Méritos a quem os têm.

Arthur Rizzi

Apesar de ter sido até presente instante um site de oposição ao governo Bolsonaro, deve-se elogiar a atual postura do governo Bolsonaro num ponto recente. O governo Bolsonaro parece ter abraçado um certo pragmatismo na política externa nos últimos dias. As viagens de Bolsonaro à Ásia, longe de vexaminosas, trouxeram alguns bons resultados.

Na China, em que pese não gostar do acordo feito a longo prazo (que acelera o projeto Brasil fazendão), ao menos no curto prazo o acordo comercial feito com os chineses foi positivo. Bolsonaro ainda defendeu a integralidade territorial da China, mudando sua posição pró-Hong Kong e pró-Taiwan nos meses anteriores. O acordo deve trazer algum alívio ao agronegócio e facilidades para nossos produtos primários.

Nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, o governo volta com investimentos em infraestrutura e assegurando também o interesse do nosso agronegócio. Isto é muito positivo para o país, e não há a menor sobra de dúvidas disso. É curioso perceber como o governo perdeu tempo com delírios ideológicos baseado na furadíssima teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, o que o fez desperdiçar tempo, recursos e capital político bajulando Israel e Estados Unidos, que não só não trouxeram lucros (pelo contrário, deram prejuízos) mas também se mostraram máquinas de memes contra o governo.

Em pouco mais do que algumas semanas de viagens aos países do “eixo do mal olaviano/americanista”, Bolsonaro retornou com muito mais conquistas do que em nove meses de lambeção de botas do Tio Sam e de Netanyahu. Minha hipótese é que com o naufrágio de aliados externos importantes ao governo brasileiro, o governo se viu forçado a agir de modo menos bravateiro e mais realista. O fato de Olavo de Carvalho ter defendido essa Ostpolitik, ao contrário de sua posição no início do ano, pode significar também que o mesmo esteja perdendo espaço junto ao clã Bolsonaro na decisão dos assuntos da política externa em favor de Paulo Guedes e da ala militar do governo (liderada por Hamilton Mourão).

Aguardemos a futura viagem a Rússia. Se Bolsonaro continuar a trilhar esse caminho, coisas interessantes podem acontecer.

Reflexões acerca da atual Política Externa

Arthur Rizzi*

No decorrer da história, a diplomacia brasileira orientou nossa política externa em muitos sentidos, ora mais pró-ocidente, ora pró-oriente, mas quase sempre de maneira responsável. Mesmo quando se optou por uma Política Externa Independente, seja sob a égide do terceiro mundismo, ou sob a égide do universalismo, tudo sempre foi feito de maneira muito prudente, levando em conta nossa posição e nível de força.

A diplomacia petista, mesmo quando se aventurou ideologicamente na questão israelo-palestina o fez de forma gradual e cautelosa. Por exemplo, a intervenção do Brasil na questão Turca com o Irã, certamente gerou alguns constrangimentos de lado-a-lado, mas ela em momento algum trouxe ameaça bélica para o Brasil, pois tudo sempre fora feito por meio de diálogo e diplomacia.

A novidade em relação à desastrada política externa de Araújo não é tanto que ela seja influenciada por uma maior proximidade com os Estados Unidos, mas sim que ela é irresponsável, idealista e beligerante. A primeira tentativa de acordo que Araújo fechou como ministro das relações exteriores foi, a desautorizada posteriormente, promessa de apoio militar brasileiro em caso de incursão militar americana na Venezuela. Pensemos nisso: Durante os anos do governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil optou por uma via pró-americana, mas em momento nenhum nos envolvemos em aventuras bélicas ou com devaneios intervencionistas.

Se durante os anos do PT o Brasil deu as costas a Israel e abraçou a causa Palestina; uma inversão de 180º ocorreu: O Brasil passou a apoiar os israelenses contra os palestinos sem maiores pudores. Se o Brasil na era PT deu as costas ao mundo e fechou-se no Mercosul, abrindo-se no máximo aos BRICs, o novo governo procura fazer a vontade dos Estados Unidos e se abre de modo pouco estratégico à União Européia, concedendo aos europeus mais do que eles a nós. A questão venezuelana é exemplar nesta matéria. Saímos dos afagos petistas à quase guerra contra os venezuelanos com Maduro ponto misseis de longo alcance apontados para Belém (PA) e Manaus (AM).

Trocou-se uma ideologia pela outra. E com imperícia.

Precisamos nos afastar dessa rota doutrinária e metafísica de política externa. Não que os “valores” não sejam importantes. Mas não é lícito cometer estragos maiores que os que se busca corrigir. Se houve erros durante gestões passadas, o governo deve ser cauteloso nas correções, prudente na dosagem, e tolerar o que não se pode mudar sem maior dano para o bem comum. O ponto central do erro da atual política externa é que, por ser idealista, ela é maniqueísta, o ocidente é bom; o oriente é mau. Os Estados Unidos são bons, tanto que se procura o “Deus de Trump”, a China é má. O Estado e a nação americana até podem ser um Napoleão no qual o “espírito absoluto” de Hegel se deposita; mas longe de conservador (o que aparentemente esse governo tenta ser), isto é revolucionário, e isto certamente é bem “pouco cristão” (algo que ao que parece o atual chanceler se preocupa muito em ser) e tem bem pouco a ver com a forma tradicional do Brasil fazer política externa.

Em resumo, o grande erro da política externa de Araújo é o que célebre escritor Eduardo Prado percebeu como o grande mal e o grande erro da elite política brasileira desde os primórdios da república: A ilusão americana. A crença mítica de que os Estados Unidos enquanto sociedade política e nação têm um papel providencial na História.

Esta é a forma como os conservadores americanos costumavam se ver, como a polícia do mundo. A “América” seria supostamente “fundada numa ideia”, como a nação santa de Deus destinada a ensinar o mundo liberdade e democracia. Isto tudo começou com a Doutrina Monroe. Antes de ser guardiã da liberdade e democracia no mundo, os Estados Unidos o foram no continente americano; tutelando nações como infantes, incapazes de gerenciar suas próprias crises e de aprender com elas. Golpes e contra-golpes foram apoiados pelos Estados Unidos nem sempre tendo como resultado democracia e liberdade.

O que a atual política externa nos propõe hoje? Ser uma terceirizada da doutrina Monroe. A princípio, é claro, pode ser que seja assim. Mas caso nos tornemos mais autônomos com essa filosofia, em que isso será original? Será apenas uma cópia de mais uma ideologia importada. E para piorar, será uma cópia transcendentalista que vê no seguir os passos dos Estados Unidos a redenção do Brasil.

A comparação com os Estados Unidos é um drama que persegue a elite política e intelectual brasileira desde o fim do Império. O desejo de ser os Estados Unidos está na nossa primeira carta constitucional republicana (1891); está na nossa primeira bandeira republicana (uma cópia verde e amarela da americana); no nome oficial do Brasil até àquela altura como Estados Unidos do Brasil e até na nossa literatura sociológica: De Oliveira Vianna a Gilberto Freyre; de Sérgio Buarque de Hollanda a Raymundo Faoro, de Celso Furtado a Caio Prado Júnior; quer seja de modo esperançoso ou fatalista, otimista ou pessimista, o dilema de sempre é “Por que os americanos e não nós?”, “Por que não somos como eles?”. Foi essa a ideologia motriz do udenismo e que está agora requentada no governo Bolsonaro. É com isso que devemos romper, superar, construir nosso próprio caminho. Há uma enorme diferença entre copiar boas práticas de uma nação desenvolvida e trata-la como musa inspiradora de uma obra de arte, paixão platônica totalmente inalcançável.

Precisamos pensar o Brasil com outra abordagem a nível geopolítico: meridional, tropical, de renda média, de origem ibérica, e multiétnico.

Essa abordagem nos dá certas instituições já existentes como passíveis de diálogo: O Mercosul – Bloco comercial que abriga o maior contingente comercial da América do Sul. A aliança do Pacífico, que engloba países amigos andinos. Por manter uma boa relação com Portugal e Espanha, poderíamos ter facilidades no diálogo com a União Européia, sobretudo se levarmos em consideração que temos a Guiana Francesa bem na nossa fronteira norte. Este último ponto se torna ainda mais desejável em face do recente acordo do Mercosul com a União Européia. Com nossos irmãos angolanos e moçambicanos teríamos muito a oferecer. Eles têm um mercado consumidor em crescimento para manufaturas e eletrônicos que seria de grande valia para as nossas indústrias, e as deles seriam grandemente beneficiadas ao fornecer insumos para a as nossas.

Nossas relações com os Estados Unidos, com a China e com a Rússia, que não guardam proximidade cultural nem geográfica conosco, seria a do universalismo, procuraremos em todos o melhor que tem a oferecer. E ofereceremos a todos o que desejarem de nós em boa fé.


 

Direita brasileira: do globalismo inconsciente ao globalismo ideológico

Arthur Rizzi

A direita brasileira está dando passadas largas em termos de discurso político para num futuro não muito longínquo, tornar-se um porta-voz consciente do globalismo. O raciocínio é simples: Na internet, ponto principal do debate econômico, a radicalização de ideias de lado-a-lado criou a figura do “isentão”.

É óbvio que existem pessoas que num contexto político desfavorável às suas ideias, as transmutam em uma opinião centrista para com isso fazer avançar pelo menos uma parte de sua agenda real. Contudo, isso nada tem a ver com pessoas cuja posição política e proposta de modificação da política sejam mais centristas, moderadas e prudentes.

Isto é, uma coisa é a pessoa que diz defender a solução de dois Estados para a questão israelo-palestina como forma de ocultar seu anti-sionismo, podendo assim apoiar a causa palestina sem ser acusado de antissemita. Outra bem diferente é a pessoa que acredita que a solução de dois Estados é efetivamente s melhor solução.

O problema é que por conveniência dos dos lados, ambos são empurrados sem distinção para o mesmo rótulo de “isentão”. Quanto mais à esquerda (ou à direita) você estiver, mais direitistas (ou esquerdistas) você verá. Veja no caso de Bolsonaro. As críticas que se fazem a política externa podem ser feitas pelas mesmas duas razões acima. Pode ser o caso do “isentão”, o anti-bolsonarista que por estar fora do poder e temer represálias advoga uma versão mista da sua visão real de política externa com uma versão moderada da política bolsonarista. Ou pode ser que seja uma pessoa que realmente tenha uma visão mais moderada desses assuntos sem qualquer compromisso com o anti-bolsonarismo.

De fato, muitas personalidades conservadoras e até tradicionalistas tem feito críticas a orientação da política externa de Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho. Nem por isso são esquerdistas enrustidos. Ao contrário, justamente criticam porque acham que o governo ou o país seriam mais beneficiados por um outro tipo de política externa.

E de fato, se analisarmos, o “nacionalismo” que a imprensa internacional atribui a Bolsonaro não passa da metade da primeira página. O suposto nacionalismo começa e termina no discurso. A política externa visa primariamente os interesses dos Estados Unidos e de Israel, com o Brasil prestando um acordo de suserania e vassalagem com os Estados Unidos e com os setores mais americanistas do governo querendo com a entrada na OTAN, que este pacto de suserano-vassálico converta o Brasil num protetorado dos Estados Unidos.

Ora, mas o nacionalismo não se constitui justamente numa postura de não subserviência a ninguém e de autonomismo? O nacionalismo não acaba por optar por uma política externa independente, optando quando muito e inevitável, por um alinhamento comedido e negociado, e sempre com muitos poréns e declarações de provisoriedade? Afinal, “a pátria vem em primeiro lugar. Se assim é, e se como dizia Santo Tomás de Aquino “falar a verdade é quando o discurso versa sobre o Ser na medida em que este é conhecido”, podemos evidenciar que o discurso nacionalista não versa sobre a realidade do que é a atual política externa.

O problema é que hoje a questão da política externa tornou-se ideológica. Ser de direita é ser pró-EUA e Israel. Ser de esquerda é ser pró-Palestina e Rússia e/ou China. Mas a realpolitik não é assim. China e Estados Unidos têm uma relação econômica simbiótica, onde um lado poupa e o outro consome. Nada poderia ser mais longe do fla-flu acima descrito. Então, passa a compensar para o direitista tachar o nacionalista de “isentão” ou “esquerdista enrustido”, pois ele não adota o credo pró-EUA e pró-Israel per omnia saecula saeculorum. O nacionalista verdadeiro, propondo uma política externa independente, desejaria uma relação saudável com Rússia, China e Estados Unidos, fugindo o máximo possível dos problemas entre eles e tentando levar o melhor possível de vantagem entre todos. Mas para o bolsonarista, isso faz do nacionalista um esquerdista.

Então pensemos: Se nacionalismo factual, real e concreto é de esquerda. Se buscar única e exclusivamente o interesse brasileiro é de esquerda dentro desse discurso fanatizado, é óbvio que a contraposição tenderá a radicalizar cada vez mais no globalismo, no internacionalismo e nos projetos contra autonomia nacional.

Antes que alguém mal intencionado diga que eu estou acusando o bolsonarista de ser globalista, ou de dizer que o nacionalismo é uma ideologia de esquerda (e existem muitos nacionalistas conservadores), eu advirto e peço: leia de novo. O que eu estou dizendo é que na medida em que no plano discursivo a direita atual continue a empurrar o nacionalismo real e factual para o canto da esquerda política, ele começará a se ver na necessidade de delimitar uma distinção igualmente discursiva, e nesse caso ele só poderá se mover para o globalismo que é o outro polo dessa equação, pois o pretenso “nacionalismo” do governo Bolsonaro é meramente discursivo. E com isso, para piorar, acabar dando a própria esquerda que diz combater o monopólio da “defesa dos interesses nacionais” e de que “se preocupa de verdade com o país”. Claro, tudo isso no plano meramente discursivo.

Para ser ainda mais claro, o governo já é globalista na prática. Os bolsonaristas é que ainda não descobriram isso.


 

Política externa: Brasil, pan-lusitanismo e hispanismo.

Arthur Rizzi*

Ao longo da história, a diplomacia brasileira orientou nossa política externa em muitos sentidos, mas quase sempre de maneira responsável. Mesmo quando se optou por uma Política Externa Independente, seja sob a égide do terceiro mundismo, ou sob a égide do universalismo, tudo sempre foi feito de maneira muito gradual e condizente com nossa posição e nível de força.

Mesmo a profundamente ideologizada diplomacia petista demorou muito tempo para engrenar na linha mais ideológica. Por exemplo, a intervenção do Brasil na questão Turca com o Irã, certamente gerou alguns constrangimentos de lado-a-lado, mas ela em momento algum trouxe ameaça bélica para o Brasil, pois tudo sempre fora feito por meio de diálogo e diplomacia.

A novidade em relação a desastrada política externa de Araújo é que ela é radical, repentina e beligerante. A primeira tentativa de acordo que Araújo fechou como ministro das relações exteriores, foi a desautorizada posteriormente, promessa de apoio militar brasileiro em caso de incursão militar americana na Venezuela.

Se durante os anos do PT o Brasil deu as costas a Israel e abraçou a causa Palestina; uma inversão de 180º ocorreu: O Brasil passou a apoiar os israelenses contra os palestinos. Se o Brasil na era PT deu as costas ao mundo e fechou-se no Mercosul, abrindo-se no máximo aos BRICs, o novo governo  menospreza seus vizinhos e procura bajular o tio Sam  torto e a direito.

A questão Venezuelana é simbólica. Saímos dos afagos PTistas à quase guerra contra os venezuelanos com Maduro ponto misseis de longo alcance apontados para Belém do Pará e Manaus.

Trocou-se uma ideologia pela outra. Não é de se admirar que a diplomacia mais racional que tivemos nos últimos tempos fora a do governo Temer, que trazendo o Mercosul de volta ao campo democrático, procurou soluções diplomáticas para questão V=venezuelana, como embargos e a suspensão do bloco. Ocorreu também que o Brasil voltou oficialmente a adotar a posição de dois Estados na questão israelo-palestina, além de procurar mercados com a União Européia e conciliando ainda por cima China e Estados Unidos.

Mas eu creio que o Brasil pode um pouco mais em termos de política externa, e tenho duas bases para pensar isso:

  • O universalismo do general Figueiredo – Essa forma de diplomacia defendia em seu contexto geopolítico (a Guerra Fria), que o Brasil deveria procurar os melhores acordos comerciais e políticos, independente se no ocidente capitalista ou com os países da cortina de ferro. O café brasileiro nestes tempos chegou a responder por 80% do café consumido na Polônia, tornando-se um mercado interessante.
  • O segundo ponto é o luso-hispanismo (junção de pan-lusitanismo e hispanismo) – Por sua vez essa orientação entende que o Brasil, assim como seus vizinhos, fazem parte de um contexto cultural ibérico; isto significa que apesar do Brasil estar aberto ao diálogo e a negociação com todos os países, que ele dará prioridade às suas raízes e tradições favorecendo os países amigos por ordem de proximidade cultural e geográfica com quem desenvolvemos laços históricos. Desta maneira Portugal, os nossos vizinhos da América do Sul e Latina, as ex-colônias portuguesas na África, Timor Leste e a Espanha são amigos prioritários nas nossas negociações.

Essa abordagem nos dá certas instituições já existentes como passíveis de diálogo: O Mercosul – Bloco comercial que abriga o maior contingente comercial da América do Sul. A aliança do Pacífico, que engloba países amigos andinos. Por manter uma boa relação com Portugal e Espanha, poderíamos ter facilidades no diálogo com a União Européia, sobretudo se levarmos em consideração que temos a Guiana Francesa bem na nossa fronteira norte. Com nossos irmãos angolanos e moçambicanos teríamos muito a oferecer. Eles têm um mercado consumidor em crescimento para manufaturas e eletrônicos que seria de grande valia para as nossas indústrias, e as deles seriam grandemente beneficiadas ao fornecer insumos para a as nossas.

Nossas relações com os Estados Unidos, com a China e com a Rússia, que não guardam proximidade cultural nem geográfica conosco, seria a do universalismo, procuraremos em todos o melhor que tem a oferecer. E ofereceremos a todos o que desejarem de nós em boa fé.

Saindo um pouco da concretude e do pragmatismo, e falando um pouco mais em ideais, seria possível ainda pensar mais em longo prazo. Uma bela e moral ideia, seria talvez de algum dia, formar-se uma organização militar de mútua defesa dos países luso-hispânicos, em moldes similares a OTAN/NATO. Contudo, focado em construir um verdadeiro e competitivo poder militar no Atlântico Sul, de modo a garantir a soberania dos países de tradição luso-hispânica na América, na África e também na Península Ibérica. Esse acordo acabaria tendo como fonte de auxílio um país irmão como o Brasil, ou os demais países da América do Sul, e não um Império muitas vezes pouco afável como os Estados Unidos.

Um banco de desenvolvimento conjunto como alternativa ao FMI também seria uma possibilidade, dado que seria positivo não só para os países da América Latina, mas como para os países da África que compartilham uma longa história conosco e que certamente prezariam muito por nossa ajuda. Tudo isso pode ser longínquo e por demais hipotético, mas é uma boa meta para se desejar.

Mas o ponto mais importante, é que a imagem que o Brasil grande que eu gostaria de ver projetada no mundo, não é de maneira nenhuma a de um Império com armas apontadas para os rivais. Não quereríamos uma doutrina Monroe para garantir a lealdade dos nossos companheiros de continente. Não! Nossas armas são para a nossa defesa, mas também para a vossa. Nossos braços são para lutar por nós, mas também para lutar por vocês. E tudo que o Brasil pediria seria reciprocidade. Idealista? Sim, mas sem saber onde chegar, não há razões para desenhar trilhas e mapas.

No hemisfério Sul, o Brasil nessas condições, se tornaria hegemônico, um “gigante gentil”, dado que teria como missão histórica usar esse poder de modo passivo e não imperialista e não intervencionista.


*Arthur Rizzi é historiador.

O Brasil se humilhou a toa.

No encontro entre Trump e Bolsonaro, os brasileiros que mantiveram a sensatez e o mundo se escandalizaram com uma enorme demonstração de subserviência e falta de orgulho próprio do governo brasileiro. Tudo demonstrava isso, desde a completa adesão sem ressalvas a tudo o que os americanos propunham como as demandas mais figurativas do que reais feitas ao tio Sam. Quando estava ao lado de Trump, Bolsonaro o olhava com os olhos brilhando, quase lacrimejantes, como uma criança que olha o ídolo de uma banda que gosta ou de um beato que olha a imagem de um santo.

Uma das demandas figurativas era entrar para a OCDE. O Brasil entregava tudo o que tinha e não tinha e, em troca, os EUA ajudavam o Brasil a integrar o clube dos países “considerados” ricos. Pois bem, toda aquela bajulação e auto-imolação foi justificada pelas trupes olavistas em ganhar o selo de “país rico”, só para poder dizer: “Viu? Foi só o Bolsonaro entrar e já viramos um país desenvolvido! Chupa petralhas!” O que diferencia isso do governo Dilma considerar quem ganha sal[ario mínimo classe média e dizer que moveu 30 milhões para a classe média?

Entrar para OCDE também não era um negócio tão bom assim, já que no fim das contas, impediria o Brasil de tomar medidas que impedissem sua desindustrialização e resultaria na inevitabilidade do plano de longo prazo dos americanistas, aquele plano mesmo que eles nunca desistiram… A ideia de fazer do Brasil a fazenda do mundo, pois não teríamos vocação para as manufaturas. Pois bem, nem essa discurseira será possível, os EUA traíram o acordo e o Brasil se humilhou à toa. O que fará agora o ministro Araújo? Onde está o seu deus agora?

EDITORIAL: O que esperar do governo Bolsonaro?

Bolsonaro venceu a eleição, e estamos a pouco mais de 30 dias da posse. O que esperar desse governo para 2019? Dado que é a reestreia de uma direita que se assume como direita na política e no governo desde 1964, ainda tudo é muito incerto, e portanto nossa previsão será mais curta. Mas o governo de transição já deu ideias do que pode estar vindo por aí.

Separaremos os prognósticos em quatro setores: moral, econômico, política externa e relações laborais.

Na moralidade, podemos esperar um governo conservador nesta matéria, mas não espere um moralismo católico, intelectualmente coerente e fundado no direito natural clássico, e sim um moralismo evangélico de um certo setor neopentecostal grosseiro e messiânico, pois caso fosse pelo menos luterano, anglicano (high church) ou metodista, haveria suficiente proximidade com a doutrina católica para que houvesse algum critério e razoabilidade.

O que ocorrerá, entretanto, será um arrazoado de proibicionismos arbitrários e sem contexto lógico que os unifique, um verdadeiro show de biblismos, hermenêutica arbitrária e subjetivista, além de chavões duvidosos. Ou seja, longe de termos aquele escopo intelectualmente sério de uma Pontifícia Academia para Vida, teremos a arbitrariedade e o caos tentando serem unificados, quando possível, pelo intelectual americanista Olavo de Carvalho. Quando não for possível, veremos ele próprio “baixar a ripa” com força, o que poderá ou não, surtir efeito no governo.

Um dos exemplo disso é o caso do projeto Escola sem Partido, que a partir de uma intuição moral certa, descambou para outra coisa bem pior que o mal que queria combater. Gerando um clima inquisitorial de perseguição ideológica, o projeto não possui critérios claros, ameaça professores e intelectuais universitários com sanções legais por quaisquer palavras, gestos e pensamentos expostos que possam soar como ideologizados e doutrinários. Com a atual ocupação liberal-conservadora e americanista das instituições, poderá acabar tentando criar uma hegemonia intelectual lib-cons/americanista na sociedade, punindo não apenas os “comunistas malvados” originalmente traçados, mas até nacionalistas e cristãos sérios que ofereçam uma perspectiva que fuja da neo-ortodoxia liberal-conservadora americanista. É o ambiente perfeito para o nascimento de intelectuais radicais anti-sistêmicos, dado que a tendência a arbitrariedade é grande.

OBS¹Eu não me surpreenderia se os evangélicos, agora no poder, começassem a usar o mesmo para prejudicar o catolicismo no país ou limitar a parca e quase inexistente influência católica no governo. A CNBB e a própria Igreja Católica poderá ter uma vida muito difícil nos próximos anos, com os evangélicos usando o poder estatal para se tornarem a religião dominante e quiçá oficial do país.


Do ponto de vista econômico, o atual governo não herda um paraíso, mas a situação nunca foi tão fácil para um presidente se criar. A reforma trabalhista já foi feita no governo Temer e, ao que parece, a previdenciária não tarda muito mais. Então, tendo apenas de passar a reforma da previdência com quatro anos pela frente, e com legitimidade das urnas, Bolsonaro tem a facílima tarefa de fazer o PIB passar de 1% (já faz dois anos que o PIB não chega a 2%), o que é algo que julgamos que ele e sua equipe de chicagoboys, poderão fazer com facilidade.

Os empecilhos serão, obviamente, um setor nacional-desenvolvimentista/nacionalista das FFAA, que já teve sua primeira baixa, o general Oswaldo Ferreira, será ainda a oposição a esquerda que deve congregar a terceira via neo-trabalhista de FHC e o que sobrar do tucanato (dado que parte vai pra direita), o vétero-trabalhismo de Ciro Gomes, e a esquerda identitária doente liderada pelo petismo.

Há ainda um possível contratempo a ser levado em consideração. As lambanças da política externa preocupam o setor produtivo nacional, em especial o agronegócio e a indústria que estão arrependidos de terem elegido Bolsonaro. Os primeiros, interessados no porte de armas para impedir os avanços do MST, agora começam a ver que o sionismo e o americanismo da teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, personificado no Itamaraty por Ernesto Araújo, colocam em risco a soberania brasileira no mercado árabe e chinês. Os últimos, vendo o completo desdém de Paulo Guedes pela indústria nacional e seu aceno as multinacionais americanas, sentem já que passarão o pão que o diabo amassou nas mãos do super-ministro da economia.

images_cms-image-000608289

Como Arthur Rizzi previu no podcast da Legião da Santa Cruz, existe um risco de mexicanização da economia brasileira, isto é, a indústria nacional deve ser progressivamente substituída pela indústria estrangeira, e que se a indústria nacional não piorar ainda mais  sua posição em termos de participação no PIB, aprofundando assim a desindustrialização, não deverá haver melhora no quadro atual, ficando estável nos valores atuais. Portanto, se contarmos apenas a indústria nacional, ela deve diminuir ou continuar no mesmo patamar. Porém, se pensarmos na possível invasão de multinacionais, deve haver uma desnacionalização da indústria, o que eu chamo de mexicanização da economia. Isto é, em termos gerais, haverá aumento de participação da indústria no PIB, mas se dando através da queda da participação da indústria nacional e o crescimento da indústria estrangeira. Essa conta industrial deve cobrar caro mais no longo prazo. As guinadas ideológicas na política externa, porém, se radicalizadas ainda mais, poderão cobrar no curto prazo.


A política externa deve seguir a linha olavista a partir de agora, isto é, ela se fundará na interpretação que Ernesto Araújo faz da teoria dos três poderes globalistas de Olavo de Carvalho, sinteticamente exposta no livro “Os EUA e a nova ordem mundial“, que foi um debate com o geopolítico russo Aleksandr Dugin, e também pode ser melhor aprofundada através do livro “O Jardim das Aflições“, o qual especialmente na sua edição mais recente, conta com uma entrevista com Silvio Grimaldo como apêndice, que é uma retificação da teoria do livro com uma créscimo que exime o ethos estadunidense tradicional da culpa pelo globalismo. Deverá haver uma influência forte de Guénon também nessa leitura, mas provavelmente, a linha olavista deverá se destacar mais.

Esta política externa pró-Israel e pró-Estados Unidos deverá gozar de grande apoio dos evangélicos sionistas, o que pode ser eleitoralmente um motivador para Bolsonaro aprofundá-la. Porém, os exageros nessa pauta podem isolar o Brasil do comércio mundial, o que será ruim para a economia. Tudo deverá depender de como essa pauta será tocada, se acriticamente, ou se de modo moderado porém eficiente. Se da segunda forma, não deve haver grandes prejuízos a economia.


Do ponto de vista das relações laborais, deverá haver uma  maior precarização das leis trabalhistas, o próprio Paulo Guedes circulou a ideia de uma carteira de trabalho verde-e-amarela, na qual o funcionário trabalha por “livre e espontânea vontade” sem nenhum dos direitos assegurados pela CLT. Óbvio que o “livre e espontânea vontade” fica entre aspas, pois sendo mais barato e estando o patrão em posição de vantagem, ele só contratará (nos mercados de competição perfeita e menos sofisticado) pela carteira verde-e-amarela, dado que o candidato a vaga não tem como “punir” o patrão do mesmo modo que o patrão o tem com a sua não contratação. A Folha de São Paulo mesmo publicou que Paulo Guedes achou a reforma Temer muito moderada e pró-trabalho e quer aprofundá-la tornando-a mais pró-capital. Se essas medidas lograrão êxito no congresso nacional ainda é incerto, mas pensando a longo prazo e pressupondo que vão, concluiremos que enquanto o crescimento econômico for favorável ao governo, isso deve amenizar o impacto de medidas tão anti-pobre quanto a citada, mas quando o “vôo de galinha” da economia acabar, há o risco de ocorrer uma desagregação ainda maior do que a atual, na qual há um país dividido no ódio, a distorção bolchevista do tecido social será uma consequência quase lógica. A completa ausência de direitos trabalhistas favorece a radicalização das massas, a ideologização das relações laborais e o espírito revolucionário.

Se isso prosseguir, quando o bolsonarismo acabar (porque ele vai acabar em algum momento), pode ser que troquemos um Olavo de Carvalho por um Nildo Ouriques, e aí a burguesia usurária e até a produtiva vai gemer.


Do ponto de vista da teoria das castas, da qual os autores que mais se destacam são Julius Evola, Roland Mousnier e mais recentemente David Priestland, o governo Bolsonaro representa uma aliança entre três setores bem definidos: a) a burguesia usurária (banqueiros e mercado financeiro); b) setor maçônico e frotista das FFAA; c) evangélicos neopentecostais e sionistas. Teremos, portanto, um governo weberiano por excelência.

OBS²: Para quem se diz antiglobalista essa base de apoio é muito internacionalista, e soa curioso como os que outrora tanto criticavam o internacionalismo, agora saúdam uma equipe liderada por banqueiros usurários, pela maçonaria verde-oliva, e por pastores neopentecostais que parecem amar mais a Israel e Estados Unidos que ao Brasil.

A desonestidade intelectual do Sr. Olavo de Carvalho

“Desonestidade intelectual é você fingir que sabe aquilo que não sabe e que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem.”

Olavo de Carvalho

A inépcia assombrosa de Olavo de Carvalho em assuntos relativos a economia e relações internacionais é conhecida de todos que o acompanham há algum tempo. Nem por isso o polemista fazedor-de-ministros perde a oportunidade de pontificar, com a maior arrogância possível, sobre esses e outros assuntos que ignora. Essa atitude demonstra, acima de qualquer dúvida, que é um homem intelectualmente desonesto segundo seus próprios critérios.

Em entrevista recente ao jornal O Estado de São Paulo, Olavo faz declarações tão estapafúrdias sobre a política e o comércio exterior brasileiros que a tentação é dizer, como fez celebremente o físico Wolfgang Pauli, que suas opiniões não estão sequer erradas. Não fossem ditas em uma publicação de grande circulação por alguém que lamentavelmente se tornou, neste triste momento brasileiro, uma das pessoas mais influentes do país, provavelmente seriam ignoradas como baboseiras indignas de qualquer atenção, exceto pelo seu caráter cômico.

Além dos seus já conhecidos expedientes de ofensas, desqualificações e mesmo ameaças ao interlocutor, Olavo dá diversos exemplos daquilo que o torna tão pernicioso ao debate público: enxurradas de informações falsas; uma ignorância vergonhosa acerca de conceitos elementares para qualquer cidadão bem informado; chutes e hipóteses ad hoc sobre a realidade das relações exteriores do Brasil, aparentemente com o objetivo de encaixá-las à força em suas próprias interpretações, generalistas e excessivamente ambiciosas, da política internacional contemporânea.

Logo no início da entrevista, Olavo afirma que “o presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil”, dando a entender que essa cifra representa uma alternativa às nossas relações comerciais com a China. Na realidade, “Trump” não tem um único centavo “esperando” para investir no Brasil, pois o que está em questão são transações entre países, não entre governos. Com todo o respeito, um indivíduo que não sabe a diferença entre contas nacionais (transações de uma nação com outras) e contas governamentais (que dizem respeito a recursos públicos) deveria simplesmente abster-se de opinar com tamanha arrogância sobre economia internacional. Ademais, não se trata de “investimentos”, mas de uma estimativa otimista do quanto um acordo bilateral comercial com os Estados Unidos poderia propiciar, anualmente, em transações totais (de compra e venda) entre ambos os países. Portanto, esse valor não representaria, necessariamente, um “ganho” para o Brasil, muito menos uma possível alternativa ao comércio com a China, como se os governos pudessem escolher com quem as empresas dos seus países irão transacionar (crença curiosa, vinda de alguém que se diz adepto do liberalismo econômico mais estrito).

Em seguida, Olavo faz a afirmação risível de que a China só comercia com o Brasil porque nosso governo estaria “distribuindo dinheiro” para os “amigos” deles, mencionando Angola, Cuba e Venezuela, em um montante que supostamente totalizaria 1 trilhão de dólares. Como já vimos, trata-se de um indivíduo que não sabe diferenciar estoque e fluxo, muito menos contas governamentais e contas nacionais, portanto é impossível saber o que ele pretendeu dizer com “distribuindo dinheiro”, nem de onde tirou uma cifra tão impressionante, correspondente a mais da metade do PIB nacional. De qualquer forma, não faz sentido atribuir o comércio sino-brasileiro a motivações ideológicas dos governos desses países. Talvez Olavo tenha dificuldade de entender que o mundo se move por considerações e necessidades que transcendem em muito as suas paranoias conspiratórias, mas a verdade é que esse comércio se deve à elevada complementariedade entre as duas economias. Cresceu apesar de, e não devido às, preferências políticas de seus governantes. É, na realidade, um exemplo típico da especialização comercial decorrente de vantagens comparativas e do livre-cambismo, doutrina defendida pelos economistas liberais desde David Ricardo e que Olavo supostamente endossa — embora, evidentemente, não compreenda.

A soja brasileira não foi comprada em peso pelos chineses porque o Partido Comunista do país estava feliz com as nossas boas relações com Cuba e Venezuela, mas porque seus numerosos criadores de suínos demandaram elevadas quantidades desse grão para alimentar seus rebanhos. O minério de ferro produzido pela Vale, por sua vez, foi um dos viabilizadores da urbanização acelerada da China — país paupérrimo em recursos minerais e dependente de imensas importações desses insumos para prosseguir com seu desenvolvimento. Note-se, ainda, que tanto em um caso como em outro estamos falando de bens indiferenciados (commodities) cuja cotação é determinada internacionalmente em mercados que se aproximam da situação teórica de concorrência perfeita. Portanto, na realidade, ninguém, muito menos o governo, “escolhe” de quem o país irá comprar baseando-se em critérios ideológicos. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais desses bens, e, por isso, foi beneficiado enormemente pela explosão na demanda por eles que o crescimento chinês proporcionou. Não fosse por esse crescimento, o Brasil seria hoje um país muito mais pobre, viveria crises recorrentes em suas contas externas e a formidável expansão do agronegócio — ironicamente umas das principais bases de apoio do governo Bolsonaro — jamais teria acontecido. Fica, então, a pergunta: já que Olavo acredita que o comércio com a China é “escravidão” e propõe que ele cesse — já que supostamente decorre apenas de uma “vantagem política” que irá acabar com o governo Bolsonaro — qual é a alternativa que sugere ao Brasil? Devemos esperar que “o Trump” venha comprar a nossa soja e o nosso minério, uma vez que a China saia de cena? Ou devemos aceitar ficar muito mais pobres, apenas para nos preservarmos de qualquer contato comercial com o perigoso “esquema russo-chinês”?

O show de absurdos não acaba aí. Pouco depois, Olavo afirma que a riqueza da China é “quase toda construída com dinheiro americano”. Ora, seria um exagero, porém mais próximo da verdade, dizer que isso é o inverso do que realmente ocorre. Pois são os Estados Unidos que têm déficits imensos em transações correntes há mais de 30 anos, beneficiando-se do privilégio exorbitante de serem os emissores da moeda de reserva internacional (Dólar). Isso significa, em jargão econômico, que os norte-americanos dependem da absorção de poupança externa para fechar suas contas e financiar seu crescimento. A China, em contraste, é um dos países que mais poupam no mundo; exatamente por isso se tornou exportador de capitais e está comprando tantos ativos em outros países. Em outras palavras, boa parte do consumismo norte-americano, frequentemente exaltado pelo senhor Olavo de Carvalho, é pago por poupança do resto do mundo, principalmente da China. É essa a razão, aliás, de os chineses serem hoje os maiores credores da dívida norte-americana. Mais uma vez, o oráculo da Virgínia demonstra a cegueira decorrente de seu fanatismo americanófilo e liberal-conservador, distorcendo os fatos com uma cara-de-pau impressionante.

Outro momento curioso da entrevista vem em seguida, quando Olavo afirma, indignado, que a China está “comprando o Brasil a preço de banana”. Aqui, pela primeira vez, estou de acordo com ele, ao menos no sentimento: de fato estamos criando um passivo preocupante com o país asiático. Porém, vindo de um defensor radical do governo Bolsonaro e de sua agenda de privatizações e liberalização econômica, essa preocupação é no mínimo intrigante. Afinal, quando se coloca à venda um ativo — ainda mais um ativo público, supostamente sujeito à impessoalidade do Estado — o comprador é aquele que dispõe de capital suficiente e oferece o melhor preço. Sendo o objetivo declarado da política econômica “atrair investimentos” — apresentados como a panacéia para os nossos problemas — o apetite dos capitais chineses merecia ser comemorado, não lamentado! Vejam, caros leitores, a irracionalidade (ou cinismo) dos atuais governistas brasileiros: colocam o país à venda e, em seguida, reclamam que ele está sendo comprado! Aparentemente, Olavo deseja criar uma regra ad hoc segundo a qual os capitalistas chineses, especificamente, ficariam impedidos de comprar estatais e ativos privados brasileiros. Só capitais “do bem” — suponho que norte-americanos e israelenses — seriam bem-vindos. Com a sua paranoia antichinesa, Olavo favorece os interesses norte-americanos e omite o que realmente está em jogo: não só “a China”, mas capitalistas de diversos países, estão “comprando o Brasil a preço de banana” pelo fato de terem a visão estratégia e de longo prazo que nossos governantes não têm.

Olavo de Carvalho não faz ideia do que está falando. Está  apenas empenhado, como sempre, em promover os interesses da pátria norte-americana que escolheu para si, agindo sem qualquer pudor, respeito pela realidade ou humildade intelectual. É — reitero — um homem intelectualmente desonesto segundo sua própria definição do termo. Em situações normais, seria merecedor apenas de risadas, mas, em vista do gravíssimo perigo que representa sua influência desmedida no atual momento brasileiro, não resta alternativa senão respondê-lo com seus próprios métodos:

CALA A BOCA, BURRO!


Ricardo Carvalho é economista formado pela Universidade de São Paulo (USP).