O monetarismo refuta a escola austríaca sobre 1929

O artigo é a republicação de um texto da página "Economia mainstream"

Você certamente já foi apresentado na escola à interpretação marxista da Grande Depressão, que a caracterizou como uma “crise de superprodução”. Também é provável que já tenha ouvido a explicação austríaca, bastante difundida na internet por canais libertários, que culpa uma suposta expansão exagerada do estoque monetário nos anos 20. Apesar de bastante divertidas, estas abordagens são absolutamente minoritárias dentro do grandes centros acadêmicos mundo afora, dominados pela ortodoxia neoclássica. Neste post estaremos apresentando uma visão que, na nossa interpretação, sintetiza um pouco do consenso na economia sobre o assunto. Ela está dividida em quatro tópicos, que serão explicados a seguir:

1) Corrida bancária (modelo Diamond–Dybvig)

Depois que a bolha especulativa estourou em 1929, a economia americana entrou em recessão, mas ainda não era uma depressão. Era uma recessão como várias outras na história americana. O problema começou a ficar sério depois que se iniciou um ciclo de falência bancária, quando o Bank of United States decretou falência, em 1930. Era um dos maiores bancos comerciais do país, e isso teve um efeito enorme na confiança em relação ao sistema. O modelo de jogos Diamond–Dybvig [1] nos mostra que um dos equilíbrios Nash de um sistema de reserva fracionada é a corrida bancária. Resumidamente: Os bancos mantém em caixa uma fração dos depósitos e emprestam o resto, mas como nem todo mundo saca ao mesmo tempo, o sistema se mantém funcionando normalmente em situações habituais. Só que se as pessoas passam a desconfiar da capacidade dos bancos de honrar com os depósitos, temos um problema. Do ponto de vista dos jogos não cooperativos, é mais ou menos assim: Se um depositante acha que outros depositantes irão sacar seu dinheiro, é racional da parte dele correr para sacar também antes que o dinheiro acabe, mesmo que ele não esteja precisando do dinheiro agora. Quando todo mundo age racionalmente assim, há uma corrida bancária, que representa um equilíbrio Nash Pareto inferior; isto é, a ação racional e auto-interessada de todos os jogares leva a um resultado ruim para todos eles.

A forma de resolver o problema é garantir os depósitos privados nos bancos. Bastava o FED ter socorrido o Bank of United States com uma linha de crédito e anunciado publicamente que faria o mesmo com qualquer outro banco que precisasse de liquidez. Na verdade o banco central americano foi criado justamente para esta finalidade, mas ficou de braços cruzados por motivos políticos [2].

2) Efeito Fisher (deflação por dívida)

Com a corrida bancária, as pessoas passaram a trocar dólar por ouro para se proteger. Isso causou um encolhimento forte da base monetária, que repercutiu nos preços. A deflação acumulada entre 1929 e 1933 foi de 33%, acompanhada de um encolhimento de 35% da base monetária [3]. Como o juro real corresponde ao juro menos a inflação (efeito Fisher) [4], uma inflação negativa (deflação) eleva a taxa de juro real, e foi isto que ocorreu. A enorme deflação de preços, não antecipada e não prevista em contrato por cláusula de indexação, tornou as dívidas interbancárias e com os clientes mais pesadas em termos reais, o que agravou a quebradeira do sistema. Temos aqui um ciclo vicioso: A corrida bancária provoca encolhimento da base, que provoca deflação. Isso agrava a crise no sistema financeiro, levando mais bancos à falência. As falências minam a confiança e aumentam a própria corrida bancária. Repete o ciclo.

3) Rigidez dos salários nominais (expectativas, contratos, problema de coordenação).

Esta queda rápida nos preços exigiria uma queda do mesmo tamanho nos salários nominais para preservar o nível de emprego, o que é totalmente inviável no curto prazo.

A relação de Philips dos salários com expectativas adaptativas nos diz que:

W’/W=π*+λh (5)

Onde W’/W é a taxa de variação temporal dos salários nominais, π* as expectativas de inflação, h o hiato de produto e λ uma constante de sensibilidade do salário nominal ao desemprego.

Também sabemos, a partir das expectativas à Cagan, que:

π*’=β(π-π*) (6)

Onde π*’ é a variação temporal da expectativas de inflação, π a inflação de fato e β uma constante de sensibilidade das expectativas.

O que estas duas fórmulas nos dizem é que o salário nominal é reajustado pelas expectativas de inflação mais um componente relacionado ao hiato de produto, e que as expectativas de inflação variam segundo o desvio da inflação atual quanto à expectativa. Isto significa que uma variação na inflação muda a derivada da expectativa de inflação, fazendo com que a expectativa de inflação se altere com atraso; e neste meio tempo em que as expectativas estão se adaptando, os salários nominais crescem a uma taxa diferente dos preços. Além disto, salários em geral são fixados em contrato, com prazo acertado em um intervalo de tempo, e mesmo assumindo que os agentes se comportam segundo as expectativas racionais, também existem problemas de coordenação a nível microeconômico que criam esta rigidez nos salários nominais [7].

Como, pelos motivos expostos, os salários são incapazes de reagir com tanta velocidade à deflação, esta queda abrupta dos preços acabou aumentando o nível de salário real (salário/custo de vida). Isto só seria possível aumentando o produto marginal do trabalho, o que corresponde no curto prazo, segundo a lei dos rendimentos marginais decrescentes, a aumentar o desemprego e reduzir o PIB. Foi o que aconteceu.

4) Reação Equivocada

A reação do governo à crise foi catastrófica. A guerra tarifária no comércio internacional e as várias regulações sobre a atividade econômica prejudicaram a eficiência, funcionando como um choque de oferta negativo; o que derrubou ainda mais o nível de salário nominal compatível com o pleno emprego. Além disso, houve coisa do tipo proibir reduzir salário e preço (sim, eles fizeram isso). O New Deal teve pontos importantes, como suspender os pagamentos em ouro, que encerrou o encolhimento da base monetária em 1933; criar a DFIC (Federal Deposit Insurance Corporation), instituição que garantia os depósitos privados nos bancos, encerrando a corrida bancária em 1934; e criar programas assistenciais para ajudar as famílias necessitadas, mitigando a miséria e restaurando a confiança. Mas o pacote de regulações microeconômicas sobre o funcionamento dos mercados de produtos parece não ter sido positivo.

Enfim, a grande depressão dos anos trinta segundo a visão ortodoxa (nossa interpretação) foi uma combinação de erros de política econômica. Alguns por omissão, como deixar o sistema financeiro quebrar e a base encolher; outros por ação, como a guerra tarifária e as regulações exageradas do New Deal, que apesar de seus méritos em alguns pontos, parece ter tornado a recuperação mais lenta do que poderia ser.


#LaL

[1] – https://en.wikipedia.org/wiki/Diamond%E2%80%93Dybvig_model

[2] – Capítulo “Anatomia da Crise” do livro “Livre para escolher” do Milton Friedman.

[3] – “A Monetary History of the United States, 1867-1960”, Milton Friedman e Anna Schwartz

[4] – https://en.wikipedia.org/wiki/Fisher_equation

[5] & [6] – “Macroeconomia”, Mario Henrique Simonsen e Rubens Penha Cysne.

[7] – Capítulo “Rational expectations, game theory and inflationary inertia” do livro “Economy as an evolving complex system”.

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Resumo da nova teoria do comércio internacional (NTT)

A nova teoria do comercio é na verdade uma coleção de modelos econômicos de comércio internacional que destaca o papel de retornos crescentes de escala e efeitos de rede, que foram desenvolvidos no final dos anos 70 e início dos anos 80 por economistas liderados por Paul Krugman. Os novos teóricos do comércio trocaram a hipótese de retornos constantes para retornos crescentes de escala e mostraram que em alguns casos usar medidas protecionistas para ajudar na construção de uma base industrial pode ser uma medida benéfica para países em desenvolvimento. Raciocínios desse tipo são usados pelos teóricos do comércio desde os primeiros mercantilistas. A importância de se proteger “indústrias nascentes” foi defendido pelo menos desde o século XVI por John Carry, por mercantilistas franceses e italianos, entre outros. Alexander Hamilton propôs em 1791 que esta fosse a base para a política comercial dos EUA. O que era “novo” na nova teoria do comércio era o uso de economia matemática para modelar os retornos crescentes de escala e, especialmente, o uso de efeitos de rede para entender a dinâmica de comercio entre países. Os modelos desenvolvidos mostravam a tendência concentração industrial e concorrência monopolista ou até mesmo a situações de oligopólio em setores com retornos crescentes de escala.Alguns economistas, como Ha-Joon Chang, argumentaram que as políticas protecionistas haviam facilitado o desenvolvimento da indústria automobilística japonesa na década de 1950, quando as cotas e os regulamentos impediam a concorrência das importações. As empresas japonesas foram incentivadas a importar tecnologia de produção estrangeira, mas foram obrigadas a produzir 90% das peças no mercado interno. Os consumidores japoneses sofreram no curto prazo por não conseguirem comprar veículos superiores produzidos pelo mercado mundial, mas acabaram ganhando por ter uma indústria local que superou seus rivais internacionais.
A teoria foi inicialmente associada a Paul Krugman no final da década de 1970; Krugman afirma que ouviu sobre a concorrência monopolista de Robert Solow. Olhando para trás em 1996, Krugman escreveu que a economia internacional, uma geração antes, ignorou completamente os retornos de escala. “A ideia de que o comércio poderia refletir uma sobreposição de especializações de retornos crescentes em vantagem comparativa não existia”. Em 1976, no entanto, O economista Victor Norman elaborou os elementos centrais do que veio a ser conhecido como a teoria de Helpman-Krugman. Ele escreveu e mostrou para Avinash Dixit. No entanto, ambos concordaram que os resultados não eram muito significativos. De fato, Norman nunca escreveu o paper, muito menos tentou publicar. A participação formal de Norman na corrida vem dos capítulos finais do famoso livro Dixit-Norman. As novas teorias do comércio são freqüentemente baseadas em premissas como a concorrência monopolista, retornos crescentes de escala e economias de rede.
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A democracia cristã na Holanda

O texto é um excerto do artigo "A democracia cristã como opção aos totalitarismos europeus" do professor Selvino Malfatti.

Com o fim do conflito mundial em 1945, os partidos cristãos ascendem ao poder na maior parte da Europa. Várias razões podem ser arroladas para explicar esse sucesso político. Primeiramente, os democratas cristãos se alistaram na resistência aos regimes fascista e nazista. Em segundo lugar, os partidos de direita tradicional desapareceram no período bélico, deixando um vácuo político. Em terceiro, a rejeição ao comunismo e, por último, o apoio expresso da Igreja aos partidos cristãos. Destacaram-se como lideranças em seus países Alcide De Gasperi, na Itália, Konrad Adenauer, na Alemanha e Robert Schuman, na França. Embora na França a democracia cristã tivesse sido meteórica, isto é, de rápida ascensão e queda, em outros países, como Bélgica, Holanda, Alemanha e Itália, conquistou posições políticas duradouras. Poder-se-ia dizer que o auge político, atingido pela democracia cristã na Europa, ocorreu na década de sessenta, iniciando-se então o refluxo. Os Países Baixos ou Reino dos Países Baixos também experimentou um forte partido cristão após a Segunda Guerra Mundial. Trata-se do Partido da População Católica que, desde 1948, governou em um sistema de aliança com quase todos os demais partidos políticos. De 1954 a 1959, perdeu o governo para os laboristas, porque o partido católico não aceitava formar um governo com os laboristas na oposição, temendo perder o apoio eleitoral do eleitorado operário católico. Essa situação deu oportunidade aos laboristas de prevalecerem na formação do governo.

Vê-se que o Partido Católico e os laboristas foram os únicos que tiveram um crescimento significativo no número de cadeiras. Os demais ou se mantiveram ou perderam cadeiras. No fim da década de sessenta, 1967, formou-se uma ampla coalizão para se constituir um governo. Nessa, formaram aliança o Partido da População Católica, os Liberais, os Antirrevolucionários de Abraham Kuyper e os Cristãos Históricos, os quais conseguiram 86 das 150 cadeiras. O líder do governo, Piet de Jong, pertencia ao partido católico. No entanto, após a década de sessenta, como nos demais países europeus, começou o refluxo do partido católico. Após isso os partidos protestante e católico se fundem e tronam-se o Apelo Democrata Cristão (CDA).


Os artigos aqui publicados tem apenas a intenção de divulgar os trabalhos originais e propor discussões sobre o assunto.

O governo americano interveio na recessão de 1920

O texto a seguir é uma tradução adaptada de Social Democracy in 21st century feita por Reação Nacional.

Os EUA tiveram uma recessão entre janeiro de 1920 e julho de 1921. Os austríacos estão sempre tagarelando sobre isso, chamando-a (incorretamente) de depressão e argumentando que isso mostra como os mercados livres podem “rapidamente” acabar com recessões / depressões deflacionárias. Isso já foi refutado várias vezes.

Sabemos que a recuperação começou em agosto de 1921 e continuou em 1922.

O desenvolvimento e a força dessa recuperação tiveram algo a ver com não intervenção do Estado? Vejamos o que Murray Rothbard diz:

“As reservas dos bancos membros aumentaram durante a década de 1920 em grande parte em três grandes surtos – um em 1922, um em 1924 e o terceiro na segunda metade de 1927. Em cada um desses surtos, as compras de títulos do governo pelo Federal Reserve desempenharam um papel de liderança. As compras e vendas de títulos do governo em operações de “mercado aberto” só surgiram como um fator crucial no controle monetário do Federal Reserve durante a década de 1920. O processo começou quando o Federal Reserve triplicou seu estoque de títulos do governo de novembro de 1921 a junho de 1922 (suas participações totalizaram US $ 193 milhões no final de outubro e US $ 603 milhões no final do mês de maio seguinte). Fez isso para tornar a posse de dinheiro mais fácil e inflacionar a oferta monetária, sendo essas relações pouco compreendidas na época, mas simplesmente para aumentar os ganhos do Federal Reserve. O resultado inflacionário dessas compras foi uma consequência inesperada. Foi uma lição que aprendeu e foi apreciada a partir de então. ” – Nota de rodapé 52.

52. No entanto, não totalmente inesperado, pois achamos que o Governador Strong escreveu em abril de 1922 que uma de suas principais razões para as compras no mercado aberto era “estabelecer um nível de taxas de juros. . . o que facilitaria a contracção de empréstimos estrangeiros neste país. . . e facilitar a melhoria dos negócios. ”Benjamin Strong, subsecretário do Tesouro S. Parker Gilbert, 18 de abril de 1922. Chandler, Benjamin Strong, presidente do Banco Central, pp. 210–11.

(Rothbard 2000: 133).

Em outras palavras, uma operação de mercado aberto sem precedentes pelo Federal Reserve parece ter ajudado fortemente o processo de recuperação no final de 1921. Ora, isso é política monetária!

Strong disse ainda explicitamente (como citado na nota de rodapé de Rothbard) que “uma de suas principais razões para as compras no mercado aberto era ‘estabelecer um nível de taxas de juros. . . o que facilitaria a contracção de empréstimos estrangeiros neste país. . . e facilitar a melhoria do negócio. ‘”

Uma vez que vemos que esta política foi combinada com cortes do Fed na taxa de desconto durante a recessão de 1920-1921, vemos que ela usou uma política monetária frouxa para acabar com a recessão:

Discount Rate of the Federal Reserve Bank of New York
Date | Rate

1920
May | 6%
June | 7%
Dec. | 7%
1921
Jan. | 7%
Apr. | 7%
May. | 6.5%
Jun. | 6%
Jul. | 5.5%
Sep. | 5%
Nov. | 4.5%

1922
Jan. | 4.5%
Jun. | 4%.
http://fraser.stlouisfed.org/download-page/page.pdf?pid=38&id=1477

Embora a taxa tenha subido para 7% em junho de 1920, a taxa foi reduzida de 7% em 1921 para 5,5% em julho, e um novo corte para 5% em setembro quando a recuperação começou, e então para 4,5% em novembro. Foi quando as compras no mercado aberto começaram. Neste ponto, acho que toda a moderna narrativa austríaca sobre 1920-1921 se desfaz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Rothbard, Murray N. 2000. America’s Great Depression (5th edn.), Ludwig von Mises Institute, Auburn, Alabama.

Hoppe faz espantalho do empirismo aplicado a economia.

O texto abaixo é uma tradução de postagem do Social Democracy in 21st century

Em toda a sua glória confusa:

“Eu gostaria de desafiar o ponto de partida da filosofia dos empiristas. Existem várias refutações conclusivas do empirismo. Mostrarei que a distinção empirista entre conhecimento empírico e analítico é claramente falsa e autocontraditória. Isso nos levará a desenvolver a posição austríaca em teoria, história e previsão. Essa é a alegação central do empirismo: o conhecimento empírico deve ser verificável ou falsificável pela experiência; e o conhecimento analítico, que não é tão verificável ou falsificável, portanto, não pode conter nenhum conhecimento empírico. Se isso é verdade, então é justo perguntar: Qual é então o status dessa declaração fundamental do empirismo? Evidentemente, deve ser analítico ou empírico. Vamos primeiro assumir que é analítico. De acordo com a doutrina empirista, no entanto, uma proposição analítica nada mais é que um rabisco no papel, ar quente, totalmente vazia de qualquer conteúdo significativo. Não diz nada sobre nada real. E, portanto, seria preciso concluir que o empirismo não poderia nem mesmo dizer e significar o que parece dizer e significar. No entanto, se, por outro lado, diz e significa o que pensamos que fez o tempo todo, então nos informa sobre algo real. De fato, nos informa sobre a estrutura fundamental da realidade. Ele diz que não há nada na realidade que possa ser conhecido de uma forma ou de outra antes de experiências futuras que possam confirmar ou não confirmar nossa hipótese. E se esta proposição significativa é tomada como analítica, isto é, como uma afirmação que não permite nenhuma falsificação e cuja verdade pode ser estabelecida apenas por uma análise de seus termos, não se tem menos que uma flagrante contradição à mão. O empirismo em si provaria ser nada além de tolices autodestrutivas.

Portanto, talvez devêssemos escolher a outra opção disponível e declarar a distinção empirista fundamental entre conhecimento empírico e analítico como uma afirmação empírica. Mas então a posição empirista não teria mais peso algum. Pois, se isso fosse feito, teria que ser admitido que a proposição – como empírica – poderia estar errada e que alguém teria o direito de ouvir com base em qual critério seria necessário decidir se era ou não. De forma mais decisiva, como uma proposição empírica, certa ou errada, só poderia afirmar um fato histórico, algo como “todas as proposições analisadas até então caem de fato nas duas categorias analíticas e empíricas”. A afirmação seria totalmente irrelevante para determinar se ela seria possível produzir proposições que sejam verdadeiras a priori e que sejam ainda empíricas. De fato, se a alegação central do empirismo fosse declarada uma proposição empírica, o empirismo cessaria completamente como uma epistemologia, uma lógica da ciência, e não seria mais do que uma convenção verbal completamente arbitrária de chamar certas maneiras arbitrárias de lidar com certas afirmações com nomes arbitrários. . O empirismo seria uma posição vazia de qualquer justificação ”(Hoppe 2007: 33–34).

Seria difícil colocar tantos argumentos non sequiturs e espantalhos em tão poucos parágrafos, mas é uma grande conquista.

Primeiro, Hoppe combina o positivismo lógico, o racionalismo crítico de Popper e outras tradições empiristas. Por exemplo, o (1) critério de verificabilidade positivista lógica para significância é confundido com (2) o critério de falseabilidade de Popper para o conhecimento científico.

Em segundo lugar, Hoppe atribui a todos os seus oponentes empiristas uma certa visão dos positivistas lógicos chamada critério de verificabilidade para significância, mas não consegue nem mesmo acertar essa visão, e produz uma declaração deturpada disso.

Os positivistas lógicos não disseram que uma afirmação analítica a priori é “rabisco no papel, ar quente, totalmente vazia de qualquer conteúdo significativo” ou “absurdo autodestrutivo”. Disseram isso de proposições metafísicas, que não eram nem analíticas a priori, nem sintéticas a posteriori, e que não podiam, em princípio, ser verificadas.

Assim, os positivistas lógicos pensaram claramente que a matemática e outras declarações analíticas válidas a priori tinham conteúdo cognitivo significativo, embora esse conteúdo não afirmasse nada necessariamente verdadeiro sobre o mundo natural. Além disso, o critério de falseabilidade de Popper para o conhecimento científico não afirma que as proposições metafísicas não têm conteúdo cognitivo significativo, mas apenas que elas não são declarações científicas.

E o fato é que o critério estrito de verificabilidade para o significado foi rapidamente enfraquecido e abandonado, e o tipo de empirismo defendido na filosofia analítica moderna há muito tempo deixou de fazer tais afirmações extremas.

Então nós temos isso:

“Essa é a alegação central do empirismo: o conhecimento empírico deve ser verificável ou falsificável pela experiência; e o conhecimento analítico, que não é tão verificável ou falsificável, portanto, não pode conter nenhum conhecimento empírico. Se isso é verdade, então é justo perguntar: Qual é então o status dessa declaração fundamental do empirismo? Evidentemente, deve ser analítico ou empírico ”.

E a resposta é: que a afirmação empirista sobre a epistemologia é sintética a posteriori.

Mas, quando Hoppe considera essa possibilidade, ele comete um nonsequitur bizarro:

“Então talvez devêssemos escolher a outra opção disponível e declarar a distinção empirista fundamental entre conhecimento empírico e analítico como uma afirmação empírica. Mas então a posição empirista não teria mais peso algum. Pois, se isso fosse feito, teria que ser admitido que a proposição – como empírica – poderia estar errada e que alguém teria o direito de ouvir com base em qual critério seria necessário decidir se era ou não. De forma mais decisiva, como uma proposição empírica, certa ou errada, só poderia afirmar um fato histórico, algo como “todas as proposições analisadas até então caem de fato nas duas categorias analíticas e empíricas”. A afirmação seria totalmente irrelevante para determinar se ela seria possível produzir proposições que sejam verdadeiras a priori e que sejam ainda empíricas. De fato, se a alegação central do empirismo fosse declarada uma proposição empírica, o empirismo cessaria completamente como uma epistemologia, uma lógica da ciência, e não seria mais do que uma convenção verbal completamente arbitrária de chamar certas maneiras arbitrárias de lidar com certas afirmações com nomes arbitrários. . O empirismo seria uma posição vazia de qualquer justificação ”(Hoppe 2007: 34).

De acordo com Hoppe, só porque a afirmação de que

“O conhecimento empírico deve ser verificável ou falsificável pela experiência; e conhecimento analítico, que não é tão verificável ou falsificável, portanto, não pode conter qualquer conhecimento empírico ”

é sintético a posteriori, então a “posição empirista” pode “não ter mais peso algum”, e o empirismo “deixaria completamente de ser uma epistemologia“.

De fato, a defesa do princípio epistemológico original é empírica e sua verdade é apenas provável ou altamente provável, mas a falta de certeza não produz tal crise epistemológica para o empirismo, porque nunca objetivou a verdade absoluta necessária em primeiro lugar, como exige Hoppe. Nossas melhores teorias científicas não têm uma verdade apodítica, nem o método indutivo produz certeza absoluta, mas a ciência moderna é incrivelmente bem-sucedida.

A rejeição do dogmatismo e a disposição de considerar qualquer teoria científica como capaz de revisão ou falsificação são o que dá à epistemologia científica moderna sua grande força. Mas se adotamos o mesmo tipo de argumento usado por Hoppe, então devemos concluir que a ciência moderna deve “não ter mais peso algum” e “deixaria completamente de ser uma epistemologia”.

Em segundo lugar, a resposta legítima de um empirista a um racionalista de que “todas as proposições analisadas caem, de fato, nas duas categorias analítica e empírica” pode ser defendida como verdadeira. O ponto de Hoppe aqui não tem peso. Precisamos apenas olhar para o modo como o conhecimento sintético a priori original de Kant, como a geometria euclidiana, a causação necessária e determinística, ou certas leis da lógica, foram refutadas pela ciência moderna ou seriamente questionadas.


Referências:

Hoppe, Hans-Hermann. 2007. Economic Science and the Austrian Method. Ludwig von Mises Institute, Auburn. Ala.


Este blog não é positivista lógico, mas fez transcrição de uma breve defesa do uso de critérios empíricos acerca da economia.

Crítica ao argumento misesiano em favor do livre-comércio.

O texto a seguir foi publicado originalmente em "Social democracy in 21st century" e traduzido pela equipe de Reação Nacional.

O argumento praxeológico de Mises em favor do livre comércio é fortemente dependente da tese das vantagens comparativas de David Ricardo:

“Ricardo expôs a lei de associação para demonstrar quais são as conseqüências da divisão do trabalho quando um indivíduo ou um grupo, mais eficiente em todos os aspectos, coopera com um indivíduo ou um grupo menos eficiente em todos os aspectos. Ele investigou os efeitos do comércio entre duas áreas, desigualmente dotadas pela natureza, sob a suposição de que os produtos, mas não os trabalhadores e os fatores acumulados da produção futura (bens de capital), podem se mover livremente de uma área para outra ”. 1996: 159).

“Ricardo, no entanto, parte do pressuposto de que há mobilidade de capital e trabalho apenas dentro de cada país, e não entre os vários países. Agora, as suposições de Ricardo em geral são boas para a idade dele. Mais tarde, no decorrer do século XIX, as condições mudaram. A imobilidade do capital e do trabalho cedeu; a transferência internacional de capital e trabalho tornou-se cada vez mais comum. Então veio uma reação. Hoje o capital e o trabalho estão novamente restritos em sua mobilidade. A realidade mais uma vez corresponde aos pressupostos ricardianos (Mises, 1996, p. 164).

Mises observa corretamente que havia certas suposições feitas por Ricardo para seu princípio de vantagem comparativa ao trabalho. Mises estava escrevendo a edição original da Ação Humana antes de 1949, muito antes da era da globalização e liberalização dos mercados de capitais que começou nos anos 70. O período de 1945 a 1973 foi de fato um mundo onde o haviam controles de capitais restringindo o investimento até certo ponto e a mobilidade do trabalho era mais restrita do que no século XIX. Mises até admite que no final do século 19 as condições assumidas por Ricardo não necessariamente se mantinham.

O que Mises perde completamente é que, por causa de suposições ocultas no argumento da vantagem comparativa, é altamente duvidoso que seu argumento para vantagem comparativa funcione mesmo para o período de 1945 a 1973. Antes de examinarmos as suposições ocultas, no entanto, é útil examinar as suposições declaradas.

Até mesmo os argumentos neoclássicos para o livre comércio se baseiam no princípio de vantagem comparativa de David Ricardo, embora, é claro, a moderna teoria neoclássica use o modelo mais sofisticado de Heckscher-Ohlin como sua defesa do livre comércio. Mas esse modelo tem sido cada vez mais desafiado pelos críticos modernos (por exemplo, Gomory e Baumol 2000), e existem teorias rivais na economia mainstream como New Trade Theory (NTT), para as quais Paul Krugman fez contribuições (para algum outro trabalho crítico sobre livre comércio, ver Prasch 1996; Gomory e Baumol 2000; Reinert 2007; Fletcher 2008; Baiman 2010).

Deve-se notar que Ricardo escreveu o livro Princípios de Economia Política e Tributação em 1817. Isso foi em um tempo antes que os efeitos completos da revolução industrial fossem claros, um ponto ao qual retornaremos a seguir.

O princípio de vantagem comparativa de Ricardo requer duas condições para funcionar corretamente, como segue:

(1) Fatores domésticos de produção como bens de capital e mão-de-obra qualificada não são internacionalmente móveis e, em vez disso, serão reempregados no setor / setores em que se encontra a vantagem comparativa do país;

(2) Os trabalhadores são fungíveis e serão novamente treinados facilmente e mudados para os novos setores onde a vantagem comparativa está (Prasch 1996: 39-40).

Como é admitido até mesmo por Mises, no final do século 19, a suposição (1) era questionável.  Hoje também é verdade que tanto os bens de capital quanto o dinheiro de investimento para a produção são muito móveis, de modo que (1) também não é verdade. A proposição (2) também é questionável em muitos casos (Prasch 1996: 40-41).

Uma vez que o capital se torna extremamente móvel internacionalmente, não temos mais vantagem comparativa, mas vantagem absoluta. Não é de todo claro que o livre comércio sob “vantagem absoluta” seja benéfico para todas as nações. Nos dias de Ricardo, o capital móvel internacional não era tão significativo. David Ricardo observou que a imobilidade do capital em seus dias impedia o capital de buscar vantagem absoluta. Ele descreveu como

“A dificuldade com que o capital se move de um país para outro, a busca de um emprego mais lucrativo e a… [facilidade] com que invariavelmente passa de uma província para outra no mesmo país” (Ricardo, Sobre os Princípios da Economia Política e Tributação, 7.18).

Nos dias de Ricardo, a mobilidade de capital não aconteceu em larga escala porque o capital e a tecnologia eram mais difíceis de transferir. Mas nunca ocorreu a Ricardo que, em um mundo de capital móvel e tecnologia facilmente transferível, o capital buscaria vantagem absoluta de maneira destrutiva para seu país de origem. O argumento neoclássico e misesiano para o livre comércio depende do capital de um país que permanece naquele país e está sendo colocado em funcionamento em alguma outra indústria doméstica produtiva, onde a vantagem comparativa reside. Não é isso que acontece hoje, onde o capital dos países ocidentais busca vantagem absoluta nos países em desenvolvimento. O movimento do capital para um lugar onde ele tem vantagem absoluta simplesmente causa a desindustrialização nos países ocidentais, à medida que o capital se move para nações com os menores custos unitários de mão-de-obra, e países com salários mais altos experimentam salários em queda e desemprego elevado (Holt 2007: 103). Além disso, o movimento em grande escala das indústrias de serviços no exterior (muitas vezes chamado de “terceirização”) é igualmente prejudicial.

Com o colapso da produção e outras produções, as nações sofrem mais desemprego e maiores déficits comerciais. O capital não se move simplesmente de um setor doméstico para outro, onde a vantagem comparativa reside, devido à mobilidade do capital internacional e à busca de salários mais baixos e maiores lucros. Assim, as mudanças no investimento doméstico que aconteceriam sob as hipóteses de Ricardo não acontecem.

Mas, mesmo se todas as suposições acima forem verdadeiras, ainda existem suposições ocultas devastadoras subjacentes a todo o argumento de Ricardo e Mises. Essas suposições ocultas são precisamente o tipo de proposições sintéticas que mencionei no meu post anterior sobre praxeologia.

As suposições ocultas são as seguintes:

(1) não importa o que você produz (por exemplo, você poderia produzir cerâmica), contanto que você o faça de uma maneira que lhe dê vantagem comparativa;

(2) a tecnologia é imutável e uniforme; e

(3) não há retornos de escala (Galbraith 2008: 68; Chang 2003: 292).

Esses pressupostos ocultos são totalmente absurdos. Primeiro, importa o que você produz. A dependência das exportações de produtos primários, cujos preços estão sujeitos à volatilidade, não é uma estratégia bem-sucedida para o desenvolvimento econômico na maioria dos países; De fato, países dependentes de commodities primárias e indústrias de serviços são geralmente nações pobres em desenvolvimento. Além disso, como Galbraith observou:

“A vantagem comparativa opera no pressuposto de tecnologia inalterada e retornos constantes de escala. Não há economias de escala, sem curva de aprendizado, sem melhorias na produtividade à medida que a produção aumenta. O único requisito é que as condições de produção sejam diferentes, de modo que um bem – em termos do outro – seja relativamente mais caro em um país e relativamente menor no outro. A única eficiência obtida com o comércio advém da reorganização da produção e da realocação de fatores – trabalho, capital, terra – para seus melhores usos no novo e comum mercado comum … Mas o argumento não se generaliza para o mundo real. Dados três países e três commodities, não é óbvio que cada país será sempre o produtor relativamente mais eficiente de exatamente um bem. E então o que? O país que não tem vantagem comparativa não produz nada? Recusa-se a negociar? Se a sua “vantagem comparativa” está na exportação de mão-de-obra e no fechamento de lojas, isso é aceitável? Os livros didáticos não dizem. O mundo atual tem cerca de 220 países e milhares de mercadorias distintas. Neste mundo – aquele em que realmente vivemos – o cálculo da vantagem comparativa é intratável, e a doutrina não diz nada sobre quem deve se especializar no que, menos ainda, que a especialização reproduzirá exatamente o pleno emprego em cada lugar … Além disso, vantagem comparativa baseia-se no conceito de retornos constantes: a idéia de que você pode dobrar ou enganar a saída de qualquer bem simplesmente dobrando ou triplicando as entradas. Mas isso geralmente não é o caso. Para produtos manufaturados, retornos crescentes, aprendizado e mudança técnica são a regra, não a exceção: o custo de produção cai com a experiência. Com retornos crescentes, o menor custo será incorrido pelo país que começar o mais cedo e se mover mais rápido em qualquer linha de produto específica … Para a maioria das outras commodities, onde a terra ou a ecologia limitam a expansão da capacidade, a condição oposta – retornos decrescentes é a regra. Nesta situação, não pode haver garantia de que uma vantagem de custo relativo persista uma vez que a especialização e a expansão resultante da produção ocorram ”(Galbraith 2008: 68).

No mundo real, a produção em setores de alto valor agregado, como manufatura, leva à inovação, ao avanço da tecnologia, ao aumento dos retornos de escala, às sinergias e ao forte crescimento econômico. É por isso que a manufatura impulsiona a industrialização e torna as nações ricas. A base de uma primeira economia mundial moderna é a fabricação e indústrias de alto valor agregado. Escrevendo em 1817, Ricardo não entendia todas as implicações da revolução industrial para o desenvolvimento econômico.

Como é mostrado brilhantemente por Erik S. Reinert em Como os países ricos ficaram ricos e por que os países pobres ficam pobres (Carroll & Graf, Nova York, 2007, p. 301ss.), Uma nação em desenvolvimento pode seguir regras de vantagem comparativa à letra e ainda permanecem atolados na pobreza e na estagnação, com produção de baixo valor agregado e retornos decrescentes de escala.

Um exemplo catastrófico dos efeitos da vantagem comparativa foi visto na economia da Mongólia na década de 1990. A Mongólia, sob assessoria do Banco Mundial, implementou o livre comércio, que causou o colapso do setor manufatureiro, e mudou para a criação de gado (onde estava sua vantagem comparativa, de acordo com a teoria do comércio clássico). O resultado foi uma redução do PIB per capita para a metade e um desastre ecológico, já que o aumento da produção de gado levou a retornos decrescentes, pastoreio excessivo e desertificação (Reinert 2004: 157-214).

Argumentos de vantagem comparativa não são um bom caminho para o desenvolvimento econômico.


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A democracia cristã e a economia social de mercado alemã – um histórico.

 

Excerto de um artigo originalmente publicado na "Revista de Geopolítica" da UFRN.

Arthur Rizzi*

Pedro Ribeiro**

Se o grande medo e inimigo dos democratas cristãos era o Estado onipresente do socialismo, e especialmente do nacional-socialismo, não seria o laissez-faire e o estado guarda noturno uma melhor proteção contra os desmandos de um Estado totalitário? Não. Pelo menos era o que cria os principais nomes da escola de Freiburg, que além de pertencerem a uma das mais prestigiosas comunidades de economia da Europa continental, compunham também o prestigioso círculo de Kreisau[1].

 Para os ordoliberais (que é como foram chamados os proponentes do modelo), a instabilidade macroeconômica e desigualdade socioeconômica do período de dominância do liberalismo econômico teria sido um dos componentes sociológicos de radicalização das massas. O economista distributista John Médaille (2010, p.13), mesmo o diz:

Consider this fact: in the period from 1853 to 1953, the economy was in recession or depression fully 40 percent of the time. Since 1953 the economy has been in recession only 15 percent of the time.

Médaille que em sua obra aponta as vantagens da intervenção do Estado como regulador da economia em comparação com o completo desregulamento prévio, pontua que no pós-guerra, o consenso keynesiano produziu maior estabilidade macroeconômica. Embora não se possa chamar o modelo alemão de keynesiano (pelo menos não no sentido em que este termo era entendido naquele contexto histórico), ele dava papéis importantes ao Estado no controle e supervisão da economia, e se insere de maneira decisiva neste contexto como uma resposta não liberal clássica aos desafios do comunismo e do welfare state universalizante.

A descrença com o mercado não era tão menor quanto a descrença com o Estado, de modo que, seja por uma via social-democrática, seja por uma via de regulação moderada, o ideal do pós-guerra era efetivamente uma terceira via.

A democracia cristã com seu modelo de terceira via, entretanto, não é um produto do pós-guerra, ao contrário, ela é um produto do pós-primeira guerra, e de certa forma, um desenvolvimento do pensamento católico do fim do século XIX. Busetto (2002, p.26), comprova-o; o primeiro partido democrata cristão foi o Partido Popolare Italiano, fundado em 1919 por Dom Luigi Sturzo, justamente no período entre guerras e com aprovação tácita do Papa Bento XV. Apesar desta estreia relativamente prévia aos horrores do nazi-fascismo, foi durante o desenvolvimento da Segunda Guerra Mundial que surgiram enfim, a maioria dos partidos democratas cristãos, atraindo e integrando pessoas de várias camadas da sociedade, sendo ligadas umas às outras pelas suas tradições e valores. A democracia cristã, apesar das cores progressistas que tomou na América Latina, possuía na Europa um viés legitimamente conservador.

Em relação à Alemanha, a formação de uma união política composta por cristãos luteranos e católicos em associação com liberais e conservadores tradicionais, ofereceu suporte ao primeiro chanceler alemão da União Democrata-Cristã (CDU), Konrad Adenauer. Adenauer, antigo membro do Partido Católico de Centro (Zentrum), já havia escrito nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial acerca da necessidade de uma nova abordagem econômica, como mostra Sigmund em Mainwaring et al (2010, p. 105)

Después de la segunda guerra mundial, el pensamento de la terceira vía tambiem tuvo influencia em Europa. Em Alemania, Konrad Adenauer, el jefe del Partido Demócrata Cristiano no confessional (CDU-CSU) que habia sucedido al Partido Católico del Centro, escribió em sus primeiros años sobre la bancarrota del capitalismo y la necessidade de un nuevo orden económico y social que no fuera ni capitalista ni socialista.

Nos meios católicos, a terceira via sempre foi sinônimo de dois conceitos, um arqueológico e outro conceitual; o primeiro seria um retorno a antiga ordem corporativa, tardo-feudal do Ancién Régime; o outro corresponde ao desenvolvimento do pensamento distributista, que embora não tivesse o alcance das correntes principais do pensamento político e econômico, era um dos primeiros frutos teóricos das ações da recém-nascida doutrina social da igreja (doravante DSI). Busetto (2002, p.26) nos mostra que papa Pio IX, em reação ao avanço do liberalismo, publicou um anexo a Quanta Cura, o decreto Syllabus de 1864, em que condena as ideias anticlericais do iluminismo e o seu materialismo; o texto porém, foi e ainda é questionado por católicos liberais. Segundo o filósofo Ubiratan Macedo (1995, p.27), não era contra o liberalismo como um todo que o Vaticano se manifestava, mas sim contra as ações violentas e as políticas secularizantes do liberalismo continental, especialmente na sua versão francesa e italiana, esta última especialmente manifesta pelas ações de Garibaldi na Itália. Católicos tradicionais como Christopher Ferrara (2010, p.253) contestam, e acusam os liberais e libertários de modernismo:

Catholics who promote the austro-libertarian vision of society fall squarelly under the condemnation of what Pius XI called “moral, legal and social modernism” in his encyclical Ubi arcano Dei. Talking stock of na assortment of erros being preached by the liberal catholics of his day […]

Assim, o pensamento católico acabaria se dividindo economicamente entre grupos tradicionais que sustentavam uma visão ou arqueológica ou distributista, e grupos liberais e filo-liberais que apoiavam mais entusiasticamente as propostas cristã-democráticas como a economia social de mercado. Confirma-nos Sigmund em Mainwaring et al (2010, p.57)

Aunque existieron algunas continuidades entre los primeiros partidos católicos y los partidos democratascristianos […] estos últimos se inspiraban en diferentes perspectivas teológicas, eclesiásticas y políticas. El contraste es particularmente notório entre los partidos fundados antes de la encíclica papal Rerum Novarum en 1891 y los partidos democratascristianos fundados em las décadas de 1950 y 1960. […] Los partidos católicos antes de ella estaban caracteristicamente influenciados pela por la posición conservadora de la Iglesia en numerosos temas, mientras que los partidos democratascristianos fundados em las décadas de 1950 y 1960 nacieron durante um momento más liberal en desarollo de la Iglesia Catolica.

Desta forma, a economia social de mercado é produto de um viés teológico mais progressista, mesmo quando em comparação com o progressismo maior das escolas de pensamento latino-americanas, muito mais afeitas ao keynesianismo (e de fato, a democracia cristã, no Chile especialmente, construiu uma via subsidiária economicamente para o keynesianismo). Todavia, seria imprudente negar haver pontos de conexão – e há muitos – entre a perspectiva distributista e a dos ordoliberais. Assim sendo, a Democracia Cristã, embora não se enquadre perfeitamente na ortodoxia católica, defende tanto, uma estrutura política e jurídica democrática – o Estado constitucional liberal – e um conceito socioeconômico de fundo distributista de onde nasceria a economia social de mercado pautado no ordoliberalismo da escola de Freiburg. Para confirmar essa afirmativa trago uma citação de um dos mais notórios pensadores dessa escola: Alfred Müller-Armack.

Isso toca a questão da posição da economia social de mercado em face da teoria econômica cristã, que procura dar a economia normativa um princípio com base teológica. Tivemos na última década, um grande número de estudos referentes ao desenvolvimento de normas da nossa vida social, oriundos tanto do setor protestante como do católico. Quero me referir ao memorando sobre a “Questão do patrimônio na responsabilidade social”, editado pelo conselho da Igreja Evangélica da Alemanha, e a recente encíclica papal Mater et Magistra. Não há dúvida de que, no desenvolvimento europeu, a concretização da responsabilidade social tem tirado toda a sua profundidade dos princípios da fé. (1976, p.281)

Antes de prosseguir, citemos Sigmund e Mainwaring (2010, p.104) para reforçar nosso ponto, que é a distinção que existe entre as perspectivas econômicas tradicionalistas e neo-conservadoras da democracia cristã:

Algunos ven certo parecido del pensamento papal con el corporativismo italiano, português, y posteriormente español, pero esos ejemplos implican el control centralizado por parte del Estado, al que se oponía Pio XI. La encíclica argumentaba en favor de uma terceira vía entre el individualismo estereotipado de la “contaminada fuente” del liberalismo de libre empresa desbocada de la “Escuela de Manchester” y el punto de vista igualmente estereotipado del comunismo y socialismo colectivistas y  materialistas.

Sigmund e Mainwaring podem ser chamados de imprecisos quanto aos casos português e espanhol, no qual o centralismo estatal é duvidoso, por outro lado, o fundamento de sua distinção é factual e consolida um ponto a favor de nossa tese, a de que há clara base cristã católica em seu fundamento misturada a um progressismo neoconservador. Como dito, se por um lado, há uma desconfiança para com o estatismo, há também uma desconfiança na economia social de mercado para com o liberalismo, mesmo sendo ela uma alternativa liberal e social ao estatismo. A evidência disto é que houve discussões entre intelectuais acerca do quão liberal era o modelo alemão.

O sociólogo britânico Anthony Giddens (2001, p.27) retrata bem essa desconfiança dos democratas cristãos para com o liberalismo econômico puro no livro “A terceira via e os seus críticos” onde diz:

Os democratas cristãos há muito suspeitam do capitalismo desenfreado e defendem um papel – embora restrito – para o Estado, bem como apoiam as instituições de welfare desenvolvido. A política de terceira via rouba algumas de suas ideias.

Com esta exposição fica claro que do ponto de vista econômico, a democracia cristã apoia uma posição de centro, reconhecendo a importância do estado na promoção do bem-estar social, afastando-a dos liberais clássicos, mas reconhecendo também a importância da livre iniciativa e da liberdade econômica, o que a diferencia dos socialistas. Segundo Müller-Armack apud Resico (2012, p.112) a Economia Social Mercado é “a combinação do princípio da liberdade de mercado, com o princípio da equidade social”.

Há uma perspectiva negativa em relação ao modelo alemão por parte do brasileiro Ubiratan Borges de Macedo (1995, p.28), que ao discorrer sobre o que ele chama de “eclipse liberal” no pós-guerra menciona a Alemanha como sendo um exemplo de liberalismo imperfeito:

Com o final da Segunda Guerra Mundial, arquivam-se os totalitarismos e os corporativismos de direita, subsistindo apenas o marxismo e um vago consenso social-democrata no mundo ocidental. Os liberais, que entraram em eclipse no período entre-guerras, estão reduzidos a uma minoria e o único país com políticas mais ou menos liberais é a derrotada Alemanha. (grifo meu).

E também nos referimos à visão do economista americano da escola austríaca Henry Hazlitt (1986, p.14) que reconhece no ordoliberalismo uma política econômica mais eficiente que suas concorrentes.

Desde o término da II Guerra Mundial na Europa, tem havido rápido e mesmo espetacular “crescimento econômico”, tanto nos países que foram devastados pela guerra, como naqueles que não o foram. Alguns dos países onde houve maior destruição, como a Alemanha, progrediram mais rapidamente que outros, como a França, onde a destruição foi muito menor. Em parte isso se deu por que a Alemanha Ocidental seguiu uma política econômica mais eficiente. (grifo meu)

Entretanto, alguns conseguiram captar bem a linha de corte entre o que tradicionalmente se compreende entre o liberalismo econômico e a economia keynesiana como é o caso do economista Antônio Delfim Netto (1990, p.90), que enfatiza que apesar de compartilhar dos mesmos alvos que a economia Keynesiana (e, portanto distanciando-se da completa abstenção da economia liberal clássica), a ESM tinha outros meios de atingir estes alvos:

Os objetivos gerais dessa política eram os mesmos que todos os países consagraram depois da segunda guerra mundial: crescimento, pleno emprego e estabilidade. Mas a técnica utilizada para atingi-los era completamente diferente, pois ela não contemplava a utilização da política fiscal de inspiração keynesiana.

Também poderíamos citar o economista francês Michel Albert (1992, p.145) que dedicou em seu livro mais famoso, “Capitalismo versus capitalismo”, vários capítulos sobre o ordoliberalismo em que ele enfatiza a dificuldade que até hoje os alemães tem de fazer os anglo-saxões entenderem o caráter liberal da economia social de mercado:

Há mais de trinta anos que estudo a economia alemã e que venho trabalhando com alemães, e continuo surpreso em ver a dificuldade que eles sentem em fazer compreender nos outros países que o seu modelo econômico é autenticamente liberal.

Em outras palavras, o liberalismo prático em matéria econômica da economia social de mercado não é um consenso, embora se possa dizer que, claramente, o modelo alemão é filosoficamente liberal e teologicamente filo-liberal. Evidência disto buscamos novamente nas palavras de Christopher Ferrara (2010, p.240-241) em relação Wilhelm Röpke, que como veremos, é um dos fundadores do conceito da economia social de mercado.

[…]Röpke, whose Works such as “A humane economy” embrace free market principles while advocating an active state role in the preservation of public morality against the social effects of the umbridled market competition, both within and without the marketplace. […] Without defending any of details of what Röpke proposed which are beyond the scope of this book, we can say that the Church too call for a third way – or more accurately, since the Church’s teachings is no mere compromisse between two erros, a right way.

Nota de rodapé:

[1] O círculo era uma resistência intelectual anti-nazista composta por teólogos católicos, luteranos; juristas, economistas, filósofos e sociólogos de tendência liberal, conservadora, social-democrata, distributista e democrata cristão. Sua meta era conjecturar um projeto de Alemanha pós-nazismo.


*Arthur Rizzi é historiador, estudioso de história do pensamento econômico, e proponente do desenvolvimentismo distributivista.

**Pedro Ribeiro é mestrando em filosofia, estudioso do neotomismo e do pensamento de Jacques Maritain.

Uma alternativa nacional-democrata cristã.

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