O capitalismo depende de uma base monetária crescente.

Artigo de Bóris* para a Reação Nacional.

Volta e meia aparece um saudosista do padrão-ouro ou um entusiasta do bitcoin por ele ser uma moeda deflacionária. isto é, cujo valor dela cresce por ser sua base limitada. Não vou tratar especificamente do assunto do padrão-ouro ou da criptomoeda, mas de um aspecto que envolve o saudosismo das duas: base fixa.

Quem quer que tenha estudado a literatura mercantilista e os problemas dos primórdios do capitalismo entenderá o que eu vou dizer; um dos grandes dramas vivenciados por economistas portugueses do período como Francisco Manuel de Mello e Duarte Ribeiro de Macedo (dois áureos representantes do pensamento econômico português do século XVII) era a escassez de moeda ocasionado pelo fato dos bens comprados pelos portugueses serem de valor agregado mais elevado que os por eles comprados. Os déficits comerciais faziam com que o ouro escoasse de Portugal para a Inglaterra, e na carência de meios monetários a economia portuguesa estagnava.

Dizia Duarte Ribeiro de Macedo (2007, p.93):

“Mal é este que pede remédio pronto, porque, se continua, se perderão as conquistas e o reino: as conquistas, porque a sua conservação é dependente do valor dos frutos que nelas se cultivam – e se não têm valor, não têm gasto, nem se podem comutar pelo infinito número de gêneros de que os moradores delas necessitam; o Reino, porque o dinheiro é o sangue das repúblicas, e sucede no corpo político com a falta de dinheiro o mesmo que sucede no corpo físico com a falta de sangue.”

Tal pensamento como o próprio Duarte reconhecia era um aspecto importante do pensamento econômico tradicional que era “derivada das fontes de Platão e Aristóteles, seguida e aprovada por todos os autores, e sobre que se fundam várias leis que achamos no direito civil.”.

Os efeitos dessa carência de moeda é a queda dos preços, a morte do comércio e o que os mercantilistas chamavam de “entesouramento”. Francisco Manuel de Mello (2007, p.82) diagnosticava:

“Porque se os ricos gastassem e os pobres merecessem, brevemente viriam todos a conseguir igualdade de conforto”. […] Porque se o cheio não lançar água no vazio e aquele, depois de cheio, não a despejar no outro, que está vazio ainda, como ele há pouco estava, a água jamais poderá chegar arriba”.

Aqui vê-mo-lo fazer uma descrição do ciclo monetário interrompido pelo entesouramento e a deflação. A causa desse emperramento por eles diagnosticado vem da concepção medieval da moeda e do sistema econômico como veremos abaixo.

A moeda na época funcionava com base no conceito de moeda-mercadoria do qual o padrão-ouro é apenas uma degeneração tardia. Assim, quando um país importava bens, a moeda como representava o valor do material em que era cunhada, era levada para o país que vendeu o bem e tirada do que comprou, e quem tinha déficit perdia moeda circulante. Em outras palavras, a base monetária encolhia. Por isso os reis de Portugal e Espanha ficavam realmente loucos atrás de minas de ouro na América, pois só assim poderiam aumentar a base monetária sem precisar depreciar a moeda (reduzindo a pureza do ouro ou diminuindo a massa da moeda).

Hoje em dia, com a moeda fiduciária e com a possibilidade dos países cobrirem o déficit com emissão de dívida a base permanece estável, mas na época isso causava sérios transtornos. Esta concepção de moeda era, portanto, o primeiro desafio do capitalismo. O desprendimento gradual entre o material e a moeda que levará da moeda-mercadoria à moeda fiduciária, facilitou em muito o comércio internacional.

Por outro lado, havia ainda uma concepção imprópria do capitalismo, como podemos ver em Francisco Manuel de Mello (2007, p.82):

“Tudo isto advém de que não entendam os homens que o dinheiro se deve usar como meio e não como fim. É o dinheiro o meio universal de todas as coisas temporais, porque por ele todas se alcançam e facilitam. Mas, sendo tão bom por ser meio, é muito mau para ser fim.”

O dinheiro como mero meio universal de trocas é uma visão medieval. Na idade média se requeria dinheiro para trocar bens por bens; porém na economia capitalista o dinheiro é também meio para conseguir mais dinheiro. Era o que Karl Marx indetificou por circulação capitalista (D-M-D’). O economista austríaco George Reisman inclusive elogia Marx (!!) por perceber isso!

“Marx teve sim uma grande ideia, a qual era em si totalmente correta, e que pode jogar mais luz sobre esta discussão.  Esta sua ideia foi fazer uma distinção entre aquilo que ele chamou de “circulação capitalista” e aquilo que ele chamou de “circulação simples”. […] Aquilo que todos os “capitalistas exploradores” praticam é a circulação capitalista.  A circulação capitalista, como Marx a descreveu, é o gasto de dinheiro, D, para a compra de materiais, M, que serão utilizados na produção de produtos que serão vendidos por uma quantia maior de dinheiro, D’.  A circulação capitalista, em suma, é D-M-D’.  Se os capitalistas exploradores deixassem de existir, e a circulação capitalista desaparecesse do mundo, os sobreviventes entre aqueles que hoje trabalham como assalariados estariam vivendo em um mundo de circulação simples, isto é, M-D-M”.

Com isso, como a economia capitalista depende usar material para conseguir mais dinheiro, a tendência de uma base monetária fixa é se concentrar e, com a queda de preços (deflação), a economia estagnar. O capitalismo depende, portanto, de uma base monetária expansiva. Milton Friedman percebera isso, inclusive. Ele sugeria ao Banco Central expandir a base na mesma proporção do crescimento da economia (se o PIB cresceu 2%, M1 deve expandir 2%).

O padrão-ouro não resolve o problema, pois como chama a atenção John Médaille (2010):

“Since gold is a limited commoditty, it’s supply cannot expand as quickly as the economic activity. This led to a chronic period of deflation, which destroyed both farmer and small merchant. Wheat sold for $2.06 per bushel in 1866, but only got 80 cents in 1880 and 35 cents in 1890″.

Uma alternativa para facilitar um consenso na questão da moeda fiduciária e da moeda lastreada foi dada pelo economista Robert E. Hall e que eu chamo de padrão-mercadoria. Hall criou uma cesta de mercadorias cujo aumento de produção fosse constante e chamou de ANCAP (iniciais de cada material da cesta), e propôs que essa cesta fosse um lastro para o dólar. Assim, a economia não se veria atingida tão fortemente por crises deflacionárias. É uma boa alternativa.


Referências:

MELO, Francisco Manuel de; MACEDO, Duarte Ribeiro. Economistas Portugueses: O escritório avarento (1655) e Sobre a introdução das artes (1675). Curitiba: Editora Segesta, 2007.

REISMAN, George. A teoria marxista da exploração e a realidade. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1368> acessado em: 23 de junho de 2019.

MÉDAILLE, John. Toward a truly free market. Wilmington: ISI Books, 2010.

HALL, Robert E. Explorations in the gold standard and alternatives for stabilizing the dollar. Disponível em: <https://web.stanford.edu/~rehall/Explorations%20in%20Gold%20Standard%201982.pdf> acessado em 23 de junho de 2019.


* Bóris é colaborador esporádico da Reação Nacional.

Anúncios

O que é usura e porque ela é importante para entender a crise brasileira?

Arthur Rizzi*

Raphael Mirko**

Christopher Ferrara (2010, p.150), um dos pensadores mais destacados na defesa da Doutrina Social da Igreja e da ortodoxia doutrinária da Igreja na atualidade, define usura como sendo “any form of income extracted from a position of power in which one was enabled to charge whatever the market would bear”. Em eras passadas, a usura era considerada toda e qualquer forma de cobrança de juros num empréstimo, por causa do fato de que, como chama a atenção Ferrara (2010, p.52): “money was merely a means of exchange and did not produce investment income in financial markets or lose value over time due to inflation”. Todavia, por causa das inovações financeiras e econômicas que surgem no fim da Idade Média, como demonstrado por Karl Polanyi em “A Grande Transformação“, a moeda passa a ser um tipo de mercadoria vendida e cotada em preços locais em função de sua oferta e demanda, em comparação a si mesma e em comparação a outras moedas, bem como a necessidade de garantias contra imprevistos temporais (em outras palavras inflação, câmbio e juros).

Se a moeda era, nos tempos de Santo Tomás de Aquino, apenas um veículo neutro entre duas mercadorias (digamos trigo e madeira), não seria lícito a ninguém numa troca exigir mais do que ofereceu a outrem em retorno. Neste caso a moeda meramente representa os bens in natura. Hoje em dia as coisas não são assim. Uma vez que na renascença a situação se modificara completamente, o juro poderia ser concedido como compensação de um risco quantificável e como restituição da depreciação do valor da moeda (inflação). Contudo, apesar do dinheiro ter deixado de ser um veículo neutro, a economia clássica e neoclássica, ao assumir a lei de Say, que afirma que a oferta agregada e a demanda agregada são iguais ex ante, por todo produto ser em si mesmo meio de pagamento por outro produto, permaneceu com este dogma até que John Maynard Keynes com seu Treatise on Money (1930), e posteriormente com sua “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (1936), decidiu apontar o fato inconteste de que o Imperador estava, de fato, nu.

Embora Keynes não tenha feito julgamentos morais, o mesmo ao propor a “eutanásia do rentista”, de certo modo identificou a usura (ainda que não lhe tenha dado seu devido nome) como uma causa meramente técnica da crise do capitalismo. A péssima distribuição de renda e as variações injustas nas taxas de salários e lucros eram um problema que impedia o capitalismo de ser um sistema equilibrado na era do laissez faire. E é na linha da escolástica tardia e em menor escala dos subsídios técnicos de Keynes, que o distributista John Médaille traz-nos a definição prática de usura na economia capitalista moderna: o retorno de juros sobre uma economia deflacionária (cobrança de juros com deflação[1]) e crédito ao consumidor, como política de estabilização da demanda agregada[2].

O primeiro ponto é de entendimento fácil: Se a taxa de juros cobrada é um corretor da inflação, logo, num cenário de deflação a taxa de juros deveria ser negativa. O que ocorre na realidade, é, entretanto, justamente o inverso. Durante as crises deflacionárias como a de 1921, 1929 e 2008, os preços despencaram de parte-a-parte, as taxas de juros, entretanto subiram. Ou ainda, períodos de recessão em que o ajuste fiscal é severamente recessivo como foi durante o governo Temer (e Dilma); neste caso a queda do nível geral de preços empurrado por uma ascensão vertiginosa da taxa de juros é se não usura em ato, ao menos o é em potência. O choque de juros foi tão forte que o Brasil vem registrando desde 2017 as menores taxas de inflação da história republicana recente[3]. Por muito pouco o processo de desinflação não virou deflação.

Do outro lado, a medida de crédito é menos fácil de se entender. A política monetária, sobretudo visando à retomada da demanda agregada por meio de crédito ao consumidor, ou mesmo como mecanismo de aceleração do crescimento econômico é usurária, devido ao fato de que a maior parte do crédito destina-se a compra de bens de consumo, através da geração de uma renda potencial que será paga com juros. Se um banco empresta dinheiro para aquisição de capital (K), então a renda (Y) desse capital formará um excedente que iguala os juros (i). Desta forma, o retorno em juros nada mais é que o retorno justo sobre o capital. O Capital produz novos bens, os bens de consumo, não.

Here we must distinguish between lending for investment and usury. Investment means giving money to firms and entrepeneurs in order to expand production and increase wealth of society. In this case, interest is merely the investor’s participation in the profits; it is the wage of the capital supplied, and the one who supplies it is entitled in justice to wage. Usury, on the other hand, is lending money at interest to increase consumption. Nothing is added to the wealth of society, however much may be added to the wealth of lender. (MÉDAILLE, 2010, p.56)

Wilhelm Röpke (1960, p.185), um dos pais do ordoliberalismo alemão, via com muito maus olhos o keynesianismo hidráulico do pós-guerra como um estimulador de usura, e teceu críticas fortes a esse aspecto usurário da economia do pós-guerra e defendeu o consumo à vista como veículo-motor principal da economia, pois seria consumo de renda presente.

Otro ejemplo, que se mucho acerca al primeiro, es el de las compras a plazo (créditos al consumidor), al cual nos hemos referido anteriormente. Falta también aqui, dentro de la economia de mercado, simetria entre las fuerzas que favorecen esta forma, tan extraordinariamente extendida, de estimular el consumo y las otras, a las que frenan, apesar de que el más acérrimo partidário del credito al consumidor no puede negar el peligro de su desdobramento y de su degeneración.

O que queria dizer Röpke por degeneração, afinal? Além do materialismo implícito no consumismo gerado por esse tipo de medida, ele via do ponto de vista econômico o mesmo perigo que Médaille (2010, p.56) enxerga.

In fact, usury is the most destructive way of increasing demand. Usury actually delays the problem, postpones the crisis to the future period. This is because a borrowed dollar used to increase demand today must be paid back tomorrow and hence will decrease demand in a future period by that same dollar – plus interest.

Não é, portanto, de se estranhar, que uma economia recuperada à base de estímulo ao consumo, ao invés de política fiscal, como é o caso da economia brasileira (e em grande parte a americana), acaba naquilo que o economista Hyman Misnky chamou de debt-deflation[4] (deflação por dívidas), em que os ganhos de lucratividade posteriores a uma recessão são direcionados ao pagamento de dívidas e não ao aumento de produtividade.

Mas não só o consumismo impulsionado por crédito fácil foi a chave da crise usurária, mas também os ganhos salariais muito acima da produtividade do trabalho; o governo petista forneceu durante seus anos aumentos de salário-mínimo acima da produtividade e da inflação[5], o que gerou um processo econômico pernicioso para a indústria nacional, uma inflação constante e, conforme veremos no tópico subsequente, é ao lado do populismo cambial (aumento artificial do poder de consumo por via cambial), a base da crise usurária.


Notas:

[1] Cf. MÉDAILLE, 2010, p.76

[2] Cf. MÉDAILLE, 2010, p.54.

[3] FERRARI, Hamilton. Correio Braziliense: Prévia da inflação registra o índice mais baixo desde o Plano Real. Em 23/01/2019.

[4] Cf. MINSKY, Hyman. Bard: The Debt deflation of great depression. 1994 – pode ser encontrado disponível em <www.digitalcommons.bard.edu/hm_archive/159> acessado em 06/03/2019.

[5] Cf. OREIRO, 2016, p.190.


REFERÊNCIAS:

FERRARA, Christopher. The Church and the libertarian: a defense of the Catholic social teachings on man, economy and State. Forest Lake: Remnant Press, 2010.

MÈDAILLE, John. Toward a trully free market: a distributist perspective on the role of government, taxes, healthcare, deficits and more. Wilmington: ISI Books, 2010.

RÖPKE, Wilhelm. Mas alla de la oferta y la demanda. Valencia: Fomento de Cultura Ediciones, 1960.

OREIRO, José Luís. Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Rio de Janeiro: LTC, 1998.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e tem formação complementar livre em macroeconomia pela Faculdade Sul Mineira (FASUL-MG)

** Raphael Mirko é graduando em economia pela Faculdade Santo André (FSA) e história pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

Marx estava errado sobre a natureza do dinheiro

 

Texto traduzido e extraído do site Social Democracy in 21st century traduzido por Boris.

Extraído do volume 3 d’O Capital (primeira publicação de Engels in 1894):

“Mas tão breve quanto o crédito é abalado [em crises comerciais]—e essa fase sempre surge da necessidade de ciclos na indústria moderna—toda a riqueza real é na realidade e repentinamente transformada em dinheiro, em ouro e prata, uma demanda louca, que entretanto, necessariamente cresce dentro do próprio sistema. E todo o ouro e prata, que supostamente deveria satisfazer essas enormes demandas, contabilizam alguns milhões de cédulas num banco.

O efeito da drenagem do ouro, o fato de que a produção como um processo social não está sujeito ao controle social é notavelmente enfatizado pela existência de uma forma social de riqueza que existiria fora dela como uma coisa separada. O Sistema de produção capitalista, é verdade, compartilha isso com sistemas de produção anteriores, na medida em que ele também se apoia em troca de mercadorias e comércio privado. Mas somente isso se torna aparente na forma mais marcante e grotesca da mais absurda contradição, porque, em primeiro lugar, a produção para o uso direto dos produtores é quase que completamente abolida sob o sistema capitalista, de modo que a riqueza existe apenas como um processo social expresso pelas inter-relações de produção e circulação (as coisas não são produzidas para serem utilizadas, mas para serem vendidas); e, em segundo lugar, porque  o sistema de produção capitalista sempre luta para superar essa barreira metálica, a barreira material e fantástica da riqueza e de seus movimentos, na medida em que o sistema de crédito se desenvolve, mas sempre quebra a cara nessa mesma barreira.

Na crise, a demanda é  quase toda convertida em letras de câmbio, títulos e mercadorias que sejam simultaneamente conversíveis em dinheiro do banco, e todo esse dinheiro do banco é composto de ouro ”. (Marx 1909: 673–674).

“Mas nunca deve ser esquecido que o dinheiro, em primeiro lugar, existe na forma de metais preciosos, e isso continua a ser a base da qual o sistema de crédito naturalmente nunca pode escapar. ”(Marx, 1909: 712)

“O sistema bancário mostra, além disso, colocando diferentes formas de crédito circulante no lugar do dinheiro, que o dinheiro é, na realidade, nada além de uma expressão especial do caráter social do trabalho e seus produtos, de modo que esse caráter, distinto da base da produção individual, deve apresentar-se em última análise como uma coisa, como uma mercadoria peculiar ao lado das outras mercadorias ”. (Marx 1909: 713).

 

Essas afirmações têm a virtude de serem claras: o dinheiro, para Marx, só pode, no fim das contas, ser uma mercadoria e, por implicação, o dinheiro de papel ou o dinheiro do crédito só pode ser um símbolo para o dinheiro como mercadoria.

[…]

“Dinheiro – a forma comum, na qual todas as mercadorias como valores de troca são transformadas, isto é, a mercadoria universal – deve existir em si mesma como uma commodity em particular junto com as outras, já que o que é necessário não é apenas que elas possam ser medidas , mas que eles possam ser convertidas e trocadas por ele no processo de troca real. […] O dinheiro não surge por convenção, muito  mais do que o Estado faz. Ela surge da troca e surge naturalmente fora da troca; é um produto da mesma. ”

Marx, The Grundrisse, Caderno 1, outubro de 1857, O Capítulo sobre Dinheiro (Parte II)

https://www.marxists.org/archive/marx/works/1857/grundrisse/ch03.htm

Tentativas de reivindicar que o dinheiro fiduciário pode funcionar adequadamente como dinheiro dentro do sistema econômico de Marx, tal como Marx entendia o dinheiro estão totalmente erradas. Se os marxistas vão fazer isso, eles devem admitir que precisam rever radicalmente o sistema econômico de Marx e que Marx estava errado sobre dinheiro em aspectos importantes.

REFERÊNCIAS
Marx, Karl. 1909. Capital. A Critique of Political Economy. Volume III. The Process of Capitalist Production as a Whole (trans. Ernst Untermann from 1st German edn.). Charles H. Kerr & Co., Chicago.

A escola austríaca e a moeda de Schrödinger

Arthur Rizzi*

A contribuição mais central e relevante da Escola Austríaca de economia para a ciência econômica é sem dúvidas a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (doravante TACE), ela se funda na sua versão mais difundida, a proposta por F.A. von Hayek na ideia de que qualquer queda artificial da taxa de juros produz malinvestiments, dado que o dinheiro novo na medida em que entra no sistema produtivo converte-se em investimento em maquinários, aumentos de salário, e não tendo isso qualquer lastro em poupança real e em poder de consumo, terminará por criar uma recessão. Fica claro portanto, que essa tese que ampara não só a interpretação austríaca do ciclo econômico como a própria teoria da inflação, se ampara no conceito de não-neutralidade da moeda.

Se você é leigo e não entende economês, não importa, a gente explica: neutralidade da moeda é o conceito segundo a qual a moeda serve apenas e exclusivamente como meio de troca, não tendo valor em si, mas apenas enquanto meio de troca por outras mercadorias. O que significa entre outras coisas, que um aumento ou uma contração da oferta monetária não produz alterações reais na economia, apenas nominais, como a variação do nível de preço dos produtos através da apreciação ou depreciação da moeda frente eles. Assim, o “valor” da moeda seria apenas o seu valor enquanto meio de troca. Em outras palavras, como podemos ver na teoria quantitativa da moeda (que assume a neutralidade da moeda), aumento na oferta monetária só produz inflação, mas não mudanças estruturais na economia em variáveis como emprego e produção.

“a teoria dos ciclos reais (proposta novo-clássica de Robert Lucas Jr.) supõe que a moeda é neutra. Ou seja, a política monetária não afeta as variáveis reais, como o produto e o emprego.” (MANKIW, 1998, p.301)

Assim, portanto, é dedutível que a não-neutralidade da moeda afirma exatamente o inverso. De que a moeda não é neutra e que ela produz alterações estruturais profundas na economia, o que aliás é proposição da TACE, tendo inclusive um valor próprio.

Entretanto, a TACE se ampara na teoria da taxa natural de juros. Essa teoria desenvolvida pelo economista sueco Knut Wicksell propunha uma teoria não monetária dos juros, isto é, cada bem da economia teria uma taxa de juros própria, e o preço do crédito (juros monetário) estaria em equilíbrio quando esta coincidisse com a taxa real dos bens. Assim, a moeda seria um veículo neutro capaz de reproduzir todos os juros da economia. Para que a taxa de juros seja o juros verdadeiro, é necessário que a moeda seja neutra, dessa forma, sempre que o juros monetários estivessem abaixo do juro real (dos bens in natura), haveria inflação e sempre que estivesse acima, haveria deflação, mas sem em nada afetar estruturalmente a economia no longo prazo.

A Lei de Say implica uma economia onde a moeda é “neutra”. Nas palavras do próprio economista francês:

Nos lugares que produzem muito, cria-se a única substância com a qual se pode comprar: refiro-me ao valor. O dinheiro representa apenas um ofício passageiro nessa troca dupla; e, terminadas as trocas, verifica-se sempre: produtos foram pagos com produtos. (…) Os produtos criados fazem nascer demandas diversas. (Say, 1803, p. 139 e 142)

Essa afirmação é a base da Lei de Say, que é um dos alicerces da TACE. Como nos diz o próprio Thomas Sowell (1994, p.39-41) enquanto explica a lei de Say – tradução livre:

“Não existe perda de poder de compra em nenhum lugar da economia. Pessoas poupam apenas na extensão do seu desejo de investir e não seguram dinheiro muito além das suas necessidades de transacionar durante esse período”.

Ora, para que a TACE seja verdadeira, a lei de Say deve ser verdadeira, e para que a lei de Say seja verdadeira, a taxa natural de juros tem de ser verdadeira. Uma vez que entendamos essa linha de dependências lógicas percebemos a grande contradição.

Para que a TACE seja verdadeira, a moeda não pode ser neutra; e para que a lei de Say seja verdadeira a moeda tem que ser neutra! Em outras palavras, ou Erwin Schrödinger virou economista e trouxe seu gato (chamemos o bichano de catcoin) para o trabalho, ou o princípio de não-contradição ainda vale e a mesma moeda não pode ser e não ser neutra ao mesmo tempo! Essa é uma das razões pelas quais devemos ou rejeitar a lei de Say ou rejeitar a TACE.

Consequências lógicas:

Temos então dois cenários:

  1. Rejeitamos a lei de Say: Se rejeitarmos a lei de Say, então damos razão a Keynes, e dizemos que pode haver perda de poder de compra na economia através de entesouramento e de investimento em ativos líquidos não reproduzíveis, o que impossibilita a TACE de existir.
  2. Rejeitamos a TACE: Logo, nessa hipótese, a teoria austríaca da inflação também não é verídica, e como consequência as teorias de ciclo alternativas, como a de Wilhelm Röpke em seu “Crisis and cycles” passam a ser teorias melhores. E na questão da inflação teremos de dar razão a James Tobin no seu clássico “Moeda, capital e outras reservas de valor“.

Independente do que você prefira, a TACE não é válida;

Referências:

MANKIW, Nicholas Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 1998.

SOWELL, Thomas. Classical Economics Reconsidered, Nova Jersey: Princeton University Press, 1994.

SAY, J. B.  Tratado de economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1986 (1. ed. em
francês, 1803) 1803.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e estudioso de história do pensamento econômico. 

Mises contradiz Rothbard em matéria de inflação.

Este artigo foi originalmente postado no Social Democracy in 21st Century e republicado por Reação Nacional.

No Mises.org há um artigo interessante acerca das definições de inflação entre os austríacos.

Per Bylund, “Inflation and Deflation: Austrian Definitions,” November 18, 2011.

Em essência, o autor cita esta definição de inflação por Mises em seu tratado The Theory of Money and Credit (1953):

“Inflação: um aumento na quantidade de dinheiro (em sentido amplo do termo, assim incluindo meios fiduciários de pagamento), que não é contrabalanceado por um aumento correspondente na procura por dinheiro (novamente em sentido amplo do termo), então uma queda no valor objetivo de troca do dinheiro acontecerá. Novamente, deflação significa: uma diminuição da quantidade de dinheiro (em sentido amplo) que não é contrabalanceado por uma diminuição correspondente na procura por dinheiro (em sentido amplo), o que produz um ganho no valor objetivo de troca do mesmo.” (Mises 2009 [1953]: 240).

O significado dessa passagem é discutida por Horwitz (2000, p.78), que argumenta que isso parece permitir a idéia de que um Sistema bancário de reserva fracionária poderia criar crédito e moeda (meios fiduciários) em resposta a uma demanda por isso, sem, na visão de Mises, causar inflação.

Em contraste a esta visão, nós temos a definição de Murray Rothbard em Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles (1962):

“O processo de emissão de pseudo-recibos de depósito ou, mais exatamente, o processo de emissão de dinheiro além de qualquer aumento no estoque de espécie, pode ser chamado de inflação. Uma contração da oferta de dinheiro enorme em comparação a qualquer período (exceto numa queda de espécie) pode ser claramente chamado deflação.” (Rothbard 2004 [1962]: 990).

Essa definição obviamente contradiz a de Mises, e o que nós temos aqui é  uma clara divisão dentro da escola Austríaca aqueles que:

(1) sustentam o  “equilíbrio monetário” como visão acerca da inflação como aumento de dinheiro maior que a demanda por ele (Tal como Steve Horwitz, e a visão dos Free Bankers), e

(2) os Rothbardianos e outros anti-reserva fracionárias que afirmam que qualquer aumento na oferta de dinheiro não lastreada por mercadorias como inflação.

 

BIBLIOGRAPHY

Horwitz, S. 2000. Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective, Routledge, London and New York.

Horwitz, S. “Mises Defining Inflation the Monetary Equilibrium Way (in 1951),” Coordination Problem, September 3, 2009.

Mises, L. von, 2009 [1953]. The Theory of Money and Credit (trans. J. E. Batson), Mises Institute, Auburn, Ala.

Rothbard, M. N. 2004 [1962]. Man, Economy, and State: A Treatise on Economic Principles, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala

Aumento de base monetária nem sempre gera inflação.

O texto abaixo é um excerto de um texto maior de Humberto Matos publicado no blog Acervo crítico, comentado e transcrito por Reação Nacional.

O economista da síntese keynesiana-neoclássica James Tobin num texto chamado “Money, Capital and Other Stories of Value”, demonstrou que quando ocorre um aumento de base monetária (doravante BM) por parte do BC, isso não gera o efeito riqueza que seria a causa de inflação.

Vejamos o argumento quatitativista para justificar a inflação a partir da expansão da BM é que com mais meios de pagamento haverá um aumento do consumo e isso incorrerá numa inflação de demanda. Esse argumento despreza a capacidade ociosa da indústria em momentos de economia desacelerada, entretanto vamos assumir que não há capacidade ociosa para não invalidar o argumento.

Segundo Tobin, o que ocorre quando o BC expande base é uma troca de ativos financeiros o que não é capaz de produzir efeito riqueza porque ninguém consome mais na economia em função de uma mudança na composição dos ativos na economia. Ele diz isso afirmando que existem duas formas do BC expandir a BM. Uma é numa operação de open market onde ele compra títulos públicos que estão na mão do setor privado. Essas operações são possíveis porque já existem títulos públicos vendidos pelo BC numa operação anterior inversa, uma operação de venda de títulos para o setor privado.

Nesse caso, o BC trocou parte de sua reserva em moeda estrangeira por títulos que estavam em poder do público (os BCs compram e vendem moeda estrangeira para compor as reservas monetárias do país), com esses títulos, ele expande a base, ou seja, ele usou parte de um capital imobilizado como reserva financeira – suas reservas em moeda estrangeira – que havia extraído da economia a partir de seus lucros, para comprar títulos que já haviam sido criados pelo Governo, esses títulos são então usados para compor os ativos do BC permitindo a emissão de moeda, assim, há menos títulos na economia e menos moeda estrangeira imobilizada e mais moeda nacional, o que não gera efeito riqueza e, não altera o nível de ativos na economia, portanto, não gera inflação.

O outro modo do BC expandir a base – e o mais comum – é saldando as dívidas da balança de pagamentos do Governo. O Governo gasta mais do que arrecada e a parcela faltante é paga com emissão de dívida. Nesse caso, argumenta Tobin, também ocorre uma troca de ativos financeiros. Existe essa troca, segundo ele, porque o déficit é fruto de investimento público então se troca investimento por dívida. Se é investimento, se espera retorno. Assim, também não gera efeito riqueza e, portanto, não causa inflação de demanda.

RN: Essa é a razão pela qual os Quantitative Easings após a crise de 2008 não geraram inflação nem hiperinflação como alardeado por Peter Schiff. A mesma razão explica por exemplo a enorme base monetária japonesa, maior que o próprio PIB do país e inflação mínima.

Num mundo de moeda fiduciária, mas com o dólar como instrumento para a finalização dos contratos no mercado internacional atrelado ao ouro, a mecânica da economia funciona como na moeda mercadoria e os preços são relativos, assim, o que poderia também causar inflação seria o câmbio, ou melhor – já que estamos falando de padrão ouro – o saldo da balança comercial.

Nesse caso, Tobin argumenta que não é o volume de meios de pagamentos que geram esse desequilíbrio e conseguinte inflação, ele argumenta que esse desequilíbrio é fruto do nível de atividade econômica, ou seja, a produção. Se a expansão da base é o custo do investimento e se o investimento é o que aquece a economia e se por último, a economia aquecida impede a desvalorização causada pela balança comercial, não há como um aumento de BM do BC causar inflação nessa segunda e mais recorrente situação também.

A regulamentação econômica manteve o capitalismo sobre certa estabilidade até os anos oitenta do século XX. Neste período a inflação passou a se tornar um problema e a dívida pública também. As regulamentações impostas depois da crise de 29 admitiam a inflação como instrumento para evitar o desemprego, com o tempo foi se tornando cada vez mais difícil manter o nível de crescimento do consumo a fim de sustentar o modelo de moeda dívida num ritmo saudável sem comprometer a capacidade de pagamento da dívida pública, a concentração natural do capital em meio ao modelo capitalista fazia com que cada vez mais os países da periferia do capitalismo não conseguissem manter a estabilidade de suas moedas devido a falta constante de capacidade de honrar com o pagamento dos seus títulos. Quando os países da periferia do capitalismo não conseguem horar seus pagamentos, seus credores ficavam com o prejuízo então, isso não era bom para a economia capitalista. O credor, em última análise era o FED (BC dos EUA) – a moeda padrão para as transações internacionais já era o dólar – que mantinha um padrão ouro e fazendo isso, controlava o câmbio.

Essa situação se modificou a partir de 1971, quando o FED deixou de seguir o padrão ouro e corrigiu sua política de juros a fim de resolver seu problema de balanço de pagamentos:

Teoria austríaca da inflação: exposição e crítica – parte 2.

Este artigo foi originalmente postado em Social Democracy in 21st century e traduzido por Reação Nacional.

Padrão Ouro e inflação.

O padrão-ouro não era garantia contra inflação? Este é um dos argumentos austríacos para o padrão-ouro. Porém a evidência demonstra que não necessariamente. O Reino Unido registrou inflação moderada e alta persistentemente entre 1897 e 1912, especialmente devido ao aumento da oferta de ouro.

Além do mais, quando nós examinamos artigos da teoria austríaca da inflação no Instituto Mises nos artigos mais acadêmicos dos intelectuais austríacos, nós encontramos posições mais equilibradas:

“a essência da inflação não é um aumento geral nos preços mas um aumento na na oferta de dinheiro, que engendra uma tendência a um aumento generalizado  nos preços de bens e serviços …. Enquanto aumentos na oferta de moeda (i.e., inflação) sejam diretamente percebidas através de aumentos de preços, este nem sempre é o caso. Preços são determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo. Em outras palavras, enquanto a oferta de moeda crescente continua alta – i.e., inflação está alta – os preços podem mostrar pouquíssimas alterações.”
Frank Shostak, “Defining Inflation,” Mises Daily, March 6, 2002.

Shostak também acredita que aumentar a oferta de dinheiro leva a má alocações de recursos. Isto é de fato possível, especialmente em sistemas financeiros desregulados ou mal regulados, mas isso não é de maneira nenhuma inevitável e necessário. Ou seja, voltamos a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (Veja aqui algumas críticas).

Um ponto importante, porém, é que Shostak é cuidadoso ao qualificar sua afirmação mencionada acima. Ele diz que aumentos na oferta de moeda irão causar aumentos nos níveis gerais de preços, mas então concede que os preços são determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo.”

Essa é uma qualificação importantíssima. Shostak está correto quando diz que os aumentos dos níveis gerais de preços depende muito de fatores reais, tanto quanto monetários. Por exemplo, os fatores abaixo podem empurrar para baixo o nível geral de preços:

  1. queda de preços por aumento de produtividade de certos bens;
    2. apreciação da taxa de câmbio;
    3. Um aumento na quantidade de importados baratos circulando no país;
    4. Queda em preços e comoditties que são matéria-prima de produtos em geral;
    5. Mudanças na velocidade com a qual o dinheiro circula;
    6. Aumento do desemprego (= menor demanda por bens e serviços),e
    7. Redução do crédito bancário.

Na realidade, todos ou alguns desses fatores listados acima podem operar de modo tal que haja inflação zero (como no caso do Japão entre 1990 e 2004) ou mesmo deflação ainda que a oferta de moeda siga crescendo. Exemplos do mundo real:. No fim do século XIX, o Reino Unido registrou queda de preços (deflação) entre 1873 e 1896. Todavia, a oferta de moeda seguia crescendo nestes anos: entre 1873 e 1896 o estoque de moeda cresceu 1.3% por ano, 33% no período todo. Ainda, entre 1873 e 1896 os preços de varejo caíram 39%. O que aconteceu nesse período foi que o aumento da oferta de moeda foi mais lenta do que sua circulação e demanda por ela, houve também aumento de produtividade no setor da agricultura (Capie and Wood 1997: 287–289).

Agora que temos a evidência de uma visão como a de Frank Shostak, uma versão mais equilibrada fa teoria austríaca da inflação, torna-se difícil entender porque a maioria insiste em afirmar que aumentos na oferta de dinheiro sempre levam necessariamente a um aumento no nível de preços. […]

Uma vez que se aceitou que (1) o relacionamento entre um aumento no estoque de moeda e um aumento no nível geral de preços não é necessariamente automático ou inevitável, e (2) que se aceite que a TACE está errada (link aqui), a maior parte das objeções vulgares a política monetária (aumento da base monetária) se perdem.