Robert Murphy: Erros bizarros de austríacos radicais – Parte 2

Texto originalmente publicado em Social Democracy in 21st Century, porém traduzido e ampliado por Reação Nacional.

Primeiro, antes de eu chegar ao ponto principal, Huerta de Soto está inteiramente errado ao colocar as “depressões secundárias” apenas na conta da intervenção do governo e “poder sindical”. Wilhelm Röpke, um dos teóricos da depressão secundária de quem já tratamos aqui no Reação Nacional, não colocava só na intervenção do Estado e sindicatos a causa das depressões, ele dizia que qualquer queda de juro que gerasse investimentos como consequência poderia, sob certas condições, gerar uma crise secundária. Di-lo Marcelo Resico:

“En la opinión de Röpke el caso de la teoría de Hayek es en cierta medida un caso opuesto por el vértice con respecto a Keynes. Según Röpke el núcleo central de de esta concepción reside en que cualquier aumento en la inversión financiado por ahorro voluntario no altera la estructura de producción, mientras que el ahorro forzado la precipita y con ello la necesidad de reajuste. La teoría está montada entonces en la teoría del capital austriaca, especialmente la de Strigl, que Röpke considera que requiere revisión. De este modo para Hayek sólo habría problema con la inversión si esta se financia con ahorro forzado, mientras que Röpke sostiene que la causa es la sobre-inversión, de la cual la generada por ahorro forzado es un caso especial”.

Em outras palavras, trata-se de um caso específico apenas, não se trata de uma teoria geral para Röpke. E o próprio Röpke recomenda intervenção do Estado em crises secundárias, de acordo com o professor Adriano Rávier:

“Se trata de una depresión que se retroalimenta por sí misma, y que lleva consigo una destrucción de capital innecesaria, y que es imperioso detener. Ante esta situación es que Röpke sugiere aplicar políticas expansionistas, tanto monetarias como fiscales, como hoy sugieren los keynesianos. Explica Röpke que la expansión monetaria puede no tener la fuerza suficiente para detener la depresión secundaria, y por ello, debe ir acompañada de políticas fiscales que aseguren que habrá una mayor demanda de los créditos que la política de dinero fácil introduzca en el mercado”.

Então,  teria este homem ouvido falar de  deflação por dívida/debt deflation e expectativas subjetivas afetando a perspectiva dos capitalistas? Num setor privado altamente endividado, cortar salários é tão desastroso quanto aumentar a dívida, o que levaria a falência devedores e credores. E, em todo caso, os mercados carecem de mecanismos precisos de equilíbrio tão amados por neoclássicos e austríacos, pelas razões seguintes:

(1) a propriedade essencial de todos os ativos líquidos (sendo o dinheiro o mais líquido dos ativos) é que há elasticidade zero ou próxima de zero destes ativos em relação a mercadorias produzíveis. Isso significa que o axioma da substituição bruta é falso e qualquer ato de gastar em ativos líquidos fazendo seu preço subir (pump and dump) não necessariamente induz efeitos de substituição levando a mais demanda por mercadorias produzíveis mais baratas.

(2) é improvável que todos os mercados tenham preços de equilíbrio (e ainda menos provável que a política de preços das empresas estariam dispostas a ajustar os preços rapidamente e de qualquer maneira, caso existam). A própria noção de uma economia com a tendencia ao equilíbrio geral, onde todos os produtos de mercado convergem para preços que limpam o mercado, depende de pressupostos irreais, tais como preços flexíveis e curvas de demanda e oferta se comportando com efeitos de substituição na ausência de efeitos de renda;

(3) Com expectativas subjetivas e incerteza, é improvável que pessoas com expectativas de negócios frustrados mudarão seu comportamento de repente para induzir o nível necessário de investimento numa recessão ou depressão severa;

(4) Não há garantias que a maior parte ou toda a poupança investida se converterá em investimento (mesmos e você presumir a maior sorte do mundo) ou que a lei de Say exista, o que é uma fantasia;

(5) Não existe uma taxa natural de juros para equilibrar poupança e investimento (e o próprio Murphy reconhece isso!);

(6) Como Keynes mesmo argumentou, inflexibilidade de preços e salários não é A  RAZÃO pela qual a teoria neoclássica falha: mesmo se nós tivéssemos total felixbilidade de preços e salários, não haveria garantia de investimentos necessários.

Mas ao retornar ao meu ponto aqui, os grandes nomes da escola austríaca que abordam o sasunto, mesmo os liquidacionistas, reconhecem que política fiscal e monetária funcionam. Menos o Murphy.
Curiosamente, Ludwig Lachmann foi até mais além de Jesús Huerta de Soto e viu a política fiscal como algo realmente eficiente e bom!

“Na situação britânica de 1932, Hayek e seus amigos rejeitaram as propostas de Keynes e alguns economistas britânicos não-keynesianos – que no início da depressão o governo deveria tomar algumas medidas, e continuar. Hayek entendeu que foi uma posição errada. Quero dizer, Eua credito que os asutríacos hoje não rejeitariam todas as medidas para aliviar o desemprego e aumentar o emprego, em uma situação virtualmente não escaça. E a esse respeito acho que os austríacos aprenderam.”

Bem, não o Murphy.

BIBLIOGRAFIA

SOTO, Jesús Huerta de. Money, Bank Credit and Economic Cycles. (trans. M. A. Stroup), Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala, 2012.

RESICO, Marcelo. La estructura de una economia humana: reflexiones en cuanto a la actualidade de Wilhelm Röpke. Buenos Aires: UCA, 2009.

RAVIER, Adrián. Comentario al trabajo de Marcelo F. Resico: “La Teoría del Ciclo Económico de W. Röpke”. Madrid: Universidad Rey Juan Carlos de Madrid, s.d.

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Robert Murphy: Erros bizarros de austríacos radicais – Parte 1

Texto traduzido do site Social Democracy in 21st century.

O economista austríaco-misesiano Robert Murphy em artigo diz que não está claro se “devemos creditar ao QE1 de Obama” a recuperação da economia americana em 2009. Esta posição é um reflexo das ideias mais radicais dos austríacos: e essa ideia é a de que política fiscal expansiva não tem efeito sobre agregados macroeconômicos relevantes tais como consumo, investimento e emprego.

Isto é particularmente curioso e casuísta pois, outros austríacos nunca negaram que política fiscal e monetária podem aumentar emprego e renda. Um exemplo é esta citação de Huerta de Soto (que é ao seu modo um Rothbardiano):

“Sob certas condições, a intervenção governamental e de sindicatos, em mercados institucionalmente rígidos, podem prevenir reajustes necessários que precedem qualquer recuperação econômica. Se salários são inflexíveis, as condições de contratação são muito rígidas, sindicatos e governos sucumbem a tentação do protecionismo, então, o desemprego alto pode ser mantido indefinidamente, sem qualquer ajuste às novas condições dos fatores de produção. […]

Daqui De Soto prossegue com o típico argumento austríaco acerca da TACE, contudo, a seguir:

“O que deveria ser feito, sob certas circunstâncias, quando é politicamente impossível fazer os mercados totalmente flexíveis, abandonando assim o protecionismo em favor das condições básicas de reajuste? Esta é uma intrigante questão de política econômica, e sua resposta depende de uma correta avaliação de cada caso concreto. Embora a teoria sugira que qualquer política que consista de um artificial aumento no consume, em gasto público e na expansão do crédito é contraproducente, ninguém nega que, no curto prazo, é possível absorver QUALQUER VOLUME DE DESEMPREGO simplesmente elevando o gasto público ou expandindo o crédito, embora ao custo de interromper o processo de reajuste e poder agravar no futuro a recessão”.

O próprio Hayek admitiu que, sob certas circunstâncias, a situação pode se tornar tão desesperadora que politicamente a única opção restante seria uma nova intervenção, que é dar bebida ao homem com ressaca. Em 1939 Hayek disse:

Nunca foi negado que o emprego pode ser rapidamente aumentado, e uma posição de pleno emprego alcançada no curto prazo através de expansão monetária…  […] Que tipo de expansão monetária seria menos perturbadora do ponto de vista econômico? Neste caso a política com efeitos menos danosos, embora ainda danosa, seria a adoção de um programa de obras públicas que empregaria os desempregados a um custo salarial relativamente baixo” (Hayek apud Huerta de Soto 2012: 452–456).

Isso vai até contra os economistas mais mainstream, alguns até considerados novos keynesianos como Nicholas Gregory Mankiw que geralmente admitem política monetária, mas não política fiscal.

BIBLIOGRAFIA:

Huerta de Soto, J. 2012. Money, Bank Credit and Economic Cycles(3rd edn.; trans. M. A. Stroup), Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala.