Alain de Benoist – O exemplo dos coletes amarelos

por Alain de Benoist

Pergunta feita antes para Alain de Benoist “O senhor poderia descrever as especificidades do movimento dos coletes amarelos? Especialmente em comparação com outros protestos importantes na França nos anos recentes, como os protestos contra a lei El Khomri em 2016 ou “La Manif pour tour (contra o casamento gay) em 2013?”

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Creio que estas comparações são completamente falsas, assim como as comparações com fevereiro de 34, maio de 68, ou outros acontecimentos. O movimento dos coletes amarelos não é comparável a nenhum acontecimento das décadas recentes.Se quiséssemos encontrar movimentos similares, teríamos que ir direto ao século XIX e após a revolução de 1848, ou até mesmo a Comuna de Paris de 1871. A especificidade do movimento dos coletes amarelo é, primeiro, que se trata de um movimento perfeitamente auto-organizado que nasceu com a fantástica ideia de usar coletes amarelos como um símbolo de levante para as próprias pessoas, além de todas as preocupações de esquerda ou direita, além dos sindicatos e partidos políticos. Usando uma expressão de Vincent Coussedière, se não me engano, é “o populismo do povo”. Não é o populismo de um partido populista, é o populismo do povo. Isto é, o povo não quer mais ser excluído, explorado, pagar impostos abusivos, humilhado e ignorado de toda forma imaginável, quer deixar claro que ele existe.

A luta contra as reformas dos combustíveis foi o estopim, como vimos, o protesto contra os impostos se transformaram numa revolta social que por sua vez virou uma revolta política, e o slogan “Macron, renuncie!“.

O movimento é interessante nesse sentido, precisamente porque não possui líder. Há pessoas que dizem “sim, não há líder, não há interlocutor, nem representante”, mas é justamente esse o fato que dá força ao movimento, o que o permite ser constituído pela base social, com representantes que só recebem uma autoridade temporária. Essa é a verdadeira democracia direta.

Estou chocado, antes de tudo, pela energia desse movimento, pelo apoio quase unânime da população, pela sua continuidade (alguns diziam que desapareceria rapidamente, mas estavam errados), a incrível determinação das pessoas que estiveram lá, os homens, sim, mas também as mulheres que foram tão numerosas, se não mais que os homens. Vimos na televisão esses momentos inesperados, impensáveis há pouco tempo atrás: mulheres de dezessete anos que dormiam enroladas em cobertores dentro dos carros à noite, para que os protestos não perdessem força, a solidariedade das pessoas que foram lhes dar apoio, estamos vendo um movimento que é tanto admirável quanto formidável.

Precisamos então perguntar: o que acontece depois, o que vai acontecer agora? Diria que esse movimento obviamente acabará em algum momento, não tem como ir pra Paris todo sábado durante 10 anos. Porém, a causa permanece, o que produziu esse movimento primeiramente permanece, e assim continuará. Nada mais será como antes: agora só há o que aconteceu depois dos coletes amarelos.

Macron foi deixado com pouquíssimo espaço de manobra, sua posição é extremamente perigosa e difícil, pois ele vem seguindo as regulações da União Europeia, que prescrevem medidas de austeridade, e toda vez que ele impõe uma tal medida, a indignação aumenta e ele é forçado a voltar atrás, e como resultado, ele vem ficando cada vez mais isolado no plano europeu, mais e mais. E agora está também isolado em nível internacional. A sua popularidade foi lá pra baixo. Será bem difícil para ele governar agora. Nesse sentido, considero que os coletes amarelos já venceram, pois fez ceder um governo que se via como Júpiter e que declarava que não cederia.

Inicialmente, você citou o Manif pour tous, que é um perfeito contra-exemplo,  pois o Manif pour tous também reuniu grandes multidões: havia, creio eu, quase um milhão de pessoas, e tudo isso pra quê? Pra nada. Os manifestantes saíram de mãos abanando, o governo não cedeu, pois os manifestantes eram pacíficos e dóceis.

Já o disse muitas vezes: a revolução não será feita pelos bem-educados. Ao mesmo tempo, os coletes amarelos também demonstraram grande maturidade, pois não confundo o seu uso da força com os atos de violência e depredação de saqueadores e bandidos que não tinham nada a ver com eles. Mostraram grande maturidade. Também fui surpreendido pela forma que apresentaram suas reivindicações na TV e rádio, com firmeza exemplar sem sequer parecerem nervosos, sem cair nas armadilhas que os jornalistas usam nas entrevistas. Portanto, mais uma vez, deram um bom exemplo.

Transcrição e revisão: Raphael Mirko

A legitimidade de um governo – três respostas em uma.

Pedro Ribeiro*

Qual é a fonte de legitimidade do poder político? Deus, como queriam Bodin e Bossuet? A tradição, como querem os conservadores? O povo, como queriam Locke e Rousseau?

Na verdade, um tanto dos três.

Deus é a origem da legitimidade do Estado e da política de modo geral, visto ser o autor do mundo, de tudo o que há e da natureza social e política do ser humano, de modo particular. Sem esse fundamento transcendente a política não teria qualquer base sólida e não passaria de mero arranjo social humano, sem regra de justiça que a regule, sem direitos essenciais a respeitar, etc.

A tradição (entendida como o povo no transcorrer e no acúmulo de seu desenvolvimento histórico) é a fonte da legitimidade da forma de governo, visto que Deus não pré-definiu lá das alturas qual será o regime político de cada país (monárquico, aristocrático ou democrático), nem deu esse condão a um ou outro homem específico, mas às nações como um todo, no suceder dos tempos. Não é a letra fria da lei que dá legitimidade à monarquia na Inglaterra e à democracia no Brasil, mas os pactos políticos, implícitos ou explícitos, construídos na tradição de cada pátria.

Por fim, em tempos como os nossos, em que quase todos os países do mundo se estruturam em regimes democráticos, puros ou mistos, é o povo a fonte de legitimidade do governo, isto é, do grupo imediato e concreto que comanda o país, ao delegar a ele o voto. Nunca se esqueça, porém, que mesmo o povo não é uma massa homogênea e indiferenciada: há sempre líderes, caudilhos, chefes, há sempre uma elite (seja econômica, intelectual, religiosa, cultural, etc.) que conduz a massa.

Nem fruto direto da providência de Deus, como queriam os teóricos divino dos reis, nem expressão pura da tradição, como queriam os conservadores e tradicionalistas, nem mero efeito de uma abstata soberania popular, ao sabor dos republicanos, a política é sim uma confusa e complexa sobreposição de camadas, transcendentes e imanentes, históricas e individuais.


*Pedro é mestrando em filosofia pela UFRJ.

Arrocho salarial é crime contra os pobres.

Arthur Rizzi

Os apaniguados do sistema financeiro internacional, isto é, os filhotes de Paulo Guedes no ministério da economia avançaram agora com a proposta de uma emenda constitucional para acabar com o reajuste do salário mínimo com base na inflação. A proposta em teoria visaria gerar uma economia de 37 bilhões de reais nas contas públicas.

A proposta é tão absurda quanto criminosa. Primeiro que, com o congelamento do salário nominal, mantida uma taxa de inflação constante, produzirá no médio prazo um decréscimo substancial do salário real. Com a queda do salário real, se segue como consequência imediata a queda da demanda agregada por conta da falta de poder aquisitivo. Ora, a economia brasileira ainda está carente de demanda, e a falta de consumo é um mecanismo de desestímulo à própria oferta. Portanto, uma queda do salário real vai deprimir ainda mais a demanda tornando a recuperação econômica cada vez mais lenta para não dizer inexistente.

Se o consumo é deprimido ainda mais se seguirá uma queda na arrecadação, pois no Brasil a maior parte da carga tributária se dá sobre o consumo. Portanto, no fim das contas, o governo acabará por não poupar nada. A proposta é em si mesmo absurda coma alegação dada pelos gênios malignos de Paulo Guedes. Mas nada é tão ruim que não possa piorar.

Toda vez que um brasileiro faz uma compra no crediário, paga um boleto, pega um empréstimo, ele paga juros. Sempre que ele paga a fatura do cartão ou faz uso do cheque especial, ele paga juros. No Brasil, se o governo baixar a taxa Selic em 1%, ele poupa o dobro disso em um ano. Mas então, por que não baixar?

Interesses da banqueirada…

A burguesia usurária não permite, simples. Basta pensar, se o salário real cai, mas o juro real não (Selic – Taxa de inflação), isso significa que cada vez que um brasileirinho pobre paga um boleto ele está transferindo parte de sua renda para o setor bancário. O poder de compra que o brasileiro pobre perde é apropriado pelos bancos! Isso aumenta a desigualdade e é a usura elevada ao seu grau mais satânico.

E não há desculpas para não baixar o juros. A taxa de juros mundo a fora está despencando, a União Européia já vê juros negativos e Trump quer que o Federal Reserve  siga o mesmo caminho. Então, mesmo que o Brasil baixe a taxa básica de juros para 5%, com a taxa atual de inflação na faixa dos 3%, o Brasil ainda terá um juro real positivo! Compensará para o especulador deixar o seu dinheiro rendendo juros no Brasil de 1,5% a 2% ao ano do que deixá-lo na Europa onde o juro está negativo ou nos EUA onde a presidência americana faz pressão para que o mesmo ocorra. Se o juro real for igual ou menor que o crescimento do PIB, a trajetória da dívida pública se estabiliza.

Contudo, não custa lembrar, no Brasil a única coisa que nunca tem arrocho é o lucro dos bancos. O seu salário pode ter.

A estupidez bolsonarista na questão amazônica.

Arthur Rizzi*

Começo o artigo com uma pergunta: “Você acha mesmo que Trump nunca sairá do poder? Que os democratas jamais retornarão à presidência dos Estados Unidos?“. Se você acha, você é um idiota.

Essa aliança automática com os Estados Unidos ainda levará o Brasil a ficar de joelhos para algum apaniguado dos Clintons ou para o Bernie Sanders. E a questão é simples: a diferença entre o globalismo (internacionalismo democrata) e o imperialismo republicano é apenas de espécie. Democratas e republicanos querem apenas redfinir, cada uma  seu modo, o papel que os Estados Unidos desempenham na ordem liberal global. Os democratas defendem o modelo instaurado em 1945 com os Estados Unidos dividindo o poder e as decisões de modo colegiado com organismos internacionais como a ONU, a OTAN, o FMI e a União Européia. Do outro lado temos os republicanos, mais nacionalistas que querem que a ordem internacional do “mundo livre” se volte para um arranjo que atenda mais diretamente aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos. Portanto, com Trump (e nisso ele não difere tanto dos seus predecessores republicanos), os Estados Unidos querem redefinir o sistema global de modo devolver o protagonismo ao seu país nas decisões internacionais, mesmo que às custas de humilhar a Europa Ocidental seus parceiros históricos.

Ou vocês acham mesmo que a briga EUA vs. UE em que Bolsonaro se meteu é realmente uma briga real?

É particularmente estúpido acreditar, como bolsonaristas fazem crer, que a Europa de Macron representa o “globalismo” e os Estados Unidos o “anti-globalismo”. Se a Rússia invadisse a Europa Ocidental imediatamente os Estados Unidos declararia guerra a Rússia, pois a União Européia é um domínio importante do poder imperial americano, e os europeus sabem que o único aliado com quem podem certamente contar são os americanos.

Portanto, o que está acontecendo na questão amazônica é que o Brasil é globalista e apoia o globalismo, contanto que ele seja conduzido pelos Estados Unidos única e exclusivamente, atendendo aos interesses americanos. Ou seja, as ONGs e empresas européias “explorarem” o subsolo amazônico é globalismo. As ONGs e empresas americanas não são. É tão simplista e ridículo que nem vale a pena comentar mais a fundo sobre isso.

Agora, para concluir, pergunto aos gênios: Quando os democratas voltarem ao poder e fizerem as pazes com “os globalistas europeus”, o que vocês acham que vai acontecer? Respondo-lhes, as empresas e ONGs norte-americanas que na expectativa de lucrar no Brasil, bajularam o trumpismo através de lobby com os republicanos, não mais que suddenly virarão a casaca para os democratas e passarão a atender os interesses deles única e exclusivamente, para continuarem sugando as riquezas do Brasil sem perder as tetas e as mamatas do Estado americano, tais como a bufunfa de de senadores próximos a lobbystas e do Eximbank.

E ainda tem idiota para achar esse governo patriota, nacionalista ou fascista. É o mau e velho udenismo requentado como seu americanismo histórico como força-motriz.

A desmoralização institucional do bolsonarismo.

Arthur Rizzi*

Durante os anos do governo PTista, ocorreram inúmeras tentativas de aparelhamento institucional e de desmoralização das instituições. Essas tentativas lograram pouco êxito por uma soma de fatores, que vão de uma oposição midiática tímida vindo de certos setores do jornalismo mais pró-mercado, até a incompetência e/ou incoerência do próprio governo.

Ao longo de 13 anos, o PT oscilou entre tornar-se o queridinho dos mercados e tornar-se um partido bolivariano. O governo Lula foi um pouco disso, ao mesmo tempo em que se adotava uma política econômica ortodoxa e liberal, fazendo uma espécie de acordo de classe entre a burguesia usurária internacional e os sindicatos, o lulismo era anti-liberal numa tentativa de converter as instituições brasileiras num simulacro do chavismo com o PNDH-III.

Ao mesmo tempo em que tentava a regulação da mídia, o PT concedia autonomia a Polícia Federal e ao Ministério Público, bem como dava aval às delações premiadas via STF e seus ministros apaniguados, o mesmo mecanismo que o destronaria. Nem a prosperidade econômica da era Lula e sua enorme popularidade foram de grande ajuda.

Quando a crise explodiu com Dilma e com a memória do último impeachment distante (inclusive tendo tido um resultado bom, o Plano Real), foi fácil para a classe política acreditar que removendo uma presidente confusa e isolada, que a história se repetiria.

Hoje a situação é diferente. O impeachment abriu espaço para o “conservadorismo” americanista de Bolsonaro e aliados, e a crise política e econômica que perdurou por todo o governo Temer deixou a lição ao congresso que o bom resultado do impeachment de Collor fora um fato isolado e meramente acidental. Como previsto, a crise política continuou e culminou na eleição de Bolsonaro.

Temeroso agora de um novo impeachment, que poderia por em xeque a legitimidade da classe política e das instituições, bem como também temendo o resultado de um novo impeachment com um prolongamento da crise (como um possível retorno de um petismo sedento por vingança), o congresso se vê apertado entre um governo retardado preocupado mais com os interesses dos Estados Unidos do que com os nossos (além de envolto em trapalhadas) e um possível retorno do PT.

O resultado é que cada humilhação de ministro, cada ofensa ao decoro e cada destrato pessoal para cada personalidade importante da república, bem como o nepotismo e personalização crescente do poder político, passam a ser tolerados e engolidos a seco, com o temor de uma piora da crise econômica e política. A derrota de Macri nas primarias instaurou o caos na Argentina, o câmbio disparou, o juros também, a inflação voltou a decolar. Como resultado, isso virou sinal de reforço para as instituições de que o temor da queda do “Mito” poderia trazer o caos e o PT de volta.

Graças ao patrocínio do mercado e do jornalismo a Guedes e Moro, e ao temor do congresso, as instituições estão sendo desmoralizadas a um nível jamais visto.

União Européia, China e barganha empresarial.

No nosso primeiro texto sobre o acordo com a União Européia envolvendo o Mercosul, apontamos as razões geopolíticas para que tal acordo fosse fechado, e cada vez mais claro fica que as razões para o acordo ter sido feito a toque de caixa é basicamente afastar o Brasil e os países do Mercosul da China.

O segundo maior mercado para o qual o Brasil exporta é a União Européia, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos. Que o o olavo-bolsonarismo quer afastar-se da China a todo e qualquer custo é já sabido, e desde o excelente texto do nosso colaborador Ricardo Carvalho isto está denunciado. O Brasil exportou quase 100 bilhões para a China em 2018, mais que o dobro da União Européia, dados do Ministério da Economia que podem ser baixados aqui. Porém, notícias dão conta de que o acordo com a União Européia pode fazer o Brasil exportar até 125 bilhões para a mesma em até 15 anos. 25% mais que para a China hoje.

Ao que tudo indica, este foi o meio que Ernesto Araújo conseguiu (como bom liberal-americanista que é), de cumprir sua agenda anti-nacional, oferecendo o mercado Europeu ao nosso setor produtivo, de modo a tornar indolor para a população e para nosso setor primário a entrada na guerra comercial americana contra a China. Em outras palavras, ao invés de termos UE + China, teremos basicamente UE – China. É uma hipótese, é claro. E é também estupidez. Mas para quem é um fanático americanista como Olavo, Araújo e seu séquito de bobalhões, me parece uma aposta válida.


 

O globalismo mais perto da direita: Acordo Mercosul-União Européia.

Arthur Rizzi*

O acordo com a União Europeia é até agora o primeiro e único acerto do ponto de vista econômico do Macumbeiro do Itamaraty, Ernesto Araújo. Seu significado geopolítico, entretanto, é o mais importante: Adesão a OCDE e o abandono do status de país em desenvolvimento da OMC + Juntar-se aos EUA na guerra econômica contra a China + Acordo Mercosul-UE significam o sepultamento total do BRICs para nós, que agora se torna RICs. Ao menos no que tange ao Brasil, e isto quer dizer que integramos totalmente a zona de influência dos Estados Unidos.

Do ponto de vista estritamente econômico, não há nenhuma razão para dar as costas aos BRICs e sair da condição de país em desenvolvimento na OMC. As razões são todas geopolíticas: Os BRICs de um ponto de vista econômico resume-se cada vez mais a China que dividia esse posto com o Brasil, e de um ponto de vista militar é a junção da Rússia, da China e da Índia.

A OMC é um reduto onde a China tem muita influência. Por isso Trump quer tirar o Brasil dela e enfurnar na OCDE onde eles delimitam regras econômicas para os membros mais fracos seguirem (mas que por alguma razão misteriosa eles não seguem… Curioso, não?) Ao enfraquecer o BRICs economicamente tirando o Brasil (8ª economia do mundo, a mais importante depois da China), enfraquece-se assim o projeto Russo de um Banco dos BRICs, alternativo ao FMI – Fundo Monetário Internacional.

Não é curioso que a direita antiglobalista mais uma vez ajudou os globalistas? O FMI sempre fora apontado como um órgão do globalismo, um de seus braços econômicos e, ora, vejam só: É um braço da guerra híbrida dos Estados Unidos. Lembram-se?

O que a nossa secular tradição diplomática, seguindo o legado do Barão do Rio Branco, faria? Provavelmente manter os BRICs, entrar na OCDE e ficar na OMC. Seria a junção do melhor dos mundos. Ainda que não fosse possível, certamente se esforçaria para consegui-lo. E, não conseguindo, optaria pela saída conservadora, que é preferir o conhecido ao desconhecido. O ponto é que em momento algum nossa diplomacia tentou isso. Mas aqui, com o ministro Araújo, infelizmente, não estamos no reduto de nossa tradição diplomática mais.

O acordo entre o Mercosul e a União Européia vinha em banho-maria há 20 anos, e surpreendeu a todos ser resolvido tão rápido na data de hoje. Ora, quando um acordo sai rápido demais depois de um longo período de negociação é sempre preocupante. Nós górdios muito longevos não costumam ser resolvidos assim a golpe de canetada e frase feita. O acordo estava se arrastando a anos pois os europeus sempre pediam algo que os governos anteriores não queriam dar. Resta saber se:

  • a) A conveniência geopolítica de enfraquecer os BRICs sacando o Brasil dele falou mais alto levando os europeus a baixarem exigências. O que eu particularmente duvido muito. A briga Trump-União Européia é em grande parte “prosopopeia flácida” e miudezas. Na hora das crises os americanos sabem que só podem contar com os europeus e os europeus com os americanos. As brigas entre ambos é muito mais sobre o “como” organizar a ordem liberal conduzida pelos Estados Unidos e neutralizar a China, em que Trump exige um papel maior para os Estados Unidos do que qualquer outra coisa, neste caso, oposta ao Trump, a União Européia é o pulmão do internacionalismo cosmopolita hoje.
  • b) Se diferente dos governos anteriores este ofereceu aquilo que os anteriores não queriam dar. Enquanto isso não fica claro, observemos a big picture:

Com o Brasil abrindo mão do status de país em desenvolvimento na OMC e entrando na OCDE (o que não deve tardar muito), não poderemos adotar medidas heterodoxas ou criativas, como as que Trump vem tomando com seu protecionismo, por exemplo (Mas quem tem colhões para cobrar algo dos EUA?).

Sendo obrigados a adotar apenas medidas ortodoxas, tendo a temer os efeitos sobre a indústria brasileira, agora que o BNDES está sendo desmontado. Os industriais brasileiros estão animados com a queda das barreiras tarifárias para entrar na Europa; mas estão vendo apenas metade do quadro. Não estranharia se em breve eles não começassem a murmurar e a reclamar do acordo. Se os resultados nesse caso, forem ruins, teremos bem pouca margem de defesa econômica graças a entrada na OCDE.

Para o Mercosul, um produto é considerado do bloco se tem 60% de seus componentes fabricados dentro do bloco. Para a União Europeia apenas 30%. Ou seja, um produto feito 70% recursos americanos mas com 30% de peças alemãs pode entrar com os benefícios do acordo no nosso mercado. Isso é no mínimo digno de atenção para que ninguém extra bloco europeu goze das vantagens do acordo.

Com as hostilidades com a China e o afastamento dos BRICs, os chineses devem se voltar para Angola e Moçambique, onde eles têm empreendimentos agrícolas que podem no longo prazo eliminar a necessidade do nosso agronegócio. E eles já começam a olhar para outros países da África como possíveis alternativas às nossas commoditties.

Em resumo, O acordo Mercosul-União Européia é bom e pode ajudar a economia brasileira a crescer até 2% no cenário mais otimista para 2020-2021. Preocupam-me, ainda, em resumo os seguintes tópicos:

a) Os termos do acordo ainda obscuros quanto aos seus efeitos.
b) O quadro geral em que esse acordo se insere.

Mais perto do globalismo:

Não tardou para que os notáveis do olavo-bolsonarismo começassem a louvar o acordo com a União Européia. Os mesmos próceres que não menos de alguns meses atrás a reputavam como “a ponta de lança do globalismo”, como é o caso do olavista Leandro Ruschel:

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Fonte: Twitter

Como a direita americanista poderá seguir apoiando movimentos direitistas euroscépticos que querem demolir a União Europeia, apoiar o Brexit e, simultaneamente, torcer para o acordo de livre-mercado com a UE prosperar e salvar o governo Bolsonaro da recessão? De que vale uma União Européia sem Alemanha, Inglaterra, França e Itália? Como os mesmos que esbravejavam contra o Acordo de Paris e as demarcações de reservas indígenas poderão continuar a gritaria se o acordo obriga o Brasil a continuar membro dessas pautas? Mistério.

Um passo mais dado em direção a se tornarem neoconservadores (à americana), e isso significa um passo mais em direção ao globalismo. Esperem só até descobrir que a OCDE é uma das maiores promotoras da agenda LGBT.


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