESICO, Marcelo. La estructura de una economía humana: reflexiones en cuanto a la actualidad de W. Röpke. Buenos Aires: EdUCA, 2008. Disponível em: < http://bibliotecadigital.uca.edu.ar/repositorio/libros/estructura-economia-humana-ropke.pdf> Acessado em: 21/10/2018

[4] Cf. BRUNO, CASTRO, LUCAS, ZELLER et al. O panorama socioeconômico do Brasil e suas relações com a economia social de mercado. Rio de Janeiro: KAS, 2014.


Referências

BRUNO, CASTRO, LUCAS, ZELLER et al. O panorama socioeconômico do Brasil e suas relações com a economia social de mercado. Rio de Janeiro: KAS, 2014.

DIETRICH, Wilhelm. A anatomia do milagre econômico: Alemanha Ocidental. Rio de Janeiro: Editora Paralelo, 1970.

OREIRO, José Luís. Estratégias de Desenvolvimento e a Escola Novo-Desenvolvimentista Brasileira, 2018.

MANKIW, N.G. Macroeconomia. Livros Tecnicos e Científicos, 1998.

RESICO, Marcelo. La estructura de una economía humana: reflexiones en cuanto a la actualidad de W. Röpke. Buenos Aires: EdUCA, 2008. Disponível em: < http://bibliotecadigital.uca.edu.ar/repositorio/libros/estructura-economia-humana-ropke.pdf> Acessado em: 21/10/2018

RÖPKE, Wilhelm. Mas alla de la oferta y la demanda. Valencia: Fomento de Cultura Ediciones, 1960.


OBS: Como o artigo pretende ser acadêmico, o uso do termo liberal aqui quer dizer estrita e exclusivamente, livre mercado.

A indústria é mesmo tão importante? E de qual indústria estamos falando?

*Ricardo Carvalho

Uma das passagens mais célebres da Riqueza das Nações de Adam Smith é seu relato sobre o funcionamento das fábricas de alfinetes e a explicação que oferece para a elevada produtividade que nelas observou: a divisão do trabalho, isto é, a especialização dos trabalhadores em diferentes etapas do processo produtivo, que lhes permitia ganhar tempo, aprimorar suas habilidades e criava oportunidades para a inovação técnica.

O próprio Smith reconhecia não ser mera coincidência que essa sua descoberta se desse no contexto de uma manufatura, não de um empreendimento agrícola ou de serviços. Pois, segundo ele, “a natureza da agricultura não comporta tantas divisões do trabalho, nem uma diferenciação tão grande de uma atividade para outra, quanto ocorre nas manufaturas”. Em outras palavras, a produção de bens manufaturados oferece, em virtude da sua maior complexidade, mais oportunidades de especialização do trabalho dentro das empresas e entre empresas. Com isso, possibilita maiores ganhos de produtividade, contribuindo de maneira especial para o processo de desenvolvimento econômico.

Economistas de diferentes épocas apontaram outras razões pelas quais, como sintetizou  categoricamente Nicholas Kaldor, “o tipo de crescimento econômico que envolve o uso de tecnologia moderna e que resulta em alto nível de renda per capita é inconcebível sem o desenvolvimento de uma moderna indústria manufatureira”. A principal dessas razões é o fato de a indústria, ao contrário dos demais setores da economia, apresentar, geralmente, retornos crescentes de escala, o que significa que aumentos nas quantidades de fatores de produção empregados produzem aumentos mais do que proporcionais na produção total. Além disso, nota-se também que a indústria manufatureira promove, na sua relação com outros setores da economia, um papel importante na difusão de inovações tecnológicas, impactando positivamente na produtividade geral.

Por essas razões, uma experiência mais ou menos intensiva de industrialização foi experimentada — e considerada politicamente prioritária — por todos os países que lograram se desenvolver. Por meio dela, é criado um processo cumulativo de desenvolvimento, no qual o aumento inicial da produtividade, resultante do crescimento da indústria, melhora a competitividade das exportações, e o montante exportado, então, aumenta em razão de sua maior competitividade. Por fim, com o aumento no montante exportado, a produtividade média torna a aumentar, em razão dos próprios retornos crescentes de escala que caracterizam a indústria exportadora, e assim sucessivamente. Durante esse processo, os ativos baseados em conhecimento e inovação, usados mais intensivamente nas manufaturas, são difundidos para os demais setores da economia. Essa é, em resumo, a dinâmica de desenvolvimento proporcionada pela industrialização intensiva.

Há ainda outros motivos — de defesa, segurança, estabilidade macroeconômica e integração social — que fizeram com que estadistas de diferentes épocas compreendessem o papel único e insubstituível da indústria de transformação na superação do atraso socioeconômico e na afirmação da soberania nacional, sobretudo em países grandes e ricos em recursos naturais, como é o caso do Brasil.  Não tenho intenção, neste breve artigo, de me aprofundar em todas as razões pelas quais a “indústria importa”, razões que são capazes de preencher livros inteiros. Quero, apenas, após tê-las sugerido brevemente, tecer algumas considerações sobre o problema prático representado pela desindustrialização brasileira.

Em primeiro lugar, vejamos alguns fatos sobre ela. Em 1980, a indústria de transformação correspondia a 33% do PIB nacional. Hoje, não passa de 10%. A produção está praticamente estagnada desde 2010. As exportações industriais, que viveram um período de expansão no início da década passada, hoje estão em situação de letargia, sobretudo em setores de alta tecnologia, fazendo com que o déficit comercial do setor seja crescente. Alguém poderia contra-argurmentar, como frequentemente se faz, que a desindustrialização brasileira apenas segue um fenômeno global. Trata-se, porém, de um grande engano, como buscaremos explicar.

Em países europeus, nos Estados Unidos ou no Japão, por exemplo, fala-se muito em “desindustrialização”, mas o termo diz respeito apenas a uma redução da participação do emprego industrial no emprego total. Essa redução se dá justamente por conta dos ganhos de produtividade mais elevados na indústria em relação aos outros setores econômicos. É um sintoma de sua vitalidade, não de sua fraqueza. Pois, ao se tornar cada vez mais eficiente, a manufatura desses países necessita de menos trabalhadores para produzir quantidades iguais, de modo que reduz sua participação no emprego, mas a conserva no PIB e nas exportações. Ademais, embora gere menos empregos diretos, os que ainda gera são de maior qualidade e mais bem remunerados, e também contribui decisivamente para gerar empregos de qualidade no restante da economia, por conta  dos serviços e insumos sofisticados que demanda.

Definitivamente, não é esse o caso da indústria no Brasil. Aqui, não apenas o setor secundário como um todo está se reduzindo, como sua qualidade relativa está piorando. Encolhem as atividades mais inovadoras e intensivas em tecnologia, ao mesmo tempo em que avança um processo de desnacionalização das poucas indústrias sofisticadas e exportadores que ainda restam, reduzindo nossas possibilidades de crescimento econômico autossustentado no futuro. Também se constata, empiricamente, que os empregos destruídos em razão da desindustrialização são, quase sempre, substituídos por empregos de menor qualidade. Reduz-se, assim, a produtividade geral da nossa economia e as possibilidades de progresso econômico oferecidas aos nossos concidadãos. É essa a realidade, já tão conhecida e comentada, de um país no qual é cada vez mais comum encontrar engenheiros sobrevivendo em subempregos ou atividades de baixa qualificação. Cabe perguntar como, afinal, poderíamos esperar outro resultado, numa economia em que há cada vez menos dinamismo industrial e investimento em infraestrutura. Onde esperávamos que essa mão-de-obra qualificada se empregasse?

É urgente que as pessoas realmente interessadas no destino do país se mobilizem para encontrar meios de reverter o atual quadro de regressão produtiva. Foi com muito sangue, suor e lágrimas de nossos antepassados que o Brasil se tornou uma economia industrial, grande e diversificada. Não temos o direito de permitir que os enormes custos sociais incorridos nesse processo sejam jogados no lixo, assistindo passivamente enquanto compatriotas perdem empregos industriais qualificados e são forçados a regredir para ocupações de menor produtividade, ou — no caso dos mais afortunados — a sair do país por falta de alternativas. É preciso agir, e agir com efetividade. Para isso, proponho algumas reflexões sobre a natureza da nossa indústria, seus problemas, e as transformações necessárias para que ela embarque em uma nova era de desenvolvimento.

Antes de tudo, é preciso deixar claro um ponto que, talvez por ser politicamente sensível, com frequência permanece oculto no debate: para que a nossa indústria cresça, será indispensável que ela mude. Não é possível continuar alimentando ilusões, tão influentes em governos recentes, de que a indústria brasileira poderá ser salva por uma política meramente defensiva, que busque apenas proteger, a custos sociais extraordinariamente elevados, nosso parque industrial atualmente existente, isolando-o cada vez mais das correntes internacionais de comércio e, assim, garantindo-lhe certa sobrevida no curto prazo, mas tornando-o ainda mais defasado em relação à competição internacional. Precisamos, ao contrário, criar condições que favoreçam o crescimento das nossas indústrias dinâmicas e exportadoras, em detrimento de manufaturas obsoletas — frequentemente dominadas por cartéis transnacionais — que não tem e nunca terão condições de sobrevivência em um ambiente concorrencial, por isso vivem de explorar oligopolisticamente nosso mercado interno, o qual querem, obviamente, manter o mais protegido possível.

Para entender essa situação e a transformação necessária, precisamos recordar como foi construído o parque industrial brasileiro, resultante de um longo e bem-sucedido processo de substituição de importações. Esse processo, por sua própria natureza, consiste em internalizar a produção daquilo que o país demanda do exterior, para atender domesticamente às suas próprias necessidades. A indústria por ele criada, portanto, é uma indústria voltada para o mercado interno e pouco integrada ao resto do mundo. É um parque industrial grande e diversificado, mas pouco especializado em termos da economia global. Numa situação inicial de subdesenvolvimento, na qual o país precisa, primeiramente, adquirir escala no seu parque industrial, urbanizando-se e reduzindo sua dependência externa, a substituição de importações é a estratégia mais adequada. Entretanto, uma vez consolidado esse processo, é necessário fazer uma transição para um modelo exportador de manufaturados, integrando essa indústria ao comércio internacional. Tal transição implica uma reestruturação profunda do parque produtivo, por meio da qual são selecionados alguns setores competitivos com condições de projetar-se internacionalmente, em detrimento de outros menos eficientes que não podem sobreviver.

A grande tragédia brasileira, se formos sintetizá-la em um parágrafo, está no fato de não termos sido capazes de fazer a transição adequada, ou completa, para um modelo exportador de manufaturados. Ao contrário, talvez tenhamos levado o velho modelo de substituição de importações longe demais. Ainda alimentamos, em nosso país, a “ilusão autárquica” de que seremos capazes de produzir internamente tudo aquilo de que necessitamos. Essa ilusão, combinada com um cenário macroeconômico de juros indecentemente altos e uma tendência crônica e cíclica à apreciação cambial, só poderia ter um resultado desastroso para a indústria, especialmente em seus segmentos verdadeiramente favoráveis ao desenvolvimento econômico nacional, os quais não querem depender de subsídios governamentais e de protecionismo para sobreviver, mas, ao contrário, anseiam por projetar-se no exterior e conquistar novos mercados, e para isso também necessitam de condições favoráveis para importar insumos e bens de capital de qualidade.

Os governos erram terrivelmente quando, em vez de tomar medidas visando corrigir as distorções do ambiente macroeconômico — inclusive por meio de uma necessária e saudável abertura comercial, conduzida na velocidade e nos termos de nosso interesse –, tomam medidas paliativas de proteção a setores específicos, onerando o consumidor e cadeias produtivas inteiras que poderiam se beneficiar de insumos mais baratos importados do exterior, mas são forçadas a comprar nacionalmente. Assim, a pretexto de salvar alguns empregos de baixa qualidade, tais governos impedem o surgimento de diversos outros de qualidade superior, colocando o país na contramão de uma indústria global cuja eficiência decorre, justamente, da integração comercial e do fatiamento da produção entre diversos países, beneficiando-se da complementariedade de suas economias. Essa atitude de fechamento generalizado e sem critérios contribui, ainda, para manter a taxa de câmbio excessivamente valorizada, pois faz com que as importações sejam menores do que seriam em uma situação de maior abertura comercial.

Portanto, é preciso ter clareza sobre a natureza do problema estrutural que estamos enfrentando. Nossa intenção, neste artigo, não foi adentrar nos meandros do complexo debate sobre as políticas industrial e macroeconômica mais adequadas para fazer frente aos atuais problemas brasileiros, mas apenas apontar alguns critérios que devem servir para orientá-lo. Esses critérios decorrem das respostas às duas perguntas sugeridas no título deste artigo. À primeira delas, sobre se a indústria deve ser considerada mesmo tão fundamental, respondemos com um inequívoco e sonoro “sim”. Na atual conjuntura, em que já se vê ganhar força uma “ideologia da reprimarização” empenhada em justificar a regressão produtiva nacional como um fenômeno necessário e positivo, nos parece necessário insistir nesse ponto. À segunda questão, propomos que se responda de maneira igualmente clara e inequívoca, para que nossa reação tenha foco: não é qualquer indústria que nos interessa, muito menos uma indústria cartelizada, fechada e dependente de subsídios para sobreviver. Interessa a indústria competitiva, intensiva em tecnologia e integrada ao comércio internacional. É o crescimento dela que criará condições para a retomada do nosso desenvolvimento econômico. E para que ela cresça, será inevitável que a outra diminua.


Ricardo da Silva Carvalho é economista e pesquisador em História Econômica.

O novo desenvolvimentismo é mais ortodoxo do que parece: a divergência é política

Uma escola de pensamento econômico com crescente influência no debate público brasileiro, embora ainda sem grande efetividade política, é a escola do chamado novo desenvolvimentismo, associada a economistas como Luiz Carlos Bresser-Pereira, Nelson Marconi e José Luís Oreiro. Sua visibilidade aumentou a partir de 2015, quando se tornou evidente o fracasso do mix de políticas econômicas adotadas pelo Governo Dilma, cujo desfecho trágico suscitou um amplo debate econômico nacional. Mais recentemente, popularizou-se ao embalar o programa econômico do presidenciável Ciro Gomes, assessorado por alguns de seus representantes.

À primeira vista, trata-se de uma escola de pensamento profundamente heterodoxa, sobretudo nas suas prescrições para a política econômica, muito divergentes daquelas, atualmente dominantes, recomendadas pelos economistas mainstream ou “ortodoxos”. No entanto, Samuel Pessôa, um dos mais respeitados economistas liberais brasileiros, já argumentou que o pensamento novo desenvolvimentista é, “no fim das contas”, ortodoxo. O que ele parece reconhecer com isso, implicitamente, é que a principal divergência entre as duas abordagens é, na realidade, mais de natureza política do que teórica — ainda que as divergências teóricas não sejam, decerto, inexistentes ou desprezíveis.

De fato, longe de ser uma mera reedição do velho desenvolvimentismo, o novo traz mudanças que o aproximam da ortodoxia. Considera que certas análises e prescrições do desenvolvimentismo originário, embora corretas em seu contexto histórico, não respondem adequadamente aos desafios do presente. Por isso, entende, como a ortodoxia, que o Estado deve hoje assumir um papel precipuamente regulatório, apenas atuando como o produtor direto de bens e serviços para o mercado em situações excepcionais. Também não se afasta muito dos liberais em seu diagnóstico dos problemas econômicos mais urgentes do país e dos grandes objetivos a serem perseguidos pela política econômica.

Para ficar em alguns aspectos essenciais, ambas as escolas concordam com a necessidade de um ajuste fiscal profundo e de longo prazo na economia brasileira, o qual poderá possibilitar uma redução sustentável das taxas de juros. A reforma da Previdência é também reconhecida por ambas como um pilar fundamental do ajuste fiscal, e não há divergência profunda sobre o modelo de reforma a ser adotado. Ambas concordam, também, ser desejável — embora não estritamente necessário para alguns ortodoxos — que o país eleve a sua taxa de poupança doméstica, de modo a possibilitar um maior crescimento da produtividade e da renda nacional. Por fim, naquele que talvez seja o mais “impopular” dos consensos, ambas as correntes concordam que, ao menos no curto prazo, será necessário reduzir o custo unitário do trabalho para dar alguma competitividade externa à indústria brasileira.

Quando entramos nas prescrições de políticas para atingir esses fins, contudo, as diferenças se tornam mais evidentes. A agenda ortodoxa combina, basicamente, a adoção de um teto que congela todos os gastos públicos, o ataque aos direitos institucionalizados dos trabalhadores, e outras reformas liberalizantes, das quais uma abertura comercial profunda é apresentada como essencial. Com esse mix de políticas, argumentam os ortodoxos, seria possível fazer um ajuste fiscal de longo prazo, melhorar a competitividade da nossa economia e dar origem a um novo ciclo de crescimento econômico com baixa inflação.

Já os novos desenvolvimentistas, embora busquem, fundamentalmente, os mesmos fins, defendem um mix consideravelmente distinto para atingí-los. Em primeiro lugar, argumentam que o teto de gastos, tal como existe hoje, cria incentivos políticos para uma deterioração da qualidade dos gastos públicos, no que tange a acumulação de capital e políticas sociais. Em outras palavras, o teto de gastos dos ortodoxos incentiva o crescimento do consumo do governo relativamente aos seus investimentos. Pois, quando se congela indiscriminadamente todos os gastos, em um contexto de forte rigidez orçamentária e governos politicamente fragilizados, os políticos tendem a concentrar seus esforços de austeridade naquela parte do orçamento que controlam com mais facilidade e que menos afetam interesses estabelecidos na máquina pública: os investimentos e as políticas sociais. Em um conflito distributivo que reúne, por exemplo, a Magistratura e as corporações militares, de um lado, e beneficiários de políticas sociais, de outro, talvez seja prudente lembrar que uma corrente sempre se rompe no seu elo mais fraco. A abordagem ortodoxa promove, a pretexto de austeridade, uma deterioração qualitativa da política fiscal, a qual acaba impactando negativamente o crescimento econômico e a formação de poupança que se pretendia elevar. Enquanto isso, nada faz para conter o inchaço e a ineficiência da máquina pública, verdadeiras causas do desequilíbrio. Um ajuste duradouro e bem sucedido deveria se concentrar, ao contrário, em economizar no consumo do governo e em aumentar a eficiência do setor público; em outras palavras, em criar incentivos para se fazer mais com menos, recuperando, no médio prazo, a capacidade do Estado de investir em infraestrutura e políticas sociais sem onerar ainda mais o contribuinte.

Para atingir esse fim e costurar um ajuste fiscal realmente sustentável, não apenas em termos financeiros, mas também sociais e políticos, os novos desenvolvimentistas defendem uma alteração no chamado “tripé macroeconômico” quase sacralizado pelos liberais. Essa mudança começaria por dar maior transparência ao orçamento público, desagregando-o em duas partes: o orçamento corrente e o orçamento de capital. As despesas do primeiro englobariam o consumo do governo, isto é, os recursos despendidos para a manutenção e o funcionamento das estruturas do Estado. As do segundo, por sua vez, incluíriam investimentos, ou seja, despesas que contribuem para a acumulação de capital na economia e aumentam a produtividade e o crescimento potencial do PIB. Em vez de submeter toda a política fiscal, como ocorre hoje, a uma meta de superávit primário — diferença entre todas as receitas e despesas do governo, desconsiderando o serviço da dívida –, os novos desenvolvimentistas defendem o estabelecimento de metas crescentes de superávit em conta corrente do governo. Isso significa, em outras palavras, buscar atingir e ampliar uma situação na qual as receitas correntes do governo (impostos e contribuições) sejam mais do que suficientes para financiar todos os seus gastos correntes (despesas operacionais, administrativas, com pessoal etc). Toda a receita excedente configuraria uma poupança pública que, por regra, só poderia ser aplicada em despesas de capital (investimentos). De igual modo, toda e qualquer ampliação do endividamento público só seria aceita se destinada a financiar uma expansão extraordinária de investimentos produtivos.

Assim, o ajuste fiscal, a ser feito gradualmente, se concentraria sobre a parte realmente problemática do gasto púbico. Seriam criados incentivos para o apromimoramento da gestão e o controle de resultados, sem penalizar excessivamente o crescimento econômico e as políticas sociais. Também seria reguardada, para os governantes, a necessária flexibilidade para ampliarem seus gastos, inclusive via endividamento, quando for preciso atuar contraciclicamente para fazer frente a crises — mas sempre, registe-se, pela via do investimento, não do consumo ou da ampliação desmedida dos encargos com o funcionalismo, como foi feito em tempos recentes. A experiência demonstra que não adianta buscar que o governo “não gaste mais do que arrecada” sem tomar o devido cuidado com a qualidade desse gasto e seus impactos sobre o crescimento econômico — qualidade que é fundamental, inclusive, para garantir aumentos sustentáveis da arrecadação (via crescimento) sem novas elevações da carga tributária. Desse ponto de vista, uma ampliação — gradual, mas consistente — do investimento público é condição necessária para acelerar o crescimento da economia de maneira sustentável e, paradoxalmente, fazer um ajuste fiscal duradouro e politicamente viável.

Quanto à elevação da poupança privada — outro pilar fundamental da aceleração do crescimento para ortodoxos e novos desenvolvimentistas — ambas as correntes concordam, como já dissemos anteriormente, com a necessidade de uma reforma da previdência que criaria melhores incentivos à poupança individual. Entretanto, os novos desenvolvimentistas apontam que a poupança das empresas, basicamente lucros retidos, formam o grosso da poupança doméstica, além de serem a parte mais relevante dela, por vincular-se diretamente aos investimentos produtivos. Para elevá-la,  consideram necessário elevar as taxas médias de lucro, o que só será possível, de imediato, por uma redução do custo unitário do trabalho. Aqui, os novos desenvolvimentistas defendem explicitamente algo que os ortodoxos fazem apenas tacitamente: uma redistribuição temporária da renda em favor das empresas e em detrimento dos trabalhadores assalariados. Propõem que isso se obtenha pela administração da taxa de câmbio, mantendo a moeda nacional  mais desvalorizada em relação ao dólar. É importante deixar claro que essa política seria, amém dúvida, custosa para os trabalhadores, pois seu poder de compra em moeda internacional. Ao mesmo tempo, aumentaria a competitividade internacional das empresas e sua lucratividade em dólar.

Contudo, ao contrário da “solução ortodoxa”, que busca reduzir o custo do trabalho por meio de ataques aos direitos institucionalizados dos trabalhadores — sem nem ao menos oferecer uma perspectiva clara de que isso venha a beneficiá-los de outra forma –; a saída novo desenvolvimentista oferece um horizonte crível e próximo dentro do qual os trabalhadores também se beneficiariam da política pró-lucros. Desvalorizando-se o câmbio para um patamar competitivo e estável, não só o lucro, mas o investimento das empresas tenderia a aumentar, sobretudo nos setores industriais mais sofisticados e como vocação exportadora, hoje ameaçados de extinção no país. Esse aumento resultaria em uma aceleração do crescimento econômico com geração de empregos de boa qualidade, distribuição de renda mais justa, e expressivo aumento na arrecadação do governo, o qual, consequentemente, terá maior capacidade de prover bens públicos e políticas sociais. Em outras palavras, o sacrifício de curto prazo exigido dos trabalhadores — os quais, entretanto, conservariam intactos os seus direitos laborais — seria compensado por um futuro próximo muito mais promissor em termos de emprego e renda, com um aumento sustentável na taxa de crescimento dos salários.

É chegada a hora de reconhecer que a imposição autoritária de uma agenda econômica liberal e pretensamente modernizante, como vem sendo feita no país, jamais poderá ser bem sucedida na tarefa de retomar o desenvolvimento econômico. As tensões sociais crescentes e o fracasso do receituário ortodoxo de ajuste desde 2015 demonstram esse fato. Uma correção consistente de rumos e uma verdadeira retomada do desenvolvimento exigirão, antes de tudo, um debate franco e transparente sobre as estratégias disponíveis, com todos os custos e benefícios resultantes para diferentes setores da sociedade. Somente assim será possível forjar uma nova coalizão política capaz de sustentar um projeto nacional de desenvolvimento.

Adam Smith, no seu clássico A Riqueza das Nações, definiu a economia política como um ramo prático da “ciência do estadista”. Seus objetivos seriam proporcionar uma renda abundante para o povo, por um lado, e condições adequadas para o funcionamento e a expansão dos serviços públicos, por outro. O debate econômico contemporâneo, se quer permanecer fiel a esse ideal, não pode se perder em abstrações que desconsideram os interesses e poderes econômicos envolvidos e por isso são apenas retóricas na prática, mesmo se teoricamente consistentes. Em outras palavras, a economia não pode deixar de ser economia política, como foi adequadamente batizada nas suas origens. A posição novo desenvolvimentista demonstra maior sensibilidade para acomodar, na complexa agenda de retomada do desenvolvimento, as diversas aspirações e demandas dos atores sociais envolvidos. Por essa razão, é mais, e não menos, realista e factível do que o receituário ortodoxo. E está, no que realmente interessa, muito mais alinhada à grande tradição de Adam Smith.


Ricardo da Silva Carvalho é economista e pesquisador em História Econômica.

Paulo Guedes, Bolsonaro e a hétero-ortodoxia.

Arthur Rizzi*

Paulo Guedes vem surpreendendo quem esperava das declarações dele uma política econômica extremamente ortodoxa. Na prática, Guedes vem sendo o heterodoxo do mercado, ou como eu gosto de dizer, o hétero-ortodoxo. Boatos indicavam que ele optaria por uma política cambial extremamente valorizada, alguns até falaram de padrão-ouro. Mas o que se vem anunciando é justamente o contrário.

Após pressões da CNI, Guedes (link 1, link 2) já cogitou manter o câmbio em patamares bastante desvalorizados, algo que é advogado em maior ou menor grau pelos novos desenvolvimentistas. Com isso Guedes parece querer utilizar as típicas operações de open market e os swaps cambiais para implementar extraoficialmente um sistema de bandas cambiais.

O patamar desvalorizado atual do câmbio têm sido bastante benéfico para a indústria que tem exportado muito, como pontua Marchezan. Em conjunto com a reforma trabalhista, que tornou menos custoso contratar e demitir, o câmbio mais fraco torna os produtos brasileiros mais competitivos no exterior e, como o salário real fica mais baixo, há um desincentivo ao consumo interno, trocando a demanda interna pela externa.
Subsiste, entretanto, no pensamento do economista de Bolsonaro certos aspectos do pensamento de Milton Friedman, tais como a crença nas expectativas racionais e a resposta imediata do mercado aos estímulos e tendências.

Fica patente que no programa econômico de Paulo Guedes não há nada que indique ele fornecerá linhas de créditos especiais, ou fará desonerações. Ao contrário, ele pretende reduzir gradativamente a proteção dada a indústria pelos governos petistas para forçar a competição entre as empresas nacionais e as estrangeiras também em solo nacional. Isso é um limitador no projeto industrialista se feito de modo demasiado irresponsável.

A falta de consideração pelo Mercosul e por mercados subdesenvolvidos que devido ao baixo custo de nossos manufaturados poderiam ser promissores para a nossa indústria de exportação são também marcas contraditórias do mesmo. Um crescimento da nossa indústria dificilmente ocorrerá na Europa ocidental e nos EUA, extremamente industrializados. Mas deve ganhar muita força nos vizinhos latino-americanos e teria nos países lusófonos na África um promissor mercado.

Sem essas medidas de ajuste fino, o Brasil corre o risco de virar um novo México visto que a indústria nacional sem espaço para crescer pode ser abocanhada por multinacionais europeias e americanas, então teríamos um país cheio de empresas, mas nenhuma brasileira.

O projeto de Paulo Guedes representa uma certa melhora em relação as expectativas? Sem dúvidas. Mas ainda há muito por caminhar e melhorar. Falta entender, como entendeu o keynesiano Ha-Joon Chang que não há tal coisa como “capital internacional”; as empresas multinacionais são dos países em que elas nasceram. Chang lista vários casos de empresas que quando se instalavam em um novo país, abriam sua diretoria para administradores e presidentes com nacionalidade mista, mas que ao longo do tempo, iam se tornando novamente administradores nativos do país de origem da empresa.

É necessário ainda entender, como pontuei neste artigo, que os produtos industrializados se constroem da parte para o todo, então é necessário renacionalizar a produção dos insumos (e o governo deve ajudar nesse processo) antes de desvalorizar o câmbio. Desde a abertura comercial da década de 90, muitos insumos são importados, então a desvalorização poderia encarecê-los e por a perder os benefícios da desvalorização do câmbio. Aguardemos e vejamos os rumos desse governo.


*Arthur Rizzi é formado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e em Pedagogia pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.

O antigo Brasil “errado” estava certo, o novo Brasil “certo” está errado.

Paulo Gala* – Reblogado de seu site pessoal.

A história recente da economia brasileira se caracteriza por dois longos e grandes ciclos de crescimento econômico. A fase Getúlio, que vai de 1930 a 1950 e a fase JK e dos militares, que engloba o período 1955-1980. O gráfico acima destaca esses dois ciclos longos e aponta para o que poderá ser o nosso terceiro grande ciclo de prosperidade. A primeira grande arrancada brasileira vai da depressão de 1929 até o fim do plano de metas de JK. Graças a forte desvalorização cambial e a mudança do eixo dinâmico do país da agricultura para a indústria, o Brasil foi um dos primeiros a sair da recessão causada pela crise de 1929. As políticas getulistas somadas ao plano de metas criaram o maior ciclo de crescimento da história do país, quase 30 anos.

A Petrobrás, a CSN, o BNDES e tantos outros marcos do Brasil foram criados nessa fase. O plano de metas de JK lançou as bases da infra-estrutura rodoviária, ferroviária e energética que usamos até hoje. A construção de Brasília iniciou a integração da região central do país com o arco litorâneo das cidades da época colonial. A exploração do planalto central e hoje nossa agricultura de ponta no centro-oeste se devem a esses passos ousados dados nessa época. É claro que foi um período de excessos, com endividamento público, emissão monetária inflacionária e desequilíbrios externos e internos. A crise do inicio dos anos 60 foi em parte fruto dessa ousadia, um ajustamento necessário que durou quase meia década.

A partir de 1968 o país reencontra a rota do crescimento que vai até 1980. As importantes reformas institucionais da década de 60 (modernização da lei trabalhista, reforma do sistema financeiro, criação da correção monetária, do SFH, do BNH, etc…) lançam as bases para o crescimento do país nas próximas décadas. A competente gestão do então jovem ministro Delfim Netto na economia resulta em taxas recordes de crescimento no período do milagre (1968-1973). Recordes na desigualdade social também. As exportações brasileiras crescem a um ritmo explosivo, o crédito se amplia fortemente, as manufaturas brasileiras começam a conquistar mercados no mundo. Após o primeiro choque do petróleo os militares lançam o segundo PND, que logra ainda produzir crescimento num período de instabilidade.

Itaipu, Rodovia dos Bandeirantes, polos petroquímicos, obras todas dessa época. Os desequilíbrios causados pelo IIPND foram ainda maiores do que na era pós-JK. Grande parte dos investimentos foi apoiada em estatais com dívida externa. Pagamos a conta na década de 80. O segundo choque do petróleo e o aumento de juros da era Volcker deixaram o Brasil de joelhos. Passamos toda a década de 80 pagando os custos desse ajustamento.Nosso processo de transição política foi complexo e acompanhado de um longuíssimo período de instabilidade econômica. Inflação alta, pacotes, congelamentos, estado falido, dívida externa fora do controle… O Brasil dos anos 80.

*Paulo Gala é professor doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP) de São Paulo.

Comentário do Reação: No gráfico verifica-se que o crescimento do período comentado foi puxado pela produtividade, ao passo que na era FHC-Lula foi puxado pelo consumo, representado no aumento da participação do trabalho no crescimento da renda e do gap entre o PIB per capita e a produtividade do trabalho.

O mal menor – Eleição 2018

Muito se ouve falar em meios eclesiais em “votar no mal menor”, contudo, temos que nos lembrar que num mundo que já não conta mais com o reinado social de Cristo, escolher em eleições o caminho menos ofensivo á Doutrina Social da Igreja nem sempre é tarefa fácil. Primeiro porque nem sempre aquilo que um candidato diz em debate, em propaganda ou no seu programa de governo é necessariamente verdade. Segundo, porque em geral, todas as doutrinas políticas em voga (quando se tem alguma, pelo menos) são heréticas, de modo que escolher o mal menor nem sempre é algo que se visualiza num primeiro olhar.

Desde 2002 o Brasil passa por um momento muito esquerdista, com propaganda comunista às claras e o PT só não conseguiu chegar efetivamente ao socialismo – que deveria ser aplicado segundo os cânones do modelo bolivariano aplicado na Venezuela – porque não conseguiu desmontar a máquina fisiológica e matreira da dupla PMDB-PP. Dupla maquiavélica não no sentido pejorativo de maldoso, mas sim no sentido filosófico da palavra. Todo fisiologismo é um adesismo do poder, que é visto ou como fim em si mesmo, ou como meio de saquear o povo e pô-lo ao seu serviço. Seja de uma forma ou de outra, Santo Tomás de Aquino no De regimine principum (De regno) já havia demonstrado que estas são formas degeneradas de governo, pois não têm como fim o bem comum.

Além do mais, o socialismo já foi criticado em inúmeras encíclicas, seja como ideia ou ideologia, seja como caso concreto; através do qual posso citar tanto a Divini Redemptoris de Pio XI, ou ainda o Decretum contra communismum do Papa Pio XII, quanto na Notre Charge Apostolique em que há a condenação da parte de Pio X a um caso concreto na França de um movimento “socialista cristão”, o Sillón. Felizmente, a partir das afamadas “Jornadas de Junho” em 2013, o quadro começou a mudar.

Mas será que a alternativa que nasceu de 2013 que levaria aos protestos de 2015 e ao impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff e o fim de 13 anos de petismo representa o mal menor? Se observado em termos relativos, sim, sem dúvidas! Não há dúvidas de que EM CERTO SENTIDO MATERIAL a coalizão liberal formada pelo MBL, pelo EPL e pelos think tanks liberais como o Instituto Mises Brasil são menos ruins que o comunismo e o socialismo. Mas eles NÃO são o que há de menos ruim a disposição. Muitos ditos católicos são libertários ou liberais clássicos, adeptos do laissez faire promovido pelos supracitados grupos. Se esquecem, contudo, de que a Igreja condena fortemente o liberalismo, basta consultar as encíclicas Mirari Vos do papa Gregório XVI, Quanta Cura e Syllabus de Pio IX, Rerum Novarum de Leão XIII e Ubi arcano Dei consilio de Pio XI. E como já mostrei neste artigo que traduzi para a The Distributist Review, tal orientação não mudou após o Concílio Vaticano II. O papa Francisco outro dia mesmo reafirmou isso em advertência à vários bispos.

Ora, se liberais não são o caminho, qual é o caminho então? Depende! No Brasil temos hoje pelo menos quatro formas de pensar a política e especialmente a economia. Temos a decadente via socialista/comunista, que como já vimos é anticristã e quem a defende sabendo de todas as implicações filosóficas do marxismo, acaba excomungado lata sententiae. O liberalismo não está muito atrás, razão pela qual o muito prestigiado historiador Thomas Woods Jr; que escreveu o bom livro “Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental“, acabou se tornando persona non grata para os católicos americanos, ao desdenhar e torcer e retorcer a lógica para inserir o liberalismo dentro da DSI e da escolástica, como em “The Church and the market“. Consta que recentemente o mesmo desistiu disso e passou a desdenhar a própria doutrina social e, inclusive, negar a infalibilidade papal nessa matéria. O que é muito triste, mas não deixa de ser uma amostra do que a adesão ao liberalismo pode fazer com um cristão. Para quem quiser mais informações a respeito, recomendo a excelente obra de Christopher A. Ferrara, “The Church and the libertarian” onde se refutam todas as falácias heréticas de Woods.

As outras duas alternativas que sobram é a economia social de mercado e um vago consenso keynesiano à brasileira (um nacional-desenvolvimentismo fiscalmente responsável). Os partidos que defendem uma terceira via econômica, a economia social de mercado são, a saber, o PSDB, o DC, o PSC, o PSL o PRB, o PHS e o DEM. O primeiro tem uma visão correta da economia, mas é adepto do progressismo moral. Pautas como aborto, casamento homossexual, liberação da maconha, entre outras coisas nos impedem de aderir a este partido excepto em último caso. O DEM parece ter uma visão menos progressista nessa matéria e sua proposta é de terceira via, e, portanto, pode ser uma alternativa factual. O problema, porém, é que o partido está quase sempre numa coligação com o PSDB, o que inviabiliza sua candidatura não só a pleitos nacionais, da qual não participa independentemente a mais de 25 anos, mas também em locais, onde quase sempre está a reboque dos tucanos.

PSC, PSL PRB, PRTB, Patri, PHS e DC são os partidos que mais têm compromisso com pautas cristãs, o primeiro, porém, está cada vez mais adepto do liberalismo econômico e é dominado por evangélicos, mas se constitui ainda assim, num mal menor. A sua adesão gradativa a um liberalismo econômico cada vez mais radical é preocupante, contudo.O PSL de Bolsonaro é a mesma coisa, talvez até pior pois o liberalismo é mais escancarado. Contudo, muito se questiona acerca do quão longe vai esse affair Paulo Guedes e Bolsonaro. Um affair que ninguém pediu, que ninguém queria, e que se Deus quiser vaia acabar. PHS e DC mantêm suas bandeiras tradicionais, mas são partidos nanicos e de nicho, o que torna difícil que alguém proponha uma economia social de mercado com chances reais de vencer. Mas se você tiver a sorte de encontrar os dois últimos em pleitos independentes, vote neles. O caso do PRB é ainda mais complicado, pois é um partido associado à tenebrosa igreja Universal do reino de Deus do bispo Macedo. O PRB, ainda por cima se afasta um pouco da ESM em sua doutrina econômica, já que tende mais a um keynesianismo vulgar do que à terceira via.  Contudo, todos os quatro, em vista de socialistas do PT, PSOL, PCdoB e ultraliberais como os candidatos do MBL, do NOVO são males menores.

A economia social de mercado tem sido a única apoiada pela Igreja de maneira mais enfática dentro do capitalismo, tanto o papa Francisco, como João Paulo II, segundo Thomas Storck, professor de Doutrina Social da Igreja, a tem apoiado formalmente.

PMDB, PSD, PP, SD, o PRTB, o Patri além de outros partidos são adeptos do pensamento keynesiano; PMDB, PSD e SD são novos keynesianos, PP, herdeiro da ARENA, é adepto do “desenvolvimentismo conservador”, razão pela qual foi talvez um dos maiores adeptos do social-desenvolvimentismo que o PT implantou a partir do segundo governo Lula. O PRTB, em coligação com o PSL, e o Patri despontam como um nacionalismos de direita keynesianos, são alternativas que se afastam da ESM, mas são ainda assim aceitáveis. O pensamento keynesiano está um pouco afastado da DSI quando comparado à economia social de mercado, mas na sua versão novo-keynesiana é aceitável e têm pontos de intersecção muito interessantes. O keynesianismo desenvolvimentista se afasta um pouco mais e, portanto, só deve ser escolhido caso as alternativas seja o socialismo/comunismo ou o liberalismo radical. Há ainda, uma vertente que, com os devidos ajustes é similar ao novo-keynesianismo.

Portanto, votos para a presidência em Bolsonaro (PSL), Cabo Daciolo (Patri) e Eymael (DC) são votos justificados moralmente, não obstante apenas o voto em Jair Bolsonaro ser recomendável na situação presente, por sua situação mais favorável no pleito político. Contudo, quem quer que se decida pelos dois primeiros não está de modo algum, deslegitimado.

O professor de teologia moral da Universidade do Texas e especialista em Doutrina Social da Igreja, John Médaille, em seu artigo para a The Distributist Review, The Politics of Ingratitude“, pontuou que o católico entre um liberal clássico e um keynesiano moderado ou entre um socialista/comunista e um keynesiano moderado ou desenvolvimentista, deve optar pelo keynesiano, pois se ele erra no entendimento do bem comum pelos princípios utilitários, ao menos acerta nos fins e nas intenções.