Dolarização, fim dos estoques e clima agravaram inflação, diz Oreiro (Hora do Povo, 17/08/2021)

Oreiro explica a inflação

José Luis Oreiro

Alta de juros não resolve o problema, Inflação não é de demanda, afirma o economista

O economista José Luis Oreiro afirmou, em entrevista ao HP, que o aumento dos juros não tem nenhum impacto sobre a inflação de alimentos, da energia elétrica ou dos combustíveis, mas é negativo sobre a economia, porque “atua no sentido de retardar a recuperação cíclica da economia brasileira”. Segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB), “a inflação está de volta por fatores relacionados ao lado da oferta da economia. É uma inflação de custos, não é uma inflação de demanda”. Ou seja, “trata-se de uma sequência de choques de oferta que estão produzindo uma elevação de caráter temporário da taxa inflação”.

HORA DO POVO – Por que a inflação está de volta?

JOSÉ LUIS OREIRO– A inflação está de volta por fatores relacionados ao lado da oferta da economia. É uma inflação de…

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O bitcoin sob uma perspectiva cartalista.

Arthur Rizzi

O bitcoin é, segundo os seus defensores, uma moeda em sentido pleno, só que descentralizada e não inflacionária, uma vez que seu estoque está determinado no código-fonte do próprio algorítimo, o que significa que quando se atingir a marca de 21 milhões de bitcoins, não haverão novos bitcoins sendo gerados. Logo o único comércio possível é entre os que já o possuem.

Independente do que o que os seus defensores alegam, o fato é que o bitcoin, das criptomoedas existentes é a que apresenta maior perspectiva de ser aceita como meio alternativo de transação. Todavia, é pouco provável que se torne moeda de curso corrente, uma vez que segundo a lei de Gresham, numa economia onde há dois ou mais meios circulantes, o mais inflacionário é que é posto a circular. E, se os defensores do bitcoin estiverem certos, isso significa que ela no máximo será moeda de reserva de valor.

É importante salientar que, moeda é qualquer coisa que sirva para três propósitos:

  • a) unidade geral de conta.
  • b) meio de troca
  • c) reserva de valor.

Todavia, nenhuma moeda executa as três funções ao mesmo tempo. Quando uma meda é empregada para troca, ela serve como meio de troca e unidade de conta, mas não como reserva de valor. Quando está depositada numa conta poupança ou é trocada por títulos públicos, sua função é a de unidade geral de conta e de reserva de valor e não a de meio de troca. Enfim, em todos os casos, a moeda servirá sempre como unidade geral de conta e alguma coisa mais pois, como sabemos graças aos trabalhos de David Graeber, Landal Wray e André Lara Resende, a primeira e mais importante função de uma moeda, sem a qual ela perde todas as demais, é a de unidade geral de conta.

Ora, num cenário em que o bitcoin é uma moeda deflacionária como proposta por libertários, ela servirá única e exclusivamente como reserva de valor (isso na melhor das hipóteses) e pouco será usada como meio de troca. E sua notação difícil, sua baixa aceitação para liquidação de contratos civis, bem como sua condição de moeda de reserva de valor tornam pouco provável que se torne unidade geral de conta.

Qualquer um pode criar uma moeda, até eu e você; se eu destacar umas 20 folhas do meu caderno e escrever nela que vale 20 coisas, estou criando dinheiro. O duro é conseguir quem o aceite em troca, de modo que a regra na história é que o dinheiro é sempre emitido por alguma figura de poder ou de autoridade (as duas não necessariamente são a mesma coisa). Moedas privadas em circulação existem bem antes do bitcoin. Sempre que você usa um cartão de crédito ou faz uma transferência bancária, como Ribeiro (2021), Deccache (2020) e Paraná (2020) ressaltam, você não está usando reais para liquidar suas transações, mas sim dinheiro privado emitido pelos bancos. A questão é: Por que aceitamos isso? E a resposta têm dois aspectos:

  • 1- Os bancos têm grande quantidade ativos reais e grande poder de mercado, o que lhe confere uma certa autoridade estrutural.
  • 2- Os bancos têm garantias legais do Estado, de modo que ele têm de obedecer a regras estipuladas pelo governo.

Em outras palavras, os bancos agem como casas de câmbio em que devem converter suas moedas privadas criadas ex nihilo durante a concessão de crédito em moeda estatal. Ele pode fazer isso tomando empréstimos junto aos outros bancos no chamado mercado interbancário ou tomando empréstimos junto ao banco central. Se no fim do mês ele não conseguir isso de nenhuma das duas formas, ele quebra. Ora, a quebra do banco é a declaração pública de que as pessoas não aceitam mais seu dinheiro privado e correm para uma moeda superior para liquidar contratos como garantia, nesse caso a moeda estatal. Se você já viu pessoas trocando seus reais por dólares em crises, saiba que o processo é o mesmo.

Pode parecer estranho isso já que sempre que você vai ao caixa eletrônico você vê escrito R$ no seu saldo e não bancocoins. Isto ocorre porque o real é uma moeda em sentido pleno, ela serve como unidade geral de conta, meio de troca e reserva de valor. O bitcoin hoje não serve nem como unidade geral de conta e nem como meio de troca e sua grande vitória até agora foi ser aceita por alguns poucos BCs como moeda de reserva internacional. Ora, se o bitcoin, a moeda que veio para “derrubar o Estado” precisou do Estado para ter uma aceitabilidade meramente simbólica, logo é sinal de que “algo errado não está certo”.

O grande problema de ativos que servem apenas como reserva de valor é que eles tendem a ser ativos fortemente especulativos, com grande oscilações de preços e isso dificulta sua aceitação como meio de troca e unidade geral de conta. Se um ativo pretensamente monetário flutua fortemente de preço gerando situações de hiperinflação e “hiperdeflação”, ela dificilmente será usada como unidade de conta porque suas variações são constantes e bruscas, de modo que uma unidade mais estável é mais desejável. Cada vez que o bitcoin dá uma valorizada de 200% e outra desvalorizada de 200% poucos meses depois, ela está sendo essas duas palavrinhas ao mesmo tempo. Um item que custe 1 btc antes de uma maxi-desvalorização dessa passaria a custar 3 btc depois.

Por fim e ao cabo, o bitcoin acabará tendo um destino similar ao padrão-ouro. E mesmo o padrão-ouro não era algo “anarquista”, pelo contrário! O ouro só tinha o papel de moeda internacional “superior”, servindo como unidade geral de conta, graças aos próprios governos que determinavam assim! No fim das contas o bitcoin serve apenas para imobilizar a mão do Estado em matéria de política monetária, o que na verdade beneficia a burguesia usurária, que ganha com juros altos na inflação e ganha com juros reais ainda mais altos na deflação, como o distributista John Médaille (2010) chamava a atenção. Aqueles que estão em posição devedora estão sempre em uma situação muito pior que os credores, pois suas dívidas aumentam não apenas nominalmente no tempo, mas também em termos reais! Se você toma 1000 reais emprestados quando 1000 reais eram capazes de comprar 50 ítens no mercado desse exemplo hipotético, e quando paga os 1000 reais ele se valorizou e foi capaz de comprar não 50, mas 500 ítens, você pagou muito mais do que tomou emprestado.

Referências:

PARANÁ, Edmílson. Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico. Belo Horizonte: Autonomia Literária, 2020.

DECCACHE, David, DALTO, Fabiano, et al. Teoria Monetária Monderna: A chave para uma economia a serviço das pessoas. Genérico, 2020.

MÉDAILLE, John. Toward a truly free market. Wilmington: ISI Books, 2010.

RIBEIRO, A. Rizzi. Revista de Geopolítica: Distributismo Mercantil: Uma alternativa realista para o mundo moderno. Disponível em: <http://www.revistageopolitica.com.br/index.php/revistageopolitica/article/view/342&gt; Acessado em: 17/08/2021.

“Eu tenho uma boa resposta a sua crítica de esquerda”

Arthur Rizzi

Eu sempre recebo esse tipo de mensagens em posts onde teço críticas ao liberalismo econômico. Óbvio que isso faz parte do debate, mas a real é que não deveria. A questão não é o direito a questionar uma posição política. Mas sim, negar que ela é política, fazê-la passar por científica e não querer se reportar a evidências.

Todo discurso liberal econômico é em maior ou menor escala, com maior ou menor sofisticação, a tese do gotejamento. Isto é, sempre há algum mecanismo mágico, alguma força insondável, que fará com que as quedas de salários dos trabalhadores, que o aumento no desemprego e o corte de gastos sociais levarão a um futuro brilhante para todos. E nunca leva. Aliás, já são inúmeros os trabalhos até mesmo de economistas liberais mostrando que a coisa não é assim. Mas mesmo sendo numerosos em quase em nada afetam a política em lugar nenhum do mundo.

Isto porque o conteúdo científico de qualquer teoria não tem poder nenhum sobre a sociedade se não tiver apoio político e, para ter apoio político, precisa de patrocínio. Ou você acha que a hipótese de gênero é ciência? No caso, porque cargas d’água alguém que é beneficiado por um teoria errada financiaria a certa? O fato das classes mais altas, empresários médios e grandes serem liberais e os pobres tenderem a não ser, não é mero infortúnio, coincidência, poder apelativo das esquerdas, inveja ou populismo. Isto é real. A teoria liberal beneficia os mais ricos às custas do mais pobre. Simples assim. Não importa quantas teses mais ou menos sofisticadas se levantem contra isso. Trata-se de crime com ocultação de cadáver, apenas.

Aliás, o foco individualista da economia atual não é apenas coerência interna com os pressupostos da teoria. É uma tática também. Quanto mais você tira a atenção de alguém dos laços que tem com sua família, classe social e profissional, para fazê-la crer que tudo que importa são suas decisões individuais, menos ela percebe que as políticas econômicas são uma extensão da disputa política de interesses entre capital e trabalho para ver quem se apropria de frações maiores ou menores da renda.

Como minorias não ganham eleições, e dizer as claras que estão agindo em defesa de seus próprios interesses não agrega voto, então precisam convencer você, pobretão, de que há um mecanismo mágico que vai te beneficiar quando você ficar desempregado e sem direitos.

Chesterton, Marx e capitalismo: Proximidades.

Arthur Rizzi*

Pode soar assustador para um católico ler que Chesterton e Marx tinham “proximidades”, mas a verdade é que isso não deveria assustar, pois Marx não era a personificação do diabo, uma figura metafísica que representa a encarnação do mal, mas um filósofo ateu que era brilhante, mas que, todavia, cometeu muitos erros. Eu gosto de pensar nessas questões com o que eu chamo de “o problema dos dois mentirosos”, pois elucida bem como alguém não precisa ser a soma de todos os males para causar estragos.

Imaginemos um crime hipotético do qual a polícia saiba quase nada (ou muito pouco), e tudo o que ela sabe sobre o crime advém do relato de duas testemunhas, além de umas poucas evidências do crime. Suponhamos que o crime em questão seja um assassinato. Um homem mata uma outro com um tiro. O corpo da pobre vítima cai no chão como uma tábua, jorrando sangue. O assassino limpa suas digitais da arma e a joga no chão ao fugir. Para sorte da polícia, haviam duas testemunhas do crime. Só que essa sorte logo vira azar, pois ambas testemunhas têm “problemas de confiabilidade”. Um é muito mentiroso, um famoso mitômano, que mente em tudo o que puder na medida do possível. O outro é um pequeno mentiroso, mente frequentemente, mas apenas em detalhes, preservando o máximo que puder da realidade.

Pois então, após as nossas considerações, a polícia vai interrogar as nossas testemunhas:

O nosso primeiro interrogado é o “muito mentiroso”. Ao ser questionado sobre o crime, ele responde que de fato estava no local na hora do crime (uma verdade, afinal a mentira total é o não-ser), mas diz que não houve crime nenhum. Que não havia ninguém lá. Diz que não teve arma, nem tiro, nem sangue e nem corpo. Que durante todo o tempo que ficou no local do crime na hora em que o crime aconteceu tudo o que havia era um belo luar. uma agradável brisa e o som dos grilos. Ora, tal relato contradiz a existência de um corpo, das manchas de sangue e da arma.

O segundo interrogado é o pequeno mentiroso. Ele também confirma que estava no local na hora indicada, mas que não houve assassinato e sim um suicídio. De que a vítima pegou a arma e atirou na própria cabeça. Quanto a ausência de digitais na arma, ele alega que ela (a vítima) estava de luvas o que, suponhamos, seja uma infeliz coincidência. Ora, isto é uma mentira, mas esta mentira encontra lastro no corpo, na arma e no sangue, e ainda explica um possível ‘furo de roteiro”. Supondo que a polícia não tenha nenhum outro dispositivo para resolver o crime, qual dos dois relatos é mais provável da polícia acreditar? Se você respondeu que é o do pequeno mentiroso, acertou. E isto porque a “melhor” mentira, a mais convincente, não é a que nega tudo ou quase tudo. Mas sim a que mistura pedaços da verdade com a falsidade, pois ela é mais verossímil. Ela se parece com a realidade e por isso é mais crível. Se alguém vir um objeto voando e disser que é um avião (mesmo que ele saiba ser um helicóptero) terá mais credibilidade que o que diz que era um super herói com um S no peito, cueca sobre a calça e uma capa vermelha.

A mesma coisa se pode dizer de Marx, se Marx fosse o mentiroso total que os austríacos e olavetes dizem, alguém que é pura mentira e pura fraude, o marxismo jamais teria causado nem ao menos 1% dos problemas que ele causou, pois tudo seria apenas uma fábula. Mas as coisas não se passaram assim, e Marx só pode ser um problema para a burguesia porque ele disse verdades. E é dessas verdades que estou aqui para falar.

Chesterton e Marx concordavam em muitos pontos em sua análise do capitalismo, ambos divergem em muitos pontos, especialmente na conclusão a que chegam. Mas o fato é que Chesterton e Marx viam o capitalismo com uma impressionante coincidência de termos e definições. Chesterton, por exemplo, definia o capitalismo como um modo de produção em sentido bem próximo ao utilizado por Karl Marx. E por modo de produção capitalista, Chesterton o definia como um modo de produção baseado na separação radical do capital e do trabalho no que, como consequência, o capital ficava acumulado nas mãos de poucas pessoas enquanto o restante era forçado a vender seu trabalho por um salário. Por isso Chesterton preferia chamar o capitalismo de proletarismo, pois o capital quase ninguém tinha. Daí a memorável frase de “The uses of diversity (1921)’: ‎Muito capitalismo não significa muitos capitalistas. Significa poucos capitalistas.

Marx da mesma forma, definia o capitalismo como um modo de produção no qual o trabalho assalariado era o meio pelo qual as mercadorias eram produzidas, e isso significa um regime no qual alguns poucos (a burguesia) tinha os meios de produção e a maioria (o proletariado), tinha de vender a sua força de trabalho. E mais, Chesterton via que a tendência do capitalismo era a mais-valia e a lei de ferro dos salários (ou salário de subsistência): Na “Utopia dos usurários” (1917), Chesterton afirma:

“Todos, exceto o homem de coração mais duro, devem sentir pena do patético dilema do homem rico, que se vê na posição de manter o homem pobre nutrido o suficiente para trabalhar e magro o bastante para se ver obrigado a fazê-lo.”

É verdade também, que Chesterton avança daí para um conceito mais próximo de Keynes relacionado ao princípio da demanda efetiva em “Um esboço de sanidade“:

Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais difícil que a maioria deles se tornem clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negocio em dificuldades, como é o caso atual do ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que os outros tem pra gastar com carvão. […] É um círculo vicioso no qual a sociedade assalariada há de finalmente afundar ao começar a abaixar lucros e abaixar salários;[…] (CHESTERTON, 2016, p.30)

Todavia não deixa de ser espantoso que muitos que com razão odeiam Marx e citam Chesterton, o façam quase o alistando Chesterton na escola austríaca, omitindo muitas vezes seu brutal anti-capitalismo, pois seus termos podem ser muito incômodos aos princípios austríacos, mas muito próximos em certo sentido aos do odiado marxismo. Aliás, a própria aproximação Chestertoniana em relação a Keynes pode ser ignorada e lida (não sem um pouco de contorcionismo), como uma adesão a uma visão de mundo no mínimo simpática a teoria da dependência do marxismo, no qual enquanto os países centrais têm como recurso para obter mais-valia relativa o aumento da produtividade via P&D em novas tecnologias, já que eles estão na fronteira tecnológica e possuem grande acúmulo capital humano. Os países periféricos, ao contrário, não tendo estes recursos associados estruturalmente a divisão internacional do trabalho, só podem aumentar a mais-valia no sentido clássico, aumentando a exploração sobre trabalho assalariado.

E as considerações sobre este assunto são tão impressionantes, que a solução distributista, se analisada a luz do conceito de mais-valia, resolve o problema da exploração capitalista de modo perfeito, pois se todas as famílias têm suas próprias propriedades e trabalham para si em suas próprias posses ou em cooperativas, logo elas se apropriam de todo o produto dos meios de produção, uma vez que no distributismo ideal não haveria trabalho assalariado. É importante lembrar que a mais-valia só existe graças a existência de trabalho assalariado. Essa similaridade é algo que eu já tinha observado no meu artigo publicado na Revista de Geopolítica.

Chesterton, por exemplo, escreveu a maioria de suas obras nas quais disserta sobre o bom e justo arranjo social antes da Primeira Guerra Mundial e parte no entre-guerras, portanto, a concepção chestertoniana de capitalismo possui as limitações da época, como por exemplo, a prevalência do conceito de valor-trabalho e o fato de estar, ao menos aparentemente, pouco familiarizado ao pensamento marginalista crescente, que inovaria ao trazer ao mundo o conceito de valor-utilidade. (RIBEIRO e RIBEIRO, 2019, p.22)

Óbvio que isto não significa que haja afinidades possíveis entre marxismo e distributismo, mas que é no mínimo curioso que muitos distributistas façam vistas grossas a estas semelhanças por pura pirraça ideológica. E porque, por alguma razão, acham que o liberalismo é um aliado natural nosso.

Referências:

CHESTERTON, Gilbert Keith. Um esboço da sanidade: pequeno manual do distributismo. Campinas: editora Ecclesiae, 2016.

RIBEIRO, Pedro; RIBEIRO, A. Rizzi. A tradição cristã e seus limites por detrás da economia social de mercado. Revista de Geopolítica, v.10, n.1, jan./fev. de 2019.

Reação Nacional: 3 anos de luta

A Reação Nacional completa neste mês de agosto três anos de existência. Tivemos em nossos quadros contribuições de muitos tipos, como a de José Oreiro, John Médaille, Raphael Mirko, Paulo Gala e outros.

Nossa missão continua a mesma, de lutar por um Brasil de terceira via; nem liberal e nem socialista; esquerda do trabalho e direita dos valores.

A luta de classes e a Doutrina Social da Igreja – Parte 3

John Médaille

 

A grande compressão

De fato, entre a segunda guerra mundial e o fim dos anos 70, Os Estados Unidos construíram, ao seu modo, uma versão capitalista da boa sociedade esboçada pelo Papa Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno, a qual Franklin D. Roosevelt proclamou como “o documento mais importante dos tempos modernos”

Os Estados Unidos pareciam ter preenchido a visão do Papa de uma terceira via entre o capitalismo liberal e o socialismo. Este foi o período da grande compressão, quando as diferenças de renda entre os ricos e pobres encolheram ao seu nível mais baixo desde antes da Guerra Civil. A porção da renda nacional indo para os 10% mais ricos caiu de seu pico pré-guerra de aproximadamente 50% em 1928 para um vale de 33%, e se manteve dessa forma de 1947 a 1982.

Os Estados Unidos criaram, possivelmente, a sociedade mais equitativa na face da Terra e possivelmente na história humana. Durante esse período, o CEO de uma grande empresa poderia ganhar 20 vezes o que seus trabalhadores ganhavam. Isso era o bastante para mantê-lo bem confortável, mas passa longe do fator-múltiplo de 500 que fazem hoje.

Nestes dias mais benignos, o CEO e os seus trabalhadores praticamente compartilhavam uma vida em comum; o CEO apenas se apropriava de um pouco mais dela. Eles certamente não eram iguais, mas quase sempre eram vizinhos. O trabalhador dirigia um Ford e o CEO um Cadillac, mas eles dirigiam nas mesmas ruas. A esposa do CEO fazia compras no mesmo lugar que a esposa de um trabalhador, mesmo que ela comprasse mais produtos ou de melhor qualidade. Eles tinham casas parecidas, mesmo que uma fosse um pouco maior. Os ricos e ac lasse média não estavam tão distantes e estavam atados a uma vida social comum, por uma experiência de guerra parecidas, pela memória da grande depressão, e uma luta comum contra o comunismo.

A oligarquia ataca novamente:

Mas esta era uma situação instável. Seu principal problema é que ela funcionava não como consequência da divisão da propriedade, como em Aristóteles, mas por uma tentativa de equalizar rendas (o produto da propriedade), como em Keynes. O New Deal tentou alcançar um equilíbrio entre as forças que determinavam salários: os sindicatos, os proprietários, os gerentes, e os engenheiros. Isso significava que o sistema ainda era capturável e suscetível a ataques por forças que defendiam menos Estado. E estas forças sagraram-se vencedoras com a eleição de Ronald Reagan em 1980.

As sombrias estatísticas dessa vitória já são bem conhecidas, mas aqui cito apenas uma ou duas. “No quarto de século entre 1979 e 2005, a renda média anual deduzido o imposto de renda (ajustado pela inflação) cresceu cerca de US$ 900 para o quinto dos americanos de baixa renda, cresceu em torno de US$ 8,700 para o quinto dos americanos de classe média , e cerca de US$745,000 para o 1% mais rico.”

E como se não fosse ruim o suficiente a situação piorou desde a crise de 2008. “De 2009 a 2012, a renda real dos 1 por cento mais ricos cresceu 31%, enquanto a renda dos outros 99% encolheu. Os efeitos culturais e sociais dessa mudança estão bem documentadas no livro de Robert Putnam, “Nossos filhos: A crise do sonho americano”. O método de Putnam é interessante. Ele alterna seções de narrativas, comparando a vida das pessoas nos anos 50 com a vida de pessoas que pertencem em teoria às mesmas classes sociais de seus compatriotas de 60 anos antes, com seções de dados e sólida pesquisa acadêmica. (…)

Como gosto de explicar aos meus alunos, é sempre bom ter algumas barbas cinzentas na faculdade, pois o que parece ser história seca para alguns será algo vivido, amado, perdido e lamentado para outros, outros que possam, assim, falar com autoridade especial. Os resultados da pesquisa de Putnam são apresentados em uma série do que ele chama de “gráficos de tesouras” que documenta “uma lacuna crescente na experiência infantil entre crianças de origens bem educadas, ricas e crianças de origens menos educadas e empobrecidas”. Cada vez mais, há uma minoria que desfruta de um ideal como o de Ozzie-e-Harriet dos anos 50, e uma maioria em expansão, atolada em desesperança. Levaria muito tempo para ensaiar a narrativa e a pesquisa de Putnam, mas o quadro que ele apresenta é sombrio e ameaça a própria vida da republicana, pois nenhuma república pode subsistir onde os laços sociais estão quebrados.

E o que está claro no trabalho de Putnam é que os laços sociais estão sendo quebrados. A vida compartilhada dos anos 50 foi substituída por separação e suspeita mútua. Os ricos agora vivem em condomínios fechados; as escolas foram re-segregadas ao longo da classe em vez de linhas raciais. Os ricos têm sua própria economia, o que frequentemente significa ter suas próprias lojas para coisas simples, como mantimentos. Até mesmo experiências compartilhadas comuns estão desaparecendo. Por exemplo, novas rodovias urbanas estão sendo construídas com pistas de pedágio. Agora, o que quer que se pense disso do ponto de vista do financiamento rodoviário e da engenharia de tráfego, significa que há uma classe que não compartilha mais dos encargos comuns da hora do rush. O mesmo acontece nos aeroportos, onde os ricos há muito desfrutam de lounges separados e privados. Mas talvez o exemplo mais bizarro seja a divisão nos aviões de embarque, onde placas de primeira classe à direita da corda e todos os outros à esquerda. Isso não tem absolutamente nenhum significado em termos de eficiência de carga; é um marcador de classe puro, uma manifestação do que Thorstein Veblen observa como a necessidade manifesta não apenas de possuir riqueza, mas de colocá-la constantemente em exposição (teoria do consumo conspícuo). E embora isso possa ser uma necessidade realmente sentida entre os ricos, é neurótico quando significa que alguém desdenha compartilhar o mesmo pedaço de tapete enquanto embarca um avião.

As classes têm alguma função?

 
A questão então se torna: há algo que possa ser feito para reverter essas tendências, para construir sociedade sobre algo mais estável do que um poder que só pode sobreviver expandindo-se? Deixe-me sugerir que há. E deixe-me começar com a observação de que os americanos especialmente têm uma atitude um pouco esquizofrênica em relação à classe.
 
Por um lado, eles desdenham, acreditando ser membros de uma sociedade sem classes, ao mesmo tempo idolatrado a classe alta. Acho que o que podemos dizer é que eles desdenham da classe como uma categoria social, mas acreditam que é útil como uma categoria econômica. O que eu gostaria de sugerir é que o que nós é temos exatamente ao contrário: classe é uma categoria econômica duvidosa; mas pode ser uma categoria social útil, pelo menos quando vista à luz da distinção de Aristóteles entre uma aristocracia e uma mera oligarquia. Como distinção econômica, é claro que é necessário haver diferenças na remuneração, com base nos diferentes níveis de contribuição que as pessoas fazem para o bem comum. Contribuições mais elevadas de curso precisam ser honradas, e normalmente por salários mais altos. No entanto, é simplesmente impossível que isso seja a causa dos vastos diferenciais que realmente vemos, que estão em grande parte enraizados em aluguéis econômicos, subsídios, patentes, privilégios, acesso privilegiado ao crédito e à propriedade, e assim por diante. Também não precisamos, au contraire de Malthus, uma classe puramente consumível; na verdade, o oposto é verdade. O dinheiro se move muito mais eficientemente através das classes mais baixas devido à maior propensão marginal a gastar. Nem é necessário para a caridade; na verdade, concentrações de riqueza corrompem a filantropia e conferem enorme poder aos ricos para moldar a vida de uma nação de maneiras perniciosas através do que Peter Buffet chamou de “Complexo Industrial De Caridade”.
 
Nem sequer desempenham um papel substancial na formação de capital. Sem o ponto de trabalho, podemos mostrar que todas as justificativas econômicas para grandes distinções de classe derretem sob o peso de qualquer análise razoável. Mas o fato é que sociedades complexas exigem meios complexos de coordenar o trabalho e defender o corpo político de uma grande variedade de ameaças, ambas requerem o poder do comando. Esses serviços devem ser realizados, mas a palavra-chave aqui é serviço; na medida em que há um realmente necessário, devemos invocar um poder verdadeiro.

Continua…

Robert Murphy, o austríaco, rejeita a teoria dos fundos emprestáveis?

Este artigo é uma tradução de um texto da página Social Democracy in 21st century.

O economista austráico Robert P. Murphy tornou sua tese de doutorado pública e disponível em seu blog: Robert P. Murphy, “Is Keynes from Heaven or Hell,” 7 de julho de 2011.
A tese é um estudo em três ensaios lidando com a teoria austríaca do capital e da taxa de juros. No segundo ensaio, Murphy critica a teoria da preferência temporal na definição da taxa de juros (Murphy 2003: 58–126), e no terceiro capítulo apoia a posição keynesiana da taxa de juros como fenômeno monetário (Murphy 2003: 127–177).

Ao adotar uma teoria monetária da taxa de juros, Murphy está mais perto dos keynesianos nesta matéria do que dos seus colegas austríacos, e de fato ele elogial como genial o capítulo 13 da Teoria Geral (Robert P. Murphy, “Is Keynes from Heaven or Hell,” 7 July 2011).

Nota da RN: A posição é tão incômoda para Austríacos que os protestos, críticas e cancelamentos nos comentários são inúmeros vindos de austríacos.

Na p. 107 (n. 33), Murphy identifica alguma hipocrisia vinda de Henry Hazlitt, que condenou a ideia de Keynes de “taxas de juros próprias”” como uma idéia “estranha” e uma “idiotice” mesmo embora Rothbard usando um conceito idêntico na sua análise dos juros no mercado de capitais. Murphy aponta que a teoria da preferência inter-temporal dos jurops “encoraja justamente os tipos de comportamento que Hazlitt considera tão absurdos” (Murphy 2003: 107, n. 33).

Entre as páginas 100–107, pode-se ler a crítica deMurphy’s da idéia de que uma taxa uniforme de juros surgiria a partir dos interesses individuais no mercado de bens.

É apenas numa “economia uniformemente funcional” (ERE),um estado de equilíbrio geral estacionário com “um mundo de certezas e condições imutáveis ao longo do tempo” , que uma taxa de juros uniforme surgiria entre os indivíduos. Nun equilíbrio geral dinãmico isso não aconteceria.

(Murphy 2003: 103)

Aqui Murphy tenta solucionar o problema posto no debate Sraffa-Hayek com uma ideia de Ludwig Lachmann:

“O que é muito menos claro para nós é até que ponto Hayek estava ciente de que, admitindo que poderia não haver uma única taxa, ele estava fazendo uma concessão fatal ao seu oponente. Se houver uma infinidade de taxas de juros por mercadoria, é evidentemente possível que a taxa de juros do dinheiro seja menor do que algumas, mas mais alta que outras. O que, então, seria a causa do equilíbrio monetário?

Lachmann 1994: 154

“Não é difícil, no entanto, fechar essa brecha particular na muralha austríaca. Em uma economia de troca com arbitragem de commodities de livre concorrência tenderia a se estabelecer uma taxa de equilíbrio global de juros. Caso contrário, se a taxa de trigo fosse a mais alta e a taxa de cevada a menor das taxas de juros, seria lucrativo tomar empréstimos na cevada e emprestar em trigo. A arbitragem intermercado tenderá a estabelecer um equilíbrio global no mercado de empréstimos, de tal forma que, em termos de uma terceira mercadoria servindo como numerário, digamos o aço, não é mais rentável emprestar em trigo do que em cevada. Isso não significa que as taxas próprias reais devem ser todas iguais, mas que suas disparidades são exatamente compensadas por disparidades entre os preços a seguir. O caso é exatamente paralelo à forma como a arbitragem internacional produz equilíbrio no mercado monetário internacional, onde as diferenças nas taxas de juros locais são compensadas por disparidades nas taxas de juros a termo”

Lachmann 1994: 154

Murphy, porém, rejeita a solução de Lachmann apontando que ele não compreendeu o problema:

“Lachmann está defendendo Hayek da alegação de Sraffa de que não há razão para uma ‘taxa de juros natural’ única. Mas o porto central doa rgumento de Sraffa era que existem, em princípio, tantas taxas naturais quanto existem mercadorias; o fato de que as taxas em termos de qualquer mercadoria, como o aço, devem ser iguais não resgata Hayek. (Não se pode explicar o ciclo de negócios como um desvio da taxa de juros mentária em relação taxa natural, se a primeira, calculada em termos de aço for diferente da taxa natural calculada em termos de cobre.) a arbitragem sozinha não vai estabelecer uma taxa real única de interesse na maneira como Lachmann parece pensar.

(Murphy 2003: 102, n. 27)

De acordo com Murphy, arbitragem não levaria a equalização das taxas de juros. Até onde percebi, Murphy não explora as consequências disso para a teoria do ciclo econômico austríaca: sem uma taxa natural de juros, o que resta dessa teoria? Esse é o cerne da crítica do Sraffa (Sraffa 1932a and 1932b).

Murphy conclui que empréstimos são apenas o custo de emprestar dinheiro (Murphy 2003: 176).

REFERÊNCIAS

Lachmann, L. M. 1994. Expectations and the Meaning of Institutions: Essays in Economics (ed. by D. Lavoie), Routledge, London.

Murphy, Robert P. 2003. Unanticipated Intertemporal Change in Theories of Interest, PhD dissert., Department of Economics, New York University.

Sraffa, P. 1932a. “Dr. Hayek on Money and Capital,” Economic Journal 42: 42–53.

Sraffa, P. 1932b. “A Rejoinder,” Economic Journal 42 (June): 249–251.

Cinco (5) rotinas liberais na discussão econômica

Embora seja verdade que nem todo liberal se porta assim, existe uma grande trupe de liberais vulgares geralmente associados a Escola Austríaca que tem algumas formulinhas mágicas para responder a tudo. Daí você pode começar a entender como funciona a mente liberal por meio destas rotinas:

1) TUDO TEM QUE PIORAR ANTES DE MELHORAR:

Não existe ajuste econômico sem sofrimento ou uma piora nas condições de vida dos pobres num primeiro momento, o que significa entre outras coisas, que se durante 100 anos uma economia cresceu de forma que eles consideram “errada” teremos que expurgar 100 anos de erros, custe o que custar, o que nos leva ao segundo ponto:

2) SE ESTÁ PIORANDO É PORQUE ESTÁ DANDO CERTO:

A austeridade está destruíndo atividades econômicas inúteis e modernizando a economia, que ressurgirá como uma planta mais forte depois da poda; se ainda tem alguma estatal de pé, alguma lei que restringe a queda dos salários ou que limita o crescimento da taxa de lucros, se ainda há algum fundo de bem-estar social, não se cortou gastos o bastante e nem se “reformou” a economia o suficiente. Após cada novo fracasso de uma reforma a próxima passa a ser o Santo Graal que vai resolver tudo.

3) TUDO O QUE DÁ ERRADO NA MINHA GESTÃO É CULPA DE QUEM VEIO ANTES:

Pode ser resumido a expressão “A culpa é do PT”, mas como é algo atemporal sempre haverá novos “PTs” dependendo do contexto. A culpa é sempre do antecessor, mesmo que seja quarenta anos antes, como os desenvolvimentistas no Brasil.

4) TUDO O QUE DÁ CERTO NA GESTÃO DOS OUTROS É CULPA DO QUE FIZERAM OS LIBERAIS NO PASSADO:

Funciona como na fórmula clássica para saber se um ministro é liberal ou não. Se o que ele fez deu certo, é liberal. Se deu errado, é desenvolvimentista, keynesiano, comunista, etc. Tudo o que deu certo em governos não liberais é sempre responsabilidade do sacrifício que eles fizeram antes, como o milagre econômico foi o Campos quem fez, o Delfim só surfou na onda. O sucesso do governo Lula foi porque o FHC decuplicou a dívida e desnacionalizou o país “modernizando” a economia… e por fim:

5) QUANDO TUDO DER ERRADO, É PORQUE LIBERALIZARAM POUCO:

Não há melhora gradual apenas mudando na “direção certa”, você precisa um nível mínimo mágico de liberalização para dar certo. E, a medida que vai dando errado, o grau mágico de liberação vai sendo postergado mais e mais para frente.


Sobre o índice de liberdade econômica.

RIBEIRO, A. Rizzi.

É muito comum liberais negarem que o Brasil passou por períodos liberais e de reformas liberais porque o país ocupa uma posição baixa no Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation. Mas isto é um erro de interpretação derivado de um problema metodológico do índice.

A causalidade é invertida no índice de liberdade econômica. O índice parte do pressuposto de que a liberdade econômica é a causa da riqueza. Quando na verdade é o contrário. Países ricos produzem bens e serviços de excelência, sofisticados, razão pela qual são demandados externamente, e com isso, por necessidade estrutural, a maior parte da demanda desses países é externa, o que se traduz no indice como maior liberdade econômica. Países pobres tem a maior parte de sua renda vinda de demanda interna porque o grosso dos seus produtos não são competitivos externamente.

Essa realidade é mascarada no índice por critérios que não tem relação real com o índice. O critério government spending, que mede o tamanho do Estado, não guarda relação intrínseca com o índice e nem com o IDH. Países como Alemanha que tem um Estado robusto está na frente do Haiti, cuja tributação real mal chega a 10% do PIB.

Por outro lado, indicadores que não são exclusivamente liberais tem mais peso como a segurança da propriedade privada. Onde há correspondência entre o índice, o IDH e o grau de riqueza.

Bens e serviços sofisticados, com alto grau de divisão do trabalho, tem maior valor agregado e produtividade crescente em escala e, com isso, são fontes de melhores salários, maior poder de consumo e maior renda per capita. Países pequenos e pobres exportam quase tudo o que tem, mas por serem bens sem sofisticação e majoritariamente in natura (caso do Haiti) tem retorno constante ou decrescente em escala.

Outro problema do índice é que ele faz uso de uma metodologia institucionalmente míope, no qual menor liberdade econômica significa socialismo e maior liberalismo. O que é um erro bocó. Um país africano cujas relações econômicas são pouco mais que tribais, não tendo por isso mesmo, um conceito bem definido de propriedade privada ou uma divisão do trabalho pouco monetizada não é socialismo. Uma tribo indígena de 1500 não era socialista. São apenas povos cujos meios de reprodução da força de trabalho são pré-modernos e primitivos, entretanto, sempre aparecerão mal ranqueados no índice.

O Desequilíbrio Fiscal Pode Levar a um Aumento da Taxa de Juros?

José Luis Oreiro

José Luis Oreiro

Em matéria veiculada recentemente na grande mídia um dos diretores do Banco Central do Brasil afirmou que o quadro macroeconômico de inflação baixa e juros baixos está condicionado à estabilidade do quadro fiscal. Uma deterioração adicional das contas públicas – por exemplo, devido a “flexibilização’ do teto de gastos – poderia levar a um aumento das expectativas de inflação, obrigando o BCB a abandonar a política monetária estimulativa mesmo numa situação de elevado nível de ociosidade dos fatores de produção. Outros economistas alegam, além disso, que o desequilíbrio fiscal atual da economia brasileira – manifestado na expectativa de um déficit primário superior a 10% do PIB para o ano de 2020 – já estaria tendo efeitos negativos sobre a taxa de juros de longo-prazo dos títulos públicos. O argumento é que a elevação da dívida pública para valores próximos a 100% do PIB no final de 2020…

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