Rothbard e a ética da psicopatia

Texto de Arthur Rizzi originalmente postado no GEPG - Grupo de estudos Perillo Gomes.

Um dos maiores ídolos do libertarianismo e do liberalismo moderno, citado tanto por anarcocapitalistas quanto por liberais como autoridade em suas obras, Murray N. Rothbard é famoso por sua defesa intransigente da liberdade como fundamento único da sociedade.

Em seu livro The Ethics of Liberty o autor defende que os país, pela perspectiva do “direito negativo” podem deixar seu filho morrer de fome, pois a criança é, de alguma forma, propriedade privada dos pais. Na edição americana de 1999, nas páginas 99 até 101 Rothbard diz:

“Suppose now that the baby has been born. Then what? First, we may say that the parents-or rather the mother, who is the only certain and visible parent-as the creators of the baby become its owners. A newborn baby cannot be an existent self-owner in any sense. Therefore, either the mother or some other party or parties may be the baby’s owner, but to assert that a third party can claim his ‘ownership’ over the baby would give that person the right to seize the baby by force from its natural or ‘homesteading’ owner, its mother. The mother, then, is the natural and rightful owner of the baby, and any attempt to seize the baby by force is an invasion of her property right.

Aqui vemos que para Rothbard, a criança é propriedade dos pais. uma propriedade privada. Contudo, para Rothbard, essa propriedade não é absoluta.

But surely the mother or parents may not receive the ownership of the child in absolute fee simple, because that would imply the bizarre state of affairs that a fifty-year old adult would be subject to the absolute and unquestioned jurisdiction of his seventy-year-old parent. So the parental property right must be limited in time. But it also must be limited in kind, for it surely would be grotesque for a libertarian who believes in the right of self-ownership to advocate the right of a parent to murder or torture his or her children. We must therefore state that, even from birth, the parental ownership is not absolute but of a ‘trustee’ or guardianship kind. In short, every baby as soon as it is born and is therefore no longer contained within his mother’s body possesses the right of self-ownership by virtue of being a separate entity and a potential adult. It must therefore be illegal and a violation of the child’s rights for a parent to aggress against his person by mutilating, torturing, murdering him, etc. On the other hand, the very concept of ‘rights’ is a ‘negative’ one, demarcating the areas of a person’s action that no man may properly interfere with.

Ou seja, a guarda da criança é que é possuída. Em que pese isso guardar uma contradição com trecho superior (que abordarei ao fim do texto), com isso ele já delibera que a criança tem algum autonomia. E como a criança se tornará um adulto em potencial, ela não pode receber danos uma vez que esteja fora da barriga de sua mãe. Logo, os pais não podem torturar uma criança. Contudo, para Rothbard, eles podem fazer vistas grossas ao seu sofrimento, desde que não seja causado por eles, pois o direito é sempre um direito negativo. e sireito positivo seria ao seu ver, coerção, o que é contra os princípios do libertarianismo e vocês podem conferir abaixo.

No man can therefore have a ‘right’ to compel someone to do a positive act, for in that case the compulsion violates the right of person or property of the individual being coerced. Thus, we may say that a man has a right to his property (i.e., a right not to have his property invaded), but we cannot say that anyone has a ‘right’ to a ‘living wage,’ for that would mean that someone would be coerced into providing him with such a wage, and that would violate the property rights of the people being coerced. As a corollary this means that, in the free society, no man may be saddled with the legal obligation to do anything for another, since that would invade the former’s rights; the only legal obligation one man has to another is to respect the other man’s rights.

Prosseguindo…

Applying our theory to parents and children, this means that a parent does not have the right to aggress against his children, but also that the parent should not have a legal obligation to feed, clothe, or educate his children, since such obligations would entail positive acts coerced upon the parent and depriving the parent of his rights. The parent therefore may not murder or mutilate his child, and the law properly outlaws a parent from doing so. But the parent should have the legal right not to feed the child, i.e., to allow it to die. The law, therefore, may not properly compel the parent to feed a child or to keep it alive. (Again, whether or not a parent has a moral rather than a legally enforceable obligation to keep his child alive is a completely separate question.) This rule allows us to solve such vexing questions as: should a parent have the right to allow a deformed baby to die (e.g. by not feeding it)? The answer is of course yes, following a fortiori from the larger right to allow any baby, whether deformed or not, to die. (Though, as we shall see below, in a libertarian society the existence of a free baby market will bring such ‘neglect’ down to a minimum.)”

Desses princípios, Rothbard concorda que há uma obrigação moral de cuidar de uma criança que é seu filho. Contudo, o autor diz que caso um pai psicopata decida se deleitar diante de seu filho agonizando sem comida e morrendo por inanição, ele não deve ser forçado a alimentar por força (coerção) e nem deve ser punido por isso.

Disso se conclui ainda que, caso um vizinho sabendo do que o pai psicopata está fazendo ao próprio filho, decida intervir e invadir a casa pra raptar a criança e salvá-la da morte por inanição, o pai psicopata poderia atirar nessa pessoa ou ate denunciá-la a polícia privada, sem maiores problemas para si e com punições para a pessoa caridosas que tentou salvar uma vida. Suponhamos que o pai psicopata mate o nosso vizinho herói, o pai não seria punido por isso, pois apenas defendeu sua propriedade e o que ele faz (ou não faz a seu filho) não é da conta de outros. É óbvio que esta é uma sociedade formada por psicopatas.

  • O primeiro ponto é: A coerção tem um papel social importante desde que controlada..
  • O segundo ponto é: O erro de Rothbard é elencar como o único princípio fundamentador da sociedade, a liberdade individual como sendo agir sem ser coagido.

Se chegamos a conclusão que o direito de invadir a propriedade de outrem é possível para salvar a vida, chegamos a conclusão de que a violação da propriedade é possível e útil, e que a coerção é útil do ponto de vista social.

O segundo é que Rothbard elege um princípio abstrato como valor ao invés de um concreto, que é a liberdade individual. O valor que deve fundamentar QUALQUER sociedade é a dignidade da pessoa humana, princípio da Doutrina Social da Igreja e do Direito Natural Clássico. Neste conceito a liberdade humana, o direito de igualdade perante os outros humanos, bem como a sacralidade absoluta da vida humana já estão garantidos. Sendo a vida sagrada, a pessoa tem o direito de ter uma vida digna, pois ser humano já é condição necessária pra merecer isso.

Isso significa que pela condição sacral da vida humana, nós temos ordenações positivas e negativas e, logo, obrigações e deveres.

Rothbard ainda se contradiz ao dizer que um recém nascido “cannot be an existent self-owner in any sense,” e na sequencia dizer que um recém-nascido “is therefore no longer contained within his mother’s body possesses the right of self-ownership by virtue of being a separate entity and a potential adult.” – Traduzindo: Rothbard diz que de maneira NENHUMA um recém-nascido possui o direito de auto-propriedade. E na sequência diz que uma vez que ele tenha saído da barriga de sua mãe ele já o tem em virtude de ser um adulto em potencial e, logo, um corpo separado do de sua mãe.

Outra contradição se encontra inserida na questão do aborto. Na página 98 o mesmo diz:

The proper groundwork for analysis of abortion is in every man’s absolute right of self-ownership. This implies immediately that every woman has the absolute right to her own body, that she has absolute dominion over her body and everything within it. This includes the fetus. Most fetuses are in the mother’s womb because the mother consents to this situation, but the fetus is there by the mother’s freely-granted consent. But should the mother decide that she does not want the fetus there any longer, then the fetus becomes a parasitic “invader” of her person, and the mother has the perfect right to expel this invader from her domain. Abortion should be looked upon, not as “murder” of a living person, but as the expulsion of an unwanted invader from the mother’s body. Any laws restricting or prohibiting abortion are therefore invasions of the rights of mothers.

Tradicionalistas e democratas cristãos têm sistematicamente afirmado ao longo dos séculos a sacralidade da vida humana, e ainda, que o embrião fecundado já é ser humano, não havendo portanto diferença entre um bebê na barriga da mãe e fora dele. Paradoxalmente, alguns grupos pró-aborto concordam, tanto que já defendem o abominável aborto pós-parto com base em uma constatação científica por dois médicos especializados em filosofia. Sim, você acabou de ler exatamente isso! ABORTO PÓS-PARTO, ou se preferir INFANTICÍDIO.

 

Ora, sendo o bebê fora da mãe, indistinto do bebê dentro da mãe, significa que Rothbard criou um precedente para a tortura com base no critério de violação da propriedade privada. Se um pai de repente achar que não quer mais o filho em sua casa, ele passa a ser um invasor na sua casa e pode bater nele e torturá-lo até que ele fuja de sua propriedade ou  o próprio pai o ponha pra fora, assim como você pode abrir fogo num invasor que entra em sua casa pra roubá-lo. A “Ética da Liberdade” Rothbardiana é, sem dúvidas, a ética da psicopatia.

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Taxa natural de juros: A fábula de Knut Wicksell

Texto originalmente publicado em Social Democracy in 21st Century, porém traduzido e ampliado por Reação Nacional.

A teoria da taxa natural de juros é uma teoria não monetária da taxa de juros, e foi desenvolvida de modo muito influente pelo economista sueco Knut Wicksell:

“Wicksell tratou a taxa natural de juros como a taxa de juros real no sentido de que ela é igualada com as forças da produtividade e da economia, como se poupança e investimento fossem tomadas como bens reais (in natura) […] Equilíbrio monetário existiria quando a taxa de juros de mercado, determinada no mercado de crédito, igualaria a taxa natural, determinada por forças reais da economia e da produtividade. Qualquer discrepância entre ambas produziria inflação ou deflação.” (ROGERS, 2001, p.545).

Ela é essencialmente uma teoria dos fundos emprestáveis. Entretanto, o problema com essa teoria é que ela não pode ser generalizada além de uma economia de uma só mercadoria:

“A taxa de juros natural é uma taxa real no sentido em que ela supostamente determinaria num mercado a taxa em que poupança e investimento são tomados in natura. Todavia, o fato é que em economia, por mais primitiva que fosse, não existia um mercado de capitais, e a taxa natural de juros, tal como visada por Wicksell e Robertson, também não existiria. O conceito da taxa natural de juros não é meramente inoperante: ela é uma abstração de um caso hipotético sem nenhuma relevância enquanto uma teoria especial do juro. Logo, ela não pode fornecer fundamentação teórica para uma teoria real dos fundos emprestáveis ou dos juros.” (RORGERS, 2001, P.546).

Como Karl Polanyi chama atenção em seu magnum opus, “A grande transformação“, no medievo e na maioria das economias pré-modernas conhecidas, o capital – majoritariamente a terra – não era comercializável e, na maioria dos casos, nem mesmo o conceito moderno de propriedade privada individual se aplicava.

Com o colapso da mítica taxa natural de juros, elemento central dos mecanismos de equilíbrio da lei de Say, ela também colapsa. E com ela é implodida também a TACE, dado que ela emprega a lei de Say, e por sua vez, esta emprega a taxa natural de juros.

BIBLIOGRFIA

Rogers, C. 1989. Money, Interest and Capital: A Study in the Foundations of Monetary Theory, Cambridge University Press, Cambridge.
Rogers, C. 1996. “The General Theory: Existence of a Monetary Long-period Unemployment Equilibrium,” in G. C. Harcourt and P. Riach (eds), A Second Edition of The General Theory, Routledge, London.
Rogers, C. 2001. “Interest rate: natural,” in P. Anthony O’Hara (ed.), Encyclopedia of Political Economy. Volume 1. A–K, Routledge, London and New York. 545–547.

POLANYI, Karl. A grande transformação. Brasília, UnB, 1995.

Crise argentina: tango liberal e confusão.

Arthur Rizzi*

A crise argentina está deixando o Brasil e o mundo embasbacado. É curioso como a Argentina se envolve em confusões que ninguém mais consegue. E quando sai, sai apenas por maquiagens fiscais, ou porque bateu no fundo do poço e não tem como piorar mais; e quase sempre os governos sucessores rearmam a bomba de uma nova crise, na maioria das vezes, pior que a anterior. Esta tem sido a sina da Argentina desde a crise que elevou Perón ao poder.

Não vou entrar no mérito da política argentina, que é marcada por radicalismos de lado-a-lado, com liberais ultra-radicais de um lado e estatizantes malucos de outro. Tudo isso sem um MDB para servir de poder moderador. Aliás, para um assunto e postagem posterior, poderemos abordar como o poder moderador nunca existiu na Argentina, desde o tempo colonial até a ascensão de Perón.

A crise começou com as trapalhadas de Christina Fernandez Kirchner, que fazendo mais burradas que Dilma saiu travando preços por toda a economia, imprimindo moeda adoidado para cobrir os cada vez maiores rombos fiscais aliado a uma gastação baseada na crença do moto-perpétuo (parodiando Marcos Lisboa e Samuel Pessôa). Daí veio Macri, e prometeu um ajuste radical, corte de impostos, corte de gastos, mas disse que não seria fácil. Disse que ia doer um pouco, mas que seria bom no longo prazo. Apenas um remédio amargo.

A primeira parte ele concretizou, a segunda ainda segue longe no horizonte. O começo de seu governo foi de fazer um economista da escola austríaca (EA, doravante) ficar extasiado. Conforme prometido, Macri começou o corte de gastos públicos e reduziu os impostos sobre os principais setores produtivos, em especial manufaturas e agronegócio (Aliás, a crítica da EA ao ajuste Temer sempre foi que ele foi feito com aumento de impostos, o que na visão deles, só pioraria as coisas). O fundamento da tese era simples, o corte de impostos sobre o setor agropecuário e uma insípida e quase morta indústria seria o bastante para que a produtividade aumentasse, a economia crescesse e com o aumento de arrecadação proveniente da prosperidade econômica retomada, acabaria-se o défcit primário.

Somatório de recuperação econômica + crescimento da arrecadação + corte de gastos. Do outro lado, o acréscimo dos juros deveria ser o bastante para combater a inflação galopante e reprimida. Formula perfeita, não?

Não.

O corte de impostos agravou a situação fiscal do país, o juro alto causado pela política contracionista, mais o cenário de incerteza, fez com que o prometido investimento e retomada econômica não viessem, como resultado o que acabou acontecendo foi a completa perda de confiança no país, fuga em massa de capitais, crise cambial e a inflação que começava a ceder, voltou com mais força. O juro subiu ainda mais, para conter a debandada do capital especulativo, que procurava paragens mais seguras como os títulos públicos americanos, que com aumento do juro no FED viam o paraíso da renda fixa. Isso acabou tornando o investimento impossível, dado que o custo de oportunidade tornou-se extremamente desfavorável, tornando o capital marginalmente ineficiente e estimulando a usura e o rentismo. Mas, mais do que isso:

O déficit nas contas externas do país piorou – a rigor, em sua conta corrente, que inclui, além da balança comercial, a balança de serviços e rubricas como as transferências de dividendos empresariais para suas unidades em outros países, mostrou seus piores resultados dos últimos 10 anos em 2017. Esse saldo negativo precisa ser financiado por empréstimos ou investimentos estrangeiros, o que é cada vez mais desafiador em um momento em que as taxas de juros dos EUA estão subindo.

Fase 2: Ajuste Temer a la Macri.

Com o fracasso do primeiro plano de ajuste, o governo se viu obrigado a tomar a via novo-keynesiana/chicaguista de Henrique Meirelles aqui no Brasil. Subiram os impostos sobre o setor exportador e sobre outros setores da economia. Isso soou bastante impopular perante a agroindústria argentina, base de apoio do governo na eleição que o elegeu e na eleição parlamentar. O apelo ao FMI serviu como forma de injetar dinheiro na economia argentina, mas isso ainda não virou investimento e nem política fiscal relevante. A economia continua ainda afundando, mas menos e, pelo menos, o déficit fiscal vem sendo reduzido. A economia argentina acumula queda de 1,5% do PIB na atividade econômica nos primeiros nove meses do ano. Por outro lado, 2018 representou só em setembro uma queda de 5,8% em relação ao setembro de 2017. Este é o estado presente da economia argentina.

Uma possível solução.

Dado que o atual choque inflacionário é, parcialmente, inflação de custos oriundo da crise cambial e que a economia sendo retraindo, a inflação tende normalmente a cair no médio prazo. Seria talvez a solução (se legalmente possível), manter ou ampliar os cortes de gastos, mas aliar a uma redução da taxa de juros, para tornar o investimento possível. O capital especulativo no momento chantageia a Argentina, e a saída dele é o medo do presidente. Contudo, a maior parte desse capital não é produtivo e serve apenas para impedir um outro choque cambial, contudo, dado o estado atual de degradação da economia, o que seria “um peido para quem já está cagado“? A redução poderia hoje transmitir um pânico no capital especulativo, contudo devolveria a economia condições de investimento, provocando a morte do rentismo. Como o caos cambial não deve durar para sempre, passado ele, a confiança na economia pode retomar. Essas medidas deveriam ter sido tomadas em 2015, àquela altura teriam sido mais brandas e hoje o déficit primário seria algo em torno de 30% menor. Hoje são ainda amargas. Aliás, as mesmas poderiam ter sido tomadas pelo governo Dilma e Temer e respectivamente, dado que como disse certa vez o professor José Oreiro, o ajuste teria sido  menos recessivo e o déficit seria menor.

Difícil será convencer o FMI a emprestar nessas condições. E segue o tango.


*Arthur Rizzi é graduado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), dedicado pesquisador freelancer de história econômica.

Católico anarcocapitalista? Perversão ou Ignorância?

por Raphael Mirko e Victor.S

Está terminantemente proibido brincar de católico e ser libertário ao mesmo tempo. Com a palavra, o Vaticano: “Tal é, com efeito, o ofício da prudência civil e o dever próprio de todos aqueles que governam. Ora, o que torna uma nação próspera são os costumes puros, as famílias fundadas sobre bases de ordem e de moralidade, a prática e o respeito da justiça, uma imposição moderada e uma repartição equitativa dos encargos públicos, o progresso da indústria e do comércio, uma agricultura florescente e outros elementos, se os há, do mesmo gênero. Todas as coisas que não se podem aperfeiçoar, sem fazer subir outro tanto a vida e a felicidade dos cidadãos (…) o Estado deve servir o interesse comum” — Carta Encíclica Rerum Novarum, redigida pelo Papa Leão XIII.

FONTE: http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

“É certo que por muito tempo pôde o capital arrogar-se direitos demasiados. Todos os produtos e todos os lucros reclamava-os ele para si, deixando ao operário unicamente o bastante para restaurar e reproduzir as forças. Apregoava-se, que por fatal lei econômica pertencia aos patrões acumular todo o capital, e que a mesma lei condenava e acorrentava os operários a perpétua pobreza e vida miserável. E bem verdade, que as obras nem sempre estavam de acordo semelhantes monstruosidades dos chamados liberais de Manchester: não se pode contudo negar que para elas com passo certeiro e constante o regime econômico e social. Por isso não é para admirar que estas opiniões errôneas e estes postulados falsos fossem energicamente impugnados, e não só por aqueles a quem privam do direito natural de adquirir melhor fortuna.” — Carta Encíclica Quadragésimo Anno, redigida pelo Papa Pio XI.

FONTE: https://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19310515_quadragesimo-anno.html

“Mas, para mais facilmente se compreender como é que puderam conseguir que tantos operários tenham abraçado, sem o menor exame, os seus sofismas, será conveniente recordar que os mesmos operários, em virtude dos princípios do liberalismo econômico, tinham sido lamentavelmente reduzidos ao abandono da religião e da moral cristã. Muitas vezes o trabalho por turnos impediu até que eles observassem os mais graves deveres religiosos dos dias festivos; não houve o cuidado de construir igrejas nas proximidades das fábricas, nem de facilitar a missão do sacerdote; antes pelo contrário, em vez de se lhes pôr embargo, cada dia mais e mais se foram favorecendo as manobras do chamado laicismo. Aí estão, agora, os frutos amargosíssimos dos erros que preanunciado. E assim, por que nos havemos de admirar, ao vermos que tantos povos, largamente descristianizados, vão sendo já pavorosamente inundados e quase submergidos pela vaga comunista?” — Carta Encíclica Divinis Redemptoris, redigida pelo Papa Pio XI e comprovando que foi a farra do livre mercado que pariu o comunismo.

FONTE: http://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19370319_divini-redemptoris.html

Eis então que os libertários pseudo-católicos bradarão: “Para trás, inditoso esquerdista! O papado foi tomado por soças desde o concílio Vaticano II, como ainda dizem respeito a questões morais. Deste modo, segundo o dogma da infalibilidade papal, proclamado no Vaticano I, o obrigatório a qualquer Católico Romano é calar-se e acatar-se, sob pena de excomunhão. Declarações ex cathedra são inquestionáveis, conforme expõe o documento abaixo:

“O Romano Pontífice, quando fala “ex cathedra”, isto é, quando no exercício de seu ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define uma doutrina de fé ou costumes que deve ser sustentada por toda a igreja, possui, pela assistência divina que lhe foi prometida no bem-aventurado Pedro, aquela infalibilidade da qual o divino Redentor quis que gozasse a sua igreja na definição da doutrina de fé e costumes. Por isto, distas definições do Romano Pontífice são em si mesmas, e não pelo consentimento da Igreja, irreformáveis. — Constituição Dogmática Bula Pastor Aeternus, Promulgada durante o Concílio do Vaticano I e datada de 18/04/1870.

FONTE: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/i-vatican-council/index_po.htm

Além disso, a própria Sagrada Tradição, tanto da Igreja Ortodoxa quanto da Igreja de Roma, condenam veementemente o individualismo exacerbado e a usura. Deste modo, quem quiser questionar toda essa estrutura, que vire protestante. Agora, quando forem brincar de Sola Scriptura, que expliquem então Mateus 22:21, Lucas 18:24–25, Marcos 10:17–22, Lucas 12:16–21, João 2:13–22 e Mateus 21:12.

A Igreja Ortodoxa também se posiciona condena os senhores: https://mospat.ru/en/documents/social-concepts/

Se você leu até aqui, seja anátema quem se declara cristão e libertário.

Ou você é católico, ou libertário, cruzado Rothbardiano não dá!

Na imagem: Cristo expulsando os mercadores do Templo.

 

Texto publicado originalmente no Medium do autor.

Welfare state: uma discussão sobre os modelos – Parte 2

 

Texto originalmente postado no Grupo de Estudos Perillo Gomes (GEPG) - O texto é um excerto de um excelente artigo presente no último livro lançado pela Fundação Konrad Adenauer, chamado “O panorama socioeconômico do Brasil e suas relações com a Economia Social de Mercado“, o artigo em questão se chama “Subsidiariedade e universalismo como princípios organizativos do estado social“, ele aborda a tentativa inicial de fazer programas de renda mínima, depois a tentativa do SPD fazer um welfare clássico e por fim, o meio-termo tão prezado pela Democracia Cristã.

KERSTENETZKY, Jacques.¹ KERSTENETZKY, Celia.²

Da mesma forma que no caso alemão, o welfare state dinamarquês pode ser considerado peça integrante do processo de desenvolvimento capitalista pelo qual a Dinamarca transitou da sociedade agrária a moderna. As origens podem igualmente ser localizadas no final do século dezenove, quando teve início o apoio oficial a associações voluntárias, bem como inovações institucionais e de políticas públicas. Foi nesta época que surgiu e se institucionalizou o estilo de parceria social dinamarquesa, envolvendo densos grupos de interesse e o estado em uma longa tradição de elaboração de políticas por meio de consensos. Foi também então que as raízes da noção de transformação econômica negociada foram lançadas, incluindo troca de restrição salarial por direitos sociais. Outros ingredientes foram a intensa mobilização política e governos social-democratas, que duraram cerca de cinquenta anos, ao longo do século XX até os anos 1970. […] Foi concebida uma variedade de benefícios e serviços de qualidade, financiados por impostos, para proteger a totalidade dos cidadãos das incertezas do ciclo da vida e vicissitudes econômicas e intrageracionais. Nos anos dourados entre 1945 e 1973, o Estado de bem-estar veio a ser instrumental para alcançar níveis elevados de de emprego e atividade econômica. Foi importante fonte de empregos (em torno de 30% do emprego, em sua maior parte feminino) e facilitou a participação econômica feminina, ao introduzir creches universais e políticas de família, como licenças maternidade e paternidade remuneradas e pensões familiares. O modelo de família de duas fontes de rendimento (dual-earner) foi encorajado e provou ser mais tarde um potente escudo contra a pobreza infantil e um futuro pobre, colocando a Dinamarca em posição privilegiada entre os paises da OECD. […]

Em contraste (com a democracia cristã), o universalismo do pós-guerra que encontra abrigo na socialdemocracia alemã baseia em uma teoria social e em princípios normativos distintos, a necessidade de garantia universal e igual de renda apoiada no status de cidadania, provisão de serviços amplos e compromisso com o pleno emprego. O Estado do bem-estar de tipo beveridgiano encontra sua racionalidades na noção de que todos os membros de uma comunidade política, em virtude exclusivamente desse pertencimento, são titulares iguais de direitos sociais. Sua base é fortemente individualista (no sentido de que cada indivíduo separadamente, é sujeito de direitos sociais) e igualitarista (igualdade de direitos a despeito da origem e pertencimento a grupos sociais). Essa visão de uma comunidade de iguais em direitos se sobrepõe a um sistema econômico que diferencia e desiguala os indivíduos, a partir de desigualdades sociais originadas historicamente. O Estado é aqui o agente da mudança social (não apenas um moderador de efeitos indesejados do mercado) na medida em que uma de suas principais funções é minimizar as desigualdades sociais (históricas, não naturais) ao impor o cumprimento de direitos iguais (no fundo, oportunidades sociais iguais) visam a corrigir a injusta distribuição econômica (que reflete injustas desigualdades de oportunidades históricas). Essas premissas, contudo, não foram suficientes para operacionalizar na Inglaterra (a pioneira) nas primeiras décadas do século passado um sistema de bem-estar que reduzisse significativamente a pobreza e as desigualdades. Nesse quesito, o sistema subsidiários alemão superou o sistema universal inglês. No início da década de 1980 a pobreza (da renda disponível) na Alemanha é equivalente a sueca e o nível de desigualdade de renda é inferior ao da Dinamarca.

 

Aqui é necessário cautela. Na verdade, o sistema subsidiário alemão se revelou um sistema universal, se não na igualdade dos padrões de vida, ao menos na cobertura e nos níveis elevados de reposição da renda, muito em função das circunstâncias específicas que prevaleceram nos anos dourados: crescimento econômico, liderança do setor industrial, pujança dos sindicatos, elevados patamares salariais com relativamente baixa desigualdade entre os níveis, demografia favorável (em termos relativamente baixa proporção de idosos e do aumento das taxas de fecundidade no pós-guerra) e família tradicional, onde o trabalho fora é principalmente masculino e o trabalho de casa é essencialmente feminino. Com prevalência de pleno emprego, praticamente todos os trabalhadores encontravam-se cobertos pela seguridade social, e ainda que com a diferenciação de benefícios, na medida em que estes refletem a distribuição no mercado, as desigualdades não são tão elevadas, além disso, suas mulheres e filhos, bem como os idosos na família achavam-se igualmente protegidos por meio dos salários e benefícios dos chefes de família. Esse quadro como vimos na seção 1, é profundamente alterado com a nova realidade das sociedades pós-industriais, que trazem dificuldades e reformas vistas na seção 2.

Se a combinação “sociedade industrial-estado subsidiário” se revelou bem sucedida enquanto a combinação “sociedade industrial-estado social universal” não tanto (pelo menos na versão britânica), com as sociedades pós-industriais, é a combinação “sociedades pós-industrial-estado subsidiário” que não se mostra eficiente, já que as premissas sobre as quais se baseia a intervenção pública não se verificam na experiência concreta dos países (famílias estáveis, mercado de trabalho sólido, desigualdades justas, pobreza desprezível). Contudo, a nova realidade também vai pressionar o universalismo a se desdobrar em novas experiências, por exemplo intensificando os aspectos de investimento social do Estado (conjunto de intervenções que visam a aumentar a capacidade produtiva agregada, e de modo geral, facilitar a inserção da população em idade ativa no mercado de trabalho incluindo mulheres e jovens), ampliando o leque de intervenções para além das tradicionais políticas de manejo de demanda de cunho keynesiano.

Portanto,para além do confronto entre duas concepções de bem distintas (a sociedade como um organismo formado de órgãos inferiores bem ordenados e harmonicamente hierarquizados versus uma sociedade de indivíduos que compõem uma comunidade política de cidadãos iguais em direitos), as visões da subsidiariedade, põem em confronto diferentes teorias sobre a realidade social.


¹ Doutor em Economia pela UFRJ

² Mestre em Economia pela UFRJ e Ph.D. em Ciências políticas pela European University Institute.

Os artigos aqui republicados têm a única finalidade de divulgar ideias e os trabalhos originais. Para maiores informações procure os originais nos sites, livrarias e sebos credenciados aos autores e editoras.


 

Welfare state: uma discussão sobre os modelos – Parte 1

Publicado originalmente no Grupo de Estudos Perillo Gomes (GEPG) - O texto é um excerto de um excelente artigo presente no último livro lançado pela Fundação Konrad Adenauer, chamado "O panorama socioeconômico do Brasil e suas relações com a Economia Social de Mercado", o artigo em questão se chama "Subsidiariedade e universalismo como princípios organizativos do estado social", ele aborda a tentativa inicial de fazer programas de renda mínima, depois a tentativa do SPD fazer um welfare clássico e por fim, o meio-termo tão prezado pela Democracia Cristã.

KERSTENETZKY, Jacques.¹ KERSTENETZKY, Celia.²

Nesta seção nos voltamos para a explicitação dos princípios que constituem a alma mater dos modelos sociais alemão e dinamarquês, respectivamente, o universalismo e a subsidiariedade. Vamos ainda analisá-los a partir do contexto da reforma da política social alemã no imediato pós-guerra, que é o cenário onde se desdobra o confronto doutrinário entre a democracia cristã e a socialdemocracia. Com o auxílio de especialistas alemães, as forças aliadas de ocupação da Alemanha produziram no imediato pós-guerra uma proposta de reforma da política social que a aproximava bastante do modelo beveridgiano de políticas universais e uniformes. Caso implementada, a reforma teria sido concomitante à reforma britânica (1945-1948) e, em espírito, bastante semelhante. Basicamente, propunha a universalização e a uniformização dos benefícios monetários da seguridade social, incluindo categorias tradicionalmente excluídas (como os autônomos) na elegibilidade a benefícios básicos. Em contraste com a ideia britânica, a ideia era reduzir o subsídio estatal a zero, fazendo o financiamento do esquema repousar exclusivamente em contribuições. Várias influencias concorreram para esse desenho, entre elas a participação de especialistas britânicos recrutados na fina flor do serviço público inglês, o envolvimento de experts alemães com fortes vínculos com os sindicatos, mas também a preocupação das forças de ocupação, sobretudo britânicas, com a autossuficiência do esquema alemão e o alívio do bolso do contribuinte inglês na forma de menores subsídios.

A proposta encontrou forte oposição no seio das forças de ocupação e principalmente entre os parceiros alemães, e acabou sendo retirada quando a própria Grã-Bretanha deixou de prestigiá-la (ela foi adotada apenas no setor russo). Em seu lugar foram retomadas as políticas sociais da época de Weimar que, como vimos na sessão passada, remontam à tradição de política social bismarckiana, o que foi ratificado pelo primeiro parlamento alemão do pós-guerra (legislatura de 1949 a 1953) sob a liderança da democracia-cristã. A tradição foi seguida com apoio da seguridades social em contribuições, e uma forte correlação entre ganhos no mercado de trabalho, contribuições e benefícios monetários a serem auferidos nas várias possíveis contingências (idade, doença, morte, desemprego), preservando os diferentes status presentes no mercado de trabalho. Ao fim da primeira legislatura a Alemanha retoma a liderança na política social europeia, com quase 20% do produto interno líquido destinado à seguridade social social (Grã-Bretanha 12,5%; Suécia 13,5%) – um dado significativo, mesmo considerando o número elevado de beneficiários devido à guerra e um produto nacional comparativamente baixo (Hockerts, 1981), o que tornava os benefícios inadequados e deixava muitas lacunas.³

A socialdemocracia também produziu um plano próprio para reformar a política social alemã, em 1952. Esse plano foi fortemente influenciado pelo Relatório Beveridge, numa curiosa “autoinfluência”, na medida em que um de seus mentores, Walter Auerbach, foi também um dos consultores de Beveridge na formulação do plano inglês quando se achava imigrado em Londres. Outra influência identificada é a da política social sueca e da conferência de Philadelphia, de 1944, da Organização Internacional do Trabalho. O plano propugnava o universalismo e a uniformização da cobertura, como políticas de garantia de renda que visavam a eliminação da pobreza, preocupação de resto compartilhada com o plano democrata cristão. Mas, no espírito do relatório britânico, introduzia novas responsabilidades públicas (frente à tradição de política social alemã), as “pré-condições”, para o sucesso da política social: Uma política econômica que promovesse o pleno emprego, a provisão abrangente de saúde e serviços de reabilitação para o trabalho, e  provisão de prestações familiares (child allowances).

Ademais, a socialdemocracia propunha que se pudesse acumular por sobre os mínimos nacionais iguais da seguridade universal benefícios relacionados aos ganhos, que seriam financiados por contribuições, como no modelo sueco. Esse debate permite singularizar a divergência de pontos de vista doutrinários: a política social defendida pela democracia cristã tinha uma natureza mais passiva e compensatória e, em particular, não era motivada pela ideia de correção da distribuição de renda e bem-estar gerada pelo mercado. Hockerts (1981) observa que a democracia cristã era campeã de valores como iniciativa privada, incentivos à responsabilidade individual pela própria segurança, e limitada intervenção do estado na vida econômica e social. O plano do partido socialdemocrata, em linha com o trabalhismo britânico e a socialdemocracia sueca, em contraste, pressupõe um papel também ativo para a política social, por exemplo, na promoção do pleno emprego, e não apenas na compensação por desemprego, e uma função preventiva, não apenas compensatória, ao por exemplo, promover o aumento da capacidade de trabalho (p. ex. provisão de saúde e programas de reabilitação) e impulsionar a demanda de consumo ou estabilizá-la em momentos de crise e ao longo da vida das pessoas.

Aparentemente estaríamos confrontando dois modelos, um baseado na maximização da responsabilidade individual, outra na maximização da responsabilidade pública. Contudo, a distinção é mais sutil. Uma proposta encomendada por Adenauer no anos 1950, antes da grande reforma da previdência Alemã de 1957, revela o acolhimento parcial do paradigma britânico de prevenção e reabilitação, e no geral, o reconhecimento de que o sistema econômico tal como organizado engendra custos sociais (linguagem muito utilizada por Richard Titmuss, um dos mais importantes personagens da política universalista britânica do pós-guerra) que precisam ser neutralizados. Há muitos contatos entre especialistas alemães envolvidos no projeto e especialistas alemães envolvidos no projeto e especialistas ingleses afinados com a reforma Beveridge, e vantagens e desvantagens são reconhecidas no plano britânico: entre as primeiras, a simplicidade e a praticidade, os princípios da prevenção e reabilitação; entre as últimas, os benefícios muito baixos e o desenvolvimento de um welfare ocupacional (no qual empresas pagam por benefícios diferenciais para seus trabalhadores, em adição à pensão básica universal). Na linha da prevenção, o grupo tende a aceitar a tese geral de Beveridge de que o Estado tem de se envolver na garantia das “pré-condições”: garantir o direito ao trabalho, adotar uma visão produtivista das políticas sociais, incluir as prestações familiares (para prevenir a pobreza infantil e das famílias) que não tinham lugar cômodo em um sistema baseado exclusivamente no “problema do trabalhador”, ou seja, a perda eventual da capacidade de trabalhar. A despeito da proposta do grupo de especialistas montado por Adenauer encontrar fortes resistências na democracia cristã e de consequentemente não ter sido encampada, foi no contexto do debate que seguiu que emergiu o princípio de subsidiariedade, para esclarecer o escopo e o limite da intervenção do Estado apoiada por este grupo político.

 Em 1957, Adenauer faz aprovar a grande reforma da previdência alemã. A reforma é grandiosa, representando forte correção dos benefícios e a introdução das chamadas “aposentadorias dinâmicas” que são reajustadas de modo a alinhar os padrões de vida do trabalhador quando inativo com os que obtinha quando ativo. A Alemanha confirma a posição de liderança europeia na política social (em níveis de gasto social, contribuições e benefícios), tendo sido mais bem sucedida que a Grã-Bretanha em afastar o fantasma da pobreza na velhice, por meio da promoção de uma vasta redistribuição horizontal (entre ativos e inativos,), do reforço do status e ao desempenho. A Inglaterra contava então com benefícios igualitários que mal cobriam o mínimo de subsistência e acabavam criando fortes desigualdades (entre ativos e inativos, e entre inativos com pensões ocupacionais e com pensões públicas). O fluxo migratório então se inverteu, sendo a Alemanha o novo destino dos especialistas ingleses interessados em entender o novo sistema e as causas de seus sucesso.

[…] A grande reforma de 1957 se assentou no princípio da subsidiariedade. Em termos estritos, este princípio que remonta à doutrina social católica, quando transposto para o estado social assenta a intervenção deste na noção de que sua principal função é garantir que os diferentes órgãos sociais inferiores, que se localizam entre o indivíduo e o Estado, possam eles próprios assumir as responsabilidades por sua própria condição, e que haja harmonia entre esses órgãos a fim de que seja mantida a ordem do todo, uma ordem orgânica natural. A intervenção do Estado deverá ser sempre subsidiária, o último recurso quando falham os demais, mas é central na produção ou no fortalecimento de “comunidades”, e claramente é essencialmente “social” na produção/reprodução de solidariedades e sociabilidades. Esse princípio se assenta em uma teoria social segundo a qual a sociedade é uma amálgama de grupos ou corpos sociais dentro dos quais os indivíduos devem florescer como pessoas, isto é, seres que só fazem sentido dentro de um grupo social que a eles atribui funções e papeis. Firmas, associações, sindicatos, famílias, são alguns desses grupos. O mais importante é a família, no seio da qual se desenvolvem trabalhadores e empregadores, que deverão cooperar no mercado, e cuidadoras, que se responsabilizarão pelos dependentes e cultivarão os laços comunitários da vizinhança; A política social fortalece o grupo, este cuida do indivíduo (Van Kersbergen, 1995).

Enquanto a chamada grande tradição católica vaticanista, tendo evoluído para uma compreensão da questão social como engendrada pelas próprias relações econômicas e sociais, sustentava à época que o principal esteio do pobre é a obrigação da caridade do cristão, a democracia cristã europeia desenvolve uma “pequena tradição” que, reconhecendo a origem da questão social nas economias de mercado, assinala um papel importante para o Estado, dada a escala do problema. Esse papel, contudo, se realiza no reforço ás comunidades (e seus vínculos) em sua capacidade de autoproteção e não na provisão direta de serviços. Nas condições capitalistas, em que o sustento dos trabalhadores depende da remuneração que obtém no mercado de trabalho, é fundamental que a remuneração seja adequada e que o homem e sua família tenham sua existência digna atendida de modo suficiente por esses ganhos. Na incapacidade de trabalhar, deve o trabalhador e sua família poder contar com benefícios monetários que emanem de fundos de seguro coletivamente organizados por meio de seus vínculos com o emprego e o ramo de ocupação – o acúmulo desses fundos e sua administração devem ser organizados autonomamente pelos parceiros na cooperação social, trabalhadores e empregadores. Apenas na ausência desses corpos sociais é que cabe ao Estado prover assistência direta. Mas, ele deve arbitrar as relações sociais de modo a garantir a eficácia destes como provedores em primeira instância de bem-estar. A propriedade privada, que separa, na produção, capitalistas e trabalhadores, é concebida como natural (e não histórica e objeto de contestação), mas junto com o direito a ela o proprietário contrai a obrigação de desenvolver relações justas com seus trabalhadores, de quem depende para os seus ganhos, do mesmo modo que aqueles que dependem destes, e o estado é o fiador dessas relações equilibradas. Nesse sentido ele estimula o desenvolvimento de grupos industriais, no interior dos quais trabalhadores e empregadores arbitram conjuntamente a gestão de negócios, em um processo conhecido como co-determinação. […] A seguridade social estatutária, erigida como principal política social do estado subsidiário, cuida de fornecer cada órgão social em sua capacidade de satisfazer as responsabilidades que lhes são próprias (e não de garantir a cada indivíduo direitos sociais individuais): fazê-la recair em contribuições de trabalhadores e empregadores, reforçando a responsabilidade de grupos industriais por seu membros, fazer recair sobre a unidade familiar na pessoa de seu chefe a responsabilidade de prover a subsistência de seus membros (por meio de seus proventos, quando ativo, e de sua aposentadoria e pensão quando inativo e não mais presente), o que inclui suas necessidades de consumo de bens e de serviços, e sobre sua esposa a responsabilidades pelos cuidados domésticos. A inclusão de “prestações familiares” nesse sistema foi equacionada com base na responsabilização dos empregadores (suas contribuições), organizados em ramos industriais, que dessa forma organizam fundos e governança.

Em particular, a seguridade social subsidiária é obediente aos princípios da justiça distributiva (como o princípio da equivalência entre benefícios e contribuições), mas não a princípios de justiça redistributiva pelos quais os indivíduos com ganhos maiores devem subsidiar melhores ganhos para os com menores recebimentos. As desigualdades são entendidas como naturais, corolários da ordem orgânica, constituída da harmonia entre distintos corpos sociais, com capacidades e desempenhos diferentes, porém todos igualmente necessários. Essas diferenças devem ser preservadas e reconhecidas no status social diferenciado (Van Kersbergen, 1995).

 

O princípio da subsidiariedade faz fronteira de um lado com o Estado minimalista, voltado principalmente para políticas assistenciais financiadas por impostos e providas apenas para pobres meritórios, e sua crença na capacidade de economias de mercado proverem bem-estar, de outro, com o Estado provedor de tipos social-democrata ou baseado em planejamento central. Há rejeição explícita do laissez faire e a concepção de que uma economia de mercado tem de estar enraizada social e moralmente, porém há limites claros ao protagonismo do Estado indicados por sua função subsidiária. O contraste foi inicialmente com um Estado planejador do tipo socialista, mas no debate com a socialdemocracia, foram rejeitadas também as funções “keynesianas” do Estado, como seu papel eventual na promoção do emprego(Essa rejeição, pode-se adiantar, foi em grande parte facilitada pelas circunstâncias peculiares da sociedade de crescimento do pós-guerra europeu, onde o desemprego era uma preocupação apenas eventual e as desigualdades não chegavam a se configurar em ameaças para outras dimensões da vida social.)


¹ Doutor em Economia pela UFRJ.

² Mestre em Economia pela UFRJ e Ph.D. em Ciência Política (European University Institute).

Os artigos aqui republicados têm a única finalidade de divulgar ideias e os trabalhos originais. Para maiores informações procure os originais nos sites, livrarias e sebos credenciados aos autores e editoras.


Rothbard: Contradições acerca dos monopólios.

Texto traduzido de artigo originalmente postado em Social Democracy in 21st century

Rothbard tinha uma postura curiosa diante dos cartéis e oligopólios. Rothbard admitia a possibilidade de monopólios e cartéis surgirem num mercado completamente livre, e defendia suas existências nessas circunstâncias:

 

“Até agora, temos estabelecido que não há nada de “errado” com preços monopolizados, seja por uma empresa ou quando Instituído por um cartel; De fato, o preço que o mercado livre (sem interferência de violência ou ameaça de violência) estabelecerá será o “melhor” de preços.” (Rothbard 2009: 661).

Ainda, uma vez que um monopólio ou cartel será um formador de preços, seria um disparate falar sobre preço monopolizado sendo o preço que o “livre mercado estabelece.” A acusação de que Rothbard apresenta um duplo padrão no monopólio também foi feita pelo L. E. Hill (1963). A visão rothbardiana deve ser colocada dentro do contexto das concepções austríacas acerca de um monopólio:

 

“Uma vez que as teorias econômicas de Rothbard estão geralmente dentro da tradição econômica austríaca, poderia ser útil para comparar sua posição no monopólio com os de Ludwig von Mises e Israel M. Kirzner. Mises declarou que monopólio poderia existir em um mercado livre sempre que toda a oferta de uma mercadoria fosse controlada por um vendedor ou grupo de vendedores que agem em conjunto. Tal situação não é necessariamente prejudicial, a menos que a curva de demanda pela commodity fosse inelástica. Em seguida, de acordo com Mises, o monopolista teria um incentivo perverso para restringir a produção e criar um preço de monopólio, e esse preço seria “uma violação da supremacia dos consumidores e à democracia de mercado. ‘Kirzner sugeriu que a posse de um monopólio de algum recurso poderia ter “efeitos nocivos”, uma vez que criaria um incentivo por parte do proprietário do recurso para não empregar o recurso de ‘toda a extensão compatível com o padrão de consumo disponível no mercado.” (Armentano 1988: 7).

Rothbard rejeita a definição de monopólio como o controle absoluto do suplemento de uma commodity, e pensa que não há diferenças entre preços de mercado e preços monopolizados. Na página 662 (edição inglesa) de “Man, Economy, and State”, Rothbard se compromete em uma tortuosa e profundamente inconvincente tentativa de negar qualquer diferença entre o pequeno produtor num mercado competitivo e uma enorme corporação com muitos meios de distribuição da produção. A definição eventual de Rothbard dos monopólios apenas como um direito de produção exclusiva garantido pelo Estado à alguma entidade é um truque de malabarismo que o permite argumentar que um “monopólio nunca surgirá num livre-mercado” (Rothbard 2009: 670).

 

Mais ainda, a visão de Rothbard é inconsistente, desde um ponto qualquer sua visão é que os livres mercados são superiores precisamente porque os consumidores fixam os preços:

“No livre-mercado, consumidores podem ditar os preços, e logo assegurar a melhor alocação dos recursos produtivos para suprir suas demandas. Numa empresa pública isso jamais poderia ser feito.” (Rothbard 2009: 1261).

Mas, se nos mercados desregulados, cartéis, oligopólios e monopólios podem se desenvolver em produtores do mercado, e os preços das commoditties foram fixados pelos administradores, e não pela dinâmica da relação oferta e demanda, então é óbvio que os consumidores não estão ditando os preços. De acordo com a argumentação de Murray N. Rothbard aqui, livres mercados totalmente desregulados não assegurariam necessariamente a melhor alocação de recursos, com cartéis e oligopólios presentes. Claro que alguém que leu uma literatura especializada dos departamentos de economia das universidades, alguém que estuda a realidade de como os preços são criados, sabe que empresas preferem preços estáveis à instabilidade da flutuação e da guerra de preços. No mundo real, são as grandes corporações que fixam os preços através de mark up, não os consumidores. A fixação dos preços tem aspectos negligenciados pelos ideólogos do mercado totalmente desregulado e pelos libertários. Há outra crítica que pode ser feita. Rothbard alega que os mercados livres tendem ao equilíbrio, mesmo se eles não estiverem num estado de equilíbrio:

 

“Rothbard presume que em mercados individuais, a lei do preço único domina, e que a compensação de mercado acontece de forma rápida e sem problemas (124). Como numa convencional economia neoclássica, o equilíbrio geral, era essa a direção para qual a economia estava indo uniformemente. A difusão da mudança tornou improvável que uma economia jamais iria conseguir o equilíbrio geral de preços, mas, no entanto, como um cão perseguindo um coelho mecânico, pelo menos, poderia explicar o sentido da mudança (274). Ainda assim, Rothbard alertou contra levar o equilíbrio muito a sério, dado o mundo de constantes mudanças em que vivemos, foi, no entanto, sua a suposição de que os mercados se ajustam rapidamente às novas posições de equilíbrio. De fato, sua justificativa para a eficiência de base dos mercados era que “os empresários vão ser muito rápidos para deixar a indústria do perdedor”’quando erros são cometidos.” (Vaughn 1994: 97).

Um dos elementos que causam supostamente a eficiência de base de mercados é a flexibilidade de preços. Mas, com o reconhecimento de Rothbard que os cartéis e monopólios poderiam surgir em um mercado livre e fixar preços, não há, na verdade, a menor probabilidade de flexibilidade de preços e de equilíbrio do mercado. Rothbard não explica como uma sociedade anarco-capitalista iria lidar com os monopólios coercitivos decorrentes dos mercados totalmente livres.

Um exemplo perfeito de como um mercado competitivo em um sistema anarco-capitalista pode entrar em colapso em um monopólio coercitivo é o setor de proteção e policiamento. Empresas de proteção privadas, de fato, teriam um incentivo para vitimizar consumidores potenciais para aumentar sua quota de mercado. Violência do tipo a que ocorre entre mafias. Um monopólio natural provavelmente se desenvolveria como uma das mais ponderosas firmas a empurrar os competidores para for a do negócio (ou ainda um cartel poderia se tornar dominante), o que resultaria em essência em um estado, o mesmo que o anarcocapitalismo procurava destruir.

BIBLIOGRAFIA

Armentano, D. T. 1988. “Rothbardian Monopoly Theory and Antitrust Policy,” in W. Block and L. H. Rockwell (eds), Man, Economy, and Liberty: Essays in Honor of Murray N. Rothbard, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala. 3–11.

Heck, V. C. 1963. “Review of Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State,” American Economic Review 53.5: 460–461.

Holcombe, R. G. 2004. “Government: Unnecessary but Inevitable,”Independent Review 8.3: 325–342.

Hill, L. E. 1963. “Review of Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State,” Southern Economic Journal 29.3: 252–254.

Rothbard, M. N. 2009. Man, Economy, and State, with Power and Market: The Scholar’s Edition, Ludwig von Mises Institute, Auburn, Ala.

Vaughn, K. I. 1994. Austrian Economics in America: The Migration of a Tradition, Cambridge University Press, Cambridge and New York.

 

Nacionalismo, Conservadorismo keynesiano, Tradicionalismo, Distributismo, Trabalhismo cristão.

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