Ernesto Araújo e o destino manifesto dos tupiniquins

Arthur Rizzi*

O sapo barbudo de Tréveris, Karl Marx, dizia que a história primeiro se repete como tragédia e depois como farsa. Essa frase não poderia ser mais apropriada para inaugurar um artigo sobre política externa na era do olavismo triunfante. Do somatório de fracassadas intervenções americanas pelo mundo, e trágicas incursões militares em locais remotos da Terra para salvaguardar interesses americanos (não há limites claros para o que é e o que não é interesse americano), nasceu nos EUA uma cada vez mais forte posição dos americanos por uma posição isolacionista. Eu os compreendo e me compadeço, Trump venceu as eleições em 2016 com esse discurso e não obstante as lutas contra o Estado Islâmico, vem progressivamente cumprindo suas promessas, embora, talvez, não com a velocidade desejada por muitos. Mas dado que o presidente americano anunciou a saída da Síria a alguns dias, pode-se constatar que Trump não era favas contadas, afinal.

Agregue-se a isso um cenário no qual China e Rússia vem ganhando espaço geopolítico na África e na América Latina, o que tem forçado os EUA a focarem sua atenção no seu velho quintal, a América Latina.

O intervencionismo americano vem da crença na doutrina do “Destino Manifesto”, uma espécie de teologia da história que coloca o povo americano como centro dela e a sua nação como o veículo de libertação do mundo. Quando os calvinistas fugiram da perseguição anglicana na Inglaterra para as treze colônias, muitos pastores protestantes como John Withtrop utilizaram a visão do êxodo dos hebreus em fuga pelo deserto da perseguição de Faraó como modelo para o que viviam, e assim como o povo escolhido tinha uma missão para a revelação de Jesus, o povo americano tinha a mesma missão de ser “a nation under God” vivendo na “city upon a hill” (Mt 5, 14). E essa visão guiou tudo, da guerra da independência a expansão para o Oeste, todas essas ideias já antes misturadas ao ideário iluminista dos founding fathers tornou-se o guia para a política externa americana.

Muito se critica os neoconservadores por terem supostamente inovado ao fazer do imperialismo e do intervencionismo americano no Oriente Médio uma prática que nada tem a ver com o conservadorismo dos Estados Unidos. Seria na visão deles uma distorção grave, a ideia segundo a qual a “América” era fundada sobre ideais de riqueza, democracia e liberdades individuais. E que, portanto, sua teologia e teleologia históricas eram espalhar e zelar por esses valores no mundo “’Til the kingdom come”. Todavia isso não é nem uma inovação do partido republicano dos neocons e nem uma distorção. Ao contrário, ela é precisamente o fundamento do Estado americano.

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Como Christopher Ferrara (2012, p.230) assinala, a doutrina Monroe nada mais era que essa ideia em germe. Da mesma forma que o triunfo do norte sobre o sul foi a salvação do ideal democrático, republicano e do direito do indivíduo emanado da revolução americana, vitória esta contra o escravagismo e aristocratismo do sul, a doutrina Monroe era, então, a unificada nação americana como polícia das Américas.

The Monroe doctrine, promulgated with [Thomas] Jefferson’s advice, declared: “The American continents […] are henceforth not to be considered as subjects for future colonization by any european powers.” The effect of the doctrine, soon to be backed by America’s economic and military might, was to create “two separate spheres of influence the Americas and Europe: the independent lands of western hemisphere would be solely United States domain”.

Assim, como pontua mais adiante Ferrara, isso fez dos Estados Unidos “the policeman of Liberty throughout the Americas”. Em outras palavras, a doutrina Monroe nada mais era do que uma parte do processo pelo qual os EUA tornaram-se o xerifão do mundo. E agora, temos Ernesto Araujo que em posts recentes vem propondo ao Brasil seguir os passos dos Estados Unidos, ser um exportador de ideais de esperança, de democracia liberal e direitos individuais, a começar pela América Latina, lançando no twitter impropérios contra os rivais ideológicos do novo governo e fazendo a proposta de uma aliança entre EUA, Rússia e Brasil, as três maiores nações cristãs do mundo na visão dele. Ou seja, o Brasil é a nova  “a nation under God”.

E a doutrina de Araújo, uma mistura de TFPismo e olavismo é a nossa nova “doutrina Monroe”, doutrina que visa enfurnar o Brasil na OTAN, atirar ao lixo da história a tradição de um país com sua respeitada diplomacia, e que através dela construiu seu território de proporções continentais, e que por ela preservou a monarquia recebida do velho mundo num acordo de família, e que por ela preservou o Estado confessional que recebeu da Igreja Católica e de Portugal. Doutrina esta baseada em acordos e tratados exemplarmente respeitados e que só se envolve em guerras justas como a do Paraguai e a Segunda Guerra Mundial por manifesta falta de alternativas, e cuja respeitabilidade advém justamente da sua capacidade de procurar saídas pacíficas. Mas um governo conservador não deveria, em tese, preservar tradições ao invés de destruí-las? Sobra essa pergunta ao senhor Araújo a qual aguardo uma resposta dele ou da história. Essa é a nossa farsa, a de querer os fins antes de ter os meios. E que Deus abençoe a América o Brasil.


Referências

FERRARA, Christopher A. Liberty, the God that failed: Policing the sacred and constructing myths of the secular State – from Locke to Obama. Tacoma: Angelico Press, 2012.


*Arthur Rizzi é historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo  (UFES) e pedagogo formado pelo Centro Universitário São Camilo – Espírito Santo.


Atualização: https://br.sputniknews.com/americas/2019030413428932-eua-bolton-venezuela-doutrina-monroe-lavrov-america-latina/

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O tradicionalismo católico no Brasil corre sério risco com Bolsonaro.

"No longo prazo, o mal menor causa muito mais estragos".

Javier Barraycoa.

Arthur Rizzi*

Ao ler o título você deve ter pensado: – “Bem, o Rizzi enlouqueceu!”. Peço que continue a leitura, ainda que pense que não faz sentido um candidato conservador de costumes ser uma ameaça maior que o PT. Porém, eu digo: É maior, sim!

A esquerda política era um inimigo fácil de identificar e distinguir, o conservadorismo liberal, não. Em nome da “unidade da direita”, abraçou-se numa grande frente ampla tradicionalistas, nacionalistas, conservadores e liberais contra o PT. Formaram-se alianças, acordos e apoios mútuos. Isto significa que os lados em questão tiveram de fazer concessões.

Os tradicionalistas abriram mão de uma adesão mais firme a DSI e aceitaram o liberalismo econômico para agradar os liberais e os conservadores. Os liberais toleraram algum conservadorismo moral para agradar tradicionalistas e conservadores, e também, conservadores e liberais toleraram algumas “estatais estratégicas” sendo mantidas para agradar aos nacionalistas.

Em outras palavras, na política prática – real politics – faz-se concessões o tempo todo, que depois deverão ser honradas e cumpridas. Com isso subiram nos mesmos palanques, participaram dos mesmos eventos, lecionaram nos mesmos espaços intelectuais das mais diferentes vertentes ideológicas. Olavetes estão em grande numero no CDB; liberais do MBL dividem espaço com conservadores no fórum da liberdade, e participam dos manifestos contra o queermuseum junto com os tradicionalistas do CDB.

Essa mistura deixa, obviamente influências em cada grupo. Então você percebe onde quero chegar: Em nome de eleger um presidente, todos participaram disso. os tradicionalistas em nome de um hipotético mal menor, apoiaram Bolsonaro, mesmo ele dizendo coisas que não se adequam a DSI. Agora, ele está eleito. O que farão os tradicionalistas?

A posição correta seria uma oposição cordial e respeitosa. Cordial para apoiar aquilo que este governo fizer de bom, respeitosa para atacar o que há de errado sem favorecer a oposição a esquerda. Mas o que farão? Minha experiência pessoal e o que eu tenho visto sugere apoio total.

Sob a capa de evitar o retorno da esquerda o tradicionalismo vai defender e justificar o governo Bolsonaro em tudo, e pode acabar por fazer vista grossa e até apoiar medidas que claramente vão contra a DSI. Não que defender o governo Bolsonaro não seja desejável em algum aspecto. Mas uma coisa é defender aspectos de um governo. Outra é justificar qualquer merda que um governo faça. E até hoje nunca vi massa militante fazer essa distinção.

Veremos (e eu já tenho visto) daqui a algum tempo, tradicionalistas católicos dizendo que a privatização do SUS é de acordo com a subsidiariedade e previsto na DSI; que políticas sociais para promover uma menor disparidade de renda é comunismo; que a privatização de estatais estratégicas – se levadas a cabo – está de acordo com a DSI, pois está de acordo com o princípio de subsidiariedade. Que promover a desindustrialização do Brasil e fazer do país um mix de fazenda, paraíso fiscal e cassinos é algo bem tradicional e agrarianista.

E paulatinamente, a DSI na visão destes grupos, assim como a interpretação que a velha TFP fazia dela, vai se tornar tão incrivelmente similar ao liberalismo econômico que será praticamente impossível distinguir um do outro. E no final das contas, o tradicionalismo vai desaparecer num mar de conservadorismo liberal e “justificacionismo” de um governo que tem mais compromisso com evangélicos e maçons do que com a Igreja Católica, sempre vista com suspeita por causa da “ameaça comunista” representada pela “teologia da libertação” e o seu símbolo-mor o papa Francisco…

Meu último apelo é que ouçam/leiam dois autores chave: Perillo Gomes e Christopher Ferrara. Se ainda assim não ficarem satisfeitos, depois não digam que eu não avisei…


*Arthur Rizzi é católico apostólico romano, lefevbrista, regressista, trabalhista em economia, distributista em políticas públicas e tradicionalista em princípios.