Conceito de Distributismo.

Destacado

Arthur Rizzi.

O cão senhorial – Símbolo do Distributismo.

Distributismo é um modo de produção, isto é uma forma de relação entre o homem e a natureza e entre o homem e o próprio homem. Ele consiste na reunificação do capital e do trabalho sem a necessidade de abolição da propriedade privada.

No distributismo existem quatro (04) formas de propriedade:

1- A propriedade privada familiar: Pode ser um pequeno negócio, como uma padaria, um mercadinho, uma farmácia, uma pequena fábrica, um roçado. Em suma uma pequena unidade produtiva que emprega a própria família, a qual goza ela própria dos proveitos de sua produção.

2- A propriedade cooperativa: Um grupo de pequenos proprietários podem se unir para produção conjunta de bens de maior valor agregado e que exijam maior divisão do trabalho, ou ainda atender de modo mais eficiente um mercado. Por exemplo, uma cooperativa de laticínios, um banco cooperativo, ou até mesmo uma cooperativa industrial como a da Emília-Romana.

3- A propriedade sindical: Quer com poupança própria acumulada, quer por meio de um fundo de investimento mantido pelo governo, consiste numa cooperativa de trabalhadores, onde eles gerenciam o que deve ser produzido e trabalham no próprio empreendimento. Nesse tipo de propriedade, o lucro remunera os trabalhadores e os fatores de produção, não havendo trabalho assalariado. A propriedade pertence a uma pessoa jurídica controlada pelos trabalhadores na qual eles são associados, de modo tal que cada um deles é proprietário da firma numa dada proporção.

4- Propriedade estatal: Espera-se que essa seja a menos representativa no quantitativo das propriedades, mas que seja a que gerencie os ativos importantes para a segurança nacional e manutenção do sistema distributista. Ela fica encarregada de empresas com alto grau de sofisticação e que sejam de setores próximos aos de interesse do estado como o setor de comunicações, educacional, aeroespacial, financeiro e militar. Nesses setores existe o trabalho assalariado, o lucro todavia remunerará além dos fatores, o desempenho individual e comporá o fundo que subsidia a propriedade sindical (03).

A grande propriedade privada poderia ser permitida em certas circunstâncias, conforme a necessidade econômica, contanto que ela ofereça mecanismos de participação do trabalhador nos lucros mediante produtividade e outros benefícios sociais previstos em lei, obedecendo o princípio da justa divisão do trabalho, como exposta por Gustavo Corção:

Há coisas naturalmente muito pequenas e coisas naturalmente grandes. Um ponto de cigarros é um negócio naturalmente pequeno, pois em dois metros por três, o negociante atinge uma perfeição de forma, tendo um número razoável para a procura de todas as marcas existentes […] Já o mesmo não podemos dizer de um serviço de bondes: seria extremamente extravagante propor que cada um tivesse seu bonde. Uma fábrica de pregos, ou de rádios ou de locomotivas exige uma quantidade de máquinas e de organização só compreensível em ponto grande. Cada coisa tem um tamanho adequado a sua natureza.

(CORÇÃO, 1961, p.269)

REFERÊNCIAS:

CORÇÃO, Gustavo. Três Alqueires e uma vaca. Agir: Rio de Janeiro, 1961

Outro artigo que há muito pedia uma continuação: E o tal de meta-capitalismo?

Arthur Rizzi

Um conceito que Olavo colocou em circulação e que a meu ver foi devidamente rebatido no artigo abaixo (embora eu faria correções teóricas pontuais nele a vista de hoje), foi o de meta-capitalismo. É inegável que o conceito de meta-capitalismo é muito importante para fundamentar a ideia de um “globalismo ocidental” na chamada “teoria dos três poderes”. Mas como demonstrado no artigo no final, isso está errado e com, o tempo, passei a perceber que esta hipótese é ainda pior do que uma teoria, é uma hipótese ad hoc feita sob encomenda para inverter a tese tradicional do Imperialismo.

Na visão tradição sobre imperialismo amparada na economia política clássica e ampliada pelo marxismo, o Estado moderno é um estado burguês. E não é difícil evidenciar a veracidade disso, os marxistas estão certos neste ponto. Ele é um corpo político de alcance nacional criado pelas burguesias ascendentes de forma a quebrar as antigas lealdes e pactos localistas, como guildas e parlements, de forma a criar condições para o surgimento do mercado moderno, o mercado nacional, e posteriormente, internacional.

Este ponto é parcialmente compartilhado pelos adeptos do globalismo e do imperialismo enquanto tese. A diferença é que em um o Estado surge como um elemento em luta contra a burguesia, e quando alguns burgueses vencem a luta usam o Estado contra os seus rivais, e e em outro ele é um instrumento quasi-perpétuo da mesma. Deixe-me fazer compreender melhor: Para a tese do globalismo os capitalistas enriquecem no livre-mercado, se opondo a regulações estatais, e depois usam o Estado contra os concorrentes. Na interpretação tradicional o mercado moderno já surge monopolizado pois ele é criado pelo Estado, e são os pequenos empresários que lutam contra o Estado pois estão em desvantagens contra a grande burguesia que criou esse Estado. No entanto, essa é uma luta hipócrita, pois tão logo se torne grande, o empresário percebe a importância que o Estado tem contra os capitalistas de outros países.

Na interpretação estruturalista (que é uma descendente não-marxista do classicismo) e a do marxismo, existe a teoria do sistema-mundo. Na divisão internacional do trabalho proposta por Wallerstein, existe a centralidade, a semi-periferia e a periferia. Os países da fronteira do capitalismo ascendem economicamente com uma série de medidas intervencionistas e usam o poder político derivado do poder econômico para impedir que os países da periferia e semi-periferia façam o mesmo processo, é a teoria do “chute na escada” (Cf. Ha-Joon Chang). Nela há fartas evidências de seu funcionamento, na tese globalista (amparada no conceito de meta-capitalismo), a coisa é invertida, o Estado é um ente malvadão que impede o desenvolvimento dos países pobres porque a ONU e os órgãos internacionais controlados pela elite globalista impõem regulações econômicas que impedem o livre-mercado de agir. O grande problema dessa tese é que ela não tem nenhuma evidência para sua sustentação, ela é puramente ideológica. Existem sim regulações ineficientes, mas elas são criadas para permitir que os países da centralidade sigam estimulando sua economia e impedir que os países pobres façam o mesmo. Um exemplo são as regulações ambientais impostas pela UE no caso do acordo entre UE e Mercosul que são meramente protecionistas do mercado europeu. Além é claro, da resistência em aceitar que o Brasil adopte políticas industriais, porque interessa a UE inundar o mercado brasileiro com suas manufaturas.

Mas há ainda um outro ponto importante a ressaltar. Na teoria tradicional, o Estado é um instrumento das burguesias nacionais para agir no plano internacional. Só que para a direita americanista reconhecer isso, significaria incriminar os países da centralidade do capitalismo, em especial o seu totem de adoração: Os Estados Unidos da América. Como interessa vender a narrativa de que o tio Sam é o lado bom da força, tem-se que se criar um corte de separação entre essa elite econômica e o país-sede, aí cria-se o “globalismo”, uma elite que transcende os interesse nacionais. Se os globalistas se confundem com Bruxelas, ONU, UNESCO, OIT e órgãos internacionais “aparentemente” sem ligações com os estados-nação, você salva os Estados Unidos de seu envolvimento com o sistema-mundo. A tese é tão esdrúxula que basta assistir o noticiário para perceber que nesse entreveiro entre Rússia, China, Ucrânia e Israel, é impossível não ler com a chave tradicional.

A tese globalista é uma fantasmagoria tão grande que não chega nem mesmo a estar errada, ela é quando muito uma teoria da conspiração não muito diferente da do jogo Illuminati da SJG. Somente no Brasil, onde a despolitização sadia que vigia outrora se choca com a dinâmica dos algoritmos de uma internet massificada, dando a impressão a maioria da população de que tem capacidade de entender e debater problemas complexos, uma besteirada dessas poderia fazer algum sentido, bem como aos subnutridos intelectuais que grassam nestas terras.

Um post que há muito pedia detalhamento: O dinheiro de Schrödinger.

Arthur Rizzi

Alguns anos atrás eu escrevi este artigo “A escola austríaca e a moeda de Schrödinger“, pois na minha crítica à visão austríaca, a TACE e a lei de Say (que afirma que, tão logo uma mercadoria é produzida, ela se torna ipso facto meio de pagamento por outra mercadoria, o que faz do dinheiro neutro.) batiam cabeça, pois a fundamentação da TACE se sustenta na percepção de Knut Wicksell de que o dinheiro não é neutro no curto prazo. Mais recentemente recebi uma crítica por email (de teor até, digamos, racista), e percebi que no dia este artigo tinha sido muito visualizado.

Sendo assim, acho que vale a pena aprofundar um pouco mais essa crítica. Sem mais delongas: Comecemos pela consideração do status quaestiones das ciências econômicas. A ortodoxia econômica é 100% wickselliana, e afirma que a moeda é neutra no longo prazo mas não no curto. É importante lembrar que Wicksell adotou essa fórmula como um meio de salvar a lei de Say e a neutralidade da moeda, relegando-a ao longo prazo. Mas como vimos aqui e aqui a visão austríaca da inflação vai na direção de não negar efeitos monetários sobre o índice geral de preços, mas de dizer que efeitos reais predominam sobre efeitos monetários. Abre citação de Shostak apud LK abaixo:

Ele diz que aumentos na oferta de moeda irão causar aumentos nos níveis gerais de preços, mas então concede que os preços são “determinados por fatores reais e monetários. Consequentemente, pode ocorrer que se os fatores reais estão empurrando as coisas na direção oposta dos fatores monetários, nenhuma mudança visível nos preços pode acabar aparecendo. Essa é uma qualificação importantíssima. Shostak está correto quando diz que os aumentos dos níveis gerais de preços depende muito de fatores reais, tanto quanto monetários. Por exemplo, os fatores abaixo podem empurrar para baixo o nível geral de preços:

  1. queda de preços por aumento de produtividade de certos bens;
    2. apreciação da taxa de câmbio;
    3. Um aumento na quantidade de importados baratos circulando no país;
    4. Queda em preços e comoditties que são matéria-prima de produtos em geral;
    5. Mudanças na velocidade com a qual o dinheiro circula;
    6. Aumento do desemprego (= menor demanda por bens e serviços),e
    7. Redução do crédito bancário.

O problema com essa adesão quase total com a não neutralidade da moeda é que para salvar a TACE, isso praticamente implode a Lei de Say. Se a lei de Say não é verdadeira, e se o dinheiro não é neutro, logo podem existir crises de superprodução e subprodução e mais do que isso, essa posição reconhece que o dinheiro pode ser desejado por si mesmo como um ativo especulativo. Isto é justamente a posição keynesiana (motivo especulação). Ainda que ele não conceda totalmente a nossa posição, pois ele ainda favorece a ideia de que inflação é aumento de base monetária, isso por si só já enfraquece enormemente a lei de Say, pois na prática são os fatores reais que predominam, sendo assim, aumento de base monetária não necessariamente leva a inflação, e logo se a moeda é neutra (ou não), é algo de tão longo prazo que chega a nos levantar a dúvida de se ela é mesmo neutra.

Essa parece ser a visão mais moderna da Escola Austríaca sobre inflação, pois o Instituto Mises Brasil trouxe uma abordagem em linha com a de Shostak durante o período pandêmico, como se pode ver aqui. Atenção para a citação abaixo:

A política monetária que vem sendo implantada pelo Banco Central americano desde o final de 2008 logrou a façanha de inverter completamente as possíveis relações de causa e efeito. Antes de 2008, quando o Fed expandia a base monetária, era possível prever que haveria um aumento nos preços. E quanto ele contraía a base monetária — ou, mais corretamente, quando ele reduzia o ritmo de crescimento da base monetária —, era possível prever que haveria uma diminuição da inflação de preços. E ambas as relações de causa e efeito de fato ocorriam. No arranjo atual, no entanto, não mais é possível prever essa relação.

Ora, se essa relação não é automática e não acontece mais, ela não é absoluta! Lembremos que a inflação da pandemia se deveu a fatores basicamente reais e apenas um de natureza monetária: Os reais foram:

1- A quebra das cadeias de produção, promovendo um choque de custos enorme, produzido pela política de covid zero da China.

2- As políticas de sustento das pessoas em lockdown pressionou enormemente os principais produtos na cadeia de serviços, portanto, foi uma inflação inicialmente focada em serviços e em alguns medicamentos devido a correria por um tratamento precoce, que logo com a reabertura da economia migrou para o setor industrial devido sobretudo a crise dos microchips e semicondutores. Uma junção de choque de custos e inflação de demanda pela mudança brusca nos padrões de consumo pesando sobre setores que estavam adaptados a um padrão de demanda onde as pessoas não precisavam ficar em casa para sobreviver. Como a oferta caiu e a pessoas continuavam recebendo cheques do governo, a inflação foi de demanda.

3- De monetário podemos apenas apontar (talvez?) para o caráter inercial da inflação após três anos do fim da pandemia, no entanto esse caráter não é tipicamente monetarista, pois se trata da projeção pro futuro do padrão de preços verificado nos últimos três anos. Em outras palavras, não é uma desvalorização da moeda pelo aumento de base, mas uma mudança nas expectativas dos agentes econômicos devido aos preços dilatados verificados após dois anos de custos alterados pelo colapso das cadeias de suprimento e pelos custos de comoditties advindos da Guerra da Ucrânia. E se você acha que inercialismo é monetarismo, pergunte ao Gustavo Franco o que ele acha disso.

Lembrando que pela via tradicional a taxa natural de juros é essencial para o funcionamento da TACE e para ela ser verdadeira a moeda tem que ser neutra, ou seja, a taxa de juros monetária (Selic) tem que ser igual a taxa dos bens reais: Se para os austríacos poupança é igual a investimento, sendo o preço do dinheiro o juros, o preço de equilíbrio é a taxa natural. E como o juro é o preço da poupança e da tomada de empréstimos, ela deve ter alguma relação com os bens reais da economia, meio pelo qual as pessoas obtém dinheiro.

Então temos que:
1- O que não é gasto é poupado.
2- O que é poupado é investido.
3- O juro é o preço do dinheiro.

C- Logo o juro é o preço do que é poupado.

E se o dinheiro é neutro (conforme prevê a lei de Say), daí temos a taxa natural de juros em que a taxa de juros monetária é igual a taxa de juros dos bens in natura. Como a TACE afirma que há uma relação entre os bens e mercadorias reais e a moeda circulante, então ela afirma a taxa natural de juros.

Seja pela abordagem tradicional, seja pela abordagem mais moderna, o dinheiro de Schrödinger continua vivo e forte na teoria austríaca e o artigo continua atual.

Por que a direita não deu certo?

Texto escrito em 2021, quando eu já previa o fracasso da direita. Representa uma percepção de momento, portanto tem uma série de imprecisões, mas acredito que no totuum vai na direção correcta.

“A direita conservadora no Brasil simplesmente é incapaz da autocrítica, não só pelos tipos mentais dela, mas também pelas próprias premissas em que se assenta. Vou tomar como exemplo a arte e a cultura que não estão ligados diretamente a economia ou a política, embora haja inegavelmente pontos de contato.

A direita conservadora é essencialmente um movimento político cultural que visa reforçar o caráter ocidental do Brasil. Isto é, do Brasil enquanto parte do ocidente. Nisto, busca restaurar os significados (ou o que ela crê ser o sentido) de nossa origem histórica européia. Mas perceba que curioso, não é a Portugal e os caminhos certos ou errados que Portugal tomou a que se remetem. Também não buscam se inspirar nos erros ou acertos da Itália, não obstante uma massiva imigração italiana ao Brasil. Inspiram-se na verdade no ocidente anglo-americano ou, numa versão mais branda, numa leitura histórica que interpreta o resto da Europa ocidental como se fossem desvios imperfeitos de seu caminho rumo a ser o que é o mundo anglo-saxão. Essa é a essência do novo conservadorismo, não importa se bolsolavista ou “limpinho”. E isso esbarra em um probleminha intransponível, que é o Brasil real. O Brasil é um país miscigenado, tropical, aberto, extrovertido, onde a cultura européia existe amalgamada com a cultura indígena e negra. Literalmente, não há proposta política, artística e social para esse Brasil não ocidental. A única forma que a direita conservadora lida com ele é através da luta e do menosprezo, onde o que se entende ser o ocidente e a cultura ocidental deve ser imposta de forma colonial mesmo a essas parcelas da população.

Neste ponto, o Brasil pós-Gilberto Freyre é impossível de ser assimilado para além de uma casca ou de uma retórica vazia. Esses teóricos modernistas só servem a ela como recurso de emergência para se livrar de acusações de ser racista provenientes da esquerda ou para estudiosos que reconhecem o problema estudarem e pensarem em estratégias para suprimir esse Brasil não ocidental e encaminhar mais eficientemente o Brasil a se tornar mais ocidental. Um bom exemplo está nas artes. O crítico literário abertamente conservador Martin Vasques da Cunha é um desses tipos. O discurso dele contra o modernismo de 22 é extraordinariamente anacrônico e repetição das críticas classicistas da década de 20 e 30. E seu livro consiste em dizer como o Brasil está longe do ideal de civilização onde o Estado, a política e o holismo não sejam o centro da preocupação das artes. Coisa que ele reconhece nós Estados Unidos. Todavia, o modernismo foi a base ideológica para a criação do período mais vibrante das ciências humanas, das artes, da política e economia brasileiras (1930 a 1980). Ao invés de se buscar o que existiu ali e que não contradiz os princípios morais básicos de uma sociedade cristã, e que podem ser absorvidos, ficam a repetir velhos chavões anacrônicos, no qual o Brasil ideal é um mero desenvolvimento natural da Europa, esteticamente neoclássico, quando muito barroco, aparecendo isso na literatura, na arquitetura e no urbanismo; e eurocêntrico, cético com o estrangeiro (ao invés e aberto a diferença), individualista (ao invés de patriarcal e holista), focado no empreendedorismo como alicerce social (ao invés da busca pela estabilidade), onde a política é vista como um mero inconveniente da vida humana (e não como uma esperança) e onde o Estado é visto como o último e definitivo inimigo da liberdade (e não o mercado). E essa é a razão pela qual o discurso da direita conservadora segue sendo o mesmo discurso da UDN de 72 anos atrás. Um anticomunismo maluco, uma defesa purista do liberalismo econômico, uma idolatria totêmica dos Estados Unidos e uma crença ingênua do papel providencial daquele país na História.

O resultado é a busca pelas mesmas soluções erradas e autoritárias da UDN. E isto ocorre porque a conservação de um país que não existe se choca com a ideia de construir um país por existir. O país que a direita quer conservar não existe, então ela deve trabalhar para que ele venha a existir, e isso encerra uma grande contradição para além desta óbvia. Pois como a realidade não se comporta como sua visão de mundo, o poder do Estado deve ser o demiurgo da correção do curso da história, que deveria se dirigir ao “caminho certo” do mundo anglo-americano; e nisto se viola os próprios princípios antiestatistas que ela anuncia e busca defender. Isto, aliás, não é marca apenas da direita brasileira, mas da direita latino-americana. Esta é a chave hermenêutica para entender a admiração da nossa direita com o Chile de Pinochet e seu ressentimento com o regime militar brasileiro. O pinochetismo é visto como tendo sido bem-sucedido nesse papel demiúrgico de usar a força para construir um Chile ocidental, liberal, americanista e com alta renda per capita, coisa que não passa de uma casca também, pois o Chile verdadeiro se rebelou contra isso na eleição de Boric, quer seja Boric um representante desse Chile ou não, pois eleições se tratam de caminhos alternativos e não de encontrar um volksgeist encarnado em alguém.

Isto é, no contexto atual, Boric soou como mais próximo (embora ainda muito distante) do grito de libertação em relação ao fardo de Pinochet. E o mesmo se encaminha para acontecer no Brasil com o retorno de Lula, um rancor com o que se apresentou com Bolsonaro: crise econômica e humilhação internacional. Em outras palavras, a direita não pode e nem tem como ter propostas para a população pobre, ou para a população negra, pois isso seria algo corporativista, e contraria o princípio liberal da igualdade formal; implicaria em intervenção estatal na economia. Ela não tem proposta para a população indígena, a não ser integrá-los na proletarização da economia de mercado, pois é efetivamente o que os países anglo-saxões fizeram. Ela só pode ler a realidade política como a luta do lado europeu do Brasil contra o lado afro-brasileiro e contra os vestígios da cultura indígena. Ela é incapaz de buscar a a harmonização destas como no projeto modernista, pois só conhece o confronto como língua. Resta então, seguir assistindo a esquerda ocupar todos esses espaços e fundamentar todas suas políticas no conflito e aguardar uma crise econômica e uma nova possibilidade de retorno para tão logo que subiu sair do governo quatro anos depois, pois não é possível à direita conservadora fazer uma autocrítica sem se destruir no processo e se tornar outra coisa.

Talvez surgisse algo como o Putinismo na Rússia, só que no Brasil. Todavia, para ela isso é inaceitável, pois para ela, Putin é comunista. Num país como o Brasil, onde o Estado é visto como a proteção do pobre e a política como uma esperança, qualquer proposta que passe ao largo das duas coisas está fadada ao fracasso.”

A deliberadamente apagada contribuição da escolástica de Salamanca em Keynes

O conceito da eficiência marginal do capital (EmgC) é uma tese que Keynes confessa no capítulo 23 da Teoria Geral que extraiu dos escolásticos de Salamanca, diz ele:

“Eu fui educado na crença de que a atitude da Igreja na Idade Média para com a taxa de juros era inerentemente absurda e que os sutis argumentos visando distinguir entre o rendimento dos empréstimos monetários e a renda dos investimentos ativos não passavam de recursos jesuíticos para encontrar uma saída prática para uma teoria insensata. Hoje, entretanto, esses argumentos parecem-me um esforço intelectual honesto para conservar separado o que a teoria clássica misturou de modo inextrincavelmente confuso, a saber, a taxa de juros e a eficiência marginal do capital. Agora vê-se claramente que as indagações dos escolásticos se destinavam a encontrar uma fórmula que permitisse à curva da eficiência marginal do capital ser elevada, ao mesmo tempo que aplicavam os regulamentos, os costumes e a lei moral para manter uma taxa de juros baixa.”

Keynes, 1995, p.323

Segundo Keynes essa tese consiste na ideia de que para cada unidade extra de capital investido, o retorno esperado (lucro) é decrescente, e que o investimento tende a subir o até o limite em que custo e retorno se igualem ou alcancem uma margem mínima de lucro. Caso assim fosse em todo caso, não haveria desemprego involuntário. Se o há, é porque algo impede que o investimento alcance a totalidade dos bens de capital possíveis.

Esse algo é a taxa de juros, que se cair muito lentamente ou, pior, resistir a queda, faz com que o rentismo seja mais interessante que o investimento produtivo. Para que, num ambiente de confiança, o emprego seja maximizado a taxa de juros tem que cair mais rápido ou, no mínimo, pari-passu com a EmgC.

Todavia, pode ocorrer que num ambiente de incerteza, a pura e simples queda do juro não traga os investimentos de volta e que, nessa situação, os agentes privados prefiram reter moeda líquida em espécie ou em conta corrente. Esse ponto é a chamada armadilha de liquidez. Segundo Keynes, para sair dessa armadilha, seria necessário o uso da política fiscal.

(2004) Dignidade para receber a Sagrada Comunhão: Princípios Gerais – Cardeal Joseph Ratzinger.

1. Apresentar-se para receber a Sagrada Comunhão deveria ser uma decisão bem refletida, fundada em um julgamento racional sobre a dignidade para fazê-lo, segundo os critérios objetivos da Igreja, colocando-se certas questões como: “Eu estou em plena comunhão com a Igreja Católica? Eu sou culpado de um pecado grave? Eu incorri em alguma pena (por exemplo uma excomunhão ou uma interdição) que me impede de receber a Sagrada Comunhão? Eu me preparei com jejum de pelo menos uma hora?”. A prática de se apresentar à Sagrada Comunhão indiscriminadamente, meramente como consequência de se estar presente na missa, é um abuso que deve ser corrigido (cf. Instrução Redemptoris Sacramentum, nº 81, 83).2. A Igreja ensina que o aborto ou a eutanásia são pecado grave. A EncíclicaEvangelium Vitae, que faz referência às decisões da justiça ou às leis civis que autorizam ou promovem o aborto ou a eutanásia – estabeleceu que existe “uma grave e precisa obrigação de se opor [a essas práticas] pela objeção de consciência. […] No caso de uma lei intrinsecamente injusta, tal qual a que admite o aborto ou a eutanásia, não é lícito, jamais, obedecê-la ou ‘participar de uma campanha de opinião em favor de uma tal lei ou votar por ela’” (n. 73). Os cristãos têm “uma grave obrigação de consciência de não colaborar formalmente às práticas que, ainda que admitidas pela legislação civil, estejam em oposição à Lei de Deus. De fato, do ponto de vista moral, não é jamais lícito cooperar formalmente com o mal. […] Esta cooperação não pode nunca ser justificada invocando-se o respeito da liberdade dos outros ou apoiando-se sobre o fato de a lei civil prevê-la ou requerê-la” (n. 74).3. As questões morais não têm o mesmo peso moral que o aborto ou a eutanásia. Por exemplo, se um católico estivesse em desacordo com o Santo Padre sobre a aplicação da pena capital ou sobre a decisão de fazer a guerra, ele não seria considerado, por esta razão, como indigno de se apresentar para receber a Sagrada Comunhão. Se por um lado a Igreja exorta as autoridades civis a buscar a paz e não a guerra e a fazer prova de moderação e de misericórdia na aplicação das penas aos criminosos, por outro lado poderá ainda ser permitido tomar as armas para expulsar um agressor ou recorrer à pena capital. Pode haver uma legítima diversidade de opiniões, mesmo entre os católicos, sobre a decisão de se fazer a guerra ou de se aplicar a pena de morte, mas em nenhum caso sobre o aborto e a eutanásia.4. Independentemente do julgamento que cada um faz sobre sua própria dignidade de se apresentar para receber a Santa Eucaristia, o ministro da Sagrada Comunhão poderá se encontrar em uma situação na qual ele deva se recusar a distribuir a santa comunhão a alguém, como nos casos de excomunhão declarada, de impedimento declarado ou de persistência obstinada num pecado grave manifesto (cf. Can. 915).5. No que concerne os pecados graves de aborto e eutanásia, quando a cooperação formal de uma pessoa se torna manifesta (compreendida, no caso de um político católico, como uma consistente campanha ou votação por leis permissivas sobre aborto e eutanásia), seu pastor deveria encontrá-lo, instruindo-o acerca do ensinamento da Igreja, informando-o de que ele não deve se apresentar à Sagrada Comunhão até que ele tenha colocado fim em sua situação objetiva de pecado, e advertindo-o de que, caso isso não seja feito, a Eucaristia lhe será negada.6. No caso em que “tais precauções não tenham obtido efeito ou não tenham sido possíveis” e se a pessoa em questão, dando provas de obstinada persistência, ainda sim se apresentasse, apesar de tudo, para receber a Santa Eucaristia, “o ministro da Sagrada Comunhão deve recusar-se a dá-la” (cf. Declaração do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, “Sobre a admissão à Santa Comunhão dos fiéis divorciados que contraíram novas núpcias”, 2000, nº 3-4). Esta decisão não é propriamente uma sanção ou uma penalidade. Tampouco trata-se do ministro da Sagrada Comunhão a formular um juízo sobre a culpa subjetiva da pessoa; na verdade, é uma reação do ministro ao desmerecimento público dessa pessoa em receber a Sagrada Comunhão em razão de uma situação objetiva de pecado.[

Nota: Um católico seria culpável de cooperação formal com o mal – e então indigno de se apresentar à santa comunhão – se ele votasse deliberadamente em um candidato precisamente por causa da posição permissiva desse candidato a respeito do aborto e/ou da eutanásia. Quando um católico não compartilha da posição de um candidato a favor do aborto e/ou eutanásia, mas vota nele por outras razões, esta é considerada como cooperação material remota, a qual pode ser permitida face a razões proporcionados.]

Católicos não podem votar em partidos de esquerda e abortistas?

UM CATÓLICO PODE VOTAR EM CANDIDATO A FAVOR DO ABORTO? BENTO XVI RESPONDE

” Um católico seria culpado de cooperação formal no mal, e tão indigno de se apresentar para a Sagrada Comunhão, se ele votasse deliberadamente em um candidato precisamente por causa da sua posição a favor do aborto e/ou a eutanásia.

Quando um católico não compartilha da posição de um candidato a favor do aborto e/ou eutanásia, mas vota nesse candidato por outros motivos, considera-se cooperação material remota, que pode ser permitida na presença de motivos proporcionais. “

Cardeal Joseph Ratzinger, carta enviada aos bispos americanos,em 2004.

” Regressemos à Europa. Dos dois modelos, dos quais falamos até agora, destacou-se um terceiro no século XIX, a saber, o socialismo, que desde logo se bifurcou em duas direções opostas: uma totalitária, e outra democrática.

O socialismo democrático conseguiu incorporar-se desde o seu ponto de partida como um contra-peso sadio contra as posições liberais radicais nos dois modelos, enriquecia-os e corrigia-os. Tal como as religiões, também se revelou abrangente: na Inglaterra, era o partido dos católicos que nem se sentia em casa com os liberais nem com os protestantes conservadores. Na Alemanha de Guilherme, o centro católico sentia-se mais próximo do socialismo democrático do que das rígidas forças prussianas protestantes e conservadoras. Em muitos aspectos estava e está o socialismo democrático próximo da Doutrina Social da Igreja. Em todo o caso, contribuiu decisivamente para a formação da consciência social.

O modelo totalitário, pelo contrário, aliou-se a uma rígida, materialista e ateia filosofia da história: a história era entendida deterministicamente como um processo de desenvolvimento da fase regional e liberal até à sociedade absoluta e definitiva, na qual a religião seria subjugada como uma relíquia do passado, e o funcionamento das condições materiais condicionaria a sorte de todos. A aparente cientificidade esconde um dogmatismo intolerante: o espírito é produto da matéria; a moral é produto das circunstâncias e deve ser praticada e definida de acordo com os objetivos da sociedade; tudo o que serve à prossecução do ditoso estado definitivo é moral. Aqui é consumada a inversão dos valores que construíram a Europa. Mais, aqui dá-se uma ruptura radical com toda a tradição moral do conjunto da humanidade. “

Cardeal Joseph Ratzinger, Europa – os seus fundamentos hoje e amanhã, pág. 169.

The austrian school and Schrodinger’s money.

Rizzi Arthur.

The most central and relevant contribution of the Austrian School of Economics to economic science is undoubtedly the Austrian Theory of Business Cycles (hereinafter ATBC), it is based on its most widespread version, the one proposed by F.A. von Hayek on the idea that any artificial fall in the interest rate produces malinvestments, given that new money, as it enters the productive system, is converted into investment in machinery, salary increases, and this has no backing in real savings and in consumer power, will end up creating a recession. It is clear, therefore, that this thesis, which supports not only the Austrian interpretation of the business cycle, but also the theory of inflation itself, is supported by the concept of non-neutrality of money.

If you’re a layman and don’t understand economics, it doesn’t matter, we explain: currency neutrality is the concept according to which currency serves only and exclusively as a means of exchange, having no value in itself, but only as a means of exchange for other goods. Which means, among other things, that an increase or a contraction in the money supply does not produce real changes in the economy, only nominal, such as the variation in the price level of products through the appreciation or depreciation of the currency against them. Thus, the “value” of money would only be its value as a medium of exchange. In other words, as we can see in the quantity theory of money (which assumes the neutrality of money), an increase in the money supply only produces inflation, but not structural changes in the economy in variables such as employment and production.

“the theory of real cycles (Robert Lucas Jr.’s new-classical proposal) assumes that money is neutral. That is, monetary policy does not affect real variables, such as output and employment.” (MANKIW, 1998, p.301)

So, therefore, it is deducible that the non-neutrality of money states exactly the opposite. That the currency is not neutral and that it produces profound structural changes in the economy, which is, by the way, ATBC’s proposition, even having its own value.

However, ATBC is supported by the theory of the natural rate of interest. This theory developed by the Swedish economist Knut Wicksell proposed a non-monetary theory of interest, that is, each good in the economy would have its own interest rate, and the price of credit (monetary interest) would be in equilibrium when it coincides with the real interest rate. assets. Thus, the currency would be a neutral vehicle capable of reproducing all the interest in the economy. For the interest rate to be the true interest, it is necessary for the currency to be neutral, in this way, whenever the monetary interest was below the real interest (of in natura goods), there would be inflation and whenever it was above, there would be deflation, but without structurally affecting the economy in the long run.

Say’s Law implies an economy where money is “neutral”. In the words of the French economist himself:

In places that produce a lot, the only substance with which you can buy is created: I mean value. Money represents only a passing trade in this double exchange; and, once the exchanges are completed, it is always verified: products were paid for with products. (…) The products created give rise to diverse demands. (Say, 1803, p. 139 and 142)

This statement is the basis of Say’s Law, which is one of the foundations of ATBC. As Thomas Sowell himself tells us (1994, p.39-41) while explaining Say’s law – free translation:

“There is no loss of purchasing power anywhere in the economy. People save only to the extent of their desire to invest and do not hold money far beyond their trading needs during this period.”

Now, for the ATBC to be true, Say’s law must be true, and for Say’s law to be true, the natural rate of interest must be true. Once we understand this line of logical dependencies we realize the great contradiction.

For ATBC to be true, currency cannot be neutral; and for Say’s law to be true, money has to be neutral! In other words, either Erwin Schrödinger turned economist and brought his cat (let’s call the pussy catcoin) to work, or the principle of non-contradiction still holds and the same currency cannot be and not be neutral at the same time! This is one of the reasons why we must either reject Say’s law or reject ATBC.

LOGICAL CONSEQUENCES:

So we have two scenarios:

We reject Say’s law: If we reject Say’s law, then we agree with Keynes, and we say that there can be a loss of purchasing power in the economy through hoarding and investment in non-reproducible liquid assets, which makes ATBC impossible to exist .
We reject ATBC: Therefore, in this hypothesis, the Austrian theory of inflation is also not true, and as a consequence alternative cycle theories, such as Wilhelm Röpke in his “Crisis and cycles” become better theories. And on the issue of inflation, we will have to agree with James Tobin in his classic “Currency, capital and other stores of value”.

In any case, ATBC is not valid.

REFERENCES:

MANKIW, Nicholas Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 1998.

SOWELL, Thomas. Classical Economics Reconsidered, Nova Jersey: Princeton University Press, 1994.

SAY, J. B.  Tratado de economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1986 (1. ed. em
francês, 1803) 1803.