Sobre inflação e dinheiro – História econômica e Tradição

Arthur Rizzi

Um dos medos mais generalizados por parte dos católicos vitimados pela ilusão liberal é a inflação. É um medo justo, especialmente num país como o nosso em que passamos por uma hiperinflação que em muito empobreceu as pessoas. Porém, desde o plano real, as informações que amealhamos com o passar do tempo sobre a inflação nos levou a uma nova percepção da mesma. O princípio metalista sob o qual se assenta o monetarismo, de que a inflação é em todo caso, tempo e lugar um fenômeno monetário, já se encontra completamente refutado não só pelos argumentos em contrário, mas pelos fatos. O aumento oferta de moeda só é inflacionário por si só num cenário em que a moeda é lastreada. Sem isso, por si só a expansão da base monetária não é inflacionária. Antes de me aprofundar mais no assunto, vou tecer alguns comentários sobre como isso pode ser interpretado pela Escola Austríaca, refutando de antemão algumas más concepções de inflação.

Nossos colegas da Escola Austríaca tinham um universo de certezas no qual inflação de base monetária resulta sempre em inflação após a moeda sem lastro passar por todo o sistema financeiro inflando ativos e causando bolhas. Mas de uns tempos para cá o discurso de que aumento de preços é apenas o sintoma do aumento da oferta monetária evoluiu para algo mais maluco. A ideia de que pode haver inflação com preços estáveis e até declinantes, pois inflação é única e exclusivamente aumento de base monetária.

É claro que essa distinção radical destrói completamente a noção de inflação, e um bom exemplo dela pode ser visto no texto de Thorsten Polleit, “There will be (hyper)inflation” que pode ser encontrado no Mises Institute dos Estados Unidos. A ideia é que, mesmo que um pedaço de bife continue custando exatamente o que custava 10 anos atrás, o fato puro e simples do Fed ter aumentado seu balanço em 400%, já constitui per se inflação, e no caso, hiperinflação.

Mas qual o fundamento dessa interpretação radicalizada? A ideia segundo a qual, cada dólar novo “impresso” pelo Fed reduz a utilidade marginal dos dólares já existentes. Em outras palavras, pela lei da utilidade marginal decrescente, cada dólar novo adicional reduz o valor de outro dólar na economia, assim como cada copo d’água extra reduz a utilidade de outro copo d’água para alguém no deserto com sede.

O problema desse argumento é bem óbvio para mim. Como tal proposição se baseia na lei da utilidade marginal decrescente, é evidente que ela se fundamenta num tipo de valor-utilidade. Dessa forma, como a utilidade de algo é algo pessoal e subjetivo, não pode ser algo que é possível de se objetivar tão facilmente. E, especialmente se levarmos em consideração de que a Escola Austríaca trabalha com utilidade ordinal, essa utilidade não é quantificável a nível de indivíduo.

Como resolver esse dilema lógico? Ora, o próprio F.A. von Hayek ensina, o sistema de preços é o mecanismo pelo qual os desejos e preferências individuais são objetivados. Logo cada preferência subjetiva empurra o ponteiro do sistema de preços para cima ou para baixo. Se Hayek estiver certo nisso (e eu creio que está), logo fica evidente para nós que essa perda de valor unitário de cada dólar extra deve ser também objetivado no sistema de preços.

Em palavras ainda mais simples: A emissão de moeda deve sempre aparecer como inflacionária no sistema de preços, caso contrário, não é possível afirmar com certeza de que ocorreu uma depreciação marginal da utilidade de cada dólar ou real novo. Logo, se o governo amplia a base em 1000% e, porém os preços continuam estáveis ou aumentam muito pouco, a hipótese mais simples (navalha de Occam) é a de que não houve inflação apesar da inflação da base monetária. Pois doutra forma, não seria possível dizer que houve uma queda do valor unitário de cada moeda. É claro que pode haver outros fenômenos reais que podem influir no marcador de preços mas, se ceteris paribus o aumento da base não gerar inflação de preços, logo não há inflação ainda que haja aumento de base monetária.

E há uma boa razão para se crer que pode haver esse cenário. A ideia de que o custo unitário de cada dólar ou real cai se assenta no pressuposto de que a demanda por moeda é constante ou decrescente. As evidências empíricas das crises de 2008 e agora da coronacrise sugerem que a demanda por moeda é crescente com a expansão da base., pois devido a incerteza, os agente buscam a maior liquidez possível (motivos precaução e especulação).

Como coloca André Lara Resende (2019, p.68), economista cabeça do Plano Real: “A inflação não é resultado do excesso de moeda, mas do excesso de demanda agregada ou das expectativas de inflação”. Ou a inflação é de demanda, ou é de custos (por choques cambiais e de oferta) ou é indexada por causada pela desancoragem das expectativas de inflação.

Como a moeda hoje é fiduciária, isso significa que ela não tem nenhum lastro, exceto aquilo que ela pode comprar e que o governo garante em termos de poder de compra. Ou para ser ainda mais cru no dizer: O lastro da moeda é a confiança que os agentes econômicos têm de que o governo emissor conseguirá honrar seus contratos e pagamentos e manter o valor da moeda sob controle.

Como André Lara Resende explica também em “Consenso e contrasenso”, governo tem apenas dois limites a emissão de moeda:

  • O limite físico do sistema produtivo: isto é, a capacidade instalada da economia. Se o governo emitir moeda a ponto de empurrar a economia para além do limite da sua capacidade de produzir ele acabará por causar inflação. Neste caso, inflação de demanda. Mas ainda há um risco a ser considerado nesse mesmo caso: o tamanho das reservas internacionais.
  • No caso do governo estimular o sistema produtivo além da sua capacidade de produzir, outra coisa que pode ocorrer é uma crise da balança de pagamentos, pois tudo o que é consumido além da capacidade produtiva da economia é, por definição, importado. Ou seja, o segundo limite é o estoque que o país tem em moeda estrangeira.

E por que esses são os limites? Pois tudo aquilo que o país deve em sua própria moeda, ele sempre pode pagar. Ou seja, uma dívida em moeda soberana própria NUNCA SOFRE CALOTE. Isso pode parecer revolucionário mas não é. O governo em sua própria moeda pode se endividar para pagar dívidas velhas (rolagem da dívida) ou simplesmente monetizar sua dívida. Como? Emitindo moeda nova, que é como os governos dos países afetados pela crise de 2008 e, agora pela coronacrise vem se financiando. E como visto pelos IPCs[1] de vários países, a maioria deles, mesmo tendo ampliado quatro, cinco, seis e até dez vezes sua base monetária, não tiveram inflação. No período de 2008 a 2018 muitos deles esbarraram com a deflação inclusive!

No primeiro caso elencado acima, a razão é óbvia. Como o Real (R$) é a moeda de curso forçado local, tudo o que o governo e as pessoas vendem e compram é denominado nela, e nela o governo é sempre solvente. Mas no segundo caso elencado acima, está a situação das moedas estrangeiras e como o governo brasileiro não pode emitir essas moedas, ele pode ficar insolvente nelas e é isso que causa a quebra de um país.

1 – Um mundo sem dinheiro.

Esse é o princípio cartalista, segundo o qual a moeda não é um produto voluntário dos mercados, mas uma criação do direito e de uma autoridade pública. Esta opinião é velha e os primeiros registros históricos de moeda aparecem a 4000 anos como registros de conta e débito para com uma autoridade pública, o que significa que muito provavelmente, aquela historinha do Robinson Crusoé e do Sexta-feira como analogia para uma época de vigência do escambo, com trocas in natura,  como principal meio de alocação de recursos escassos de onde alguém teve uma ideia de cunhar moeda, muito provavelmente é só isso mesmo, uma historinha. Nunca existiu. Alguns bons trabalhos sobre a origem da moeda isso podem ser encontrados em Resende (2020) e Wray (2014, 2015), mas mesmo partindo de premissas metalistas, dados importantes podem ser vistos em Ferguson (2009), Brasseul (2010) e Versignassi (2011). Nas comunidades pré-modernas conhecidas, sabe-se que muitas delas não tinham moeda e quando passaram a ter, foi através de um sistema de débito com uma autoridade pública.

Numa sociedade de caçadores já sedentários, muitas vezes, quando a caça não era suficiente para todos, ao invés de cada um ficar com o que caçou, havia um tipo de divisão social liderada por um xamã ou por um líder militar, ou até mesmo, um ancião, em comunidades mais gerontocráticas. Tal sistema, chamado de sistema redistributivo (Martins, 2001) é muito comum a sociedades total ou parcialmente desmonetizadas. O produto da caça era apresentado a esse líder, e ele distribuía conforme os méritos. Algumas vezes, costumava ocorrer de algum membro muito valioso da tribo estar doente ou ferido e não poder contribuir com a caça. Nesse caso a figura de autoridade tomava parte do que tem mais e dava para esse membro. Em contrapartida, esse líder contraía um débito para com quem foi aparentemente prejudicado pelo processo, de que a parte subtraída seria paga mais tarde.

No Império Inca – o tawantinsuio -, um processo muito parecido ocorria. A pessoa prejudicada recebia uma concha colorida como símbolo do débito que depois seria pago. Em muitas ocasiões, essas conchas ganhavam certa liquidez, e passavam a ser dadas como pagamento. E assim, a dívida que aquela autoridade tinha com uma pessoa, passava para uma nova. Ressalta ainda a arqueóloga Cristiana Martins (2001, p.3):

“o dinheiro primitivo”, representados no antigo Peru, pelos objetos estudados aqui, não tinha um caráter exclusivamente econômico, ou seja, desempenhava um papel e possuía um significado muito importante em outras esferas da sociedade, como por exemplo, na esfera religiosa.

Ou seja, mesmo o dinheiro dito primitivo dos Incas era reconhecido por uma autoridade pública, neste caso de caráter religioso, essas conchas eram do tipo Spondyllus princeps e Spondylus gelleatus, eram chamados de chaquira ou mullu, e cumpriam função sacerdotal, mas também monetária em algumas regiões em troca de trabalho, chamado na lígua Inca (o quéchua) de mita. Usava-se também a pimenta ají, como meio de pagamento por trabalho e até folhas de coca.

A sociedade Inca usava esses recursos apenas esporadicamente e para transações mais longínquas. Para transações menores entre vizinhos, o sistema era baseado na reciprocidade, ou no favor. Isto é, alguém lhe concedia um benefício e, neste exato momento você passava a ter um débito para com aquela pessoa. Em algum momento isso pode ter gerado comprovantes de débito que poderiam ser reclamados perante uma autoridade pública para fazer valer o direito a receber de um credor. Na medida em que isso acontece, o próximo passo é, geralmente, que o item usado para notação ganhe liquidez.

O economista neoclássico N. Gregory Mankiw (1998, p.114), por sua vez também traz um relato interessante das ilhas Yap, no Pacífico, onde anilhas de pedra chamadas fei eram usadas como moeda, contudo como eram pesadas, e de difícil transferência, aos poucos a concessão meramente verbal da propriedade sobre a fei passou a ser aceito como meio de troca, caracterizando assim a passagem da moeda mercadoria à moeda fiduciária sem nem mesmo o novo dinheiro ter existência física, mas meramente verbal:

“A prática foi testada quando uma pedra valiosa foi atirada no mar durante um temporal. Como o proprietário perdeu a moeda por acidente e não por negligência, todos concordaram que o direito sobre a fei permanecia válido. Após várias gerações, quando ninguém vivo se recordava de ter visto a pedra, o direito a essa fei ainda era aceito nas transações”.

É importante citar casos fora do contexto europeu, justamente para mostrar que não se trata de um fenômeno puramente cultural. Aparentemente, as condições sociais e a razão humana percebe a realidade econômica de modo muito semelhante, de tal forma que o mesmo processo pode ser visto tanto na China, como na Mesopotâmia.

Estudos antropológicos indicam que os templos e palácios da Mesopotâmia, assim como os no Egito elaboraram sistemas internos de contabilidade, de débitos e crédito, que serviam como base de uma unidade de conta e de reserva de valor. Há sólidas razões para crer que na maior parte da história da humanidade a moeda não tenha tido existência física. (RESENDE, 2020, p.111)

Ferguson (2009, p.31) concorda:

De fato não existe qualquer razão histórica que justifique o fato de o dinheiro ter sido durante tanto tempo equacionado na mente do ocidente com o metal. Na antiga Mesopotâmia, começando a cerca de cinco mil anos, as pessoas usavam fichas de argila para registrar transações que envolvessem produtos agrícolas, como a cevada ou a lã, ou metais como a prata. […] Uma “ficha” especialmente bem preservada, da cidade de Sippar (Atualmente Tell Abu Habbah, no Iraque), data do reinado de Ammi-ditana (1683-1647 a.C), e declara que seu portador deve receber uma quantia específica de cevada na época da colheita.

Outro caso curioso que Ferguson (2009, p.28) nos traz é o da China:

Foi somente em 221 a.C. que a moeda padronizada de Bronze foi introduzida na China pelo “primeiro imperador”, Qin Shihuangdi. Em todos os casos moedas feitas de metal precioso eram associadas a soberanos poderosos que monopolizavam a cunhagem do dinheiro, em parte para utilizá-lo como fonte de receita.

Ao longo da história, esse mesmo processo em que a moeda começa com autoridade pública à ganha liquidez (vira meio de pagamento) pode ser visto no surgimento de outros ativos financeiros, não só no mundo antigo e nas mais variadas culturas, mas até na própria modernidade, como os títulos públicos e as ações privadas, que tiveram origens muito parecidas, como os tallies ingleses, as prestanze de Veneza, ou mesmo as ações da VOC holandesa que podiam ser dadas em pagamento por obrigações (Ferguson, 2009). Primeiro surge um débito, um compromisso de pagamento com alguma autoridade pública (moral, política ou religiosa), e, depois, esse débito simbolizado em algum material, ganhava liquidez e servia de meio de troca. Isso significa que o dinheiro surgiu primeiramente como um instrumento de justiça distributiva e não como uma mercadoria para mera conveniência de troca. E, como vemos, o metal era na maioria dos casos uma das muitas mercadorias que a moeda comprava e não a moeda em si, que era um conceito abstrato de crédito e débito que poderia ser registrado em qualquer material.

Isso pode parecer contra intuitivo, mas o escambo sempre foi ocasional e minoritário justamente pelo próprio problema da dupla coincidência. Ou seja, esse era um problema tão grande que o dinheiro não foi “o invento” para contorna-lo, mas sim que o próprio sistema redistributivo de divisão social, de reciprocidade e o trabalho coercitivo e com contração de débitos, como as acima explicadas, foram as primeiras formas de contorná-lo, tendo o dinheiro, por fim, como desenvolvimento posterior. E como podemos ver, nem sempre o ouro foi tratado como moeda, e nem mesmo metal. Em muitos casos eram algumas mercadorias menos perecíveis, em alguns casos pedras lascadas, ou tabuletas de barro, ou conchas, enfim: muita coisa já foi moeda antes do metal. E as primeiras moedas de metal representavam quantidades pesáveis, por isso ainda hoje muitas moedas tem nomes de unidades de medida, como a libra (pound), o dólar, ou o shekel (siclo); só depois, por volta do século VII antes de Cristo, na região da Lídia (Grécia), que as moedas cunhadas começaram a surgir como uma unidade de conta mais abstrata. Isso é tão verdadeiro que desde Platão, o nominalismo monetário[2], fundamento do cartalismo, já era defendido. Aristóteles, no Livro V da Ética Nicômaco, 1133ª, versos 25 a 30 diz:

Ora, na verdade essa unidade é a procura, que mantém unidas todas as coisas (pois se os homens não necessitarem dos bens uns dos outros, ou não necessitassem deles igualmente, não haveria troca, ou pelo menos não a mesma espécie de troca); mas o dinheiro tornou-se por convenção, uma espécie de representante da procura, e se chama dinheiro (nomisma) porque existe, não por natureza, mas por lei (nomos), e está em nosso poder muda-lo e torna-lo sem valor. (ARISTÓTELES, 2001, p.105)

Não apenas os gregos, mas os próprios romanos viveram e trataram a moeda dessa forma. Com a queda do Império Romano, ocorreu um lento e gradual colapso da vida econômica na Europa, como narra Brasseul (2010, p.52):

Na sequência das invasões bárbaras e do desaparecimento da ordem imperial, os homens isolam-se em torno de grandes explorações rurais independentes, vivendo em circuito fechado. As trocas reduzem-se a permuta, pois a moeda desparece pouco-a-pouco. A especialização regride com o declínio do comércio e as cidades ficam vazias: o regresso geral a terra é necessário para assegurar a sobrevivência.

Somente a partir dos séculos VII e VIII a moeda volta a circular, emitida por reinos cristãos bárbaros.  E esse é mais um ponto contra a teoria, geralmente aceita da moeda como criação espontânea dos mercados, como nos conta Resende (2020, p.34):

A crer na moeda como uma criação da necessidade dos mercados, essas seriam as condições ideais para o surgimento espontâneo de uma moeda local, mas não foi o que ocorreu. Sem uma autoridade central capaz de estabelecer uma unidade de conta para registro de transações, o comércio declinou, toda a demanda desapareceu e não há evidência de atividades mercantis até o fim do século VII.

Apesar da origem essencialmente nominalista, as condições políticas da idade média mudam um pouco o paradigma monetário. Na antiguidade havia o Estado Romano, autoridade única e definitiva sobre todo e qualquer critério de justiça e valor. A partir da queda do Império Romano, ocorre um colapso administrativo, de modo que o que sucedeu a isso foram reinos soberanos distintos e, por vezes, rivais. Por conta da ausência de parâmetros comuns de valor e legitimidade, a opinião geral sobre a moeda tende para o metalismo[3], como podemos ver por exemplo, em Nicole Oresme:

Vê-se, portanto, porque nem todas as coisas preciosas são próprias para se tornar peças monetárias: pedras preciosas, pimentas, vidros e outras coisas semelhantes, com efeito, não são, por suas propriedades naturais, adequadas para isso, mas somente o ouro, a prata e cobre. (ORESME, 2004, p.42)

Oresme trata ainda, a moeda como meio de troca nascido das necessidades de comércio, de modo que as alegações usuais referentes a ser uma invenção dos economistas clássicos, como Smith não é exata.

Entretanto, Oresme (2004, p.36) sabia que a moeda não era “por natureza, mas sim por lei, como diz Aristóteles, resguardando assim o princípio nominalista, ainda que pense no dinheiro basicamente como meio de troca, pois com “dinheiro, com efeito, não se supera de imediato a indigência da vida humana, sendo ele um instrumento artificial, descoberto para permutar mais facilmente as riquezas”.

Apesar da ascensão do metalismo como teoria geral do dinheiro na idade média, a ideia base do cartalismo, o nominalismo monetário, seguiu vigente de modo discreto. Os escolásticos de Salamanca tão difamados não pensavam muito diferente:

Ele (Juan de Mariana) diz em um lugar que se pode ser vantajoso fazer dinheiro de papel, couro ou outro material barato e então reduzir o custo de produção da moeda. Ele menciona dois exemplos de papel e couro, mas ele também entende que o recurso deveria ser temporário. Entre as vantagens desse tipo de cunhagem, ele enumera resguardar o metal precioso e a facilidade do transporte. Estas são as exatas razões de porque hoje se faz uso de dinheiro de crédito ao invés de moedas. (LAURES, 1928, p.149)

Como o próprio autor dirá, os salmaticenses não tinham como confiar no governo para fazer bom uso desse mecanismo, pois como se pode ver, teriam de confiar única e exclusivamente na honestidade do rei. Hoje, ao contrário, existem instituições mais impessoais e que podem resguardar e proteger o interesse público, delimitando quando e em que circunstâncias o governo pode fazer uso da moeda fiduciária, coisa que àquela época não havia e que tanto Nicole Oresme e Juan de Mariana temiam. Uma última consideração deve ainda ser feita sobre essa preferência, como o medievo é um contexto de intensa descentralização política em que não havia uma autoridade pecuniária internacional, a moeda tinha de necessariamente ter um valor intrínseco no qual ela pudesse servir de unidade de conta em qualquer lugar além da autoridade política que a emitiu, e nesse caso era seu material de cunhagem. Hoje é completamente diferente, com a vigência do dólar como a moeda de curso forçado internacional.

Todavia, no ato mesmo em que Juan de Mariana reconhece a moeda como podendo ser feita de qualquer material, como couro e papel, ele está implicitamente reconhecendo a natureza verdadeira da moeda para além das conveniências de sua época, como sendo “riqueza artificial” nas palavras de Oresme, ou, nas palavras de Aristóteles, como sendo “não por natureza, mas por lei”, assim, reconhece nesse mesmo ato o salmaticense, que o valor da moeda não depende do metal de cunhagem, mas da confiança das pessoas no reino.  Desta forma, mesmo o metalismo destes autores não nega o princípio cartalista.

Expressão da consciência cartalista nascente também pode ser vista no apólogo de Francisco Manuel de Melo (2007, p.81):

[…] o valor do dinheiro em que ele seja de qualidade realmente intrínseca, que essa também não alcança e prata e o ouro, pois são avaliados pelo teor de pureza estimado. Mas basta que tal estimativa esteja constituída por beneplácito universal daqueles que o usam, para que sobre esse gênero, ainda que inábil, se funde no trato útil da comutação recíproca, fiel e tranquilo.

Em outras palavras, dinheiro não é o papel, o ouro ou a prata. A moeda é um conceito de débito e crédito que, em essência, não a faz diferente de nenhum outro meio de pagamento como os ativos líquidos de hoje em dia. Por isso L. Randall Wray (2014, p.2) diz:

Na abordagem cartalista, o Estado (ou qualquer outra autoridade capaz de impor uma obrigação) impõe uma obrigação de forma generalizada, de se usar uma unidade de conta social ou legal — um dinheiro — cuja função é medir essa obrigação. Isto não requer a pré-existência de mercados, e, de fato quase certamente antecede a ele.

Uma vez que se entenda isso, percebe-se que o valor da moeda não depende de sua escassez e nem de nenhum metal, e mais, fica claro ainda que sociedades desmonetizadas são totalmente possíveis, como o caso de onde o Império Inca impunha a mita como meio de pagamento de obrigações, tendo o “dinheiro primitivo” uma função minoritária, mas também, sempre descendendo de algum tipo de autoridade pública (que não necessariamente precisar ser política, pode ser moral ou religiosa).

2 – Moeda como meio de pagamento.

A diferença, portanto, da moeda para os outros meios de pagamento, é que a liquidez da moeda é garantida por não ter retorno de renda ou juros, quando mantida em posse natural (preferência pela liquidez). É por isso que as pessoas a usam para comprar títulos públicos, ativos bancários, dentre outros ativos líquidos. A razão é que, estes meios de pagamento devolvem maior quantidade de moeda aos seus compradores no futuro.

Então, a partir daí podemos entender o porquê um pouco de inflação é menos danoso do que a deflação. A inflação baixa, controlada faz com que o dinheiro perca valor e, por isso mesmo, faz pouco sentido mantê-lo em posse ou entesoura-lo. Se as pessoas não comprarem algum meio de pagamento que lhe pague juros ou rendas, elas consumirão. Desta forma, a inflação é um incentivo para que a moeda circule e com isso é um estímulo extra para que a economia de mercado funcione.

A deflação, ao contrário, faz com que a moeda ganhe valor por si mesmo. Se a inflação é um imposto embutido, a deflação é um juro embutido. Isso significa que a propensão a entesourar é maior e com isso o dinheiro circula menos, e é por essa mesma razão, que as deflações são acompanhadas por retração do comércio, como nos anos que sucederam a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C). Estes esquemas não são nada inovadores e são conhecidos desde a Teoria Geral do Emprego do Juro e da Moeda (1936) escritas por John Maynard Keynes, donde se explicam os motivos transação, precaução e especulação (PREBISCH, 1988, p.89)

A taxa de juros não é o preço que equilibra a demanda por recursos para investir e a propensão de abster-se do consumo imediato. É o preço mediante o qual o desejo de manter riqueza em forma líquida se concilia com a quantidade de moeda disponível. Para compreender o que isso significa mencionaremos os motivos pelos quais se tem riqueza em forma de dinheiro. São três: motivo transação, motivo precaução e motivo especulação.

Concluímos assim, que essas pessoas não devem temer a intervenção monetária do governo, pois na ausência de um lastro, a moeda só causa inflação na medida em que pressione o sistema produtivo ou não se tenha reservas cambiais para honrar débitos em moeda estrangeira. E, para acalmar ainda mais, é bom recordar que hiperinflações estão sempre associadas a catástrofes reais (guerras e catástrofes naturais) ou institucionais, como no caso de países onde a cada dia as instituições são destruídas e recriadas do nada, a cada golpe de Estado ou sopro ideológico. A crise atual, aliás, dá-nos uma ótima oportunidade para recuperar uma ideia pré-moderna, que faz parte do patrimônio da Igreja em tradição de pensamento econômico: a ideia de que dinheiro é um conceito abstrato imposto por uma autoridade de fé pública para quitar obrigações, que hoje é representado perlo cartalismo.

Assim, tendo em vista que o príncipe da região é a pessoa mais pública e de maior autoridade, é mais conveniente e honroso que ele, mais do que a qualquer outro, faça fabricar a moeda para toda a comunidade, e a assine por meio de uma impressão congruente com as suas propriedades. (ORESME, 2004, p.43).

Antes ainda de finalizar, é importante fazer uma distinção: o governo não cria a moeda com um “impressorão” na casa da moeda. Apenas 5% do dinheiro hoje circula na forma de papel moeda. A maior parte do dinheiro é digital na tela dos computadores dos bancos. Isso significa que o governo simplesmente credita os valores nessas contas. Ou seja, cada vez menos o dinheiro tem forma física e cada vez mais ele é só um crédito bancário.

Este fato tem a implicação de que o governo não tem um cofre onde ele deposita o dinheiro advindo dos impostos e da venda de títulos públicos e depois tira uma parte desse dinheiro para gastar em educação, em saúde, em infraestrutura, etc. O governo cria dinheiro no momento em que ele gasta. Só assim a moeda circula na economia, e ele tributa para remover dinheiro da economia. Essa percepção é agora cada vez mais clara quando cada vez menos do dinheiro é papel moeda em poder do público. Isso significa que o governo pode criar moeda com resguardo em tributos (dinheiro que será retirado da economia), com resguardo em títulos públicos (dinheiro que será retirado através de promessa de pagamento futuro) ou ainda, sem resguardo nenhum, emissão monetária a que chamamos de “monetização”.

Quando os governos fizeram o Quantitative Easing em 2008 e agora na coronacrise eles simplesmente criaram dinheiro ex nihilo e compraram os assim chamados títulos podres, assumindo para si o prejuízo e resguardando a sociedade. Em outras palavras ainda mais simples, aquela retórica da “socialização dos prejuízos e da privatização dos lucros” é falsa. Ou melhor, ela é falsa na medida em que o Estado, consciente disso, faz uso de seu poder de emissor de moeda soberana. Sem essas qualidades, quando o governo se autocoloca uma disciplina financeira e fiscal, aí sim ocorre a socialização do prejuízo, pois o governo, que é responsável pelo bem comum, não auxilia a sociedade quando esta mais precisa de sua ajuda financeira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Editora Martin Claret, 2001.

BRASSEUL, Jacques. História Econômica do Mundo: Das origens aos subprimes. Lisboa: texto e Grafia, 2010.

FERGUSON, Niall. A Ascensão do Dinheiro: A história financeira do mundo. São Paulo: Editora Planeta, 2009.

LAURES, John. The Political Economy of Juan de Mariana. Nova Ioque: Fordham University Press, 1928.

MANKIW, Nicholas Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 1998.

MARTINS, Cristiana. O papel do “dinheiro primitivo” na economia Inca. São Paulo: USP, 2001.

MÉDAILLE, John C. Toward a trully free market. Wilmington: ISI Books, 2010.

MELO, Francisco Manuel de. Economistas Portugueses: Escritório avarento. Curitiba: Segesta, 2007.

ORESME, Nicole. Pequeno tratado sobre a natureza da moeda. Curitiba: Segesta Editora, 2004.

PREBISCH, Raúl. Keynes, uma introdução. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

RESENDE, André Lara. Consenso e contrassenso: Por uma economia não dogmática. São Paulo: Portfólio Penguin, 2020.

VERSIGNASSI, Alexandre. Crash – uma breve história da economia: Da Grécia Antiga até ao século XXI. São Paulo: Leya, 2011.

WRAY, L. Randall, SEMENOVA, Alla. Levy Institute: The Rise of Money and Class Society. Annadale-on-Hudson: Bard College, nº832, 2015.

WRAY, L. Randall. Levy Institute: From the State Theory of Money to Modern Money Theory: An Alternative to Economic Orthodoxy. Annadale-on-Hudson: Bard College, nº792, 2014.


Notas de rodapé:

[1] Índices de Preços ao Consumidor.

[2] É a teoria que afirma que o preço de bens ou valores monetários são aqueles definidos por uma autoridade pública dotado da confiança das pessoas.

[3] Doutrina segundo a qual a moeda é apenas uma mercadoria universal de trocas. Como a mesma se funda na ideia de que a moeda é primeiramente um meio de troca, nas palavras de Wray e Semenova (2015):  a visão metalista leva diretamente a prescrições de política econômica, incluindo a de que o valor do dinheiro é derivado de sua escassez.

MMT – O que você precisa saber sobre ela?

Como a MMT deve desempenhar um papel importante no mundo pós-coronavirus, é importante conhecer algumas hipóteses que ela propõe.
 
1) A MMT não diz que o governo pode dinheiro imprimir dinheiro e com isso criar riqueza. Ela diz o que os governos JÁ fazem hoje: Desde 2008, Estados Unidos, União Européia, China e Japão simplesmente imprimem dinheiro para um monte de coisas, especialmente em 2008 pra salvar o sistema financeiro.
 
2) Isso gera inflação? Nem sempre. O sistema bancário JÁ cria moeda absolutamente sem limites (e muito mais que o Estado) devido as reservas fracionárias, e isso não cria inflação, assim como em 2008 os QEs não criaram.
 
3) O que a MMT propõe é reestabelecer a função aristotélica do dinheiro como nomisma, isto é, um objeto do direito e não do mercado. É uma idéia pré-moderna na verdade.
 
4) Isso significa que dinheiro dá em árvore e o governo pode por 1 milhão de reais na conta de todo mundo? Não. O governo na MMT só não tem restrição financeira, mas ainda tem restrições fiscais reais e externas. O governo não pode emitir moeda soberana de outro país e não pode violar os limites físicos da economia. Se o governo gastar moeda até o limite dos fatores de produção ocorre inflação. Isto porque moeda não é mercadoria, é um crédito contra o governo, é um objeto do direito. A limitação está na realidade porque os recursos são escassos.
É importante dizer isso, pois a MMT não nega a escassez de recursos e meios, o que ela nega é que o governo possa ser insolvente em sua própria moeda.

O capitalismo depende de uma base monetária crescente.

Artigo de Bóris* para a Reação Nacional.

Volta e meia aparece um saudosista do padrão-ouro ou um entusiasta do bitcoin por ele ser uma moeda deflacionária. isto é, cujo valor dela cresce por ser sua base limitada. Não vou tratar especificamente do assunto do padrão-ouro ou da criptomoeda, mas de um aspecto que envolve o saudosismo das duas: base fixa.

Quem quer que tenha estudado a literatura mercantilista e os problemas dos primórdios do capitalismo entenderá o que eu vou dizer; um dos grandes dramas vivenciados por economistas portugueses do período como Francisco Manuel de Mello e Duarte Ribeiro de Macedo (dois áureos representantes do pensamento econômico português do século XVII) era a escassez de moeda ocasionado pelo fato dos bens comprados pelos portugueses serem de valor agregado mais elevado que os por eles comprados. Os déficits comerciais faziam com que o ouro escoasse de Portugal para a Inglaterra, e na carência de meios monetários a economia portuguesa estagnava.

Dizia Duarte Ribeiro de Macedo (2007, p.93):

“Mal é este que pede remédio pronto, porque, se continua, se perderão as conquistas e o reino: as conquistas, porque a sua conservação é dependente do valor dos frutos que nelas se cultivam – e se não têm valor, não têm gasto, nem se podem comutar pelo infinito número de gêneros de que os moradores delas necessitam; o Reino, porque o dinheiro é o sangue das repúblicas, e sucede no corpo político com a falta de dinheiro o mesmo que sucede no corpo físico com a falta de sangue.”

Tal pensamento como o próprio Duarte reconhecia era um aspecto importante do pensamento econômico tradicional que era “derivada das fontes de Platão e Aristóteles, seguida e aprovada por todos os autores, e sobre que se fundam várias leis que achamos no direito civil.”.

Os efeitos dessa carência de moeda é a queda dos preços, a morte do comércio e o que os mercantilistas chamavam de “entesouramento”. Francisco Manuel de Mello (2007, p.82) diagnosticava:

“Porque se os ricos gastassem e os pobres merecessem, brevemente viriam todos a conseguir igualdade de conforto”. […] Porque se o cheio não lançar água no vazio e aquele, depois de cheio, não a despejar no outro, que está vazio ainda, como ele há pouco estava, a água jamais poderá chegar arriba”.

Aqui vê-mo-lo fazer uma descrição do ciclo monetário interrompido pelo entesouramento e a deflação. A causa desse emperramento por eles diagnosticado vem da concepção medieval da moeda e do sistema econômico como veremos abaixo.

A moeda na época funcionava com base no conceito de moeda-mercadoria do qual o padrão-ouro é apenas uma degeneração tardia. Assim, quando um país importava bens, a moeda como representava o valor do material em que era cunhada, era levada para o país que vendeu o bem e tirada do que comprou, e quem tinha déficit perdia moeda circulante. Em outras palavras, a base monetária encolhia. Por isso os reis de Portugal e Espanha ficavam realmente loucos atrás de minas de ouro na América, pois só assim poderiam aumentar a base monetária sem precisar depreciar a moeda (reduzindo a pureza do ouro ou diminuindo a massa da moeda).

Hoje em dia, com a moeda fiduciária e com a possibilidade dos países cobrirem o déficit com emissão de dívida a base permanece estável, mas na época isso causava sérios transtornos. Esta concepção de moeda era, portanto, o primeiro desafio do capitalismo. O desprendimento gradual entre o material e a moeda que levará da moeda-mercadoria à moeda fiduciária, facilitou em muito o comércio internacional.

Por outro lado, havia ainda uma concepção imprópria do capitalismo, como podemos ver em Francisco Manuel de Mello (2007, p.82):

“Tudo isto advém de que não entendam os homens que o dinheiro se deve usar como meio e não como fim. É o dinheiro o meio universal de todas as coisas temporais, porque por ele todas se alcançam e facilitam. Mas, sendo tão bom por ser meio, é muito mau para ser fim.”

O dinheiro como mero meio universal de trocas é uma visão medieval. Na idade média se requeria dinheiro para trocar bens por bens; porém na economia capitalista o dinheiro é também meio para conseguir mais dinheiro. Era o que Karl Marx indetificou por circulação capitalista (D-M-D’). O economista austríaco George Reisman inclusive elogia Marx (!!) por perceber isso!

“Marx teve sim uma grande ideia, a qual era em si totalmente correta, e que pode jogar mais luz sobre esta discussão.  Esta sua ideia foi fazer uma distinção entre aquilo que ele chamou de “circulação capitalista” e aquilo que ele chamou de “circulação simples”. […] Aquilo que todos os “capitalistas exploradores” praticam é a circulação capitalista.  A circulação capitalista, como Marx a descreveu, é o gasto de dinheiro, D, para a compra de materiais, M, que serão utilizados na produção de produtos que serão vendidos por uma quantia maior de dinheiro, D’.  A circulação capitalista, em suma, é D-M-D’.  Se os capitalistas exploradores deixassem de existir, e a circulação capitalista desaparecesse do mundo, os sobreviventes entre aqueles que hoje trabalham como assalariados estariam vivendo em um mundo de circulação simples, isto é, M-D-M”.

Com isso, como a economia capitalista depende usar material para conseguir mais dinheiro, a tendência de uma base monetária fixa é se concentrar e, com a queda de preços (deflação), a economia estagnar. O capitalismo depende, portanto, de uma base monetária expansiva. Milton Friedman percebera isso, inclusive. Ele sugeria ao Banco Central expandir a base na mesma proporção do crescimento da economia (se o PIB cresceu 2%, M1 deve expandir 2%).

O padrão-ouro não resolve o problema, pois como chama a atenção John Médaille (2010):

“Since gold is a limited commoditty, it’s supply cannot expand as quickly as the economic activity. This led to a chronic period of deflation, which destroyed both farmer and small merchant. Wheat sold for $2.06 per bushel in 1866, but only got 80 cents in 1880 and 35 cents in 1890″.

Uma alternativa para facilitar um consenso na questão da moeda fiduciária e da moeda lastreada foi dada pelo economista Robert E. Hall e que eu chamo de padrão-mercadoria. Hall criou uma cesta de mercadorias cujo aumento de produção fosse constante e chamou de ANCAP (iniciais de cada material da cesta), e propôs que essa cesta fosse um lastro para o dólar. Assim, a economia não se veria atingida tão fortemente por crises deflacionárias. É uma boa alternativa.


Referências:

MELO, Francisco Manuel de; MACEDO, Duarte Ribeiro. Economistas Portugueses: O escritório avarento (1655) e Sobre a introdução das artes (1675). Curitiba: Editora Segesta, 2007.

REISMAN, George. A teoria marxista da exploração e a realidade. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1368> acessado em: 23 de junho de 2019.

MÉDAILLE, John. Toward a truly free market. Wilmington: ISI Books, 2010.

HALL, Robert E. Explorations in the gold standard and alternatives for stabilizing the dollar. Disponível em: <https://web.stanford.edu/~rehall/Explorations%20in%20Gold%20Standard%201982.pdf> acessado em 23 de junho de 2019.


* Bóris é colaborador esporádico da Reação Nacional.

O que é usura e porque ela é importante para entender a crise brasileira?

Arthur Rizzi*

Raphael Mirko**

Christopher Ferrara (2010, p.150), um dos pensadores mais destacados na defesa da Doutrina Social da Igreja e da ortodoxia doutrinária da Igreja na atualidade, define usura como sendo “any form of income extracted from a position of power in which one was enabled to charge whatever the market would bear”. Em eras passadas, a usura era considerada toda e qualquer forma de cobrança de juros num empréstimo, por causa do fato de que, como chama a atenção Ferrara (2010, p.52): “money was merely a means of exchange and did not produce investment income in financial markets or lose value over time due to inflation”. Todavia, por causa das inovações financeiras e econômicas que surgem no fim da Idade Média, como demonstrado por Karl Polanyi em “A Grande Transformação“, a moeda passa a ser um tipo de mercadoria vendida e cotada em preços locais em função de sua oferta e demanda, em comparação a si mesma e em comparação a outras moedas, bem como a necessidade de garantias contra imprevistos temporais (em outras palavras inflação, câmbio e juros).

Se a moeda era, nos tempos de Santo Tomás de Aquino, apenas um veículo neutro entre duas mercadorias (digamos trigo e madeira), não seria lícito a ninguém numa troca exigir mais do que ofereceu a outrem em retorno. Neste caso a moeda meramente representa os bens in natura. Hoje em dia as coisas não são assim. Uma vez que na renascença a situação se modificara completamente, o juro poderia ser concedido como compensação de um risco quantificável e como restituição da depreciação do valor da moeda (inflação). Contudo, apesar do dinheiro ter deixado de ser um veículo neutro, a economia clássica e neoclássica, ao assumir a lei de Say, que afirma que a oferta agregada e a demanda agregada são iguais ex ante, por todo produto ser em si mesmo meio de pagamento por outro produto, permaneceu com este dogma até que John Maynard Keynes com seu Treatise on Money (1930), e posteriormente com sua “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (1936), decidiu apontar o fato inconteste de que o Imperador estava, de fato, nu.

Embora Keynes não tenha feito julgamentos morais, o mesmo ao propor a “eutanásia do rentista”, de certo modo identificou a usura (ainda que não lhe tenha dado seu devido nome) como uma causa meramente técnica da crise do capitalismo. A péssima distribuição de renda e as variações injustas nas taxas de salários e lucros eram um problema que impedia o capitalismo de ser um sistema equilibrado na era do laissez faire. E é na linha da escolástica tardia e em menor escala dos subsídios técnicos de Keynes, que o distributista John Médaille traz-nos a definição prática de usura na economia capitalista moderna: o retorno de juros sobre uma economia deflacionária (cobrança de juros com deflação[1]) e crédito ao consumidor, como política de estabilização da demanda agregada[2].

O primeiro ponto é de entendimento fácil: Se a taxa de juros cobrada é um corretor da inflação, logo, num cenário de deflação a taxa de juros deveria ser negativa. O que ocorre na realidade, é, entretanto, justamente o inverso. Durante as crises deflacionárias como a de 1921, 1929 e 2008, os preços despencaram de parte-a-parte, as taxas de juros, entretanto subiram. Ou ainda, períodos de recessão em que o ajuste fiscal é severamente recessivo como foi durante o governo Temer (e Dilma); neste caso a queda do nível geral de preços empurrado por uma ascensão vertiginosa da taxa de juros é se não usura em ato, ao menos o é em potência. O choque de juros foi tão forte que o Brasil vem registrando desde 2017 as menores taxas de inflação da história republicana recente[3]. Por muito pouco o processo de desinflação não virou deflação.

Do outro lado, a medida de crédito é menos fácil de se entender. A política monetária, sobretudo visando à retomada da demanda agregada por meio de crédito ao consumidor, ou mesmo como mecanismo de aceleração do crescimento econômico é usurária, devido ao fato de que a maior parte do crédito destina-se a compra de bens de consumo, através da geração de uma renda potencial que será paga com juros. Se um banco empresta dinheiro para aquisição de capital (K), então a renda (Y) desse capital formará um excedente que iguala os juros (i). Desta forma, o retorno em juros nada mais é que o retorno justo sobre o capital. O Capital produz novos bens, os bens de consumo, não.

Here we must distinguish between lending for investment and usury. Investment means giving money to firms and entrepeneurs in order to expand production and increase wealth of society. In this case, interest is merely the investor’s participation in the profits; it is the wage of the capital supplied, and the one who supplies it is entitled in justice to wage. Usury, on the other hand, is lending money at interest to increase consumption. Nothing is added to the wealth of society, however much may be added to the wealth of lender. (MÉDAILLE, 2010, p.56)

Wilhelm Röpke (1960, p.185), um dos pais do ordoliberalismo alemão, via com muito maus olhos o keynesianismo hidráulico do pós-guerra como um estimulador de usura, e teceu críticas fortes a esse aspecto usurário da economia do pós-guerra e defendeu o consumo à vista como veículo-motor principal da economia, pois seria consumo de renda presente.

Otro ejemplo, que se mucho acerca al primeiro, es el de las compras a plazo (créditos al consumidor), al cual nos hemos referido anteriormente. Falta también aqui, dentro de la economia de mercado, simetria entre las fuerzas que favorecen esta forma, tan extraordinariamente extendida, de estimular el consumo y las otras, a las que frenan, apesar de que el más acérrimo partidário del credito al consumidor no puede negar el peligro de su desdobramento y de su degeneración.

O que queria dizer Röpke por degeneração, afinal? Além do materialismo implícito no consumismo gerado por esse tipo de medida, ele via do ponto de vista econômico o mesmo perigo que Médaille (2010, p.56) enxerga.

In fact, usury is the most destructive way of increasing demand. Usury actually delays the problem, postpones the crisis to the future period. This is because a borrowed dollar used to increase demand today must be paid back tomorrow and hence will decrease demand in a future period by that same dollar – plus interest.

Não é, portanto, de se estranhar, que uma economia recuperada à base de estímulo ao consumo, ao invés de política fiscal, como é o caso da economia brasileira (e em grande parte a americana), acaba naquilo que o economista Hyman Misnky chamou de debt-deflation[4] (deflação por dívidas), em que os ganhos de lucratividade posteriores a uma recessão são direcionados ao pagamento de dívidas e não ao aumento de produtividade.

Mas não só o consumismo impulsionado por crédito fácil foi a chave da crise usurária, mas também os ganhos salariais muito acima da produtividade do trabalho; o governo petista forneceu durante seus anos aumentos de salário-mínimo acima da produtividade e da inflação[5], o que gerou um processo econômico pernicioso para a indústria nacional, uma inflação constante e, conforme veremos no tópico subsequente, é ao lado do populismo cambial (aumento artificial do poder de consumo por via cambial), a base da crise usurária.


Notas:

[1] Cf. MÉDAILLE, 2010, p.76

[2] Cf. MÉDAILLE, 2010, p.54.

[3] FERRARI, Hamilton. Correio Braziliense: Prévia da inflação registra o índice mais baixo desde o Plano Real. Em 23/01/2019.

[4] Cf. MINSKY, Hyman. Bard: The Debt deflation of great depression. 1994 – pode ser encontrado disponível em <www.digitalcommons.bard.edu/hm_archive/159> acessado em 06/03/2019.

[5] Cf. OREIRO, 2016, p.190.


REFERÊNCIAS:

FERRARA, Christopher. The Church and the libertarian: a defense of the Catholic social teachings on man, economy and State. Forest Lake: Remnant Press, 2010.

MÈDAILLE, John. Toward a trully free market: a distributist perspective on the role of government, taxes, healthcare, deficits and more. Wilmington: ISI Books, 2010.

RÖPKE, Wilhelm. Mas alla de la oferta y la demanda. Valencia: Fomento de Cultura Ediciones, 1960.

OREIRO, José Luís. Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Rio de Janeiro: LTC, 1998.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e tem formação complementar livre em macroeconomia pela Faculdade Sul Mineira (FASUL-MG)

** Raphael Mirko é graduando em economia pela Faculdade Santo André (FSA) e história pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

Marx estava errado sobre a natureza do dinheiro

 

Texto traduzido e extraído do site Social Democracy in 21st century traduzido por Boris.

Extraído do volume 3 d’O Capital (primeira publicação de Engels in 1894):

“Mas tão breve quanto o crédito é abalado [em crises comerciais]—e essa fase sempre surge da necessidade de ciclos na indústria moderna—toda a riqueza real é na realidade e repentinamente transformada em dinheiro, em ouro e prata, uma demanda louca, que entretanto, necessariamente cresce dentro do próprio sistema. E todo o ouro e prata, que supostamente deveria satisfazer essas enormes demandas, contabilizam alguns milhões de cédulas num banco.

O efeito da drenagem do ouro, o fato de que a produção como um processo social não está sujeito ao controle social é notavelmente enfatizado pela existência de uma forma social de riqueza que existiria fora dela como uma coisa separada. O Sistema de produção capitalista, é verdade, compartilha isso com sistemas de produção anteriores, na medida em que ele também se apoia em troca de mercadorias e comércio privado. Mas somente isso se torna aparente na forma mais marcante e grotesca da mais absurda contradição, porque, em primeiro lugar, a produção para o uso direto dos produtores é quase que completamente abolida sob o sistema capitalista, de modo que a riqueza existe apenas como um processo social expresso pelas inter-relações de produção e circulação (as coisas não são produzidas para serem utilizadas, mas para serem vendidas); e, em segundo lugar, porque  o sistema de produção capitalista sempre luta para superar essa barreira metálica, a barreira material e fantástica da riqueza e de seus movimentos, na medida em que o sistema de crédito se desenvolve, mas sempre quebra a cara nessa mesma barreira.

Na crise, a demanda é  quase toda convertida em letras de câmbio, títulos e mercadorias que sejam simultaneamente conversíveis em dinheiro do banco, e todo esse dinheiro do banco é composto de ouro ”. (Marx 1909: 673–674).

“Mas nunca deve ser esquecido que o dinheiro, em primeiro lugar, existe na forma de metais preciosos, e isso continua a ser a base da qual o sistema de crédito naturalmente nunca pode escapar. ”(Marx, 1909: 712)

“O sistema bancário mostra, além disso, colocando diferentes formas de crédito circulante no lugar do dinheiro, que o dinheiro é, na realidade, nada além de uma expressão especial do caráter social do trabalho e seus produtos, de modo que esse caráter, distinto da base da produção individual, deve apresentar-se em última análise como uma coisa, como uma mercadoria peculiar ao lado das outras mercadorias ”. (Marx 1909: 713).

 

Essas afirmações têm a virtude de serem claras: o dinheiro, para Marx, só pode, no fim das contas, ser uma mercadoria e, por implicação, o dinheiro de papel ou o dinheiro do crédito só pode ser um símbolo para o dinheiro como mercadoria.

[…]

“Dinheiro – a forma comum, na qual todas as mercadorias como valores de troca são transformadas, isto é, a mercadoria universal – deve existir em si mesma como uma commodity em particular junto com as outras, já que o que é necessário não é apenas que elas possam ser medidas , mas que eles possam ser convertidas e trocadas por ele no processo de troca real. […] O dinheiro não surge por convenção, muito  mais do que o Estado faz. Ela surge da troca e surge naturalmente fora da troca; é um produto da mesma. ”

Marx, The Grundrisse, Caderno 1, outubro de 1857, O Capítulo sobre Dinheiro (Parte II)

https://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch03.htm

Tentativas de reivindicar que o dinheiro fiduciário pode funcionar adequadamente como dinheiro dentro do sistema econômico de Marx, tal como Marx entendia o dinheiro estão totalmente erradas. Se os marxistas vão fazer isso, eles devem admitir que precisam rever radicalmente o sistema econômico de Marx e que Marx estava errado sobre dinheiro em aspectos importantes.

REFERÊNCIAS
Marx, Karl. 1909. Capital. A Critique of Political Economy. Volume III. The Process of Capitalist Production as a Whole (trans. Ernst Untermann from 1st German edn.). Charles H. Kerr & Co., Chicago.

A escola austríaca e a moeda de Schrödinger

Arthur Rizzi*

A contribuição mais central e relevante da Escola Austríaca de economia para a ciência econômica é sem dúvidas a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (doravante TACE), ela se funda na sua versão mais difundida, a proposta por F.A. von Hayek na ideia de que qualquer queda artificial da taxa de juros produz malinvestiments, dado que o dinheiro novo na medida em que entra no sistema produtivo converte-se em investimento em maquinários, aumentos de salário, e não tendo isso qualquer lastro em poupança real e em poder de consumo, terminará por criar uma recessão. Fica claro portanto, que essa tese que ampara não só a interpretação austríaca do ciclo econômico como a própria teoria da inflação, se ampara no conceito de não-neutralidade da moeda.

Se você é leigo e não entende economês, não importa, a gente explica: neutralidade da moeda é o conceito segundo a qual a moeda serve apenas e exclusivamente como meio de troca, não tendo valor em si, mas apenas enquanto meio de troca por outras mercadorias. O que significa entre outras coisas, que um aumento ou uma contração da oferta monetária não produz alterações reais na economia, apenas nominais, como a variação do nível de preço dos produtos através da apreciação ou depreciação da moeda frente eles. Assim, o “valor” da moeda seria apenas o seu valor enquanto meio de troca. Em outras palavras, como podemos ver na teoria quantitativa da moeda (que assume a neutralidade da moeda), aumento na oferta monetária só produz inflação, mas não mudanças estruturais na economia em variáveis como emprego e produção.

“a teoria dos ciclos reais (proposta novo-clássica de Robert Lucas Jr.) supõe que a moeda é neutra. Ou seja, a política monetária não afeta as variáveis reais, como o produto e o emprego.” (MANKIW, 1998, p.301)

Assim, portanto, é dedutível que a não-neutralidade da moeda afirma exatamente o inverso. De que a moeda não é neutra e que ela produz alterações estruturais profundas na economia, o que aliás é proposição da TACE, tendo inclusive um valor próprio.

Entretanto, a TACE se ampara na teoria da taxa natural de juros. Essa teoria desenvolvida pelo economista sueco Knut Wicksell propunha uma teoria não monetária dos juros, isto é, cada bem da economia teria uma taxa de juros própria, e o preço do crédito (juros monetário) estaria em equilíbrio quando esta coincidisse com a taxa real dos bens. Assim, a moeda seria um veículo neutro capaz de reproduzir todos os juros da economia. Para que a taxa de juros seja o juros verdadeiro, é necessário que a moeda seja neutra, dessa forma, sempre que o juros monetários estivessem abaixo do juro real (dos bens in natura), haveria inflação e sempre que estivesse acima, haveria deflação, mas sem em nada afetar estruturalmente a economia no longo prazo.

A Lei de Say implica uma economia onde a moeda é “neutra”. Nas palavras do próprio economista francês:

Nos lugares que produzem muito, cria-se a única substância com a qual se pode comprar: refiro-me ao valor. O dinheiro representa apenas um ofício passageiro nessa troca dupla; e, terminadas as trocas, verifica-se sempre: produtos foram pagos com produtos. (…) Os produtos criados fazem nascer demandas diversas. (Say, 1803, p. 139 e 142)

Essa afirmação é a base da Lei de Say, que é um dos alicerces da TACE. Como nos diz o próprio Thomas Sowell (1994, p.39-41) enquanto explica a lei de Say – tradução livre:

“Não existe perda de poder de compra em nenhum lugar da economia. Pessoas poupam apenas na extensão do seu desejo de investir e não seguram dinheiro muito além das suas necessidades de transacionar durante esse período”.

Ora, para que a TACE seja verdadeira, a lei de Say deve ser verdadeira, e para que a lei de Say seja verdadeira, a taxa natural de juros tem de ser verdadeira. Uma vez que entendamos essa linha de dependências lógicas percebemos a grande contradição.

Para que a TACE seja verdadeira, a moeda não pode ser neutra; e para que a lei de Say seja verdadeira a moeda tem que ser neutra! Em outras palavras, ou Erwin Schrödinger virou economista e trouxe seu gato (chamemos o bichano de catcoin) para o trabalho, ou o princípio de não-contradição ainda vale e a mesma moeda não pode ser e não ser neutra ao mesmo tempo! Essa é uma das razões pelas quais devemos ou rejeitar a lei de Say ou rejeitar a TACE.

Consequências lógicas:

Temos então dois cenários:

  1. Rejeitamos a lei de Say: Se rejeitarmos a lei de Say, então damos razão a Keynes, e dizemos que pode haver perda de poder de compra na economia através de entesouramento e de investimento em ativos líquidos não reproduzíveis, o que impossibilita a TACE de existir.
  2. Rejeitamos a TACE: Logo, nessa hipótese, a teoria austríaca da inflação também não é verídica, e como consequência as teorias de ciclo alternativas, como a de Wilhelm Röpke em seu “Crisis and cycles” passam a ser teorias melhores. E na questão da inflação teremos de dar razão a James Tobin no seu clássico “Moeda, capital e outras reservas de valor“.

Independente do que você prefira, a TACE não é válida;

Referências:

MANKIW, Nicholas Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 1998.

SOWELL, Thomas. Classical Economics Reconsidered, Nova Jersey: Princeton University Press, 1994.

SAY, J. B.  Tratado de economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1986 (1. ed. em
francês, 1803) 1803.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e estudioso de história do pensamento econômico. 

Mises contradiz Rothbard em matéria de inflação.

Este artigo foi originalmente postado no Social Democracy in 21st Century e republicado por Reação Nacional.

No Mises.org há um artigo interessante acerca das definições de inflação entre os austríacos.

Per Bylund, “Inflation and Deflation: Austrian Definitions,” November 18, 2011.

Em essência, o autor cita esta definição de inflação por Mises em seu tratado The Theory of Money and Credit (1953):

“Inflação: um aumento na quantidade de dinheiro (em sentido amplo do termo, assim incluindo meios fiduciários de pagamento), que não é contrabalanceado por um aumento correspondente na procura por dinheiro (novamente em sentido amplo do termo), então uma queda no valor objetivo de troca do dinheiro acontecerá. Novamente, deflação significa: uma diminuição da quantidade de dinheiro (em sentido amplo) que não é contrabalanceado por uma diminuição correspondente na procura por dinheiro (em sentido amplo), o que produz um ganho no valor objetivo de troca do mesmo.” (Mises 2009 [1953]: 240).

O significado dessa passagem é discutida por Horwitz (2000, p.78), que argumenta que isso parece permitir a idéia de que um Sistema bancário de reserva fracionária poderia criar crédito e moeda (meios fiduciários) em resposta a uma demanda por isso, sem, na visão de Mises, causar inflação.

Em contraste a esta visão, nós temos a definição de Murray Rothbard em Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles (1962):

“O processo de emissão de pseudo-recibos de depósito ou, mais exatamente, o processo de emissão de dinheiro além de qualquer aumento no estoque de espécie, pode ser chamado de inflação. Uma contração da oferta de dinheiro enorme em comparação a qualquer período (exceto numa queda de espécie) pode ser claramente chamado deflação.” (Rothbard 2004 [1962]: 990).

Essa definição obviamente contradiz a de Mises, e o que nós temos aqui é  uma clara divisão dentro da escola Austríaca aqueles que:

(1) sustentam o  “equilíbrio monetário” como visão acerca da inflação como aumento de dinheiro maior que a demanda por ele (Tal como Steve Horwitz, e a visão dos Free Bankers), e

(2) os Rothbardianos e outros anti-reserva fracionárias que afirmam que qualquer aumento na oferta de dinheiro não lastreada por mercadorias como inflação.

 

BIBLIOGRAPHY

Horwitz, S. 2000. Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective, Routledge, London and New York.

Horwitz, S. “Mises Defining Inflation the Monetary Equilibrium Way (in 1951),” Coordination Problem, September 3, 2009.

Mises, L. von, 2009 [1953]. The Theory of Money and Credit (trans. J. E. Batson), Mises Institute, Auburn, Ala.

Rothbard, M. N. 2004 [1962]. Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala

Aumento de base monetária nem sempre gera inflação.

O texto abaixo é um excerto de um texto maior de Humberto Matos publicado no blog Acervo crítico, comentado e transcrito por Reação Nacional.

O economista da síntese keynesiana-neoclássica James Tobin num texto chamado “Money, Capital and Other Stories of Value”, demonstrou que quando ocorre um aumento de base monetária (doravante BM) por parte do BC, isso não gera o efeito riqueza que seria a causa de inflação.

Vejamos o argumento quatitativista para justificar a inflação a partir da expansão da BM é que com mais meios de pagamento haverá um aumento do consumo e isso incorrerá numa inflação de demanda. Esse argumento despreza a capacidade ociosa da indústria em momentos de economia desacelerada, entretanto vamos assumir que não há capacidade ociosa para não invalidar o argumento.

Segundo Tobin, o que ocorre quando o BC expande base é uma troca de ativos financeiros o que não é capaz de produzir efeito riqueza porque ninguém consome mais na economia em função de uma mudança na composição dos ativos na economia. Ele diz isso afirmando que existem duas formas do BC expandir a BM. Uma é numa operação de open market onde ele compra títulos públicos que estão na mão do setor privado. Essas operações são possíveis porque já existem títulos públicos vendidos pelo BC numa operação anterior inversa, uma operação de venda de títulos para o setor privado.

Nesse caso, o BC trocou parte de sua reserva em moeda estrangeira por títulos que estavam em poder do público (os BCs compram e vendem moeda estrangeira para compor as reservas monetárias do país), com esses títulos, ele expande a base, ou seja, ele usou parte de um capital imobilizado como reserva financeira – suas reservas em moeda estrangeira – que havia extraído da economia a partir de seus lucros, para comprar títulos que já haviam sido criados pelo Governo, esses títulos são então usados para compor os ativos do BC permitindo a emissão de moeda, assim, há menos títulos na economia e menos moeda estrangeira imobilizada e mais moeda nacional, o que não gera efeito riqueza e, não altera o nível de ativos na economia, portanto, não gera inflação.

O outro modo do BC expandir a base – e o mais comum – é saldando as dívidas da balança de pagamentos do Governo. O Governo gasta mais do que arrecada e a parcela faltante é paga com emissão de dívida. Nesse caso, argumenta Tobin, também ocorre uma troca de ativos financeiros. Existe essa troca, segundo ele, porque o déficit é fruto de investimento público então se troca investimento por dívida. Se é investimento, se espera retorno. Assim, também não gera efeito riqueza e, portanto, não causa inflação de demanda.

RN: Essa é a razão pela qual os Quantitative Easings após a crise de 2008 não geraram inflação nem hiperinflação como alardeado por Peter Schiff. A mesma razão explica por exemplo a enorme base monetária japonesa, maior que o próprio PIB do país e inflação mínima.

Num mundo de moeda fiduciária, mas com o dólar como instrumento para a finalização dos contratos no mercado internacional atrelado ao ouro, a mecânica da economia funciona como na moeda mercadoria e os preços são relativos, assim, o que poderia também causar inflação seria o câmbio, ou melhor – já que estamos falando de padrão ouro – o saldo da balança comercial.

Nesse caso, Tobin argumenta que não é o volume de meios de pagamentos que geram esse desequilíbrio e conseguinte inflação, ele argumenta que esse desequilíbrio é fruto do nível de atividade econômica, ou seja, a produção. Se a expansão da base é o custo do investimento e se o investimento é o que aquece a economia e se por último, a economia aquecida impede a desvalorização causada pela balança comercial, não há como um aumento de BM do BC causar inflação nessa segunda e mais recorrente situação também.

A regulamentação econômica manteve o capitalismo sobre certa estabilidade até os anos oitenta do século XX. Neste período a inflação passou a se tornar um problema e a dívida pública também. As regulamentações impostas depois da crise de 29 admitiam a inflação como instrumento para evitar o desemprego, com o tempo foi se tornando cada vez mais difícil manter o nível de crescimento do consumo a fim de sustentar o modelo de moeda dívida num ritmo saudável sem comprometer a capacidade de pagamento da dívida pública, a concentração natural do capital em meio ao modelo capitalista fazia com que cada vez mais os países da periferia do capitalismo não conseguissem manter a estabilidade de suas moedas devido a falta constante de capacidade de honrar com o pagamento dos seus títulos. Quando os países da periferia do capitalismo não conseguem horar seus pagamentos, seus credores ficavam com o prejuízo então, isso não era bom para a economia capitalista. O credor, em última análise era o FED (BC dos EUA) – a moeda padrão para as transações internacionais já era o dólar – que mantinha um padrão ouro e fazendo isso, controlava o câmbio.

Essa situação se modificou a partir de 1971, quando o FED deixou de seguir o padrão ouro e corrigiu sua política de juros a fim de resolver seu problema de balanço de pagamentos:

Teoria austríaca da inflação: exposição e crítica – parte 2.

Este artigo foi originalmente postado em Social Democracy in 21st century e traduzido por Reação Nacional.

Padrão Ouro e inflação.

O padrão-ouro não era garantia contra inflação? Este é um dos argumentos austríacos para o padrão-ouro. Porém a evidência demonstra que não necessariamente. O Reino Unido registrou inflação moderada e alta persistentemente entre 1897 e 1912, especialmente devido ao aumento da oferta de ouro.

Além do mais, quando nós examinamos artigos da teoria austríaca da inflação no Instituto Mises nos artigos mais acadêmicos dos intelectuais austríacos, nós encontramos posições mais equilibradas:

“a essência da inflação não é um aumento geral nos preços mas um aumento na na oferta de dinheiro, que engendra uma tendência a um aumento generalizado  nos preços de bens e serviços …. Enquanto aumentos na oferta de moeda (i.e., inflação) sejam diretamente percebidas através de aumentos de preços, este nem sempre é o caso. Preços são determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo. Em outras palavras, enquanto a oferta de moeda crescente continua alta – i.e., inflação está alta – os preços podem mostrar pouquíssimas alterações.”
Frank Shostak, “Defining Inflation,” Mises Daily, March 6, 2002.

Shostak também acredita que aumentar a oferta de dinheiro leva a má alocações de recursos. Isto é de fato possível, especialmente em sistemas financeiros desregulados ou mal regulados, mas isso não é de maneira nenhuma inevitável e necessário. Ou seja, voltamos a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (Veja aqui algumas críticas).

Um ponto importante, porém, é que Shostak é cuidadoso ao qualificar sua afirmação mencionada acima. Ele diz que aumentos na oferta de moeda irão causar aumentos nos níveis gerais de preços, mas então concede que os preços são determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo.”

Essa é uma qualificação importantíssima. Shostak está correto quando diz que os aumentos dos níveis gerais de preços depende muito de fatores reais, tanto quanto monetários. Por exemplo, os fatores abaixo podem empurrar para baixo o nível geral de preços:

  1. queda de preços por aumento de produtividade de certos bens;
    2. apreciação da taxa de câmbio;
    3. Um aumento na quantidade de importados baratos circulando no país;
    4. Queda em preços e comoditties que são matéria-prima de produtos em geral;
    5. Mudanças na velocidade com a qual o dinheiro circula;
    6. Aumento do desemprego (= menor demanda por bens e serviços),e
    7. Redução do crédito bancário.

Na realidade, todos ou alguns desses fatores listados acima podem operar de modo tal que haja inflação zero (como no caso do Japão entre 1990 e 2004) ou mesmo deflação ainda que a oferta de moeda siga crescendo. Exemplos do mundo real:. No fim do século XIX, o Reino Unido registrou queda de preços (deflação) entre 1873 e 1896. Todavia, a oferta de moeda seguia crescendo nestes anos: entre 1873 e 1896 o estoque de moeda cresceu 1.3% por ano, 33% no período todo. Ainda, entre 1873 e 1896 os preços de varejo caíram 39%. O que aconteceu nesse período foi que o aumento da oferta de moeda foi mais lenta do que sua circulação e demanda por ela, houve também aumento de produtividade no setor da agricultura (Capie and Wood 1997: 287–289).

Agora que temos a evidência de uma visão como a de Frank Shostak, uma versão mais equilibrada fa teoria austríaca da inflação, torna-se difícil entender porque a maioria insiste em afirmar que aumentos na oferta de dinheiro sempre levam necessariamente a um aumento no nível de preços. […]

Uma vez que se aceitou que (1) o relacionamento entre um aumento no estoque de moeda e um aumento no nível geral de preços não é necessariamente automático ou inevitável, e (2) que se aceite que a TACE está errada (link aqui), a maior parte das objeções vulgares a política monetária (aumento da base monetária) se perdem.

Teoria austríaca da inflação: exposição e crítica – parte 1.

Este artigo foi originalmente postado em Social Democracy in 21st century, foi traduzido, comentado e ampliado por Reação Nacional.

Muitos libertários, defensores do liberalismo econômico ou apoiadores da economia austríaca sempre mencionam o dinheiro fiduciário como causa do aumento da oferta de moeda. Tipicamente, os austríacos vulgares dizem que qualquer aumento na oferta de moeda levará necessariamente a um aumento do nível geral de preços. Os mais ingênuos inclusive afirmam que o aumento será sempre proporcional.

Aqui temos um vídeo de Ron Paul preocupado com a criação de dinheiro pelo FED porque isso gerará inflação. Ou este artigo do Mises Institute prevendo hiperinflação nos EUA em 2009 por conta dos Quantitative Easings.

Então, primeiramente a palavra “inflação” é definida pelos austríacos como visto acima, como sendo aumento na oferta de dinheiro, e contrariamente a definição popular de  “um aumento no nível geral de preços.”

O propósito deste artigo é mostrar que muitas pessoas hoje que são simpáticas a Escola Austríaca ou que são auto proclamadas seguidoras da Escola Austríaca realmente não entendem a teoria austríaca da inflação.

A maioria das pessoas não conseguem distinguir a teoria monetarista de Friedman acerca da inflação (baseada na teoria quantitativa da moeda) da visão Austríaca que é, na verdade um bocado diferente da de Friedman, a qual, aliás, mudou ao longo do tempo. Primeiro, falaremos acerca da teoria quantitativa da moeda. (Nota da RN: Nosso contribuinte esporádico Luiz Paulo Tavares já falou um pouco dela aqui) Contrariamente ao que muitos pensam, os austríacos sempre foram ambíguos e mesmo críticos da teoria quantitativa da moeda. A teoria supracitada é a base do monetarismo de Milton Friedman, uma abordagem macroeconômica que se popularizou no fim das décadas de 70 e 80.

Entretanto, muitos austríacos tinham na verdade uma visão cética dessa teoria:

Ludwig von Mises, por exemplo:

“concordemos com a teoria quantitativa clássica de que um aumento na oferta de dólares ou de onças de oura levará a sua queda de valor/preço (e como consequência a um aumento no preço de outros bens e serviços); mas refinemos essa abordagem bruta e integremo-la com a análise econômica geral. Em um aspecto, ela demonstra que os movimentos de preço e oferta de moeda são pouco proporcionais; um aumento na oferta de moeda tenderá a diminuir seu valor, mas como isso ocorre, ou mesmo se isso ocorre, depende da utilidade marginal do dinheiro e consequentemente da demanda do público por manter o equilíbrio de caixa. Além dos mais, Mises mostrou que a ‘quantidade de dinheiro’ não aumenta em somatório: o aumento é injetado em um ponto do sistema econômico e os preços subirão apenas  onde o dinheiro novo se espalhar pela economia. Se o governo imprime dinheiro novo e o gasta, digamos, com clips de papel, o que acontece não é um simples aumento de preços,’ como economistas não austríacos diriam; o que ocorre é que primeiro  a renda dos produtores de clipes e os preços dos clipes aumentam, e então os preços dos ofertantes da indústria de clipes de papel também, e assim sucessivamente. Assim esse aumento da oferta de dinheiro muda os preços relativos ao menos temporariamente, e podem resultar em mudanças permanentes na renda relativa também” (ROTHBARD, 2009, p.15).

Em outras palavras, Mises negou que um dado aumento na oferta de dinheiro (digamos, 5%) levaria a uma direta, proporcional e mecânico aumento de 5% no nível geral de preços. E mesmo ele reconheceu que um aumento da oferta de dinheiro pode ter efeitos permanentes de renda.

Monetaristas ingênuos acreditam que há uma explicação monocausal da inflação: crescimento da oferta de dinheiro que causará aumento direto e proporcional de preços. Isto é tolice. Friedrich August von Hayek acreditava que a forma simples da teoria quantitativa era um guia útil , mas era, no entanto, um crítico dessa teoria, e mambas as versões como propostas por Irving Fischer e por Milton Friedman (Arena 2002). Em particular, “Hayek criticou Friedman por se concentrar demais na relação estatística entre a quantidade de dinheiro o nível de preços, reclamando que a matéria não é tão simples” (Garrison 2007, p.3). Austríacos estão divididos ainda hoje nessa questão. Alguns ainda sãocríticos, como Jesús Huerta de Soto.

O mesmo argumenta que o erro na teoria é o de ignorar a TACE. De Soto pensa que a teoria quantitativa da moeda é inadequada pois ignora os efeitos do aumento de moeda na estrutura produtiva, o que poderia causar maliventments. Logo, recessões. Com o aumento da oferta de moeda, haveria aumento de compra de capital, logo aumento de produção. No início haveriam preços crescentes, mas tão logo o consumo se mostrasse pequeno e a expansão da produção artificial haveria queda de preços ocasionadas por uma crise no setor, o que Wilhelm Röpke chamava de crise primária.

Esta diferença entre a TQM e a visão austríaca é ignorada por muitos.

Austríacos, em essência, afirmam duas coisas acerca da inflação. O seu efeito visível (enquanto a produção não aumenta) é aumento de preços. Aumento de preços em bens e serviços (não proporcionalmente), mas também aumento de preços em ativos financeiros. Os austríacos de modo razoável incluem inflação de preços de ativos no nível geral de preços (note que o preços de títulos, papéis, ações e outros derivativos não são normalmente calculados no índice geral de preços). Mas a maior preocupação é que há também um efeito invisível: um aumento na oferta de moeda impede o estoque de moeda de se manter estável o que com o aumento “orgânico” da produção faria da moeda deflacionária, o que aumentaria o poder de compra do dinheiro.

Com respeito a inflação, a visão austríaca ignora o fato de que uma regulação financeira eficiente pode prevenir bolhas, especialmente em ativos reais como casas. Os Estados Unidos, por exemplo, teve os preços imobiliários baixos entre 1950 e 1970, e o mesmo foi verdadeiro para muitos outros, por causa de regras e regulamentos apropriados. (Nota da RN: Esse período se notabilizou por taxas de juros permanentemente baixas).

A afirmação Austríaca de que o aumento da oferta de dinheiro tem como efeito invisível evitar a deflação ignora o fato de que, embora a deflação aumente o poder de compra da moeda, de que a deflação pode ter efeitos terríveis sobre a economia. (Nota da RN: Deflação potencializa a usura, dado que nenhum banqueiro deixará de cobrar juros por uma moeda que ganha valor ao invés de perder).

As dívidas, por exemplo, são fixadas em valores nominais, com deflação, o custo real das dívidas passa a ser muito maior, devedores enfrentam grandes dificuldades em repagar dívidas. Segundo John Médaille, no período do padrão-ouro em que havia deflação constante, os períodos deflacionários por essa mesma razão tinha um efeito concentrador da propriedade e de renda, dado que somente pessoas mais bem abastadas e grandes empresas conseguiam lidar com dívidas cujo custo real era ascendente levando pequenos negociantes e fazendeiros a falência.

Continua…