O guru do caos: comentário sobre as últimas do senhor Olavo de Carvalho

Ricardo Carvalho*

A esta altura já está claro que Olavo de Carvalho não trabalha apenas para destruir um projeto político em particular, mas a política brasileira enquanto tal. Não sabemos se faz isso por odiar nossa sociedade e desejar que ela seja incapaz de se organizar, ou porque quer mantê-la dividida e desorientada perante as pretensões geopolíticas da sua Pátria do coração, que todos sabemos qual é.

Por isso fritou o ministro Vélez, como fritou Mourão e irá fritar qualquer um que procure fazer política de verdade, naturalmente por meio do compromisso e da conciliação de interesses diversos, sem os quais jamais pode haver a legitimidade e a coesão indispensáveis à eficácia de qualquer ordem política.

Olavo não nasceu ontem: ele sabe que está a serviço do caos. Sintoma de sua lucidez está no fato de que, para justificar retoricamente sua postura impolítica perante uma massa de seguidores alucinados, ele transfigure com grande habilidade seu “conservadorismo” até aproximá-lo, surpreendentemente, do democratismo plebiscitário mais radical e revolucionário.

Seu discurso, agora, é: as elites políticas e as instituições vigentes são incuráveis; o Presidente, representante da maioria, deve falar diretamente com o “povo” e deixar-se guiar pelos seus humores, sem intermediação alguma. Dane-se o decoro; danem-se os pesos e contrapesos; danem-se os interesses minoritários representados no Parlamento.

A Volunté Génerale, representada pelo Presidente, é soberana e deve reinventar o país do zero. Du passé, faisons table rase!


*Ricardo Carvalho é mestrando em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).

Entenda o que é o americanismo: a ideologia do governo Bolsonaro.

Arthur Rizzi*

[…] só não me sinto envergonhado de haver nascido no Brasil porque não tive a menor parcela de responsabilidade nesse infausto acontecimento. Meus antepassados portugueses e alemães, uns burros, achavam que estavam indo para a América.

Olavo de Carvalho em Valei-me, Alborghetti!

As pessoas tem observado e chamado de conservadorismo a ideologia manifestada pelo governo Bolsonaro, especialmente pela ala associada ao escritor e jornalista Olavo de Carvalho. Assim,  a ala composta por Weintraub (MEC), Ernesto Araújo (Itamaraty) e Damares (DH), seriam por assim dizer alas conservadoras. Em que pese de fato haver uma relação com o conservadorismo, não é apropriado dizer que esta ala seja conservadora e que a ideologia do governo seja conservadora.

Conservadorismo é uma expressão que pode ser tomada em vários sentidos, tanto como um nome genérico para posições à direita ou como uma expressão voltada única e exclusivamente para as doutrinas burkeanas e derivadas que se manifestam mais comumente em países de língua inglesa.

Se tomado como nome específico de uma doutrina e de suas variantes, o governo Bolsonaro especialmente na ala olavista, até pode ser dito ideologicamente conservador embora seja muito pouco conservador na prática. Isso acontece porque a definição de conservadorismo como uma doutrina filosófica oriunda em Burke, torna restrito demais o conservadorismo como uma manifestação histórica e cultural geograficamente restrita. Medidas como a do governo Bolsonaro em relação às armas, à economia, ao federalismo e à política externa são sem dúvidas conservadoras se fossem aplicadas por um governo inglês ou americano. Porém, com uma historicidade totalmente distinta e uma realidade completamente a parte do mundo anglo-saxão, essas medidas geram enorme estranheza no Brasil. O que nos leva ao conservadorismo como um nome genérico para posições à direita.

Um conservadorismo brasileiro deveria prezar pela realidade histórica do Brasil. O pensamento conservador no Brasil, como demonstrou o nosso colaborador Ricardo Carvalho neste artigo, tem uma origem nacionalista e anti-liberal em matéria econômica (veja o caso não só dos primeiros conservadores, mas também os Integralistas, o regime militar e o Prona). Ele também é de tendência centralista administrativamente falando, preferindo um Estado unitário a um Estado federal. É preocupado com a religiosidade e isolacionista em política externa, tendo sua preocupação exclusivamente limitada à América do Sul.

Ora, o olavo-bolsonarismo (que é como tem sido chamado), ignorando essas preocupações históricas e importando o credo conservador de matriz anglo-americana em doutrina e em práxis, tem ido na contramão desse histórico. De forma que, embora os autores que embasem essa visão de fato sejam conservadores, a implementação das ideias aqui tem sido na verdade uma inovação.

E é por ser uma inovação, que eu digo que a ideologia desse governo é o americanismo. Tomo o termo aqui emprestado, tal como ele é definido como uma heresia pela Igreja Católica. Segundo o Papa Leão XIII na carta Testem Benevolentiae, o americanismo seria uma variante exclusivamente americana da heresia liberal e modernista. Ela, como o liberalismo, não apenas toleraria as liberdades modernas, mas também as endossaria. Diferiria-se do liberalismo, porém, por uma certa imanentização da providência no sentido de apontar os Estados Unidos e a civilização americana como uma antecipação do reino de Deus ou como uma realização mais perfeita da cristandade. Conhece esse tipo de visão? É a de Jacques Maritain, que endossou durante muito tempo o americanismo embora terminasse por rejeitá-lo n’O camponês da Garona enquanto se lamentava pelo Concílio Vaticano II.

O americanismo fazia uma apropriação de uma visão protestante, assim como os calvinistas perseguidos em fuga para as 13 colônias, os católicos irlandeses (essa heresia afetou muito essa comunidade) passaram a se ver como o povo hebreu em fuga pelo deserto em busca da Canaã prometida por Deus. Ao chegar nos EUA e alcançarem rápida prosperidade, esses católicos oficializaram sua visão da América como a nova Israel.

A direita brasileira bolsonarista, por razões históricas outras tem essa mesma visão imanente dos Estados Unidos, explícitas à seguir:

1- Uma adoração por um modelo idealizado das instituições americanas.
2- Uma concepção a priorista da essência do que é o ethos americano como sendo a narrativa ideológica republicana.
3- A teologia histórica do Estado e da nação americanas, como sendo o receptáculo da vontade de Deus, e atores principais (papel dividido com Israel) da execução da vontade de Deus no mundo. Instrumentos da Providência na História. A city upon a hill.
4- Uma concepção metafísica e transcendente das causas do progresso económico e material: a prosperidade não é a consequência natural de política externa eficiente, com políticas públicas distributistas e políticas macroeconômicas desenvolvimentistas. Ao contrário, o progresso seria fruto de como o Brasil se insere dentro do projeto divino no destino histórico de Israel e EUA.
5- Se Deus escolheu os veículos históricos da salvação imanente, o diabo escolheu os veículos geopolíticos da perdição. Qualquer país que se oponha ao projeto americano. Podem ser islâmicos, comunistas, fascistas, etc. A Russia ocuparia a posição do pecador indeciso, com a alma dividida entre servir a Deus (EUA) ou ao diabo (o mítico comunismo), por isso o chanceler Ernesto Araújo idealizava uma parceria EUA, Brasil e Rússia, representando a união das três nações braço do cristianismo.

  • O Brasil sendo o maior país católico do mundo.
  • A Rússia maior país ortodoxo do mundo.
  • Estados Unidos o maior país protestante do mundo e escolhido por Deus na visão olavo-bolsonariana.

A China seria a mão do diabo na Terra. O veículo da perdição por excelência. Coréia do Norte e Venezuela os possessos em vias de serem exorcizados. De certo, há uma ligação entre conservadorismo enquanto doutrina filosófica e esse americanismo, mas dado que não conserva nada do Brasil e cuja missão é americanizar o país, não se pode dizer de maneira nenhuma que seja um conservadorismo.

Isso se dá pois o americanismo enquanto doutrina do governo é uma força de modernização. A literatura clássica da sociologia brasileira cristalizada em Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Raimundo Faoro, consagrou a visão do Brasil como um povo pré-moderno cercado por instituições modernas, o que resultaria no patrimonialismo, no populismo e na corrupção endêmica. Ainda hoje, embora o processo modernizador esteja mais avançado, o brasileiro é um povo que encontra muitas dificuldades em se modernizar e continua sendo em grande medida um povo de hábitos e mentalidade do Antigo Regime português.

Desta forma, não buscando conservar nada, o americanismo visa modernizar o país através da imposição de uma fôrma como um molde cultural, sociológico, antropológico norte-americano idealizado. Unindo de um lado o protestantismo americano (Malafaias, Damares, Felicianos, Edir Macedos) e um catolicismo americanista ou filo/cripto-americanista (Pe. Paulo Ricardo, TFP, CDB, etc.) saudosista de uma outra força americanista, a UDN.

Se é para dar um nome, que nomeemos a ideologia corretamente. O governo Bolsonaro não é conservador, é americanista.


*Arthur Rizzi é formado em história pela UFES.


Fontes úteis para pesquisa:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/566284-que-tipo-de-heresia-e-o-trumpismo

http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/velhaheresia/

http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/testem/

Cala a boca, Ernesto!

O macumbeiro do Itamaraty, vulgo Ernesto Araújo, disse recentemente em aula magna que o comércio com a China é a causa da nossa estagnação!

“O Brasil foi o país que mais cresceu no mundo quando seu principal parceiro de desenvolvimento eram os EUA, e depois estagnou, quando desprezou essa parceria com os EUA e passou a buscar Europa, integração latino-americana, e, mais recentemente, o mundo pós-americano dos Brics”, disse.

“De fato, a China passou a ser o grande parceiro comercial do Brasil e, coincidência ou não, tem sido um período de estagnação do nosso país.”

Primeiro ponto notável nesta “análise”, é uma crença metafísica de que o simples fato do Brasil tornar-se parceiro dos Estados Unidos, faz as forças cósmicas, os ventos do universo e a divina providência soprarem a favor. Não há um dado, não há nenhum modelo econométrico que justifique tal asserção. É pura e simples crença no messias terreno de Olavo e Ernesto, o sacrossanto, divino e guia para todos os povos, o Estado americano! Cada dia mais fica evidente que a ideologia desse governo não é nenhum conservadorismo, mas uma idealização (um tanto fantasmagórica) da nação americana, tal como reproduzida pela literatura republicana, que enxerga os Estados Unidos como o principal ator de uma teologia histórica, na qual a nação americana encarna as virtudes cardeais e teologais para toda a humanidade. (Não custa lembrar que essa é uma visão maçônica).

Como vemos nos dados do banco central (aqui e aqui), foi a partir de 2002 que a economia chinesa começa realmente a crescer em importância frente os Estados Unidos e a União Européia; e de 2002 a 2010 o Brasil registrou um ótimo crescimento econômico. De fato, a média do crescimento econômico apontado por Delfim Netto nesta palestra da ANCHAM seria muito menor sem a China. O que denota que o crescimento baixo que é inaugurado com o plano Real só não foi pior por causa da China. E não o contrário! De resto a palestra do Delfim fala por si, explicando nosso baixo crescimento e a crise do governo Dilma.

Em outras palavras, ao invés de procurar explicações sérias para nosso baixo crescimento nas últimas duas décadas e meia, como o regime macroeconômico adotado, a desindustrialização, a cartelização de multinacionais e bancos, não! Mais sensato é o ministro, que prefere dedicar-se a explicações esotéricas. Cala a boca, Ernesto!

Bolsonaro cavou a própria cova

Arthur Rizzi*

As lutas intestinas do governo entre a ala olavo-bolsonarista e a ala militar se intensificaram muito nas últimas semanas, com Bolsonaro recebendo um ultimato de seus ministros e vice-presidente para que o mesmo criticasse o astrólogo desbocado e maledicente Olavo de Carvalho. Como esperado, tal medida suscitou fúria e ódio na olavosfera, que agora se divide entre a ideia de um presidente fraco e manipulado pelos seus ministros e a figura de um traidor inominável.

A verdade é que o presidente Jair Bolsonaro tentou levar essa situação em banho-maria, empurrando com a barriga. E a ideia fazia algum sentido, onde um lado limitava as burradas e exageros do outro. Onde o olavismo fosse extremamente subserviente aos interesses de sua verdadeira pátria e razão de viver, os Estados Unidos, os militares entrariam com uma boa dose de razão e nacionalismo. Do outro, onde houvesse certo laxismo moral, entrava o olavismo com moralismo protestante para amenizar. A ideia não era ruim, exceto por um ponto.

A história nos mostra que presidentes só se sustentam sobre bases divididas se ele, pessoalmente, tiver mais força que as duas facções de suporte de seu mandato. Um exemplo recente é Vladimir Putin, que reúne em sua base liberais, nacionalistas e até alguns comunistas desgarrados do PCFR. Putin encarna, assim, a figura do charreteiro com um martelo. De um lado da charrete o cavalo vermelho, do outro o cavalo liberal. Sempre que um começa a andar mais rápido que outro ele dá uma martelada na cabeça do cavalo, que logo retorna ao seu passo normal.

Bolsonaro desde antes de seu mandato, desde o início do período eleitoral, disse e desdisse coisas várias vezes por conta da pressão. Quando encarnava certo nacionalismo vulgar, percebeu que perdia apoio da ala olavista. Com isso, amoldou o discurso ao liberalismo mais entreguista. Quando percebia que o excesso de liberalismo desagradava a certas alas do militarismo com quem contava com apoio certo, diminuía a ênfase no liberalismo salvaguardando algumas estatais estratégicas.

Uma coisa é o uso do discurso para encontrar meios termos toleráveis, outra é sucumbir à pressão de lobbies. A fraqueza reiterada do presidente, juntamente com falas e aparições desastradas; nomeações ministeriais completamente ineptas e ideológicas, beneficiando assim a ala olavista. A presença deletéria dos filhos mostrando ter mais voz e vez que o próprio pai no governo, levaram a inevitável ascensão do General Mourão.

Mourão fez muito pouco pelo destaque que ganhou. Tudo o que ele precisou fazer foi sorrir para as câmeras, falar obviedades que todo mundo sabe, mas que andam esquecidas pelo poder discursivo do olavo-bolsonarismo, e tratar jornalistas com algum respeito. Do outro lado, um presidente sem qualquer poder sobre a ação ideológica dos próprios filhos, em conjunto com uma postura de enfrentamento à mídia, além da sua incapacidade de entender os elementos mais essenciais da economia (em frangalhos) e dos problemas políticos com os quais têm que lidar, aliado a sua crença genuína (true believer) nas teorias estapafúrdias do velho morfético da Virgínia, acabou por fazer com que Mourão brilhasse mais por demérito do presidente do que por qualquer qualidade de Mourão. Era inevitável.

Nenhum dos dois lados ganhou o apoio da ala liberal-mercadista comandada por Paulo Guedes, o que poderia ser o fiel da balança. As razões são simples. Apesar da ala militar representar a sobriedade política e a capacidade de articulação de que essa ala precisa, ela têm um viés nacionalista e estatizante, com Mourão se opondo a privatização dos correios e querendo até rever a entrega da Embraer. Por outro lado, a ala olavo-bolsonarisra, amante do livre-mercado e da Escola Austríaca de economia, goza de prestígio no campo econômico. O americanismo desabrido dessa ala do governo favorece ao espírito privatista desse grupo. Por outro lado, a inabilidade política da mesma criando cizânia no seio do congresso e sua política externa idealista e conflituosa com importantes parceiros comerciais, fazem com que essa ala não apoie de imediato o olavo-bolsonarismo.

Sem um presidente forte, e sem um fiel da balança, podem haver dois cenários possíveis:

1- Mourão toma a dianteira, ganha apoio de um setor da esquerda e derruba o presidente.

2- O clima de balbúrdia e conflito crescerá até que ou um lado entregue os pontos por completo, ou até o governo ficar completamente paralisado em todas as esferas.

Se eu fosse o presidente, torceria para a ala olavista desistir, pois pelo menos com ela abandonando o barco, ainda é possível contornar a situação com a habilidade política e técnica da ala militar. Se os militares abandonarem o navio, faltará quadros técnicos para preencher os ministérios e aí o reino do caos ideológico terá início. Isso levará o governo a um fim precipitado tão ou mais melancólico que o de Dilma.

Contudo, no fim das contas, se Bolsonaro cair, reclamarão do Mourão, ou do Paulo Guedes, ou do partido da imprensa golpista, ou da esquerda comunista, etc. Mas a culpa será do próprio presidente, um despreparado e omisso.


*Arthur Rizzi é formado em história.

 

E o Wikileaks dá um golpe na tese dos três poderes globalistas.

O Wikileaks revelou um dado interessante: O governo dos Estados Unidos utiliza o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD) como armas não convencionais de guerra. Isto é particularmente constrangedor para os defensores da tese olaviana dos três poderes, pois estes órgãos são o coração do sistema financeiro mundial que é, basicamente, o braço financeiro do globalismo.

A tese dos três poderes afirma que o objetivo do globalismo é destruir a soberania dos EUA e de Israel, que seriam as últimas nações soberanas do mundo. Mas quando percebemos que os governos americanos usam esse braço financeiro como arma de guerra, fica evidente que longe de serem poderes contra a soberania americana são órgãos capturados pelo poder econômico e político dos Estados Unidos.

Logo, não há como separar o globalismo do Estado Americano. Embora condenemos o regime de Maduro e torçamos para sua remoção rápida e sem meios violentos, não podemos deixar passar esse dado. Não custa lembrar que isso já era anunciado pelo finado professor Adriano Benayon.

E o tal de meta-capitalismo? Crítica a um conceito olaviano.

Arthur Rizzi*

Os seguidores de Olavo de Carvalho, além do próprio, usam sempre o termo meta-capitalismo como forma de descrever um determinado fenômeno contemporâneo de grandes capitalistas que pela sua posição enquanto membros da alta burguesia deveriam em tese apoiar posições à direita no espectro político e, entretanto, apoiam movimentos de esquerda e de extrema-esquerda que, em teoria, deveriam ser contrários aos seus interesses. Qual será a profundidade e o realismo desse conceito? Veremos abaixo.

Definindo:

Segundo Olavo de Carvalho neste vídeo o meta-capitalismo se configura como sendo o capitalista que tornou-se tão extraordinariamente rico com a economia de mercado ao ponto de que em determinado momento, o mercado e sua instabilidade tornam-se uma ameaça a ele e a sua família. Isto é, o meta-capitalista para consolidar seu legado, coopta o Estado para impor regulações e fazer intervenções que dificultem a vida de potenciais ameaças a si e aos seus.

Ora, para Olavo é sabido que o dinheiro não é poder, mas sim um meio de se conseguir poder. Contudo, em dado momento, o volume de dinheiro que se adquire é tamanho que ele passa a ser poder, visto que a economia ao depender muito dos too big to fail, coloca nas mãos dessas pessoas multibilionárias, quer elas queiram ou não, uma responsabilidade enorme sobre a vida delas, de seus parentes e de milhares de outras pessoas as quais elas nem mesmo conhecem.

Em outras palavras, para Olavo, o meta-capitalista é alguém que vive num sistema aparte entre o mercado e o poder do Estado, estando imune aos choques de mercado.

Acertos e erros do conceito:

O conceito parte de um insight muito acertado, o de que a partir de certo momento, o dinheiro deixa de ser um mero meio de obter poder, mas torna-se de facto poder. O índice de GINI pode ilustrar isso muito bem. Segundo a medição da desigualdade de renda do índice, os valores oscilam entre 0 e 1, sendo zero o socialismo utópico onde todos têm exatamente a mesma renda, e 1 a tirania distópica onde um único indivíduo ou família tem a renda de todo um país estando todos os demais na miséria. O índice assume esses extremos como referenciais para fins matemáticos, que embora logicamente possíveis, são muito difíceis de existirem na prática. Como se trata de referenciais aritméticos, sua exequibilidade na realidade é irrelevante, pois trata-se de um dado axiomático que a verdade matemática neles contida expressa. A realidade, já é prevista no índice, sempre se manifestará numa mistura desses dois estados, e nunca os estados puros.

Assim, num país extremamente igualitário, digamos a Alemanha – onde o GINI aponta na faixa de 0,39 – o impacto de um único homem muito rico torna-se menos relevante, pois como a própria sociedade tem meios de renda muito equitativos, o impacto do poder dele é reduzido.  Ou seja, na Alemanha 61% da renda está na própria sociedade. Dado que a renda é produto dos fatores de produção (capital e trabalho), e dado ainda que o capital é o fator onde os ganhos de produção são crescentes em escala, é pouco provável que em economias de mercado com baixa desigualdade, poucas pessoas detenham capital e haja apenas assalariados fora disso. Nessa sociedade muitos têm meios de empreender, se não como forma principal de renda, ao menos como uma complementação de renda part-time.

Um caso contrário seria a de um país muito desigual, digamos o Brasil, que na época do regime militar registrou 0,63 no índice de GINI. Como a renda estava majoritariamente concentrada, significa que o trabalho assalariado é a regra sendo o empreendimento próprio um complemento de renda quase sempre de baixíssima complexidade e baixíssima produtividade, na forma de subempregos quase todos informais. Neste cenário há enorme concentração do fator capital, e que os retornos de lucros fazem com que o poder de um único bilionário seja muito maior sobre essa sociedade do que sobre a alemã.

Assim, Olavo faz uma detecção correta que também foi feita por John Maynard Keynes, pelos ordoliberais de Freiburg como Walter Eucken, Wilhelm Röpke e Alfred Müller-Armack e também pelos distributistas como G.K. Chesterton, Hillaire Belloc, E.F. Schumacher, Christopher Ferrara e John Médaille e ainda por solidaristas como o Pe. Heinrich Pesch, SJ.

Entretanto, o conceito apresenta falhas, pois ele parte de constatações no mínimo duvidosas. Por exemplo, a ideia de que a economia de mercado desregulada é sempre pareto-eficiente. Isto é, em termos mais teológicos ou filosóficos, dizer que o mercado desregulado é pareto-eficiente significa dizer que em todo caso, no mercado desregulado a justiça distributiva e a justiça comutativa são sempre idênticas. O que quer dizer que não há porque questionar se uma troca voluntária sem um terceiro envolvido (digamos, o Estado) é justa. O mercado sempre proverá resultados perfeitamente equitativos.

Como a maioria dos economistas liberais sensatos (Misesianos, não estamos falando de vocês) já perceberam, isso não é exatamente verdade. E as provas empíricas disso são tão abundantes no meio acadêmico que somente uma turba religiosa de fanáticos (libertários) poderia insistir numa afirmação contrária. Não é que eu esteja me eximindo de oferecer estas provas aqui, mas sim o fato de que aceitar debater algumas verdades tão bem consolidadas significa dar ao erro uma dignidade imerecida, nesse caso a de hipótese respeitável quando elas são simplesmente erros crassos. E essa é uma das grandes sacadas dos Papas do Concílio Vaticano I, ao dizer que o erro não tem direitos eles não estão condenando a discussão sobre aspectos ainda não muito claros da modernidade, mas sim dizendo que algumas ideias serem apreciadas quando claramente erradas é dar a elas não apenas um direito a existência, mas um poder muito grande de subverter a ordem política. Imagine você que um físico do nível de um Michio Kaku decide debater seriamente com um terraplanista? Um leigo ou uma pessoa que está sendo introduzida na discussão científica pode ser levada a pensar que o terraplanismo é uma hipótese séria em discussão, mesmo quando existem uma infinidade de demonstrações em contrário (provas).

A consequência desse erro é dizer que toda intervenção do Estado corrompe o processo econômico e provoca desigualdades sociais, o que não é verdadeiro (e também abundam evidências disso) e parece que o próprio Olavo aceita, dado que no artigo “fórmula da minha composição ideológica” o mesmo argumenta no sentido de alguma intervenção do Estado.

“O Estado existe apenas para impedir que os concorrentes se comam vivos, para assegurar as condições logísticas da prática do liberalismo e para, last not least amparar in extremis quem não tenha a mínima condição de concorrer no mercado”.

Olavo com esse tipo de frase ganharia certamente o apoio de um Ludwig Erhard ou de um Walter Eucken. Então, fica pouco claro que tipo de regulação (porque regulações são necessárias para isso) e intervenção para Olavo são as que os meta-capitalistas almejam. Pois dado que não existe economia de mercado totalmente desregulada (como Ha-Joon Chang demonstrou), então precisaria que Olavo definisse que tipo intervenção governamental é a que os meta-capitalistas propugnam. A maioria delas visam a distribuição de renda, isto é, por meio de tributação e transferência de renda, permitir que as pessoas mais pobres tenham um esteio para melhorar sua vida. Isso dependendo do modo como é feito ajuda até mesmo a desconcentrar poder econômico de alguns desses meta-capitalistas. Então, é curioso porque alguns deles apoiam isso, como o próprio George Soros, não? Enfim, as razões aqui caberia a Olavo expor e eu sinceramente estaria muito interessado em descobrir.

Eu – uma síntese de ordoliberalismo, distributismo e desenvolvimentismo – acredito que a distribuição de renda enquanto permanece um elemento válido, ela é apenas em potência empreendedorismo das pessoas comuns, como eu e você caro leitor. Por isso estou cada vez mais convencido de que tanto os solidaristas como o Pe. Ávila ou os distributistas como Médaille têm razão, não basta justiça re-distributiva, é necessário justiça distributiva e isso significa de alguma forma favorecer a participação do fator trabalho nos lucros das grandes empresas (seja por sociedade ou por meios acionários), o estímulo ao cooperativismo onde possível e benéfico, o estímulo aos pequenos e médios empreendimentos e uma reforma agrária de caráter não confiscatório salvo em condições “extremas e extremamente extremas”. A redistribuição de renda, o salário mínimo e a CLT continuam válidos e merecem ser defendidos? Sem sombra de dúvidas. Mas são paliativos enquanto o homem comum tão defendido por Chesterton não é capaz de se suster majoritariamente pelo seu próprio esforço produtivo.

Há ainda um outro problema neste conceito e é típico de quem foi muito influenciado pela literatura da Escola Austríaca como Olavo ou os autores associados a esta escola. Quem chama a atenção para isso é Christopher Ferrara em “The Church and the libertarian“, onde o mesmo ataca figuras imponentes do liberalismo católico, tais como Thomas Woods, Alejandro Chafuen, Lew Rockwell e Jeffrey Tucker em nome da doutrina de sempre da Igreja.

Todos os austríacos em geral defendem o livre-mercado e como consequência condenam toda e qualquer intervenção do Estado. Contudo, no mundo real, nós não temos (e conforme veremos nunca tivemos) o livre-mercado tão desejado por eles. Então, na prática, quando se opõem a uma regulação não estão defendendo o livre mercado e sim um mercado já regulado – e acredite algumas regulações são muito importantes como Olavo mesmo reconhece – então ficam sempre na insanidade de criticar o intervencionismo em nome de um livre-mercado idealizado, mas na prática defendem os “meta-capitalistas” de algumas regulações que poderia limitar o poder dos mesmos dentro de um capitalismo que não é nem nunca foi livre de fato (Ha-Joon Chang aqui).

Poderíamos ainda apontar outro problema com o conceito. Como segundo Olavo, meta-capitalismo se entende por empresários que se valem do livre-mercado para enriquecer, mas que quando se chega a um determinado ponto, cooptam o Estado para criar intervenções e burocracias que os protejam, impedindo assim a riqueza de outrem.

Deveria-se explicar onde na história econômica isso começa. Desde os momentos nascentes do capitalismo, como no no mercantilismo (que foi mais um feudalismo ulta-monetizado) ou mesmo com a revolução industrial e o laissez faire, sempre houve relação Estado-privados de modo a promover de uma forma ou de outra os interesses de um certo grupo nacional ou sociedade política. As obras de Niall Ferguson sobre a história do capitalismo são verdadeiros primores nisso. Por exemplo, o livro “A lógica do dinheiro” de Niall Ferguson é um primor. Em dado momento ela simplesmente demonstra que o Estado liberal é a troca da burguesia de parte de sua riqueza na forma de impostos por poder político – remember no taxation without representation?

O que entendemos como uma superclasse estranha aos interesses nacionais me parece – e aqui sou eu tentando definir o fenômeno que Olavo acusa de meta-capitalismo – nada mais que um desenvolvimento natural da técnica e do próprio capitalismo liberal.

O globalismo promovido por “meta-capitalistas” seria na minha visão um entendimento mútuo entre os grandes capitalistas do capitalismo central e de alguns chefes de Estado para criação de órgãos, burocracias e instâncias jurídicas supranacionais para mediar conflitos e assim, impedindo guerras, permitir o comércio internacional.

Mas isto só foi possível de ser feito a partir de um momento em que nada disso existia, ou seja, quando sociedades tradicionais extremamente fechadas com modo de vida pré-moderno e modo de produção feudal se depararam com as potências ocidentais a partir de 1400 naquilo que em “Civilização” e “A grande degeneração” o já citado Niall Ferguson chama de “grande divergência”. Obviamente isso só poderia – e foi – ser feito pelas armas a custo de expansionismo imperialista. O livre-mercado e as instituições modernas ocidentais foram impostas a força para colher lucros econômicos no médio-longo prazo, vide o caso da Guerra do Ópio e do Comodoro Perry no porto do Japão. Como Christopher Ferrara demonstra em “Liberty the God that failed” ao citar os casos inglês e americano, o capitalismo moderno é uma criação do Estado moderno.

Há ainda problemas lógicos: Se o liberalismo (isto é a economia de mercado) leva ao meta-capitalismo, então deveríamos fugir do mesmo, certo? Mas fugir do mesmo, exige que usemos o Estado como medida protetiva, o que como vimos o Olavo apoia, mas não é isso que os meta-capitalistas querem que façamos? Então, mantemos o livre-mercado e criamos o meta-capitalismo ou intervimos e fazemos o que os meta-capitalistas querem? Novamente fica vago o que o Olavo entende por cooptação do Estado para intervenções econômicas que limitam a competição. Seja de uma forma ou de outra, o suposto meta-capitalismo parece sempre ganhar. Meta-capitalismo de Schrödinger?

O globalismo real e a amaça do amanhã:

Retomando o que dissertei acerca do expansionismo imperialista do capitalismo liberal, Niall Ferguson no capítulo final de “A ascensão do dinheiro” (tanto o livro quanto o filme a partir de 33:50), comentando sobre a “Chimérica”, conceito por ele desenvolvido que é um trocadilho engenhoso com a palavra chimera (quimera em inglês), juntando os nomes China e América, demonstra como a complementariedade entre as economias americana e chinesa criou um cenário no qual o coração do mercado financeiro mundial (Estados Unidos) e o poder industrial mais dinâmico do mundo (China) se relacionam de maneira em que os ganhos extraordinários de renda do chinês médio formam tanto a nível de consumidor quanto a nível de empresa uma poupança vultuosa, que é revertida para os Estados Unidos na forma de empréstimos, ou para ser mais exacto, tanto os chineses quanto as grandes empresas e bancos da China compram títulos públicos dos Estados Unidos bem como derivativos de empresas americanas inundando o mercado americano com dinheiro (e crédito barato) bem como quinquilharias fabricadas por empresas americanas que receberam além da mão-de-obra barata uma série de incentivos para produzir lá. Em termos mais simples para o demos entender:

Os lucros das empresas chinesas são tão extraordinários, que sobra após todo o custeio da produção, pagamento de salários e dividendos, capital para reinvestir, expandir a produção e ainda aplicar em renda, fazendo da China o grande banco dos americanos. Ao exportar poupança, a China financia o consumismo americano.

Trump é justamente a resposta que os nacionalistas americanos conseguiram, pois como toda a industria americana estava transferindo produção para a China, havia temores de que ao fim do processo as quinquilharias chinesas não fossem mais quinquilharias e sim produtos altamente sofisticados e que as empresas americanas cada vez menos fossem americanas. Daí Trump com seu discurso protecionista de trazer os empregos de volta com uma série de intervenções estatais que me fazem perguntar se a ideia de meta-capitalismo do Olavo chega ao menos perto de fazer algum sentido no quadro geral dos acontecimentos de nosso tempo.

Enquanto Obama procurou na “primavera árabe” a formação de Estados governados por títeres do seu poder imperial, através do qual a economia americana poderia praticar uma economia extrativista de rapina de modo a suprir os cada vez mais esplendorosos déficits e a crescente dívida, Trump procura na América Latina após a derrota americana para a Rússia no Oriente Médio consolidar esse plano. Com qual razão? Acabar com a “grande reconvergência”. Se a “grande divergência” foi o processo pelo qual o ocidente a partir de 1400  se torna exponencialmente mais rico do que o resto do mundo (um chinês em 1975 tinha uma renda per capita de 100 dólares, um brasileiro de 1000 em valores de 2010), a grande reconvergência é processo no qual a China toma a dianteira do processo histórico e da liderança mundial. Se com a segunda maior economia do mundo a China tem o segundo maior arsenal do mundo, o que será dos EUA se ela se tornar a primeira economia do mundo? É isso que Ferguson chama de “A grande degeneração“, a decadência do ocidente.

E o que é o globalismo se não o resultado do próprio capitalismo globalizado? O que é a ascensão do dragão chinês se não um resultado colateral desse mesmo globalismo? A China percebeu que ela tem a chance de ouro de liderar o globalismo tomando o posto do titã envenenado (Os EUA para quem não sacou a referência).

Problema terminológico:

Como vimos acima, o liberalismo econômico 100% não intervencionista nada mais é que um delírio sem qualquer registro histórico, e mesmo quando havia livre-mercado sem liberalismo (Alfred Müller-Armack aqui) como no medievo, havia uma série de restrições econômicas feitas pelas próprias instituições intermediárias como as guildas e até do próprio rei. Então, se o capitalismo surge já com monopólios, se desenvolve na era de ouro do laissez faire favorecimentos duvidosos, expansionismo imperialista e outros inúmeros usos e feitos do puro poder estatal, não seria o meta-capitalismo nada mais que o próprio capitalismo?

Se meta-capitalismo significa como o próprio nome indica algo acima ou além do capitalismo, algo que o transcenda, ele já não se identifica mais com o mesmo sistema econômico, ele já é outra coisa. Talvez faria sentido atribuir isso ao socialismo – e no mesmo artigo Olavo parece associá-lo a isso, “o socialismo dos ricos”. Porém, acredito que fazer essa asserção seria algo muito incômodo, pois uma alegação como essa é muito próxima da lógica marxiana/marxista de que as contradições lógicas e internas ao capitalismo levaria inevitavelmente ao socialismo. Não acredito que qualquer liberal ou liberal-conservador possa sustentar uma ideia dessas sem um pouco de susto. Entretanto, se por meta-capitalismo refere-se a uma estrutura que existe no capitalismo e é sustentado pelo mesmo, além de outros problemas lógicos como os acima descritos, o próprio termo meta-capitalismo perderia seu significado, pois já não seria algo que transcende o capitalismo, mas um aspecto do mesmo objeto.

Conclusão:

Após as considerações acima feitas, resta-me conjecturar o porquê do uso da expressão meta-capitalismo por Olavo. O nosso pensador americanista se declara um adepto do liberalismo econômico como ele mesmo o diz no artigo aqui citado:

Em economia, sou francamente liberal. Acho que a economia de mercado não só é eficaz, mas é intrinsecamente boa do ponto de vista moral, e que a concorrência é saudável para todos.

Recentemente no facebook voltou a se dizer um adepto do liberalismo econômico no mercado interno, mas um anti-liberal no mercado externo (um protecionista não-burocratizante por assim dizer), o que novamente nos faz perguntar que tipo de intervenção ele apoia que seria contraditória aos interesses da super-classe “meta-capitalista”?

Enfim, Por essa razão acredito que o termo meta-capitalista não passa de uma falácia de distinção emergencial também conhecida popularmente como “falácia do escocês”. Enfim, para se safar na defesa do liberalismo do qual é partidário, Olavo diz:

– Bem, esse não era o verdadeiro capitalismo/livre-mercado/liberalismo“.

Eu acho que já ouvi esse argumento do outro lado do espectro político. Algo como:

– Bem, esse não era o verdadeiro comunismo”.

E isso é tudo o que tenho a dizer sobre “meta-capitalismo” e os “meta-capitalistas”. O meta-capitalismo é só o bem e velho capitalismo de sempre, com poderes ampliados pela técnica contemporânea, mas ainda assim, o velho conhecido de todos: o capitalismo.


*Arthur Rizzi é historiador graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pretendente ao mestrado, interessado em história do pensamento econômico. 

Keynes: uma crítica.

Texto originalmente publicado no GEPG - Grupo de Estudos Perillo Gomes, adpatado e repostado na Reação Nacional.

Arthur Rizzi*

Alguns leitores podem achar que eu caio no mesmo erro dos católicos liberais ao fazer uso do ferramental técnico keynesiano para análise econômica, só que eu seria um herege de sinal invertido. Enganam-se. Os católicos liberais distorcem a DSI, distorcem a doutrina da Igreja, e quando isso por si não basta, simplesmente ignoram o parecer da Igreja sobre assuntos temporais para aderir ao liberalismo. Seja pela via da distorção, seja pela via da “vista grossa”, o magistério se dobra perante a ideologia. Nada poderia ser mais distante do que eu faço.

Aquilo que há de errado em Keynes eu denuncio e renuncio. Por exemplo, Keynes acabou sendo tido por burocratizante e estatista mais pelos seus seguidores (muito dos quais distorceram a palavra do mesmo) do que pelo seu próprio parecer. Contudo, há alguma razão para se extrair isso do próprio Keynes. Antes de qualquer coisa, Keynes era um autor moderno e liberal. A linha liberal de Keynes era o do liberalismo democrático e social, isto é, sacrifica-se em parte a liberdade econômica em favor de uma economia de caráter “social”, para se preservar a democracia liberal. Keynes entendia que a instabilidade do laissez faire, somado com a extrema desigualdade de ganhos financeiros e renda, eram um convite à agitação violenta das massas, a radicalização e ao totalitarismo fascista e comunista. Sugiro aos interessados na vida de Keynes as biografias do mesmo, escritas por Gilson Schwartz e Robert Skidelski. O próprio Keynes dizia: “Na luta de classes me acharão ao lado da burguesia instruída” (SCHWARTZ, 1986, p.44).

Por ser liberal, Keynes via o mundo e a sociedade dividida entre indivíduos e Estado, e não vendo mecanismos na própria sociedade (por conta de seus pressupostos errados) que pudessem parar a opressão econômica daqueles indivíduos que detinham a posse do fator capital, Keynes via no Estado a única forma de controlar esse poder. Mas essa opressão não era vista por Keynes apenas como abusos do patrão contra o empregado num clima de luta de classes. Aliás, Keynes não cria que essencialmente a luta de classes era inerente ao capitalismo, para ele os conflitos distributivos entre capital e trabalho se davam pela postura passiva do “Estado guarda noturno”, e a completa ausência de um enquadramento jurídico que definisse as justas atribuições de cada parte no que tange às relações laborais.

Keynes também desconfiava da racionalidade do capitalista, sua experiência no mercado financeiro e sua análise econômica foram capazes perceber que os indivíduos autocentrados buscando maximizar suas utilidades, acabavam por se atentar apenas aos fatores que lhe afetavam diretamente, e tomavam decisões com base nisso, ignorando que outros tantos faziam o mesmo. Assim, a decisão racional de um indivíduo, quando observado do ponto de vista macro das relações coletivas, eram nada racionais e pareciam-se mais com comportamento de bando e manada, ou seja, os animal spirits. Contra a irracionalidade e incerteza não quantificável que o futuro guarda, além das omissas posições políticas diante dos abusos laborais, que outra força poderia proteger uma sociedade atomizada, caótica, com indivíduos desiguais em poder perante um Estado passivo? Keynes não titubeou: o Estado. E como Keynes só via o Estado, creu genuinamente que tudo deveria partir dele. Schwartz (1986, p.43) resume:

“Uma economia capitalista mais civilizada seria aquela com instrumentos de regulação da violência contra as partes, uma sociedade com mecanismos de compatibilização entre os vários tempos (isto é, os tempos dos vários setores produtivos, os interesses das classes sociais). Poderia ser o Estado, representante da sociedade como um todo esse instrumento? Afinal, não é o Estado o grande concentrador de poder da sociedade? Nada mais natural do que serem essa as questões colocadas por Keynes[…]”

Se Keynes não fosse um liberal filosófico, se ele tivesse tido a curiosidade genuína de estudar o magistério social da Igreja Católica, além de uma vasta gama de autores distributistas tais como Belloc, Pesch e Chesterton, além dos carlistas, ele descobriria que no passado havia corpos intermediários na sociedade, com autonomia legislativa sobre seus membros, que poderiam suprir muitas das funções que Keynes passou ao Estado de modo muito mais eficiente. Por exemplo, as relações laborais poderiam muito bem ser regidas parte pelo Estado e parte pela autonomia legislativa de órgãos de classe cooperadas como as antigas corporações de ofício. Os ordoliberais de Freiburg, mais espertos, aprenderam com os erros de Keynes, e passaram a advogar o tripartismo. Órgãos de classe como sindicatos e associações patronais se uniriam mediadas pelo Estado para definir quais regras se aplicam.

Isso não significa, entretanto, que as leis trabalhistas, salário mínimo, política fiscal, política monetária e cambial, são erros que poderiam e deveriam apenas ser geridas pela sociedade, e que, portanto, Keynes estava totalmente errado. Ao contrário, a Igreja mesmo apoiou muitas dessas ideias partindo do Estado, o que faltava a Keynes era o princípio da subsidiariedade. O Estado pode e deve cuidar dessas coisas, mas não sozinho e nem ao mesmo tempo, mas sim de modo gradual e compartilhado, com atribuições de funções aos entes federados mais baixos como municípios e estados, bem como aos corpos políticos da própria sociedade como cooperativas, órgãos de classe, sindicatos, igrejas, etc.

Assim, sobrariam apenas assuntos realmente intransferíveis para o governo central, como definir uma taxa básica de juros, administrar uma taxa razoável de inflação, e executar as políticas cambiais, monetárias e fiscais quando necessárias. Muitos desses avanços não foram feitos pelos keynesianos da época de Keynes, mas sim pelos ordoliberais de Freiburg. Somente na década de 70 é que começaremos a ver os keynesianos caminharem para essas mesmas descobertas com os “novos keynesianos”, que como disse com boa razão Leandro Roque neste artigo do Instituto Mises (Sim, eu perco tempo lendo artigos do IMB e volta e meia acho coisa útil), são keynesianos ao sabor de Chicago. E muito do que utilizo de Keynes passa pela releitura deles.

Mas a visão liberal e moderna pouco subsidiária não era o único problema de Keynes, outro problema era sua ética de fundo utilitária. Keynes era um racionalista e recebeu muitas influências de John Stuart Mill. Isso fez com que o mesmo fizesse julgamentos éticos duvidosos em matéria econômica, e o próprio economicismo que a atividade de economista suscita reforça esses dogmas utilitários. Logo, o uso sensato do ferramental científico que Keynes traz a tona demanda a impiedosa submissão a princípios morais católicos e, portanto, sãos.

Mas… – você pergunta – Não nos bastaria simplesmente aderir ao distributismo, ao invés de se esforçar para arredondar autores heterodoxos? E eu respondo: Não.

O distributismo é muito mais uma filosofia econômica do que uma teoria científica da economia. Chesterton não fazia uso de modelos matemáticos, não tinha proposições testáveis, não tinha uma microeconomia sistematizada e nem uma macroeconomia coerente. A melhor tentativa que vi de racionalizar o distributismo foi feita pelo professor de teologia e economia da Universidade de Dallas, John Médaille no seu livro “Toward a trully free market” e, em menor escala, por E.F. Schumacher em “Small is beautiful”. E posso lhes garantir que já aplico muito do que eles ensinaram e propuseram em suas teorizações distributistas nos textos que escrevo. Aliás, para fazer com sucesso essa empreitada, os mesmos tiveram de recorrer a modelos keynesianos e neoclássicos muitas vezes. Em conversa privada com o professor Médaille certa vez, ele mesmo reconheceu que bebeu muito da fonte de influências dos pós-keynesianos. Surpreso? Eu não. A crítica dele do mercado de trabalho é totalmente pós-keynesiana, mas submetida a uma ética católica verdadeiramente evangélica. É assim que se corrigem os erros de Keynes. E o mesmo pode ser feito, caso algum leitor tenda mais ao liberalismo, com os autores liberais clássicos. Aliás, boa parte do trabalho já foi feita pelos ordoliberais, cabe a nós aprimorar, como mencionei na minha ideia de Economia Moral de Mercado.

Esta, portanto é a diferença entre o que eu faço – curvando a razão a fé, como propõe a doutrina de sempre da Igreja – e o que os ideólogos como Padre Sirico, Jeffrey Tucker, Olavo de Carvalho, Thomas Woods Jr, e em menor escala Adolpho Lindemberg fazem.


Referências:

SCHWARTZ, Gilson. Keynes: um conservador autrocrítico. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.


*Arthur Rizzi é historiador como foco em história econômica.

A oposição progressista a Bolsonaro não é capaz de unir o país.

Arthur Rizzi*

No Brasil de hoje todos só querem ter razão sem nada conceder ao outro lado, e todos são profundamente relativistas mesmo quando acreditam não sê-lo. A unificação do Brasil só pode ser feita pela unificação de dois polos do povo brasileiro separados pela política e pelas ideologias americanistas e afrancesadas que vieram a banhar o litoral. O mesmo povo que é majoritariamente contra privatizações e de um anti-liberalismo econômico notório, é o mesmo povo que é de um anti-liberalismo moral evidente e adepto de uma postura tradicional em matéria religiosa. Não se engane o leitor progressista, sou tão oposição a Bolsonaro quanto você, mas não pelas mesmas razões.

Até presente momento a oposição ao presidente recém-empossado Jair Bolsonaro existe na forma da crítica progressista a ele, e ela frequentemente vem com recusas éticas, historicismo, democratismos e reduções ao nazismo. Esse tipo de proposta tende a fracassar pois a semente do caos foi a progressiva divisão ideológica do Brasil entre nós e eles, entre elite malvada e povo virtuoso. Isso foi construído pela narrativa petista quando decidiu optar pela estratégia de reduzir toda crítica a sua gestão (críticas justas à corrupção, à irresponsabilidade econômica e ao desdém pela religiosidade popular) a elitismo e fascismo.

Em outras palavras, a recusa ao contraditório tão apontada como carácter do bolsonarismo (seria talvez melhor descrevê-lo como olavo-bolsonarismo), já existia no petismo, onde a crítica era sempre enquadrada como um ato de desordem moral e de preconceito. Não existia a possibilidade da crítica democrática, ou era o apoio irrestrito ou era o fascismo. Não é de se estranhar que o bolsonarismo tenha a mesma estrutura, pois é um petismo às avessas. Não existe oposição democrática para a nova doutrina em voga, existe apenas a adesão plena ou o comunismo. Se você não está conosco, está contra nós, e portanto é um ser antiético que quer sexualizar criancinhas, que quer exterminar os valores tradicionais da religião e destruir a propriedade privada.

O filósofo Renato Lessa é um exemplo desse tipo de crítica, ele alega que o bolsonarismo é uma recusa ao contraditório por afirmar o local contra o global, e por afirmar a religião contra o secularismo. Prossegue, como de costume pela redução ao nazismo e por fim, faz uma crítica moralista. Este tipo de crítica apenas reforça o espírito de auto-defesa de grupo entre os adeptos do bolsonarismo, e justifica o espírito de falsa dicotomia entre “nós, os virtuosos vs. eles, os comunistas malvados” (não que não haja comunistas). Por fim, o triunfo da oposição progressista terminaria por dividir ainda mais o país, separando o mesmo entre conservadores raivosos e ressentidos e progressistas orgulhosos por destruir o adversário (hoje o paradigma é o inverso, os conservadores estão felizes pela destruição do adversário e os progressistas ressentidos e raivosos). Como unificar o país, assim?

Outro problema é que esse tipo de crítica é em geral inconsistente, afinal, a recusa ao contraditório que serve de acusação a Bolsonaro aparece na própria mentalidade do autor do texto. Isto é, o antiglobalismo é um gesto de recusa ao contraditório, mas ao que é claramente visível é que o antiglobalismo é o oposto lógico do globalismo. Logo, o autor ao não aceitar o anti-globalismo como um polo do debate não incorreria na recusa do contraditório? Ora, as liberais-democracias nascem originalmente dos estados nacionais e do liberalismo político que afirmava a soberania da nação em face da cristandade (globalismo cristão), fundada na união do Trono e do Altar, do império e da Igreja.

Logo dizer que pela própria natureza da democracia, o paradigma patriótico é algo de anti-democrático, seria negar aos primeiros liberais-democratas o seu carácter de democratas. Só resta ao senhor Lessa cair no historicismo, mas como todo historicismo tende ao relativismo, a posição de democrata do senhor Lessa é no mínimo tão questionável quanto à dos primeiros nacionalistas que se descreviam como liberais-democratas, e que tal como eles acabará sendo superado pela história e relegado ao anti-democratismo.

Não é curioso que o relativismo de alguns se choquem com a ideia de “sentido histórico” de progressão da autoconsciência do homem na ampliação da democracia e das liberdades? Não se pode ser relativista e teleológico, ambas as coisas se negam e se contradizem. Hegel e Derridá não combinam.

Por mais que torçam os narizes, a verdade é que existe uma realidade para além da nossa mente, e que não desaparece mesmo que não estejamos aqui para vê-la. Isto não precisa ser provado, pois de outra forma haveria apenas o nada (o que é um não-haver de certa forma, dado que só o fato de termos de corrigir a linguagem para melhor o descrever, já denota que há uma diferença entre o objeto analítico referido e a linguagem). E mesmo que a realidade seja apenas uma ilusão do “gênio mau” cartesiano, ainda haveria o gênio mau e a ilusão, o que é certamente alguma coisa. E mesmo que a realidade seja apenas um discurso sem enunciados, sem enunciantes e sem ouvintes, ainda haveria a linguagem. Então, alguma coisa há, e dentre as hipóteses elencadas, a única que faz sentido é o velho realismo epistemológico que ficou démodé entre os nossos pós-estruturalistas. Apelar a idealismos, nominalismos entre outras abordagens limitadoras da capacidade humana de conhecer o real acaba em última instância sendo um tiro no pé.

Logo, faz ainda menos sentido acusar de anti-ético o discurso contra “politicamente correto”, como se o mesmo afirmasse o “moralmente correto”. Contudo, o que seria o moralmente correto se não um conjunto de valores atemporais e aculturais? Como tal coisa não pode existir para alguém como Lessa, logo cai-se novamente no historicismo. E por que as verdades morais do senhor Lessa e da civilização liberal-democrática seria mais valorosas que a de Bolsonaro? Silêncio. Em outras palavras, ao ironizar pondo entre aspas a expressão “politicamente correto” como sendo um meio de deslegitimar o que seria objetivamente correto, não crendo em algo assim, o que Lessa revela é que na prática (como um bom historicista) é que o seu objetivamente correto, ético e moral, não passa mesmo de uma ética politicamente conveniente!

Por essas e outras razões a oposição ao bolsonarismo só pode nascer do ponto de vista prático, de uma genuína empatia com a cultura e religiosidade do povo brasileiro,  com a defesa dos índios – parte integrante da tradição católica do país, cada vez mais suprimida pelo exclusivismo messiânico do neopentecostalismo – e com a defesa de valores morais objetivos e a aplicação dos mesmos no campo econômico, onde se põe em prática a espoliação do trabalhador pela supressão de seus direitos. Talvez seja a hora de trazer de volta um pouco de Heinrich Pesch, de Walter Eucken e talvez até mesmo um pouco de John Maynard Keynes.

Não será nem com gnosticismo conservador e nem com panteísmo progressista que se poderá objetar e parar o olavo-bolsonarismo, ao menos não sem graves consequências posteriores. Como diria escritor inglês G. K. Chesterton, apenas a ortodoxia pode fazê-lo, e a oposição progressista não é capaz disso sem desunir ainda mais o país. Não se trata de um direito ao erro o que se deve fazer, mas a velha doutrina católica da tolerância, se o bolsonarismo é um mal que não se pode extirpar, cabe aos progressistas que se tolere o mesmo, sem nunca desejar destruí-lo e suprimi-lo e o inverso é também verdadeiro. E um bom caminho para isso é algo novo unindo o que há de verdadeiro nos dois lados, e não o que há de mentiroso em ambos.

O problema, talvez, é que isso exigisse sair de nossas orgulhosas e confortáveis posições modernas “esclarecidas” e recuperar algo que foi perdido no “obscurantismo reacionário”, por volta de entre 1776 e 1789.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pesquisador de história do pensamento econômico.

Ernesto Araújo e o destino manifesto dos tupiniquins

Arthur Rizzi*

O sapo barbudo de Tréveris, Karl Marx, dizia que a história primeiro se repete como tragédia e depois como farsa. Essa frase não poderia ser mais apropriada para inaugurar um artigo sobre política externa na era do olavismo triunfante. Do somatório de fracassadas intervenções americanas pelo mundo, e trágicas incursões militares em locais remotos da Terra para salvaguardar interesses americanos (não há limites claros para o que é e o que não é interesse americano), nasceu nos EUA uma cada vez mais forte posição dos americanos por uma posição isolacionista. Eu os compreendo e me compadeço, Trump venceu as eleições em 2016 com esse discurso e não obstante as lutas contra o Estado Islâmico, vem progressivamente cumprindo suas promessas, embora, talvez, não com a velocidade desejada por muitos. Mas dado que o presidente americano anunciou a saída da Síria a alguns dias, pode-se constatar que Trump não era favas contadas, afinal.

Agregue-se a isso um cenário no qual China e Rússia vem ganhando espaço geopolítico na África e na América Latina, o que tem forçado os EUA a focarem sua atenção no seu velho quintal, a América Latina.

O intervencionismo americano vem da crença na doutrina do “Destino Manifesto”, uma espécie de teologia da história que coloca o povo americano como centro dela e a sua nação como o veículo de libertação do mundo. Quando os calvinistas fugiram da perseguição anglicana na Inglaterra para as treze colônias, muitos pastores protestantes como John Withtrop utilizaram a visão do êxodo dos hebreus em fuga pelo deserto da perseguição de Faraó como modelo para o que viviam, e assim como o povo escolhido tinha uma missão para a revelação de Jesus, o povo americano tinha a mesma missão de ser “a nation under God” vivendo na “city upon a hill” (Mt 5, 14). E essa visão guiou tudo, da guerra da independência a expansão para o Oeste, todas essas ideias já antes misturadas ao ideário iluminista dos founding fathers tornou-se o guia para a política externa americana.

Muito se critica os neoconservadores por terem supostamente inovado ao fazer do imperialismo e do intervencionismo americano no Oriente Médio uma prática que nada tem a ver com o conservadorismo dos Estados Unidos. Seria na visão deles uma distorção grave, a ideia segundo a qual a “América” era fundada sobre ideais de riqueza, democracia e liberdades individuais. E que, portanto, sua teologia e teleologia históricas eram espalhar e zelar por esses valores no mundo “’Til the kingdom come”. Todavia isso não é nem uma inovação do partido republicano dos neocons e nem uma distorção. Ao contrário, ela é precisamente o fundamento do Estado americano.

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Como Christopher Ferrara (2012, p.230) assinala, a doutrina Monroe nada mais era que essa ideia em germe. Da mesma forma que o triunfo do norte sobre o sul foi a salvação do ideal democrático, republicano e do direito do indivíduo emanado da revolução americana, vitória esta contra o escravagismo e aristocratismo do sul, a doutrina Monroe era, então, a unificada nação americana como polícia das Américas.

The Monroe doctrine, promulgated with [Thomas] Jefferson’s advice, declared: “The American continents […] are henceforth not to be considered as subjects for future colonization by any european powers.” The effect of the doctrine, soon to be backed by America’s economic and military might, was to create “two separate spheres of influence the Americas and Europe: the independent lands of western hemisphere would be solely United States domain”.

Assim, como pontua mais adiante Ferrara, isso fez dos Estados Unidos “the policeman of Liberty throughout the Americas”. Em outras palavras, a doutrina Monroe nada mais era do que uma parte do processo pelo qual os EUA tornaram-se o xerifão do mundo. E agora, temos Ernesto Araujo que em posts recentes vem propondo ao Brasil seguir os passos dos Estados Unidos, ser um exportador de ideais de esperança, de democracia liberal e direitos individuais, a começar pela América Latina, lançando no twitter impropérios contra os rivais ideológicos do novo governo e fazendo a proposta de uma aliança entre EUA, Rússia e Brasil, as três maiores nações cristãs do mundo na visão dele. Ou seja, o Brasil é a nova  “a nation under God”.

E a doutrina de Araújo, uma mistura de TFPismo e olavismo é a nossa nova “doutrina Monroe”, doutrina que visa enfurnar o Brasil na OTAN, atirar ao lixo da história a tradição de um país com sua respeitada diplomacia, e que através dela construiu seu território de proporções continentais, e que por ela preservou a monarquia recebida do velho mundo num acordo de família, e que por ela preservou o Estado confessional que recebeu da Igreja Católica e de Portugal. Doutrina esta baseada em acordos e tratados exemplarmente respeitados e que só se envolve em guerras justas como a do Paraguai e a Segunda Guerra Mundial por manifesta falta de alternativas, e cuja respeitabilidade advém justamente da sua capacidade de procurar saídas pacíficas. Mas um governo conservador não deveria, em tese, preservar tradições ao invés de destruí-las? Sobra essa pergunta ao senhor Araújo a qual aguardo uma resposta dele ou da história. Essa é a nossa farsa, a de querer os fins antes de ter os meios. E que Deus abençoe a América o Brasil.


Referências

FERRARA, Christopher A. Liberty, the God that failed: Policing the sacred and constructing myths of the secular State – from Locke to Obama. Tacoma: Angelico Press, 2012.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo  (UFES) e pedagogo formado pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.


Atualização: https://br.sputniknews.com/americas/2019030413428932-eua-bolton-venezuela-doutrina-monroe-lavrov-america-latina/

EDITORIAL: O que esperar do governo Bolsonaro?

Bolsonaro venceu a eleição, e estamos a pouco mais de 30 dias da posse. O que esperar desse governo para 2019? Dado que é a reestreia de uma direita que se assume como direita na política e no governo desde 1964, ainda tudo é muito incerto, e portanto nossa previsão será mais curta. Mas o governo de transição já deu ideias do que pode estar vindo por aí.

Separaremos os prognósticos em quatro setores: moral, econômico, política externa e relações laborais.

Na moralidade, podemos esperar um governo conservador nesta matéria, mas não espere um moralismo católico, intelectualmente coerente e fundado no direito natural clássico, e sim um moralismo evangélico de um certo setor neopentecostal grosseiro e messiânico, pois caso fosse pelo menos luterano, anglicano (high church) ou metodista, haveria suficiente proximidade com a doutrina católica para que houvesse algum critério e razoabilidade.

O que ocorrerá, entretanto, será um arrazoado de proibicionismos arbitrários e sem contexto lógico que os unifique, um verdadeiro show de biblismos, hermenêutica arbitrária e subjetivista, além de chavões duvidosos. Ou seja, longe de termos aquele escopo intelectualmente sério de uma Pontifícia Academia para Vida, teremos a arbitrariedade e o caos tentando serem unificados, quando possível, pelo intelectual americanista Olavo de Carvalho. Quando não for possível, veremos ele próprio “baixar a ripa” com força, o que poderá ou não, surtir efeito no governo.

Um dos exemplo disso é o caso do projeto Escola sem Partido, que a partir de uma intuição moral certa, descambou para outra coisa bem pior que o mal que queria combater. Gerando um clima inquisitorial de perseguição ideológica, o projeto não possui critérios claros, ameaça professores e intelectuais universitários com sanções legais por quaisquer palavras, gestos e pensamentos expostos que possam soar como ideologizados e doutrinários. Com a atual ocupação liberal-conservadora e americanista das instituições, poderá acabar tentando criar uma hegemonia intelectual lib-cons/americanista na sociedade, punindo não apenas os “comunistas malvados” originalmente traçados, mas até nacionalistas e cristãos sérios que ofereçam uma perspectiva que fuja da neo-ortodoxia liberal-conservadora americanista. É o ambiente perfeito para o nascimento de intelectuais radicais anti-sistêmicos, dado que a tendência a arbitrariedade é grande.

OBS¹Eu não me surpreenderia se os evangélicos, agora no poder, começassem a usar o mesmo para prejudicar o catolicismo no país ou limitar a parca e quase inexistente influência católica no governo. A CNBB e a própria Igreja Católica poderá ter uma vida muito difícil nos próximos anos, com os evangélicos usando o poder estatal para se tornarem a religião dominante e quiçá oficial do país.


Do ponto de vista econômico, o atual governo não herda um paraíso, mas a situação nunca foi tão fácil para um presidente se criar. A reforma trabalhista já foi feita no governo Temer e, ao que parece, a previdenciária não tarda muito mais. Então, tendo apenas de passar a reforma da previdência com quatro anos pela frente, e com legitimidade das urnas, Bolsonaro tem a facílima tarefa de fazer o PIB passar de 1% (já faz dois anos que o PIB não chega a 2%), o que é algo que julgamos que ele e sua equipe de chicagoboys, poderão fazer com facilidade.

Os empecilhos serão, obviamente, um setor nacional-desenvolvimentista/nacionalista das FFAA, que já teve sua primeira baixa, o general Oswaldo Ferreira, será ainda a oposição a esquerda que deve congregar a terceira via neo-trabalhista de FHC e o que sobrar do tucanato (dado que parte vai pra direita), o vétero-trabalhismo de Ciro Gomes, e a esquerda identitária doente liderada pelo petismo.

Há ainda um possível contratempo a ser levado em consideração. As lambanças da política externa preocupam o setor produtivo nacional, em especial o agronegócio e a indústria que estão arrependidos de terem elegido Bolsonaro. Os primeiros, interessados no porte de armas para impedir os avanços do MST, agora começam a ver que o sionismo e o americanismo da teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, personificado no Itamaraty por Ernesto Araújo, colocam em risco a soberania brasileira no mercado árabe e chinês. Os últimos, vendo o completo desdém de Paulo Guedes pela indústria nacional e seu aceno as multinacionais americanas, sentem já que passarão o pão que o diabo amassou nas mãos do super-ministro da economia.

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Como Arthur Rizzi previu no podcast da Legião da Santa Cruz, existe um risco de mexicanização da economia brasileira, isto é, a indústria nacional deve ser progressivamente substituída pela indústria estrangeira, e que se a indústria nacional não piorar ainda mais  sua posição em termos de participação no PIB, aprofundando assim a desindustrialização, não deverá haver melhora no quadro atual, ficando estável nos valores atuais. Portanto, se contarmos apenas a indústria nacional, ela deve diminuir ou continuar no mesmo patamar. Porém, se pensarmos na possível invasão de multinacionais, deve haver uma desnacionalização da indústria, o que eu chamo de mexicanização da economia. Isto é, em termos gerais, haverá aumento de participação da indústria no PIB, mas se dando através da queda da participação da indústria nacional e o crescimento da indústria estrangeira. Essa conta industrial deve cobrar caro mais no longo prazo. As guinadas ideológicas na política externa, porém, se radicalizadas ainda mais, poderão cobrar no curto prazo.


A política externa deve seguir a linha olavista a partir de agora, isto é, ela se fundará na interpretação que Ernesto Araújo faz da teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, sinteticamente exposta no livro “Os EUA e a nova ordem mundial“, que foi um debate com o geopolítico russo Aleksandr Dugin, e também pode ser melhor aprofundada através do livro “O Jardim das Aflições“, o qual especialmente na sua edição mais recente, conta com uma entrevista com Silvio Grimaldo como apêndice, que é uma retificação da teoria do livro com uma créscimo que exime o ethos estadunidense tradicional da culpa pelo globalismo. Deverá haver uma influência forte de Guénon também nessa leitura, mas provavelmente, a linha olavista deverá se destacar mais.

Esta política externa pró-Israel e pró-Estados Unidos deverá gozar de grande apoio dos evangélicos sionistas, o que pode ser eleitoralmente um motivador para Bolsonaro aprofundá-la. Porém, os exageros nessa pauta podem isolar o Brasil do comércio mundial, o que será ruim para a economia. Tudo deverá depender de como essa pauta será tocada, se acriticamente, ou se de modo moderado porém eficiente. Se da segunda forma, não deve haver grandes prejuízos a economia.


Do ponto de vista das relações laborais, deverá haver uma  maior precarização das leis trabalhistas, o próprio Paulo Guedes circulou a ideia de uma carteira de trabalho verde-e-amarela, na qual o funcionário trabalha por “livre e espontânea vontade” sem nenhum dos direitos assegurados pela CLT. Óbvio que o “livre e espontânea vontade” fica entre aspas, pois sendo mais barato e estando o patrão em posição de vantagem, ele só contratará (nos mercados de competição perfeita e menos sofisticado) pela carteira verde-e-amarela, dado que o candidato a vaga não tem como “punir” o patrão do mesmo modo que o patrão o tem com a sua não contratação. A Folha de São Paulo mesmo publicou que Paulo Guedes achou a reforma Temer muito moderada e pró-trabalho e quer aprofundá-la tornando-a mais pró-capital. Se essas medidas lograrão êxito no congresso nacional ainda é incerto, mas pensando a longo prazo e pressupondo que vão, concluiremos que enquanto o crescimento econômico for favorável ao governo, isso deve amenizar o impacto de medidas tão anti-pobre quanto a citada, mas quando o “vôo de galinha” da economia acabar, há o risco de ocorrer uma desagregação ainda maior do que a atual, na qual há um país dividido no ódio, a distorção bolchevista do tecido social será uma consequência quase lógica. A completa ausência de direitos trabalhistas favorece a radicalização das massas, a ideologização das relações laborais e o espírito revolucionário.

Se isso prosseguir, quando o bolsonarismo acabar (porque ele vai acabar em algum momento), pode ser que troquemos um Olavo de Carvalho por um Nildo Ouriques, e aí a burguesia usurária e até a produtiva vai gemer.


Do ponto de vista da teoria das castas, da qual os autores que mais se destacam são Julius Evola, Roland Mousnier e mais recentemente David Priestland, o governo Bolsonaro representa uma aliança entre três setores bem definidos: a) a burguesia usurária (banqueiros e mercado financeiro); b) setor maçônico e frotista das FFAA; c) evangélicos neopentecostais e sionistas. Teremos, portanto, um governo weberiano por excelência.

OBS²: Para quem se diz antiglobalista essa base de apoio é muito internacionalista, e soa curioso como os que outrora tanto criticavam o internacionalismo, agora saúdam uma equipe liderada por banqueiros usurários, pela maçonaria verde-oliva, e por pastores neopentecostais que parecem amar mais a Israel e Estados Unidos que ao Brasil.