#Notas: A Reconstrução do Homem – Plínio Salgado

Edmundo Noir*

As notas que se seguem são apenas breves comentários meus sobre alguns pontos tratados na obra A Reconstrução do Homem, de autoria do escritor e politico brasileiro Plínio Salgado. Tais pontos não configuram um resumo, nem tampouco substituem a leitura do livro (que recomendo avidamente).

***

1. Plínio Salgado observa que a crise civilizacional vivida é antes uma crise do homem. O homem, o “rei da criação”, a maior das criaturas de Deus,  foi reduzido a uma mera ferramenta.548743

2. Ora, como é que o homem quer ter eficiência na governança da nação se não é capar de governar-se a si mesmo? Assim antes de se falar em restaurar a civilização, faz-se antes necessário restaurar o homem.

3. Para bem ilustrar como se manifesta essa degradação do homem cita o autor diversos exemplos. Um deles o caso de uma família, onde o patriarca “desvirilizado” sequer é capaz de opor-se aos gastos supérfluos da esposa que comprometem o orçamento familiar. Concluindo o caso, o autor afirma imperativamente a necessidade de se restaurar a autoridade do patriarca no seio da família.

4. Comentando sobre a educação, constata que atualmente, a educação busca formar farmacêuticos, advogados, engenheiros….Seres que dominem a técnica e exerçam certas funções sociais e não homens integrais capazes de explorar todas as suas múltiplas potencialidades humanas.

5. Certos neodireitistas reféns deste pensamento tecnicista adoram resmungar a respeito das aulas de história, artes e sociologia no ensino fundamental e médio. Para eles estas aulas deveriam ser suprimidas em benefício de outras mais importantes como matemática, física e química. É inquestionável que no modo como hoje são ministradas, tais disciplinas têm apenas servido a doutrinação ideológica. Mas, erra aquele que sugere suprimir tais matérias, o caminho está em ministrar as aulas da forma correta, a fim de que ensinem a verdade, e não a ideologia do partido A, B ou C.

6. Outro manifestação desta deformação moral do homem que se faz necessário destacar é a visão moderna da profissão. O homem moderno não encara a profissão como um serviço, uma troca entre ele e a coletividade, ele não busca ao realizar determinado serviço ser útil a sociedade mas, tão somente lucrar mais e o mais rápido possível. Quando a “função social” da profissão sai de perspectiva, aumenta-se o número de charlatões, e decai a qualidade dos serviços.

7. Salgado também é assertivo ao desmascarar a artimanha liberal de confundir a civilização moderna ou também chamada de Civilização Ocidental com a Civilização Cristã. Ora, a civilização cristã encontrou seu fim com os duros golpes da Revolução Francesa e da maligna (De) Reforma (Herética) Protestante. A tal civilização ocidental está estabelecida sob princípios agnósticos e materialistas, tendo a sociedade como fim em si mesma.

8. O autor também nos alerta sobre da falsa oposição entre capitalismo e comunismo, e mostra como um gesta o outro, como o liberalismo semeia o comunismo-totalitarismo. Quando o homem não é mais capaz de controlar a si mesmo, precisa de um Estado super-poderoso para fazer isso por ele.

9. Em uma breve reflexão teológica a respeito da inteligência, Salgado reafirma seu duplo aspecto:  a liberdade que o saber proporciona, e a responsabilidade que acarreta esta liberdade. Sem inteligência não há liberdade, sem liberdade não há responsabilidade. Assim, quanto mais sábio é o homem, mais livre o é,e deverá responder com maior responsabilidade pelo seus atos.

10. O autor também toca no assunto da idiotização dos brasileiros e da perda da “cultura do estudo”, e anos antes é capaz de prever exatamente o ambiente de hoje, que foi minimamente planejado pelos figurões por trás da NOM.

No caminho em que vamos, serão as futuras gerações constituídas de homens e mulheres autômatos, dirigidos despoticamente por uma elite exploradora de seus instintos. Esses homens e mulheres formarão a massa amorfa das coletividades standartizadas, que se moverão, como aparelhos mecânicos, ao arbítrio de alguns indivíduos conhecedores de técnica de formação da opinião pública.

11. Continuando a linha de raciocínio que a crise do homem, é antes de tudo uma crise moral, o autor descreve com ainda mais exatidão e realismo o problema:

Em vez de perguntar: ‘qual das soluções consulta o pensamento que mo norteia a vida’, o individuo sem convicções pergunta, ‘qual das soluções me será mais rendosa?’

12. O homem moderno é materialista e mesquinho. Põe-se a ajoelhar-se ao dinheiro, a Mamon e pautar-se tão somente pela busca da fortuna do lucro e não pelo certo.

Que valem no mundo as riquezas, se elas não impedem as enfermidades do corpo ou da alma, a perda de entes queridos, os desgostos oriundos de tantos fatos da vida doméstica ou da vida social? Que vale o êxito na carreira ou nos negócios, se esse êxito não foi obtido pelos legítimos caminhos da honradez e por isso, traz um gesto amargo, que precisa ser disfarçado pelos prazeres entontecedores? Que valem as glórias, os triunfos e os aplausos, se eles provem das multidões volúveis, sopradas pelos ventos das emoções ocasionais ou dos caprichos de um momento e se, ainda quando deliciosos, não impedem ocultos sofrimentos do homem virtuoso?
Não quero dizer que o homem deva se privar desses bens terrenos, desde que eles não advenham ilegitimamente, o que quero dizer é que nenhum deles constitui a verdadeira, a perfeita felicidade, e tanto isso é certo que a geração atual, sequiosa deles, é uma geração e agitados e atormentados.

A mensagem não é um ódio à riqueza, mas, a insistência na verdadeira hierarquia dos valores. O homem deve primeiro buscar os bens espirituais, a virtude, o caráter e não sacrificá-los em prol dos bens voláteis desta terra.

13. Salgado notou o problema logo no inicio, os grandes figurões que puxam as cordas da política mundial, tem levado a cabo uma gigantesca operação usando de meios culturais, químicos e psicológicos para “desconstruir” a ideia dos sexos, e deformar os seres humanos.

Todos são irresponsáveis. Ninguém pode confiar em ninguém. Um plano diabólico acelerou nos últimos tempos a dissolução das responsabilidades e da própria consciência das personalidades. A tal ponto que rapazes se afeminam em exibições plásticas de Ganimedes praianos e as moças se masculinizam na desenvoltura holiudesca de garçonas despreconceitualizadas(…)

14. Ainda sobre a crise moral continua o autor:

Todas sabem tudo e ninguém sabe nada. Todos são autoridade, mas ninguém é respeitado. Todos assumem ares de responsáveis e ninguém cumpre os deveres da arrogada competência. Todos governam e ninguém obedece. Todos criticam e ninguém faz. É a desordem, a desonestidade , a loucura.

15. Além de uma crise moral, vivemos também uma crise de Fé. O homem entorpecido pela busca da matéria vai aos poucos apagando a chama de sua Fé:

Principiamos esfriando a nossa crença em Deus, porque não tínhamos tempo de pensar n´Ele, ou de dedicar-Lhe alguns minutos de meditação, no meio do tumulto da vida praticável; em assim acabamos frigorificados espiritualmente, com a consciência endurecida como gelo. (…)

Se o autor vivesse ainda em nossos dias, teria um novo fenômeno a analisar, o advento do protestantismo no Brasil em que pastores de ocasião como Maiscedo, Valdsmiro, etc; fazem da fé uma mercadoria, prometendo uma “prosperidade terrena” e roubando rios de dinheiro de fiéis incautos.

16. Ainda tratando dos problemas que influem sobre o homem, fala o autor daquilo a respeito da tecnologia:

O Homem avita-se, destrói-se. Julga ser um gigante porque produziu a Máquina, o vasto instrumental do experimentalismo e da pesquisa cientifica, os meios de construir e destruir. Mas na realidade torna-se um títere que não exerce governo sobre os seus próprios movimentos. Quanto mais domina a natureza exterior, menos orienta, administra e governa a si mesmo.

Este mesmo ponto também é tratado pelo Sumo Pontífice na Laudato Si’, a tecnologia tem representado não um empoderamento da humanidade como um todo, mas, daqueles que detém o domínio sobre a técnica. (maiores detalhes ver subtítulo “O Paradigma Tecnocrático” na Encíclica Laudato Si’)

17. Pois bem, e diante de tantos problemas o que fazer?Além de combater o que é mal, faz-se ainda mais importante trabalhar para “construir” o que é bom:

Não basta destruir o que é mal; é preciso construir o que é bom. A formação da consciência de um povo não se processa pelo incitamento das forças negativas, mas pelo cultivo e pelo estimulo das energias afirmativas.

18. E essa construção se dá primeiro de modo individual…

O jovem deve construir-se primeiro para depois pensar em construir a sociedade. A autoconstrução não se faz nas praças públicas, nem no fragor das manifestações coletivas; pelo contrario, forja-se no estudo, na meditação, na discussão, na troca de ideias

…para, por fim, passar ao âmbito coletivo.

19. Mas o que fazer? O que construir? O que ensinar?

O essencial é ensinar o povo a ser idealista; a reputar as exclusivas e mesquinhas preocupações materiais; a dedicar-se ás nobres causas do bem comum; a dar valor aos homens de virtude; a considerar mais importante o caráter e a moralidade do que o dinheiro e as posições brilhantes; a amar a sobriedade, a austeridade; a enaltecer os que se sacrificam, na pobreza, nas adversidades e no infortúnio, para sustentar o pendão dos altos sonhos arrebatadores; a estimar mais o trabalho do que os proventos, mais a honra do que a comodidade ou a ostentação; a desprezar o luxo e as fátuas grandezas; a detestar a ociosidade; a execrar a sensualidade; a repugnar a inutilidade; a repelir a irresponsabilidade; a proscrever a covardia, a preguiça a moleza, a indiferença, o fatalismo; a apegar-se ás tradições da Pátria e pela Pátria cultivar as virtudes vivificadoras.

20. O autor não deixa de registrar um fenômeno comum na natureza do povo brasileiro, certa sanha pela destruição:

Esse prazer se encontra em todas as manifestações da vida quotidiana, desde a volúpia com que se rasgam a gilete os estofos das poltronas nos cinemas, ou a canivete escalavram os bancos das praças públicas, ou se riscam os elevadores , ou se emporcalham os trens e bondes, até a volúpia mais refinada com que, nas rodas elegantes ou plebeias , ás mesas dos bares ou das boates, no transito das lotações ou nas salas fidalgas, se comentam reais ou hipotéticos desfalques, negociatas, adultérios, malversações de dinheiros públicos, protecionismos vergonhosos ou indignidades políticas

21. E volta a insistir na necessidade de corrigir estes e outros vícios através da educação. Essa educação não partiria inicialmente do Estado, mas de um movimento político cultural (o Integralismo por ele idealizado) que tomaria a responsabilidade de educar a nação, produzir ideias, fundar escolas e institutos a fim de se ensinar a virtude e os valores da pátria e etc.

Pode-se dizer que de certa forma isso se iniciou, décadas atrás a AIB tinha uma pujante produção intelectual, bem como administrava várias escolas, institutos e jornais. Hoje em dia, porém, este “aparato cultural” foi perdido, e a influência do movimento na cultura nacional perdeu muita de sua força e vigor.

22. Destaca ainda Plínio que: o homem integral não é um conformista bem adaptado ao presente, mas pelo contrário alguém que bebe na sabedoria do passado em busca de construir o futuro:

O Homem que vê o Futuro não convive com o Presente, antes integra-se no Passado. Só o Passado nos dá as coordenadas do Futuro e todo aquele que vive exclusivamente ‘atual’, é incapaz de construir o ‘porvir’.

E que inevitavelmente, este homem encontrará resistência dos seus contemporâneos:

Em todos os tempos, entretanto, os ‘homens novos’ encontram a resistência dos ’homens velhos’, não no sentido cronológico, mas no sentido dos maus costumes que não querem ser substituídos pelos bons.

23. Concluindo agora estas breves notas, retomo e destaco os principais pontos do livro:

  • A crise civilizacional que vivemos é antes uma crise do homem;
  • Tal crise é de natureza principalmente moral, e sua principal causa é o espírito burguês, cujo principal sintoma é um apego desmedido a matéria;
  • Diante de tal cenário, faz-se necessário ao homem operar em si uma revolução interior, para expulsar de si tais influências. As armas desta revolução interior seriam a educação, a mística cristã, e o nacionalismo;
  • Feito isso, cabe ao indivíduo ajudar aos demais na sua revolução interior, criando assim novos homens para realizar um novo Brasil.
—————————
*O texto fora publicado originalmente em Outubro de 2016 no  Instituto Shibumi
Edmundo Noir
Blogueiro, proprietário e fundador do BunKer Suburbano (www.bunkersub.com) e colaborador esporádico da Reação Nacional.
Anúncios

Nacionalismo, Espiritualismo e ”Ruralismo”

“A civilização nos deu tudo, todos os aperfeiçoamentos e confortos. Mas parece que nos levou alguma coisa…” – Plínio Salgado

Em meus estudos sobre os diversos grupos políticos gestados nesta Terra de Santa Cruz, deu-se que neste momento[*] tenho estudado as obras de Plínio Salgado e do chamado Integralismo. Polêmicas, e frequentemente obscurecida por estereótipos, falar de tais obras em alguns meios conservadores ainda é considerado tabu. Longe de pregar uma adesão total a doutrina integralistas, esta postagem busca enriquecer o debate político e trazer de volta ao âmbito das discussões alguns autores um tanto ostracizados, examinando suas ideias, e buscando conservar aquilo que é bom.

Sobre três pontos do pensamento de Salgado irei tratar: nacionalismo, espiritualismo, e o que chamo (por falta de termos mais adequados) de“ruralismo”.

O nacionalismo de Plínio se afirma principalmente como uma oposição ao cosmopolitismo, ou como se diz na gíria moderna: “pagação de pau pra gringo”. É notável como costumes estrangeiros,principalmente norte-americanos (atual potência hegemônica) têm se espalhado em nossas nações, e como certos grupos políticos (principalmente liberais) parecem tão somente querer transformar o país em uma copia sul-americana do vizinho yankee. Assim, ainda hoje se faz atual o pensamento expresso no Manifesto de Outubro:

“O cosmopolitismo, isto é, a influencia estrangeira, é um mal de morte para o nosso Nacionalismo . Combatê-lo é o nosso dever (…) Referimo-nos aos costumes, que estão enraizados, principalmente em nossa burguesia, embevecida por essa civilização que esta periclitando na Europa e nos Estados Unidos. Os nossos lares estão impregnados de estrangeirismos; as nossas palestras, o nosso modo de encarar a vida, não são mais brasileiros. Os brasileiros das cidades não conhecem os pensadores, os escritores, os poetas nacionais. Envergonham-se também do caboclo e do negro de nossa terra. Adquiriram hábitos cosmopolitas. Não conhecem todas as dificuldades e todos os heroísmos, todos os sofrimentos e todas as aspirações, o sonho, a energia, a coragem do povo brasileiro. Vivem a cobri-lo de baldões e de ironias, a amesquinhar as raças de que proviemos. Vivem a engrandecer tudo o que é de fora, desprezando todas as iniciativas nacionais. Tendo-nos dado um regime político inadequado, preferem, diante dos desastres da Pátria, acusar o brasileiro de incapaz, em vez de confessar que o regime é que era incapaz. Cépticos, desiludidos, esgotados de prazeres, tudo o que falam esses poderosos ou esses grandes e pequenos burgueses, destila um veneno que corrói a alma da mocidade. Criaram preconceitos étnicos originários de países que nos querem dominar. Desprezaram todas as nossas tradições. E procuram implantar a imoralidade de costumes. Nós somos contra a influencia perniciosa dessa pseudo-civilização, que nos quer estandardizar.”[1]

Entretanto, engana-se redondamente o liberal militante que acabe por interpretar as críticas ao EUA como certa aliança ao comunismo ou outros regimes contrapostos liderados por outras potências, mais a frente continua o autor:

“E somos contra a influencia do comunismo, que representa o capitalismo soviético, o imperialismo russo, que pretende reduzir-nos a uma capitania.” [2]
Com relação ao espiritualismo, este se dá como uma concepção oposta ao materialismo que já em sua época embriagava a nação. Salgado, ilustrou bem em seus romances a oposição entre a mentalidade materialista-individualista e a espiritualista, entre o espírito burguês e o espírito nobre. E desta concepção, deriva o que chamo de ”ruralismo” , uma valorização do homem do campo em detrimento ao da cidade:

 

“Os personagens espiritualistas são caracterizados como preocupados com a religião, com sentimentos nobres, com o casamento por amor, fidelidade, com o trabalho honesto, com a valorização do campo em detrimento à cidade, preocupados em solucionar os problemas nacionais.” [3]

 

”O contraste entre estes dois cenários é nítido. Enquanto os homens e mulheres do campo tentam sobreviver de alguma forma, os homens e mulheres da cidade, impregnados de consumo e cultura estrangeira levam suas vidas sem se preocupar com o bem comum, só com a ascensão social. Esta sobrevalorização do campo em detrimento à cidade expõe mais nitidamente a aversão de Plínio ao litoral, representado como estando contaminado pela cultura estrangeira e por isso que defende o redescobrir do Brasil, da verdadeira nacionalidade no retorno ao sertão, como já podemos vislumbrar durante sua atuação no grupo verde-amarelo” [4]
Aliado a isto, temos uma busca de certo distanciamento da tecnificação, a fim de que o homem não se torne um escravo da matéria, um escravo da máquina:

 

“…o homem é o escravo da máquina. Que são as densas populações, senão a massa tributária dos consumidores de estoques? A máquina cria necessidades novas, conforto desconhecidos, superficialidades inéditas impositivas. (…) Há novos costumes, porque há novas máquinas, e aperfeiçoam-se as máquinas para se exacerbarem os costumes. Essas multidões que trabalham e sofrem, que se agitam, que choram, que raivam, derramam o suor quotidiano para consumir a produção, que a concorrência impõe, habilmente, ou violentamente, através dos hábitos adquiridos. Homem é escravo da máquina… ” [5]
Estas são apenas algumas breves notas a respeito de meu estudo sobre a obra Integralista, tais pontos levantam algumas velhas questões sobre o pensar a nação ainda muito pertinentes: a necessidade de uma autoafirmação nacional, afim de que a pátria não se resuma a mera neocolonia estrangeira, a necessidade de libertação do materialismo, e o ideal bucólico como um caminho para a busca de uma maior sanidade na lida do homem com a matéria.

Por fim, deixo um vídeo da palestra de Victor Emanuel Vilela Barbuy no Centro de Estudos Políticos, que explica melhor a oposição entre o Espírito Nobre (Espiritualista) e o Espírito Burguês (Materialista, Individualista) segundo a obra de Plínio Salgado.

________________________________________________________
*O momento em questão foi meados de 2013 ou 2014, quando o texto fora publicado originalmente no antigo site do Instituto Shibumi.
[1] e [2] – Manifesto de Outubro, disponível em http://mtm.ufsc.br/~mcarvalho/CURSOS/Manifesto%20de%20Outubro.pdf
[3] e [4] – SCHMIDT, Patrícia. Plínio Salgado: o discurso integralista, a revolução espiritual e a ressurreição da nação. Disponível em http://livros01.livrosgratis.com.br/cp096188.pdf
Edmundo Noir
Blogueiro, proprietário e fundador do BunKer Suburbano (www.bunkersub.com) e colaborador esporádico da Reação Nacional.

O fenômeno Bolsonaro e a alternativa social-regressista

Créditos ao Estadão pela imagem.

Arthur Rizzi*

Antes de mais nada, afirmo que este texto reflete exclusivamente a minha posição, não a da Reação ainda. Mas, fato é que Bolsonaro deu ontem (domingo 07/10) um passo importantíssimo para ser o próximo presidente da república. Antes de procurar entender o básico do que levou a esse desfecho, precisamos levar em consideração que mudanças radicais aconteceram mais no corpo político do que na sociedade política.

Ontem, acompanhei a apuração pela Band News, mas por curiosidade mórbida, decidi passar para a Globo News. Percebi semblantes cabisbaixos, muitas lamúrias e considerações entre-dentes de que o brasileiro é essencialmente um povo conservador. As pessoas se iludiram ao longo da república tucano-petista com o mito do brasileiro progressista. Isso nunca foi verdade, se no passado o brasileiro era um católico devoto, hoje com o ocaso da Mãe e mestra de outrora, surge o pentecostalismo e o neo-pentecostalismo como nova face desse conservadorismo.

Este é um espaço demasiado curto para análises sociológicas muito profundas, mas é basicamente aquilo que Luiz Felipe Pondé ressalta em “Para entender o catolicismo hoje“, enquanto a Igreja Católica decidiu falar dos pobres e de justiça social, os pobres elegeram as igrejas evangélicas para falar de Deus e prosperidade. O nordeste que votou no PT não é o nordeste cosmopolita das capitais como Recife ou Salvador, mas sim o agreste, o sertão. Pobre, sem acesso a internet, analfabeto e dependente de ajuda do governo. Foi esse povo, na maioria das vezes moralmente até mais conservador que os das capitais, que votou no PT.

O próprio perfil do protestantismo brasileiro é muito católico. Como notou o pastor luterano Daniel Artur Branco, as “chavinhas abençoadas”, as “águas abençoadas”, as marchas para Jesus e as experiências místicas do pentecostalismo “reteté” são sucesso aqui justamente porque a cultura pregressa era católica, e estas não são mais que versões caricaturais e muito empobrecidas das relíquias dos santos, da água benta, das procissões e das experiências místicas dos grandes santos. O protestantismo asséptico da reforma e do calvinismo nunca logrou êxito aqui por razões puramente sociológicas. Não é por outra razão, que foi através da imitação burlesca e tosca da Renovação Carismática Católica (RCC), que a Igreja Católica conseguiu conter um pouco a sangria que afetava a mesma em favor dos pastores.

Com a derrocada do regime militar e a associação entre os partidos e políticos de direita com a violência, o povo optou por candidatos não tão conservadores, mas a verdade é que exceto as classes abastadas (e bem menos nessa eleição), a massa ignara sempre foi conservadora. Aliás, seria mais justo reverberar o que o liberal Ubiratan Borges de Macedo percebeu no livro “Liberalismo e Justiça Social“: Há um fundo tradicionalista (mais até que conservador) na sociedade brasileira, que é o principal motor do antiliberalismo, ainda que pela sua imanentização e secularização, leve as pessoas a aderir a esquerda.

Mas… Por que? Porque a direita é economicamente liberal. Então, temos isso. O brasileiro vota na direita pelos valores, se dá mal economicamente, e vota na esquerda pela economia. Antes a esquerda pelo menos pragmaticamente não atacava a moral tradicional, mas desde o maio de 68, as coisas mudaram.

O resultado é que o povo conservador para fugir da pobreza vota na esquerda, e quando se vê pressionado pela criminalidade e vê seus valores e sua religião pisada e humilhada pelo progressismo cultural daqueles que arrogantemente se consideram “elites iluminadas encarregadas de educar e esclarecer a plebe fascista“, votam na direita. Falta hoje quem ocupe o espaço que outrora era ocupado por políticos como Juscelino Kubitschek, que embora fosse do PSD (partido keynesiano), considerava-se a si próprio, um conservador. Falta um Plínio Salgado, e mais recentemente um Enéas Carneiro.

Cabo Daciolo é uma imitação burlesca e ridícula desse ponto central e, não fosse pela radicalização PT x Bolsonaro, teria tido ainda mais votos. Ele ficou na frente de Marina, Meirelles e Álvaro Dias! É esse espaço que a Reação Nacional quer ocupar: a direita não liberal, a direita que olha pro trabalho e para o trabalhador na sua totalidade, não só preocupado com o pão que ele vai comer amanhã, mas com a igreja que ele frequenta, com a saúde espiritual de sua família e de sua comunidade. É isso que eu chamo de alternativa social-regressista. É isso que é ser um terço Maritain, um terço Miguel Ayuso e um terço Plínio Salgado.

A esquerda foi humilhada como bem notou o meu companheiro Pedro Ribeiro (neste texto), porque ela tornou-se elitista e preocupada com oprimidos imaginários, com pobres imaginários, e começou em nome da defesa dos “pobres transgêneros, negros, nordestinos e veganos”, a oprimir os pobres evangélicos, os negros policiais vítimas da bandidagem e o tiozão da quitanda que só quer dar uma vida decente aos filhos e a esposa, e cuja recompensa maior é cachaça e churrasco no fim de semana. Esses pobres e oprimidos reais foram chamados de “bando de fascistas” pela elite progressista iluminada que se auto-missionou de educá-los segundo seus valores não-valorativos, de suas certezas céticas e de sua ortodoxia relativista.

O 46 x 29 de ontem é isso. O congresso mais conservador desde os caramurus é isso. Resta saber se a esquerda vétero-trabalhista vai voltar ou se em nome de combater os 46% de fascistas imaginários, vai continuar a defender “pobres oprimidos” imaginários construídos a sua imagem e semelhança.

A minha posição quanto ao hipotético porém real governo Bolsonaro é de independência. Baterei forte em Paulo Guedes que acha que pode fazer a economia de um país real funcionar como quem escreve textos para o Instituto Mises, mas apoiarei a orientação pró-vida e conservadora moral do próximo governo.

Arthur Rizzi* é colaborador oficial da página, formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)