Conceito de Distributismo.

Destacado

Arthur Rizzi.

O cão senhorial – Símbolo do Distributismo.

Distributismo é um modo de produção, isto é uma forma de relação entre o homem e a natureza e entre o homem e o próprio homem. Ele consiste na reunificação do capital e do trabalho sem a necessidade de abolição da propriedade privada.

No distributismo existem quatro (04) formas de propriedade:

1- A propriedade privada familiar: Pode ser um pequeno negócio, como uma padaria, um mercadinho, uma farmácia, uma pequena fábrica, um roçado. Em suma uma pequena unidade produtiva que emprega a própria família, a qual goza ela própria dos proveitos de sua produção.

2- A propriedade cooperativa: Um grupo de pequenos proprietários podem se unir para produção conjunta de bens de maior valor agregado e que exijam maior divisão do trabalho, ou ainda atender de modo mais eficiente um mercado. Por exemplo, uma cooperativa de laticínios, um banco cooperativo, ou até mesmo uma cooperativa industrial como a da Emília-Romana.

3- A propriedade sindical: Quer com poupança própria acumulada, quer por meio de um fundo de investimento mantido pelo governo, consiste numa cooperativa de trabalhadores, onde eles gerenciam o que deve ser produzido e trabalham no próprio empreendimento. Nesse tipo de propriedade, o lucro remunera os trabalhadores e os fatores de produção, não havendo trabalho assalariado. A propriedade pertence a uma pessoa jurídica controlada pelos trabalhadores na qual eles são associados, de modo tal que cada um deles é proprietário da firma numa dada proporção.

4- Propriedade estatal: Espera-se que essa seja a menos representativa no quantitativo das propriedades, mas que seja a que gerencie os ativos importantes para a segurança nacional e manutenção do sistema distributista. Ela fica encarregada de empresas com alto grau de sofisticação e que sejam de setores próximos aos de interesse do estado como o setor de comunicações, educacional, aeroespacial, financeiro e militar. Nesses setores existe o trabalho assalariado, o lucro todavia remunerará além dos fatores, o desempenho individual e comporá o fundo que subsidia a propriedade sindical (03).

A grande propriedade privada poderia ser permitida em certas circunstâncias, conforme a necessidade econômica, contanto que ela ofereça mecanismos de participação do trabalhador nos lucros mediante produtividade e outros benefícios sociais previstos em lei, obedecendo o princípio da justa divisão do trabalho, como exposta por Gustavo Corção:

Há coisas naturalmente muito pequenas e coisas naturalmente grandes. Um ponto de cigarros é um negócio naturalmente pequeno, pois em dois metros por três, o negociante atinge uma perfeição de forma, tendo um número razoável para a procura de todas as marcas existentes […] Já o mesmo não podemos dizer de um serviço de bondes: seria extremamente extravagante propor que cada um tivesse seu bonde. Uma fábrica de pregos, ou de rádios ou de locomotivas exige uma quantidade de máquinas e de organização só compreensível em ponto grande. Cada coisa tem um tamanho adequado a sua natureza.

(CORÇÃO, 1961, p.269)

REFERÊNCIAS:

CORÇÃO, Gustavo. Três Alqueires e uma vaca. Agir: Rio de Janeiro, 1961

A deliberadamente apagada contribuição da escolástica de Salamanca em Keynes

O conceito da eficiência marginal do capital (EmgC) é uma tese que Keynes confessa no capítulo 23 da Teoria Geral que extraiu dos escolásticos de Salamanca, diz ele:

“Eu fui educado na crença de que a atitude da Igreja na Idade Média para com a taxa de juros era inerentemente absurda e que os sutis argumentos visando distinguir entre o rendimento dos empréstimos monetários e a renda dos investimentos ativos não passavam de recursos jesuíticos para encontrar uma saída prática para uma teoria insensata. Hoje, entretanto, esses argumentos parecem-me um esforço intelectual honesto para conservar separado o que a teoria clássica misturou de modo inextrincavelmente confuso, a saber, a taxa de juros e a eficiência marginal do capital. Agora vê-se claramente que as indagações dos escolásticos se destinavam a encontrar uma fórmula que permitisse à curva da eficiência marginal do capital ser elevada, ao mesmo tempo que aplicavam os regulamentos, os costumes e a lei moral para manter uma taxa de juros baixa.”

Keynes, 1995, p.323

Segundo Keynes essa tese consiste na ideia de que para cada unidade extra de capital investido, o retorno esperado (lucro) é decrescente, e que o investimento tende a subir o até o limite em que custo e retorno se igualem ou alcancem uma margem mínima de lucro. Caso assim fosse em todo caso, não haveria desemprego involuntário. Se o há, é porque algo impede que o investimento alcance a totalidade dos bens de capital possíveis.

Esse algo é a taxa de juros, que se cair muito lentamente ou, pior, resistir a queda, faz com que o rentismo seja mais interessante que o investimento produtivo. Para que, num ambiente de confiança, o emprego seja maximizado a taxa de juros tem que cair mais rápido ou, no mínimo, pari-passu com a EmgC.

Todavia, pode ocorrer que num ambiente de incerteza, a pura e simples queda do juro não traga os investimentos de volta e que, nessa situação, os agentes privados prefiram reter moeda líquida em espécie ou em conta corrente. Esse ponto é a chamada armadilha de liquidez. Segundo Keynes, para sair dessa armadilha, seria necessário o uso da política fiscal.

(2004) Dignidade para receber a Sagrada Comunhão: Princípios Gerais – Cardeal Joseph Ratzinger.

1. Apresentar-se para receber a Sagrada Comunhão deveria ser uma decisão bem refletida, fundada em um julgamento racional sobre a dignidade para fazê-lo, segundo os critérios objetivos da Igreja, colocando-se certas questões como: “Eu estou em plena comunhão com a Igreja Católica? Eu sou culpado de um pecado grave? Eu incorri em alguma pena (por exemplo uma excomunhão ou uma interdição) que me impede de receber a Sagrada Comunhão? Eu me preparei com jejum de pelo menos uma hora?”. A prática de se apresentar à Sagrada Comunhão indiscriminadamente, meramente como consequência de se estar presente na missa, é um abuso que deve ser corrigido (cf. Instrução Redemptoris Sacramentum, nº 81, 83).2. A Igreja ensina que o aborto ou a eutanásia são pecado grave. A EncíclicaEvangelium Vitae, que faz referência às decisões da justiça ou às leis civis que autorizam ou promovem o aborto ou a eutanásia – estabeleceu que existe “uma grave e precisa obrigação de se opor [a essas práticas] pela objeção de consciência. […] No caso de uma lei intrinsecamente injusta, tal qual a que admite o aborto ou a eutanásia, não é lícito, jamais, obedecê-la ou ‘participar de uma campanha de opinião em favor de uma tal lei ou votar por ela’” (n. 73). Os cristãos têm “uma grave obrigação de consciência de não colaborar formalmente às práticas que, ainda que admitidas pela legislação civil, estejam em oposição à Lei de Deus. De fato, do ponto de vista moral, não é jamais lícito cooperar formalmente com o mal. […] Esta cooperação não pode nunca ser justificada invocando-se o respeito da liberdade dos outros ou apoiando-se sobre o fato de a lei civil prevê-la ou requerê-la” (n. 74).3. As questões morais não têm o mesmo peso moral que o aborto ou a eutanásia. Por exemplo, se um católico estivesse em desacordo com o Santo Padre sobre a aplicação da pena capital ou sobre a decisão de fazer a guerra, ele não seria considerado, por esta razão, como indigno de se apresentar para receber a Sagrada Comunhão. Se por um lado a Igreja exorta as autoridades civis a buscar a paz e não a guerra e a fazer prova de moderação e de misericórdia na aplicação das penas aos criminosos, por outro lado poderá ainda ser permitido tomar as armas para expulsar um agressor ou recorrer à pena capital. Pode haver uma legítima diversidade de opiniões, mesmo entre os católicos, sobre a decisão de se fazer a guerra ou de se aplicar a pena de morte, mas em nenhum caso sobre o aborto e a eutanásia.4. Independentemente do julgamento que cada um faz sobre sua própria dignidade de se apresentar para receber a Santa Eucaristia, o ministro da Sagrada Comunhão poderá se encontrar em uma situação na qual ele deva se recusar a distribuir a santa comunhão a alguém, como nos casos de excomunhão declarada, de impedimento declarado ou de persistência obstinada num pecado grave manifesto (cf. Can. 915).5. No que concerne os pecados graves de aborto e eutanásia, quando a cooperação formal de uma pessoa se torna manifesta (compreendida, no caso de um político católico, como uma consistente campanha ou votação por leis permissivas sobre aborto e eutanásia), seu pastor deveria encontrá-lo, instruindo-o acerca do ensinamento da Igreja, informando-o de que ele não deve se apresentar à Sagrada Comunhão até que ele tenha colocado fim em sua situação objetiva de pecado, e advertindo-o de que, caso isso não seja feito, a Eucaristia lhe será negada.6. No caso em que “tais precauções não tenham obtido efeito ou não tenham sido possíveis” e se a pessoa em questão, dando provas de obstinada persistência, ainda sim se apresentasse, apesar de tudo, para receber a Santa Eucaristia, “o ministro da Sagrada Comunhão deve recusar-se a dá-la” (cf. Declaração do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, “Sobre a admissão à Santa Comunhão dos fiéis divorciados que contraíram novas núpcias”, 2000, nº 3-4). Esta decisão não é propriamente uma sanção ou uma penalidade. Tampouco trata-se do ministro da Sagrada Comunhão a formular um juízo sobre a culpa subjetiva da pessoa; na verdade, é uma reação do ministro ao desmerecimento público dessa pessoa em receber a Sagrada Comunhão em razão de uma situação objetiva de pecado.[

Nota: Um católico seria culpável de cooperação formal com o mal – e então indigno de se apresentar à santa comunhão – se ele votasse deliberadamente em um candidato precisamente por causa da posição permissiva desse candidato a respeito do aborto e/ou da eutanásia. Quando um católico não compartilha da posição de um candidato a favor do aborto e/ou eutanásia, mas vota nele por outras razões, esta é considerada como cooperação material remota, a qual pode ser permitida face a razões proporcionados.]

Católicos não podem votar em partidos de esquerda e abortistas?

UM CATÓLICO PODE VOTAR EM CANDIDATO A FAVOR DO ABORTO? BENTO XVI RESPONDE

” Um católico seria culpado de cooperação formal no mal, e tão indigno de se apresentar para a Sagrada Comunhão, se ele votasse deliberadamente em um candidato precisamente por causa da sua posição a favor do aborto e/ou a eutanásia.

Quando um católico não compartilha da posição de um candidato a favor do aborto e/ou eutanásia, mas vota nesse candidato por outros motivos, considera-se cooperação material remota, que pode ser permitida na presença de motivos proporcionais. “

Cardeal Joseph Ratzinger, carta enviada aos bispos americanos,em 2004.

” Regressemos à Europa. Dos dois modelos, dos quais falamos até agora, destacou-se um terceiro no século XIX, a saber, o socialismo, que desde logo se bifurcou em duas direções opostas: uma totalitária, e outra democrática.

O socialismo democrático conseguiu incorporar-se desde o seu ponto de partida como um contra-peso sadio contra as posições liberais radicais nos dois modelos, enriquecia-os e corrigia-os. Tal como as religiões, também se revelou abrangente: na Inglaterra, era o partido dos católicos que nem se sentia em casa com os liberais nem com os protestantes conservadores. Na Alemanha de Guilherme, o centro católico sentia-se mais próximo do socialismo democrático do que das rígidas forças prussianas protestantes e conservadoras. Em muitos aspectos estava e está o socialismo democrático próximo da Doutrina Social da Igreja. Em todo o caso, contribuiu decisivamente para a formação da consciência social.

O modelo totalitário, pelo contrário, aliou-se a uma rígida, materialista e ateia filosofia da história: a história era entendida deterministicamente como um processo de desenvolvimento da fase regional e liberal até à sociedade absoluta e definitiva, na qual a religião seria subjugada como uma relíquia do passado, e o funcionamento das condições materiais condicionaria a sorte de todos. A aparente cientificidade esconde um dogmatismo intolerante: o espírito é produto da matéria; a moral é produto das circunstâncias e deve ser praticada e definida de acordo com os objetivos da sociedade; tudo o que serve à prossecução do ditoso estado definitivo é moral. Aqui é consumada a inversão dos valores que construíram a Europa. Mais, aqui dá-se uma ruptura radical com toda a tradição moral do conjunto da humanidade. “

Cardeal Joseph Ratzinger, Europa – os seus fundamentos hoje e amanhã, pág. 169.

The austrian school and Schrodinger’s money.

Rizzi Arthur.

The most central and relevant contribution of the Austrian School of Economics to economic science is undoubtedly the Austrian Theory of Business Cycles (hereinafter ATBC), it is based on its most widespread version, the one proposed by F.A. von Hayek on the idea that any artificial fall in the interest rate produces malinvestments, given that new money, as it enters the productive system, is converted into investment in machinery, salary increases, and this has no backing in real savings and in consumer power, will end up creating a recession. It is clear, therefore, that this thesis, which supports not only the Austrian interpretation of the business cycle, but also the theory of inflation itself, is supported by the concept of non-neutrality of money.

If you’re a layman and don’t understand economics, it doesn’t matter, we explain: currency neutrality is the concept according to which currency serves only and exclusively as a means of exchange, having no value in itself, but only as a means of exchange for other goods. Which means, among other things, that an increase or a contraction in the money supply does not produce real changes in the economy, only nominal, such as the variation in the price level of products through the appreciation or depreciation of the currency against them. Thus, the “value” of money would only be its value as a medium of exchange. In other words, as we can see in the quantity theory of money (which assumes the neutrality of money), an increase in the money supply only produces inflation, but not structural changes in the economy in variables such as employment and production.

“the theory of real cycles (Robert Lucas Jr.’s new-classical proposal) assumes that money is neutral. That is, monetary policy does not affect real variables, such as output and employment.” (MANKIW, 1998, p.301)

So, therefore, it is deducible that the non-neutrality of money states exactly the opposite. That the currency is not neutral and that it produces profound structural changes in the economy, which is, by the way, ATBC’s proposition, even having its own value.

However, ATBC is supported by the theory of the natural rate of interest. This theory developed by the Swedish economist Knut Wicksell proposed a non-monetary theory of interest, that is, each good in the economy would have its own interest rate, and the price of credit (monetary interest) would be in equilibrium when it coincides with the real interest rate. assets. Thus, the currency would be a neutral vehicle capable of reproducing all the interest in the economy. For the interest rate to be the true interest, it is necessary for the currency to be neutral, in this way, whenever the monetary interest was below the real interest (of in natura goods), there would be inflation and whenever it was above, there would be deflation, but without structurally affecting the economy in the long run.

Say’s Law implies an economy where money is “neutral”. In the words of the French economist himself:

In places that produce a lot, the only substance with which you can buy is created: I mean value. Money represents only a passing trade in this double exchange; and, once the exchanges are completed, it is always verified: products were paid for with products. (…) The products created give rise to diverse demands. (Say, 1803, p. 139 and 142)

This statement is the basis of Say’s Law, which is one of the foundations of ATBC. As Thomas Sowell himself tells us (1994, p.39-41) while explaining Say’s law – free translation:

“There is no loss of purchasing power anywhere in the economy. People save only to the extent of their desire to invest and do not hold money far beyond their trading needs during this period.”

Now, for the ATBC to be true, Say’s law must be true, and for Say’s law to be true, the natural rate of interest must be true. Once we understand this line of logical dependencies we realize the great contradiction.

For ATBC to be true, currency cannot be neutral; and for Say’s law to be true, money has to be neutral! In other words, either Erwin Schrödinger turned economist and brought his cat (let’s call the pussy catcoin) to work, or the principle of non-contradiction still holds and the same currency cannot be and not be neutral at the same time! This is one of the reasons why we must either reject Say’s law or reject ATBC.

LOGICAL CONSEQUENCES:

So we have two scenarios:

We reject Say’s law: If we reject Say’s law, then we agree with Keynes, and we say that there can be a loss of purchasing power in the economy through hoarding and investment in non-reproducible liquid assets, which makes ATBC impossible to exist .
We reject ATBC: Therefore, in this hypothesis, the Austrian theory of inflation is also not true, and as a consequence alternative cycle theories, such as Wilhelm Röpke in his “Crisis and cycles” become better theories. And on the issue of inflation, we will have to agree with James Tobin in his classic “Currency, capital and other stores of value”.

In any case, ATBC is not valid.

REFERENCES:

MANKIW, Nicholas Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 1998.

SOWELL, Thomas. Classical Economics Reconsidered, Nova Jersey: Princeton University Press, 1994.

SAY, J. B.  Tratado de economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1986 (1. ed. em
francês, 1803) 1803.

Precisamos falar sobre ‘Quarta Teoria Política’: o que é a Dissidência e a sua principal diferença com o Marxismo (por B. Torres)

Sobre Quarta Teoria Política

Vermelho À Esquerda

Um fenômeno relativamente crescente nos círculos militantes brasileiros é a chamada “quarta via política” (ou quarta teoria política). Se por um lado ela tem tido um paulatino crescimento e adesão, por outro, cresce também o número de pessoas que os qualificam como fascistas, sobretudo no seio da esquerda.

Análises reais e bem embasadas sobre o que realmente é esta corrente nunca são feitas. Compreender, de fato, o que se trata tal teoria, é uma opção que tem sido deixada de lado, dando espaço para alarmismos e confusões conceituais de todos os tipos.

Aqui, no Brasil, os adeptos da QTP (centrado sobretudo no movimento Nova Resistência) são, por um lado, classificados erroneamente como comunistas (por elementos fascistóides ou filo-fascistas, como as alas mais direitistas da LNT) e por outro lado, são classificados – também erroneamente – de fascistas (por anarquistas, e também por alguns marxistas sinceros).

E nos sobra…

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O Brasil vai crescer 1,4% em 2022. Como isso foi possível?

Caro leitor, eu me recordo que no início de 2022 eu imaginava um desfecho bem diferente para esse ano. Em Janeiro as perspectivas eram as piores:

1- Ômicron deveria chegar aqui com mais força. Não chegou.

2- Fed deve subir juros nos EUA, o que forçará o BC a subir juros e trará novas pressões cambiais. De fato isso aconteceu, mas mais tardiamente do que o previsto.

3- Custo da energia não deve cair antes do segundo trimestre de 2022. De fato isso está acontecendo, e puxa o crescimento para baixo.

4- Queda no preço dos combustíveis, se ocorrer seria lento. Houve a guerra da Ucrânia e o barril explodiu. O governo conseguiu sustentar uma ascensão maior com corte de tributos e agora os preços do barril do petróleo começam a cair. De certa forma isso ocorreu.

5- O ano já começa com 0,5% de expectativa de crescimento e viés de baixa, ou seja, vai ser ano de PIB 0 ou negativo. – De fato era verdade, mas começou subitamente a ser reajustado para cima.

6- Não vai ter investimento público, porque a inflação é alta e o governo persegue a miragem de um superávit primário. – Aqui o governo me surpreendeu. Por ser ano de eleição a política fiscal tomou uma abordagem contracíclica.

7- Ano de eleição. E tome especulação e pressão cambial. – A especulação segue menos intensa do que o previsto, talvez porque o mercado não veja muita diferença entre Lula e Bolsonaro. Lula é pensado com uma tragédia econômica. Bolsonaro como uma tragédia política.

8- Entrada em vigor do novo março cambial que avança na dolarização da economia. – Esse ponto teve bem menos impacto do que eu esperava.

Esses oito pontos eu elenquei em Janeiro no meu perfil de facebook como justificativa do meu mau presságio. Então, analisemos: Os pontos 2, 3 e 4 ocorreram como previsto; o ponto 5 foi um juízo de momento presente, portanto é um acerto bem pouco meritório. 1, 6, 7, e 8 foram erros felizes.

As coisas que surpreenderam na previsão e que estão puxando o PIB para cima são:

1- Reabertura da economia.

A expectativa era que a chegada da Ômicron fizesse um estrago similar a primeira onda de Covid, o que forçaria o fechamento da economia. Como a Ômicron foi pouco mais que uma marolinha, a abertura da economia pode continuar, o excedente de renda acumulado graças às ajudas do governo federal (Ajuda aos empresários e Auxílio Emergêncial) puderam ser postos a circular na economia, aumentando o consumo e empurrando a demanda agregada.

Aqui vemos uma certa sorte ou mão providencial, enquanto os países do mundo desenvolvido entraram na pandemia no pleno-emprego ou já próximo dele, as medidas de auxílio do governo resultaram em forte inflação quando as economias começaram a reabrir. No Brasil, como o desemprego se encontrava em 14%, a inflação demorou a aparecer, e mesmo quando apareceu ela não foi de demanda, e sim uma inflação cambial e de custos.

2- Apreciação dos termos de troca.

A tragédia da guerra entre Rússia e Ucrânia tem um custo humanitário alto e isso é lamentável, mas de certa forma, ela ajudou o Brasil a potencializar seu crescimento. Primeiro por causa da valorização das comoditties, em especial, o petróleo. Os preços mais altos do barril de petróleo aumentaram a entrada de dólares no país e apreciou levemente o câmbio, o que impediu um aumento mais pronunciado da inflação, mesmo com os reajustes de preço brutais da Petrobrás. A melhora dos termos de troca em relação ao petróleo ajudou a melhorar os indicadores da economia, com a Petrobrás pagando mais dividendos, mais impostos e o setor puxando o PIB para cima.

3- Política fiscal contracíclica.

Por ser ano eleitoral, Bolsonaro entendeu que a sua única chance de reeleição era ignorar Paulo Guedes e tirar a Teoria Geral do emprego, do juro e da moeda da bolsa. O governo liberou alguns bilhões de reais para obras públicas, sobretudo via emendas de relator e, agora a alguns meses da eleição, isso deve ser ampliado via aumento de 200 reais no Auxílio Brasil e o famigerado Bolsa caminhoneiro.

A alta dos juros deve travar um pouco dos efeitos dessa política fiscal, todavia com o preço das comoditties caindo, com o mercado já precificando uma recessão global em 2023, a inflação pode ceder um pouco o que, somado a uma política fiscal de corte keynesiano e uma queda de inflação, deve sustentar o crescimento acima de 1%.

O problema dos juízos sintéticos a priori

Paulo Gala, Bruce Bastos Martins e com adição de notas de Reação Nacional.

De forma muito objetiva, a ideia da praxeologia concebida por Ludvig Von Mises, economista da Escola Austríaca, é deduzir toda a ciência da ação humana e da economia a partir deste único axioma: os indivíduos agem por força da vontade de melhorar sua condição. Então “agir” é efeito da causa “vontade de melhor condição”. Esta relação de causalidade é, para Mises, um juízo sintético a priori – já falaremos o que isso significa – com o qual se deduz um conhecimento universal e, portanto, verdadeiro sobre a ação humana e a economia, pois ambos lidam com meios empregados para atingir determinados fins. Nas palavras de Mises “a praxeologia e a economia progridem passo a passo por meio do raciocínio dedutivo. Definido, com precisão, premissas e condições, constroem um sistema de conceitos e extraem por meio de raciocínio logicamente incontestável todas as conclusões possíveis”.

Mas de onde vem tanta segurança para se rogar o epíteto, podemos dizer, de Euclides da economia? Está bem claro que vem da adoção de conceitos kantianos, sobretudo do conceito de juízo sintético a priori. Vejamos o que isto significa. Immanuel Kant foi um filósofo prussiano do século XVIII que se fascinou pela física de Isaac Newton. Kant ocupou-se com, basicamente, as condições de possibilidade do conhecimento, de tal modo que sua crítica era em reação à pretensos saberes que não fossem puros de contradição ou fantasias. Para tanto ele desenvolve certas regras do conhecer, tais como as funções i) a priori ou lógica do entendimento, aquelas que independem da experiência sensível, e ii) a posteriori ou após a experiência sensível. Dos juízos daí construídos, no que se referem à relação entre sujeito e predicado, serão i) analíticos quando a relação entre sujeito e predicado é de identidade, ou seja, o predicado já está contido no sujeito, ou ii) sintéticos, o que significa que o predicado está fora do sujeito, não sendo possível conhecê-lo pela análise do sujeito. Portanto, Kant reconhece o papel necessário da experiência sensível na gênese do conhecimento, mas também define o poder de síntese da função a priori ou lógica do entendimento, na construção de conceitos com os quais é possível fazer alguma ciência de caráter universal e necessário: os juízos sintéticos a priori.

Mas, embora existam economistas que acreditam nisto, o século XVIII não foi o fim da história do conhecimento humano. O pensamento seguiu problematizando conceitos, ideias, sistemas, valores etc. A filosofia analítica do Círculo de Viena, por exemplo, no século XX, analisou a fundo fenômenos com os quais o conhecimento pretensamente universal e necessário é construído de modo a estudá-los como sistemas proposicionais distintos, separando-os para não os confundir quanto à veracidade: sistemas proposicionais nomológicos e sistemas proposicionais nomoempíricos.  É importante esta distinção entre sistemas proposicionais? É fundamental para entender o erro metodológico de Kant e, por conseguinte, de Mises.

Quando Kant define a matemática como um juízo sintético a priori pelo exemplo da soma algébrica “7 + 5 = 12”, a razão estava, para ele, no fato do predicado “12” não estar presente de modo algum no sujeito “7 + 5”. Logo, o resultado desta soma algébrica estabelece um conhecimento novo, que é tanto universal como necessário. Não sabia Kant, no entanto, que, ao afirmar esta metodologia para todo tipo de conhecimento, pela qual acreditava construir juízos sintéticos a priori, estava misturando sistemas proposicionais diferentes, estendendo indevidamente a veracidade dos sistemas nomológicos aos sistemas nomoempíricos, tal como Mises faz com o sistema proposicional nomoempírico descritivo dos fenômenos econômicos. Mas o que são sistemas proposicionais?

Os sistemas proposicionais, como já dissemos, dividem-se em nomológicos e nomoempíricos. Naquele caso está-se diante de relações linguísticas puramente formais ou lógicas, nas quais as partes componentes são entidades ideais, sem qualquer referência empírica ou “denotação existencial”, na expressão de Lourival Vilanova, constituindo uma linguagem unívoca, até porque tautológica. Mas quando o sistema proposicional é construído em cima da experiência sensível, ou seja, a partir dos dados coletados pela percepção dos sentidos, então se está diante de um sistema nomoempírico, o que significa abarrotado de valores e pontos de vistas mediante os quais se propõe descrever ou significar os entes existentes.

Vejamos o seguinte exemplo, alterando o silogismo aristotélico em nome de um esclarecimento do que queremos explicar. Analisemos a veracidade das seguintes proposições: se todo homem é um dinossauro, e Sócrates é um homem, então Sócrates é um dinossauro. Ora, do ponto de vista nomológico ou formal, as proposições são verdadeiras, pois, excluído todo conteúdo empírico para ficarmos apenas com seu conteúdo lógico, não encontramos contradição alguma: se todo “a” é “b”, e “c” é “a”, então necessariamente “c” é “b”. Todavia, do ponto de vista da experiência sensível, até onde eu sei as proposições nomoempíricas descritivas da biologia não concluíram em seu sistema, até agora, que a entidade homem é identificada com a entidade dinossauro, o que conferiria veracidade à afirmação de que Sócrates foi um dinossauro ateniense. Assim sendo, o silogismo do ponto de vista nomológico é verdadeiro, mas falso do ponto de vista nomoempírico.

É preciso entender isto: a depender do sistema-de-referência escolhido, nomológico ou nomoempírico, as proposições acima serão verdadeiras ou falsas, mas cumulativamente não constituem proposições universais, pois, diferentemente do elemento sintático ou lógico, o elemento conceitual ou semântico não se permite ter uma definição universal, pois as experiências não cessam de nos conferir novos conteúdos – é o princípio da falseabilidade de Karl Popper, filósofo do século XX, mas que já estava presente no problema da indução apresentado por David Hume, pensador escocês do século XVIII.

Com as relações de causalidade não é diferente, e estamos chegando ao erro metodológico de Mises. Atribuir uma dimensão formal à causalidade não autoriza que se preencha com o conteúdo semântico que desejar, a exemplo dos conceitos de propriedade, de moeda, de trabalho etc, de modo a se convencer de que deduziu proposições universais sobre economia. Aliás, a confusão de Mises entre sistemas nomológicos e nomoempíricos é transparente quando este autor menciona o fenômeno da polilogia, confundindo sistemas lógicos com ideológicos. Por isso afirma, “o conhecimento praxeológico é conhecimento conceitual. Refere-se ao que é indispensável na ação humana. É conhecimento de categorias e proposições universais”.

Ou seja, para aqueles que não estão presos aos paradigmas da ciência do século XVIII, um saudosismo inapropriado para quem se dispõe a fazer qualquer tipo de ciência fundamentada, precisará lidar com o conhecimento produzido na filósofa da ciência e da própria ciência no século XX. Os juízos sintéticos a priori de Kant, assim como os teoremas econômicos de Ludvig Von Mises, não resistem à filosofia do século XX. A defesa de juízos sintéticos a priori é desconstruída diante do conhecimento linguístico acerca dos diferentes sistemas-de-referências, demonstrando que a formalidade do sistema não legitima a veracidade dos conceitos. Talvez sequer o aspecto formal resista ao século XX, para falar a verdade, uma vez que a fundamentação aritmética decantada da lógica, por Gottlob Frege, bem como os teoremas da incompletude de Kurt Gödel parecem derrubar até a lógica de seu pedestal apodítico. No caso dos teoremas econômicos de Ludvig Von Mises não precisamos ir tão longe, pois basta os confrontar com os diferentes sistemas proposicionais dissecados pela filosofia analítica, distinguindo o que é formal do que é conceitual, e veremos evaporar o que até então se roga como sólido. Mises está preso numa forma de pensar do século XVIII. (Resumo filosófico breve: juízos sintéticos a priori não mantêm a universalidade de seus conceitos ante o contingenciamento da experiência sensitiva, logo não representam proposições nomoempíricas descritivas universais).

Nota da Reação: É importante também ressaltar a filosofia de Willard von Orman Quine, que em seu livro “Dois dogmas do empirismo” demonstra corretamente que como todo conhecimento, mesmo os formais, advém da experiência sensível, que os conhecimentos formais podem ser retificados por novos dados experimentais. Por exemplo: É da experiência com um universo regido por leis físicas que permite a existência de matéria, inclusive a nossa, que extraímos a ideia de “triângulo” a partir de coisas que possuam esse formato. É a partir da experiência com objetos quantificáveis que extraímos o conceito dos números; em outras palavras os triângulos pressupõem objetos cuja matéria possua a triangularidade como característica, a numeração pressupõe a existência de entes numeráveis.

Ora, assim sendo o universo realmente existente é que determina a validade dos construtos mentais, de forma que os conteúdos meramente conceituais devem ser validados pela realidade e não pelo puro conceito. Assim, pois a experiência evidenciando a geometria não-euclidiana retificou a geometria euclidiana, cujos axiomas impossibilitam uma geometria não-euclidiana, não obstante esta seja verificável. O conceito de infinito afirma a existência entes ilimitados tanto espacial quanto temporalmente, e no entanto nosso universo infinito se expande mais rápido que a luz e possui um momento de começo bem estabelecido no Big Bang, assim o infinito realmente existente que experienciamos retifica o conceito de infinito.

Quanto ao explanado por Gala e Martins, fica óbvio que na medida em que tenta-se estabelecer axiomas que envolvam entes empíricos, alguma evidenciação empírica é demandada, aliás, o próprio Mises reconhecia isso, como mencionado aqui. Quine também demonstrou que experimentos comprovam não só a asserção final (a predição), como confirmam os pressupostos, por isso o holismo é o fundamento de qualquer método científico. Sentenças isoladas tem pouco significado e podem estar tanto certas quanto erradas, a teses validam-se entre si quando completas fazendo afirmações testáveis.

A teoria da relatividade geral possui uma série de pressupostos matemáticos axiomáticos em que depositamos confiança como ferramental necessário para descrever qualquer coisa, como é o caso de que as regras da matemática são uma ferramenta eficaz. No entanto, não é nem a asserção final (E=MC²) e nem esses pressupostos que são em si mesmo avaliados, mas sim todo o corpo teórico da relatividade geral (SEVERO, 2011). Portanto, se em algum momento a Teoria da Relatividade não prediz um evento ou não explica um ocorrido, ela é refutada por inteiro e não apenas a asserção final. É o que motiva, por exemplo, os cientistas na busca de uma teoria de tudo, pois em certas situações extremas (como num buraco negro), nem mesmo a matemática faz sentido.

REFERÊNCIAS:

SEVERO, Rogério. SKÉPSIS: Realismo, subdeterminação e indeterminação em Quine. UFSM: Ano IV, n.6, 2011.

O Brasil pode fazer o mesmo que a Rússia e exigir pagamentos em reais?

Arthur Rizzi

Fonte: Tricurioso

Atormentada por sanções devido à guerra russo-ucraniana (2014-2022), a Rússia decidiu contrassancionar os países hostis obrigando-os a comprar petróleo e gás russo em rublos. Essa medida inverteu a trajetória de desvalorização do rublo e ele passou a se valorizar fortemente. Muitos trabalhistas e nacionalistas do facebook viram nisso uma postura de soberania, e logo começaram a propor que o Brasil fizesse o mesmo com suas commoditties. Mas a pergunta imediatamente se levanta: O Brasil pode fazer isso?

A resposta curta e incompleta é: sim, o Brasil pode fazer isso, o que não significa, todavia que teremos exatamente os mesmos efeitos ou que isso seja uma postura boa do ponto de vista econômico. Abaixo detalharei as razões para esta resposta.

1- Poder de mercado.

A Rússia consegue fazer isso pois possui um grande poder de mercado nessas commoditties. É importante frisar que estas commoditties possuem efeito em cadeia nos demais custos da economia dos países dependente delas, e que não há muitas alternativas no mercado para curto prazo, então, sim. A Rússia possui facilidade para exigir isso, pois como o barril de petróleo disparou e ela possui um gigantesco poder de mercado no setor, eventualmente alguém terá de demandar esses produtos dela. Petróleo e gás são bens que possuem alta inelasticidade-demanda, o que significa que o aumento do seu preço não afeta substancialmente a demanda por eles.

Traduzindo do economês: Se o preço da manteiga subir muito, as pessoas reduzirão a demanda por manteiga e começarão comprar margarina. Isto se dá porque são bens substitutos e como possuem finalidades parecidas para uso, variações de preço fazem com que a demanda por eles se altere fortemente, que é o que os economistas chamam de alta elasticidade-demanda. O petróleo e os derivados de petróleo, em geral, não possuem essa mesma facilidade, pois em geral não possuem substitutos viáveis técnica e economicamente, o que, em resumo, deixa as pessoas reféns dos preços desses bens. E quando isto acontece, o diferencial de preço é repassado pela cadeia produtiva toda que depende deles. Este é o caso do que está acontecendo agora no Brasil com a Petrobrás e a PPI, a inflação no Brasil é em parte alimentada pelos custos do barril de petróleo.

O Brasil, embora sejam um grande produtor de petróleo, não está entre os maiores do mundo e que possuem grande poder de impor preços no mercado internacional. Como não temos uma oferta capaz de afetar substancialmente os preços, há muitas alternativas ao petróleo brasileiro no mercado mundial, e portanto se o Brasil exigisse pagamentos em reais, muito provavelmente poderia perder clientes, pois a troca de divisas é um processo que também tem seus custos, e na medida em que os custos de transação dessa política afetariam os custos do petróleo brasileiro, isso iria torná-lo mais caro, e portanto, menos competitivo globalmente. Outra coisa que afetaria o preço do petróleo brasileiro seria a demanda crescente pelo real oriunda disso. A valorização do câmbio tornaria os produtos brasileiros mais caros e isso poderia afetar não só petróleo mas como outros setores, especialmente os exportadores (como o agronegócio e uma parte ainda resiliente da indústria de transformação). Portanto, os efeitos positivos seriam transitórios e as consequências seriam potencialmente muito ruins para o país no longo e médio prazo.

2- Balança de pagamentos.

Embora o Brasil possua uma indústria que pode atender primariamente o mercado interno, muitos componentes intermediários dela, como os insumos necessários a fabricação dos manufaturados locais são importados, e eles dependem da possibilidade do governo brasileiro poder converter real em dólar para esses empresários. Uma das grandes fontes de entrada de dólares no Brasil, se não a maior e a mais importante, é o comércio exterior. As exportações brasileiras, que são majoritariamente composta por commoditties, são precificadas e trocadas em dólar, e constituem a principal fonte de divisas no mercado interno. O Brasil possui cerca de 390 bilhões de dólares de reservas internacionais, mas se o Brasil passasse a aceitar somente reais pelo seu minério de ferro e petróleo, sem essa fonte específica de dólares, as nossas reservas, que são finitas, iriam se exaurir dentro de algum tempo e, como consequência disso, entraríamos no cenário de restrição externa, no qual nos veríamos impedidos de pagar por produtos importados que não podemos produzir aqui ou que não temos expertise suficiente para produzi-los no estado do arte mundial, o que nos levaria a perder competitividade. A restrição externa, ou seja, quando o país quebra em termos de moeda estrangeira, é uma das principais fontes de ataques especulativos e é responsável pelos grandes ciclos inflacionários. A Venezuela e a Argentina, que são países que acabaram ficando sem reservas internacionais, são um exemplo das consequências de não ter dólares.

Diz-se porém, que o Brasil alimenta o mundo, então poderíamos vender nossa soja, carne, leite e outros gêneros alimentícios em reais, certo? Assim como a primeira resposta, sim. Mas teríamos dificuldades e consequências. Primeiro, embora o Brasil seja um player muito mais representativo na agroindústria mundial do que no mercado de petróleo, estes dois mercados possuem estruturas diferentes. Há muito maior disponibilidade de terras férteis no mundo do que de fontes de petróleo. Segundo que o Brasil não possui, por esta mesma razão, o mesmo grau de força neste mercado, que a Rússia possui no mercado de petróleo e gás. Terceiro, nem todos os bens que compõem a pauta de exportações do agronegócio (nenhum deles na verdade), possui tão alta inelasticidade-demanda como o petróleo, possuindo muitos bens substitutos em outros mercados. Quarto, haveria atritos políticos com os empresários do setor, que preferem vender seus produtos em dólar do que em reais, pois esta é uma moeda com muito maior aceitabilidade internacional.

Um outro problema é que essa é uma medida que só se pode aplicar a produtos simples e com pouca divisão do trabalho e poucos componentes e insumos. Não seria bom por exemplo fazê-lo no setor industrial, que possui grau muito maior de produção indireta (roundaboutness) e uma quantidade muito maior de insumos e bens intermediários que não podem ser pagos em reais, o que ou tornaria impossível sua fabricação, já que os manufatureiros não disporiam de dólar para pagar seus fornecedores ou se colocaria grande peso sobre o Banco Central que teria de suprir essa demanda por dólares, podendo levar ao cenário de restrição externa. Isto ainda aumentaria os custos de produção, tornando a produção pouco competitiva e, a depender da variação do câmbio, tirar previsibilidade da economia afastando investidores no setor.

3- Conclusão.

Embora a ideia seja motivada por boas intenções, o Brasil não tem condições de executá-la e, como veremos em dentro de pouco tempo, a própria Rússia enfrentará dificuldades com sua implementação, mesmo possuindo condições mais favoráveis que as do Brasil.