Por que os países desenvolvidos crescem pouco?

Arthur Rizzi*

Esse não é um assunto que possa ser esgotado com um simples artigo de blog, mas que pretendo contribuir de forma didática para os nossos leitores leigos compreenderem parte do problema.

Como Robert Solow demonstrou com sua função de crescimento econômico [Q.A – Y=f(K.L)], o estado da técnica, o estoque de capital e o tamanho da força de trabalho são determinantes para avaliar o desenvolvimento econômico de longo prazo. Os países desenvolvidos encontram-se no estágio técnico mais avançado, de maneira que não apenas trabalhar para produzir é necessário, mas também trabalhar para desenvolver novas técnicas produtivas mais eficientes. Por isso Mariana Mazzucatto em “Estado empreendedor” afirma a importância do investimento em pesquisa e desenvolvimento, algo que a iniciativa privada nem sempre faz muito bem. Em outras palavras, os países na “fronteira da técnica” têm que trabalhar/esperar por novidades tecnológicas, de modo que os ganhos de produtividade chegam primeiro até eles, mas cheguem em velocidade bem menor que nos países retardatários.

Segundo Oreiro (2016, p.49:)

“O coeficiente de indução ao crescimento da produtividade pela acumulação de capital depende, por sua vez, do tamanho do assim chamado hiato tecnológico, ou seja, da distância entre o nível de conhecimento tecnológico possuído pela economia em consideração com relação a fronteira tecnológica. […] os países que se acham atrás da fronteira tecnológica podem aumentar rapidamente a sua produtividade simplesmente por intermédio da imitação e do aprendizado dos métodos de produção empregados pelos países que se encontram na fronteira. […] o crescimento de uma economia atrás da fronteira tecnológica é uma função positiva da distância que a separa com respeito a essa mesma fronteira”.

Em outras palavras, os países atrasados tecnicamente podem absorver técnicas novas já desenvolvidas mais rapidamente, o que proporcionará saltos produtivos em curto prazo e taxas de crescimento mais vistosas do que a dos países desenvolvidos, cujo seu setor produtivo tem que desenvolver ou esperar por novas inovações. Isto faz com que haja menos pushs de eficiência marginal do capital nessas economias, aproximando-se um pouco mais dos ciclos de Kondatriev. Em outras palavras, quando o hiato tecnológico se reduz a 0, as taxas de crescimento despencam. Oreiro (2016, p.51) confirma-nos:

“[…] a medida que o país reduz sua distância da fronteira tecnológica, maior será o crescimento da produtividade do trabalho. Contudo, uma vez que o hiato tecnológico tenha caído abaixo do nível de capacidade absortiva, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho irá se reduzir à medida que o país se aproximar mais e mais da fronteira tecnológica”.

Porém, não apenas isso explica os números de economias em desenvolvimento quando comparada a de economias desenvolvidas. Economias de renda média como a brasileira e com taxa demográfica compatível com a de países desenvolvidos (taxa de natalidade de 1,8), conseguem maiores saltos produtivos pela absorção de novas tecnologias, e é bem explicada por nossa afirmação até aqui. Porém, como tratar economias de renda média mas com população gigantesca como a China?

Simples, a participação dos salários na renda depende também da inserção de novos trabalhadores nessa economia, como John Médaille chama a atenção em “Toward a trully free market“, a ortodoxia econômica considera “mães e partos” como coisas exógenas aos modelos. Se a taxa de crescimento demográfica cai, menos trabalhadores são inseridos no mercado de trabalho e, portanto, há uma tendência de longo prazo do crescimento do custo unitário do trabalho (oferta e demanda). Quanto menor a taxa de natalidade, maior a dependência de pushs técnicos que ampliem a produtividade do trabalho nessa economia. A China se beneficia de uma população gigantesca, e mesmo que sua taxa de natalidade tenha caído enormemente, há um vistoso bônus demográfico que deverá demorar muitos anos ainda para se esgotar de modo que, mesmo quando a China passar por períodos de aridez no desenvolvimento técnico, ela poderia ainda ampliar sua economia pela absorção de mão-de-obra aumentando a participação dos salários na renda nacional, que é basicamente o que ela fez quando da crise de 2008, em que as importações americanas caíram drasticamente (cf. Niall Ferguson – A Ascensão do Dinheiro). E ambos os fatores, trabalho e capital não são necessariamente intercalados, mas acontecem quase sempre juntos. Aumentar a força de trabalho e a produtividade do trabalho é o mundo ideal dos economistas, em que se poderia ter crescimento forte e contínuo.

E os EUA e a Europa?

O economista ordoliberal francês, Michel Albert, em seu livro “Capitalismo versus capitalismo” responsabiliza a existência do welfare state universalista pelo baixo crescimento da Europa quando em comparação aos Estados Unidos. Há aí um certo exagero. Embora o universalismo do estado de bem-estar possa de fato gerar incentivos perversos à economia, há boas razões para crer que isso é apenas residual. Um bom exemplo de que isso não explica tudo, é o fato de que a Europa tem modelos de welfare state não universalistas, como alemão que você pode ler mais sobre ele aqui. O maior fator de baixo crescimento atual dos países da Europa em relação aos Estados Unidos reside, ao meu ver, no fato de que a maioria dos países da Europa tem taxas de crescimento demográfico abaixo de 1,5 filhos e graças à imigração, os Estados Unidos tem uma taxa de crescimento demográfico de 2,1 filhos. A taxa de reposição mínima é 2,1, o que significa que a população dos países europeus tende a diminuir, o que faz com que o custo marginal do trabalho aumente no longo-prazo ao passo que nos EUA, este custo é estável dado que a população permanece constante.

O Euro tende a se tornar um outro problema, uma vez que se o custo unitário do trabalho é crescente, a moeda européia sendo uma moeda forte, faz com que o custo dos bens tecnológicos produtivos da Europa torne-se mais caro com o tempo o que pode dar a países concorrentes do bloco europeu como China, Coréia do Sul e Estados Unidos alguma vantagem de mercado ao longo prazo. A moeda extremamente forte, influencia alemã pode estar levando a própria Alemanha a se encastelar na União Européia no futuro.


REFERÊNCIAS:

OREIRO, José. Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Rio de Janeiro: LTC, 2016.


*Arthur Rizzi é historiador e amante da história do pensamento econômico.

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Teoria austríaca da inflação: exposição e crítica – parte 2.

Este artigo foi originalmente postado em Social Democracy in 21st century e traduzido por Reação Nacional.

Padrão Ouro e inflação.

O padrão-ouro não era garantia contra inflação? Este é um dos argumentos austríacos para o padrão-ouro. Porém a evidência demonstra que não necessariamente. O Reino Unido registrou inflação moderada e alta persistentemente entre 1897 e 1912, especialmente devido ao aumento da oferta de ouro.

Além do mais, quando nós examinamos artigos da teoria austríaca da inflação no Instituto Mises nos artigos mais acadêmicos dos intelectuais austríacos, nós encontramos posições mais equilibradas:

“a essência da inflação não é um aumento geral nos preços mas um aumento na na oferta de dinheiro, que engendra uma tendência a um aumento generalizado  nos preços de bens e serviços …. Enquanto aumentos na oferta de moeda (i.e., inflação) sejam diretamente percebidas através de aumentos de preços, este nem sempre é o caso. Preços são determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo. Em outras palavras, enquanto a oferta de moeda crescente continua alta – i.e., inflação está alta – os preços podem mostrar pouquíssimas alterações.”
Frank Shostak, “Defining Inflation,” Mises Daily, March 6, 2002.

Shostak também acredita que aumentar a oferta de dinheiro leva a má alocações de recursos. Isto é de fato possível, especialmente em sistemas financeiros desregulados ou mal regulados, mas isso não é de maneira nenhuma inevitável e necessário. Ou seja, voltamos a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (Veja aqui algumas críticas).

Um ponto importante, porém, é que Shostak é cuidadoso ao qualificar sua afirmação mencionada acima. Ele diz que aumentos na oferta de moeda irão causar aumentos nos níveis gerais de preços, mas então concede que os preços são determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo.”

Essa é uma qualificação importantíssima. Shostak está correto quando diz que os aumentos dos níveis gerais de preços depende muito de fatores reais, tanto quanto monetários. Por exemplo, os fatores abaixo podem empurrar para baixo o nível geral de preços:

  1. queda de preços por aumento de produtividade de certos bens;
    2. apreciação da taxa de câmbio;
    3. Um aumento na quantidade de importados baratos circulando no país;
    4. Queda em preços e comoditties que são matéria-prima de produtos em geral;
    5. Mudanças na velocidade com a qual o dinheiro circula;
    6. Aumento do desemprego (= menor demanda por bens e serviços),e
    7. Redução do crédito bancário.

Na realidade, todos ou alguns desses fatores listados acima podem operar de modo tal que haja inflação zero (como no caso do Japão entre 1990 e 2004) ou mesmo deflação ainda que a oferta de moeda siga crescendo. Exemplos do mundo real:. No fim do século XIX, o Reino Unido registrou queda de preços (deflação) entre 1873 e 1896. Todavia, a oferta de moeda seguia crescendo nestes anos: entre 1873 e 1896 o estoque de moeda cresceu 1.3% por ano, 33% no período todo. Ainda, entre 1873 e 1896 os preços de varejo caíram 39%. O que aconteceu nesse período foi que o aumento da oferta de moeda foi mais lenta do que sua circulação e demanda por ela, houve também aumento de produtividade no setor da agricultura (Capie and Wood 1997: 287–289).

Agora que temos a evidência de uma visão como a de Frank Shostak, uma versão mais equilibrada fa teoria austríaca da inflação, torna-se difícil entender porque a maioria insiste em afirmar que aumentos na oferta de dinheiro sempre levam necessariamente a um aumento no nível de preços. […]

Uma vez que se aceitou que (1) o relacionamento entre um aumento no estoque de moeda e um aumento no nível geral de preços não é necessariamente automático ou inevitável, e (2) que se aceite que a TACE está errada (link aqui), a maior parte das objeções vulgares a política monetária (aumento da base monetária) se perdem.

Multinacionais geram pouco desenvolvimento tecnológico no Brasil

Por que indústria nacional importa? Evidência empírica.

Blog Valor Adicionado

As empresas multinacionais têm atuação central na criação de tecnologias e geração de inovações para a economia mundial. Ao observar as maiores empresas inovadoras do mundo, nota-se a presença de grandes multinacionais com estoque de conhecimento acumulado ao longo de várias décadas. Elas também são responsáveis pelo maior volume da atividade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizada no planeta e têm papel importante em propagar a atividade inovativa para além de seus países-sede.

Vamos avaliar a atuação em atividades de P&D das empresas multinacionais norte-americanas dentro e fora dos Estados Unidos (Tabela 1). Os Estados Unidos são o país que mais investem em P&D no planeta e suas multinacionais participam de várias cadeias globais de valor ao redor do mundo. Possivelmente, o “padrão” de atuação das multinacionais estadunidenses deve assemelhar ao das multinacionais dos demais países.

A Tabela 1 mostra que os investimentos em P&D feitos por empresas estadunidenses manufatureiras…

Ver o post original 679 mais palavras

Teoria austríaca da inflação: exposição e crítica – parte 1.

Este artigo foi originalmente postado em Social Democracy in 21st century, foi traduzido, comentado e ampliado por Reação Nacional.

Muitos libertários, defensores do liberalismo econômico ou apoiadores da economia austríaca sempre mencionam o dinheiro fiduciário como causa do aumento da oferta de moeda. Tipicamente, os austríacos vulgares dizem que qualquer aumento na oferta de moeda levará necessariamente a um aumento do nível geral de preços. Os mais ingênuos inclusive afirmam que o aumento será sempre proporcional.

Aqui temos um vídeo de Ron Paul preocupado com a criação de dinheiro pelo FED porque isso gerará inflação. Ou este artigo do Mises Institute prevendo hiperinflação nos EUA em 2009 por conta dos Quantitative Easings.

Então, primeiramente a palavra “inflação” é definida pelos austríacos como visto acima, como sendo aumento na oferta de dinheiro, e contrariamente a definição popular de  “um aumento no nível geral de preços.”

O propósito deste artigo é mostrar que muitas pessoas hoje que são simpáticas a Escola Austríaca ou que são auto proclamadas seguidoras da Escola Austríaca realmente não entendem a teoria austríaca da inflação.

A maioria das pessoas não conseguem distinguir a teoria monetarista de Friedman acerca da inflação (baseada na teoria quantitativa da moeda) da visão Austríaca que é, na verdade um bocado diferente da de Friedman, a qual, aliás, mudou ao longo do tempo. Primeiro, falaremos acerca da teoria quantitativa da moeda. (Nota da RN: Nosso contribuinte esporádico Luiz Paulo Tavares já falou um pouco dela aqui) Contrariamente ao que muitos pensam, os austríacos sempre foram ambíguos e mesmo críticos da teoria quantitativa da moeda. A teoria supracitada é a base do monetarismo de Milton Friedman, uma abordagem macroeconômica que se popularizou no fim das décadas de 70 e 80.

Entretanto, muitos austríacos tinham na verdade uma visão cética dessa teoria:

Ludwig von Mises, por exemplo:

“concordemos com a teoria quantitativa clássica de que um aumento na oferta de dólares ou de onças de oura levará a sua queda de valor/preço (e como consequência a um aumento no preço de outros bens e serviços); mas refinemos essa abordagem bruta e integremo-la com a análise econômica geral. Em um aspecto, ela demonstra que os movimentos de preço e oferta de moeda são pouco proporcionais; um aumento na oferta de moeda tenderá a diminuir seu valor, mas como isso ocorre, ou mesmo se isso ocorre, depende da utilidade marginal do dinheiro e consequentemente da demanda do público por manter o equilíbrio de caixa. Além dos mais, Mises mostrou que a ‘quantidade de dinheiro’ não aumenta em somatório: o aumento é injetado em um ponto do sistema econômico e os preços subirão apenas  onde o dinheiro novo se espalhar pela economia. Se o governo imprime dinheiro novo e o gasta, digamos, com clips de papel, o que acontece não é um simples aumento de preços,’ como economistas não austríacos diriam; o que ocorre é que primeiro  a renda dos produtores de clipes e os preços dos clipes aumentam, e então os preços dos ofertantes da indústria de clipes de papel também, e assim sucessivamente. Assim esse aumento da oferta de dinheiro muda os preços relativos ao menos temporariamente, e podem resultar em mudanças permanentes na renda relativa também” (ROTHBARD, 2009, p.15).

Em outras palavras, Mises negou que um dado aumento na oferta de dinheiro (digamos, 5%) levaria a uma direta, proporcional e mecânico aumento de 5% no nível geral de preços. E mesmo ele reconheceu que um aumento da oferta de dinheiro pode ter efeitos permanentes de renda.

Monetaristas ingênuos acreditam que há uma explicação monocausal da inflação: crescimento da oferta de dinheiro que causará aumento direto e proporcional de preços. Isto é tolice. Friedrich August von Hayek acreditava que a forma simples da teoria quantitativa era um guia útil , mas era, no entanto, um crítico dessa teoria, e mambas as versões como propostas por Irving Fischer e por Milton Friedman (Arena 2002). Em particular, “Hayek criticou Friedman por se concentrar demais na relação estatística entre a quantidade de dinheiro o nível de preços, reclamando que a matéria não é tão simples” (Garrison 2007, p.3). Austríacos estão divididos ainda hoje nessa questão. Alguns ainda sãocríticos, como Jesús Huerta de Soto.

O mesmo argumenta que o erro na teoria é o de ignorar a TACE. De Soto pensa que a teoria quantitativa da moeda é inadequada pois ignora os efeitos do aumento de moeda na estrutura produtiva, o que poderia causar maliventments. Logo, recessões. Com o aumento da oferta de moeda, haveria aumento de compra de capital, logo aumento de produção. No início haveriam preços crescentes, mas tão logo o consumo se mostrasse pequeno e a expansão da produção artificial haveria queda de preços ocasionadas por uma crise no setor, o que Wilhelm Röpke chamava de crise primária.

Esta diferença entre a TQM e a visão austríaca é ignorada por muitos.

Austríacos, em essência, afirmam duas coisas acerca da inflação. O seu efeito visível (enquanto a produção não aumenta) é aumento de preços. Aumento de preços em bens e serviços (não proporcionalmente), mas também aumento de preços em ativos financeiros. Os austríacos de modo razoável incluem inflação de preços de ativos no nível geral de preços (note que o preços de títulos, papéis, ações e outros derivativos não são normalmente calculados no índice geral de preços). Mas a maior preocupação é que há também um efeito invisível: um aumento na oferta de moeda impede o estoque de moeda de se manter estável o que com o aumento “orgânico” da produção faria da moeda deflacionária, o que aumentaria o poder de compra do dinheiro.

Com respeito a inflação, a visão austríaca ignora o fato de que uma regulação financeira eficiente pode prevenir bolhas, especialmente em ativos reais como casas. Os Estados Unidos, por exemplo, teve os preços imobiliários baixos entre 1950 e 1970, e o mesmo foi verdadeiro para muitos outros, por causa de regras e regulamentos apropriados. (Nota da RN: Esse período se notabilizou por taxas de juros permanentemente baixas).

A afirmação Austríaca de que o aumento da oferta de dinheiro tem como efeito invisível evitar a deflação ignora o fato de que, embora a deflação aumente o poder de compra da moeda, de que a deflação pode ter efeitos terríveis sobre a economia. (Nota da RN: Deflação potencializa a usura, dado que nenhum banqueiro deixará de cobrar juros por uma moeda que ganha valor ao invés de perder).

As dívidas, por exemplo, são fixadas em valores nominais, com deflação, o custo real das dívidas passa a ser muito maior, devedores enfrentam grandes dificuldades em repagar dívidas. Segundo John Médaille, no período do padrão-ouro em que havia deflação constante, os períodos deflacionários por essa mesma razão tinha um efeito concentrador da propriedade e de renda, dado que somente pessoas mais bem abastadas e grandes empresas conseguiam lidar com dívidas cujo custo real era ascendente levando pequenos negociantes e fazendeiros a falência.

Continua…

E o Wikileaks dá um golpe na tese dos três poderes globalistas.

O Wikileaks revelou um dado interessante: O governo dos Estados Unidos utiliza o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD) como armas não convencionais de guerra. Isto é particularmente constrangedor para os defensores da tese olaviana dos três poderes, pois estes órgãos são o coração do sistema financeiro mundial que é, basicamente, o braço financeiro do globalismo.

A tese dos três poderes afirma que o objetivo do globalismo é destruir a soberania dos EUA e de Israel, que seriam as últimas nações soberanas do mundo. Mas quando percebemos que os governos americanos usam esse braço financeiro como arma de guerra, fica evidente que longe de serem poderes contra a soberania americana são órgãos capturados pelo poder econômico e político dos Estados Unidos.

Logo, não há como separar o globalismo do Estado Americano. Embora condenemos o regime de Maduro e torçamos para sua remoção rápida e sem meios violentos, não podemos deixar passar esse dado. Não custa lembrar que isso já era anunciado pelo finado professor Adriano Benayon.

Três erros sobre economia e um erro grave sobre o homem.

O texto abaixo foi traduzido pela equipe do Legio Victrix, créditos a Raphael Machado.

John Médaille*

Introdução
Desde o tempo de Aristóteles, a economia tem sido considerada como estando dentro do domínio da política e da ética. Acreditava-se universalmente que fora desses âmbitos, a economia era ininteligível porque sem eles ela careceria de um telos, um sentido e um propósito. Mas no século XIX, surgiu a ideia de que a “economia política” poderia ser convertida em uma ciência “pura”, totalmente divorciada de qualquer matriz política, social ou teleológica. Tudo que era necessário era encontrar o princípio “newtoniano”. Tal como Newton havia domado os movimentos complexos dos céus com umas poucas leis simples, da mesma forma deveria haver umas poucas leis simples para explicar os movimentos inescrutáveis dos mercados. Muitos acreditavam que esta tarefa havia sido realizada por A.E. Marshall em 1891 (ano fatídico, este) com a publicação de seu “Princípios de Economia”. Como ninguém havia sido o termo “economia” daquela maneira antes, ele teve que explicar na primeira frase que por “economia” ele queria se referir ao que as pessoas haviam chamado até então de “economia política”. É graças a este livro que a economia pôde, finalmente, reivindicar com alguma plausibilidade o status de uma ciência axiologicamente livre.

O princípio “newtoniano” de Marshall era a utilidade marginal, que empurravam o utilitarismo para o centro da economia. O livro de Marshall se tornou a base da economia do século XX, e o pequeno diagrama que ele traçou no apêndice, que pretende retratar como as curvas de oferta e demanda resultam em um ponto de equilíbrio, se tornou o diagrama mais onipresente e reconhecível na história humana. E enquanto as pessoas discutiam sobre este ou aquele aspecto de suas teorias, seu objetivo principal foi alcançado: a economia, e não a economia política, havia ganho o dia; a “economia” foi resgatada dos paramos da ética e da teleologia para se tornar uma ciência pura, fosse idealista (Mises e os austríacos) ou uma empírica (os neoclassicistas).
Porém, alguns de nós, ainda bastante retrógrados em nosso pensamento, temos afirmado que havia algo não muito correto, algo não muito – se me permitirem dizer – “científico” na nova ciência, fosse em suas formas idealista ou empírica. Alguns de nós, eu inclusive, pensamos que uma ciência humana sem um telos é como um relógio sem ponteiros ou números: um mecanismo interessante, sem dúvida, mas que não serve a qualquer propósito humano discernível, e que não oferece qualquer maneira discernível de dizer se ele está funcionando adequadamente.

O que se segue é a seleção de três erros que, na opinião deste autor, tornam a “ciência” não-científica. Estes eu chamei de “O Erro sobre Liberdade”, “O Erro sobre os Mercados”, e “O Erro sobre Equidade”. Há muitos outros erros que poderiam ser mencionados, mas estes três são suficientes. Mas para além deste ponto, e na raiz de todos os erros, jaz um grave erro sobre a natureza do homem, um erro profundamente imiscuído nas pressuposições utilitaristas que subjazem a ciência, e que na verdade a arrancam do próprio domínio da ciência, e a situam firmemente no campo da ideologia pura.
O Erro sobre Liberdade
A economia pretende ser, como a física que ela macaqueia, “livre de valores”, mas há na verdade uma coisa que todos os economistas destas escolas valorizam: liberdade. De fato, a liberdade nestas teorias desloca tanto toda a ordem moral como todo o âmbito teleológico para se tornar o Santo Graal, aquilo pelo que devemos constantemente buscar e em cujo nome devemos sacrificar tudo.
O problema é que eles nunca definem efetivamente a liberdade. E a razão pela qual eles não o fazem é óbvia: tal discussão acarretaria questões filosóficas, políticas, sociais e éticas indesejadas que comprometeriam a natureza “desprovida de valores” da ciência. Melhor que seja adotada como um pressuposto implícito, um que opera mais no nível emocional do que no nível racional. Mas sem defini-la explicitamente, afinal, como saber que você a encontrou?
Apesar de eles não darem uma definição explícita, eles de fato dão uma implícita: Liberdade é tudo que ocorre na ausência de coerção. Mas isso só desloca o problema, da definição de liberdade para a definição de coerção. Novamente, a definição é implícita ao invés de explícita, o que é metodologicamente suspeito. E a definição implícita que eles parecem estar usando envolve violência aberta e regulação governamental. Em outras palavras, regras comprometem a liberdade. Daí que o neoclassicismo tem suspeitado de regulação e o austrianismo em particular tem sido claramente hostil.
Mas isso é simplesmente incorreto; liberdade e regras não são opostos, mas complementos. Liberdade irrestrita, ou licenciosidade, não é liberdade em qualquer sentido substantivo, e logo leva à perda de liberdade. O que causa isso é confundir liberdade com escolha livre. Mas liberdade irrestrita de escolha não é o mesmo que liberdade, e é na verdade seu oposto.
Pensemos assim: Ao escolher seu método preferido de ingerir cocaína, você é livre para escolher entre as formas de pó e de crack. Você pode comparar o preço e a utilidade relativos de cada um, e tomar uma decisão racional e informada. Mas enquanto esta obviamente representa uma escola livre, ela não pode ser uma escolha de liberdade, já que qualquer das escolhas leva à escravidão. A liberdade humana, para ser verdadeiramente livre, necessita de limites, necessita de regras.
Da mesma maneira, os mercados não podem existir sem regras. Nós podemos comparar os mercados a um jogo. Pense em um jogo de futebol sem regras. Ele simplesmente não poderia existir. E as regras demandam árbitros. Se não houvesse homens em listras para jogar a bandeira amarela, soprar o apito e parar o jogo quando alguém agarra uma máscara facial, poucos ousariam entrar em campo; as taxas de mortalidade simplesmente seriam muito altas. Regulações não acabam com o jogo, elas tornam o jogo possível. O mesmo é verdadeiro com mercados: ninguém vai entrar em um mercado caótico.
Isso não impede que a regulação possa ser problemática. De fato, há dois erros que são muito comuns: um é a captura regulatória, pela qual os atores mais fortes determinam as regras para a exclusão de todos os outros, e a outra é a regulação por desconfiança, pela qual todas as ações de um negócio são reguladas ao ponto de elevar os custos de transação a níveis ineficientes e até mesmo inaceitáveis e impossíveis. Mas a questão adequada sobre regulação não é quão muita ou quão pouca, mas se todas as partes interessadas estão devidamente representadas no processo de tomada de decisão. Produtores, consumidores, fornecedores, distribuidores, e o público geral deve ter um assento na mesa e voz no resultado.
Deve ser notado que enfraquecer a autoridade pública legítima não resulta em mercados “desregulados”; tal coisa simplesmente inexiste, não mais do que um jogo de futebol poderia existir sem um livro de regras. Ao contrário, o que ocorre é que os atores mais fortes em um mercado, os atores com mais poder ou mais informação, determinam as regras para todas as outras partes, sejam produtores, consumidores, fornecedores, o público, etc. Deve haver regras; quem deve estabelece-las sempre será uma questão política e prudencial. Ausentes do processo inclusive, as regras serão determinadas pelos poderosos para que as partes mais fracas possam ser exploradas.
O Erro sobre Mercados
O erro sobre liberdade leva ao segundo erro, pois se não definirmos liberdade, não podemos definir “livre-mercado”. E de fato, poucos manuais até mesmo tentam empreender a tarefa, especialmente aqueles que mais falam sobre a liberdade dos mercados. Há, obviamente, uma definição implícita nestes textos que equiparam “livre-mercado” com mercados “desregulados”. Mas como nós já vimos, tais mercados não existem e não tem como existir. Mercados sem regulação se tornam predatórios tanto em relação a quaisquer possíveis competidores como em relação ao público.
Como então deve a liberdade do mercado ser definida? Muito simplesmente, pelo menos em princípio: pelas barreiras para o ingresso no mercado. Mercados com poucas barreiras de entrada são mais livres do que mercados com elevadas barreiras de ingresso. Tais barreiras podem vir de custos elevados do mercado, acesso restrito a capital, falta de acesso a canais de distribuição, regulação restritiva a favor dos produtores existentes, ou do poder de firmas oligárquicas ou monopolistas que capturaram o mercado e restringiram o ingresso.
Poder-se-ia levantar a objeção de que barreiras de ingresso podem ser difíceis de mensurar, e isto é verdadeiro, pelo menos em muitos casos. Há, porém, um teste infalível para a liberdade de qualquer mercado: o número de atores dentro desse mercado. Quando há um grande número de fornecedores para uma dada commodity, de modo que nenhum tem o poder de determinar preços, podemos julgar com certeza que estamos lidando com um mercado livre. Porém, quando há poucas empresas, ou apenas uma, dominando um mercado, podemos julgar que isto é o oposto de um mercado livre.
Esta incapacidade de situar adequadamente a liberdade do mercado leva a outra confusão básica pela qual os termos “livre-mercado” e “capitalismo” são usadas como se fossem sinônimos. Mas não se tratam da mesma coisa: de fato, o capitalismo tem sido desde sempre o inimigo mortal da liberdade de mercado. Onde quer que o capitalismo avance, o livre-mercado retrocede.
As razões para isso não são difíceis de situar. Em primeiro lugar, o capitalismo demanda crescimento constante de todos os seus atores, mas em mercados saturados, isto simplesmente é impossível. Assim, por exemplo, quando todo mundo possuir a cerveja desejada, não há lugar para que a Anheuser-Busch expanda seu mercado. Ela só pode crescer por competição predatória, destruindo seus rivais (e, assim, estreitando o mercado) ou absorvendo firmas rivais por fusões e aquisições. Na verdade, foi isso que aconteceu nos EUA; duas companhias controlam 70-80% do mercado – e elas estudam uma fusão! E isto se tornou normal. Em quase todo setor importante, da cerveja à banca, dos derivados de petróleo aos produtos de escritório, da mídia ao processamento de alimentos, duopólios e oligopólios são a regra, e os mercados livres são a exceção. De fato, o capitalismo coletivizou a produção a um nível que assombraria qualquer burocrata stalinista.
Em segundo lugar, toda a argumentação do livre-mercado contraria a argumentação do capitalismo. O capitalismo, especialmente onde ele interage com mercados de capital e de ações, demandam altas taxas de retorno. Mas toda a argumentação do livre-mercado é de “normalizar” a taxa de retorno pela competição livre. E com taxas normais de retorno, mercados livres simplesmente não tem como atrair o capital que mercados oligárquicos podem comandar. Isso significa que uma classe, operando dentro de oligarquias, pode conseguir uma taxa mais elevada de retorno, o que equivale a dizer que ela enriquece às custas de todos os outros. E isso leva ao problema da equidade.
O Erro sobre Equidade
“Equidade” não é um termo que a maioria dos economistas gostam de ouvir, despertando precisamente aquelas questões éticas e filosóficas que são antitéticas a suas posturas enquanto “cientistas”. Muitos economistas chegam ao ponto de propor que equidade e eficiência estão em uma relação de “perde-e-ganha”, ou seja, que uma economia pode ser justa ou eficiente, mas não pode ser os dois. Nessa perspectiva, justiça e ordem econômica são inimigos mortais. Mas o oposto é verdadeiro, e isto é evidente da própria natureza da oferta e da demanda.
Nós nos tornamos habituados a ver gráficos de tabela e demanda com linhas quase retas e um ponto de equilíbrio bastante organizado onde as duas variáveis independentes cruzam caminhos, um ponto que pode, em princípio, ser computado com um sistema de equações lineares. Mas o que o torna organizado também o torna um disparate. O ponto de equilíbrio – qualquer ponto de equilíbrio para qualquer gráfico sobre qualquer tema – representa um balanceamento de forças. Assim, quais são as forças envolvidas no equilíbrio econômico?
Os termos “oferta” e “demanda” são sinônimos de “produção” e “consumo”, e o gráfico começa com como as recompensas de produção são divididas entre produtores e consumidores. Os produtores devem produzir o suficiente para recompor seu capital e adquirir um sustento decente, ou haverá um problema de oferta, estagnação. Consumidores, por outro lado, devem receber o suficiente para limpar os mercados, ou haverá um problema de demanda, recessão. Agora, o produtor que é capaz de suprimir salários, pela interferência em sindicatos, leis injustas, ou terceirização, de fato descobrirá que ele elevou seus lucros, sua fatia do resultado. Mas enquanto isso pode funcionar bem quando é apenas uma empresa que o faz, é morte econômica quando todas as empresas o fazem. Pois ao suprimir salários, também se suprime a demanda de mercado; trata-se da mesma coisa. Pois aqui nós encontramos uma verdade econômica imutável: A folha de salário de cada empresa é a curva de demanda de outra empresa.
Neste ponto, o economista neoclássico pode objetar que a divisão de recompensas não importa, já que haverá sempre a mesma quantidade de poder de compra na economia; mesmo que o capital receba mais e o trabalho menos, haverá ainda a mesma quantidade de dinheiro e, portanto, de poder de compra. Lei de Say. Infelizmente, isso não é verdade; ricos e pobres possuem diferentes propensões marginais de gastar. O CEO da Texaco pode receber 500 vezes mais o que o trabalhador de chão de fábrica recebe, mas ele não pode usar 500 vezes os sapatos, comer 500 vezes a comida, ou viver em uma mansão de 500 quartos. Tampouco pode ele investir produtivamente o excesso, porque o próprio fato de receber o excesso estreita o mercado, que é sempre mensurado pelo número de consumidores solventes naquele mercado. Daí, ao invés de investimento produtivo, o investidor não encontra uso produtivo para seu dinheiro e ele se volta, ao contrário, para instrumentos especulativos como os CDOs, MBSs, CDSs, e toda a sopa alfabética de apostas financeiras com as quais já nos tornamos familiarizados. Assim, tanto poder de compra como fundos de investimento escorrem da economia para produzir déficits estruturais.
Ademais, há um problema na própria matemática dos organizadíssimos gráficos. Pois se oferta e demanda representam a divisão de recompensas, então elas não podem ser variáveis independentes, mas sim variáveis co-dependentes. E variáveis dependentes não podem ser solucionadas por equações lineares, mas apenas por equações diferenciais. E equações diferenciais não produzem as linhas retas e organizadas que estamos acostumados a ver, mas curvas complexas que não resultam nem no alcance de um ponto de equilíbrio, nem no de múltiplos pontos. Ademais, tais equações são altamente suscetíveis a “efeitos borboleta”, pelo que minúsculas mudanças nas variáveis levam a grandes mudanças nos resultados.
Quando uma economia não consegue alcançar equilíbrio pela equidade, ela se volta para meios não-econômicos para se balancear. O principal meio não-econômico de restaurar equilíbrio são crédito ao consumidor (isto é, usura) e gastos governamentais. Cada um desses métodos transfere poder de compra de um grupo, que possui um excesso, para outro, que possui um déficit.
O primeiro método envolve emprestar, não para aumentar produção, mas para expandir o consumo. Esta é a economia plástica, uma economia baseada em cartões de crédito. E na medida em que uma economia dependa de crédito ao consumidor, ela é, bem literalmente, um castelo de cartas, e será tão instável quanto aquelas estruturas usualmente são. Na verdade, a usura é a maneira mais destrutiva de aumentar demanda, já que um dólar emprestado usado para aumentar demanda hoje deve ser devolvido amanhã e, assim, diminui a demanda em um período futuro pelo mesmo dólar – mais juros, e usualmente uma taxa de juros devastadora. Isso demanda mais empréstimos, que obviamente só pioram o problema. Eventualmente, o sistema cai sob o próprio peso, na medida em que o crédito é estendido a um consumidor cada vez mais enfraquecido, resultando em uma crise de crédito.
O segundo método não-econômico é gasto governamental, pelo que o governo busca restabelecer condições de equilíbrio ou suplementando a renda de uma parte da população, ou simplesmente aumentando seus gastos para criar mais empregos e, assim, acrescentar mais poder de compra à economia. Essa estratégia está no coração da economia keynesiana; o governo se torna o consumidor de último recurso. Mas isso tem efeitos políticos e sociais perniciosos; quando o governo se torna o consumidor principal, a economia se adapta às coisas que este consumidor gosta de comprar. Geralmente, isso significa hardware militar, quanto mais caros melhor. Políticos parecem sempre concordar que precisamos de mais tanques, aviões e porta-aviões, o ápice das despesas gerais. E essa fascinação com militarismo se sustenta independentemente de quão triviais sejam as ameaças reais. O keynesianismo, atualmente o método padrão que os governos usam para equilibrar a demanda, tem estado geralmente associado com militarismo nos EUA, o que é o oposto do que Keynes havia esperado.
Resumindo, questões de equidade e equilíbrio não podem ser divorciadas umas das outras, não podem ser postas em contradição umas com as outras; de fato, trata-se dos dois lados da mesma moeda econômica.
O Erro Grave sobre o Homem
Apesar de que os economistas tendem a se esquivar de discussões filosóficas, a verdade é que é simplesmente impossível raciocinar sobre ação humana sem uma teoria subjacente sobre o que é ser humano. Para a maioria dos economistas hoje, a filosofia subjacente é a do utilitarismo. Na base de toda a economia moderna jaz a pressuposição utilitária de que as pessoas sempre agem em seu próprio auto-interesse e que ao fazê-lo, elas inconscientemente criam uma ordem econômica e social que resulta no “maior bem para o maior número de pessoas”. Curvas de demanda, refletindo o auto-interesse de cada pessoa, se somam ao interesse total da sociedade e daí o bem comum.
Há alguma plausibilidade aqui, no sentido de que as pessoas atuariam segundo seu auto-interesse, se elas tivessem alguma ideia do que isso é. A grande verdade sobre o auto-interesse é que ele não é algo sabido de antemão; é algo só descoberto pela experiência. Quem entre nós já não teve a experiência de conseguir precisamente o que se desejava, só para descobrir que não era aquilo que se queria? Ou de temer o pior, apenas para descobrir que tudo acabou resultando bem? O “auto-interesse” permanece sempre no futuro, aquele grande desconhecido. Daí, é a mais inútil entre todas as quantidades econômicas.
Curvas de demanda não são uma expressão de nosso auto-interesse coletivo, mas de nossos desejos coletivos. E enquanto pode haver uma certa plausibilidade em afirmar que o bem comum é apenas o somatório de bens privados (ainda que assim certamente se cometa a falácia da composição), não há cálculo moral possível que possa transformar desejos privados no bem público (irrespectivamente de Bernard de Mandeville). Ao confundir auto-interesse com desejo, os economistas cometem um erro infantil; isto é, um erro que todas as crianças cometem. Mas mesmo a mais petulante entre as crianças suspeita vagamente que sua mãe pode estar certa; que uma segunda taça de sorvete, ainda que desejável, pode não estar em seu melhor interesse, ou que correr na rua pode não conduzir à saúde e longevidade. Com o tempo e com uma educação adequada, uma criança aprende a disciplinar seus desejos; este é o processo de amadurecimento, de crescer. De fato, as crianças são utilitaristas naturais, razão pela qual elas reclamam tanto.
Em relação a desejos, as únicas coisas que podemos saber é o que desejamos e o que devemos desejar. Mas os economistas modernos tem medo dessa odiada palavra, dever. Mas sem um “dever”, não pode haver análise; os desejos estarão desordenados, e desejos desordenados levam a uma economia desordenada. Se as coisas que desejarmos forem desperdiçadoras, devastaremos o planeta; se ganância é nosso objetivo, criamos sistemas de opressão; se queremos riqueza sem trabalho, criamos sistemas de dívida que levam à falência. Desejos desordenados são sinal de imaturidade, seja para uma pessoa ou uma sociedade, e o utilitarismo é simplesmente imaturidade elevada ao nível de uma filosofia.
Mas o principal problema com o utilitarismo é que ele é uma filosofia da “utilidade” que não pode dizer nada sobre a razão pela qual as coisas nos são úteis; “O jogo do alfinete é tão bom quanto poesia”, diria Bentham, a brincadeira de criança vale tanto quanto a vocação do artista; não pode haver ordenamento de bens para além dos desejos pessoais, e a única função dos mercados é somar os desejos de maneira democrática, com base em “um homem, um voto” nos mercados políticos, e “um dólar, um voto” nos mercados de troca. Porém, sem maneira de ordenar nossos bens, é impossível dizer qual é o maior dos bens até mesmo para uma única pessoa, quanto mais para o maior número.
Mas na verdade nós podemos situar as fontes do desejo, a fonte da “utilidade”. Pois na verdade, a única razão pela qual algo nos é “útil” é o amor: compramos o CD porque amamos a música; compramos flores para ela porque a amamos; compramos comida porque amamos a nós mesmos. É o amor que organiza o bem, e daí é importante que o bem seja amado, e não só como uma questão moral, mas também por uma questão prática. Porque uma ciência das relações humanas que não seja capaz de descrever corretamente a ação humana, ou que nivela essa ação em um auto-interesse incognoscível, não será capaz de descrever adequadamente as relações humanas, muito menos as relações econômicas; ela não será ciência, mas ideologia.
O mais extremo dos utilitaristas, Ludwig von Mises, rejeitava a noção de que o amor pudesse ter algo a ver com a ordem econômica:
“Nem o amor, nem a caridade, nem quaisquer outros sentimentos simpáticos, mas o egoísmo corretamente compreendido é o que originalmente impeliu o homem a se ajustar às demandas da sociedade, a respeitar os direitos e liberdades de seu próximo e a substituir por colaboração pacífica a inimizade e o conflito”.2
E ele segue esclarecendo que não pode haver sentimento para além do egoísmo:
“O homem que dá esmolas às crianças famintas o faz, ou porque ele valoriza sua própria satisfação esperada dessa dádiva mais do que qualquer outra satisfação que ele poderia derivar por gastar essa quantidade de dinheiro, ou porque ele espera ser recompensado no além”.3
O que Mises não percebeu – e o que frequentemente esquecemos – e a habilidade divina que os homens tem de incluir o bem dos outros dentro da noção de seu próprio bem. O pai trabalha longas horas para cuidar de sua esposa e filhos porque ele é capaz de ver o respeito por si mesmo no bem daqueles que ele ama. Apesar de Mises estar certo em rejeitar o “altruísmo”, ele estava errado em equiparar o interesse próprio com o “egoísmo”. É o amor, e apenas o amor, que une os nossos interesses aos interesses dos nossos entes queridos. E quando enquanto cristãos nós refletimos que todos os homens são irmãos, que todos estão feitos na imagem de Deus e são merecedores de nosso amor, então anoção de um bem comum se torna intuitivamente óbvia. Mises rejeitava a noção de Deus, e daí foi forçado a rejeitar a noção de amor, de modo que a única coisa que sobra é o auto-interesse nu, o egoísmo puro. Mas na base do egoísmo, não podemos construir nem um reino pacífico, nem uma economia racional.
 
Conclusão
Em tudo isso, eu não quero sugerir que não temos absolutamente nada a ganhar de nosso longo flerte com teorias econômicas utilitaristas. Afinal, os homens e mulheres que teorizam sobre esses temas são cientistas sérios que acrescentaram à soma total do conhecimento humano. Há-Joon Chang notou, ao revisar as 23 escolhas de pensamento econômico que ele identificou, que todas tem algo a contribuir. Em alguns casos, a análise keynesiana será melhor, e em outros, os austríacos podem ter a razão. Não obstante, permanece verdadeiro que não existe qualquer “teoria unificada” da economia. A “ciência” permanece naquele estado de caos e disputa que é típico de ciências jovens, e seu debate não se assemelha a nada além de argumentos entre ideólogos comprometidos que ainda não descobriram seu chão comum, o único chão sobre o qual suas disputas podem ser resolvidas.
Ao construirmos nosso caminho na direção desse chão comum, eu sugiro que temos que retornar ao fatídico ano de 1891. Naquele ano, Marshall publicou seus “Princípios de Economia” com um objetivo de estabelecer a profissão como uma ciência neutra. Mas em 6 meses o Papa Leão XIII publicou sua histórica encíclica, “Rerum Novarum”. Enquanto os cientistas celebravam a descoberta de um princípio “newtoniano”, um segundo o qual todos os preços, inclusive o preço do trabalho, poderiam ser resolvidos matematicamente, chega este sacerdote romano, sem conhecimento de economia, para insistir que deve haver justiça no salário. Certamente, suas palavras devem ter parecido escandalosas para alguns, ainda outra instância, como com Galileu, da Igreja interferindo em questões fora de sua competência. Ainda assim, eu diria que entre o reino da matemática e o da ética há um chão comum no qual não há apenas algum reles compromisso, mas uma maneira de ver que ambos são partes de uma mesma coisa, mas com perspectivas distintas.
Finalmente, eu concluo com o velho dito que afirma, “Se você deseja paz, você deve trabalhar pela justiça”. O equivalente econômico é, “se você deseja equilíbrio, você deve trabalhar por equidade”, pois equilíbrio é paz econômica e equidade é justiça econômica, e você nunca verá um sem o outro.
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*John Médaille é professor de teologia e economia na Universidade de Dallas. É autor do livro Toward a truly free market e um dos mais destacados proponentes do distributismo.

Bolsonaro e Trump: Mais diferenças que semelhanças

Niall Ferguson*

Embora a Argentina seja a anfitriã do encontro do G20 esse ano, a maior economia latino-americana de longe é o Brasil. Você procurará em vão evidência de crise em São Paulo, onde fiquei a maior parte da última semana.

A cobertura da mídia do hemisfério norte da vitória do populista de direita Jair Bolsonaro na eleição de outubro tem sido predominantemente negativa, focando em seus antecedentes militares, sua linguagem inflamada e sua simpatia política por Trump. “Jair Bolsonaro’s climb to power has been marked by divisive rhetoric and offensive speech,” tuitou o jornal The New York Times. “Our planet can’t take many more populists like Brazil’s Bolsonaro,” lamentou o The Guardian. Como um populista de extrema-direita pró-ditadura e pró-tortura foi eleito?

Na realidade, as semelhanças entre Bolsonaro e Trump são superficiais. Ambos certamente se expressaram com sentimentos social e culturalmente conservadores que se tornaram um tabu nos círculos da elite esclarecida do ocidente. Ambos dirigiram seu poder de fogo a estamentos políticos falidos e corruptos. E ambos certamente entenderam melhor do que seus oponentes como explorar o poder político das redes sociais. Mas as semelhanças param aqui.

Primeiro, o foco de Bolsonaro é lei e ordem, não a imigração, com a qual o Brasil não tem problemas. O Brasil viu mais de 60,000 assassinatos no último ano, mais do que China, Estados Unidos e México juntos. Segundo, Bolsonaro juntou forças com o liberal monetarista de Chicago, o economista Paulo Guedes, ao passo que Trump tem como princípio o protecionismo. Enquanto Bolsonaro apelou ao voto dos jovens, ao contrário, Trump apelou a nostalgia dos mais velhos.

O novo governo brasileiro está comprometido com estabilização fiscal, privatização de estatais, simplkificação tributária e maior liberalização de mercado. Este é o tipo de reforma econômica que o Brasil precisa desesperadamente. O país é a nona maior economia do mundo mas está na 125ª posição no ranking de facilidade para fazer negócios do BIRD, atrás até do Irã. O que Guedes tem falado em quase nada soa como o modelo chinês — soa mais como Margaret Thatcher dançando um sambinha. E de fato, Bolsonaro foi abertamente hostil à China durante a campanha, declarindo: “A China não está comprando coisas no Brasil, ela está comprando o Brasil.” Ele inclusive visitou Taiwan.

Por todo o mundo, do grandioso Brasil à minúscula Nova Zelândia, vários países estão escolhendo seus lados ao passo em que o antagonismo Sino-Americano muda sua escala de tensão de uma guerra comercial a uma nova guerra fria.


*Niall Ferguson é historiador econômico e autor de vários livros como Colosso, Império, A Ascensão do Dinheiro, Civilização, A lógica do Dinheiro e a Grande degeneração.

Patriotismo, democracia cristã, tradicionalismo, regressismo e ortodoxia.

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